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14.11.11

Bósnia - Portugal: opinião e estatística

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- 0-0, é um bom ou um mau resultado? A resposta, parece-me, é... não. Este era o desfecho que menos afectava teoricamente o favoritismo atribuído à partida. Portugal continua a ser favorito, mas não é significativamente mais do que era. Se 0-0 é melhor para Portugal ou para a Bósnia? A isso já não sou capaz de responder. A dúvida passa por saber se o peso do misterioso mas irrefutável factor casa é suficiente para desfazer a desvantagem de não se poder empatar para garantir o apuramento. Independentemente da opinião de cada um, o mais interessante seria ter resultados concretos sobre o que o passado nos diz a respeito disto. Infelizmente, para já não os tenho...

- Outra pergunta: Portugal merecia ganhar? O lado português tende a afirmar que sim, que jogou melhor e que merecia algo mais. É verdade que Portugal levou a melhor no domínio de grande parte do jogo, mas também me parece inegável que do ponto de vista ofensivo isso se traduziu em pouco. Ou seja, do mesmo modo que Portugal se pode lamentar de não ter marcado numa ou noutra ocasião, também os bósnios poderão reclamar para si essa possibilidade, porque a tiveram. Copo meio cheio ou meio vazio? Cada um verá como quer. O que me parece claro é que, com o 0-0 e como o próprio jogo da primeira mão bem o demonstra, Portugal está cada vez mais vulnerável do detalhe para definir um apuramento que se devia exigir com muito mais conforto. Agora, tudo pode depender de uma inspiração, de um erro, ou mesmo da sorte.

- Indo mais concretamente ao jogo, convém realçar que o relvado teve mesmo uma importância assinalável no jogo, e mesmo na abordagem das equipas. Pouca capacidade de ligar o jogo, muitas ligações directas e grande importância para os duelos físicos e para o jogo de antecipação. Portugal esteve muito bem durante boa parte do tempo. Pressionou a primeira linha, não facilitou a construção, potenciou o erro, e depois, lá atrás, contou com a presença de Bruno Alves e Pepe, muito fortes no controlo do jogo directo. Menos bem, na ligação do seu jogo ofensivo, porém, e isso terá sido o factor que impediu Portugal de chegar à vitória.

- Defensivamente, Pepe, claro, é o grande destaque. Reconheça-se algumas abordagens menos cuidadas, mas a qualidade de Pepe, a sua capacidade para antecipar dentro ou recuperar nas costas, isso é inquestionável e não tem a ver com estilo ou gostos pessoais. É um fora de série e Portugal, obviamente, ganhou imenso com a sua presença. Ao seu lado, Bruno Alves esteve também muito bem, sobretudo no jogo aéreo, mas Bruno Alves tem limitações que Pepe não tem, quer na recuperação, quer no acompanhamento da marcação até zonas mais interiores. Amanhã tentarei trazer algumas jogadas da Bósnia, que retratam alguns cuidados a ter, mas este é um primeiro ponto de vulnerabilidade que me parece claro: a possibilidade de Bruno Alves ser atraído para fora da sua zona. Nas laterais, ambos tiveram nos momentos de maior dificuldade, mas João Pereira conseguiu ter uma presença muito mais positiva e regular durante o jogo. Coentrão, desta vez, ficou aquém do muito que pode. Quem sabe se venha a refazer no segundo jogo...

- A grande novidade de Paulo Bento, veio da composição do meio campo. Porquê a aposta em Veloso? A meu ver, estará primeiramente relacionada com Meireles e a sua menor disponibilidade para fazer um jogo nos limites da agressividade, devido ao cartão amarelo que não poderia ver. E, de facto, Meireles esteve abaixo do que normalmente rende, parecendo sempre condicionado nas suas abordagens. Mas Veloso tinha também duas outras virtudes. Está habituado a jogar naquela posição, mais defensiva, e gosta da construir de forma mais longa, algo que iria fazer parte da estratégia. Houve algumas dificuldades no ajustamento posicional dos médios (voltarei a este tema...), mas creio que Veloso cumpriu bem o seu papel a esse nível. No entanto, tenho algumas dúvidas sobre a sua resposta em termos de intensidade e agressividade defensivas, algo que me parece ser muito importante para a posição específica. É, ainda assim, um forte candidato como melhor complemento para Moutinho e Meireles...

- Na frente, o talento de Nani e Ronaldo, apesar do esforço, não foi suficiente. Aquilo que me parece mais discutível, porém, é a presença de Postiga. Muito discutível, mesmo. Não por não ter marcado, nem por ter uma capacidade concretizadora baixa (apesar de tudo, parece atravessar um bom momento a esse nível), mas... o que realmente esperava Paulo Bento de Postiga neste jogo?! Iria ser um jogo de grande exigência física, e Postiga tem um registo péssimo a esse nível. O jogo frente à Dinamarca, aliás, deveria ter servido de exemplo conclusivo para esta questão. É impossível saber o que seria o jogo com Hugo Almeida de inicio, mas é também evidente que a presença de Postiga foi tudo menos um valor acrescentado. A principal critica não tem a ver com a baixa utilidade do avançado, mas com a facto de isso ser altamente previsível, à priori...
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17.10.11

Dinamarca - Portugal: algumas jogadas importantes...

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Conforme planeado, recupero hoje algumas jogadas do Dinamarca-Portugal. Como sempre, o objectivo não é procurar culpabilizações, mas reflectir sobre algumas situações que me parecem justificar correcção. Aqui fica a minha análise:

3' - O ponto sobre este livre lateral tem a ver com o posicionamento da cortina defensiva. Notoriamente, Portugal tenta estabelecer a sua fronteira de posicionamento perto da linha de grande área, mas no momento em que a bola é batida já essa linha está uns bons metros dentro da área (receio?). A consequência é que o objectivo de oferecer ao guarda redes uma margem de protecção não é conseguido e o cruzamento acaba por encontrar o pior dos cenários, com vários jogadores com possibilidade de desviar mesmo à frente da baliza.


6' - Os indícios sobre os problemas de controlo português em organização defensiva, viram-se cedo. Esta fase de circulação de bola da Dinamarca é um excelente exemplo. A bola circula dentro do bloco português, que embora curto não consegue evitar sucessivas mudanças de corredor, obrigando a equipa a constantes ajustamentos laterais. Não adoptando, estrategicamente, uma postura muito agressiva em profundidade, era fundamental que Portugal fosse forte no espaço que definiu para pressionar, sobretudo na pressão lateral. Aqui, destacaria o movimento de ligação entre os centrais através do pivot, que se repetiu algumas vezes, com a presença pressionante a não ser eficaz...

12' - O golo é uma consequência dos problemas do ponto anterior. A bola entra num corredor mas isso não a impede de circular com rapidez e segurança até uma situação de 1x1 no flanco oposto. A imagem parada pretende mostrar o momento em que Moutinho inicia o movimento de pressão sobre Kjaer. Nesse instante, o restante bloco não o acompanha na mudança de atitude, vendo-se bem essa falta de sintonia no posicionamento de Martins, que está ainda a recuar quando Moutinho parte para uma postura mais pressionante. A consequência é a liberdade do pivot (Zimling), que fica com tempo para receber e virar. Mais à frente, o mesmo problema com Bendtner, que oferece o apoio vertical sem pressão. Na minha leitura, estes são os dois apoios fundamentais para o desequilíbrio que é gerado. Aliás, repetiram-se as dificuldades para pressionar, quer o primeiro médio, quer as acções de Bendtner para fora do seu espaço...

24' - Situação estranha, com o movimento de Meireles a ser difícil de compreender, em sentido contrário à subida do bloco e colocando toda a gente em jogo. Já com a Islândia, o segundo golo vem de uma falta de concentração idêntica, no caso de Moutinho...

62' - A nota mais importante vem após a perda, mas não quero deixar de começar pelo bom condicionalismo dos dinamarqueses à posse portuguesa, quer pela neutralização de Meireles, quer, depois, pela boa presença que conseguiam no corredor da bola, durante todo o jogo. De todo o modo, esta transição, na zona em que aconteceu, e com o equilíbrio que Portugal tinha, nunca deveria ter tido tamanha consequência. Para reagir à perda, Portugal fica apenas com Meireles e Ronaldo na zona da bola. Meireles faz, a meu ver correctamente, uma tentativa de manter a bola no mesmo corredor, mas Ronaldo tem uma atitude péssima, não fechando o espaço e permitindo que Eriksen ficasse com tempo e espaço para receber, virar e encarar a linha defensiva portuguesa. Depois, pode-se discutir muita coisa sobre o comportamento da linha defensiva (que teve muitos problemas, diga-se), mas a partir do momento em que o jogador tem o espaço para pensar, de frente, a jogada, tudo fica muito complicado...

84' e 85' - Estas duas jogadas, já no final do jogo, tentam mostrar que o problema português nunca foi a exposição imediata no momento de transição, mas muito mais a qualidade com que (não) se apresentou em todos os momentos defensivos, seja em organização ou transição. Em particular, de novo, a falta de pressão que condicionasse o jogador que recebia a bola (normalmente Bendtner) foi sempre uma grande condicionante. Há também, e reforço outra vez a ideia, um grande mérito dos dinamarqueses, quase sempre lúcidos e inspirados em todas as acções, mas do ponto de vista português, este jogo mostrou vários pontos para Paulo Bento reflectir, e nenhum me parece que tenha ver com a exposição posicional após o 2-0...
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5.9.11

Chipre - Portugal: opinião

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- Começo pelo cenário que se vai definir após o Dinamarca-Noruega. É um jogo que vai marcar, forçosamente, um desempate no aproveitamento pontos/jogos, nas 3 selecções que lideram o grupo de Portugal. Entre todos os resultados possíveis, diria que o melhor para as nossas cores será a vitória da Dinamarca. Dando força ao provável (não certo) cenário de que as 3 equipas vencem os seus jogos frente às restantes equipas do grupo, esse seria o enquadramento que permitiria a Portugal, salvo uma impensável catástrofe, garantir pelo menos 1 lugar no play-off. O empate será o resultado mais perigoso, porque põe Portugal com risco de ficar de fora dos 2 primeiros, em caso de derrota na Dinamarca. Se a Noruega vencer, por outro lado, Portugal mantém o risco de perder 1 dos 2 primeiros lugares, caso perca na Dinamarca por 2-0, por exemplo, e pode ver-se obrigado a vencer em Copenhaga para garantir o primeiro lugar. O meu palpite vai para a vitória da Dinamarca, no jogo com os noruegueses, com um último jogo onde se discutirá a utilidade do empate para as 2 equipas, já que há uma forte hipótese deste grupo vir a ser o “premiado” com o acesso directo do melhor segundo. Veremos...

- Entrando no jogo, começo por falar na oposição, e no grau de dificuldade que Portugal teve pela frente. Esta selecção do Chipre não me parece tão fraca tecnicamente quanto os seus resultados sugerem. Aliás, pelo que se viu, pode considerar-se a expulsão como muito importante, já que o Chipre acabou por se ver sem forças, num período em que Portugal deu boas condições para ser surpreendido. Mas, o que me parece que facilitou realmente o jogo português, foi a má organização defensiva dos cipriotas, particularmente na sua incapacidade para manter um bloco mais agressivo sobre a primeira linha de construção portuguesa, permitindo que Portugal entrasse facilmente, com bola, no meio campo contrário, assim que mudava o ponto de saída. Isto não garantiu a Portugal uma grande proximidade com o golo, mas permitiu-lhe diminuir o risco da perda, e instalar-se confortavelmente no meio campo contrário.

- Parece-me haver, na fase de construção, algum trabalho a fazer. Sobretudo, e porque neste jogo o Chipre facilitou o primeiro passe, a ligação com o último terço. Parece-me ter havido, da parte de Portugal uma tentativa de utilizar duas abordagens distintas. Enquanto que na primeira parte, os médios tiveram uma presença mais próxima mais constante na segunda fase, deixando o inicio de construção mais a cargo de centrais e laterais, na segunda, pareceu-me haver uma tentativa de trazer os médios deliberadamente para a construção, lançando os laterais para posições mais profundas e pedindo deles uma influência maior numa segunda fase. Esta tentativa (que, repito, é uma interpretação pessoal), associada a uma falta de capacidade para introduzir movimentos que ligassem o jogo, acabou por ser prejudicial. Ao baixar os médios, a selecção atraiu também o bloco cipriota para zonas um pouco mais altas. Se tivesse sido bem sucedida nos tais movimentos de ligação, isto poderia ter sido benéfico para encontrar espaços. Assim, como não houve, acabou apenas por dificultar ainda mais a progressão da equipa nacional. O que valeu, a certa altura, foi o facto do Chipre se ter, entretanto, acumulado em zonas demasiado baixas para que pudesse representar qualquer ameaça em transição. Mas, noutro cenário, o risco poderia ter sido outro.

- Mantenho-me na fase de construção, e nesta questão das dinâmicas para iniciar algumas reflexões. Portugal tem todas as condições para ter uma presença forte em posse. Tem a capacidade de passe de Bruno Alves, a atractividade com bola que Pepe não tem receio de fazer, a dinâmica notável dos 2 laterais, a ameaça dos extremos na segunda linha, e as característica do critério, forte em quase todos os médios. Dentro de tantas soluções, a única coisa que é preciso, é escolher uma via, porque não se pode ter todas ao mesmo tempo. Parece-me claro que Moutinho, sendo um jogador mais forte em construção do que numa segunda fase, pode perfeitamente baixar para receber, como faz actualmente no Porto. Do mesmo modo, quer João Pereira, quer Coentrão são armas fortíssimas, mas sobretudo numa segunda fase da construção. Ou seja, parece-me fazer sentido lança-los mais na profundidade, aproveitando movimentos internos dos extremos. Mas é preciso que estes movimentos saiam melhor do que têm saído.

- Passo para a questão dos médios. Sou da opinião de que Micael será a melhor alternativa dentro das soluções apresentadas. Mas, ainda assim, gostaria de ver Meireles noutra linha. Porque o seu jogo tem maior amplitude, sendo muito forte nos movimentos sem bola que consegue no último terço. Muito mais forte do que Micael ou Moutinho, jogadores de “bola no pé”. O problema é que Veloso como “pivot” retira uma capacidade de recuperação enorme, nomeadamente em transição, como, a meu ver, se notou a partir da sua entrada. O ideal seria ter 2 Meireles, como não há, Paulo Bento terá de encontrar, ou outras soluções individuais, ou (e este é o caminho mais inteligente) uma melhor definição colectiva, que potencie as características de cada um.

- Há, no jogo de Portugal, um espaço que me pareceu desprezado em relação à intencionalidade de aproveitamento. O espaço “entrelinhas”. Dir-se-á, e é óbvio, que não simples explorar esse espaço, normalmente “super povoado” pelas defesas contrárias. O ponto é que não me pareceu haver sequer intencionalidade de fazer esse aproveitamento, sendo, até, algo contra producente os movimentos de Postiga pelo corredor central, acabando por atrair gente para essa zona, em vez de a libertar. E passo, precisamente, para a questão do avançado...

- Paulo Bento insiste em Postiga, e percebeu-se a sua intenção em procurar que este jogador fosse parte da solução para a construção, através de movimentos de aproximação ao longo do corredor central. É algo que tenho discutido e reparado nos últimos tempos, e parece-me que este tipo de movimento pode não trazer grande benefício à equipa, se não tiver o enquadramento correcto. Primeiro, porque exige muito do avançado, e Postiga não apresenta um grande aproveitamento nessa tarefa. Depois, porque sem movimentos complementares nas costas, acabam por ser movimentos que promovem densidade no espaço entrelinhas. Ou seja, no final de contas, não se vislumbra grande proveito prático. Depois, e em relação a Postiga, sou da opinião que a sua utilidade é muito escassa no corredor central, seja baixando, seja na frente de área. Onde os seus movimentos me parecem, de facto, fortes, é nos corredores laterais, criando apoios que ajudam a equipa a vir para dentro e não ficar presa à solução do cruzamento largo. O problema, é que Paulo Bento não lhe pede esses movimentos, por ser o único avançado do modelo, perdendo assim aquela que me parece ser a característica mais forte do jogador. Se não é para potenciar esta característica de Postiga, a meu ver, não se justifica a sua presença. Sou da opinião que mais valia, ou restrigir a acção do ponta de lança a zonas mais curtas e de maior contacto, usando Almeida, ou dar-lhe largura, criando um falso “9”, usando Danny, por exemplo. A solução de Almeida é, claro, aquela que é mais fácil de implementar.
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10.2.11

Argentina - Portugal: Análise e números

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Tal como escrevi ontem, estes jogos, apesar de amigáveis, ficam bem vincados no registo histórico. É aí que começa o sentimento de alguma frustração pela derrota averbada. Uma frustração que se justifica também pelas outras conclusões do jogo. Ou seja, Portugal pode ter defrontado uma das potências do futebol mundial, mas não se mostrou inferior ou com menos possibilidades de poder sair vencedor. Pelo contrário, aliás, creio que mostrou mais qualidades do que o seu adversário. Mais consistência colectiva e menos dependência da sua “estrela”. Messi, de resto, é um personagem fundamental na história do jogo, e não pela penalidade decisiva.

Notas colectivas
A “nuance Messi” começou por marcar o jogo e definiu, também, o único período em que Portugal não foi melhor no jogo: a primeira meia hora.

Messi apareceu a jogar como falso “9”, partindo do meio dos centrais, mas raramente jogando perto destes. Ou seja, ao baixar, Messi criou um problema zonal ao bloco português. Os centrais ficavam sem referência de marcação e o meio campo com uma constante desvantagem numérica, um problema agravado pela qualidade de Messi sempre que tinha a bola. O que fazer?

A resposta é simples. Encurtar os espaços entre sectores, particularmente entre a linha média e a mais recuada. Portugal não o fez imediatamente e, por isso, sentiu algumas dificuldades em controlar os espaços dentro do seu bloco nos primeiros 30 minutos. Quando juntou mais as linhas, Messi teve de baixar progressivamente no campo, recuando para zonas onde o seu protagonismo não tem a mesma consequência.

Aqui, há outro aspecto a abordar, e onde creio que Portugal não esteve tão bem: o pressing. Não era muito fácil, perante o “problema Messi”, subir a linha média para pressionar, mas era importante definir uma zona pressing agressiva e organizada, que diminuísse o tempo de decisão à primeira fase de construção contrária, até pela características incisiva dos extremos – Di Maria e Lavezzi – fortes no aproveitamento das costas. Portugal melhorou na segunda parte, onde subiu linhas com mais critério e menos compromisso dos espaços interiores, mas não teve a agressividade do jogo com a Espanha, por exemplo.

Tudo somado, Portugal perdeu o jogo por algum défice de concentração na recta final, mas foi na parte inicial que menos conseguiu controlar a estratégia argentina. Assim que corrigiu comportamentos e retirou espaço a Messi, Portugal foi claramente a melhor equipa, mais organizada e clarividente em termos tácticos e, também, mais próxima do golo.

Perdemos mas, em definitivo, esta parece-me uma equipa com sérias possibilidades de discutir o título europeu.

Notas individuais
João Pereira – As atenções mediáticas estavam centradas do outro lado do campo, em Coentrão, mas foi João Pereira quem arrancou mais uma excelente exbição. É um grande lateral, com algumas lacunas, é certo, mas não me parece que haja muitas Selecções com alguém melhor do que ele na sua posição.

Coentrão – Não foi, de facto, o melhor jogo para demonstrar o seu valor. Di Maria e Zanetti são um corredor duro de enfrentar. Coentrão bateu-se bem, mas não conseguiu o protagonismo habitual. A pintura, porém, só ficou mesmo borrada no último minuto.

Meireles – Tinha feito um grande jogo com a Espanha e neste não se pode apontar-lhe nada em termos de atitude e entrega. Acontece que foi uma das grandes vitimas da tal liberdade de Messi. Teve sempre mais do que um jogador a cair na sua zona e isso condicionou-lhe a acção de forma determinante. Para mais, acabou por cometer alguns erros invulgares em posse na segunda parte. Note-se, porém, que é um médio de grande qualidade e um indiscutível da Selecção, seja em que posição for do meio campo. A sua valia, aliás, fica bem clara na rapidez com que se impôs no Liverpool.

Hugo Almeida – Todos lhe apontarão o dedo pelos 2 golos que falhou – particularmente o segundo. No entanto, Hugo Almeida teve uma acção preponderante em termos ofensivos. Teve em todos os desequilíbrios da equipa, fez 1 assistência e ainda enviou 2 bolas à barra. Outro aspecto onde esteve bem foi no domínio das primeiras bolas. É importante, porém, que haja um melhor aproveitamento da equipa no posicionamento das segundas bolas, porque poucas foram as vezes em que as suas acções, nesse capítulo do jogo, tiveram consequência.

Messi vs Ronaldo – Aparentemente será um disparate valorizar este duelo. Em termos práticos, porém, a história diz-nos que não é assim. Um particular entre Argentina e Brasil dos anos 80 tem interesse por causa de Zico e Maradona. Nos anos 60, Brasil e Portugal poderiam jogar “a feijões”, que Pelé e Eusébio seriam sempre um ponto de interesse. Se há motivo pelo qual este jogo pode ser relembrado no tempo, é por este duelo e nada mais.
Messi terá levado a melhor, sobretudo pela vitória argentina e pela sua influência directa na mesma. Mas é uma vantagem que se torna irrelevante porque ambos estiveram em grande nível e, claro, porque Ronaldo jogou apenas 2/3 do jogo.



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19.11.10

Portugal - Espanha: Análise e números

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Um pouco às avessas com aquilo que é normal, a análise do jogo ficou relegada para o fecho do “capítulo Selecção”. Já fui amplamente elogioso em relação à exibição e, por isso, talvez seja melhor começar por salientar outro aspecto. É que, se o jogo descambou para um goleada, nada o fazia supor nos primeiros 35 minutos. Ao contrário do que é muitas vezes sugerido, não me parece que tivesse havido especial demérito da Espanha na primeira parte. A equipa foi igual a si própria, lidando bem com uma pressão fortíssima do meio campo português, quer em termos de circulação, quer em termos de reacção à perda da bola. Na segunda parte, sim, a história é um pouco diferente. Quanto à primeira, o mérito vai 100% para Portugal que acabou por vencer um autêntico duelo de nervos entre a posse espanhola e o pressing português. Aliás, sendo um exercício obviamente especulativo, parece-me improvável que, em Lisboa ou na África do Sul, a resposta dos espanhóis pudesse ser muito diferente daquela que foi dada na primeira parte.

Notas colectivas
A estratégia portuguesa foi completamente diferente daquela que a maioria das equipas optam por escolher frente ao “tiki taka” e, seguramente, muito diferente daquela utilizada por Queiroz no mundial. Um "pressing" colectivo muito forte e feito em toda a área do campo – comprimento e largura. O segredo, e única via para o sucesso, estava em estar sempre junto e em ter uma grande capacidade de reacção ao movimento da bola. Sim, porque a Espanha não iria perder a bola facilmente. Um desafio enorme em termos de concentração e união colectiva e que, repetindo a ideia, forçou um jogo de nervos entre a posse espanhola e o "pressing" luso. Quem iria fraquejar primeiro? A qualidade de circulação espanhola, perante o pressing permanente? Ou a qualidade de ajuste posicional do pressing, perante a óptima e constante circulação?

Não há suspense, todos sabemos qual o resultado, mas importa também dizer que não foi a pouco custo que Portugal o conseguiu. Os espanhóis tentaram de tudo, circulação apoiada, bolas na profundidade (ainda que poucas) e variações de flanco. Portugal foi notável na reacção, conseguindo manter quase sempre uma grande concentração na zona da bola, mesmo quando esta mudava rapidamente a sua posição. “Quase”! É que a Espanha também encontrou os seus buracos, especialmente quando conseguiu levar o jogo até às alas, com a subida dos laterais, encontrou espaços e por pouco não chegou ao golo.

Entendo, por tudo isto, que o demérito espanhol é muito pouco e seguramente muito menor do que aquilo que agora se quer fazer crer. Pelo menos na definição do jogo. A Espanha jogou com o seu melhor 11 e as suas individualidades não estão propriamente num momento de descompressão ou precoce em termos de preparação. É uma equipa que joga junta há anos, muitos deles todos os dias, e que está numa altura de alto rendimento em termos de temporada. A sua resposta, aliás, foi boa, e duvido que qualquer outra equipa tivesse durado tanto tempo perante a qualidade do "pressing" da Selecção portuguesa. A critica que pode ser feita é em termos de reacção à adversidade, quando esta apareceu. Na segunda parte, de facto, houve uma perda de qualidade no jogo colectivo espanhol, sobretudo na qualidade de circulação e reacção à perda, a que não são alheias as substituições. Uma coisa é ter Xavi e Iniesta, outra é não ter. Mas também do lado português houve uma perda de qualidade. Perda de qualidade pelas alterações individuais, e também porque seria impossível manter a intensidade que a equipa revelou nos primeiros 45 minutos.

Como balanço, importa voltar a sublinhar o impacto da entrada de Paulo Bento. Impacto nos níveis de confiança da equipa, que são explicados pelo habitual efeito da “chicotada”, e que foram depois catapultados pelos primeiros resultados positivos. Porque uma coisa é os jogadores acreditarem nas ideias de uma nova liderança, outra é sentirem realmente que essas ideias têm reflexo prático nos seus resultados. E impacto, também, ao nível da qualidade táctica da equipa, porque aquilo que se vê hoje a Selecção fazer está bem a cima do nível geral das Selecções mundiais, não tem nada a ver com a banalidade das estratégias (muitas vezes auto destrutivas) de Queiroz, ou sequer com a “era Scolari”, onde simplesmente não existia estratégia a este nível. O que não dá para afirmar é que Portugal está hoje mais motivado do que no mundial, ou que são os jogadores que estão a marcar a diferença entre Queiroz e Bento. É simplesmente absurdo supor que um jogador se sente mais motivado num particular do que numa fase final de uma campeonato do mundo, apenas por questões de simpatia com o seleccionador. Pelos para mim, é absurdo.

Um potencial problema que pode emergir reside no facto de Portugal ter atingido um pico demasiado cedo. Isto é, o nível que Portugal atingiu frente à Espanha não é superável. Não há adversários mais fortes do que a Espanha e não é possível realisticamente obter melhores resultados do que aquele que tivemos. Ou seja, com tudo ainda por jogar, convém não deixar que este resultado sirva para desactivar níveis de intensidade e ambição.

Notas individuais
João Pereira – Fez um jogo fantástico em termos de intensidade e qualidade. Seria, à partida um dos casos que mais problemáticos, dada a movimentação típica de Villa, mas a forma como a equipa jogou e a sua própria concentração e intensidade fizeram dele um dos jogadores mais assertivos no terreno. Só lhe faltou a parte ofensiva.

Bosingwa – Jogou adaptado e não se pode dizer que se tenha dado mal. Afinal, a Bosingwa não lhe falta experiência no que respeita a adaptações. Ainda assim, é um jogador que oscila entre uma excepcional capacidade física e técnica, com alguns momentos menos prudentes em termos de opção. Nesse aspecto, jogando com o pé direito, à esquerda, pode potenciar alguns passes interiores menos aconselháveis. E isso chegou a acontecer. É uma nota a tirar.

Centrais – O destaque vai para os números de Bruno Alves. Jogou os 90 minutos mas teve um nível de participação baixíssimo. Neste caso, porém, não lhe é devida uma critica especial. Em relação a Pepe e, sobretudo, Carvalho, foi um jogador mais posicional e menos agressivo a jogar em antecipação. Essa característica, combinada com o mérito colectivo que impediu a Espanha de accionar muito poucas vezes a zona dos centrais, fez com que estivesse muito tempo fora do jogo. De resto, cada um ao seu estilo e cada um no seu tempo, Carvalho e Pepe, estiveram esplêndidos (destacando ainda assim o papel de Carvalho na primeira parte, importante no papel táctico de cortar o espaço entre linhas).

Meireles – Um jogo fantástico do “pivot”. Teve uma missão especialmente próxima dos médios, formando um bloco intermédio que bloqueava a zona central. Muitas vezes formou mesmo uma linha com Moutinho e Martins, mas pôde também ler o jogo de trás, ajustar posicionamentos, antecipar, preparar o momento da perda... Enfim, um jogo tacticamente excelente, com a particularidade de ter dado, com bola, uma certeza fundamental na sua zona.

Moutinho – Será um dos maiores destaques do jogo, pelo papel táctico que teve, e por ter sido, desta vez, determinante ofensivamente. Já muito se falou dele e da sua cultura táctica e, de facto, não há muito a acrescentar a cada exbição que faz. O rigor é sempre o mesmo, a fiabilidade também, o que varia é a inspiração - e a oportunidade para tal - ofensiva.

Martins – Este era um bom teste para ele. Isto porque é um jogador que tem alguma dificuldade em termos defensivos. Não parece gostar muito de defender e, sobretudo, não tem uma grande percepção táctica em termos defensivos, o que faz com que a sua reacção posicional nem sempre seja tão rápida como devia. Neste desafio, de correr mais sem bola do que com ela, esteve muito bem e acabou por ser o protagonista de algumas intercepções decisivas.

Nani – Fica marcado pelo lance de Ronaldo e é óbvio que deve ser censurado pela opção que tomou. A questão é que a reacção não é tão anormal quanto isso em ambiente de jogo, e talvez o próprio Ronaldo fizesse o mesmo. De resto, e à parte de outro chapéu displicente que tentou, fez um grande jogo, provando de novo que é um dos melhores extremos do futebol mundial.

Ronaldo – A sua utilidade táctica e técnica combinam agora para que seja, quase sempre e enquanto está em campo, o maior dos destaques. Porque é que Ronaldo não chuta agora de 40 metros? Porque é que parece um jogador muito mais útil em todos os momentos? Porque é que não está tão ansioso em fazer tudo sozinho? O que mudou não foi Ronaldo, o que mudou foi a Selecção. Afinal, aquilo que sempre foi óbvio e que sempre fui escrevendo. O problema nunca foi Ronaldo, mas sim a envolvente...

Postiga – Fez um jogo importante em termos tácticos, orientando o “pressing”. Não é um jogador muito agressivo nessa tarefa, mas quando a equipa tem um propósito colectivo, torna-se também ele um jogador integrado e útil sem bola. De resto, os golos fazem-lhe bem. A ele, como a qualquer avançado, mas ele especialmente.

Manuel Fernandes – Acho-o um jogador de tremendo potencial e havia feito bons jogos no ciclo terrível que terminou com a saída de Queiroz. O problema de Manuel Fernandes é o risco que assume no meio campo e alguma displicência em que cai com facilidade. Sempre foi e provavelmente sempre será o seu pecado. Por alguma coisa perdeu um passe que deu transição para ataque rápido, na fase dos “olés”. Gostaria de o ver numa fase de outra organização e intensidade colectiva como aquela a que assistimos na primeira parte.



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14.10.10

Islândia - Portugal: Análise e números

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O jogo era de vitória obrigatória. Quer pelo momento, quer pela diferença de potencial. Confesso que não conheço a equipa islandesa nem a forma como se costuma apresentar, mas a verdade é que fiquei muito bem impressionado com o que fez. Dentro das suas óbvias limitações individuais, teve uma prestação que conseguiu criar muitas dificuldades a Portugal. Quer pela intensidade que colocou em cada lance, quer pela lucidez da sua estratégia. Face a isto, Portugal deu uma resposta que, sendo suficiente para valer e justificar os 3 pontos, não o foi para que ficasse a salvo de algum aperto. Em suma, não foi tão positivo como frente à Dinamarca, mas foi suficiente para manter o optimismo e reforçar a confiança que claramente tem vindo a ser recuperada.

Notas colectivas
Ter mais bola e dominar territorialmente não era um problema. A estratégia islandesa praticamente “ofereceu” esse privilégio a Portugal. O problema seguinte era clássico. Para que este não fosse um presente envenenado, Portugal teria de garantir 2 coisas. A primeira era a consequência da sua posse, já que em transição tornava-se praticamente impossível atacar. A segunda era o controlo sobre o outro lado da estratégia islandesa, as transições e bolas paradas. Portugal, pode dizer-se, não foi sempre muito competente nesse desafio.

Convém separar as 2 partes. Na primeira, e especialmente após o golo, houve alguma dificuldade em lidar com as primeiras bolas islandesas e concederam-se demasiadas situações de bola parada, quer em cantos, quer livres. Outro dado sintomático, são as perdas de bola, muito mais do que no seguríssimo jogo frente à Dinamarca. A boa notícia, porém, foi que, apesar destes problemas, Portugal conseguiu sair ao intervalo em vantagem, graças à sua mais valia individual.

Uma estatística importante para perceber a diferença no controlo que Portugal conseguiu ter entre a primeira e a segunda parte são os cantos. A Islândia teve 6 em todo o jogo, mas apenas 2 na segunda parte e ambos nos primeiros 20 minutos. Ou seja, depois de uma primeira parte algo intranquila, Portugal voltou bem mais lúcido, jogando com o resultado a favor e esperando pacientemente pela oportunidade de selar a vitória. E assim foi. Os islandeses ficaram progressivamente mais longe da baliza de Eduardo e os espaços foram aumentando com a fadiga. As transições passaram a ser possíveis, Portugal marcou mais uma vez e até podia tê-lo feito de novo. Algo que os islandeses, pelo que fizeram na primeira parte, também não mereciam.

Notas individuais Meireles – Já o havia elogiado no jogo frente à Dinamarca, pela cultura posicional que revelou. Desta vez, teve um jogo mais difícil, com mais situações de segundas bolas para disputar. Ainda assim voltou a ser muito importante do ponto de vista defensivo, aliando a este aspecto a não menos importante presença decisiva no jogo. É que, se a sua função passa sobretudo pelo trabalho de coordenação e equilíbrio, dá muito jeito ter alguém tão inspirado...

Carlos Martins – Julgo que o facto de ter sido o jogador com mais passes acertados, mesmo jogando menos tempo, será uma surpresa para a generalidade das pessoas. De facto, Martins teve uma influência assinalável e positiva em posse. O problema é que esse não é o único momento do jogo e para um médio da sua posição é preciso também ter mais utilidade nos momentos defensivos. Não é uma questão de atitude ou entrega, mas de cultura posicional. Continuo a achar Tiago um médio mais completo para a função.

Ronaldo – É sem dúvida a primeira grande conquista de Paulo Bento. Ronaldo fez mais um enorme jogo, útil em todos os momentos e apresentando-se como uma ameaça constante. No Mundial, lembro-me de referir que era impossível alguém rematar repetidamente de 35 metros sem ter instruções claras para isso e que era absurdo atribuir responsabilidades individuais a um jogador que tem o rendimento de Ronaldo em equipas diferentes e épocas sucessivas. Ora bem, a resposta começa a ser dada. Ronaldo voltou a ser um jogador - um grande jogador - e não uma tentativa frustrada de super-homem.

Hugo Almeida – Assinalável o esforço que fez para se manter dentro do jogo. Não é fácil dentro deste sistema e, como já tantas vezes escrevi, o problema da pouca participação está bem mais aí do que numa falta de rendimento individual.

Postiga – A ocasião que falhou, e ao contrário daquela que teve frente à Dinamarca, teve muito mérito do guarda redes. Postiga teve um impacto positivo no jogo, ainda que tivesse alinhado no período em que havia mais espaço para atacar, mas arriscou sair desta dupla experiência com o trauma da finalização de novo reforçado. É por isso que o golo que lhe foi oferecido tem uma importância especial. Se bem o percebo, quem mais poderá agradecer o brinde é mesmo Paulo Sérgio...



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10.10.10

Portugal - Dinamarca: Análise e números

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Já tinha manifestado o meu optimismo, mas não deixa de me espantar como tanto pode mudar em tão pouco tempo. Ontem já deixei aqui a opinião sobre a importância da lucidez colectiva e táctica, para o sucesso da estratégia da equipa. Muito passa por aí, de facto, mas há também do ponto de vista táctico alterações no comportamento colectivo que deverão marcar uma nova “era” da Selecção. Planeio trazer algumas imagens que deixarão claro o que Paulo Bento já mudou no comportamento colectivo, mas, para já, reforço apenas o meu optimismo inicial. Tanto quanto à possibilidade de estarmos no inicio de um “upgrade” qualitativo do jogo da Selecção, como em relação ao potencial excepcional deste conjunto de jogadores.

Notas colectivas
Em primeiro lugar, o grande elogio que tenho para fazer vai para a sobriedade da exibição. Não se trata de querer fazer muito ou tentar elevar os ritmos para patamares difíceis de sustentar. Trata-se, isso sim, de ter uma ideia clara do que se quer fazer, e de o fazer bem. Um plano colectivo para ganhar, onde mais do que “muito”, importa fazer “bem”. Portugal esteve sempre equilibrado em campo, nunca assumiu riscos em posse e teve apenas 1 perda a possibilitar transição, sendo que mesmo nesse caso o lance nunca esteve fora do controlo em termos de equilíbrio numérico. E se estes dados são já de si raros, mais crédito ganham quando se constata que a ausência de risco não comprometeu a qualidade da posse. É que 80% de aproveitamento em posse é igualmente um dado difícil de encontrar num jogo de futebol.

Se deste pragmatismo estratégico já tinha falado, convém também referenciar aquele que é o elemento colectivo mais significativo no jogo: o pressing. Lembro-me de várias vezes ter questionado o desempenho da Selecção neste que considero ser um pilar fundamental de qualquer equipa ambiciosa, e sempre me fez confusão a falta de resultados e qualidade que vislumbrava. Ora bem, desta vez – e com apenas algumas sessões de treino – Portugal teve no pressing um alicerce fundamental para o seu sucesso no jogo. Foram inúmeras as recuperações altas e... contaram as vezes que os dinamarqueses tiveram tempo e espaço para recorrer a futebol directo que no passado tantas vezes tememos frente a nórdicos?

Outro dado que teve também um acréscimo de qualidade neste jogo foi a circulação e posse. Portugal não começou por encontrar facilidade em “furar” por esta via, mas com os golos, surgiram as condições – emocionais e tácticas – para protagonizar alguns momentos já bastante bons. Sem pressa nem urgência de progredir, mas esperando pelo tempo certo para o fazer e apelando também a alguns triângulos sobre as alas. Uma dinâmica fundamental no 4-3-3, mas que tantas vezes faltou à Selecção no passado. Contaram o número de vezes que os extremos ficaram reduzidos à solução do drible, como tantas outras vezes aconteceu em anos anteriores?

É claro que para este rápido “upgrade” conta muito a qualidade individual. No futebol, como na vida, não há milagres. Em particular, é muito mais fácil jogar bem quando se junta aos nossos extremos laterais como Coentrão e João Pereira. É muito mais fácil manter equilíbrios e evitar perdas comprometedoras quando se tem Moutinho como médio de transição. É muito mais fácil cortar o primeiro passe de transição, quando se tem um jogador com a cultura posicional de Meireles. É muito mais fácil desequilibrar quando se tem, só... Nani e Ronaldo.

Notas individuais
Ricardo Carvalho – Foi pena o auto-golo, onde tem muito azar mas também alguma responsabilidade (repararam que mudamos para defesa-zona?). De resto, fez um grande jogo, sempre com uma intensidade enorme no jogo e uma presença impossível de ignorar.

Meireles – Moutinho foi quem mais deu nas vistas no meio campo, mas Meireles não teve menor importância. Aliás, merecia uma análise individual para salientar o tempo de pressing sobre o primeiro passe e o número de vezes que cortou a transição contrária pela raiz (às vezes em falta). Pensar que vem jogando nas costas de Torres no Liverpool e que, de repente, faz um jogo posicional com esta qualidade, só eleva ainda mais o seu mérito.

Moutinho – A confiança nota-se. Continua a ser um jogador intenso e tacticamente irrepreensível, mas agora o seu primeiro toque é melhor e a facilidade com que “salta” o pressing directo faz com que dê um perfume acrescido ao jogo. Falta-lhe o último terço. Só lhe falta isso, mas... ainda lhe falta isso.

Carlos Martins – Não fez um mau jogo, mas foi o elo mais fraco do meio campo. É uma solução, mas creio que lhe falta alguma cultura táctica para ter a utilidade dos outros 2 elementos que com ele jogaram no meio campo. Pela qualidade de Tiago, pessoalmente, acredito que o médio do Atlético seria uma solução melhor. Talvez não tão explosiva, mas globalmente melhor.

Ronaldo – Grande notícia o seu golo. Claramente procurava esse momento e perdia-se algumas vezes por isso. Talvez o golo lhe dê tranquilidade para engrenar de vez. De resto, é um jogador obviamente fantástico e que desequilibra tantas vezes que às vezes nos esquecemos. Vi o jogo uma primeira vez – no estádio – mas só depois de analisar melhor é que me apercebi concretamente do número de situações de golo em que esteve directamente envolvido.

Nani – Quando vejo os jogos do Man Utd, pergunto-me como é possível não ter melhor aproveitamento ofensivo na Selecção, tendo Nani. Ou melhor... também Nani. Está em grande forma e é um dos melhores extremos do futebol actual, como facilmente o mostrou.

Hugo Almeida – Não são exactamente iguais, mas quase que poderia recuperar alguns comentários que fiz a Falcao. É por isso que normalmente (nem todos os casos são assim) prefiro o losango. O triângulo recuado é análogo ao do 4-3-3, mas o triângulo ofensivo, no losango, não ignora tanto um recurso como tantas vezes vemos acontecer no 4-3-3. Hugo Almeida não jogou mal, mas jogou pouco.

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28.8.10

Breves do mercado e da Supertaça Europeia

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- A última Sexta Feira do mês de Agosto, cumpriu com a expectativa e trouxe várias novidades no mercado. O sinal dominante? A perda de vitalidade do próprio mercado. Tonel na Croácia(!!), depois de há pouco tempo ter sido cobiçado pelo Rangers. Meireles no Liverpool por "apenas" 13 milhões. Entre Porto e Sporting, um dado comum: ambos terão baixado significativamente as fasquias para colocar os jogadores. O Porto, provavelmente, porque este era o momento único para o encaixe. O Sporting porque precisava de "salvar" o orçamento salarial (não se iludam pelo "custo zero", entre Pongolle, Tonel e Stojkovic, o Sporting deixa de pagar alguns milhões de euros este ano).

- Como complemento do que escrevi antes, acrescento que nunca percebi bem - ou melhor, perceber, até percebo - como tantos jogadores valem tanto dinheiro. Numa perspectiva de mercado, de oferta e procura, não faz, nem nunca fez, sentido. Talvez estejamos apenas no inicio de uma mudança significativa. Talvez... mas só se tiver mesmo de ser, porque haverá muitas - mas mesmo muitas! - resistências a uma mudança de cultura de investimento. Já agora, uma pergunta para quem souber encontrar uma boa lógica: que sentido faz um jogador mediano valer mais que um bom treinador?!

- Noutro âmbito, Quique voltou a vencer na Europa. Terá sido mesmo uma surpresa? Se foi, foi muito pequena. Já agora, qual é a diferença significativa, tacticamente, entre Quique e Benitez? Ou Juande Ramos? Ou Valverde? Parecem todos cópias uns dos outros. Espero para ver, mas suspeito que o 4-4-2 clássico de Benitez vai ser muito bem recebido em terras italianas...

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23.2.10

As movimentações do meio campo portista

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Ontem sublinhei a importância dos movimentos sem bola do meio campo portista no crescimento da qualidade colectiva. Hoje, trago os casos práticos do exuberante jogo com o Braga. Este pormenor, da boa movimentação na zona intermédia, foi aquele que mais contribuiu para a vulgarização da organização defensiva bracarense. Quer por ter permitido mais e melhores soluções para o portador da bola, quer porque, por outro lado, expôs zonas que eram estrategicamente importantes para o plano de Domingos (o espaço entre linhas, sobretudo). Muito mérito do Porto, portanto.

Não é necessário uma grande explicação das jogadas em causa para que sejam compreendidas. A ideia é, basicamente, seguir o movimento dos médios identificados e desfrutar da eficácia com que antecipam os espaços e trabalham por dar soluções ao portador da bola. Neste plano, claramente, a jogada do primeiro golo merece nota especial, com Ruben Micael e Raul Meireles (não “Meirelses”!) como protagonistas.

Mas há um derradeiro aspecto para que quero chamar a atenção. Se aqui podemos – e é fácil faze-lo – centrar atenções no individual, falando da importância da chegada de Micael ou do regresso de Meireles, há que contextualizar esta característica dos médios com o ciclo de Jesualdo. Lucho, que também se diferenciava pela inteligência dos seus movimentos sem bola, cresceu desde a chegada do “professor”, tendo atingido a sua maior produtividade apenas em 07/08, na segunda época com Jesualdo. O mesmo se pode dizer de Lisandro, assim como de Meireles, outro caso evidente. Agora, noutro exemplo mais recente, temos Belluschi, que mesmo não tendo sido titular, havia denotado já um crescimento também neste plano, confirmando-o no curto espaço de tempo que esteve em campo.

Ou seja, se é óbvio que a qualidade desta característica é vital para o sucesso do modelo portista, também parece claro que ela está muito mais dependente daquilo que se faz nos treinos no Olival do que do perfil dos intérpretes quando chegam ao Dragão. Ou seja, o crédito deve ser dirigido, mais uma vez, para o notável trabalho que Jesualdo Ferreira vem desempenhando no clube.



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22.2.10

Porto - Braga: A fúria do campeão

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Se este era um jogo em que a pressão se vestia de azul, ela demorou apenas 35 minutos a evaporar-se por completo das bancadas do Dragão. De facto, embora fosse previsível maior domínio e iniciativa portista, dificilmente alguém projectaria tamanha diferença no marcador e, mais ainda, tão célere definição do destino dos 3 pontos. Mérito, como tanto se esforçou por vincar Jesualdo, para a frescura de um Porto renovado e que, agora, ganha novo ânimo para um final de época onde, apesar de tudo, a margem de erro continua muito perto do zero. Do outro lado, do bracarense, resta saber qual o efeito desta abrupta descida à terra. Será que se viu no Dragão um momento de viragem?

Diferença... avassaladora
Afinal, o que explica tão radical diferença num jogo supostamente equilibrado? A eficácia é uma resposta tão óbvia como incontornável, mas há naturalmente bem mais para dizer. Se o Braga vinha com a missão de previligiar, sobretudo, o controlo do jogo, fundamentalmente pelo equilíbrio táctico em todos os momentos, bem como por um constrangimento dos espaços, a verdade é que... falhou rotundamente. E falhou porque do outro lado esteve uma equipa que, fazendo lembrar o jogo com o Sporting, esteve avassaladora. Avassaladora na velocidade com que pensou e reagiu a cada momento do jogo, e avassaladora, também, em termos de inspiração. Tudo isto aconteceu muito rápido, sem tempo para uma chuva de oportunidades, mas perfeitamente suficiente para o KO bracarense.

Os destaques de um Porto renovado
Os destaques individuais mais evidentes da partida serão, provavelmente, Varela e Falcao. O primeiro foi o epicentro dos desequilíbrios que definiram o jogo. Em particular, 2 assistências notáveis e plenas de intenção, com o pormenor de terem sido protagonizadas com o pior pé. Algo que, afinal, não é novidade. O segundo, não só pelos golos e pela já mais do que destacada apetência para se movimentar na área, mas também pela utilidade que tem noutros momentos. Em particular, a sua incansável entrega, quer em termos de mobilidade, com bola, quer no trabalho defensivo, sem ela.

Compreender o crescimento do Porto, porém, passa sobretudo por compreender o crescimento da sua inteligência nos movimentos do meio campo. Micael tinha trazido essa qualidade de movimento sem bola, Belluschi vinha acompanhando com um crescimento individual nessa matéria, mas, com Meireles, tudo se faz com muito maior naturalidade e velocidade. É normal destacar-se a inteligência dos jogadores quando em posse da bola, mas eu pergunto: se um jogador passa muito mais tempo sem bola do que com ela, não será mais importante ainda a inteligência sem bola? Para já, o Porto, como colectivo, parece concordar com a ideia...

A impotência do Braga
Domingos quis, muito claramente, controlar. Privilegiou o equilíbrio táctico em todos os momentos e a proximidade das suas linhas para manter o Porto sem espaço. Se esta fórmula já lhe rendeu resultados no passado, desta vez foi completamente insuficiente. Primeiro, em termos defensivos, o facto de defender em 4-4-2, com 3 linhas defensivas, permite-lhe preencher bem toda a largura do campo, mas impede uma boa pressão em profundidade. Domingos, face a isto, abdicou de subir o bloco, mantendo-o próximo e relativamente baixo, na tentativa de encurtar o espaço entre linhas. O problema foi a tal velocidade de pensamento e movimento do meio campo portista que, juntamente com Falcao, fizeram parecer o comportamento táctico do Braga muito pior do que realmente foi.

Depois, com bola, outro problema. Era importante ser capaz de ter bola, e, talvez mais importante ainda, manter o Porto desconfortável na sua retaguarda. Isso nunca foi conseguido, primeiro por alguma incapacidade da equipa em termos de decisão com bola, e, depois, por um excesso de conservadorismo no desdobramento ofensivo. Preocupou-se demasiado com os equilíbrios tácticos e, quando deu por isso, já era tarde de mais.

Ainda assim, e apesar de tudo, não posso deixar de destacar Mossoró. Será um jogador fundamental para o Braga neste final de época e é aquele que maior qualidade dá à equipa em termos de dinâmica ofensiva. Quer pela mobilidade com que actua, quer pela qualidade que empresta em cada participação.



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11.9.09

Análise vídeo: Meireles, Lampard, Gerrard e o ataque italiano

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Meireles, “programado” – 2 lances que são excepção num jogo sem espaços. Ambos finalizados por Ronaldo, mas ambos com outro ponto em comum, mais atrás, na origem do lance. Raúl Meireles. O médio português trouxe para o jogo da Selecção uma característica do jogo... portista. E não podia ser de outra forma. É que se o principio de procurar instintivamente um companheiro no flanco oposto faz parte da “programação” incutida por Jesualdo Ferreira, pode dizer-se que Meireles já tem tempo suficiente para estar completamente “programado”. E está.
 
No primeiro lance, uma transição iniciada pela recuperação do próprio. E é assim, em transição, que este instinto se torna mais temível no Porto. Normalmente há sempre um extremo no flanco oposto, disponível para aproveitar o espaço existente. Neste caso, e embora num sistema diferente, havia Ronaldo. Talvez, ou mesmo provavelmente, fosse circunstancial, mas a verdade é que resultou na mesma medida. Ainda sobre o lance, nota para o pânico do defensor que recua e é incapaz de controlar o lance, acabando Ronaldo por finalizar em zona central e com o melhor pé. Faltou a eficácia apenas, e... outra vez.

No segundo, aquilo que Portugal deveria ter conseguido muito mais vezes na fase final do jogo. Ou seja, com a subida da pressão húngara, aproveitar os espaços. E de novo, Meireles na origem. Simula tentar a profunidade e assim ganha espaço para receber em apoio. Espaço e tempo para fazer o “programado”. Receber de forma orientada para procurar, rapidamente alguém do outro lado, onde está o espaço. Se não houvesse movimento, a jogada perderia o seu tempo e, forçosamente, muito do seu potencial. Como Tiago percebeu rapidamente a situação, o desequilíbrio tornou-se fácil. Pena que seja tão raro.
 

Lampard & Gerrard, médios de campo inteiro – Na goleada da Inglaterra, 3 golos semelhantes. De cabeça, na grande área, marcados por médios. Gerrard e Lampard. Há médios muito mais criativos e tecnicamente dotados no mundo. Mas, normalmente, esses jogadores encontram também na linha de grande área um limite para o seu jogo. Para Gerrard e Lampard, o campo é maior do que o espaço entre as duas áreas e estas não são um obstáculo mas sim uma oportunidade. Uma questão de cultura.

Entre os lances dos 3 golos, repare-se no pormenor de que, em todos eles, a acção começa na zona frontal à frente da área. Na eminência do cruzamento, o ataque à zona de finalização é feito mas de forma tardia, esperando pela definição do posicionamento dos defensores para, depois, ocupar os espaços complementares. Ajuda também ter gente que cruza de forma inteligente e que não se limita a bombear a bola para a área. É o que acontece com Lennon e Glen Johnson.
 

Iaquinta & Gilardino, o perfil transalpino – Não é a primeira vez que elogio o perfil dos avançados italianos. Pode não haver uma referência de elite no futebol actual, mas continuo a ser um admirador da forma inteligente e agressiva como este tipo de jogadores se move no último terço. A abrangência das suas virtudes não se esgota no que está retratado no lance em causa, mas este é simplesmente irresistível. Criar apoios frontais mas com uma total noção do que se vai fazer a seguir. Inteligência e repentismo. Fantástico!

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7.4.09

4x Meireles

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O vídeo surge como reforço do que referi ontem sobre a exibição de Meireles. Sobre a utilidade do médio, a sua qualidade técnica e a sua inteligência de movimentos não há dúvidas, porque tais ideias são confirmadas de há décadas a esta parte, fazendo de Meireles um dos médios mais conceituados do futebol nacional. A particularidade da sua exibição em Guimarães tem a ver com a maior importância que lhe foi dada na fase criativa, dada a ausência de Lucho. Meireles respondeu a grande altura e mostrou que a sua utilidade táctica como “contra peso” para a liberdade ofensiva dada a “El Comandante” acaba por esconder uma vertente criativa que normalmente aparece de forma muito mais espaçada. Dos 4 lances (do vídeo, porque houve mais) em que intervém com grande qualidade, destaca-se claramente o passe para Farias pouco antes do golo do empate. Um dos melhores que esta liga já viu.
Meireles tem crescido muito nos últimos anos, destacando-se a forma como lê o jogo, quer pela rapidez com que decide, quer pela forma como se movimenta sem bola. Sobre Meireles lembro-me ainda do papel que lhe foi dado por Adriaanse onde tinha ordem para abordar as zonas de finalização. Esta é uma vocação rara nos médios portugueses mas cada vez mais valorizada e importante no futebol moderno. Essa vertente não tem sido tão potenciada com Jesualdo, numa conseqüência lógica de um modelo de 3 médios mais especialistas do que generalistas.

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3.6.08

Portugal: Tudo pronto, ficam as interrogações...

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A contagem decrescente para o Euro aproxima-se do seu final e são já poucas as dúvidas em relação à Selecção. Na preparação para a prova tivemos a oportunidade de acompanhar os treinos em Viseu, o que possibilitou uma visão um pouco mais pormenorizada do que é habitual sobre a evolução dos trabalhos, fazendo com que o particular com a Geórgia, pela pouca dificuldade e intensidade do próprio jogo, não tenha sido merecedor de uma análise mais rigorosa, não acrescentando grande coisa ao que já era conhecido. Mas vamos a alguns pontos de opinião sobre esta preparação da Selecção:

Preparação
Começando pela programação de treinos e jogos. Não sou favorável a um grande número de jogos e até compreendo que não se façam testes frente a adversários de grande dificuldade. Quando se tenta em pouco tempo sistematizar princípios e rotinas de jogo, o treino é o que mais faz falta. Surge-me, no entanto, um dado de apreensão. A Selecção separou os treinos físicos dos tácticos, o que ditou que o tempo e a intensidade dos preparativos de ordem táctica fosse reduzido. Como o jogo com a Geórgia pouco fugiu às características de um treino de conjunto, o real teste à resposta portuguesa em ambientes a fases de maior intensidade de jogo fica para... o próprio Euro. Neste aspecto, reforço uma ideia que tenho sobre este tipo de competições. As Selecções que mais possibilidades têm de ganhar não são aquelas que melhor se preparam para a o inicio da competição mas sim as que mais conseguem evoluir durante a prova.

Modelo de jogo
Defendi aqui que Portugal tinha a oportunidade de rever o seu modelo de jogo, de se tornar mais forte a jogar em transição (o que pode ser particularmente útil perante adversários de maior nomeada) e de adquirir algumas rotinas que tirem melhor proveito daquele que é um dos melhores finalizadores do mundo, Cristiano Ronaldo (algo que contrasta com o habitual perfil do extremo português). Ora, isso não vai acontecer, pelo menos de uma forma declarada. Do que se pode até agora assistir, Portugal vai manter-se como uma Selecção que procura dominar essencialmente os jogos pela posse, sendo que não deixa de ser verdade que se identificam alguns movimentos importantes como a mobilidade dos extremos e a criação de espaços que permitam o aparecimento da explosividade de Bosingwa, libertando o corredor direito. Por outro lado, fica a sensação de alguma ausência de preocupação com o equilíbrio em posse, com Petit a ser um médio que participa activamente nas jogadas ofensivas, ao mesmo tempo que Paulo Ferreira e Bosingwa aparecem “abertos” em simultâneo. Como a Geórgia não nos concedeu essa benesse no particular de Viseu, ficou por testar um capítulo fundamental para quem quer dominar o jogo em posse: a transição defensiva.

Individualidades
Defesa direito: Bosingwa parece-me uma escolha inequívoca pela invulgar velocidade que empresta às suas acções. Pode ser uma arma ofensivamente e, defensivamente, igualmente importante nas recuperações. No entanto, Miguel pode vir a ser um elemento fundamental na prova. Primeiro pela instabilidade física de Bosingwa e depois porque julgo ser a opção mais aconselhável para os jogos em que haja preocupação em fechar junto aos centrais, onde Bosingwa tem manifestas dificuldades.

Posição “6”: Petit parte na “pole position” por diversos motivos. É uma opção que se compreende, mas perante certos adversários poderá haver interesse em utilizar outras soluções. Particularmente perante uma oposição que aposte num jogo de primeiras bolas, a capacidade aérea de Petit não será a que mais beneficiará o colectivo. Mas a mais clara das situações é no caso de Portugal defrontar equipas com 2 avançados. Scolari já deu a entender que quer que seja o “6” a “encostar” num dos avançados e, apesar da sua experiência, Petit poderá sentir algumas dificuldades nessa função. Aqui, tanto Veloso como Meira (embora, para mim, estranhamente não venha sendo testado nessa função) podem e devem ser alternativas a considerar.

Posição “8”: é a dúvida assumida por Scolari. Moutinho parece ter ganho o lugar com o golo frente à Geórgia, mas vendo o perfil de Petit, Deco e dos 2 laterais – particularmente Bosingwa – parece-me que Raul Meireles seria a melhor opção. Isto porque perante as características dos jogadores referidos, parece-me fazer mais falta um elemento que dê maior importância ao aspecto posicional, aproximando-se mais naturalmente de Petit, do que alguém que está, como Moutinho, geneticamente mais próximo das funções de Deco e não tão preocupado com os equilíbrios colectivos em posse.

Extremo: São muitas as opções de qualidade mas, para mim, não há dúvidas quanto à titularidade de Simão. Não é tão genial quanto Quaresma, mas oferece muito mais em termos colectivos do que os seus concorrentes. Em posse de bola é mais seguro (o que é muito importante tendo em conta o perfil de jogo de Portugal que tem já Ronaldo a jogar permanentemente no “risco”) e tem melhorado muito na sua capacidade de jogar em zonas fora das alas. Deve, na minha opinião, ser sempre uma primeira opção.

Ponta de lança: Nuno Gomes é o titular compreensível. Funciona bem como pivot, o que é importante, e costuma estar inspirado com as Quinas ao peito. Todos conhecemos, no entanto, o outro lado de Nuno Gomes. O seu aspecto psicológico tem sido muito oscilante e quando o atinge negativamente, perde confiança a um nível assustador. Se isso acontecer creio que Postiga deve ser aposta sem grandes reservas. Aliás antes do Euro já defendi a hipótese de uma aposta em Postiga como titular, sendo uma oportunidade nova para o agora avançado do Sporting que retiraria a pressão dos ombros de Nuno Gomes. Afinal foi nos momentos em que teve de substituir alguém que o 21 deu melhor conta de si e isso pode (ou não) ter a ver com o tal aspecto psicológico do jogador.

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