14.10.11

Dinamarca - Portugal: opinião e estatística

ver comentários...
- Os últimos jogos haviam deixado alguns sinais, mas longe de mim supor que os piores indícios se iriam agigantar no momento mais importante. Uma grande surpresa e uma grande desilusão, não tanto pela derrota, mas muito mais pela forma como ela aconteceu. Não esperava uma equipa super organizada, nem tão pouco super inspirada, mas esperava que mantivesse os índices de intensidade, agressividade e atitude que marcaram a mudança de "era", de Queiroz para Bento. Não foi assim, e antes de partir para uma opinião segmentada por momentos tácticos, reforço esta opinião, de que foi na atitude, na agressividade e intensidade que mais se terá ditado o descalabro de Copenhaga...

- Organização defensiva: Muita coisa a dizer sobre este momento, que foi aquele que começou por condicionar as aspirações de Portugal. A equipa não se apresentou muito agressiva em termos de primeira linha, definindo um bloco médio e tentando fazer com Postiga uma pressão lateral sobre o central que saía com bola. Resultou bem com a Islândia, mas não resultou bem com a Dinamarca. Essencialmente, porque os dinamarqueses revelaram grande carácter, não se atemorizaram perante o pressing e fizeram a bola rodar pelo "pivot" (Kvist ou Zimling), alterando o lado de saída e obrigando Portugal a voltar a reorganizar-se defensivamente. Depois, mesmo dentro do bloco, houve vários problemas... A Dinamarca apelava muito à mobilidade das suas unidades, criando muita presença do lado da bola. Portugal nunca lidou bem com isto, houve uma indefinição no papel dos médios (de novo, fico com a sensação de que Martins tem menor familiaridade com os comportamentos defensivos do modelo, relativamente a Micael), houve uma falta de atitude de Ronaldo e uma incapacidade da linha defensiva se manter alta e encurtar os espaços dentro do bloco. O lance do primeiro golo é, de resto, elucidativo de muitos destes problemas, mas possivelmente voltarei a ele no inicio da próxima semana...

- Transição defensiva: Paulo Bento justificou os problemas de controlo das acções a partir deste momento pelo risco que a equipa assumiu depois do 2-0. Pessoalmente, entendo que não é justificação suficiente para o tipo de problemas que se viram. Grande parte das acções desencadeadas a partir do momento de transição não tiveram na verticalização uma iniciativa imediata. Ou seja, na maioria dos casos, houve tempo para uma reorganização e melhor controlo, o que não aconteceu. Aqui, há dois aspectos a salientar. Tacticamente, o papel da última linha, que teve pouca capacidade para ser agressiva na resposta, não fechando os espaços à sua frente e permitindo que o destinatário do primeiro passe se virasse e encarasse de frente a linha defensiva. Muito claramente, Pepe faz muita falta, pela sua capacidade de pressionar dentro do bloco, seja em organização, seja neste tipo de movimentos, em transição. Depois, em termos de atitude, não houve também a entrega que se justificava a este nível. De novo, o lance do 2-0 é sintomático da incapacidade de resposta e falta de atitude que houve (Ronaldo, no caso). Porque nem tudo é mau, destacar o papel de 2 jogadores na resposta que deram neste momento, Moutinho e Meireles, se Portugal não caiu mais cedo e de forma mais acentuada foi muito pela sua reactividade.

- Organização ofensiva: Com bola, em organização, Portugal já havia demonstrado algumas dificuldades frente à Islândia, onde acumulou vários erros. Não errou tanto desta vez, mas nunca teve, nem a fluidez, nem a inspiração para retirar algo das suas iniciativas ofensivas. Paulo Bento corrigiu a tal questão das primeiras bolas, que eram inconsequentes para Postiga, fazendo Patrício bater a bola preferencialmente para a direita (será por isso que Ronaldo começou por aí o jogo?), mas não foi na construção longa que houve mais dificuldades. Em posse, os dinamarqueses bloquearam completamente as iniciativas lusas, sendo-lhes devido grande mérito, mesmo reconhecendo um jogo aquém das expectativas por parte de Portugal. Meireles, nunca entrou na construção, bloqueado pela acção de Eriksen. A acção dos laterais, por onde Portugal tentou sair várias vezes, foi sempre condicionada e a progressão pelos corredores raramente conseguida. Finalmente, o papel da última linha dinamarquesa, muito mais agressiva em altura do que a portuguesa, fechando os espaços dentro do bloco e como que convidando Portugal a explorar o espaço nas costas. Poderia até ser uma alternativa, mas nem Portugal mostrou engenho para o fazer, utilizando o papel dos laterais na profundidade, por exemplo, nem tão pouco era provável que, com Postiga, Portugal conseguisse muito mais do que aumentar a sua estatística de fora de jogo, sempre que tentasse fazer do seu avançado uma solução para estes movimentos de rotura. De resto, continua a ser muito difícil vislumbrar qualquer mais valia consistente do avançado que justifique a sua escolha durante tanto tempo. Mas há outras dúvidas mais interessantes e difíceis de responder, que me sobram da última fase do jogo: Vemos invariavelmente os treinadores a mexer estruturalmente e a esgotar substituições, sempre que o resultado lhes é desfavorável. É ideia generalizada, que o deve fazer, que deve introduzir mais gente na frente, e "refrescar" as suas primeiras escolhas. Talvez por ser ideia generalizada, e por gerar critica pela certa, os treinadores fazem-no também sem grandes hesitações. A questão é que não creio que ninguém tenha alguma vez estudado realmente, e de forma objectiva esta questão, se mudar estrutura e jogadores acrescenta ou não possibilidades de rectificar coisas? Pessoalmente, tenho dúvidas que normalmente seja útil (talvez um dia procure uma resposta mais fundamentada...), e, neste caso, mais ainda porque não me parece que trazer Ronaldo para o meio seja uma boa ideia. Ou seja, parece-me que se deve conseguir que "apareça" no meio, mas não tanto que "esteja" no meio. A diferença pode ser, tão simplesmente, ter Ronaldo de frente ou de costas para a baliza...

- Transição ofensiva: Portugal tinha tudo para fazer deste momento a génese dos seus desequilíbrios. Não foi assim. Primeiro, porque a vantagem dos dinamarqueses implicou sempre um extremo equilíbrio no momento da perda, depois porque Portugal conseguiu potenciar poucos erros que fizessem deste momento uma oportunidade real e, depois, porque quando os conseguiu "arrancar" (fundamentalmente depois do 1-0), nunca teve engenho nem inspiração (outra vez!) para lhes dar a melhor consequência.

- Bolas Paradas: Era o capítulo mais temido, mas não foi por aí que Portugal caiu. Podia ter sido, porque cometeu vários erros, mas podia ter sido também por aí o seu relançamento no jogo, já que Portugal não foi menos perigoso do que a Dinamarca em matéria de bolas paradas...

- Por fim, duas notas. Uma para Rui Patrício, que tem tido um mau inicio de época, mas que fez uma excelente exibição, poupando a Selecção do embaraço a que se sujeitou. Depois, para o embate com a Bósnia, onde Portugal parte como favorito claro mas onde terá de ter outra abordagem, começando pela atitude já que os aspectos de ordem táctica e organizacional continuarão a não ter tempo suficiente para ser muito desenvolvidos.

Ler tudo»

ler tudo >>

10.10.11

Portugal - Islândia: opinião

ver comentários...
- Começo pelo jogo de Terça. Descontando o facto de jogar fora, Portugal parte numa posição muito confortável para o embate final. A vantagem que leva permite-lhe não só ter a seu favor uma combinação muito maior de resultados favoráveis, como ainda distanciar-se da importante questão do segundo lugar. E, aqui, entrarão os dilemas para o seu adversário. É que a Dinamarca joga muito neste jogo. Ao contrário de Portugal, os dinamarqueses não têm valor suficiente para que se justifique um grande favoritismo num eventual playoff e, por isso, a qualificação directa via segundo lugar é uma hipótese demasiado valiosa para ser menosprezada. Para mais, e também ao contrário de Portugal, o empate da Suécia só serve para a Dinamarca se estes não perderem. Neste sentido, a abordagem estratégica dos dinamarqueses terá sempre de ter em conta a situação do jogo em Estocolmo, tanto mais que este começa 15 minutos mais cedo. Teoricamente, para os dinamarqueses, há aliás mais hipóteses de uma qualificação directa via segundo lugar do que pelo primeiro. Para Portugal, estes cenários podem servir de tábua de salvação em caso de deslize, mas de nada interessam para a sua estratégia no jogo. Será uma situação interessante de acompanhar, sobretudo se os jogos se mantiverem com resultados tangenciais...

- Entrando no jogo com a Islândia, assinalar, primeiro, o interesse do jogo em vários aspectos. Começo pelas dificuldades de Portugal, que, a meu ver, estiveram em 2 pontos: bolas paradas e segurança em posse. Relativamente à posse, Portugal assumiu, sem surpresa, um jogo assente na em organização, mas oscilou demasiado nesse plano. Começou por errar, estranhamente, na recepção e definição do segundo passe, após a entrada no bloco. Nessa fase, porém, a sorte foi-nos favorável e o jogo chegou rapidamente a um 3-0 que, em boa verdade, não se justificava. Depois, e na segunda parte, Portugal melhorou ao nível da segurança. Não conseguiu nunca muita profundidade em organização, mas foi pelo menos mais seguro. As desconcentrações a este nível voltariam mais tarde, já depois do 5-2. Algo que não se pode repetir em Copenhaga...

- O que realmente acabou por condicionar o jogo a Portugal, porém, foram as bolas paradas. É compreensível que se sintam algumas dificuldades neste momento, perante uma equipa com a característica dos islandeses, mas não ao ponto de se tremer praticamente a cada lance. O mau controlo da referência estratégica dos nórdicos na primeira bola explica quase tudo, porque foi sempre por aí que o perigo surgiu. Mas, o lance do 3-2 mostra também algumas dificuldades ao nível dos comportamentos colectivos. Uma das vantagens da defesa zona é poder controlar posicionamentos colectivos para usar imediatamente o fora de jogo. Tem de haver mais rigor e concentração (no caso, Moutinho), no movimento de saída, porque o lance teria sido facilmente evitado. Sobre as bolas paradas, Portugal não tem justificação para não ser forte nesse plano: tem centrais altos, Ronaldo e ainda o avançado que tem todas as condições para ser também ele um auxilio. Não há muita margem para desculpas, há, isso sim, uma exigência que se deve assumir.

- De resto, onde me parece que Portugal esteve melhor, mesmo em relação a jogos anteriores, foi em organização defensiva. Fez um bom condicionamento do primeiro passe, utilizando bem o papel de Postiga, que pressionava lateralmente, obrigando o central a acelerar a decisão de verticalizar. Aliás, Portugal conseguiu sempre extrair oportunidades próprias da sua resposta nos momentos defensivos, seja em organização, ou na reacção à perda. Um bom sinal para o futuro...

- Mas, parece-me que Portugal tem realmente motivos para optimismo, e Paulo Bento para exigir muito da sua equipa (e a si próprio, já agora). Tem centrais fortes em construção, capazes de fazer uma boa ligação com os extremos (Bruno Alves), ou criar superioridade com bola (Pepe). Tem uma grande força nas laterais, não só pelos excepcionais extremos, mas também pela boa dinâmica que oferecem os laterais. Com Meirleles e Moutinho, porém, pode exigir-se também aquilo que poucas equipas conseguem com qualidade e segurança: construir pelo corredor central. Tem uma equipa capaz de ser forte em organização, mas também extremamente reactiva em transição. Tanto ofensivamente, como defensivamente. É verdade que não há muitas soluções para além daquelas que vêm sendo utilizadas na primeira linha, mas isso será uma consequência normal da dimensão do país e do desnível no número de praticantes face a outras potências. Há, ainda assim, várias coisas a discutir e a trabalhar, cabendo a Paulo Bento, obviamente, fazer essa reflexão. Por exemplo, parece-me questionável que Patrício use como referência Postiga para as primeiras bolas, sabendo-se a baixíssima % de sequência que tem esta ligação. Ou se usa outro avançado, ou parece-me que Ronaldo deverá passar a ser a referência.

- A grande novidade do jogo foi, sem dúvida, Eliseu. Não apenas pelo golo e as assistências, embora sejam uma excelente evidência do que pode acrescentar. É que Eliseu foi também o jogador com mais passes completados no jogo (51, falhando apenas 3), chamando a si grande parte das iniciativas, e estando também muito bem na reacção à perda. É certo que foi apenas 1 jogo e, para mais, sem um grande grau de dificuldade, mas os indícios são suficientes para serem considerados relevantes e abrir uma outra hipótese, que passa pela utilização de Coentrão como médio. Essa dinâmica está criada com Ronaldo no Real Madrid, e pode ser aproveitada por Paulo Bento. Portugal pode não ganhar muito na posse interior, mas tendo Meireles e Moutinho isso não tem de ser um problema, ganhando-se tremendamente em termos de reactividade do corredor central. Uma hipótese que, a meu ver, Paulo Bento deve considerar, assim que garanta o lugar na fase final...
Ler tudo»

ler tudo >>

6.10.11

Académica - Porto: opinião

ver comentários...
- O jogo acabou por não corresponder às expectativas relativamente à pressão e dificuldades que o Porto poderia experimentar, em face quer do momento menos positivo, quer da própria qualidade do adversário. Os 3 pontos ficaram cedo encaminhados, mas nem por isso este deixou de ser um jogo interessante do ponto de vista da análise. O Porto leva o mérito de ter sabido resolver um jogo potencialmente difícil, a Académica fica com o crédito de apresentar uma proposta de jogo com arrojo e qualidade suficientes para justificar uma discussão invulgar no nosso campeonato...

- Abordando o inicio do jogo, o período em que este se viria a definir, a Académica apresentou-se com os seus comportamentos habituais, mas com uma estratégia mais cautelosa nos momentos de organização. No fundo, a ideia foi reduzir o risco: em construção, com bola, saindo longo e evitando a exposição à perda. Sem bola, e perante a construção contrária, uma postura expectante sobre a primeira linha, não adiantando a pressão. A consequência mais visível foi aquela posse baixa e repetitiva do Porto, que todos constatamos, sobretudo após o 0-2. Vitor Pereira respondeu com uma circulação que tinha a intenção de ser paciente e trazer os médios para a construção. Sobre a paciência, ela nem sempre existiu, especialmente enquanto o jogo esteve com o placar equilibrado. Sobre a opção de trazer os médios para a construção, pelo menos de forma tão marcada, tenho as minhas dúvidas que fosse a melhor estratégia para o jogo em causa. Isto, porque frente ao Benfica, a Académica se havia mostrado vulnerável perante uma circulação mais larga na primeira linha, que fizesse a mudar rapidamente de corredor antes de entrar no bloco, pelas laterais. Aliás, nos primeiros minutos, voltou a mostrar essa dificuldade, mas depois o Porto passou a centralizar as suas saídas, a revelar alguma ansiedade e a cair na tentação de forçar a rotura nas costas da linha defensiva contrária. Esse espaço, o das costas da linha defensiva da Académica, era claramente aquele que tinha de ser explorado. A questão era, por onde?

- A resposta à pergunta com que terminei o ponto anterior parece ser, pelo menos na minha leitura, os corredores laterais. Já fora por aí que o Benfica construíra a sua vantagem frente a esta mesma equipa e foi por aí, também, que o Porto viria a abrir o seu caminho para os 3 pontos. Há nos 2 primeiros golos a semelhança de conseguir um primeiro passe na profundidade, no corredor, fazendo depois um passe atrasado que cria dificuldades de comportamento à linha de fora de jogo da Académica. Sobre os problemas da 'briosa' alongar-me-ei mais à frente, para já fica apenas a nota para este movimento normalmente mais detectável noutras ligas.

- A segunda parte seria diferente, com a Académica a inverter a sua estratégia, saindo mais em apoio e pressionando em zonas mais subidas. De novo, porém, a exploração das costas da linha defensiva viria a ser a chave para o terceiro golo, retirando intensidade e interesse conclusivp ao que se viu na última meia hora. Nesse golo, destaque para a abertura de Helton, que teve grande precisão e com o pior pé. Mais uma demonstração da qualidade do guarda redes a jogar com os pés. De resto, no campo individual, duas notas: uma para Walter, para voltar a assinalar a importância de um jogador que seja forte na área e que "tenha golo". Não digo que se tenha de jogar com um jogador de área, mas penso que é preciso medir muito bem quando se decide abdicar de um. Depois, sobre Otamendi, que teve um jogo preocupante. Acumulou erros a defender, más abordagens, e mesmo com bola foi possivelmente o mais ansioso e menos consistente de todos.

- Finalmente, então, a Académica. O primeiro elogio vai para o que a equipa faz com bola. Em transição é muito lúcida e capaz, usa Eder como referência para primeiro apoio frontal, mas a intenção é sempre tirar a bola da zona de pressão, se possível progredindo em largura e não imediatamente de forma vertical. Em Portugal, não vejo muitas equipas "pequenas" fazer isto. Vejo a tentativa de potenciação das características individuais e do espaço, mas poucas vezes com este critério e intencionalidade. Em organização, igualmente muitas coisas positivas. Intenção de dar amplitude ao jogo num segundo momento ofensivo, de abrir lateralmente o adversário antes do cruzamento, de abrir os médios, de potenciar o 1x1 dos extremos (Sissoko, sobretudo). Os problemas (e as minhas dúvidas) vêm dos momentos defensivos. Primeiro, e como já escrevi, creio que não há um bom condicionamento do ponto de saída, na primeira linha, e que isso cria dificuldades de controlo na fase subsequente. Depois, a última linha. O posicionamento base é muito agressivo, e como se viu frente ao Porto os jogadores nem sempre parecem confortáveis com ele. Dou o exemplo do segundo golo (no momento antecedente à combinação já abordada): o passe largo de Otamendi em direcção à ala (James) tem como resposta um recuo instintivo de alguns jogadores. Ora, sendo o passe tão largo e para uma zona lateral, estariam criadas todas as condições para que se tentasse o fora de jogo. Porquê que isso não acontece? Não posso responder, mas parece-me claro que esta forma tão agressiva de defender na última linha não tem ainda consistência suficiente para ser uma opção de sucesso frente a equipas tão fortes. Veremos como Pedro Emanuel faz evoluir este aspecto do jogo, porque me parece ser a questão mais urgente que tem em mãos...
Ler tudo»

ler tudo >>

4.10.11

Guimarães - Sporting: opinião

ver comentários...
- Continua o enorme interesse em torno da época do Sporting. Não tanto por aspectos técnicos ou tácticos, mas antes sim pelo lado emocional. É esse lado que torna o jogo num mistério, e aquele que dá maior incerteza ao futuro e às possibilidades de sucesso deste Sporting. Que hipóteses tem o Sporting de ser campeão? Racionalmente, poucas. Partia com menos argumentos, já cometeu alguns erros e, apesar do ressurgimento, está atrás dos mais fortes concorrentes. Racionalmente... mas o percurso de Domingos não tem sido excepcional por questões racionais. A capacidade de superação, o lado mental, aquele cuja compreensão nos escapa, que não explicamos, mas inequivocamente constatamos, esse sim, tem foi o segredo do trajecto incrível de Domingos. E, se pensarmos bem, ser campeão com o Sporting seria um feito bem menos improvável do que fazer 71 pontos com o Braga ou chegar à final da Liga Europa com os arsenalistas. Resta reconhecer a incerteza e esperar para ver...

- Relativamente ao jogo, a expulsão e o contexto que se lhe seguiu retirou grande dose de interesse do ponto de vista da análise de comportamentos. O Sporting, que fez um inicio de jogo positivo e prometedor, acabou por preferir reduzir o risco de perder aquilo que era, afinal, o seu objectivo no jogo, os três pontos. Legítimo e compreensível. A reflexão que proponho tem, de novo, a ver com o lado mental. Ou seja, pensemos num cenário de estados psicológicos inversos, e com as mesmas opções tácticas e técnicas... nunca saberemos o que aconteceria, mas eu estou tentado a pensar que as dificuldades do Sporting seriam muitíssimo maiores. De resto, há neste ponto um momento interessante, os últimos minutos da primeira parte. O Vitória está muito perto do empate, por Edgar, e nos minutos seguintes volta a conseguir colocar um jogador em zona privilegiada, coisa que não tinha conseguido, nem repetiria. Era fundamental, para o Vitória, que voltasse a ter um desses momentos na segunda parte, que conseguisse extrair do jogo uma prova de que a crença era justificada. Como não aconteceu, e porque o Sporting sempre fez tudo para o evitar, a segunda parte acabou por ter sempre o "momento" favorável ao Sporting.

- Do lado do Sporting, que é a equipa que venho seguindo com mais pormenor, não houve possibilidades de ver muito em relação à evolução dos comportamentos tácticos intencionais. Ainda assim, voltou a ficar a ideia de uma melhor definição do papel dos médios (em organização defensiva) em relação a alguns jogos atrás, assim como se voltou a ver uma ala direita com grande facilidade de levar o jogo até ao último terço. A curiosidade por ver Jeffren a juntar-se a essa dinâmica, com João Pereira e Elias, é grande. Sobre os aspectos colectivos do Sporting, nota para a compreensível indefinição do que fazer com 10. Domingos, aliás, pareceu ir reagindo com o que o jogo lhe mostrava. Primeiro, retirou Carrillo, talvez escaldado pela falta de apoio a João Pereira no tal cruzamento de Maranhão, que Edgar desperdiçou. Depois, já na segunda parte, viu o mesmo Maranhão ganhar espaço à direita, perante alguma falta de intensidade de Capel, e reforçou o corredor. Na verdade, o Sporting fez pouco a partir do momento de transição, não conseguiu valorizar a posse nem, tão pouco, aproveitar a ansiedade e exposição do Vitória para se aproximar do segundo golo, explorando a profundidade. Domingos conseguiu, pelo menos estancar a fonte dos ataques vitorianos, os corredores laterais, fazendo com que os cruzamentos saíssem cada vez mais de trás e tornando-os mais fáceis de controlar. Como o Vitória não teve nem mais ideias, nem mais inspiração, isso foi o suficiente...

- Já agora, fica a pergunta: como jogar com 10, num contexto destes (expectativa e bloco baixo)? As duas soluções que estou a equacionar (não serão as únicas, evidentemente) são utilizar 441 ou 4311. Domingos acabou por convergir para a segunda, e sou da opinião que era a que mais se justificava. Recordo-me do Porto ter tido uma excelente segunda parte num contexto semelhante, frente ao Besiktas, em que usou o 441, com Hulk na frente. A diferença pode estar nas características dos jogadores. Com 1 jogador mais explosivo e forte no 1x1, pode fazer sentido isola-lo, convidando à exposição. Da mesma forma, se houver extremos com grande capacidade de explorar a profundidade, o 441 pode fazer mais sentido porque permite um desdobramento da linha média a partir do momento de transição, sem perda de equilíbrio. Mas, no caso do Sporting, onde essas características não existem, pelo menos com tamanha capacidade, o 4311 poderia ser melhor solução para o momento de transição, porque é perfeitamente possível defender a largura, em bloco baixo, com a linha de 3 e porque passa a ter mais referências frontais para o primeiro passe após a recuperação. Isto, claro, não invalida a constatação anterior, de que o Sporting pouco extraiu do seu momento de transição.

- Ainda no Sporting, algumas referências individuais. Polga, claro, que fez um jogo tremendo em termos defensivos. Não é surpresa nenhuma, e já havia feito vários jogos deste calibre na época anterior, inclusivamente em Guimarães, num jogo de características semelhantes ao desta época. A diferença no reconhecimento actual tem, na minha perspectiva, apenas a ver com o facto da equipa estar a passar por um bom momento, sendo muito mais fácil ver qualidades individuais nos bons momentos colectivos. Depois, um caso estranho que foi Schaars: esteve não só no golo, mas em vários dos melhores momentos ofensivos da equipa, mas foi também protagonista de uma exibição estranhamente instável ao nível das opções com bola, acabando com uma % de sequência em posse anormalmente baixa. Wolfswinkel, que não teve desta feita oportunidades para marcar, mas que voltou a mostrar o que representa a sua presença nos outros aspectos do jogo, muito efectivo defensivamente e dando sequência à esmagadora maioria dos lances que atraiu para si. Finalmente, nota para André Santos, que voltou a não se exibir dentro dos parâmetros exigíveis, sendo inclusive questionável se não teria sido mais útil lançar Carriço num primeiro momento, porque, e embora seja um central de raiz, este esteve muito mais efectivo no curto espaço de tempo que teve em campo...

- Finalmente, falar sobre o Vitória. Há na exibição da equipa um enorme peso da componente psicológica, parece-me evidente. Más opções, maus desempenhos, nenhuma inspiração. De todo o modo, é preciso dizer que a "era" Rui Vitória tem sido para mim decepcionante. Esperava um crescimento muito maior, sobretudo depois da primeira vitória, bem moralizadora, na Madeira. Não acompanho com rigor suficiente para me aventurar em considerações muito específicas sobre os motivos dos problemas, mas estranho a insistência em jogadores tão inconsistentes, como Barrientos ou Faouzi, quando existem outras soluções aparentemente bem mais fiáveis do lado de fora. Enfim, continuo a acreditar numa evolução, mas só o tempo poderá dar a resposta...
Ler tudo»

ler tudo >>

3.10.11

Benfica - Paços Ferreira: opinião

ver comentários...
- Vou começar por comentar a natureza do jogo. Parece-me evidente o conforto com que o Benfica encarou o jogo, sem necessidade de grandes rasgos, mas com a percepção sempre presente de que uma exibição "normal" bastaria para uma vitória folgada. E assim foi. Há, nesta observação, uma grande dose de mérito do Benfica, que é uma equipa realmente forte, mas o que quero destacar é a diferença de potencial entre as equipas. Repete-se muitas vezes que o campeonato português é muito competitivo, mas eu tenho alguma dificuldade em concordar com a ideia. Não está em causa a capacidade de trabalho nas equipas mais pequenas, mas sim uma diferença de condições que, na minha leitura, se tem dilatado progressivamente com o tempo...

- Relativamente ao jogo, creio que importa contextualizar a estratégia do Paços. Pareceu haver uma intencionalidade de criar problemas desde a zona de construção e, em particular, limitar as saídas do Benfica pelos corredores laterais. Isso foi de alguma forma conseguido. Houve poucas saídas iniciadas por qualquer dos laterais (especialmente Maxi, que é um protagonista normalmente mais activo) e criaram-se situações de grande densidade na zona média, o que dificultou a vida ao Benfica. O que tornou o jogo tremendamente fácil para o Benfica, porém, foi o que acontecia a seguir. Ou seja, se a equipa tinha algumas dificuldades em passar dessa tal zona de maior densidade, quando o fazia, aproximava-se com enorme probabilidade do golo. E isso - a proximidade com o golo - é o que mais liga as equipas ao sucesso. Nota, aqui, para dois factores. Primeiro, os movimentos de lateralização do jogo numa segunda fase ofensiva e, segundo, a óbvia dificuldade do Paços em controlar os espaços na linha mais recuada.

- Sem haver muitas notas a fazer, queria explorar dois temas, começando pela influência das bolas paradas. Foi um dos "abre latas" do Benfica no jogo, conseguindo 4 dos 10 desequilíbrios por essa via. A curiosidade no campeonato encarnado tem a ver com as diferenças de aproveitamento destas situações entre os jogos disputados em casa e fora. Em casa, o Benfica criou 11 desequilíbrios e marcou 4 golos, comparando com apenas 2 desequilíbrios e nenhum golo, nos jogos fora. É certo que jogou mais vezes em casa e que um dos jogos fora foi no Dragão, mas é, ainda assim, um dado curioso e que será interessante acompanhar.

- O outro tema, tem a ver com o papel dos extremos nos movimentos de construção. Há uma intenção de trazer os alas para o corredor central, como solução para o primeiro passe, num movimento também identificado em muitas outras equipas. Aqui, parece-me haver uma diferença grande entre as soluções, com Bruno César a revelar-se mais consistente do que Nolito e Gaitan. Nolito, claramente, não tem qualquer apetência para esses movimentos, sendo um avançado de formação, não tem grande facilidade de desempenho nessa zona, nem, tão pouco, se aventura na procura desses movimentos (creio que esse é o principal motivo pelo qual não é um titular indiscutível para Jesus). Gaitan, por outro lado, aventura-se muito mais por essas zonas, porque gosta de ter a bola seja onde for. O problema de Gaitan é o perfil de decisão, demasiado orientado para o risco e pouco ajustado àquilo que se exige nessas zonas. Joga o tudo ou nada numa zona em que tal ainda não se justifica. Bruno César, por outro lado, parece-me revelar-se bem mais consistente na interpretação destes movimentos específicos. Aliás, em jogo corrido é enorme a diferença de certeza em posse de Bruno César para os outros dois, sendo a do brasileiro na ordem dos 74% e a dos outros dois a rondar os 60%.

- Finalmente, uma referência ao Paços. É impossível exigir-se muito a uma equipa que visita a Luz no momento em que o Paços o fez. Um desafio emocional desta ordem requereria sempre outro enquadramento para poder aspirar de forma minimamente realista ao sucesso. De todo o modo, e como referi, creio que o Paços conseguiu um bom condicionamento do jogo numa primeira fase, sendo esse o grande dado positivo a reter. O problema, defensivamente, é que isso não foi suficiente para garantir o essencial: o controlo objectivo sobre o adversário e a respectiva proximidade com o golo. Depois, no lado ofensivo, o Paços não teve realmente qualquer capacidade de se manter ameaçador ao longo do jogo. A sua zona de bloqueio nunca desencadeou recuperações que originassem transições que pusessem em causa o equilíbrio do Benfica e, em organização, a equipa privilegiou saídas mais longas e menos arriscadas(o que é razoável dado o contexto, diga-se). O que mais se estranhará é que num jogo destas características, Michel não tenha feito parte da equação principal...
Ler tudo»

ler tudo >>

27.9.11

Sporting - Setúbal: opinião

ver comentários...
- Foi, acima de tudo, bom para o ego. Ganhar confortavelmente, resolvendo cedo, criou as condições para um clima desanuviado, longe dos dramas que vinham caracterizando quase todos os jogos em Alvalade. Isso e, claro, o entusiasmo que a própria equipa transmitiu de dentro para fora do campo, contagiando de forma constante as bancadas. Não é um aspecto que desvalorize, aliás, pelo contrário e como já escrevi diversas vezes, a confiança parece-me decisiva para o potenciar do crescimento das equipas. Do ponto de vista da análise, porém, este cenário não conduziu a um jogo muito útil. De todo o modo, e sintetizando, não dá para concluir que teremos um Sporting permanentemente entusiasmante, da mesma forma, de resto, que os primeiros resultados da época não tinham como base indícios para o pessimismo que foi gerado. O futebol é mesmo assim, orientado por emoções e resultados...

- Começo pelos aspectos defensivos, particularmente pelo comportamento em organização defensiva. No jogo com o Rio Ave tinha notado alguma indefinição nos comportamentos na primeira linha de pressão, nomeadamente na relação de simetria entre Schaars e Elias. Desta vez, não vislumbrei o mesmo dilema, mas continuam a ver-se problemas de controlo de espaços e equilíbrio posicional, dentro do bloco. Nota-se uma intenção de agressividade pressionante dos médios, mas ainda com pouco critério ao nível desse comportamento. A agressividade é essencial, mas é-o também que existam prioridades na cobertura de zonas e uma noção colectiva dos comportamentos. Nomeadamente, em algumas circunstâncias notou-se um desguarnecimento da zona à frente da defesa, que culminou, por exemplo, nas acções de finalização de Zé Pedro, na segunda parte. Aqui, parece-me existir também uma perda de agressividade da linha defensiva, mais propensa a proteger-se da profundidade e aparentemente menos disponível para encurtar espaços, jogando alto e sendo pressionante dentro do bloco. Esta, aliás, parece-me ser a grande diferença entre aquilo que vemos hoje e que aconteceu na pré época, onde o posicionamento e atitude da linha defensiva parecia ser mais agressivo e pressionante.

- Depois, em transição ataque-defesa, nota igualmente para a importância da definição das prioridades do equilíbrio posicional na primeira linha de reacção à perda. Já havia escrito sobre isto no último jogo e é um aspecto a continuar a acompanhar, no entanto, queria abordar um aspecto especifico, que são as acções de rotura de Rinaudo. É excelente que o pivot possa ter essa capacidade (desde que decida bem, claro), fundamentalmente porque gera incerteza em quem defende. O ponto aqui vai para a necessidade deste comportamento ter uma correspondência ao nível do tal equilíbrio na primeira linha de reacção. Divagando um pouco, uma ideia poderia passar por ter menos gente à frente da linha da bola, atraindo a marcação para fora e dando mais liberdade a quem decide. De todo o modo, o que quero salientar é a importância de se englobar todas as acções num contexto colectivo, e que quem toma a decisão o faça não só em função do que pode extrair ofensivamente, mas que considere também o risco defensivo.

- Ofensivamente, a equipa combina já bem duas intenções do seu jogo, circular à largura num segundo momento ofensivo, ligando corredores, e promover boas situações de apoio na dinâmica das alas. O grande problema estará, continuo a acreditar, na primeira fase de construção, o que, a confirmar-se, poderá implicar duas coisas: a primeira, é uma maior dependência de um inicio de construção longa, usando o avançado como referência (escrevo mais sobre isto, a baixo...). A segunda, é a necessidade da equipa fazer do seu pressing um elemento decisivo para conseguir impor-se em certos jogos, não tendo de começar sucessivamente na construção. Este jogo foi um bom exemplo disso, com várias bolas a serem recuperadas.

- Antes de duas notas individuais, queria dizer algo sobre o Setúbal. É uma equipa que se destaca pela qualidade técnica do seu meio campo. Na verdade, não estou certo de que isso seja uma virtude. Pelo menos, na redundância de características dos seus médios. Defensivamente, é óbvio que a equipa tem vários problemas, quer ao nível da agressividade dentro do bloco, quer no próprio comportamento da linha defensiva, que baixa facilmente (no segundo golo, por exemplo, Wolfswinkel poderia ter sido colocado em fora de jogo, sem grande dificuldade). Mas, muitos dos problemas da equipa vêm do seu comportamento com bola. Quer em organização, quer em transição se verificam demasiadas perdas, que conduzem a desequilíbrios junto da própria baliza - neste jogo não faltam exemplos. Não escrevi sobre a visita ao Dragão, mas houve situações onde a equipa tinha possibilidade de potenciar situações de igualdade numérica sobre a última linha portista, na saída em transição, mas em que optou por voltar para trás, facilitando, não só a reorganização defensiva do adversário, como a própria recuperação de bola nos instantes subsequentes. No fundo, de que serve ter qualidade e maturidade para sair de zonas de pressão, se depois se permite que o adversário as volte a regenerar sucessivamente? De novo, a minha convicção de que deve ser sempre a bola, o meio, e o espaço, o objectivo, e não o contrário...

- Individualmente, primeiro Van Wolswinkel. A sua fase de concretização é muito boa, sem dúvida. Pessoalmente mantenho a avaliação que fiz no inicio de temporada, neste, como em todos os aspectos. Ou seja, no que respeita à capacidade de finalização, a sua qualidade técnica é forte, e com os dois pés, não é isso que está em causa. O problema que antecipei tem a ver com a sua necessidade em fugir de situações de maior contacto, o que nem sempre será possível. De todo o modo, neste aspecto (eficácia na finalização) não há muito a discutir e o tempo falará por si, quer confirmando os indícios que deixou no Utrecht (na minha leitura), quer confirmando o bom momento que indiscutivelmente atravessa. Para mim, neste plano, não há lugar a sofismas, no médio-longo prazo são os números que ditam lei. O que me motiva mais falar sobre Wolfswinkel, porém, tem a ver com outros aspectos, extra finalização. E, aqui, penso que realmente se revela uma mais valia. Quer pela mobilidade que tem, quer pela capacidade de trabalho defensivo e, sobretudo, pela enorme mais valia que vem oferecer em relação a Postiga ao nível da presença como referência para as primeiras bolas. Frequentemente é um aspecto subvalorizado, mas que tem, a meu ver, grande relevância, para as equipas que utilizam, nem que pontualmente, a saída longa como solução. Já agora, em relação às soluções do plantel para a posição (Bojinov e Rubio), e pelo que conheço, parece-me que Wolfswinkel é quem tem maior capacidade de dar amplitude ao seu jogo, seja na mobilidade que oferece em zonas exteriores, seja na intensidade defensiva. Neste ponto, Bojinov será o caso mais limitado, por não ter grande intensidade nas acções defensivas e necessitar, a meu ver, de estar confinado a acções em zonas mais centrais. Isto, apesar da ser talvez o melhor executante, entre os três.

- Finalmente, falar do jogo de pés de Rui Patrício. O seu momento de menor confiança passará inevitavelmente com o tempo, e a experiência ajudará igualmente o guarda redes a lidar cada vez melhor com estas fases. A questão é que o jogo de pés é mesmo indispensável para que possa atingir outros patamares. Hoje e, estou convicto, cada vez mais no futuro, os guarda redes têm de ser capazes de ser também uma solução para o jogo de posse da equipa. O Barcelona será o caso mais evidente, mas também o Manchester United e muitas outras equipas de topo utilizam esse recurso como parte integrante e importante do seu jogo. Em Portugal, o Porto também o faz com grande intenção e qualidade, com Helton, e o próprio Benfica tem tentado evoluir a esse nível. É normal e desejável que também o Sporting o faça (parece-me que tem tentado trabalhar esse aspecto, e daí, talvez, a maior pressão sobre Patrício), mas, sobretudo para a carreira do próprio guarda redes, é decisivo que consiga evoluir a esse nível.

Ler tudo»

ler tudo >>

26.9.11

Porto - Benfica: opinião

ver comentários...
- Escrevi sobre o assunto aqui, e não é tema novo nestes clássicos. Parece-me, de facto, que o jogo teve um percurso mais equilibrado do que as reacções finais sugeriram, que não houve grandes mudanças do ponto de vista daquilo que as substituições acrescentaram ou retiram à tendência do jogo, e que, apesar do jogo não ter sido de facto sempre igual, são os golos, e os resultados parciais das duas metades do jogo, que mais induzem tais conclusões finais.

- O Porto foi realmente mais forte na primeira parte. Teve mais bola e mais domínio territorial, mas, para além do golo de bola parada, apenas por 1 vez conseguiu traduzir esse ascendente em proximidade real com o golo, pelo que a primeira ressalva a fazer em relação aos primeiros 45 minutos, é que, apesar do domínio territorial, nunca houve uma ameaça constante ao controlo defensivo do Benfica.


- Porquê que o Porto foi melhor na primeira parte? A minha opinião centra-se fundamentalmente na diferença de resposta das equipas na primeira fase de construção. Primeiro, o Benfica nunca jogou, e essa será, talvez, a principal parte da resposta. Em construção, o Porto condicionou sempre bem o lado de saída da bola (normalmente a esquerda, com Garay), e a ligação do primeiro passe foi sempre muito difícil, retirando possibilidade de chegar sustentadamente ao último terço, com bola. O recurso às saídas directas para Cardozo, acabaram por ser as melhores soluções para este momento, nesta fase do jogo, mas mesmo essas não tiveram grande sucesso. Depois, e ainda no Benfica, parece-me importante a falta de capacidade da equipa na resposta em transição defesa-ataque. Pareceu-me haver uma exagerada tentativa de verticalizar, o que não permitiu à equipa ter o melhor critério, acabando por não sair da teia territorial montada pelo Porto. Há, aqui, um jogador que poderia ter sido melhor aproveitado, que é Witsel. Teve uma percentagem de sequência em posse que rondou os 90%, o que é extraordinário num jogo destes e para um jogador que actua em zonas interiores. A sua “imunidade” ao pressing poderia ter dado mais critério à posse do Benfica, ajudando a equipa a sair da tal teia territorial em que se viu metida. O belga tem também alguma culpa na sua menor presença, porque não é um jogador que trabalhe especialmente bem a criação de soluções de apoio.

- Relativamente ao Porto, e à sua construção, há também aspectos muito interessantes a explorar. A equipa preferiu sempre o corredor esquerdo para sair. Seria estratégico? É possível. O facto é que era pelo lado esquerdo que existia uma "nuance" a explorar, porque, mesmo com Witsel mais próximo de Javi, o Benfica tinha uma diferença numérica na zona central, uma vez que Aimar pressionava na mesma linha de Cardozo. Ou seja, com a presença de Aimar na primeira linha, Witsel e Javi ficavam com Moutinho, Guarin e Fernando na sua zona. O que sucedeu? Witsel foi o protagonista da aproximação à zona de Fernando, havendo a possibilidade de explorar o espaço que ficava nas suas costas. A verdade, é que apesar do Porto ter saído pelo lado esquerdo, de ter atraído esse movimento do médio belga, nunca conseguiu tirar partido dessa vantagem. Em particular, há que destacar o papel de Álvaro Pereira e a sua baixíssima percentagem de sucesso na ligação em construção (perdeu 22 das 49 tentativas, em organização ofensiva), destacando-se aqui, claro, a tentativa falhada de potenciar Hulk através de ligações mais directas. O camisola 12 revelou-se até bem inspirado, se pensarmos, por exemplo, que das poucas ligações bem feitas que lhe chegaram resultou a melhor ocasião de golo da equipa, posteriormente desperdiçada por Fucile. Nunca saberemos o que sucederia se Hulk tivesse sido solicitado de outra forma, mas sabemos que, assim, Emerson se tornou no elemento defensivamente mais dominador no jogo, ganhando 24 duelos em organização.

- E a segunda parte? Bom, é verdade que houve uma perda de qualidade do Porto, sobretudo, a meu ver, em organização defensiva, onde deixou de condicionar tão bem a saída de bola do Benfica, facilitando depois a sequência após o primeiro passe. Mas, aqui, há também que considerar o impacto emocional do inicio louco, com 2 golos num espaço de tempo muito curto. De todo o modo, tal como o Porto não fora especialmente ameaçador na primeira parte, apesar do domínio territorial, também na segunda o Benfica não o foi, desperdiçando apenas uma oportunidade de golo, num lance que resulta de uma saída rápida, após canto no lado oposto do campo. Conseguiu, sim, dividir o domínio territorial e a posse, mas não muito mais do que isso. Do lado do Porto, e para além da tal oscilação na resposta em organização defensiva, houve também uma perda de lucidez na saída de bola, contribuindo assim também para a maior capacidade do Benfica em dividir o jogo (apesar de não o ter referido, há um mérito óbvio da qualidade do jogo do Benfica).

- Sobre as substituições, de facto, não creio que tenham sido a chave do jogo (do ponto de vista do balanceamento, porque há o evidente impacto do momento de inspiração de Saviola). Do lado do Porto, talvez se justificasse uma saída de Varela mais cedo, mas vejo como normal a opção de Belluschi por Guarin, até porque não a entendo minimamente como uma substituição de risco, ou, como se sabe, que Belluschi ofereça pior resposta defensiva. Para refrescar o trio de meio campo, teria de ser seguramente por Guarin. Do mesmo modo, do lado do Benfica não entendo ter havido grande impacto nas trocas realizadas. Bruno César teve o mérito de oferecer mais soluções de saída ao primeiro passe de construção, coisa que Nolito não faz com qualidade, e se é possível dizer que isso acrescentou alguns problemas de controlo à linha média do Porto, não creio que tenha sido suficiente para ser considerado decisivo. Decisivos, foram, isso sim, os detalhes...

- Finalmente, sobre os pormenores nos lances decisivos. No primeiro golo, o desencontro de estatura entre Maxi e Kléber, numa tentativa que me parece intencional de potenciar esse desequilíbrio na zona defensiva. No segundo golo portista, a minha nota vai para o facto de Emerson não ter saído para deixar Varela em fora de jogo. É um comportamento previsto na zona defensiva encarnada e, parece-me, poderia ter sido fácil conseguir, uma vez que a linha defensiva tinha o controlo visual completo sobre o posicionamento de Varela. Algo que, com alguma probabilidade, Jesus não terá gostado de ver. Finalmente, nos golos do Benfica, por 2 vezes os laterais aparecem demasiado distantes do central mais próximo. Também o Porto costuma dar grande ênfase a este espaço, pelo que se torna menos tolerável o erro num contexto tão decisivo e, em ambos os casos, em situações de vantagem, onde qualquer risco não se justificava. Os jogos grandes são, pelo equilíbrio que normalmente implicam, muito dependentes destes detalhes, e esta não foi uma excepção.


Ler tudo»

ler tudo >>

21.9.11

Rio Ave - Sporting: opinião

ver comentários...
- E, de novo, permanece a curiosidade em torno do trajecto do Sporting no campeonato. Particularmente, o contraste dos níveis de eficácia ofensiva, das primeiras 2 jornadas para as 2 mais recentes, é quase radical. Tudo somado, temos um registo de eficácia ofensiva acumulada já dentro dos parâmetros normais e superior ao da própria equipa na época anterior, por exemplo. O problema, ao nível dos indicadores de performance, centra-se agora a 2 níveis. Primeiro, e talvez mais importante, deve preocupar a perda de capacidade para criar um maior número de desequilíbrios e, do outro lado do campo, a enorme percentagem de eficácia das equipas contrárias, que se encontra em níveis insustentáveis (O Sporting sofreu 1 golo a cada 1,75 oportunidades dos seus adversários, contra 1 em 2,2 do Benfica - também elevado - e 1 em 3,7 do Porto).

- Relativamente ao jogo, há vários aspectos a abordar, mas vou começar pelos mais positivos, a dinâmica nos corredores e a transição defesa-ataque. Relativamente aos corredores, o problema destacado após o jogo de Paços de Ferreira, das dinâmicas restritas a 2 jogadores, foi claramente corrigido, com Schaars a aproximar-se mais de Insua e Capel, e, do outro lado, Elias a fazer o mesmo. Aliás, o corredor direito promete muito com este papel do brasileiro. A direita foi, outra vez mas melhor, o "motor" da equipa, e falta-lhe apenas alguma melhor definição e acréscimo de criatividade quando chega próximo da área. Não tenho dúvidas de que vai surgir em breve. O outro ponto, a transição defesa-ataque, foi novidade até porque anteriormente o tipo de jogos não havia permitido a exploração desse momento. De novo, Elias teve um impacto muito positivo neste plano. São dois pontos relevantes.

- Agora, os problemas. Em organização defensiva, parece-me haver alguma indefinição no papel dos médios, na pressão sobre a construção contrária. A equipa aproxima o médio interior direito (Elias e, depois, André Santos) do avançado, num comportamento próximo do que é característico no 4-2-3-1. Mas é Schaars quem sai sobre a bola do lado esquerdo, ficando Rinaudo "entrelinhas". Ou seja, quando, Schaars faz este movimento e a bola volta ao central do lado oposto, Elias fica longe da jogada (por estar próximo de Wolswinkel) e é Rinaudo quem tem de se aproximar, abrindo o espaço nas suas costas. Este não foi um problema com consequências no jogo, até porque esta variação do ponto de saída de bola, por parte do Rio Ave, raramente existiu. É apenas um pormenor de observação, faltando-me perceber a sua origem, se é intencional ou se foi apenas pontual. De todo o modo, parece-me claro que há a necessidade de clarificar os papeis dos médios neste momento (organização defensiva), e em várias fases. Por exemplo, vemos pontualmente jogadores (Rinaudo e Schaars) a fazer acções de pressão instintivas, que acabam por conduzir o adversário no sentido contrário ao interesse colectivo. Não creio que seja essa a intenção. Outra questão é o porquê do Sporting ter deixado de definir zonas de pressão mais altas? Não estou a discutir se o deve ou não fazer, apenas a questionar-me sobre a relação entre o bloco médio-baixo que vemos e a tal indefinição que ainda me parece existir no papel dos médios perante a construção contrária. É que para pressionar mais alto, é preciso ter claro quais os jogadores que se juntam avançado na primeira linha. Enfim, também pode ser estratégico...

- Outro ponto, e aqui entro naqueles que me pareceram os motivos para o menor domínio do Sporting em boa parte do jogo, tem a ver com a construção. É muito difícil o Sporting ter uma boa circulação baixa com os centrais que tem. Por exemplo, com Polga a bola raramente entrava directamente no lateral, com Onyewu, entra quase sempre. Qual é o problema? Com esta dependência, facilmente o adversário anula as soluções de passe na primeira linha (4 jogadores), com apenas 2 unidades, podendo depois fechar o campo no corredor. Ao Sporting, valeu o bom jogo de posse dos jogadores desse lado (direito), mas foi ainda assim limitativo. Não só a equipa foi incapaz de usar a circulação como forma de gerir o jogo, como esse factor condicionou outro momento, o da transição ataque-defesa, quando a bola não entrava no último terço...

- Sobre a transição ataque-defesa, volto aos médios, e a um em particular, Schaars. A amplitude de acção que é exigida à sua posição é enorme. Tem de dar apoio ao corredor, de oferecer soluções de passe ao centro, de fazer movimentos de profundidade e de aparecer ao lado do avançado para finalizar. Mas tem, também, de defender. Mais difícil do que saber o que fazer, é ser-se capaz de fazer tanta coisa, e Schaars tem problemas evidentes ao nível da resposta defensiva, e o seu papel não pode ser o mesmo de Elias, por exemplo. Não estou, obviamente, a colocar todas as responsabilidades nos ombros do holandês, mas parece-me um caso que deve ser melhor considerado, nomeadamente a gestão das acções ofensivas dos médios e o consequente equilíbrio em transição. O facto é que o Sporting teve alguns problemas para controlar este momento, quando a perda acontecia à entrada do último terço, em zonas onde são os médios/extremos a fazer a primeira reacção. Claro, também contribuiu o amarelo a Rinaudo, que impediu o argentino de manter a mesma agressividade na contenção, a partir desse momento. Ainda assim, e como sempre, o argentino voltou a estar fantástico na resposta dada a este nível.

- Finalmente, comentar dois casos individuais, Rui Patrício e Onyewu. O guarda redes teve um jogo horrível e grande parte da reacção do Rio Ave deve-se a ele. Porque foi de um erro seu que saiu o primeiro motivo de crença para os vilacondenses, numa saída aérea desastrada, e porque o 1-2 é decisivo para o crescimento motivacional do Rio Ave, sendo um golo absolutamente proibitivo de sofrer. Os problemas a outros níveis não têm a ver com ele, obviamente, mas o guarda redes é decisivo na definição dos resultados e a tal diferença de eficácia defensiva para os rivais não pode ser dissociada da má fase de Patrício neste inicio de temporada. Sobre Onyewu, é um caso interessante... Estamos perante um jogador que, a meu ver claramente, não tem qualidade para jogar a este nível, nos 4 momentos tácticos do jogo, sendo uma condicionante óbvia tê-lo em campo. Mas... e as bolas paradas? O Sporting tem um histórico terrível neste detalhe, quer no plano ofensivo, quer no plano defensivo, e o americano tem-se revelado uma mais valia clara a esse nível. 5 das 12 intervenções defensivas em lances desse género, foram dele, e em 2 jogos igualou o registo acumulado de golos na Liga de Polga e Carriço. Juntos e em mais de 250 jogos! Se fosse Andebol, tinha solução, assim, é mais difícil...
Ler tudo»

ler tudo >>

AddThis