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19.1.12

Real Madrid - Barcelona: O mais desequilibrado desde o 5-0?

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O resultado permite sempre exacerbar méritos de vencedores e deméritos de vencidos, e quase sempre isso que acontece, mas na minha opinião há uma diferença significativa de caso para caso. Desde logo, por exemplo, do recente 1-3 para este. Desta vez, realmente, creio que houve uma diferença contínua de qualidade na afirmação das respectivas propostas de jogo. O mais desequilibrado desde o 5-0? Para mim, e se tivermos em conta a globalidade dos 90 minutos, sim.

Sem me querer alongar muito, o que penso que prejudicou o Real, neste mais do que em outros casos, foi a incapacidade de conseguir extrair qualidade nos momentos em que teve bola. Não quantidade porque essa não se discute, mas qualidade. Se a tentasse ganhar mais à frente, como fez em alguns jogos da série do ano passado, faria sentido a verticalização como regra. E, olhando à composição do onze, Mourinho preparou mesmo a equipa para verticalizar. Assim, recuperando mais baixo, era importante ter mais critério e capacidade para oscilar entre a verticalização e a opção de levar o jogo até ao meio campo contrário, sem risco constante de perda. Podia não criar sempre perigo, mas obrigaria o Barça a baixar mais vezes, podendo depois defender a partir da reacção à perda, entrando mais vezes naquele que é, afinal, o seu jogo habitual. Mas, continua a dúvida, não sobre a qualidade do Barça com bola, mas sobre o porquê das outras equipas conseguirem jogar tão pouco. Particularmente, estranha ver uma equipa com a qualidade do Real Madrid (não me sobram dúvidas de que se o Barça de Guardiola é o melhor de sempre, o Real de Mourinho não fica muito atrás na hierarquia da História) tremer tanto com a bola nos pés. O mérito do Barça é enorme, mas explicará tudo? Ou haverá um constrangimento emocional? Seja como for, não estou convencido de que não seja possível fazer mais...

Do lado do Barça, a grande novidade para estes clássicos, reside em Alexis. No ano anterior também vimos Pedro ou Villa por dentro, mas com o chileno há um baile constante com os centrais no limite do fora de jogo. Sempre que a construção liberta um jogador de frente para ele, Alexis ameaça, e muitas vezes vai mesmo. É, no fundo, a resposta estratégica de Guardiola ao previsível sufoco "entrelinhas" e à obsessão com Messi.

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18.8.11

Os imbatíveis sub 20 e o privilégio da 'SuperCopa' (breves)

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Em primeiro lugar, claro, a Final inesperada!

Grande resultado para o futebol português! Enfim, talvez ajudasse alguma identificação maior dos adeptos com os jogadores, e com a equipa. Não é possível comparar o sentimento com o de 89 ou 91. Mas, nem eles têm culpa, nem estão menos de parabéns por isso. É confuso, ainda assim, este resultado não combinar com a perspectiva clara de um "craque" a emergir. Um único, que fosse, por exemplo, aposta forte de um dos principais clubes nacionais (e, nem me restrinjo aos 3 "grandes"...). Como eram João Vieira Pinto, Peixe, Figo, Rui Costa, ou outros, que não singraram, mas, pelo menos, iludiram.

Mas, para chegarem até aqui, tem de haver algum mérito, quer individual, quer colectivo. Pelo menos, à escala de nível onde jogam. É quase impossível que não haja...

Por fim, fica a minha nota sobre este exercício de projectar jovens. Não domino, claramente, essa "arte". Nunca me dediquei afincadamente, mas já percebi que há algo que me escapa para poder ser consistente. O ponto é que esse "algo" parece escapar também à maioria das pessoas. É a minha percepção. Nunca dei com alguém que denotasse grande acerto nos seus prognósticos a este nível. E não são poucos os que tentam. Tanto dá certo, como dá um espectacular fiasco. Ou seja, tem pouco valor. Talvez um dia perca mais tempo com este desafio, porque parece ser interessante...


Um pouco antes, um grande aperitivo, para a época. O Barça mereceu, foi melhor, mas não tanto se tivermos em conta as duas mãos. Enfim... que interessa quem mereceu? O que interessa é que foi mais um espectáculo fantástico, recheado de tudo (mas tudo!) o que um grande jogo precisa de ter. Como adeptos, somos uns privilegiados!

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6.7.11

Para haver um Coentrão, é preciso um Shaffer (e outras notas...)

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1- Há ano e meio, ainda a realidade de Coentrão como lateral era uma mera hipótese. Na altura, e quando se projectava a possibilidade de se dar uma aposta mais continuada na sua adaptação como defesa, escrevi aqui que a transição poderia ser a melhor notícia na carreira do jogador. O mundial teve um impacto mediático tão forte, que poucos se recordarão, hoje, da rapidez deste processo de ascensão meteórica, ou das enormes dúvidas que na altura se colocavam sobre esta adaptação.

O ponto que em que quero nesta altura tocar, é o mesmo que já realçara no texto acima referido. Ou seja, a constatação inequívoca do enorme sucesso que têm tido as adaptações nas posições de defesas laterais. Adaptar um lateral deve ser, nos últimos anos, o tipo de acto de gestão que mais rentabilidade trouxe ao futebol português e, no entanto, continua a não ser detectada qualquer intencionalidade estratégica neste processo. Para haver um Coentrão, continua a ter de haver um Shaffer.

2- Do ponto de vista desportivo, a saída de Coentrão terá um peso significativo no Benfica. É inevitável, estamos a falar de um jogador de grande capacidade interventiva e com enorme influência positiva no jogo da equipa. Estatisticamente, por exemplo, foi só o segundo jogador da Liga que mais contributo ofereceu à sua equipa, apenas superado por Hulk. O problema agrava-se quando se percebe que a descoberta de Coentrão foi mais um acidente (apesar do mérito de Jesus no processo), do que algo que se possa repetir facilmente.

3- Importa também abordar a importância financeira do negócio. O mercado (não só em Portugal) tem dado sinais de uma atrofia com repercussões difíceis de prever - escrevi algo sobre isso, aqui. Por muito que o negue, é bem provável que o Benfica sinta algum alívio por este encaixe.

4- Finalmente, do lado do Real Madrid, e apesar do valor de Coentrão, esta aquisição soa a luxo. Marcelo vinha sendo uma aposta com resultados (também uma adaptação), mas que deverá ver a sua afirmação descontinuada com a chegada de Coentrão. Sendo uma solução do mesmo tipo, dificilmente alguém adivinharia que este fosse um investimento prioritário para o Real Madrid.

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8.6.11

Reforços 2011/12: Nuri Sahin (Real Madrid)

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No inicio da temporada fiz algumas observações no campeonato alemão, sobre as quais, e por não as ter terminado, nada publiquei. Aproveito, no entanto, alguns dados desse trabalho para dar a minha opinião sobre a recente aquisição do Real Madrid, Nuri Sahin.

De facto, não teria dúvidas em elege-lo como o melhor jogador do campeão, Borussia Dortmund, tratando-se de um dos médios que mais garantias dão para o futebol mundial, na próxima década. A sua contratação entende-se facilmente, se juntarmos três vectores: a sua qualidade, a sua juventude e a seu enquadramento táctico.

Em termos de características, trata-se de um médio canhoto, com boa capacidade de trabalho e notável qualidade técnica. Em particular, destaca-se a sua capacidade para verticalizar o jogo, sendo um jogador muitas vezes determinante por essa aptidão. O critério é, um pouco à imagem do futebol alemão, muito sólido e emocionalmente estável, no momento da decisão. Ainda assim, é provável que o critério seja, a par de alguns aspectos de ordem táctica, o principal desafio na adaptação de Sahin ao futebol do Real.

Parece-me importante notar o seu enquadramento táctico, sendo que Sahin vinha jogando numa estrutura de "duplo pivot", idêntica àquela que provavelmente encontrará em Madrid. Este dado retira grande dose de risco à aquisição e é muito provável, na minha leitura, que Sahin ganhe rapidamente o estatuto de titular, ao lado de Xabi Alonso.

Vídeo

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30.5.11

Análise Barcelona - Man Utd (I): Estatística e opinião

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1- Na antevisão, havia confessado a minha dificuldade em antecipar qual a solução de Ferguson para conseguir conciliar 1)a necessidade de manter o jogo longe da sua área e 2) a sua aversão a correr riscos no posicionamento da última linha. A resposta não foi a que esperava, mas, devo dizer, foi ao encontro das minhas piores expectativas. A estratégia de Ferguson para o condicionamento da posse do Barça foi, a meu ver, e com larga distância, o factor que mais condicionou as possibilidades do United.

2- Voltarei ao tema com imagens, mas, para já, digo apenas que, apesar de Piqué e Busquets serem elementos importantes na construção blaugrana, estão longe de poder ser considerados "prioritários", face a outras unidades. Creio que a origem do pensamento de Ferguson e tentarei enquadrar a solução com um episódio passado, mas, para já, fica apenas a opinião de que ao tentar "prender" Piqué e Busquets, Ferguson deu também mais liberdade ao trio Xavi, Iniesta e Messi, e complicou ainda mais as possibilidades da sua equipa controlar o espaço entre linhas. O aproveitamento que o Barcelona fez desse espaço - de onde resultou a maioria das suas ocasiões, note-se - foi, e repito a opinião, o que mais desequilibrou a balança do jogo.


3- Para além do descontrolo no espaço entre linhas, o United denotou também grande incapacidade em provocar o erro e, como consequência, aproveitar o momento de transição para ser perigoso. É curioso, aliás, verificar que o United teve até uma quantidade razoável de posse de bola, com boa percentagem de sequência em posse e sem grandes problemas em termos de perdas de risco. Não são dados que se esperem frente ao Barcelona, mas esta constatação serve também para verificar como estes indicadores podem ser absolutamente irrelevantes num jogo de futebol. E são-no porque, por si só, não garantem, nem controlo defensivo, nem capacidade de desequilíbrio ofensiva. Em suma, o United comprometeu todas as suas possibilidades por aquilo que aconteceu no seu momento de organização defensiva.

4- Não é a primeira vez que o escrevo, mas parece-me que o Barça de hoje é o mais difícil de neutralizar. Mesmo, considerando a qualidade que Eto'o lhe trazia antes do erro que foi a sua troca por Ibrahimovic. E tudo tem a ver com o papel de Messi. A sua posição como falso avançado cria um dilema táctico, até agora sem resolução: nenhuma equipa arrisca perder presença na última linha defensiva, mas, ao manter essa prioridade, os adversários do Barça estão também a tornar impossível garantir superioridade nas zonas mais interiores, onde o Barcelona é mais forte. O ideal seria poder jogar com 12!

5- Volto, de novo ao tema dos 4 duelos com o Real Madrid. Não há paralelo possível entre aquilo que fez Mourinho nos primeiros 3 jogos - onde dividiu por completo as possibilidades de vitória - e aquilo que o United fez nesta final. A diferença, basicamente, está na noção de quais os espaços que são importantes condicionar. Mas há uma coincidência entre ambos os casos: depois da derrota, os dois treinadores serão acusados de terem sido demasiado "defensivos". O ponto, e outra vez, é que ninguém escolhe "atacar" ou "defender". Ataca-se quando se consegue e, para o conseguir, é preciso ser-se bom a defender. Essa foi a diferença entre Real e United: ambos jogaram "pouco" (até menos o Real) mas, ao contrário de Ferguson, Mourinho foi capaz de colocar a sua equipa a jogar "pouco", mas "bem". E, se o objectivo do futebol ainda é marcar mais e sofrer menos, então... é só isso que é preciso.

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28.5.11

Mais um título para o Super Barcelona (breves)

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- Os primeiros minutos ainda deram outra ideia: muita vontade do United de pressionar alto e retirar proveitos das recuperações que pudesse na zona de construção do adversário. Sem pressa, no seu ritmo, porém, o Barça foi-se impondo, acabando depressa por revelar o problema que abordara na antevisão. Ou seja, pressionar alto sem subir a linha defensiva, mais do que provavelmente, iria implicar a abertura espaços no bloco defensivo. Um regalo para o futebol de Xavi, Iniesta e Messi, que mais não parecem procurar do que os espaços entre linhas. Apenas o golo do empate adiou o inevitável, e a segunda parte foi de domínio avassalador. Domínio e descontrolo do United, é preciso notar. O Barça parou no 3-1, quando quis.

- O triunfo blaugrana faz justiça ao futebol que a equipa pratica. Não se pode querer ficar na História sem vitórias, mas, com elas, este Barça terá certamente um lugar bem vincado na memória de todos. Quanto tempo durará? Têm a palavra, parece-me, dois homens: Guardiola e Mourinho. Guardiola, porque quando decidir abandonar Camp Nou, nada garante que não teremos um retrocesso ao tempo de Rijkaard. Mourinho, porque, goste-se ou não, é o único que consegue tornar incerta uma série de duelos com esta fenomenal equipa. Guardiola perdeu três títulos, dois pelas mãos de Mourinho e, como hoje se viu, o que fez o Real não está ao alcance de qualquer um...

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24.5.11

Convocatória, Mourinho e Domingos (Breves)

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- Para que não se confundam pequenos detalhes com traves mestras, as possibilidades de sucesso de Paulo Bento e da Selecção não estão condicionadas por pormenores de convocatórias, pela escolha pontual de A ou B. Ainda assim, parece-me que há dois casos que indicam algo: 1) Beto, porque jogou regularmente nos últimos 2 meses, protagonizando algumas exibições decisivas e mesmo impressionantes, como contra Marítimo e Guimarães. 2) Liedson, porque, como escrevi ontem, se não é para contar com o jogador, não faria também sentido pré-convocá-lo.
Estes dois casos não serão os únicos discutíveis, mas merecem-me particular destaque por são flagrantes no que respeita ao momento e condição técnica dos jogadores. Ou seja, o que isto indica é que, para Paulo Bento, há métricas para além do critério técnico que contam para a composição do seu grupo. Se for assim, estou de acordo.

- Ontem não o referi, mas posso fazê-lo hoje. É um incómodo para inúmeras teorias de raciocínio invertido sobre o José Mourinho de hoje, que o "seu" Real Madrid termine a liga com 92 pontos e 102 golos. O registo ofensivo é avassalador, e não tem paralelo na carreira deste técnico, segundo consta, "cada vez mais defensivo". O registo pontual é também fantástico e apenas é superado pela sua primeira temporada no Chelsea.
Retirássemos o "fenómeno Barcelona" da equação e Mourinho seria hoje, e para todos, o treinador genial que sempre foi. Provavelmente, até, concordar-se-ia estar melhor do que nunca.
Numa cultura em que a inversão de raciocínio é a forma mais banal de se parecer inteligente, porém, haverá sempre quem ouse estender o exercício até ao limite...

- Foi o tema do dia: Domingos foi confirmado como treinador do Sporting. Não é surpresa para quem acompanha o que escrevo que penso ser uma boa notícia para o Sporting e para a própria competitividade da Liga. Ainda que a tarefa se adivinhe espinhosa, note-se. Mas reservo mais considerações para outra ocasião...

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4.5.11

Barça na final, no encerramento dos duelos (Breves)

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- Importa, primeiro, realçar a justiça da qualificação do Barcelona. Não que o Real Madrid não o pudesse ter merecido também. Bastaria, por exemplo, que tivesse repetido o rendimento da final da Taça do Rei. O ponto principal do ajuste deste apuramento para a final (e, antecipo, provável vitória), está na qualidade do futebol do Barça, que é - e seria sempre, fosse qual fosse o desfecho da eliminatória, incomparável a toda a concorrência. Estamos a falar, a meu ver inquestionavelmente, da melhor equipa da História do jogo. O mérito de Mourinho e do seu Real Madrid, foi (é, e continuará a ser) levantar a dúvida se isso seria suficiente para ganhar. Estamos perante o mérito da excelência e o mérito da capacidade de superação. Qual deles o mais valioso? É uma discussão possível, mas que me parece ter pouco relevo.

- Termina, para além da eliminatória, uma fantástica série de quatro jogos entre os dois maiores colossos do futebol mundial. O saldo, apesar de empatado em termos de resultados jogo-a-jogo, é favorável ao Barcelona, sobretudo pela importância maior da Champions sobre a Taça do Rei. Voltarei com mais análises a este jogo e balanços desta série de confrontos, mas posso avançar com uma pequena opinião sobre este jogo: apesar de ter terminado com um empate, este foi, sem dúvida, o jogo mais controlado e confortável para o Barcelona. Pela folga no resultado, sem dúvida, mas também porque o Real, e ao contrário do que foi por muitos defendido, trocou o cérebro e a inteligência organizacional estratégica, pelo impulso e pela correria. Mais suor, menos organização, e tudo mais fácil para o Barça. Obviamente.

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3.5.11

Mourinho: Nem ele mudou, nem quem o critica

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Está fácil "malhar" nele. Não é surpresa, era previsível que assim fosse. Pela natureza do ser, e porque, em boa verdade, os elogios de ontem, como as criticas de hoje, sempre tiveram, e salvo raríssimas excepções, a mesma base fundamental: os resultados.

Ainda assim, é sempre triste constatar esta superficialidade, expressa, mais do que noutra qualquer coisa, na confluência do "timing" com o volume das criticas.

O alibi é o "estilo". Que ele o mudou, que não era assim. Fácil perguntar onde estavam quando, há um ano, com o mesmo "estilo", era o "Rei" do mundo do futebol? Fácil perguntar porque é que um "estilo" só perde valor ao fim de 300' de duelos, quando, ao fim de 210', ainda parecia genial? Mas, mais interessante ainda será recordar o seu primeiro duelo frente ao mesmo adversário, em 2005 (que jogo!): Qual foi o "estilo"? Controlo do espaço e transição.

Ganhar, a sua prioridade. Os resultados, a única métrica deles. Não nos enganemos, ninguém mudou. Nem ele, nem quem o critica.

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28.4.11

R.Madrid - Barcelona: Estatística e algumas notas

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1- Como já referira ontem, este foi, na minha opinião, o pior dos três duelos já disputados entre as equipas. O pior, de parte a parte. Do lado do Barcelona, justifica-se a perda de qualidade pelas ausências de Iniesta e Adriano (ou mesmo Maxwell). Esse, aliás, era um ponto a explorar pelo Real Madrid, que não pode ter nas baixas de Khedira e Carvalho explicação suficiente para o jogo menos conseguido em relação aos anteriores. Particularmente, a primeira parte. Como constatação fundamental fica a convergência do jogo em que o Barcelona menos erros cometeu (ou foi forçado a cometer) em posse, e aquele onde o Real menos perigo criou. Sublinho "convergência", para que não se confunda com "coincidência".

2- Começando por essa "nuance", das ausências de Iniesta e Adriano, e num detalhe que gostaria de aprofundar com imagens (mas não sei se haverá oportunidade), creio que Mourinho terá perdido uma oportunidade de ouro para condicionar, melhor e de outra forma, a posse do Barça. Sobretudo, a presença de Puyol à esquerda, e tendo em conta a qualidade dos restantes pontos de saída de bola, devia ter sido explorada, possivelmente libertando o lateral e forçando deliberadamente que a bola entrasse por esse corredor. A ausência de Iniesta era o complemento ideal, porque Keita não é, nem de perto, uma solução tão ameaçadora como o habitual camisola 8. Nada disto foi feito, porém. Puyol foi aquele que menos jogou dos elementos de construção, e teve uma actuação isenta de erros comprometedores, com uma % de sequência em posse próxima dos 90%. Keita, por seu lado, teve cerca de metade da influência em posse de Iniesta na primeira partida, mas sem que isso representasse um problema de segurança em posse para o Barcelona.


3- Na análise ao último jogo, trouxe aqui a importância do aprisionamento dos laterais aos corredores para o sucesso da posse do Barça. Pois bem, Guardiola terá reparado também nisso e, desta vez, abriu claramente Pedro e Villa, impedindo Arbeloa e Marcelo de auxiliar os médios em zonas mais interiores. Este pormenor é importantíssimo para o desconforto do Real no pressing do primeiro tempo. Sobretudo à esquerda, Ozil revelou-se pouco agressivo e útil (também já tinha escrito sobre esta condicionante na utilização criativo alemão), e Lass andou perdido entre a decisão de pressionar a zona de Busquets ou manter a posição na zona de Keita. O resultado foi um notório desconforto do Real no pressing, e um número muito menor de erros em posse do Barcelona. Uma das soluções poderia passar por aproximar mais claramente um dos centrais no espaço entre linhas, ou, como expliquei, "desprezar" deliberadamente a protecção zonal a Puyol.

4- Estes duelos ficam marcados, em termos tácticos, pela adaptação defensiva de Mourinho à fantástica capacidade de posse e circulação do Barça. O que é igualmente importante notar, é que a adaptação faz-se também em relação à capacidade defensiva do Barça. Ou seja, o Real, quando tem a bola, não joga da mesma forma que faz durante toda a época. Tenta soluções mais directas, e os seus jogadores sentem-se muito pouco confiantes com a bola nos pés, como que aterrorizados com a possibilidade da perda. Pode (e deve, a meu ver) discutir-se até que ponto é justificado tamanho respeito, mas o ponto nesta altura mais importante a relevar (e não me canso de o repetir) é que a "revolução Guardiola" dá-se muito pela qualidade transversal que o treinador introduziu na equipa, e que anteriormente não existia. Isto é, o Barcelona não é a melhor equipa do mundo apenas pela sua capacidade em posse, ou pela genialidade de Messi. É, também (e na minha opinião), a equipa que melhor defende no mundo.

5- Importante notar que, apesar da justiça inequívoca da vitória, pouco indiciava que esta fosse tão fácil para o Barça como acabou por acontecer. Ou seja, até à expulsão o jogo distinguiu-se sobretudo pela ausência de oportunidades, tendo havido apenas uma para o Barça, em 60 minutos. Aliás, o Real teve o seu melhor momento precisamente no primeiro quarto de hora do segundo tempo, com a entrada de Adebayor a produzir notórios efeitos, seja pela maior agressividade do togolês, seja pelo acréscimo de clarividência colectiva do Real com essa alteração. Ninguém sabe o que daria o jogo em igualdade numérica, mas sabe-se que, e ao contrário do que acontecera no jogo para o campeonato, foi apenas perante a situação de superioridade numérica que o Barcelona acabou por justificar verdadeiramente o triunfo.

6- Em termos individuais, quero acrescentar algumas notas. Para Piqué, porque quando se fala do "melhor central do mundo", não se pode nunca deixá-lo de fora. Para Pepe, porque a sua utilização à frente do "pivot" voltou a não ser tão produtiva como havia sido no primeiro jogo, onde jogou como elemento mais recuado do meio campo. Para Ronaldo, que tendo feito o jogo mais desinspirado da série, deu um exemplo de entrega, sendo o jogador que mais intercepções conseguiu na sua equipa (notável, para um avançado!), e apenas superado por Piqué, no jogo. Para Messi, que não teve, a meu ver, uma exibição tão boa como noutros jogos, mas que acabou por emergir nos momentos certos, ficando na "fotografia" uma exibição histórica. Para Afellay, sobre quem escrevi algum tempo antes de se transferir para a Catalunha. A sua versatilidade e qualidade permite-lhe jogar em várias posições, mas continuo a pensar que é em zonas de construção que está o seu potencial.

7- Duas notas sobre as peripécias destes duelos (e não só, já agora). Primeiro, para realçar que, ao contrário do que em certos momentos se quis fazer passar, não há equipas mais "nobres" do que outras. Ou, pelo menos, não a este nível. O jogo teatral e de pressão sobre os árbitros em contexto de jogo (e estou a referir-me apenas aos jogadores), é uma "arte" de especialidade latina, mas que acontece em todos os lados e em todos os desportos. O motivo resume-se ao simples facto de os jogadores quererem ganhar e estarem dispostos a fazer tudo o que está ao seu alcance para tal. O ponto deste meu comentário, é que o Barcelona, tal como qualquer equipa, joga essencialmente para ganhar. A sua realização/frustração depende do resultado e não de outras métricas. Não perceber isso, é não perceber boa parte da natureza e mentalidade desta fantástica equipa. Segunda nota, para referir que se adeptos e público não se revêem nos jogos de simulações e pressões sucessivas dos jogadores, então devem censurar quem define as regras do jogo, muito mais do que os jogadores. Os jogadores, como qualquer um de nós, só querem o melhor para eles. E o melhor para eles, hipocrisias à parte, resume-se numa simples palavra: ganhar.

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"Superclásico III", a vez do Barça (breves)

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- É uma semana sobrecarregada pelo "portuguesismo" das meias finais da Liga Europa, mas, ainda assim, tentarei voltar a este jogo mais do que 1 vez. O interesse enriquece-se pela sequência de duelos e pelas "nuances" que vamos observando de um para outro, e este foi mais um que trouxe novos elementos em relação ao jogo anterior. Desta vez, foi o Barcelona a levar a melhor, naquele terá sido o jogo menos conseguido, de parte a parte, nesta sequência. Mais motivos para estar decepcionado consigo próprio tem o Real Madrid, que tinha, nas ausências de Iniesta e Adriano, uma oportunidade para fazer melhor. Acabou por funcionar ao contrário, e, com alguma falta de lógica, foi quando mais condições tinha para ser bem sucedido, que o Real sucumbiu à maior força do adversário. É pena, porque este era precisamente o único embate desta série que poderia "estragar" o interesse do seguinte. Sobre os detalhes, como disse, escreverei mais tarde. Para já, fica apenas a nota de que Messi terá, mais do que provavelmente, garantido mais uma bola de ouro na sua carreira, com esta exibição.

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22.4.11

Final da Taça do Rei (II): Estatística e algumas notas de análise

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1- Começando pelo Real Madrid... Antes de mais, a estratégia foi, senão a mesma, extremamente próxima daquela apresentada no jogo para o campeonato. O que variou foi o resultado da sua aplicação, sendo muito mais produtivo na primeira parte do que no restante deste jogo, ou mesmo na totalidade do embate anterior. Não se confunda, por isso, intenção com concretização. Não é por ter conseguido melhores períodos no jogo que o Real foi intencionalmente "mais ofensivo" desta vez. Apenas o conseguiu ser, a intenção a mesma.

2- Importa, porém, notar algumas diferenças (ligeiras) na abordagem de Mourinho, ainda que elas estejam sobretudo relacionadas com aspectos individuais. A principal alteração tem a ver com Ronaldo. No jogo de Madrid, Ronaldo foi ala, teve de baixar no corredor e frequentemente partiu para a transição de posições demasiado baixas. Mourinho terá pretendido potenciar Ronaldo, colocou-o na frente, parecendo-me, inclusive, com menores restrições defensivas do que Benzema no jogo anterior. Depois, sem Ronaldo na ala, houve os únicos ajustamentos posicionais que diferenciaram desde o último jogo. Ou seja, Mourinho baixou mais os alas, para adiantar Pepe e Khedira para uma pressão ligeiramente mais alta no corredor central. A ideia parecia ser forçar a saída pelos corredores, embora isso raramente tenha acontecido.

3- A primeira parte foi, como ficou fácil de ver, controlada pelo Real Madrid. Conseguiu manter o Barcelona sempre longe da sua área (praticamente não lá entrou) e potenciou, depois, erros pontuais que deram origem às transições pretendidas. Os motivos desta situação têm a ver com a convergência repetida da posse do Barça para zonas superpovoadas de jogadores do Real Madrid. Particularmente na meia-esquerda do ataque catalão onde, como já expliquei no post anterior, Arbeloa estava quase sempre livre para fazer a diferença em zonas interiores. O Barça nunca conseguiu ter posse útil no espaço à frente da linha defensiva e, assim, nunca ameaçou o golo.


4- Sobre as alterações radicais na tendência de jogo, já destaquei o efeito Pedro, pelo que não vou abordar esse relevante factor. Depois, e tal como referiu Guardiola, o Barça foi mais lesto nas segundas bolas, mais rápido a reagir e a sua viragem no jogo passou também pela capacidade que teve acrescentar os momentos de transição à sua ameaça, algo que havia sido restrito ao Real Madrid, na primeira parte.

5- Sobra um aspecto que é importante abordar e que ajudará, igualmente, a explicar as oscilações no jogo, nomeadamente o prolongamento, onde, e contra todas as expectativas, foi o Real quem se voltou a superiorizar de forma clara, em termos de proximidade com o golo. Falo do aspecto emocional e dos momentos das equipas. Durante o jogo foi se falando do cansaço e da possibilidade do Barça usufruir do facto de jogar com bola para se desgastar menos e estar melhor com o desenrolar do jogo. A verdade é que muito daquilo que nos parece meramente físico é também psicológico. Se o Real esteve pior na segunda parte e o Barça melhor, foi também porque os níveis de confiança mudaram com as primeiras jogadas após o intervalo. O Barcelona sentiu que poderia conquistar o espaço e o Real sentiu-se ameaçado. Os jogadores do Barça foram crescendo em termos de desempenho e os do Real perdendo lucidez no posicionamento defensivo e na clarividência do primeiro passe de transição - diria, o momento fulcral para a definição de um jogo com estas características. Do mesmo modo, o estado de crença e confiança dos jogadores terá começado a mudar nos instantes finais da segunda parte, quando o Real voltou a aproximar-se do golo, e terá definitivamente mudado no inicio do prolongamento quando, antes do golo, foi o Real que conseguiu primeiro criar perigo, aproveitando uma perda de Xavi.

6- No Barcelona, Guardiola não parece muito interessado em discutir estratégias ou abordagens. O Barça é muito mais forte dentro do seu estilo e acredita que para aumentar as suas possibilidades de vitória, é suficiente que se preocupe consigo próprio. É uma constatação objectiva que o Barça é melhor e que o Real é que tem de se adaptar. Mas é-o também que a vida não tem ficado mais fácil para o Barça. Pelo contrário, tem perdido jogadores (agora Adriano, que pode vir a fazer falta), e visto aumentar o estado de confiança do rival. Mesmo sendo melhor, convém que o Barça vá procurando também as suas formas de crescer em qualidade. Por exemplo, seria uma equipa ainda mais forte se apresentasse outra valia nos lances de bola parada. Dado o volume de jogo que apresenta, seria um complemento importante para a sua proposta de jogo.

7- No Real, a evolução desta série de jogos é mais interessante de seguir. Mourinho tem de fugir do seu estilo e encontrar um "contra-estilo" para vencer o Barça. Para já, está a correr-lhe de feição. Já tinha abordado o lado positivo do empate anterior e, em termos mentais, esta vitória pode ainda catapultar mais a equipa. Mas, Mourinho ganha também em soluções individuais. Ronaldo representou uma mais valia em transição, Arbeloa-Ramos um duo muito mais forte do que Ramos-Albiol anteriormente. A dúvida pode passar por Ozil, que é um jogador fantástico em termos criativos, mas que tem muito que crescer em termos de agressividade defensiva (a meu ver, um dos motivos principais pelo descalabro dos 5-0, sendo utilizado numa posição central e sem qualquer capacidade de pressão). Finalmente Pepe, utilizado desta vez mais à frente, talvez para ter um médio de maior capacidade de desdobramento em transição, e relegar em Xabi Alonso a qualidade do primeiro passe. É certo que na primeira parte o controlo da zona entre linhas foi completo, mas na segunda parte isso não aconteceu, sendo, talvez, de reflectir os prós e contras de ter um jogador com uma reactividade e agressividade no espaço que, nem Xabi Alonso, nem (sobretudo!) Khedira podem dar.

8- Venha o próximo!
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Final da Taça do Rei (I): Pedro, Arbeloa e a diferença entre as 2 partes do jogo

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Voltarei ao jogo com outras notas, mas quero começar com este destaque...

De forma quase unânime, reconheceu-se que o chavão "jogo de duas partes distintas" servia na plenitude para retratar a partida. Ou melhor, os primeiros 90 minutos da partida. É sobre essa diferença que quero falar, abordando um pormenor táctico que, não sendo a obviamente a única explicação (raramente há apenas "uma" explicação), parece-me que é aquela que mais contribuiu para o súbito acréscimo de dificuldades do Real Madrid, na segunda parte...


Convém, primeiro, constatar que o jogo do Barcelona não é simétrico. Aliás, é deliberadamente assimétrico. Nesta assimetria, o lado esquerdo é aquele que mais qualidade atrai, quer a bola saia pela direita, quer pela esquerda. Porque é o lado para onde cai o médio que maior profundidade oferece, Iniesta, porque é o lado por onde entra Piqué, sempre que tenta criar superioridade com bola, e porque é esse o destino dos movimentos mais fortes de Messi, vindo da direita, em diagonal, e escondendo a bola com o seu pé esquerdo das sucessivas tentativas de desarme.

Perante esta situação, revelou-se completamente diferente a utilidade do posicionamento de Pedro. Na primeira parte, colando-se à esquerda, raramente jogou ou criou algum tipo de problemas ao Real Madrid. Pelo contrário, com Villa permanentemente a cair no espaço dos centrais e Messi a baixar para dar apoio à construção, Arbeloa tornou-se um elemento preponderante no encurtamento dos espaços interiores, posicionando-se muito perto de Ramos e mesmo dos próprios médios.

Na segunda parte, Pedro apareceu do outro lado, precisamente nas costas de Arbeloa. A diferença foi enorme, como se pode constatar nas imagens. Quando o jogo entrava directamente na esquerda, Arbeloa era "arrastado" para a ala, abrindo espaços de penetração de que Iniesta não tinha usufruído na primeira parte. Quando, por outro lado, a bola entrava na direita e se protagonizavam as habituais diagonais em direcção ao corredor contrário, Pedro surgia como uma alternativa extra para o passe. Algo que, mais uma vez, na primeira parte não tinha acontecido.

Foi um pormenor que, como é fácil perceber, terá sido determinante, mas que não vi abordado nas análises dos treinadores. Será, por isso, um dado interessante de acompanhar nos próximos capítulos desta empolgante série de duelos.

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18.4.11

Real Madrid - Barcelona: Estatística e algumas notas

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Real Madrid: A “ceder da posse” ou “racionalizar a recuperação”
Na realidade, creio que a “cedência da posse” nunca é uma boa estratégia. O que pode acontecer é um reconhecimento das dificuldades de recuperação da bola e, por consequência, uma racionalização da acção defensiva. Quando se confunde “ceder a posse” com “racionalizar a recuperação”, e mesmo se os dois conceitos possam muitas vezes parecer a mesma coisa, está-se normalmente a dar um passo gigante na direcção da derrota. O que o Real fez foi, precisamente, racionalizar a sua recuperação de bola, assumindo e reconhecendo a força extraordinária que tem a posse e circulação do Barça, mas não abdicando de a tentar condicionar. Sobre as diferenças entre estes dois conceitos, “ceder a posse” e “racionalizar a recuperação”, importa notar que o objectivo do Real não era, nem nunca foi (mesmo com 10), jogar num bloco baixo ou aglomerar-se junto da sua área. Era, isso sim, tentar condicionar a circulação contrária e, se possível, provocar a perda em zona de construção. O ponto é este: perante equipas fortes na posse e reacção à perda, recuperar em cima da área torna praticamente impossível a transição.


Barcelona: o dilema do efeito Messi
Há, a meu ver, um acréscimo de qualidade e dificuldade para os adversários no Barcelona “pós-Ibrahimovic”. Com a passagem de Messi para a zona central, a equipa torna-se ainda mais forte na construção, criando uma dilema terrível para as defensivas contrárias. Ou seja, por um lado, o avançado (Messi) baixa criando superioridade numérica na zona de construção/criação. Por outro, a zona central da linha defensiva é sempre aquela que é mais importante proteger, pelo que retirar-lhe presença em qualquer instante é assumir uma vulnerabilidade extrema em termos de segurança defensiva. Isto, claro, para além da qualidade absurda do próprio Messi.

A grande dificuldade de controlo do bloco do Real teve a ver com esta particularidade. Normalmente, haveria uma situação de 3x3 no corredor central, mas com o efeito Messi, o Barça tinha sempre uma unidade a mais. O Real estava obviamente preparado e manteve Benzema mais contido e próximo de Busquets, para que nenhum dos outros médios tivesse de sair ao primeiro apoio e fragilizasse, depois, o controlo no espaço entre linhas. Nem sempre foi conseguido, muito pela acção de Piquet, mas foi pelo menos relativizado.

Pepe: a arma defensiva de Mourinho
A resposta de Mourinho ao efeito Messi passou muito pela utilização das características extraordinárias de Pepe. Ou seja, a sua reactividade no espaço é enorme e, prevendo a tal dificuldade do Real em manter equilíbrios numéricos no corredor central, Pepe garantia maior capacidade de reagir e recuperar rapidamente. Assim foi. O outro lado da sua utilização teve a ver com as primeiras bolas aéreas. Ou seja, em situações de falta em zona recuada, Pepe subia para próximo de Benzema, para disputar a primeira bola e dar, nesse particular, boas possibilidades ao Real para sair a jogar a partir da segunda bola. Tanto num como noutro plano, Pepe correspondeu.

É habitual ouvir-se e ler-se criticas a Pepe. Haverá várias criticas justificadas, sem dúvida, mas a generalidade resulta de uma repetitiva dificuldade em perceber que no futebol não existem decisões ou abordagens certas ou erradas, por definição ou convenção. Que a complexidade (termo muito em voga, mas raramente percebido) do jogador implica precisamente que qualquer componente é relevante e influencia todas as outras, inclusive a decisional. Ou seja, que se Pepe tem mais valias extraordinárias em termos físicos, isso lhe permite ter formas de jogar diferentes de jogadores mais limitados em certas características e que isso não representa um defeito, mas, no mínimo, uma mais valia potencial.

Há que constatar, já agora, que durante épocas o Real investiu sucessivamente em centrais de potencial, mas que o único que se afirmou nessa condição foi precisamente Pepe, e não apenas com um treinador. Mais inteligente do que negar a realidade, é tentar percebe-la. Para já, e não tendo dois Pepe disponíveis, é mais do que provável que Mourinho continue a fazer do central uma opção estratégica no controlo de meio campo.

Balanço do jogo
Começando pelos aspectos estatísticos, de notar alguns dados absolutamente invulgares, para além da já esperada avalanche de posse de bola e passes do Barcelona. Esta característica do jogo do Barça quase que absorve tudo o resto. Ou seja, houve muito menos intercepções, finalizações ou passes da outra equipa do que é habitual. Jogadores como Carvalho e Albiol (enquanto esteve em campo) raramente tocaram na bola, fosse para defender ou atacar.

De resto, o resultado parece-me justo, embora não se estranhasse se qualquer das equipas pudesse ter vencido o jogo, com o Barcelona ligeiramente mais próximo desse objectivo. O Barcelona, como é seu hábito, focalizou-se em absoluto nas situações de organização, chegando através dessa via a todos os seus desequilíbrios, destacando-se a forma como conseguiu, nesses momentos, chegar a situações de finalização através do corredor central. Já o Real, embora tivesse apostado tudo no momento de transição, conseguiu aproximar-se do golo sobretudo de bola parada, com Ronaldo, Di Maria e Sérgio Ramos em destaque.

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17.4.11

'El Clásico', take #1 (breves)

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Voltarei ao jogo mais tarde, e com mais detalhe. Será uma série de 4 jogos que, a meu ver, dificilmente encontra paralelo na História do futebol. Por tudo. Este, por não decidir quase nada, era uma espécie de aperitivo. Na minha leitura, o Real sai reforçado em termos psicológicos. Porquê? É certo que voltou a não conseguir vencer o rival, é certo que perdeu qualquer réstia de esperança (a existir, nesta altura, seria apenas ilusória) em recuperar o título. No entanto, consegue recuperar um empate em circunstâncias dificílimas e dá a oportunidade para que Mourinho possa ter elementos de motivação provenientes da performance dos próprios jogadores e não de outros. É que, face à sua evidente valia (superior a qualquer outra equipa do planeta), o "obstáculo Barcelona" começa nas dificuldades que há em fazer-se alguém realmente acreditar que é possível bate-los - especialmente um Real Madrid traumatizado pelos recentes duelos.

Não há histórias iguais, nem na vida, nem no futebol, mas seguramente que Mourinho procurará usar este jogo da mesma forma que usou o primeiro embate com o Barça na época anterior (0-0). Ou seja, tentando servir-se das próprias exibições dos seus jogadores para lhes fazer perceber que é possível derrotar o maior "papão" do futebol mundial. Para saber o resultado, teremos de esperar...

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5.4.11

O Real Madrid - Tottenham, e o "caso Crouch" (Breves)

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- Duas notas sobre o Real Madrid-Tottenham, ambas relacionadas com a expulsão de Crouch...

Primeiro, sobre as consequências. Sem Crouch poder-se-ia admitir que a estratégia do Tottenham ficou condicionada apenas em termos ofensivos. Se a estratégia fosse estacionar o autocarro à frente da sua área, realmente, seria assim. Mas não era o caso (dificilmente uma equipa chegaria tão longe com esse tipo de mentalidade). O Tottenham perdeu Crouch porque se propôs pressionar alto, manter o Real desconfortável em toda a extensão do campo e, se possível, cativar o erro. Sem Crouch, a vida do Tottenham ficou mais difícil essencialmente porque a equipa deixou de poder pressionar em todo o campo. Ou melhor, poder, podia, mas não foi capaz, nem de o fazer, nem de o tentar. O que se viu foi o remeter do bloco para os últimos 30-40 metros, reduzindo os espaços de penetração, sim, mas facilitando também a reacção à perda por parte do Real. Ou seja, e tal como se viu, o jogo ficou destinado ao "massacre" e os golos eram apenas uma questão de tempo, dada a qualidade colectiva e individual dos jogadores do Real. E assim foi.

Depois, sobre a expulsão de Crouch, em si mesmo. Tudo bem que era preciso ser agressivo no pressing, mas, mesmo assim, que necessidade tem um jogador de arriscar um desarme no chão à beira da área contrária, sabendo que já tinha um amarelo? Nenhuma. Tão óbvio, que a decisão só se explica pela menor lucidez do próprio Crouch, um jogador experiente, na abordagem ao jogo. Um dos segredos do sucesso das principais equipas, e um dos grandes objectivos de qualquer liderança é conseguir manter carga certa de emotividade nos jogadores. Ou seja, tê-los motivados e "espicaçados", mas evitando cair num exagero que traga ansiedade e retire lucidez. Em futebol, a liderança mede-se sobretudo neste tipo de situações...

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3.4.11

Os casos de Mourinho e Domingos (Breves)

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- Mais de 9 anos depois, Mourinho perdeu em casa para o campeonato. Não tem grande importância este momento. Perder acontece a todos, faz parte da "ementa". Importa não subverter a análise: o que é extraordinário é que tenha durado tanto, não que tenha acabado. A sua duração, aliás, torna muito pouco provável que tenha sido um acaso e o mais provável é que Mourinho volte a conseguir uma série assinalável, algures no tempo. De todo o modo, gostaria de destacar algumas coincidências naquela derrota de há 9 anos, frente ao Beira Mar, e esta, frente ao Gijon. Aconteceram ambas em vésperas de 1 jogo europeu importante, é certo, mas o ponto que me parece mais importante é a situação no próprio campeonato. Tal como o Real actual, o Porto de então estava a 5 pontos do líder e já com pouca crença de chegar ao título. Foi uma situação que apenas se repetiu no Chelsea de 06/07, embora nunca com o mesmo afastamento do título. Não é por acaso. A competência de Mourinho explica-se por vários factores, mas este tipo de capacidade de reacção tem sobretudo a ver com aspectos psicológicos e de liderança. O ponto é que reagir com algo para ganhar é muito diferente de reagir com um sentimento de impotência e frustração em pano de fundo.

- Se acima falei da improbabilidade da série de Mourinho ser um acaso, o mesmo comentário me merece o sucesso continuado da carreira de Domingos. Goste-se ou não, perceba-se ou não. E há muito quem não goste ou não perceba, daí as sucessivas dúvidas criadas em seu redor (eu próprio as tive noutro tempo). As equipas de Domingos são perfeitas? Não. Mas - de novo! - o sucesso explica-se por uma complexidade de factores e não pela simplicidade de 1 ou 2. O Braga chegou ao terceiro lugar, cumprindo um destino que eu inicialmente antevira, mas de que entretanto duvidara, dado o atraso que a equipa chegou a acumular. O Braga está a aproveitar a derrapagem crescente do Sporting (falarei mais sobre isso, em particular da sua mal concebida "chicotada psicológica"), é verdade, mas também é bom ter em consideração que este "mau" campeonato do Braga tem apenas 2 pontos menos do que o "bom" campeonato de Jesus, há 2 temporadas. Notável, se considerarmos as dificuldades e contingências por que passou a equipa. Os contornos deste 'sprint final' estendem-se até aos bastidores e têm precisamente Domingos como principal protagonista. O desfecho é imprevisível, mas de uma coisa parece já não haver dúvidas: ao não renovar com Domingos, quando o próprio se mostrou disponível, a direcção do Braga terá cometido um dos mais flagrantes e incompreensíveis erros de gestão de que há memória. Estou à vontade para o dizer, porque manifestei o meu espanto bem antes de tudo isto parecer tão evidente...

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31.1.11

Taça da Liga e outros temas (Breves)

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- Na Taça da Liga, e no meio de vários jogos sem grande interesse competitivo, o destaque principal vai para a confirmação do Paços de Ferreira na meia final, repetindo aquele que foi, provavelmente, o jogo mais bem sucedido da sua história: quando garantiu, na Choupana e pela mão de Paulo Sérgio, uma improvável chegada ao Jamor. São os créditos do extraordinário momento que viveu neste inicio de ano. Em contra ciclo, a frustração bracarense, pagando caro numa prova em que parecia apostar e ter tudo para ser um forte candidato à final.

- Ainda sobre a Taça da Liga, deixo uma nota de opinião sobre a forma como continua a ser tratada esta competição: Encara-se a Taça da Liga em Portugal como se ela fosse a francesa ou a inglesa, mas isso é um disparate. Porquê? Porque, nem Portugal tem o "mercado" desses países, nem o nosso calendário competitivo tem sobrecarga suficiente para que se considere esta uma prova para "gerir". Os clubes não têm motivos desportivos para não "atacar" este título e - muito menos - uma situação financeira que lhes permita andar a despromover publicamente um produto que, afinal, é o seu. Estão a ver uma empresa à beira da falência a dizer mal do seu próprio produto? É mais ou menos o mesmo...

- Cruel! É o que se pode dizer da lesão de Emídio Rafael. Não teve uma entrada fácil na equipa, mas vinha evoluindo muito bem nos últimos jogos. É um caso que me parece semelhante ao de Sapunaru. Não pelas características, mas pelo facto de não ter, a meu ver, condições "naturais" que lhe permitam uma afirmação fácil num clube com as exigências do Porto. No entanto, e tal como vem acontecendo com o romeno, poderia ser capaz de tirar partido da boa organização colectiva para fazer uma evolução que potenciasse as suas virtudes e escondesse as suas fraquezas. Para que tal acontecesse, porém, seria preciso tempo e continuidade na evolução. Daí a crueldade: é que não é certo que volte a ter uma oportunidade como aquela que estava a ter com a lesão de Álvaro Pereira...

- Uma nota sobre a derrota do Real. Não é um falanço de Mourinho nem, tão pouco, do próprio Real. É, antes sim, a confirmação de que seria praticamente impossível acompanhar o ritmo de uma equipa de outra galáxia. Pelo menos a nível de campeonato, porque em provas a eliminar a história pode ser sempre diferente. A questão é, agora, óbvia para todos: Estarão Real e/ou Mourinho interessados na continuidade?

- Sobre o mercado, escreverei no final.

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20.12.10

Vitórias de Porto e Real (Breves)

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- O futebol, como desporto, distingue-se por vários aspectos, mas nenhum pesa tanto nessa diferenciação como a raridade do golo. Momentos melhores e piores, durante um jogo, todas as equipas têm, a diferença é que, em futebol, torna-se especialmente importante a forma como as equipas capitalizam essas fases. É que, no futebol e ao contrário de outros desportos, uma boa fase pode não ter tradução no marcador. Tudo isto a propósito do último teste portista em 2010. Primeiro, foi o Porto a perdoar o segundo golo. Depois, foi a vez do Paços, que não materializou a sua melhor fase com o empate. Da história não constarão as fases do jogo, mas apenas 3 golos e 3 pontos, todos para o mesmo lado. Um marco importante na caminhada portista, até para, precisamente, não deixar quem vem atrás capitalizar uma fase que parece agora ser melhor.

- Em Espanha, outro exemplo do porquê de algumas equipas, particularmente as de Mourinho, ganharem mais do que as outras. Má exibição, oportunidades perdidas pelo adversário, mas foi no climax da adversidade (expulsão de Carvalho), onde outros colapsam, que emergiu o carácter da equipa. O Real manteve a lucidez emocional e a ambição de vencer, percebeu o que tinha de fazer para se manter na rota do seu objectivo. O Sevilha? Ficou sem saber se devia manter-se fiel à sua missão ou se deveria procurar algo mais, perdeu concentração, qualidade e, finalmente, o jogo. Cortesia de Di Maria, claro.

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29.11.10

"manita" em Camp Nou (Breves)

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- Nos primeiros - primeirissimos! - minutos até chegou a dar a ideia de que este podia ser um dia bom para o Real. A equipa definiu bem as zonas de pressão, com a importância do posicionamento de Ozil na zona de Xavi, e conseguiu sair da transição, ainda que sem perigo, 2 vezes consecutivas. Ilusão! Depressa o jogo se começou a definir numa trajectória perfeitamente oposta. Primeiro, porque houve um diferencial de intensidade entre a abordagem dos jogadores de ambos os lados. Depois, porque o Barça não facilitou e capitalizou 2 das 3 chegadas ofensivas perigosas nos primeiros 20 minutos. Logo aí, tudo se desnivelou, tanto o resultado, como o estado emocional.

- A ressaca desses 20 minutos fez prever a goleada, mas o Barça, depois, teve um comportamento difícil de entender e que abriu uma derradeira janela de oportunidade ao Real. A sensibilidade dos catalães para com Ronaldo - que se nota a cada vez que o defrontam - provocou uma paragem no jogo desnecessária e que cortou o momento do Barça. O Real teve, logo a seguir, um breve período em que poderia ter reentrado no jogo. Não o conseguiu e o intervalo terminou com qualquer dúvida que o jogo poderia ter.

- Na segunda parte, sim, o Barça materializou o ascendente emocional que conseguira com os 2 golos inaugurais, e o que se viu foi um contraste enorme, e a todos os níveis, entre as 2 equipas. Mourinho ajudou tudo a piorar ao introduzir Lass por Ozil, a equipa perdeu organização, lucidez e confiança. O Barcelona... voou! Com a soberba qualidade que se lhe conhece, com a ajuda da confiança e com um adversário desvairado, foram 5, mas podiam ter sido bem mais.

- Há uma coisa que ressalta de forma muito clara deste clássico. Jogadores como Khedira, Ozil, Di Maria ou Benzema não perceberam a intensidade que tinham de ter num jogo destes. Concentração permanente e agressividade no limite era a única via. O Barcelona não foi só melhor com bola - como invariavelmente é - foi muito melhor também quando não a teve e por isso passou a ferro aquele que era, supostamente, o mais difícil dos adversários.

- Foi como que uma prova de força do campeão e uma lição de humildade para uma equipa que, já sendo boa, tem de perceber que é preciso mais do que isto para atingir outro patamar. Será, já agora, também uma lição para quem acha que os melhores não podem também sair goleados ou que um jogo entre valores idênticos não pode acabar em goleada sem que isso tenha de representar uma negligência profissional dos perdedores. O futebol é um jogo de homens, não de deuses ou super heróis...

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