8.5.08

"Bom, até aqui tudo bem..."

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Boavista e Estrela da Amadora têm animado a actualidade futebolística nacional das últimas semanas com os seus deprimentes casos de incumprimento salarial. Naturalmente que os dois casos resultam de motivos diferentes. Se no caso do Boavista não é difícil perceber que houve algo de muito errado com a gestão do clube durante anos em que se conseguiram receitas muito acima da normalidade, o caso do Estrela é aquele que mais espelha para onde caminha o futebol português.

Vejamos o que se passa com os clubes de pequena dimensão do primeiro escalão (que é a maioria, realmente). A ligação com a comunidade local é cada vez menor, com as transmissões televisivas a reduzirem a importância do “segundo clube” para as populações. Resultado, menos gente nos estádios, seja o jogo a que preço ou a que horas for. Sobram as receitas de publicidade e televisão que são o motor de outras ligas de países bem mais populosos mas que em Portugal têm um crescimento reduzido. Estas receitas são, no entanto, vitais e por isso a descida de divisão é encarada com tanto temor pelos dirigentes dos clubes. O problema é que o pouco crescimento das receitas não permite acompanhar as exigências de um mercado cada vez mais global e os clubes, que no passado estavam protegidos pelo efeito das fronteiras, deparam-se com um dilema: (1) viver dentro da sua realidade mas ver a qualidade do seu elenco diminuir a cada ano, não havendo capacidade para segurar jogadores que nem precisam de ser excepcionais, mas arriscando seriamente perder as tais receitas essenciais por via de uma descida de divisão, ou (2) tentar garantir uma qualidade mínima no plantel, vivendo para isso acima da realidade do clube.

Dentro deste dilema e seja qual for a decisão, o que se pode ver no longo prazo é que a qualidade destas equipas está a cair gradualmente. Hoje, o jogador que perde as expectativas de “saltar” para um grande faz algo muito simples: ruma ao estrangeiro e em 3 ou 4 anos ganha um salário que lhe permite encarar com outros olhos a sua vida, podendo depois, se assim entender, regressar a Portugal, para terminar a carreira.

Como em todas “crises”, quem mais a sente são os pequenos, mas os médios e grandes também não ficam com a melhor das situações. As suas receitas também não crescem ao nível de outros países e, por outro lado, o campeonato interno tende a ser cada vez menos competitivo, com o fosso a abrir-se entre grandes e pequenos e a dimensão média ser um privilégio para muito poucos. O interesse externo (entenda-se de outros países) na prova perde-se, os jogadores começam a torcer cada vez mais o nariz sobre a hipótese de colocar Portugal no mapa das suas carreiras e, perante um nível financeiro de crescimento inferior a outros países, a qualidade dos grandes também cai, mais vagarosamente, mas cai.

Quando entro no campo das soluções, volto a esbarrar com a minha forte convicção. Entre muito trabalho de marketing, ao nível local por parte dos clubes, e ao nível externo por parte da liga, é fundamental uma revisão dos modelos competitivos das ligas profissionais. Só com menos clubes no primeiro escalão e mais jogos entre os melhores se poderá fazer crescer (creio que poderiam até duplicar a muito curto prazo) as receitas televisivas e voltar a aumentar a qualidade dos planteis em Portugal. Entretanto, a evolução do futebol português vai-me fazendo lembrar aquela história do individuo que cai do trigésimo andar e, ao passar pelo vigésimo, pensa para ele próprio: “bom, até aqui tudo bem...”.

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