O Benfica e o simples efeito do desgaste competitivo
Há casos em que se sente mais do que outros, mas não há nenhuma equipa para quem seja igual jogar 1 ou 2 vezes por semana. Não tem a ver com desgaste físico, como tipicamente se confunde, mas sobretudo com o desgaste mental. O caso do Benfica é paradigmático porque é fácil encontrar exemplos de um grande desfasamento entre o rendimento nas semanas de apenas 1 jogo e naquelas em que a equipa tem de jogar 2 vezes. O modelo de jogo está perfeitamente assimilado pelos jogadores, mas estes não conseguem apresentar o mesmo rendimento ao nível das tomadas de decisão, quer na rapidez, quer no acerto, afectando, por consequência, a qualidade global do jogo colectivo. O que distingue, aqui, as equipas que sentem mais e menos este problema é a qualidade da recuperação de jogo para jogo. As equipas que melhor recuperam são aquelas que mais “frescas” aparecem em termos mentais, a jogar 3 dias depois, e aquelas que, por isso, mais regularidade apresentam.Ainda assim, mesmo recuperando bem, nunca é igual jogar em ciclos de 3 ou 6 dias. Entre outros aspectos, ter uma semana completa permite aos treinadores preparar muito melhor o jogo seguinte, e isso pode ser preponderante nas fases decisivas das provas...
O Sporting e o problema aquisitivo do modelo de jogo
Um outro caso, bem mais problemático e que se vem reflectindo no Sporting, é o da necessidade de tempo para trabalhar aspectos mais profundos do modelo de jogo. Toda a gente reconhece a importância da pré época, mas não me parece que tal relevância tenha a ver, como por vezes se insiste, fundamentalmente com aspectos físicos. A pré época é o tempo em que o ciclo das equipas está centrada no treino e não na competição e é neste período que se podem e devem trabalhar os princípios do modelo de jogo das equipas. É aqui que os treinadores podem dar às equipas a sua identidade colectiva, partindo depois para um ciclo em que a competição passa a ser o objectivo óbvio. Pode-se corrigir e trabalhar aspectos tácticos, recuperar e preparar jogos, mas se a equipa não tiver as suas bases bem trabalhadas ficará sempre refém da calendarização e do tempo que tiver para treinar. É por isso que se torna pouco provável que uma mudança técnica a meio da época traga grandes resultados ao nível da qualidade de jogo e isto é sobretudo verdade em equipas com cargas competitivas mais elevadas, como, creio, fica fácil de perceber. É por isso que no caso de Carvalhal, o tempo é tão importante. Seria mais fácil para ele, aliás, ter apanhado um Sporting já eliminado de grande parte das provas porque teria mais tempo para trabalhar e implementar as suas ideias. Ainda assim, o treinador terá as suas oportunidades para mostrar trabalho. Após a recepção ao Porto, o Sporting terá uma rara semana de treino e, depois de novo ciclo competitivo, uma paragem para as Selecções. Será, mesmo assim, curto e até ingrato para um treinador que joga tanto nesta fase, mas é o que lhe resta para moldar um Sporting à sua imagem.


16 comentários:
Filipe,
Já leste este livro??
"NO TREINO DE RENDIMENTO SUPERIOR A RECUPERAÇÃO É...
MUITISSIMO MAIS QUE "RECUPERAR""
Não, Ricardo.
Se não me engano é do Carvalhal. Há livros que são difíceis de encontrar disponíveis. Provavelmente mesmo em poucos mais sítios do que as bibliotecas das universidades...
Sei que é dele, era só para saber se recomendas e se é sobre este assunto que abordas no post.
Fora a publicidade... podem encomendar em www.omniservicos.pt
acho que foi ai que comprei.
Devo dizer que depois de ler esse livro, é muito dificil não esperar mais de Carlos Carvalhal.
Recomendo, na mesma onda, o livro laranja do Nuno Amieiro, e o da Marisa Silva sobre o jogar a zona e a periodização tactica.
Obrigado, Bruno, não conhecia...
Sobre este tema, já li referências e opiniões em livros e outras fontes. É uma temática que me captou a atenção há algum tempo, até por ter identificado precisamente diferenças de rendimento com importância decisiva em algumas provas. Mourinho tornou famosas (relativamente, claro) algumas frases como "começar a recuperar no próprio jogo" e "descansar com bola"...
O do Amieiro já li e o da Marisa também. Estou a ler agora um que é sobre a Justificação do da marisa :-)
O do Carvalhal ja tentei encomendar á uns tempos na omniserviços e estava esgotado.
Tentei no otreinador.net e estou á espera dele.
O que os livros mais recentes têm dito, é que a recuperação é mais preocupante a nivel de sistema nervoso central, do que fisiológico.
Com banhos de contraste e massagens e tal, e com uma alimentação "optima" a recuperação é relativamente rápida, agora... recuperar de estar 90' super concentrado... não é facil.
E o problema de ter jogos de 3 em 3 dias é esse.
Ter de recuperar, preparando o próximo adversário.
Carvalhal está ainda mais lixado, porque ao mesmo tempo que recupera e prepara adversários, está a tentar criar ideias colectivas de jogo... não deve ser nada facil.
BOa tarde Jogo Directo! Já há muito que são uma das referências do nosso espaço. Está aberto a uma possivel troca de links? Saudações
http://sectorofensivo.blogspot.com/
Filipe,
Dá-me lá a tua opinião, estou aqui numa acesa discussão com o meu patrão e antes que ele me despeça:
O Matias ontem quis fazer aquele toque de calcanhar e ir buscar á frente ou calhou mal??
Eu acho que ele ia dar ao Pedro Mendes que estava na entrada da área, mas calhou bem...
Não me parece mesmo nada que aquilo seja uma finta propositada. Até pelo próprio movimento dele, que reage subitamente à direcção da bola em vez de o antecipar, que é o que acontece num drible propositado...
Ricardo, o livro é a publicação da tese de licenciatura do Carvalhal e foca precisamente este tema. É um livro extremamente interessante e que revela, com exactidão, os conhecimentos de Carvalhal ao nível da metodologia de treino. Infelizmente, ao que parece, o agora treinador do Sporting não conseguiu juntar a esses conhecimentos mais nada de relevante.
Quanto ao tema em si, de facto a sobrecarga de jogos tem um impacto essencialmente mental e pode ser determinante na atribuição de títulos. O Braga, concentrado apenas no campeonato, tem por isso essa vantagem adicional em relação aos restantes candidatos.
Nuno,
Podes concretizar essa de "o agora treinador do Sporting não conseguiu juntar a esses conhecimentos mais nada de relevante." ??
O que ele quer dizer é que o liedson tem jogado e o postiga nao. Essa é a questão fundamental do futebol do sporting segundo este iluminado...
Bom post Filipe.
Off topic, o Varela sempre te surpreendeu :)
eheh Paulo P, o campeonato de Marte continua ao rubro.
RG, que o Carvalhal, em termos de metodologia de treino, era um treinador competente, já o sabíamos. Que teve alguns projectos interessantes, também. Faltava saber se tinha ideias para além das mais básicas e para além daquilo que são os seus conhecimentos acerca de método de treino. Ideias sobre o jogo em si, entenda-se. No Sporting, demonstrou não as ter. Ou, se as têm, não acredita suficientemente nelas. É pena, porque nem todos os treinadores terão a competência dele no aspecto particular do treino.
Sobre a troca de links, repito a ideia de que a política que mantenho é de não fazer troca de links e sim manter uma lista limitada de blogues nacionais, que vou revendo ciclicamente. Ou seja, poderei colocar links de blogues, mas não como consequência de uma troca...
Bad boy, sobre o Varela já há algum tempo confessei a minha surpresa pela sua integração. De facto, e não retirando mérito (que é muito) a quem o tem, creio que houve da minha parte uma má apreciação do jogador. Provavelmente se tivesse analisado melhor a sua evolução no Estrela, não teria chegado às mesmas conclusões. Aliás, raramente me tenho enganado nas projecções sobre a integração de jogadores e no caso do Varela é verdade que não fiz uma observação muito detalhada anteriormente...
Enviar um comentário