16.12.14

Porto - Benfica (II): análise individual

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Porto
Fabiano - Num jogo com muito pouco trabalho, não só sofreu dois golos como ainda sobram dúvidas sobre o seu desempenho em ambos os lances. São duas situações diferentes, na primeira o facto de ser um lançamento e por isso não haver o perigo da bola sair ao segundo poste, talvez se justificasse estar mais próximo dos jogadores à sua frente, precisamente para poder intervir se a bola fosse para aquela zona. No segundo, fica também a ideia de que poderia fazer melhor, dada a distância e previsibilidade do remate, no entanto também é possível que não tivesse a melhor visão, dado o posicionamento de Danilo. De resto, foi muito solicitado para jogar com os pés, tendo respondido bem e com a curiosidade de ter completado mais passes do que qualquer jogador do Benfica!

Danilo - Está nos dois lances de golo do Benfica, onde poderia ter respondido de forma mais intensa, o que manifestamente não é a sua especialidade. Ainda assim, e num registo que nele não é garantido, ganhou claramente vantagem nos duelos que travou no seu corredor, contando com a ajuda da boa organização colectiva, que condicionou a abordagem técnica dos jogadores do Benfica que apareceram na sua zona (particularmente, Gaitan). Com bola, foi dos mais irregulares na presença em posse, o que não é invulgar, mas não conseguiu desta vez fazer valer o seu ponto forte, que é capacidade para desequilibrar no último terço.

Alex Sandro - Um jogo globalmente muito positivo, ganhando claramente o confronto com Salvio. Defensivamente, dominou a sua zona, tendo-se destacado especialmente no momento de transição ataque-defesa, onde fez 9 intercepções, um registo igualado apenas por Casemiro. Com bola, esteve regular em termos de eficácia em posse, e conseguiu ainda participação importante em dois dos desequilíbrios da equipa, o primeiro num lançamento para Oliver, e o segundo numa jogada individual que terminou com a finalização de Jackson, na cara de Júlio César. Não foi certamente pelo seu desempenho que se justificou a sua substituição.

Martins Indi - Os indícios que havia descrito no jogo de Alvalade (e que globalmente passaram despercebidos) confirmaram-se em pleno nesta nova observação mais detalhada. Ou seja, a generalidade das suas abordagens são acertadas, sem dúvida, mas é um jogador que se protege muito de intervenções de maior grau de dificuldade, nomeadamente intervindo e antecipando muito pouco no espaço á sua frente. Isto reflecte-se claramente no número de duelos/intercepções que conseguiu, que é muito baixo e incomparavelmente inferior ao de Marcano. Com bola, esteve bastante activo na fase de construção (foi o jogador com mais passes completados no jogo), e esteve globalmente bem, apesar de ter sido protagonista da perda de bola que deu origem à transição mais perigosa do Benfica no jogo, para além dos golos.

Marcano - Voltou a aparecer a titular num jogo grande em que o Porto perde, e claramente em termos mediáticos a sua reputação voltará a não ganhar com isso. No entanto, não só não me surpreende a sua titularidade, em face dos sinais que Lopetegui vinha dando, como concordo completamente com ela, parecendo-me Marcano claramente o melhor central portista nesta temporada, em sentido inverso do que me parece ser a apreciação geral. Com bola, não é um jogador muito arrojado em termos de presença posse, preferindo manter um perfil sóbrio e de pouco risco (que é totalmente ajustado à posição que ocupa, diga-se), o que não o impede de dar boa sequência a quase todas as jogadas que por si passam. Sem bola, e ao contrário de Martins Indi, tem uma excelente capacidade de intervenção, antecipando com frequência no espaço à sua frente, e mantém também um posicionamento que me parece correcto e de acordo com as orientações colectivas. Destaque para o seu papel no controlo do momento de transição, e no contributo que deu para que o Benfica não conseguisse sair a jogar a partir de reposições longas, como era intenção de Jesus.

Casemiro - Não podia ser mais radical a diferença do seu desempenho, nos planos defensivo e ofensivo. Defensivamente, foi o jogador com mais intervenções, num registo bastante impressionante no controlo e domínio da sua zona. Parte, geralmente, de uma zona muito próxima dos centrais, o que ajuda a controlar o espaço entrelinhas, e aparece depois a criar superioridade nos corredores, ajudando a encurralar os adversários junto à linha, que é algo que o Porto faz bem. Com uma boa organização colectiva, a sua capacidade de intervenção permite-lhe depois ganhar um número muito grande de duelos, sendo também ele um dos motivos pelos quais o Benfica jogou tão pouco. Com bola, e em sentido completamente oposto, dificilmente o Porto poderia ter um jogador que oferecesse tão pouco à sua fase de construção. Na sua posição, pedia-se não só que fosse um jogador com mais capacidade de intervenção na posse da equipa, como que fosse capaz de garantir maior eficácia nas suas aparições com bola. Infelizmente, os seus números falam por si, e não só não interveio com a regularidade esperada, como foi o jogador da equipa que mais passes perdeu, o que para um jogador de fase de construção é no mínimo estranho. Parece-me que o problema terá sobretudo a ver com a forma questionável como decide, especialmente quando é colocado sobre pressão.

Herrera - Na primeira parte conseguiu um bom impacto, tirando partido do espaço que o Benfica dava e dando alguns problemas de controlo a Samaris, nos seus habituais movimentos na profundidade. Para além disso, ainda foi protagonista da finalização, na primeira ocasião do jogo. No entanto, com o recuar das linhas do Benfica passou a ter menos espaço e a sua presença na profundidade a ser anulada de forma relativamente fácil.

Oliver - Na minha opinião, fez um jogo muito bom e completo. Ofensivamente, começou por criar problemas ao Benfica, com movimentos na profundidade que estavam claramente trabalhados. Depois, e tal como Herrera, a sua vida ficou mais difícil com o recuar das linhas do Benfica, mas ainda assim manteve-se mais solícito do que o mexicano no envolvimento colectivo, e geralmente com qualidade. Mas foi no capítulo defensivo que a sua exibição terá sido mais surpreendente, pela positiva. Definiu muito bem o seu posicionamento, e fechou com grande propósito junto de Casemiro, contribuindo também para o domínio portista nas bolas divididas sobre a zona central. Em destaque, também, o seu bom contributo no momento de transição ataque-defesa.

Brahimi - Foi, diria, um jogo de grande esforço mas pouca utilidade objectiva. Maxi tentou condicioná-lo sempre no momento da recepção, e é verdade que o argelino não se escondeu nunca do jogo, aparecendo com bastante frequência e conseguindo até um bom desempenho em termos de sequência em posse. Aliás, à excepção dos centrais, foi o jogador que mais passes completou e com melhor % de acerto. No entanto, a acção de Maxi produziu os seus frutos, afastando muito as acções de Brahimi das zonas terminais do terreno, o que as tornou globalmente inofensivas.

Tello - Foi o protagonista do primeiro rasgo ofensivo do jogo e, com André Almeida condicionado com o amarelo desde o primeiro minuto, poderia pensar-se que estaria nele uma das chaves da partida. Puro engano. Não só interveio pouco, mantendo-se sempre muito agarrado à linha, como as suas poucas aparições no jogo acabaram por ter um impacto practicamente nulo. Parece muito dependente do espaço e da ausência de coberturas defensivas por parte dos adversários.

Jackson -  Fica associado ao jogo como tendo sido protagonista das principais ocasiões que equipa teve para marcar. Como sempre, e mesmo não marcando, vejo nisso um indicador bem mais positivo do que negativo, por muito que com mais eficácia da sua parte o destino do jogo pudesse ter sido outro. De resto, fez um bom jogo nos mais variados planos, mantendo-se disponível para o jogo e batendo-se bem nos duelos que travou com os centrais contrários.

Benfica
Júlio César - Na verdade, só fez uma intervenção decisiva, mas é impossível não achar que com ele o Benfica tem muito a ganhar em relação a Artur, naquela que me parecia uma lacuna importante da equipa. Noutro plano, fez várias reposições longas no jogo, mas quase todas elas tiveram um destino favorável ao Porto, sendo que neste facto encontro poucas responsabilidades da sua parte.

Maxi - A sua missão no jogo foi, quase exclusivamente, condicionar Brahimi. Aparentemente a sua ideia passou por evitar que o argelino enquadrasse, e nesse aspecto a verdade é que a sua acção produziu bons resultados, nomeadamente forçando Brahimi a baixar muito no terreno para ter a bola. No entanto, esta foi uma exibição anormalmente sóbria do ponto de vista ofensivo, sendo o jogador com menos participação com bola, entre os que iniciaram o jogo. Nota incontornável para o lançamento longo, na origem do primeiro golo.

André Almeida - Tudo indicava que passaria por problemas, ao ver um amarelo tão cedo, mas a verdade é que se aguentou bastante bem, sendo importante assinalar que tal só foi possível pela ajuda que teve da boa organização colectiva, nomeadamente das coberturas que lhe foram sendo feitas nos duelos com Tello. Mais tarde, teve mais dificuldades perante Quaresma, que diversificou bem mais as suas soluções. Com bola, e de acordo com a exibição da equipa, apareceu muito pouco.

Jardel - Foi o jogador com mais duelos/intercepções ganhos da equipa. Como quase todos, beneficiou com o recuar das linhas da equipa, sentindo-se bem mais confortável com menos espaço para controlar. Apesar destas notas positivas, não evitou alguns erros potencialmente comprometedores, e que nele acontece com alguma regularidade. Em destaque, uma intercepção falhada numa zona fundamental e com Jackson nas costas, e também ao nível do passe onde se mostrou intranquilo, mesmo num jogo com tão poucas solicitações a esse nível.

Luisão - Travou um duelo interessante com Jackson na primeira parte, em que me pareceu sair por cima. Depois, manteve-se sóbrio e eficaz mas foi perdendo capacidade de intervenção, o que provavelmente estará ligado com os problemas físicos que determinaram a sua substituição.

Samaris - O jogo não começou por ser fácil para ele, nomeadamente com dificuldades em controlar os movimentos de Herrera e em definir o posicionamento numa zona em que frequentemente o Porto conseguia superioridade numérica. Com o recuar da equipa, porém, arrancou definitivamente para uma exibição bastante positiva do ponto de vista defensivo, destacando-se não só a sua acção na linha média, mas também a sua interacção com os elementos da linha defensiva, ajudando a equipa a estar sempre bem posicionada nessa zona. Com bola, teve um jogo complicado tal como toda a equipa.

Enzo Perez - Não foi o tipo de jogo que retirasse o melhor do que tem para oferecer. Nomeadamente ao nível da presença em posse, não teve oportunidade para pegar no jogo como é seu hábito, em face de uma estratégia que tentava jogar a partir de reposições longas e segundas bolas. Bateu-se bem, sem surpresa, mas não o suficiente para empurrar a equipa para a frente, como aconteceu noutras ocasiões.

Gaitan - Jogo de grande entrega e disponibilidade, sendo o jogador da equipa com mais intervenções com bola. Infelizmente, porém, não teve a eficácia correspondente, sobretudo pelo condicionamento que o Porto conseguiu fazer, mas possivelmente também por alguma tendência para jogar por vezes depressa de mais. Ainda assim, não deixou de evidenciar a sua qualidade em alguns lances. Sem bola, e como é seu hábito, esteve bastante bem, bastante disciplinado posicionalmente e com boa entrega aos diversos lances divididos que o jogo teve.

Salvio - Se todos os jogadores sentiram dificuldades na presença com bola, nenhum sentiu mais do que Salvio. De facto, pouca participação e pouca eficácia, sendo que aqui há sobretudo muito mérito do Porto e de quem jogou na sua zona. Tinha a expectativa de que pudesse ser uma arma ofensiva nas acções de transição, dada sua verticalidade, mas a equipa acabou por ser praticamente inexistente a esse nível, anulando-lhe também essa oportunidade. Salvou-se a sua entrega e bom contributo defensivo, o que é obviamente muito pouco.

Talisca - Estou em crer que os centímetros terão pesado muito para a sua inclusão no onze, dada a estratégia com que Jesus abordou o jogo, com grande enfoque nas reposições longas. A verdade é que nesse plano, o Porto anulou completamente as intenções do treinador do Benfica. Ainda assim, Talisca voltou a mostrar que é um jogador bastante dotado tecnicamente, sendo o jogador com melhor % de acerto em posse, apesar de jogar numa zona densa e difícil. O problema de Talisca, e tal como já escrevi, parece-me ser o seu envolvimento no jogo, acabando por não conseguir criar espaços para ser mais vezes solução, e não tendo do ponto de vista defensivo a intensidade e a leitura táctica para oferecer também um melhor contributo nos duelos que se travaram na sua zona. A sua principal marca no jogo foi, claro, o remate que antecede o golo de Lima.

Lima - Já tinha escrito que a questão da eficácia é demasiado volátil e aleatória para ser tão valorizada, como é, no curto prazo. O que melhor define a probabilidade de um jogador vir a fazer golos no futuro não são os golos que marcou, mas as ocasiões de que usufruiu, e nesse sentido Lima continua a ser o jogador com maior probabilidade de fazer golos na equipa (talvez a par de Jonas). Este seu arranque de época, e aquilo que dele se tem dito e escrito sobre ele, faz-me lembrar um pouco a situação de Rodrigo há um ano atrás. Para além dos golos - que são o mais importante, obviamente - teve um contributo importante, tanto no envolvimento com bola como ao nível da sua entrega e duelos que travou.

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15.12.14

Porto - Benfica (I): performance colectiva

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Como comentário geral ao jogo, e antes de abordar especificamente cada uma das equipas, diria que a partida não fugiu muito da expectativa que partilhei na antevisão. Ou seja, foi um jogo de poucas chegadas às zonas de finalização, o que sugere um melhor desempenho defensivo do que ofensivo de ambas as equipas. O que não esperava, e sobretudo na primeira parte, era que fosse apenas o Porto a conseguir ameaçar o último reduto contrário, tendo conseguido inclusivamente tirar bom partido das poucas vezes em que conseguiu chegar de forma útil à área de Júlio César. E por aqui se verá que, na minha leitura, o resultado e a vitória do Benfica tiveram sobretudo a ver com um desnível acentuado de eficácia no aproveitamento dos principais lances criados.

Porto - Sinais repetidos (melhor a defender do que a atacar)
No final, Lopetegui tentou contrariar a sentença dos números reclamando para a sua equipa a superioridade no jogo. Não estou totalmente certo da utilidade deste discurso em termos mediáticos, mas não posso deixar de conceder alguma razão à leitura do treinador basco. Mas, vamos por partes...
O melhor da exibição portista, a meu ver, está no capítulo defensivo, indo de encontro a outros sinais já dados nesta temporada, nomeadamente nos jogos fora para Champions. Se contarmos o número de vezes que o Benfica chegou ao último terço portista vamos chegar a valores muito baixos e invulgares para uma equipa com a qualidade dos encarnados. Haverá algum demérito do Benfica (mais abaixo darei a minha visão sobre isso), mas entre peso do mérito de uns e demérito de outros penso que é justo enaltecer sobretudo os créditos portistas, até porque não creio que muitas equipas conseguissem este registo. É claro que o resultado e os dois golos sofridos sugerirão uma análise diferente, que procure até à minúcia explicações causais que possam sugerir alguma lógica ao destino verificado. Se o recurso a esta perspectiva indutiva de raciocínio normalmente não traz bons resultados, neste caso parece-me que só pode mesmo conduzir a conclusões forçadas e de pouco significado lógico. É que nem os golos resultaram de lances onde houvesse um grande descontrolo defensivo, nem o Benfica conseguiu ao longo dos 90 minutos expor o último reduto portista, seja nas costas ou na frente da sua defesa. É claro que haverá reparos individuais a fazer, mas nada que na minha opinião sirva para deixar de concluir sobre o bom controlo defensivo do Porto, apesar do resultado e dos dois golos sofridos.
Menos bem, e também numa repetição indícios anteriores, pareceu-me estar a prestação ofensiva da equipa. É certo que a equipa conseguiu um número importante de ocasiões claras de golo, mas isso terá resultado mais de um bom aproveitamento das chegadas ao último terço, do que propriamente de uma grande capacidade para criar problemas sistemáticos de controlo defensivo ao Benfica, no fundo que correspondessem ao tempo de posse de bola que a equipa teve. Aqui, convém distinguir a primeira da segunda parte, e muito pela postura defensiva do Benfica. Na primeira parte, o Porto conseguiu tirar partido de uma das situações que tinha abordado na antevisão, que eram os movimentos na profundidade dos seus médios, aproveitando a tentativa do Benfica jogar com a sua linha defensiva mais alta. Foi sobretudo pelas dificuldades de controlo do meio campo do Benfica que o Porto criou problemas ao seu adversário nesse período, tendo-se esfumado essa oportunidade quando Jesus baixou as suas linhas, na segunda parte. Aqui, há um ponto que gostaria de abordar particularmente, que tem a ver com a superioridade numérica de que o Porto usufruía no centro do campo, mas que em geral não aproveitou bem. Particularmente, quando a equipa conseguia atrair Lima e Talisca para pressionar os centrais, fazendo também uso do guarda-redes, deixava Enzo e Samaris para controlar Casemiro, Herrera e Oliver, uma vantagem que na primeira parte esteve na origem dos principais problemas defensivos do Benfica, mas que me pareceu ainda assim subaproveitada. Primeiro, por causa de Casemiro, que continua a ter um desempenho com bola muito fraco (defensivamente será o oposto, mas mais sobre isso na análise individual). Justificava-se que o médio jogasse sempre dentro do bloco do Benfica e não que baixasse para a linha dos centrais (o que o retirava da tal zona onde podia criar superioridade), e justificava-se também que tivesse mais capacidade para assumir o jogo com bola, nas costas dos avançados do Benfica, o que não aconteceu. Depois, porque na segunda parte, Oliver e Herrera mantiveram-se demasiado profundos e pouco móveis, o que deixava de fazer sentido quando a linha do Benfica deixou de oferecer os espaços que tinham sido aproveitados na primeira parte. Como nada disto aconteceu, à excepção dos tais movimentos de Oliver e Herrera o Porto voltou a ser fundamentalmente uma equipa de jogo exterior e relativamente previsível, apesar de todo o talento dos seus jogadores.

Benfica - Vitória importante, exibição preocupante
O Benfica pode ter ganho o jogo e possivelmente uma vantagem decisiva na corrida ao título, mas na minha opinião não deixou de fazer no Dragão um jogo bastante medíocre para os seus pergaminhos.
Começando pelo capítulo defensivo, a equipa esteve claramente melhor na segunda parte, quando baixou as suas linhas, depois de ter tido bastantes problemas quando tentou defender em zonas mais amplas do terreno. A ideia de Jesus era usar Lima e Talisca para pressionar os centrais e o pivot, mas frequentemente estes eram atraídos e libertavam Casemiro, valendo ao Benfica a pouca capacidade o médio portista para aproveitar esse facto. Depois, mais atrás, surgiu sobretudo um problema de encaixe, em termos de referências individuais nos médios do Porto. A ideia era que os movimentos dos médios do Porto fossem acompanhados, ora por um dos centrais, ora por um dos médios, mas esse ajuste só foi realmente bem conseguido na segunda parte, quando a equipa passou a defender numa zona mais baixa, e também mais curta, do terreno. Aqui, nota para a diferença na exibição de Samaris, que ganhou muito quando a equipa encostou atrás. De resto, o Benfica foi, como é habitualmente, uma equipa organizada e solidária, com bom relacionamento intersectorial, o que lhe permitiu, com alguma felicidade à mistura é certo, sobreviver sem sofrer golos, num jogo onde passou a maior parte do tempo sem bola e no seu meio campo.
Se defensivamente, e apesar de alguns problemas, a equipa teve um bom desempenho, já com bola não se pode dizer manifestamente o mesmo. O Benfica não conseguiu gerir o jogo com bola, nem tão pouco fazer uso do espaço que o Porto oferecia pela exposição espacial decorrente do facto de estar constantemente em acção ofensiva. Marcou dois golos, é verdade, mas na minha opinião tal resulta essencialmente de um excelente aproveitamente circunstancial daquilo que produziu ofensivamente, e não de uma tradução que corresponda fielmente à seu desempenho ofensivo no jogo. Aqui, temos de separar dois temas, um tem a ver com a incapacidade da equipa se afirmar com bola, o outro com a sua incapacidade de ter mais profundidade nas suas acções ofensivas. Relativamente às dificuldades para ter bola, penso que tal tem que ver com a estratégia de Jesus, que claramente optou por iniciar o jogo através de reposições longas e não assumir o risco de tentar sair desde trás. Percebe-se que tenha tido esse receio, porque o Benfica de hoje não revela grande vocação para envolver o pressing adversário, como fazia no passado, e provavelmente se o tivesse tentado, a equipa acabaria por passar por problemas ao nível da sua segurança em posse. Sucede, porém, que este Benfica também não me parece especialmente vocacionado para jogar a partir de bolas divididas, e a verdade é que perdeu a maioria delas. Talisca pode ter centímetros de sobra mas não é um jogador especialmente forte nos duelos aéreos, e Enzo e Samaris não têm uma presença defensiva tão forte que possa compensar essa lacuna nas segundas bolas. Ou seja, urge que Jesus resolva esta situação e que encontre uma alternativa a partir da qual a equipa possa ser mais eficaz e se consiga assumir perante adversários mais fortes. É certo que sem Europa não sobram muitos embates dessa dimensão, mas convém não menosprezar o campeonato a esta distância do final, até porque não há muito mais a que se agarrar. A minha convicção é que se não evoluir, e tal como aconteceu em Braga e agora no Dragão, o Benfica passará por dificuldades para se impor com bola, sempre que defrontar adversários mais exigentes. Depois, relativamente à pouca profundidade do jogo da equipa, parece-me que o Porto chamará a si boa parte do mérito. Tendo pouca bola, a oportunidade abria-se sobretudo no momento de transição, mas o facto é que o Benfica conseguiu poucas recuperações no corredor central, o que dificultava o desdobramento ofensivo, e contou também quase sempre com uma boa reacção à perda por parte do Porto, cujas qualidades defensivas já elogiei acima.

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12.12.14

Porto - Benfica: antevisão do clássico

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Como qualquer jogo, este poderá ter alguns contornos surpreendentes, seja pelo efeito de um golo, por uma nuance estratégica inesperada ou, claro, por uma formulação errada das expectativas. Ainda assim, valerá a pena o exercício de antecipar o que poderá acontecer no jogo, que aliás me parece intelectualmente bem mais interessante do que a análise à posteriori, ainda que esta possa ser bem mais recompensadora para o ego. Assim sendo, em traços gerais diria que este me parece um embate com probabilidade para ter um bom controlo defensivo de ambos os lados, ainda que com o Porto a assumir mais tempo de presença em posse, pelo menos enquanto não estiver em vantagem. Entre estas duas ideias, a segunda (Porto a assumir mais tempo de posse de bola) parece-me mais segura de se verificar, mas passo a explicar mais detalhadamente a minha leitura sobre o que poderá acontecer...

Organização ofensiva, Porto / Transição ofensiva, Benfica
A tendência, de facto, parece-me apontar para que o jogo se instale mais no momento de organização ofensiva portista. Não porque o Benfica venha a conceder que assim seja, já que provavelmente não deixará de pressionar como sempre faz, mas porque é o Porto quem tem mais tendência para valorizar a sua posse, e jogando em casa essa característica provavelmente acentuar-se-á. Ainda assim, a minha perspectiva não aponta para que existam grandes problemas de controlo defensivo do Benfica. Isto porque, não jogando Quintero, o Porto deverá repetir a sua pouca capacidade de penetração pelo corredor central, apostando mais na sua habitual circulação lateral e na ligação de corredores. Se este cenário se confirmar, o sucesso das iniciativas ofensivas portistas neste momento táctico poderá depender sobretudo dos duelos individuais travados entre os jogadores que actuam junto às linhas, sendo que o Benfica habitualmente consegue um bom apoio defensivo dos seus dois extremos em embates deste tipo. A outra solução para a abordagem portista ao último terço será a exploração da profundidade, mas aí a linha defensiva do Benfica parece-me difícil de bater, desde que o seu meio campo mantenha uma boa presença pressionante, evidentemente. Uma eventual vulnerabilidade encarnada poderá passar pela resposta de Samaris aos movimentos na profundidade de Herrera, já que Jesus costuma pedir aos seus médios para fazer o acompanhamento correspondente, mas o grego tem dado sinais preocupantes ao nível da sua capacidade de resposta.
Outra questão determinante para o jogo será o que se vai passar nas fases iniciais do processo ofensivo portista. Na verdade, a equipa de Lopetegui tem uma % acima da média de ocasiões consentidas no momento de transição ataque-defesa, e muito desse problema passará pelo elevado número de perdas de bola que a equipa acumulou em fase de construção. Aqui, penso que Lopetegui e o Porto se apresentarão bastante avessos ao risco, pelo menos no arranque do jogo, e isso poderá ser importante para que a equipa consiga alguma estabilidade. Ainda assim, é impossível não identificar as fragilidades de vários jogadores, com Casemiro a denotar dificuldades em lidar com o pressing dentro do bloco contrário, com Herrera e Oliver a assumir níveis de risco em posse por vezes desproporcionados quando baixam para perto da primeira linha e com jogadores como Danilo e Maicon também a serem bastante irregulares na sua segurança em posse. Aspectos que, certamente, Jesus e o Benfica tentarão explorar...

Organização ofensiva, Benfica / Transição ofensiva, Porto
Uma das principais dúvidas que tenho passa por perceber que abordagem terá Jesus para a sua fase de construção. O Benfica de hoje é mais frágil a construir desde trás, perdendo muito com a saída de Garay e não tendo ainda em Samaris uma unidade muito fiável sobretudo ao nível da segurança em posse, mas não tem também uma unidade ofensiva como Cardozo, que durante muito tempo permitiu a Jesus apostar numa construção mais longa e menos arriscada em jogos de maior grau de dificuldade. A este nível, os centímetros poderão oferecer a Talisca alguma vantagem sobre Lima na corrida pela titularidade, caso Jesus pretenda ter uma opção estratégica para sair mais longo. A este propósito, já agora, penso que Lima seria globalmente uma melhor solução do que Talisca. Seja como for, não será fácil o papel do Benfica no seu momento de organização, porque o Porto tem revelado uma grande eficácia no seu desempenho perante o ataque posicional dos adversários, com um bloco alto mas geralmente muito compacto. É provável que o Benfica aposte bastante na presença interior de Gaitan, na mobilidade de Jonas, mas também na profundidade de Salvio que poderá causar alguns estragos caso o Benfica consiga a difícil tarefa de provocar a linha defensiva do Porto. Mas, reitero, não me parece fácil que isso aconteça, sobretudo enquanto as equipas conservarem a prudência com que penso abordarão o jogo.
Um dos grandes desafios para o Benfica, no meu entender, estará na capacidade de resposta dos seus médios, em particular de Samaris. Sobretudo se o número de duelos interiores se acentuar (neste ponto, a propensão portista para jogar por fora é uma boa notícia para o Benfica). Pegando no que aconteceu em Braga, por exemplo, vemos que esse foi um ponto decisivo para que o Benfica perdesse o controlo do jogo, e em particular do seu momento de transição ataque-defesa. Com jogadores como Tello e Brahimi à espera de ser lançados no espaço, será fundamental que o Benfica não permita que o Porto faça dos duelos dos médios um ponto de partida para conseguir ter, em transição, o que não terá em organização: espaço.

Quanto vale o clássico na corrida para o título?
Recuperando um exercício que partilhei e expliquei recentemente (e que, por isso, me escuso de o repetir), diria que o clássico terá um potencial para fazer variar as possibilidades de cada uma das equipas se sagrar campeã em cerca de 35% a 40%. Ou seja, se o Porto vencer, passará a ser o favorito, mas se for o Benfica a levar a melhor então a sua vantagem passará a ser bastante substancial e nada fácil de anular (na ordem dos 80%, segundo este modelo de previsão). Ou seja, se formos pelo seu significado literal, talvez seja excessivo apelidar este jogo de decisivo, mas não se poderá ignorar a sua importância na corrida para o título. Como nota final, recordar que estas estimativas têm por base o pressuposto de que Benfica e Porto têm um valor exactamente idêntico, o que obviamente é uma suposição subjectiva. 

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11.12.14

Notas da Champions #6

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Chelsea - Sporting
Se a soma das improbabilidades de Chelsea e Schalke vencerem ofereciam ao Sporting uma boa hipótese de qualificação, rapidamente essas aspirações ficaram reduzidas ao que se passasse na Eslovénia. E aqui reside o principal ponto de critica em relação à performance da equipa, porque se podemos reconhecer que o adversário e o contexto (jogar fora) não eram os mais favoráveis, também teremos de convir que uma equipa que pretende atingir as fases finais de uma prova deste nível deverá ser capaz de oferecer mais resistência perante um adversário que, por muito forte que seja, jogava claramente em clima de descompressão. E, seja por má fortuna de circunstância (o Chelsea chegou ao 2-0 nas suas primeiras duas ocasiões), ou por alguma culpa própria (o Sporting não deveria ter permitido dois lances de golo em tão curto espaço de tempo), a verdade inescapável é que o Sporting não teve essa capacidade.

Algumas notas individuais sobre a equipa do Sporting, e não apenas por este jogo. Primeiro, Nani. Escrevi-o aquando das suas primeiras aparições após o regresso e penso que esta ideia se irá confirmar também na sua ausência. Ou seja, parece-me que sem Nani o Sporting é uma equipa muito mais previsível ofensivamente, nomeadamente pela capacidade do jogador para explorar o jogo interior, e que mais nenhum extremo do plantel oferece. Não direi que o Sporting ficará tão dependente do jogo exterior como foi na época anterior, porque entretanto apareceu também João Mário, que relativamente a André Martins oferece outra capacidade de envolvimento, mas parece-me que ficará certamente mais próximo desse cenário. E, a confirmar-se esta ideia, o alerta ficará também para o que acontecerá na era pós-Nani, porque se em 13/14 a equipa era essencialmente equilibrada entre as suas performances defensiva e ofensiva, com Marco Silva as aspirações colectivas têm sido essencialmente sustentadas pela vertente ofensiva.

Depois, William Carvalho, que vem repetindo exibições que me parecem francamente mediocres, combinando uma assinalável instabilidade ao nível do passe com enormes dificuldades no desempenho defensivo, parecendo claramente pouco vocacionado para defender numa área tão extensa de terreno. Entrando no domínio mais conjectural, pergunto-me o que seria de William se tivesse aparecido apenas este ano na equipa principal e não tivesse já sobre si o estatuto conquistado em 13/14? Inclino-me para pensar que dificilmente teria a titularidade assegurada. Enfim, não sei o que o Sporting e Marco Silva poderão ganhar no futuro com aquilo que estão a pedir a William, mas parece-me que a cada jogo que passa o Sporting está a perder o valor seguro que parecia ter conquistado em 13/14, com prejuízos para o jogador e para o clube.

Finalmente, Paulo Oliveira. No meio do consenso que parece haver em relação às limitações individuais dos defensores do Sporting, o ex-Vitória tem-se afirmado progressivamente com grande segurança e eficácia. Aliás, voltando a um domínio mais conjectural, duvido muito que Rojo fosse capaz de oferecer os mesmos índices de segurança e regularidade, porque o argentino sempre foi um jogador com uma razoável propensão para o risco e para o erro, e nesta temporada o nível de exposição que os centrais do Sporting tem sido assinalável e muito maior do que em 13/14. Ou seja, não estou seguro de que o Sporting tenha ficado a perder com a troca de Rojo por Paulo Oliveira, e também não vejo como provável que a equipa venha a resolver os seus problemas defensivos com a chegada de novos defesas centrais no mercado de Janeiro, naquilo que me parece um evidente retrocesso ao paradigma anterior (como já expliquei noutro texto). Mas o futuro se encarregará de esclarecer isto, num sentido ou noutro...

Outras notas finais sobre a fase de grupos
- Uma nota sobre a performance do Mónaco e de Leonardo Jardim que conseguiu vencer um grupo onde provavelmente seria o menos favorito. O grande destaque, claro, vai para o registo defensivo da equipa, com apenas 1 golo sofrido, o que não sendo inédito parece-me que já não acontecia há muito tempo numa fase de grupos. É claro que há muito de circunstancial neste registo defensivo (como, alíás, mostra o quadro de ocasiões), mas não deixa de mostrar como foi pela via da organização e equilíbrio colectivo que o treinador português conseguiu este feito improvável. Aliás, normalmente é essa a via para potenciar as hipóteses de sucesso de quem não tem do seu lado a vantagem do talento individual.

- Sem grandes surpresas nesta fase, será já possível equacionar grandes embates para os oitavos de final, aparecendo equipas como Arsenal, Man City, Juventus e PSG entre o grupo de segundos classificados. Pessoalmente, saúdo a perspectiva de grandes jogos já a partir da próxima fase...

- Sobre os jogos de Benfica e Porto vou dispensar os habituais comentários, dada a sua insignificância competitiva. Em breve, conto escrever sobre o que realmente estava na cabeça dos dois clubes nesta jornada europeia: o clássico do fim de semana.

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4.12.14

Destaques individuais do Brasileirão Serie B

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Não será, certamente, uma análise que diga muito a muita gente, dado o anonimato da generalidade destes jogadores para a maioria dos adeptos. Ainda assim, arrisco partilhá-la, sobretudo por ter uma base factual bastante significativa (ou seja, os destaques não resultam da minha opinião sobre os jogadores mas antes dos dados recolhidos nos jogos realizados). Na minha análise, a maioria destes jogadores dificilmente teria capacidade para se afirmar num clube grande português, mas por outro lado quase todos eles seriam sem grandes dúvidas mais valias potenciais para a generalidade das equipas da liga portuguesa (que, infelizmente e por outro lado, não deverão ter grandes hipóteses financeiras para conseguir atrair estes jogadores). No entanto, todos eles tiveram um rendimento objectivamente muito elevado ao longo de um período considerável de competição, o que sugere um potencial que a meu será um erro desprezar. Dentro de algumas semanas, deixarei o mesmo tipo de análise para a série A do Brasileirão e também para o campeonato argentino, onde surgirão certamente figuras de maior potencial. Deixo alguns destaques, esclarecendo que esta análise se foca sobretudo nos jogadores que são protagonistas frequentes nas principais jogadas de golo das equipas, e por isso deixa de fora defensores e boa parte dos médios deste campeonato. 
No topo desta tabela, surgem Rodrigo Pimpão e Magno Alves, e ambos são merecedores de uma atenção especial, por motivos diferentes. Rodrigo Pimpão porque consegue este destaque absoluto numa equipa que desceu de divisão, o que é notável. Magno Alves, porque fez um campeonato fantástico e muito desgastante aos 38 anos, ficando claramente a ideia que a sua carreira podia ter tido outra notoriedade (apesar de tudo, foi internacional brasileiro) se tivesse tido outras opções na sua carreira, tendo passado muito tempo no continente asiático e nenhum na europa. Entre os outros jogadores, destacaria os casos de: Junior Viçosa, que esteve ausente muito tempo devido a lesão, mas que conseguiu ainda assim um rendimento elevado; Na mesma categoria estarão jogadores como Rafael Costa, Edgar, Jael, Pimentinha, Thalles e Mancini (ex-Roma e Inter). Fernando Karanga e Tomas, do Boa, que são duas das principais revelações da prova e que provavelmente terão ofertas financeiramente atractivas nesta altura, provavelmente para paragens longínquas; Anderson Lopes, Edigar Junio, Jorginho e Cafu por serem dos poucos jogadores nesta lista com idade inferior a 25 anos.
Entre os guarda redes, nota para a presença de Marcos entre os destaques, ele que já havia deixado muito boa impressão na sua passagem por Portugal ao serviço do Marítimo.


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2.12.14

Notas da jornada 11

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Sporting - V.Setúbal
Se frente ao Maribor o Sporting havia tido uma exibição de grande superioridade, imposta tanto no plano defensivo como ofensivo, frente ao Vitória esse registo ainda foi mais acentuado. Aliás, a comparação desses dois jogos dará também mais um bom exemplo de como no futebol o marcador está longe de ter uma correspondência lógica e directa com aquilo que as equipas fazem em campo. Frente ao Maribor, o Sporting fez 3 golos em pouco mais de um hora de jogo, mas desperdiçou depois a hipótese da goleada na fase onde lhe foi mais fácil criar ocasiões. Frente ao Vitória, e em sentido inverso, foi no arranque do jogo que o Sporting foi mais forte e acumulou mais ocasiões claras para marcar, mas foi na fase em que o seu futebol foi menos expressivo que o resultado se definiu. Evidentemente que é mais provável marcar-se nos períodos em que se fica mais próximo do golo, mas no futebol a aleatoriedade tem papel muito relevante, jogo a jogo.

No Sporting, nota para a opção pela utilização simultânea de Montero e Slimani. Esta é uma solução sobre a qual já havia escrito fazer sentido, sobretudo antes do aparecimento de João Mário entre as principais opções. E fará sentido, porque é relevante ter jogadores com boa capacidade de movimentação no último terço e que se tornem mais dificeis de controlar nas zonas mais próximas da baliza. Aqui, porém, há que ressalvar que Montero não tem, nem a capacidade de envolvimento de João Mário nas fases mais precoces do jogo ofensivo da equipa (basta comparar o grau de participação de ambos), nem tão pouco tem a mesma eficácia nas suas presenças em posse (basta comparar a % de perdas de bola de ambos), destacando-se aqui o seu perfil de decisão que é pouco ajustado a um envolvimento nas primeiras fases do jogo ofensivo da equipa, podendo acrescentar bastante risco ao equilíbrio posicional da equipa. Ou seja, diria que a inclusão de Montero neste registo faz sentido, mas provavelmente apenas em jogos onde o Sporting consiga resolver sem dificuldades de maior o problema da primeira fase de construção, como foi o caso deste jogo.

Uma nota sobre o Setúbal que repetiu nova exibição de grande incapacidade, depois de o ter feito também frente ao Benfica. A subida da linha defensiva tem como pressuposto lógico o encurtamento de espaços por forma a conseguir maior capacidade de pressão no espaço interior, mas no caso do Setúbal isso não acontece e, como tal, a subida da linha defensiva resulta apenas numa transferência de risco de exposição, do espaço entrelinhas para as costas da defesa, o que aumenta obviamente as possibilidades de sofrer dissabores. Se Domingos não corrigir alguns aspectos desta equipa, dificilmente se salvará de um campeonato que, na melhor das hipóteses, será sofrível.

Académica - Benfica
Este jogo marca o inicio do resto da época do Benfica, depois da eliminação europeia. Para já, pode dizer-se que a resposta foi positiva, num jogo que não foi brilhante mas que foi bem conseguido do ponto de vista do controlo defensivo, ajudando muito a eficácia que a equipa conseguiu nas primeiras ocasiões de golo criadas, o que lhe permitiu rapidamente a possibilidade de gerir o jogo. Olhando retrospectivamente para o ciclo do Benfica sob o comando de Jesus, vemos que as suas equipas se deram quase sempre muito bem quando não tiveram de dividir atenções entre campeonato e europa, e se esse dado não servirá para garantir seja o que for, serve pelo menos de indicio para a expectativa que podemos formar em relação à resposta que o Benfica virá a dar nas competições que lhe restam disputar esta temporada.

Uma nota sobre a aposta na dupla Jonas-Talisca. Se quanto a Jonas creio que não restam dúvidas a praticamente ninguém, já relativamente a Talisca eu mantenho as minhas reticências. Aliás, diria que Lima e Talisca tiveram arranques de temporada radicalmente diferentes. Isto é, enquanto que Talisca teve um aproveitamento pleno das ocasiões de que desfrutou, Lima teve uma eficácia muito baixa, mas isso não quer dizer que Lima tenha contribuído menos do que Talisca para os desequilíbrios que a equipa criou, antes pelo contrário de acordo com algumas análises que já partilhei. Neste sentido, o facto de Talisca ter marcado mais do que Lima não implica que Talisca tenha maior probabilidade de marcar do que Lima, sendo que me parece que entre os dois é Lima que mais condições tem para fazer uma boa parceria com Jonas, já que sendo um jogador de maior profundidade pode libertar Jonas para um papel mais móvel, que manifestamente me parece assentar-lhe melhor.

Porto - Rio Ave
Se acima escrevi que o futebol pode ser muitas vezes pouco lógico na forma como o resultado se define, este é mais um jogo a servir de exemplo para essa ideia. Isto, porque estou de acordo com a ideia de Lopetegui, de que foi na primeira parte que a equipa melhor esteve, mesmo se a diferença entre o resultado das duas metades não podia sugerir de forma mais clara a ideia contrária. De facto, parece-me que o Porto teve uma boa entrada em jogo, criando bastantes problemas ao Rio Ave, e que acabou por fazer uns 25-30 minutos sofríveis na segunda parte, onde teve essencialmente a felicidade que não havia tido nos primeiros minutos.

Duas notas sobre a exibição portista. Primeiro, para voltar a referir-me ao controlo defensivo da equipa, que não passou por um número muito grande de sobressaltos, é verdade, mas que permitiu que o Rio Ave chegasse com uma assinalável regularidade até ao último terço, algo que já havia acontecido na recepção ao Nacional, e que estranhamente contrasta com o registo bem mais seguro que a equipa teve nos últimos dois jogos europeus. Um dado atípico e que importa continuar a acompanhar. A segunda nota vai para o regresso de Quintero às segundas opções, o que volta a retirar ao Porto grande parte da capacidade de extrair qualquer coisa do seu jogo interior. Isto porque, e como já escrevi, continua a não me parecer haver grande foco colectivo para a exploração dessa via, sendo Quintero provavelmente a melhor forma de individualmente ajudar a colmatar essa lacuna. Aliás, como se viu na maravilhosa assistência que realizou. Uma nota também para o Rio Ave, que fez um jogo bastante competente em vários aspectos, mas que acabou penalizado por perdas de bola em zona de construção, com 3 dos 5 golos a ter como ponto de partida esse problema. Pode-se ter equipas boas nos mais variadissimos aspectos, mas na minha opinião não dá para construir uma equipa fiável sem garantir segurança a este nível.

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27.11.14

Notas da Champions #5

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Bate - Porto
O contexto era diferente, o valor do adversário também, mas o produto final da exibição portista neste jogo foi muito semelhante àquele realizado no país basco, frente ao Athletic. Ou seja, uma equipa bem organizada nos seus momentos defensivos, com um controlo praticamente perfeito do adversário, mas sem grande capacidade para ser incisivo no último terço. Neste sentido, parece-me, a vitória portista não merece contestação, mas o seu registo ofensivo resulta sobretudo de um aproveitamento pleno das ocasiões criadas e não tanto de uma grande capacidade para criar situações de golo. Este, de resto, continua a ser o grande problema do Porto de Lopetegui, não tanto a nível europeu, mas com repercussões sobretudo no registo interno, onde a sua produção ofensiva tem estado abaixo do esperado. E, novamente também, o défice de jogo interior surge como principal candidato a factor explicativo deste fenómeno do futebol portista actual. No paralelismo entre o que a equipa tem feito interna e externamente, de resto, sobra também uma nota de reflexão em relação ao controlo defensivo, já que as recentes exibições europeias tiveram um controlo defensivo substancialmente superior àquele registado nos confrontos contra Nacional e Estoril, o que não se pode deixar de estranhar em face do grau de dificuldade de cada um destes desafios. Um problema que, na minha leitura, tem a ver com os níveis de risco assumidos nos dois planos competitivos, interno e externo, sendo que internamente o Porto se tem exposto mais, provavelmente pela consciência da necessidade imperiosa de fazer golos e da pouca confiança que terá na sua própria capacidade de resposta a esse nível.
Uma nota a nível individual para Marcano e para a questão dos centrais. Primeiro, sobre o tema de se ter dois centrais canhotos, que aparentemente será um problema para o Porto, a julgar por algumas análises que vi. A minha questão é porque é que ninguém levanta o mesmo tipo de problema quando, numa qualquer equipa, jogam dois centrais destros, como tantas vezes acontece? Não percebo... Depois, mais concretamente sobre Marcano, que ao que me parece é visto de forma quase unânime como o pior central do Porto. Já o escrevi, e mesmo se o tempo de observação ainda é curto, este jogo voltou a reforçar a minha opinião, de que o espanhol tem sido a solução que melhor rendimento tem dado à posição. Relativamente a Maicon, tem revelado uma propensão para o erro muito menor, e relativamente a Indi parece-me ter uma capacidade de intervenção defensiva substancialmente superior. Dá-me a ideia que ficou mediaticamente penalizado pelo facto de ter jogado em alguns jogos colectivamente pouco conseguidos nesta temporada (nomeadamente frente ao Sporting), mas na minha avaliação (que, reconheço, relativamente a centrais é tudo menos consensual!) isso não implica que individualmente as suas exibições tivessem sido más. No caso, muito pelo contrário.

Sporting - Maribor
Um jogo de grande superioridade do Sporting, confesso até para além das minhas próprias expectativas. A vitória é incontestável, e o resultado pecará até por escasso, sobretudo tendo em conta aquilo que foram os 20 minutos do jogo. Que hipóteses tem o Sporting agora de se apurar? Bom, digamos que o desfecho mais provável dos dois jogos finais é que o Schalke vença na Eslovénia e que o Sporting perca em Londres, mas que isso não impede que as hipóteses de apuramento sejam claramente favoráveis ao Sporting, diria na ordem dos 65%. Pode parecer paradoxal, mas não é...
Uma nota sobre o registo defensivo da equipa, que voltou a ser abordado no final do jogo. O Sporting tem tido de facto problemas graves a esse nível, e sobre os quais tenho escrito repetidamente. Neste jogo, porém, não os teve. O Maribor atacou, sim, e até marcou um golo, mas isso não quer dizer que tenha sido especialmente ameaçador durante os 90 minutos, e a realidade é que não o foi. De resto, tomara o Sporting ter tido a mesma capacidade de controlo defensivo que teve neste jogo nas recepções recentes, a Marítimo e Paços de Ferreira, e parece-me importante que haja a capacidade de distinguir as situações, porque não se pode desvalorizar o que se passou em muitos dos jogos recentes para vir depois sobrevalorizar uma reacção como a que teve o Maribor, sob pena de não se saber se a equipa está ou não a produzir aquilo que dela se exige.
Uma nota incontornável no plano individual, para Nani. Não pelo lado estético da sua performance mas, e como sempre tento fazer, mantendo o foco na produção objectiva do jogador. À excepção do primeiro golo, foi o denominador comum de todas as principais ocasiões da equipa, tendo estas sido em quantidade substancial. Uma exibição fantástica, muito difícil de igualar e que revela a importância que a chegada de Nani teve para o Sporting e para Marco Silva.

Zenit - Benfica
O cenário da eliminação europeia estava desenhado desde a segunda jornada. Não era uma inevitabilidade, claro, mas quem perde dois jogos num grupo tão equilibrado como este, nunca pode deixar de ignorar a probabilidade desse destino. Na minha opinião, a má campanha europeia do Benfica justifica-se sobretudo por esses dois jogos e não por aquilo que se passou a seguir, e muito concretamente não por este jogo. É fácil pegar nos resultados, na carga emocional que eles acarretam, e fazer análises que partem do efeito para as causas, fazendo tudo parecer uma inevitabilidade, mas esse é um oportunismo que neste caso me parece intelectualmente reles e que por isso rejeito. O Benfica perdeu o jogo, é certo, mas perdeu-o frente a um adversário de potencial idêntico ao seu, jogando fora, e num jogo que discutiu de igual para igual, tendo sido em minha opinião até ligeiramente superior em diversos momentos. O jogo, por isso, não me parece merecedor de grandes reparos ou motivos de preocupação, por muito que o resultado e a eliminação consequente possam trazer consigo uma carga emocional negativa e difícil de ignorar. O mesmo não se poderá dizer dos tais dois primeiros jogos desta fase de grupos, mas sobre eles é bom que o Benfica já tenha retirado as ilações devidas. Resta à equipa agora continuar a evoluir colectivamente, tendo como conforto a noção de que internamente a sua situação é bastante favorável, tendo por isso boas condições para repetir os sucessos internos do ano anterior.

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25.11.14

Os principais desequilibradores da Liga 14/15

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Partilho a lista dos principais desequilibradores da liga portuguesa até à 14/15, de acordo com o tipo de análise que venho mantendo. De forma breve, deixo alguns destaques (com foco assumidamente centrado nos "grandes"), fazendo notar que o tempo de utilização é ainda curto para que se possam tirar grandes conclusões. Primeiro, obviamente, para Deyverson que está a fazer um inicio de temporada assombroso, aparecendo no topo deste ranking, o que é fantástico para um jogador que actua numa equipa com o volume ofensivo do Belenenses. No Porto, e apesar da modéstia da prestação ofensiva da equipa, Jackson volta a surgir como uma figura incontornável de destaque, o que volta a sustentar a qualidade do colombiano. O outro nome portista nesta lista é Brahimi, de quem provavelmente se esperaria maior destaque dentro desta lista. A verdade, porém, é que o argelino tem conseguido ser bem mais contundente na Champions do que na Liga, sendo ainda assim provável que o tempo venha a atenuar essas diferenças. No Benfica, Gaitan mantém-se como o jogador com mais presença criativa nas ocasiões de golo da Liga, tal como foi na época transacta. Mas no Benfica, há outros nomes a sublinhar, como o de Talisca, que vem marcando a diferença mais pela eficácia do que pela frequência com que desequilibra (já tenho escrito bastante sobre isto), Lima,  que é um caso inverso ao de Talisca, e Salvio, que vem mantendo uma regularidade desequilibradora significativamente acima daquilo que Markovic havia feito na sua ausência no ano anterior. No Sporting, Nani surge sem surpresa entre os destaques, mas também Carrillo surge num nível de rendimento muito elevado a este nível, o que poderá ser mais surpreendente. No que respeita aos avançados, Slimani e Montero dividiram o tempo de utilização e por isso se percebe que nenhum dos dois possa estar mais próximo do topo desta lista. Ambos mantiveram uma boa presença nas principais situações de golo da equipa, mas o caso do argelino é claramente aquele que merece maior destaque, já que apesar do pouco tempo de utilização foi o segundo jogador com mais presença em situações de finalização em toda a competição. Uma constatação que, como já tenho escrito, me parece definir claramente a mais valia que o argelino pode representar para Marco Silva.

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