30.9.14

Sporting - Porto (II): performance individual

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Sporting
Rui Patrício - Mais uma exibição de grande nível, com defesas decisivas e sem mácula no que respeita à generalidade das suas intervenções. Tem-se falado muito sobre a falta de eficácia do Sporting em termos ofensivos e, como já escrevi, também concordo com o peso dessa má fortuna neste inicio de época, mas é bom também notar que a equipa tem beneficiado de um patamar de eficácia bastante reduzido dos seus adversários, sendo o jogo do Belenenses a única excepção. Aqui, e tal como na época passada, Rui Patrício tem-se revelado como uma mais-valia fundamental.

Cedric - Não tem tido os mesmos problemas de Esgaio do ponto de vista defensivo, mas esperava-se mais neste seu regresso à equipa, tendo para já contribuído com exibições muito modestas sobretudo no capítulo técnico, parecendo algo desinspirado. Espera-se que possa recuperar o patamar qualitativo da época passada, bastante diferente do que vem apresentando.

Jonathan Silva - O herói improvável. Deu-se muito bem, na primeira parte, com a postura pressionante da equipa, intervindo quase sempre em antecipação e em zonas muito adiantadas. No entanto, o jogo foi revelando várias debilidades, cometendo alguns erros de abordagem individual no 1x1 com os adversários. Do ponto de vista ofensivo, também esteve em níveis bastante modestos, com baixa participação com bola, e baixa percentagem de eficácia no passe. Também ao nível dos cruzamentos, não conseguiu emprestar grande qualidade, verificando-se nesse particular uma diferença considerável para Jefferson. Aliás, tudo somado e apesar do golo, parece-me ainda distante do que o brasileiro oferece à equipa.

Maurício - Não foi um jogo à sua medida, porque o Porto força pouco os duelos na sua zona, mas apesar disso deu-se bastante bem no confronto com Jackson (que era um adversário naturalmente difícil). Foi o jogador da equipa que conseguiu mais duelos/intercepções (17), o que revela mais uma vez a sua aptidão para dominar o espaço à sua frente. Os problemas defensivos que sentiu resultam mais de comportamentos colectivos a rever (nomeadamente a questão do controlo da profundidade) do que propriamente de dificuldades de abordagem individual. Com bola, recorreu muito ao jogo directo, o que não me pareceu descontextualizado da intenção colectiva perante o pressing adversário, já que poucas soluções de apoio foram apresentadas à primeira fase de construção.

Sarr - Acaba por ficar marcado pelo lance do golo, que é sobretudo uma infelicidade. Ainda assim, parece-me que poderia ter antecipado o previsível passe de Tello para Danilo, fechando mais o ângulo de cruzamento. Antecipação e leitura do jogo, porém, não são o seu forte, e sempre que tem de sair da sua zona fá-lo com vísivel insegurança. Por isso, e como já escrevi, acaba por não ter a capacidade de intervenção defensiva ideal, sendo esse o ponto em que me parece mais urgente que evolua. Nota positiva para a sua presença nos lances de bola parada defensiva, onde fez valer a sua estatura. Com bola, teve dificuldades semelhantes às de Maurício, sendo de notar porém que não comprometeu a segurança da equipa. 

William - Numa época que vem sendo pouco conseguida, voltou a exibir-se em muito bom plano, sendo de longe o jogador com mais intervenções positivas (com e sem bola) da equipa. Não se deve, a meu ver, descontextualizar o seu bom desempenho com o tipo de jogo que realizou, exigindo-se-lhe essencialmente que retirasse a bola das zonas de pressão e as entregasse de forma útil, em vez de ser um protagonista ao nível do passe, como tem tentado ser. Uma evidência, na minha perspectiva, que a diferença de William da época transacta para esta tem sobretudo a ver com as exigências do contexto colectivo, que são menos ajustadas aos seus pontos fortes. Sem bola, não venceu muitos duelos, mas foi o jogador com mais recuperações posicionais na partida, contribuindo decisivamente para o domínio do Sporting ao nível das bolas divididas na zona média.

Adrien - Mais um jogo grande e mais um jogo discreto do ponto de vista da influência em posse e presença criativa, por parte de Adrien. Mais uma vez, também, esteve melhor do ponto de vista defensivo, onde mantém níveis de intensidade/agressividade bastante elevados. Cada vez mais me parece que poderia evoluir como médio mais defensivo.

João Mário -Tinha escrito não conhecer suficientemente o jogador para perceber que mais valia poderia representar relativamente a André Martins, mas a verdade é que este jogo oferece-me uma perspectiva bastante optimista a esse respeito. Muito maior capacidade de intervenção em posse e uma capacidade técnica que lhe permite também melhor percentagem de eficácia de desempenho. Se a isto juntarmos a sua boa capacidade de desequilíbrio (para já ainda tem poucos jogos para ser conclusivo), podemos ter aqui um verdadeiro reforço relativamente a esta posição específica. Veremos como evolui, mas para já é sem dúvida prometedor.

Carrillo - Mais um excelente jogo, intervindo directamente em 3 dos 5 principais lances ofensivos da equipa e dando sequência a um excelente inicio de temporada. Por outro lado, realizou também um jogo de grande intensidade do ponto de vista defensivo. Aparentemente, não havia grandes motivos para ser substituído.

Nani - Será o jogador que mais reflecte as diferenças de performance da equipa, de uma parte para a outra. Na primeira parte, foi um protagonista total, mantendo presença criativa no último terço e também boa capacidade de pressão. Nesse período, beneficiou muito do bom ajustamento do seu posicionamento para zonas interiores, onde se apresentou como elemento extra, tanto na conquista de segundas bolas como na presença em posse. Na segunda parte, perdeu intensidade e foi acumulando uma série de más intervenções, perdendo sucessivamente a bola. Daí, a sua baixa percentagem de eficácia na presença em posse.

Slimani - Muita luta e muita intensidade, dando algum trabalho aos centrais contrários e conseguindo algumas boas movimentações. No entanto, não conseguiu ser o protagonista que certamente desejaria ser no último terço. Outras oportunidades haverá, porque quem joga com esta intensidade dificilmente passa muito tempo sem ter oportunidades.

Porto
Fabiano - Esteve globalmente bem, num jogo bastante mais exigente do que aquilo que é hábito. A excepção é o lance do golo, onde saiu precipitadamente da baliza. Nota para o seu jogo de pés, onde completou mais passes do que alguns jogadores de campo.

Danilo - Um jogo de grande trabalho defensivo, dando-se globalmente bem nos duelos que travou. Como é seu hábito, esteve melhor nas suas aparições no último terço (nomeadamente no lance do golo) do que propriamente na gestão da posse, em fases mais precoces do processo ofensivo.

Alex Sandro - Tal como Danilo, foi bastante solicitado do ponto de vista defensivo, acabando porém por sentir mais dificuldades em lances determinantes, tanto em alguns duelos com Carrillo como a fechar o espaço interior, sendo batido por duas vezes na resposta a cruzamentos. Com bola, esteve também bastante activo, registando uma percentagem de eficácia bastante elevada.

Bruno Indi - Creio que é um detalhe que escapou à maioria das pessoas, mas realizou um jogo bastante modesto do ponto de vista de intervenção defensiva, ficando muito distante dos níveis de participação de todos os outros defensores, particularmente de Marcano. Serão precisos mais jogos para o confirmar, mas isto pode indicar alguma incapacidade de antecipar e ganhar vantagem nos duelos directos. Este perfil de jogo acaba por protegê-lo de uma maior exposição ao erro e eventualmente acaba por contribuir para uma melhor percepção mediática, mas isso não pode ser confundido com um melhor contributo qualitativo, porque na realidade revela precisamente o contrário.

Marcano - Seja pela circunstância do jogo ou pela sua própria capacidade, acabou por protagonizar um jogo completamente diferente de Indi, muito mais interventivo e dominador na sua zona. Aliás, Marcano foi o jogador na partida com mais intervenções positivas. Tal como no caso de Indi, serão precisos mais jogos para ser conclusivo em relação ao seu perfil e capacidade, mas para já ficam indicadores muito bons. Pelo menos para mim, porque aparentemente a percepção generalizada foi diferente.

Casemiro - Numa primeira parte com bastantes dificuldades dos elementos da sua zona, foi na minha perspectiva um jogador que ajudou a minimizar prejuízos. Excelente capacidade de intervenção defensiva e também sem comprometer do ponto de vista da presença em posse. Na segunda parte estava, de novo, a fazer um bom jogo agora com maior auxílio da prestação colectiva. Reyes não manteve, nem de perto, os seus índices de performance, tanto defensivos como ao nível da presença em posse, e por isso fica-me a ideia que a sua saída pode ter sido importante para limitar a reacção da equipa e, eventualmente, as suas aspirações de vitória.

Ruben Neves - É ingrato ser muito critico para um jogador com a sua idade, sendo já fantástico que consiga aparecer tão novo a este nível. Ainda assim, e sendo objectivo, não se pode deixar de assinalar as dificuldades que teve no jogo. Foi dele a perda de bola na origem do primeiro golo e ao longo da primeira parte foi sendo um pouco o espelho das dificuldades da equipa, incapaz de auxiliar na saída de bola e fuga ao pressing adversário, e também com bastantes dificuldades a nível defensivo.

Herrera - Mantém-se como um jogador impulsivo, frequentemente pouco lúcido do ponto de vista da decisão, mas também com uma intensidade impressionante. Dentro deste perfil, facilmente se perceberá que não poderia ter sido ele a solução para os problemas colectivos, na primeira parte, e que se tornou num jogador potencialmente determinante, na segunda.

Quaresma - Não é preciso uma grande capacidade de análise para perceber as dificuldades que sentiu no jogo...

Brahimi - Teve mais dificuldades em desequilibrar, o que é normal num jogo de grau de dificuldade mais elevado, mas voltou a dar sinais muito importantes de qualidade. Em particular, conseguiu uma presença em posse assinalável e com eficácia muito elevada para quem ocupa uma posição tão adiantada. Em destaque a sua presença no momento de transição defesa-ataque, conseguindo 9 ligações positivas em 11 aparições com bola, o que é o melhor registo entre todos os jogadores da partida. Na segunda parte, apareceu mais no corredor central e auxiliou a equipa a encontrar, finalmente, os espaços nas costas dos médios do Sporting. Destaque para o passe para Jackson, logo a abrir a segunda parte.

Jackson - Novamente um jogo difícil em Alvalade, embora desta vez com um contributo muito mais positivo do que na época transacta. Não teve vida fácil nos duelos com Maurício, mas acabou por encontrar a sua oportunidade, que Patrício lhe negou.

Oliver - Está ligado ao crescimento da equipa, embora na minha opinião não tenha feito um jogo excepcional do ponto de vista técnico. Foi, sobretudo, a sua boa movimentação sem bola que foi ajudando a equipa a encontrar linhas de passe para sair de forma útil da zona de construção, o que não havia sucedido na primeira parte.

Tello -  Fica ligado à última ocasião do jogo, sendo obviamente criticável a sua opção pela iniciativa individual em vez do cruzamento. Ainda assim, parece-me justo realçar o impacto positivo que trouxe à equipa, vencendo vários duelos directos com os laterais do Sporting e criando situações de perigo potencial no último terço.

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29.9.14

Sporting - Porto (I): performance colectiva

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 Sporting
Dir-se-á que este foi um jogo equilibrado e que por isso o resultado lhe assenta bem. Não posso discordar, se considerar o computo geral da partida, mas não posso também deixar de afirmar que equilíbrio foi coisa que nunca existiu no jogo. É o tal paradoxo da média estatística. O jogo foi sempre desequilibrado, mas como o ascendente se dividiu de forma mais ou menos equitativa pelas duas equipas, ele acaba por ser, em média, equilibrado. Enfim, deste contraste de desequilíbrios resulta o grande ponto de interesse do jogo no que a análise diz respeito, e que se prende com a questão de perceber os motivos que podem ajudar a explicar esse tal contraste, de uma parte para a outra.
No caso do Sporting, a primeira parte foi bem conseguida essencialmente pela capacidade de retirar o Porto da sua zona de conforto, através de um pressing muito alto, com grande risco de exposição posicional, que derivava do adiantamento de um número substancial de jogadores para pressionar no meio campo contrário (não raramente, foram 6 ou 7). Isto, para potenciar o momento de transição, porque em relação às suas próprias iniciativas com bola, ou seja em organização, o Sporting jogou quase sempre a partir da segunda bola, aproveitando o previsível adiantamento pressionante do adversário, para esticar o jogo e potenciar depois o espaço que se abria no meio. Ou seja, os seus médios estavam mais projectados e ofereciam menos apoio para que a equipa pudesse sair de trás de forma apoiada, mas depois apareciam melhor colocados para disputar a segunda bola, na frente da linha defensiva portista. Em suma, sendo em transição ou organização, o Sporting usou sempre os duelos no miolo como ponto de partida para acções de ataque rápido que foram criando problemas de controlo ao extremo reduto portista e que, na primeira parte, facilmente lhe poderiam ter valido uma vantagem mais decisiva do que o 1-0 que se verificava ao intervalo.
A grande questão, porém, é porque é que se deu uma descontinuidade tão grande, de uma parte para a outra? Há vários motivos que podem ajudar a explicar essas diferenças. Ainda assim, devo começar por dizer, não creio que houvesse mudanças substanciais em termos de estratégia ou estrutura, por parte dos treinadores, estando a questão mais centrada no desempenho de ambos os lados. Por um lado, o Sporting poderá ter sido vitima do desgaste físico e psicológico que representou correr tanto atrás da bola nos primeiros 45 minutos, perdendo intensidade e eficácia na acção pressionante, na segunda parte. Por outro, o Porto passou também a fazer melhor uso do corredor central, com Oliver a ser mais solícito em termos de apoio à construção, e o próprio Brahimi a aparecer de forma mais clara nas costas dos médios do Sporting. Ora, como ambas as equipas se apresentaram com estratégias de elevado risco, no caso do Porto pelo exacerbar da posse em zonas mais recuadas, e no caso do Sporting pelo adiantamento de tantos jogadores na acção pressionante, é natural que pequenas variações no desempenho colectivo resultassem em importantes consequências ao nível da proximidade com o golo. E foi isso mesmo que aconteceu.
Indo mais concretamente às especificidades do Sporting, volto a destacar, por um lado, o elevado potencial ofensivo da equipa, comparativamente com a época passada. Uma ideia que para já não está traduzida no número de golos, é verdade, mas que rapidamente virá a estar, caso o volume de ocasiões se mantiver no patamar actual. Por outro lado, fortes reticências no que respeita ao desempenho defensivo, e não me estou aqui a prender nas questões individuais que tanto vêm marcando os debates em torno da equipa. Dois pontos a destacar, e ambos repetidos de análises anteriores. Primeiro, a questão do controlo da profundidade por parte da linha defensiva. É um problema que já antecipara quando se confirmou a contratação de Marco Silva, porque já se observava também no Estoril, e que por isso também se torna mais difícil de pensar que possa vir a ser corrigido. Ou seja, a linha defensiva não é sensível à falta de presença pressionante sobre o portador da bola, assumindo assim muito risco perante esse tipo de situação. O outro ponto tem a ver com o momento de transição ataque-defesa. Se observarmos com atenção o jogo, vamos encontrar várias jogadas em que a equipa não consegue pressionar a zona da bola, imediatamente após a perda, o que permitiu ao Porto sair para acções de transição que depois se tornam muito complicadas de controlar defensivamente. Já contra o Benfica, a maioria das ocasiões de golo consentidas aconteceram no momento de transição, voltando a acontecer o mesmo contra o Porto. Este é um problema que não fica muito visível na generalidade dos jogos do campeonato, mas que ganha rapidamente outra relevância assim que a qualidade do adversário aumenta. Urge, portanto, rectificar o jogo posicional da equipa quando em posse de bola. Aliás, todos os alertas deverão estar nesta altura accionados na equipa técnica de Marco Silva, porque este tipo de fragilidades não podiam ir mais ao encontro dos pontos fortes do próximo adversário da equipa, o Chelsea.

Porto
Tal como para o Sporting, importará perceber o porquê do contraste da exibição portista, de uma parte para a outra. No caso do Porto, os problemas da primeira parte repetem-se daqueles já observados em Guimarães. Ou seja, a equipa foi novamente condicionada por um adversário que jogou tudo na obsessão do jogo portista por uma saída em apoio e orientada para os corredores laterais. Só que desta vez os problemas ainda foram mais acentuados, tanto pela maior qualidade do adversário como pelo maior ênfase que este colocou no pressing alto. Aqui, penso que Lopetegui assume algumas responsabilidades do ponto de vista da antecipação da estratégia do adversário. O técnico espanhol, já se percebeu, dará pouca margem a variações na identidade do seu jogo, e quererá sempre assumir o jogo através de uma progressão apoiada. O problema é que o Porto terá também de contar com os adversários, que tenderão a aperceber-se dessa característica vincada do jogo portista e lhe colocarão problemas cada vez mais específicos. Repetindo a ideia que já deixei recentemente, as soluções passam por 1) ser tão forte (leia-se, eficaz) na afirmação do seu jogo que se torne indiferente a estratégia dos adversários, ou 2) encontrar respostas alternativas para os problemas que previsivelmente lhe serão colocados (sem que isto implique o desvirtuar da identidade, claro). Só que 1) é muito mais difícil do que 2), e até o memorável Barça de Guardiola apresentava variantes estratégicas para contrariar os problemas que os adversários lhe tentavam colocar. Ou seja, Lopetegui poderá ter uma equipa teimosa, no sentido em que fará tudo para se afirmar pela posse e progressão em apoio, independentemente da estratégia do adversário, mas dificilmente terá sucesso se transformar essa teimosia em autismo, querendo chegar sempre da mesma maneira e pelos mesmos canais (entenda-se, corredores laterais), quando o adversário se apresenta preparado para os bloquear. A diferença do Porto, da primeira para a segunda parte, reside muito nisto, na diferença entre teimosia e autismo, mantendo após o intervalo a intenção de forçar o jogo apoiado, sim, mas percebendo também que perante a estratégia do adversário, seria muito mais fácil explorar as costas da sua linha média, muito adiantada, do que forçar em permanência a entrada da bola nos corredores laterais.
Se há lição a retirar deste jogo, do meu ponto de vista, é que será fundamental que a equipa (e Lopetegui, em particular) consiga antecipar melhor os problemas específicos que os adversários lhe poderão vir a colocar, até porque como se viu neste jogo, por muito boa que seja a reacção - e foi excelente na segunda parte! - é sempre possível que esta venha a ser insuficiente se os danos forem consideráveis.

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23.9.14

Algumas notas (Jornada e novo seleccionador)

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Benfica - Moreirense - O Benfica ganhou e, no final, o triunfo até acaba por deixar pouca margem para contestação, tendo em conta a segunda parte. Mas é inegável que o Moreirense conseguiu um excelente primeiro tempo, canalizando a construção do Benfica para as zonas que lhe interessavam (corredores laterais), onde definia zonas de pressão que lhe eram favoráveis para a recuperação da bola. Bom jogo defensivo do Moreirense, sem dúvida, que no entanto nunca teve a mesma correspondência ao nível da capacidade para ter bola, e que por isso acabou por ceder progressivamente terreno ao Benfica, o que acabou por ser o factor fundamental para o desmontar da resistência. Nota, no Benfica, para a variante específica de 14/15, com o exacerbar das trocas posicionais entre Gaitan e Talisca, o que poderá ajudar Talisca a respirar melhor, mas que acabará igualmente por retirar profundidade e presença no último terço à equipa. A este respeito, a alternativa possível parece nesta altura única e tem um nome: Jonas. Mais atrás, problemas ao nível do envolvimento na fase de construção, claramente controlada pelo Moreirense na primeira parte, e também na coordenação da linha defensiva, algo sobre o qual já havia escrito na sequência do jogo com o Zenit, voltando a surgir alguns lances a denotar algum trabalho a fazer. Um deles, mas não o único, foi o do golo.

Gil Vicente - Sporting - A eficácia, que tanto penalizou a equipa nos jogos caseiros, beneficiou agora o Sporting, com dois remates certeiros em tantas tentativas, logo a abrir a partida, e praticamente resolvendo-a. Esta questão da eficácia não tem de ser tão vaga ou abstracta como é geralmente tratada. Por exemplo seguindo o critério de análise que venho mantendo relativamente a ocasiões de golo, dificilmente as equipas terão níveis de eficácia drasticamente diferentes no final de uma época. No curto prazo, porém, isso não só pode, como é normal que aconteça, e por mais que se procurem justificações para esse tipo de fenómenos, nenhum o explicará melhor do que a simples e frustrante aleatoriedade do jogo. Relativamente ao Sporting, a equipa claramente mudou com a entrada de Nani, passando a ter muito mais capacidade de penetração no corredor central, o que lhe traz um potencial ofensivo assinalavelmente superior ao da época passada. Está certo que se deve orientar o foco para o lado colectivo do jogo, mas aqui temos um bom exemplo de como um só jogador pode mudar tanto na qualidade ofensiva de uma equipa, até aqui praticamente dependente das acções pelos corredores laterais. Por muito que seja só um jogador, é escusado desvalorizar o peso individual que tem Nani no Sporting 14/15, porque ele é de facto muito. Mais 2 notas sobre o Sporting. A primeira, para João Mário, que conseguiu um bom jogo mas que, pelo menos para mim que não o conheço o suficiente, não chega para concluir que representará uma mais valia clara em relação a André Martins. A segunda, sobre o desempenho defensivo da equipa, que me continua a parecer algo exposta a perdas de bola no corredor central e com alguns problemas de resposta por parte dos seus defensores, relativamente à exigência de jogar uns metros mais à frente comparativamente com o ano anterior. Tudo aspectos rectificáveis através do treino, sendo bom que Marco Silva o consiga fazer, até porque nem todos os adversários serão tão frágeis quanto foi o Gil Vicente.

Porto - Boavista - No Dragão, um resultado verdadeiramente surpreendente. Tinha a expectativa de que este pudesse ser um dos embates mais desequilibrados do campeonato, e paradoxalmente o jogo acabou por acentuar essa minha ideia, apesar do resultado contraditório. Isto pelas dificuldades denotadas pelo Boavista, mesmo jogando tanto tempo em superioridade numérica, e com tanta dificuldade em conseguir ter uma melhor afirmação territorial no jogo. E, se me espantou o domínio que o Porto conseguiu jogando em inferioridade numérica, não me espantou menos o número relativamente reduzido de ocasiões claras de golo que conseguiu, sendo este muito baixo para tanto volume de jogo. Aliás, este não é um problema novo na temporada portista, que vem combinando um domínio territorial quase sempre avassalador com uma proximidade com o golo relativamente modesta para as expectativas. Um aspecto que Lopetegui terá de corrigir, o que não será tarefa fácil se continuar a negligenciar o jogo interior, como parece que é sua intenção. A propósito, este empate e a perda de liderança fizeram surgir o primeiro foco de criticas mediáticas ao treinador espanhol. Sobre a rotatividade, devo dizer que desde que não haja perda de qualidade individual nessa gestão (nomeadamente, mantendo as principais figuras, o que Lopetegui vem fazendo), não vejo nenhum argumento com força suficiente desequilibrar a balança da discussão. O treinador "acha" que não é relevante, outros "acharão" o contrário. Enquanto estivermos no domínio do que cada um "acha", sem um suporte argumentativo ou factual mais sólido, ninguém poderá reclamar ter a razão do seu lado. Quanto ao resto, parece-me uma cobardia intelectual esperar por resultados negativos para vir apontar o dedo ao trabalho de um treinador que tem sido muito claro sobre o que pretende, desde a primeira hora. Se se discorda do trabalho, a critica não pode depender dos resultados.

Paços - A propósito do quadro que acompanha o texto, é ainda cedo para que estes dados sejam conclusivos. Ainda assim, e escapando a destaques mais óbvios e cujos dados falam por si, gostaria de chamar a atenção para a época do Paços, que teve um calendário até agora muito difícil e ainda alguma má fortuna relativamente ao aproveitamento das ocasiões que criou. Fica a nota, para confirmar ou não no futuro próximo, mas se a equipa mantiver o rendimento que conseguiu até aqui, dificilmente deixará de repetir uma excelente classificação, no regresso de Paulo Fonseca.

Novo seleccionador! - Fernando Santos foi o escolhido. Era, para mim, a solução mais previsível desde a primeira hora, não pela inexistência de alternativas de qualidade, que havia, mas porque era o nome mais consensual, e esse parece-me um critério fundamental para a Federação. Penso que tem boas condições para ser uma boa solução, tendo em Portugal um desafio na minha leitura semelhante ao que teve na Grécia. Isto é, terá um leque curto de seleccionáveis, e também a dependência previsível de uma geração que rapidamente entrará na casa dos 30. A exigência e o potencial é que serão maiores. Apenas espero que não o forcem a uma renovação que não é ao seleccionador que cabe fazer, e que com isso acabe por retirar potencial à equipa. Do ponto de vista táctico, a tendência deverá ser para manter o 4-3-3, mas com uma organização defensiva diferente, nomeadamente com maior adiantamento dos médios interiores, em contraponto com os extremos (aqui uma reticência, porque Ronaldo dificilmente poderá defender em zonas tão baixas). Não é de excluir, porém, a hipótese do 4-4-2 losango, que Fernando Santos utilizou tanto no Sporting como no Benfica. Pessoalmente, apenas lhe posso desejar a melhor das sortes.

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18.9.14

Notas da Champions (Benfica, Porto e Sporting)

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Benfica - Zenit - Um desfecho decepcionante face às expectativas do Benfica para este duelo e para esta competição. Há duas formas de ler o que se passou. A primeira, enfatizando o condicionalismo de se ter jogado em inferioridade numérica durante 70 minutos. A segunda, sublinhando que o Zenit demorou apenas 20 minutos a materializar o 'knock-out' no estádio da Luz. Pessoalmente, tendo a valorizar mais a segunda, até porque se o Benfica ficou reduzido a 10, tal só aconteceu porque Artur resolveu adiar o segundo golo, trocando-o pela sua presença em campo.
Explorando os motivos que estão na base da derrota, começo por Jardel, e pelos passes perdidos em zona proibida. A importância da segurança na primeira fase de construção é um tema que valorizo muito e que abordo com bastante frequência e há muito tempo a esta parte. Mas importa não confundir as coisas, porque ter segurança não implica que se tenha uma grande qualidade de construção, e vice versa. O primeiro problema, da segurança, precede o segundo, da qualidade de construção. A segurança visa impedir aquilo que sucedeu ao Benfica, ou seja ser exposto defensivamente, e a qualidade de construção tem como objectivo fazer a equipa progredir de forma útil para fases mais adiantadas do jogo ofensivo. E, aqui e por tudo isto, quero logicamente reforçar que o problema das perdas de bola do Benfica não tem como explicação fundamental uma eventual falta de qualidade técnica dos seus centrais, mas sim com o seu critério em posse. A qualidade técnica afectará, sim, o potencial qualitativo da construção, e aquilo que ela pode oferecer ao processo ofensivo, mas não necessariamente a segurança. Até porque para fazer um passe lateral de 10-15 metros, como aquele que deu origem ao primeiro golo no jogo, não é preciso uma qualidade técnica especialmente relevante. Para dar exemplos do futebol português, posso lembrar David Luiz, que era um jogador que oferecia grande potencial à construção, precisamente pela qualidade técnica que tem, mas que colocava em risco várias vezes a segurança na fase de construção, pelo critério que assumia. Outro exemplo idêntico, mas no Porto, Otamendi. Em sentido inverso, temos no Benfica o caso de Luisão, que é um jogador que não oferece especial mais valia à construção, mas que raramente coloca em causa a segurança da equipa, pelo bom critério que assume.
Ainda assim, e apesar do destaque que lhe dei, não atribuo todas as responsabilidades da derrota do Benfica à falta de critério na sua fase de construção. Outro ponto em que a equipa se revelou vulnerável foi na exposição das costas da sua linha defensiva. Aqui, mais do que a coordenação dos próprios defensores, destacaria a perda de presença pressionante sobre o portador da bola, que é uma condição umbilicalmente ligada à segurança da própria linha defensiva. Demérito para o meio campo do Benfica, que foi incapaz de se impor a esse nível, mas também muito mérito para o Zenit. Aqui, destacaria os duelos directos (o Zenit venceu a maioria, e isso foi um ponto de partida importante), a capacidade para sair de forma útil de zonas de pressão, e a preparação dos jogadores para realizarem diagonais de rotura nos tempos certos. Este último ponto, das diagonais de rotura, parece-me ainda pouco trabalhado no futebol português, e talvez também por isso tenhamos tanta dificuldade em formar jogadores com facilidade em explorar eficazmente as zonas de finalização. Finalmente, uma nota sobre Garay. No ano passado coloquei-o entre os principais jogadores do campeonato, com Jackson, Gaitan, Wiliam e Rodrigo, e penso mesmo que haverá poucos centrais com a sua capacidade no futebol actual. Com bola, e recuperando o tema do parágrafo anterior, combina qualidade técnica com critério, oferecendo potencial e segurança. Sem bola, tem uma notável leitura de jogo, o que lhe permite antecipar as jogadas, sendo forte tanto a controlar o espaço nas suas costas, como a dominar os duelos que trava com os avançados, na sua frente. Se tem sido difícil ao Benfica substituir Garay? Pudera!

Porto - BATE - Criticou-se a ausência de jogo interior, e a equipa vinha do seu resultado menos conseguido na temporada. O que fez Lopetegui? Tirou um médio, colocou um avançado, acentuou ainda mais a profundidade vertical e a necessidade de recorrer à largura para progredir. Resultado? Uma goleada que recupera toda e qualquer mazela no estado anímico de equipa e adeptos, fazendo ressurgir mais do que nunca o optimismo em torno do sucesso desportivo na presente temporada.
Há algumas conclusões a retirar de tudo isto. A primeira é que Brahimi é um craque (já se sabia, é verdade, mas convém não esquecer que o Porto chega ao 4-0 com 3 golos de iniciativas individuais suas)! A segunda, que mesmo que se reconheça alguma previsibilidade no seu jogo, o Porto tem condições para ter sucesso dentro da sua proposta de jogo, nomeadamente porque tem jogadores capazes de oferecer qualidade ao jogo exterior e tem depois um ponta de lança muito forte na resposta às acções de cruzamento. A terceira - e fico-me por aqui - é que Lopetegui dificilmente trabalhará alternativas à sua ideia de jogo, nomeadamente ao nível do jogo interior, e o mais provável é mesmo que "largura" continue, e seja até ao fim, a palavra dominante, relativamente ao Porto 14/15.
Quanto ao resto, não tenho muito a acrescentar aos números do próprio jogo: Uma grande vitória, a lembrar as grandes noites europeias que aquele estádio já viveu!

Maribor - Sporting - Mais um empate a 1 golo, que vem acentuar o sentimento de frustração em torno da época do Sporting. Apesar da semelhança dos desfechos, começo por traçar as diferenças entre este empate e aquele que o antecedeu, frente ao Belenenses, porque me parecem casos completamente diferentes. É verdade que desta vez a vitória esteve praticamente garantida, e que apenas não se confirmou devido a uma oferta desnecessária no último lance do jogo, no entanto, e por muito que a forma como as coisas aconteceram sugira o contrário, este é um resultado bem mais coerente com a história do jogo, do que aquilo que acontecera no passado sábado. Ou seja, é verdade que o Sporting teve mais domínio e presença territorial do que o Maribor, mas ao contrário do que aconteceu frente ao Belenenses onde foi ameaçado apenas por 2 vezes, a equipa permitiu que os eslovenos dividissem o jogo em termos de proximidade real com o golo. Na parte final, e de forma decisiva, por erros individuais dos centrais - e já lá vou - mas no resto do jogo por motivos que ultrapassam esse problema. A saber, o Maribor forçou sempre um jogo de grande presença junto da zona de finalização, e sempre que lhe era permitido verticalizar de forma rápida, o Sporting sentia problemas óbvios. Era, neste contexto, fundamental que o Sporting tivesse realizado um jogo mais conseguido do ponto de vista posicional. E, aqui, podemos até incluir os dois momentos do jogo. Em organização defensiva, porque era necessário que a linha média não se distanciasse muito dos centrais, sob pena de rapidamente ser criada superioridade numérica nessa zona fulcral. Em organização ofensiva, porque era preciso gerir com critério a posse de bola e ter uma preparação posicional adequada para responder à perda de bola, porque com 2 elementos adiantados, era muito fácil que o Sporting fosse colocado numa situação de igualdade numérica em situações de ataque rápido. Nem num caso, nem no outro o Sporting correspondeu a essa especificidade que o jogo lhe exigia, e por isso acabou por não ver o seu domínio ser traduzido numa grande diferença de proximidade com o golo. Não porque não tivesse criado boas ocasiões, que criou, mas porque acabou por também permitir que o adversário as criasse. E este será um cenário previsivelmente repetido frente a Schalke e Chelsea, com o óbvio acréscimo de risco para a equipa.
Explorando então o tema dos centrais, começo por dizer que, embora eu não acredite em tais coisas, o futebol de facto parece por vezes alinhado com fenómenos paranormais. Tanto se falou dos centrais, e eles acabaram mesmo por deitar por terra uma vitória praticamente garantida, os dois, e na última jogada do jogo. Se fosse ficção, pareceria irrealista! Enfim, é verdade que o Sporting tem limitações ao nível dos centrais - bastante mais pronunciadas em Sarr, na minha leitura, e como já expliquei - mas não me parece de todo que tais problemas sejam suficientes para hipotecar as possibilidades da equipa realizar uma boa temporada, ou que justifiquem a carga dramática que têm suscitado. Primeiro, porque os problemas defensivos do Sporting - e como expliquei acima - me parecem muito longe de estar circunscritos aos centrais. Depois, porque o Sporting apenas perdeu 1 dos seus titulares da última época, que foi muito conseguida ao nível deste sector específico, e não me parece que Rojo alguma vez tenha representado uma mais valia individual para que a sua saída represente, por si só, um drama. Posto tudo isto, não espantará se disser que é a Marco Silva que me parece caber grande parte das possibilidades de sucesso da equipa. O treinador terá de encontrar respostas aos problemas que nesta altura se lhe apresentam, de forma a potenciar as virtudes e atenuar os defeitos dos seus recursos. Tanto em termos colectivos, como a nível individual, porque há várias unidades - para além dos centrais! - em sub-rendimento neste inicio de época, e cujo desenvolvimento depende em grande medida das orientações tácticas que lhes forem dadas. É um teste importante para o treinador e para a sua carreira, e provavelmente o desfecho definir-se-á entre a sua capacidade de se abstrair dos inúmeros diagnósticos externos, e encontrar ele próprio as respostas a partir de dentro. Se o conseguir, possivelmente acabará rotulado de "teimoso", mas também terá mais hipóteses de se manter no patamar a que chegou...

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15.9.14

Notas da jornada (Benfica, Sporting e Porto)

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Setúbal - Benfica - Os números não são um equívoco e este foi, sem dúvida, o jogo mais expressivo do Benfica em termos ofensivos. Mérito próprio, em particular para a qualidade das suas soluções ofensivas, que oferecem mobilidade e um nível qualitativo que está muito para além do patamar de resistência ao alcance da generalidade dos opositores internos. Ainda assim, é impossível, não destacar os problemas revelados pelo Setúbal, que apesar dos 5 golos encaixados não se pode queixar da sorte, em face da exposição e dos riscos em que incorreu. A estratégia, claramente, passava por encurtar o campo de ataque encarnado, através do adiantamento da linha defensiva. O problema, porém, foi a total ausência de pressão sobre o portador da bola, tanto fora como dentro do bloco, o que redundou numa constante exposição dos espaços essenciais, sempre bem explorados pelo Benfica. Tenho escrito aqui sobre isto recentemente, e este é mais um exemplo da relevância que assume a presença pressionante que os defensores consigam exercer sobre os seus opositores. Sem isso, nenhuma estratégia ou ideia defensiva terá aplicabilidade prática...

Sporting - Belenenses - Há vários pontos de interesse a explorar no jogo do Sporting, e não me irei sequer debruçar sobre todos. Essencialmente, e apesar dos resultados sugerirem o contrário, parece-me que a versão actual do Sporting tem um potencial muito mais próximo dos rivais do que aquilo que acontecia no ano anterior. Como explicar então os resultados? A meu ver, caprichos da aleatoriedade de curto prazo, traduzidos numa eficácia ofensiva muito baixa, para o número de ocasiões conseguidas, e em claro contraste com aquilo que aconteceu em 13/14. Uma coisa é certa, porém: de acordo com o esperado, e com o que já havia escrito no lançamento da temporada, esta é uma equipa com muito maior propensão para o risco, que aumenta pela intenção de sair mais por dentro e não tanto por fora (por isso temos visto muito mais perdas de risco do que no ano anterior), e pelo posicionamento mais alto da linha defensiva (por isso, vemos mais bolas nas costas da defesa, também). Grande parte das hipóteses de sucesso do Sporting (e não estou aqui a referir-me ao título, que é um objectivo em qualquer cenário muito improvável), estão na capacidade que Marco Silva terá para ajustar o modelo às especificidades das suas soluções individuais, nomeadamente ajudando a atenuar defeitos e potenciar virtudes. Por exemplo, em ataque posicional, não faz sentido que a equipa saia quase sempre pelos centrais, ou que distancie tanto Adrien da primeira fase de construção. Da mesma forma, parece-me importante enquadrar melhor a mais valia que Nani traz para o jogo interior, de forma a que esse contributo se transforme num acréscimo de potencial ofensivo, e não numa mera mudança de estilo. Finalmente, sobre o golo sofrido, é a segunda vez que o Sporting é penalizado por não conseguir manter presença pressionante na zona da bola (corredores laterais), tendo vantagem numérica para o fazer. Claramente um aspecto a rever, tal como a noção defensiva de Esgaio, de resto (em princípio, estes problemas não são impeditivos da evolução do jogador na posição, desde que sejam devidamente corrigidos).

Guimarães - Porto - Pela primeira vez esta temporada, o Porto foi forçado a sair da sua zona de conforto, e o Guimarães reclama para si os méritos desse feito. Como explicou Rui Vitória no final do jogo, o foco da sua estratégia foi impedir a circulação baixa do Porto, com a sua característica ligação de corredores. E a verdade é que conseguiu mesmo fazê-lo com boa eficácia! Um aviso importante para o Porto, que deve perceber que o conforto que vem sentindo na imposição do seu jogo, pode rapidamente transformar-se num elevado risco, especialmente frente a adversários mais fortes e capazes de explorar o momento de transição. Ainda assim, continua-me a não parecer fácil que isso aconteça. O Porto esteve, apesar de tudo isto, incomparavelmente mais perto de sair vencedor do que o seu adversário, o que é uma consequência natural do desequilíbrio de potencial individual. A este respeito, entre reforços de Barcelona, Atlético e Real Madrid, é um jogador proveniente do Granada que se afigura como a principal mais valia para esta temporada. Não deixa de ser curioso. Noutro plano, é interessante lembrar o recente jogo de Paços de Ferreira, e comparar as estratégias de Fonseca e Vitória. No caso do primeiro, o foco foi defender espaços mais baixos, oferecendo um domínio territorial enorme ao Porto, mas dificultando mais a penetração no último terço. Desta vez, o domínio territorial não foi tão fácil de exercer, mas os espaços eram muito maiores sempre que a equipa chegava de forma útil às costas da linha média. Mais risco na opção de Vitória, que arriscava uma goleada caso não tivesse a melhor eficácia na sua presença pressionante, mas também mais possibilidades de sair do jogo com os 3 pontos, porque potenciou muito mais o erro do que aquilo que Fonseca tentou fazer. Seja como for, é sempre a eficácia a ditar as hipóteses de sucesso de qualquer das duas abordagens, e frente a uma equipa como o Porto é sempre complicado ser eficaz, seja qual for a estratégia escolhida.

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11.9.14

Destaques individuais do Brasileirão

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Talvez não seja o campeonato mais seguido pelos leitores do blogue, mas nem que seja a título de curiosidade deixo a listagem dos jogadores que mais se destacaram na primeira metade do Brasileirão 2014. Nota para salientar que esta é uma análise centrada nas ocasiões de golo de cada jogo, e que não tem ainda em conta a jornada que está a decorrer nesta semana.




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9.9.14

Portugal - Albânia: Análise e opinião

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Fatalidade ou acidente? - Bem sei que depois do jogo, e perante um resultado tão adverso e surpreendente como este foi, a tendência inevitável é para que se veja o desfecho como fatalista e totalmente lógico, de forma a realçar assim os pecados próprios da equipa. Pessoalmente, concordo que esta é uma altura para reflexões, e que este resultado vem contribuir muito para isso, mas não consigo ver nenhum fatalismo num jogo em que uma equipa exerce tanto domínio e acaba por ser derrotada na única ocasião clara que o adversário constrói. Ou seja, na minha perspectiva há que separar as águas: a Selecção vive uma realidade preocupante e deixou a desejar em vários pontos neste jogo, sim, mas isso não impede que esta derrota tenha sido sobretudo definida por um desnível de eficácia muito assinalável entre as equipas. E foi isso que, a meu ver, aconteceu.

Renovação ou meritocracia? - Do falhanço desportivo no Mundial resultou a conclusão sobre a necessidade de renovar a Selecção. A renovação, em si mesma, pode até ser feita por decreto, riscando os mais velhos e promovendo os mais novos, e fazendo da idade o argumento principal das convocatórias. A questão prende-se, obviamente, com a qualidade. Na minha óptica, há vários problemas com esta obsessão recente com a "renovação da Selecção". O primeiro tem a ver com a qualidade dos candidatos das gerações mais jovens. Basta ver quantos jovens jogadores portugueses se afirmaram desportivamente nos 2 clubes que mais sucesso têm tido em Portugal nas últimas 5 temporadas. O segundo problema tem a ver com a lógica de centrar na Selecção a responsabilidade de lançar e promover jovens jogadores. É que a Selecção faz, anualmente, um número de jogos sensivelmente equivalente a uma pré época de um clube profissional, logo não me parece exactamente o contexto ideal para dar competição e fazer evoluir os jogadores. Resumindo, tenho alguma dificuldade em vislumbrar algum sentido na ideia de "renovação da Selecção", porque a Selecção tem, por natureza, uma vocação reactiva em função daquilo que acontece nos clubes, cabendo-lhe essencialmente fazer a melhor equipa possível com os jogadores disponíveis. Ou seja, para mim a palavra chave no que respeita à Selecção principal continua a ser "meritocracia" e não "renovação". Se há um problema geracional com a qualidade dos jogadores portugueses, ele deve ser tratado a montante e deve incluir obrigatoriamente as selecções jovens e os principais clubes portugueses. Como isso basicamente não aconteceu, receio que o mais provável é que tenhamos mesmo uma quebra qualitativa importante no final desta geração, e que não haja nenhuma medida de curto prazo que possa evitar, no essencial, essa fatalidade. 

Com ou sem Paulo Bento? - Como sempre no futebol, o treinador é agora o foco da discussão. Na minha leitura, e como penso já ter escrito, a federação e o próprio Paulo Bento deviam ter anunciado o fim da sua relação contratual antes do Mundial do Brasil. Não por questões de competência, mas simplesmente porque a cultura do futebol português não favorece ciclos de liderança técnica muito prolongados, e uma gestão sábia nunca deve ignorar os caprichos culturais do meio onde se insere. Em concreto, esta parece-me uma questão pouco relevante, porque entendo haver alternativas de qualidade no mercado, e porque dificilmente vejo que qualquer dessas alternativas venha a representar uma grande vantagem qualitativa, tanto mais que ao nível do trabalho táctico as selecções têm as limitações que se conhecem. Aliás, a meu ver o grande problema da actual estrutura técnica nacional tem a ver com a observação de jogadores, um tema esse sim central para a Selecção, dada a crescente escassez de soluções de qualidade e a abrangência também cada vez maior do raio geográfico de observação (ou seja, para observar o mesmo número de jogadores, é preciso ver cada vez mais jogos). Basicamente, a substituição de Paulo Bento parecer-me-á potencialmente útil se 1) a nova equipa técnica viesse resolver esse problema da observação de jogadores, nomeadamente introduzindo metodologias diferentes, ou 2) se o seleccionador for visto como um problema pelos principais jogadores da Selecção, ou seja se estiver afectada a relação de confiança com a liderança técnica. Caso contrário, tenho as maiores dúvidas de que essa seja uma medida que venha a resolver, no essencial, o que quer que seja.

O reavivar do estigma dos últimos 20 metros! - No que ao jogo, propriamente dito, diz respeito, a principal crítica em relação à exibição portuguesa tem a ver com a dificuldade em materializar o ascendente territorial em ocasiões claras de golo. Ou seja, é verdade que aquilo que criou deveria ser suficiente para, com um nível de eficácia mais normal, ter conseguido pelo menos 1 golo, mas contextualizando a fragilidade do adversário e a necessidade que a equipa teve em chegar ao golo, também me parece óbvio que a exibição deixou muito a desejar e que Portugal deveria ter sido capaz de se aproximar muito mais do golo. Aqui, em primeiro lugar, há que voltar a sublinhar a assustadora escassez de soluções que nesta altura existem para a posição de ponta de lança, o que reflecte um problema muito mais estrutural - e por isso preocupante - do que circunstancial. A minha crítica, relativamente ao plano estratégico, tem a ver com a forma como Paulo Bento negligenciou a pouca apetência da equipa para ser mais incisiva no último terço, especialmente num jogo em que esse seria previsivelmente um ponto fundamental para o sucesso colectivo. Em primeiro lugar, há que notar a baixíssima propensão da zona criativa da equipa inicial (Vieirinha, Nani, Moutinho e André Gomes) para protagonizar movimentos de abordagem à zona de finalização, sendo que o próprio avançado (Eder) tem na mobilidade a sua principal virtude. A meu ver, justificar-se-ia a introdução de um sistema de 2 avançados móveis, mais fácil de adaptar outras soluções a essa função, por um lado, e estruturalmente forçando a que houvesse maior presença em zonas de finalização, o que claramente é muito pouco garantido com as características dos médios e extremos actuais, num sistema de apenas 1 avançado. Aliás, esse parece-me ser o motivo por trás da troca de Vieirinha por Ivan Cavaleiro, sendo que aqui entramos noutro problema estrutural e que tem a ver com a qualidade das novas soluções, que me parece ser consideravelmente mais baixa do que aconteceu em gerações anteriores. Mas, se Paulo Bento me pareceu sensível a essa carência da equipa nessa substituição, parece-me ter negligenciado a outra via pela qual era mais provável que Portugal conseguisse chegar ao golo: as bolas paradas. Ao tirar William e depois Ricardo Costa, o seleccionador abdicou de 2 dos seus habituais elementos em zona de finalização em situações de bola parada ofensiva, o que numa fase em que se perspectivava o acumular de cantos e pontapés livre, talvez possa não ter sido uma boa ideia, tanto mais que ao introduzir Veloso, por exemplo, a equipa pode ter ganho qualidade no passe e na construção, mas isso acabou por acrescentar pouco a um jogo onde o domínio territorial foi sempre assinalável e a lacuna esteve antes e constantemente nas derradeiras fases do processo ofensivo da equipa. Não estou com isto a defender que se acrescentasse altura à equipa, mas parece-me importante - especialmente no caso português, pelas lacunas que já referi - que se mantenham alguns jogadores capazes de ser mais-valias no domínio específico das bolas paradas, e com as substituições Portugal passou a ser uma equipa igualmente com poucas aspirações a esse nível. Resumindo, mais do que nunca Portugal reavivou neste jogo o seu velho estigma da pouca capacidade de resposta nos últimos 20 metros, algo que deriva sobretudo da natureza específica das soluções existentes, mas que o plano e gestão de jogo também não terão ajudado a atenuar.

Notas individuais
João Pereira - Um pouco à semelhança da equipa, conseguiu um bom envolvimento até à fase final das suas aparições, onde vai repetindo a sua pouca aptidão para ser preciso no cruzamento. É um desperdício, de facto. Pareceu perder clarividência com o aproximar do final do jogo.

Coentrão - Arriscou no lance do golo, ao ir pressionar em zonas muito adiantadas, e ficou definitivamente fora da jogada, nem sequer tentando recuperar a sua posição. Conseguiu algumas jogadas de envolvimento, especialmente na segunda parte, como um excelente cruzamento, que Nani desperdiçou.

Ricardo Costa - Esteve bastante activo e com boa presença em posse. Já no capítulo defensivo ficou aquém do esperado, mesmo num jogo de baixa exigência. Em particular, parece-me o jogador com acção mais censurável no lance do golo. É certo que foi forçado a sair da sua zona, mas ao intervir na dobra ao lateral, não pode ser batido da forma como aconteceu, entrando à queima, sendo batido e permitindo um cruzamento para uma zona que, sem ele, estaria forçosamente desguarnecida. No mínimo, deveria ter parado o lance em falta, ou aguentado a posição, dando tempo a que a restante organização defensiva ficasse restabelecida.

Pepe - Fica na fotografia do lance do golo, mas como expliquei acima não me parece muito correcto responsabilizá-lo por não ter sido capaz de controlar uma zona tão ampla. Poderia ter controlado melhor o avançado albanês, valorizando mais a referência individual, mas também corria o risco de ser batido em antecipação, se o fizesse. De resto, voltou a ter níveis excepcionais no controlo da sua zona de intervenção, vencendo vários duelos e ajudando a equipa a manter e prolongar as suas fases ofensivas. Com bola, esteve menos bem, nem sempre com o melhor critério na gestão da posse.

William - Estava a cumprir no seu papel de pivot, embora sem ser especialmente entusiasmante do ponto de vista da resposta defensiva. A sua substituição compreende-se pela intenção de passar a modelo de dois médios mais móveis, mas tenho dúvidas de que tenha sido uma boa solução. Quando se fala de renovação, William é um bom exemplo de como as renovações não precisam de ser reclamadas quando existe qualidade. Pena é que seja exemplo quase único...

André Gomes - Um jogo em que manteve uma boa presença em posse, num jogo que também não era especialmente exigente a esse nível, mas onde não acrescentou praticamente nada em termos de presença criativa. De sublinhar, como já o fiz acima, a redundância de perfil relativamente a Moutinho, nomeadamente na pouca apetência para estender os seus movimentos até às zonas de finalização.

Moutinho - Começou por ser um jogador especialmente importante no pressing, protagonizando algumas jogadas de elevado potencial a partir de recuperações altas, e que poderiam ter ajudado Portugal a contornar os seus problemas em ataque posicional. Nessa fase, porém, acabou por não ter a influência e eficácia habituais na sua presença em posse, acabando por recuperar a esse nível na segunda parte do jogo, nomeadamente após ao baixar no terreno, com a saída de William.

Nani - Não fez um jogo deslumbrante, mas comparado com as restantes individualidades da equipa, foi sem dúvida o jogador que mais conseguiu aproximar a equipa do golo, tendo sido protagonista mais como finalizador do que como criador. Pena o desacerto na hora de concluir...

Vieirinha - Um jogo pouco conseguido, fundamentalmente por nunca ter conseguido aproximar a equipa do golo, actuando sempre muito perto da linha e distante da baliza. Isto, em bola corrida, porque esteve próximo de marcar num lance de bola parada.

Eder - Repetidamente, escrevo que pior do que falhar muitos golos é não ser capaz de protagonizar nenhuma ocasião clara de golo. E, com isto, resumo o quão negativa me parece a exibição de Eder, num jogo em que tinha todas as condições para ser protagonista.

Ivan Cavaleiro - Entrou com o objectivo de dar maior profundidade e verticalidade ao ataque, e se de facto essas são características mais fortes no seu perfil, relativamente a Vieirinha, a verdade é que na prática não acrescentou nada em nenhum aspecto. Como, aliás, confirmam os seus modestíssimos números, em 45 minutos de jogo.

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4.9.14

Benfica - Sporting (III): análise de jogadas

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Para finalizar a análise ao derbi, deixo a minha perspectiva sobre algumas das principais jogadas do jogo. Sem grandes comentários adicionais, gostaria apenas de sublinhar a importância da reacção à perda na generalidade dos desequilíbrios provocados em lances de bola corrida. Seja pela incapacidade de neutralizar as transições, ou em sentido contrário, pela capacidade de não deixar o adversário sair em transição e tirando partido de uma nova acção ofensiva...

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