21.5.15

O título (Benfica e Porto) e o Sporting

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- Começo pela questão do título, que esta semana viu o Benfica confirmar a renovação do seu título de campeão. Este era um cenário que há já algum tempo vinha dando como significativamente provável, nas análises que fui partilhando, não por haver uma diferença significativa de qualidade entre as duas equipas, mas essencialmente pela vantagem que o Benfica cedo conseguiu. É curioso, já agora, como as pessoas se revelam pouco sensíveis na hora de estimar a probabilidade dos eventos. Intuitivamente conseguimos obviamente distinguir entre a possibilidade e a impossibilidade, mas depois não fazemos grande distinção no que respeita à probabilidade dos mesmos virem a ocorrer, e isto explica o porquê de tanta gente repetir coisas como "está tudo em aberto", perante cenários tantas vezes desequilibrados no que às probabilidades diz respeito. Talvez seja uma consequência evolutiva, ou não fosse a vida feita precisamente de um conjunto de acontecimentos altamente improváveis. Enfim, o ponto aqui é que há muito tempo que as hipóteses reais do Porto se sagrar campeão eram, ainda que não impossíveis, relativamente remotas.

- Um dos clichés de quem faz a análise aos campeões é considerá-los justos, assumindo que uma prova com a extensão de um campeonato acaba inevitavelmente por distinguir os melhores e mais regulares. Ora, isto pode até ser verdade para a generalidade dos casos, mas não o é obrigatoriamente, nem me parece ser para este caso concreto. Desde logo, porque Benfica e Porto fizeram exactamente os mesmos pontos nos jogos contra as restantes equipas, o que faz que nem a análise pontual sustente essa tese. Depois, porque de facto não me parece que existissem diferenças significativas no rendimento de campeão e vice campeão, cuja diferença na tabela se deve mais a uma questão de pormenor do que outra coisa. Por exemplo, o mesmo já havia acontecido nos dois últimos títulos portistas, onde fora o Benfica a ficar marginalmente por baixo, em duas provas extremamente equilibradas, sendo que também nesses casos foi a equipa que esteve mais tempo envolvida nas provas europeias que acabou por ver o seu rival fazer a festa do campeonato. E este parece-me um factor potencialmente importante entre duas equipas que se equivaleram tanto. Outro factor que me parece poder ter sido potencialmente diferenciador é o das bolas paradas, onde o Benfica se apresentou significativamente melhor do que o Porto, sendo que a equipa de Lopetegui me pareceu globalmente mais bem potenciada do ponto de vista defensivo do que ofensivo, de acordo com as análises e opiniões que fui deixando ao longo da época. E aqui reforço que, apesar destes factores potencialmente diferenciadores, as duas equipas se equivaleram no essencial, sendo natural que no plano mediático e emocional se estabeleça um fosso entre vencedores e vencidos, mas não sendo racional nem aconselhável que essa seja a análise de quem gere o futebol dos dois clubes. Nem o Porto precisa de mudar tudo porque não foi campeão, nem o Benfica deve acreditar que parte para 15/16 em vantagem sobre o seu rival. Não perceber isso pode ser o primeiro passo em falso na nova temporada.

- Aproveito também para escrever sobre o Sporting, que não faço há bastante tempo. Assumindo a subjectividade da análise, creio que o Sporting terá feito um campeonato positivo. Se compararmos com os registos históricos das últimas décadas, essa tem de ser claramente a conclusão, mesmo que isso não tenha chegado sequer para lutar pelo título. O Sporting, a este propósito, está numa situação atípica, porque não é uma equipa que tenha uma referência comparativa clara no panorama do futebol português actual. A sua ambição incontornável é a luta pelo título, mas não parece justo que se exija estar permanentemente no patamar de rivais que se preparam com condições orçamentais muito mais favoráveis. Por outro lado, o Braga também não é uma referência suficientemente ambiciosa para a dimensão do Sporting. O habitual é que as equipas estabeleçam para si próprias metas comparativas (ser campeão, chegar à europa ou não descer), dependendo estas sempre dos desempenhos alheios, mas não tem de ser assim. Pode-se perfeitamente definir metas próprias, como um número de pontos a alcançar, ou mesmo de golos marcados e sofridos, e no caso do Sporting creio que é isso que fará racionalmente mais sentido. Assim, e voltando ao inicio, não creio que se possa fazer um balanço negativo do campeonato do Sporting, se atentarmos apenas aos resultados da própria equipa. É claro que poderia ter sido melhor, e aqui parto para aquele que me parece ser um panorama menos favorável para o Sporting. É que este ano o Sporting contava com unidades que lhe ofereceram um excelente contributo, em especial no plano ofensivo, e que provavelmente não estarão presentes no futuro imediato. No caso, se à previsível perda de Nani se juntar também a de Carrillo, dificilmente o Sporting conseguirá evitar uma perda importante de potencial para a próxima época, sendo preciso para isso um defeso extraordinário no que diz respeito a reforços. Neste plano, compreender-se-á uma eventual frustração dos dirigentes do Sporting relativamente à presente época, já que estavam reunidas condições que não serão fáceis de repetir num futuro próximo, mas nem por isso a equipa foi capaz de se bater pelo título. Aqui, é impossível não destacar o desempenho defensivo, que me parece ter ficado bem aquém do que era possível. No Sporting discute-se muito, até pelas novelas que vão marcando a agenda mediática há praticamente meio ano, o tema do treinador, e sendo esse um ponto indiscutivelmente importante, parece-me também ser amplamente sobrevalorizado no plano mediático. Para ser concreto, se o Sporting perder Nani e Carrillo no defeso, o mais provável é que 15/16 venha a ser uma época bem mais complicada em Alvalade do que foi 14/15, sente-se no banco Marco Silva ou qualquer outro treinador deste mundo.

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8.5.15

Champions: Notas da 1ªmão das meias finais

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- Respeitando a ordem cronológica, começo pelo jogo de Turim. A situação desta eliminatória lembra-me um pouco o ponto em que se encontrava a eliminatória entre Porto e Bayern, após o jogo do Dragão. Ou seja, a vitória do Juventus não terá chegado para ficar mais próximo da final do que o seu rival, mas terá pelo menos sido suficiente para ter anulado o favoritismo que inicialmente o Real justificava. As hipóteses estarão, portanto, bastante equilibradas nesta altura. A Juventus deverá, para já, estar satisfeita pela forma como conseguiu expor algumas fragilidades de uma equipa que lhe é claramente superior. O Real, por seu lado, guardará para si também alguma responsabilidade no desaire, sobressaindo claramente dois factores chave: a ausência de algumas unidades importantes, como Modric e Benzema, e a dificuldade de Ancelotti em manter um onze com as características mais indicadas para o seu modelo. Não haverá grandes dúvidas de que a Juventus terá de sofrer bastante para sobreviver à segunda mão, onde provavelmente precisará não só de uma noite inspirada, mas também de um contributo da aleatoriedade no que respeita à eficácia das ocasiões que forem criadas. Um factor impossível de controlar, mas que nos 90 minutos que faltam jogar, pode bem vir a revelar-se ser decisivo.

- Passando ao prato forte, não apenas destas meias-finais, mas de toda edição da Champions, e talvez mesmo o embate mais interessante dos últimos anos, o Barça-Bayern, começaria por tentar abordar o jogo da perspectiva o Bayern. Guardiola, sem surpresa, teria como primeira prioridade ter bola. Talvez por uma questão de filosofia, diria quase dogmática, mas a verdade é que esse lhe objectivo lhe permitiria retirar tempo de ataque ao Barça e assim ser também uma arma de controlo defensivo, para além do potencial ofensivo que mais obviamente a posse oferece. O Bayern cumpriu este primeiro propósito relativamente bem, inclusivamente sem grandes custos ao nível de perdas de risco, como acontecera por exemplo no Dragão. Mas só a posse, por si só, dificilmente seria suficiente. Nesse sentido, era preciso, também, garantir um bom controlo defensivo, nomeadamente no que respeita ao controlo da profundidade, onde a equipa sente dificuldades com algum hábito, e depois ser capaz de ser consequente no último terço ofensivo. E foi nestes últimos pontos que o Bayern, realmente, não me pareceu estar à altura do desafio que que tinha pela frente. Provavelmente mais decisiva a questão ofensiva, que resulta da incontornável diferença de valores individuais, particularmente agravada pelas baixas de Ribery e Robben. Assim, o Bayern conseguiu o raro feito de dividir a posse de bola no Camp Nou, mas não se aproximou mais do golo do que a generalidade das equipas que visitam aquele estádio. A esse nivel, portanto, vulgar. Depois, a questão defensiva, que apenas teve custos na fase final do jogo, mas que já na primeira parte havia proporcionado ao Barça ocasiões mais do que suficientes para ter chegado à vantagem antes do intervalo, mesmo com uma presença em posse bem mais limitada do que é habitual. Neste sentido, penso até que o jogo terá corrido relativamente bem ao Bayern, ficando-me a dúvida de que forma a equipa poderia ter reagido se o Barça tivesse chegado ao golo, como me parece ter feito por merecer na primeira parte. Ao olhar para o que aconteceu na recta final do jogo, assim como outras ocasiões durante a época, sobra a ideia de que o risco poderia ter sido bastante elevado e um regalo para Messi e companhia, assim como foi para o Real no ano anterior. Referido isto, há também que salientar a ironia do jogo, já que se a primeira parte do Barça justificava a vantagem, a segunda estava a ser muito pouco conseguida até ao golo, com várias precipitações ao nível da decisão com bola, e com o Bayern a parecer ser capaz de levar pelo menos o nulo para uma segunda mão que teria tudo para lhe ser mais favorável. Aí, porém, sobressaiu o tal detalhe que faz verdadeiramente a diferença entre este Bayern e este Barça, a qualidade individual, e em especial o incontornável génio de Messi. E aí, por muito que no plano mediático sugira que são os treinadores o epicentro de tudo no futebol, a verdade é que me continua a parecer que o seu poder é muito escasso face à diferença que certos jogadores podem fazer.

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30.4.15

Notas do Benfica - Porto

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- O primeiro comentário que me merece o "jogo do título 14/15" refere-se à superioridade do processo defensivo de cada uma das equipas. Para se ter uma noção relativa dos problemas que ambos os ataques sentiram, e comparando com o vasto número de jogos que tenho analisado, este situar-se-ia claramente no percentil mais baixo no que respeita ao número de abordagens às zonas de finalização. Excepcionalmente fechado, portanto!

- No plano mediático há a tentação para associar a pouca proximidade com o golo - e, consequentemente, o baixo entretenimento dos jogos - com a falta de qualidade do futebol das equipas. Naturalmente, porém, essa não é uma relação tão linear. No caso, Benfica e Porto reclamam para si grande mérito pela forma como, quer uma quer a outra, conseguiram condicionar os ataques contrários, não sendo fácil para nenhuma equipa do mundo consegui-lo, tendo em conta o nível técnico dos jogadores de ambas as equipas. Por outro lado, exigir-se-ia mais dos respectivos processos ofensivos, que vêm revelando problemas - ainda que distintos - desde o inicio de temporada. No caso do Benfica, as limitações no inicio de construção, com a equipa a sentir muitas dificuldades em levar o seu jogo para o último terço de campo, perante equipas com mais capacidade pressionante. O Porto, por seu lado, parece-me de há muito tempo a esta parte uma equipa mal trabalhada no processo ofensivo, nomeadamente pelas opções de Lopetegui em relação ao ataque posicional da equipa. Neste jogo, porém, o treinador espanhol teve uma abordagem diferente e da qual sou crítico, como explicarei mais adiante...

- Relativamente ao Benfica, Jesus voltou a não confiar na sua construção baixa, como aliás seria de esperar tendo em conta o contexto em que o jogo se disputava. Assim, e tal como já acontecera no Dragão, o Benfica voltou a apostar bastante nas reposições mais longas e nos duelos a meio do campo para levar o jogo para zonas mais altas do terreno, evitando assim o risco de perdas comprometedoras na sua fase de construção. O problema é que o Benfica de hoje não tem também grande força nesta alternativa, porque não tem uma referência para a primeira bola, como Cardozo foi durante muito tempo, e porque o seu meio campo não contava com jogadores com a propensão que Matic, Javi Garcia ou Enzo Perez tinham para os duelos mais directos. Este é um problema que não vem ao de cima na generalidade dos jogos da época, essencialmente pela baixa exigência da liga portuguesa, mas que repetidamente afectou a equipa nos confrontos frente a adversários mais fortes, onde o Benfica 14/15 teve um desempenho a meu ver muito fraco. Um problema que neste jogo acabou por não ser muito relevante, tendo em conta o arrastar do nulo e o interesse da equipa nesse resultado, mas para o qual o Benfica deverá procurar melhor resposta em 15/16...

- Como referi acima, tenho perspectiva crítica das opções de Lopetegui para este jogo, em particular relativamente à vertente estratégica e às opções que tomou para o seu meio campo. Contextualizando, o Porto tinha pela frente uma equipa cujo processo defensivo aposta muito no encurtamento do espaço interior através da subida da linha defensiva. Ora, o risco desta abordagem, reside logicamente na exposição espacial que o Benfica tende a oferecer nas suas costas (isto, mesmo sendo a equipa de Jesus reconhecidamente forte na gestão dessa situação), e logo parecia-me inevitável que a profundidade fosse um aspecto chave da abordagem estratégica de Lopetegui. Acontece que o treinador espanhol optou precisamente por ignorar por completo a possibilidade de explorar a profundidade, preferindo exacerbar a sua presença no espaço que o Benfica estrategicamente fecha pelo seu jogo posicional. É curioso, de resto, porque durante quase toda a época Lopetegui pareceu negligenciar bastante o jogo interior, nomeadamente mantendo os extremos permanentemente colados à linha. Desta vez, e em absoluto contraste com o registo anterior, o Porto apresentou-se com a largura a ser dada sobretudo pelos laterais, e com Oliver e Brahimi tendencialmente em zonas interiores. Ora, pessoalmente esta até me parece uma disposição posicional mais benéfica para a equipa, mas não com a perda total de elementos que lhe ofereçam profundidade, e sobretudo não neste jogo! Se alisarmos o jogo do Dragão, por exemplo, veremos que grande parte dos desequilíbrios que a equipa conseguiu foram conseguidos pelos movimentos de trás para a frente dos médios, onde Herrera, especialmente, mas também Oliver se têm revelado bastante competentes. É um tipo de movimento que cria muitas dificuldades aos médios do Benfica, e para o qual Samaris e Pizzi não parecem muito vocacionados para responder (ao contrário do que acontece, por exemplo, com Fejsa ou Amorim). Lopetegui abdicou disso tudo e, a meu ver sem explicação perceptível, optou antes por preencher a caixinha de terreno que Jesus previsivelmente iria fechar. Corrigiu parcialmente na segunda parte, é verdade, mas não só perdeu valioso tempo num jogo tão importante, como nunca chegou a ter em campo as características ideais para fazer face ao desafio que tinha pela frente.

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24.4.15

Notas (antevisão do Benfica-Porto e Champions)

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- Mesmo com uma semana tão intensa como a que tivemos ao nível das provas europeias, talvez faça sentido começar por escrever sobre o clássico, que irá com grande probabilidade definir o campeão português em 14/15. É curioso verificar que a diferença pontual com que as equipas partem para este jogo é de 3 pontos, o que significa que o que distingue Porto e Benfica na tabela é, nesta altura, apenas o jogo entre ambos no Dragão. Ou seja, e perante a possibilidade real de que, quer Benfica quer Porto, se venham a impor nos restantes jogos que o calendário lhes reserva, temos aqui em perspectiva um campeonato que apesar de ter 34 jornadas se encontra perante uma decisão em tudo idêntica a uma eliminatória disputada a duas mãos. O Benfica venceu a primeira por 0-2, e o Porto precisa agora de reverter esse resultado para que as suas perspectivas sejam optimistas, caso contrário será sempre o Benfica a ter tudo para revalidar o título. Este é um cenário que não é tão improvável como à partida possa parecer, tendo em conta o desnível competitivo que a Liga Portuguesa vem revelando. É que, e creio já ter escrito sobre isto, quanto maior for a diferença dos candidatos ao título para as restantes equipas, maior a importância relativa que se pode esperar dos duelos directos para o apuramento do campeão, e logo mais a decisão se pode aproximar de uma competição a eliminar. Outra consequência importante deste cenário é que a regularidade da prova não tem grande capacidade para testar e diferenciar a qualidade das equipas, podendo com mais facilidade uma equipa que não seja necessariamente a melhor, sagrar-se campeã (o que pode ser uma oportunidade para algumas equipas, note-se). Enfim, é esta a realidade da liga portuguesa actual, que conceptualmente não me parece ser a melhor para o seu desenvolvimento, mas que, tenho que reconhecer, é aquela que mais vai ao encontro das pretensões da massa adepta, praticamente dividida entre 3 clubes, e que deseja ver os seus emblemas a ganhar o mais possível, tendo depois alguns jogos decisivos como prato forte da temporada.

- Indo mais concretamente ao jogo, parece-me inegável que o Benfica tem tudo a seu favor. O factor casa, a possibilidade de ter tido uma semana para preparar o encontro, ao contrário do seu adversário, e o conforto de jogar com vários resultados que lhe são favoráveis, relembrando que o Porto vai precisar de vencer por pelo menos 2 golos para anular a vantagem com que o Benfica parte para uma fase já bastante terminal do campeonato. Neste sentido, este será um desafio enorme para o Porto, que joga na Luz a sua derradeira cartada da temporada. Do ponto de vista táctico, será interessante perceber até que ponto as equipas irão procurar impor-se pela posse e pelo domínio territorial, mas é bastante provável que ambas o tentem fazer. O Benfica, porque joga em casa e não quererá abdicar da sua identidade habitual. O Porto, porque para além de ter naturalmente essa vocação, tem também a obrigatoriedade de vencer, não fazendo sentido outra coisa que não seja procurar impor-se territorialmente. Uma coisa é certa, haverá apenas uma bola, pelo que mesmo que ambas as equipas o tentem fazer, não será possível às duas impor-se da forma que provavelmente mais pretenderão...

- Voltando, então, atrás e às eliminatórias da Champions, começo pela decepção portista, em Munique. A principal critica, após o jogo, residiu na forma menos afoita como o Porto abordou o seu pressing, nomeadamente comparativamente com a primeira mão. Pessoalmente, concordo com essa critica, mesmo se não me parece haver qualquer garantia de que com outra abordagem a goleada pudesse ter sido evitada. Pelo contrário, os espaços até podiam ser maiores se essa pressão fosse superada pelo Bayern. O que penso, porém, é que seria sempre muito difícil ao Porto sobreviver a 90 minutos de sufoco, relegando o seu bloco para zonas mais baixas durante tanto tempo, pelo que provavelmente compensaria assumir mais alguns riscos, tendo como objectivo provocar o erro do adversário na sua circulação mais baixa. Quanto ao Bayern, fez um jogo fantástico e que em qualquer caso seria muito complicado de contrariar por parte do Porto. Como escrevera, o resultado da primeira mão não deveria ser sobrevalorizado, porque as diferenças de valor entre as equipas eram amplas, e porque o próprio Bayern vinha dando bons sinais de vitalidade na competição interna, mesmo com as ausências de Robben e Ribery. De todo o modo, e sem pôr aqui em causa o enorme mérito que teve o Bayern, refiro o mesmo que referi para o Porto na primeira mão. Ou seja, o resultado só se precipitou para tamanho desnível porque, e tal como acontecera com os portistas na primeira mão, quase tudo saiu bem aos bávaros em termos de finalização.

- O sorteio das meias-finais ditou o confronto que pessoalmente mais desejava ver, entre Bayern e Barça. É um duelo que, a meu ver, tem tudo para provocar dilemas às duas equipas, sendo complicado de projectar um vencedor, ainda que me pareça a maior qualidade individual do Barça lhe oferece uma vantagem que poderá ser importante. A primeira questão será a da posse de bola. Apesar de ser o Barça quem tem jogadores com mais capacidade para dominar o jogo pela posse, creio que será o Bayern quem tem mais probabilidade de se afirmar territorialmente, pela importância que Guardiola atribui a esse aspecto do jogo. Mas Guardiola saberá também que ao assumir a sua identidade estará a correr mais riscos do que nunca, pressionando adversários que são fortíssimos tecnicamente, e dando espaço a jogadores que são quase imparáveis quando o têm. Resta saber que especificidades introduzirá Guardiola para o embate contra a sua ex-equipa... Quanto ao Barça, como escrevi parece-me que em princípio a mais-valia individual dos seus jogadores lhe confere uma vantagem potencialmente importante, mas a equipa de Luis Enrique tem dois grandes testes nesta eliminatória. O primeiro é a capacidade de compromisso dos seus jogadores, porque frente a uma equipa que trabalha tão bem (e com tanta gente!) o processo ofensivo, será preciso defender bem mais do que é hábito. O segundo tem a ver com a valorização da posse de bola, porque o Bayern fará tudo para a recuperar tão rápido quanto possível, e se o Barça conseguir contornar esse obstáculo anulará grande parte das pretensões do seu adversário, sendo que se não o fizer o Bayern levará o jogo para onde quer que ele vá.

- Sobre a outra meia-final, dizer que o favoritismo do Real é óbvio. E aqui, quero ser claro sobre um ponto. O futebol de Real, Barça e Bayern é tão superior e inatingível para a generalidade das equipas, não porque estas sejam más ou tenham regredido em relação ao passado. O que aconteceu foi que, de há cerca de 6 anos a esta parte, houve um salto qualitativo enorme destas três equipas, que se projectaram para patamares qualitativos praticamente sem paralelo em toda história do futebol. O Barça, a partir da entrada de Guardiola e com a explosão de Messi, o Real com a chegada de Ronaldo e a segunda "era galáctica", e o Bayern sobretudo após a entrada de Guardiola. Podemos ver isso claramente, se olharmos ao que fazem hoje Barça e Real internamente, em termos de pontos e número de golos, e compararmos com que acontecia anteriormente. Neste sentido, a Juventus como outras equipas não são outsiders nesta corrida por serem equipas medíocres ou desmerecedoras da História do seu emblema, apenas não conseguiram acompanhar a evolução que se verificou nos outros 3 casos e por isso as suas dificuldades de afirmação no plano europeu são hoje bem maiores do que no passado.

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17.4.15

Notas da semana (Champions e Premier League)

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- Há alguns meses partilhei aqui as minhas expectativas elevadas relativamente ao desempenho do Porto nesta fase terminal da Champions, e depois deste jogo acredito que a equipa de Lopetegui já terá superado aquilo que praticamente todos esperavam dela nesta competição. Pessoalmente não faço uma valorização excessiva do jogo, que foi de facto muito bem conseguido por parte da equipa portista, nomeadamente no aproveitamento de algumas fragilidades especificas do Bayern, mas que na minha leitura foi também muito marcado por dois lances no arranque da partida e que definiram a vantagem azul-e-branca. Relativamente à eliminatória, diria que o Porto conseguiu para já o difícil feito de anular o favoritismo bávaro, mas não iria mais longe do que a divisão de possibilidades para que cada equipa esteja presente nas meias-finais. Vencer o Bayern foi já de si um grande feito, mas sobra ainda ao Porto a difícil tarefa de sobreviver à segunda mão frente a uma equipa que, é bom não esquecer, era colocada por muitos como a principal favorita ao título europeu, nomeadamente à frente de super equipas como Barça e Real. Espera-nos um grande jogo, portanto!

- Ainda sobre o Bayern, havia escrito aqui a propósito da recente derrota frente ao Monchengladbach, onde a equipa revelou enormes dificuldades, sobretudo após a saída de Robben. No mesmo sentido, também já havia partilhado aqui as minhas dúvidas relativamente aos riscos que o modelo de jogo da equipa assume, nomeadamente por me parecer que a competição interna pode não servir de teste para os desafios que o nível de exigência da fase final de Champions. No entanto, não posso deixar também de escrever que a equipa realizou um excelente jogo no fim de semana, na minha opinião dos mais conseguidos por parte da equipa de Guardiola esta temporada, mesmo sem ter Robben e Ribery. Ao contrário do que acontecera na tal derrota frente ao Borussia, o Bayern foi capaz de criar alternativas à ausência dos seus principais desequilibradores, nomeadamente usando mais o corredor central, parecendo estar a responder bem às ausências importantes que afectam a equipa nesta altura. E isto serve tanto para reforçar o mérito do Porto, como para alertar de novo para a exigência da segunda mão. É evidente, porém, que por muito bem que a equipa reaja colectivamente, será sempre muito complicado manter o potencial e a capacidade de desequilíbrio perante a privação de duas unidades como Robben e Ribery, e isso parece-me uma ideia praticamente incontornável.

- Ainda nos quartos-de-final da Champions, nota para o duelo madrileno. O caso do Atlético nos tempos mais recentes é excepcional a todos os níveis, e coloca-nos também perante algumas questões interessantes e bastante invulgares. Por exemplo, que importância poderíamos atribuir aos vários duelos que estas equipas já travaram esta época, onde o Atlético saiu sempre por cima, na projecção desta eliminatória? Normalmente, o Real seria um favorito indiscutível, se tivermos em conta a diferença de potencial ofensivo que as equipas revelam semana após semana, mas será mesmo assim tão claro? Uma coisa é certa, pouca gente se dirá surpreendida se a equipa de Ancelotti sair já de cena nesta prova, e aqui incluo também aqueles que menos apreciam o futebol da equipa colchonera. Sobre o momento das duas equipas em causa, diria que não pode surpreender o ascendente do Real na primeira mão, tanto mais que a presente fase do Atlético não me parece ser a melhor. Ainda assim, e volto de novo ao que escrevi acima, não seria uma grande surpresa se o Atlético conseguisse aquilo que para quase todos é uma tarefa praticamente impossível, ou seja neutralizar um dos ataques mais poderosos da história do jogo.

- Uma referência, ainda, para o duelo entre Mónaco e Juventus, cuja primeira mão não pude acompanhar com detalhe. Primeiro, para fazer notar que a equipa de Leonardo Jardim me parece hoje mais forte do que numa fase mais inicial da temporada. Aliás, numa das últimas vezes que escrevi sobre a equipa, referi que dificilmente iria entrar na luta pelos 3 primeiros lugares da Ligue 1, e a verdade é que me terei equivocado nessa projecção. Em parte, pela tal evolução da equipa, que hoje me parece mais capaz do que há alguns meses, e também pela quebra do Marselha, que é também uma equipa interessante, por bons e maus motivos. Sobre a Juventus, infelizmente hoje não basta ser claramente a melhor equipa italiana para que se seja também um dos mais fortes candidatos ao título europeu. Já lá vai esse tempo...

- Nota final para a Premier League, cujas principais equipas ficaram de fora das contas finais da Champions. O jogo grande da semana foi o derby de Manchester, cujo resultado me parece exagerado para aquilo que as duas equipas fizeram. De novo, não pude deixar de reparar na forma como o City se defende, parecendo alicerçar todo o seu processo defensivo no nervo da sua última linha. A opção é sempre aguentar a linha e esperar que o adversário se deixe apanhar no fora-de-jogo, exista ou não pressão sobre o portador da bola. Questionável, no mínimo. De resto, a esse nível também do outro lado se viram alguns lances em que a linha defensiva foi exposta ao mesmo problema, denotando semelhantes dificuldades de comportamento. É interessante este pormenor entre as principais equipas da Premier League, porque o Chelsea tem uma abordagem comportamental bem diferente, tendo-se dado bastante melhor com ela ao longo da época (o que não prova nada, note-se). A propósito, a equipa de Mourinho fez uma exibição sofrível do ponto de vista ofensivo - o que não é tão invulgar como a classificação faz crer - frente ao QPR, mas ao contrário do que tem acontecido aos seus principais rivais, soube também manter-se relativamente a salvo de grandes sobressaltos defensivos e acabou por resgatar os 3 pontos num já improvável golo tardio onde a mais valia individual dos seus jogadores veio ao de cima.

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9.4.15

Análise Bolas Paradas, Liga 14/15

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Partilho uma análise sobre as ocasiões criadas através de lances de bola parada, na Liga Portuguesa 14/15.
O primeiro e mais óbvio destaque vai para a diferença do aproveitamento do Benfica para os mais directos rivais neste aspecto específico do jogo. Aliás, a diferença é de tal forma expressiva que poderemos considerar este um ponto chave na vantagem que a equipa de Jesus conseguiu materializar na tabela classificativa, sobretudo relativamente ao Porto, mas também relativamente ao próprio Sporting. Isto, no capítulo ofensivo, como é evidente.
Como nota comparativa, e relativamente à época anterior, ficam os valores dos 3 grandes nos 30 jogos do campeonato de 13/14: Benfica, 30 ocasiões, 9 golos; Porto, 27 ocasiões, 12 golos; Sporting, 26 ocasiões, 13 golos. Ou seja, nesta comparação o Benfica é também quem fica mais a ganhar face ao aproveitamento de 13/14, onde já havia sido a equipa com mais ocasiões criadas por esta via, mas desta vez com um aproveitamento efectivo bastante superior. Quanto a Porto e Sporting, o aproveitamento tem sido francamente inferior, como os números bem documentam.

Por fim, duas notas mais sobre esta análise e a leitura que na minha opinião deve ser feita dela. Primeiro, relativamente ao facto de ser normal que equipas com menos capacidade de imposição nos restantes momentos do jogo acabem por ter maior % de ocasiões de golo por esta via (ainda que em termos absolutos, sejam as equipas mais dominadoras que mais vantagem teórica têm). Depois, para o facto de ser obviamente importante o trabalho colectivo que é feito em cada clube, e em particular para o trabalho dos treinadores, com Jesus a merecer uma nota de realce pela grande qualidade e versatilidade que a sua equipa apresenta nestes esquemas tácticos (não é fácil de encontrar melhor, mesmo no plano europeu). No entanto, é também muito importante o papel dos jogadores, e a título de exemplo fica o caso de Marco Silva, que no ano anterior tinha conseguido no Estoril equiparar-se ao Benfica no número de ocasiões criadas através de lances de bola parada, mas que este ano não evitou um desempenho muito modesto a este nível, no Sporting.

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2.4.15

Liga 14/15 - Ranking desequilibradores (J26)

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Já em plena recta final do campeonato, deixo aqui o ranking dos jogadores que mais desequilibraram na prova até ao momento. Sobre a tabela apresentada, nota para o facto de ela estar centrada em ocasiões claras de golo criadas ou finalizadas, e que a classificação considera dados absolutos, ou seja que não relativizam o tempo de jogo ou o contexto colectivo de cada o jogador. Como medida de prestação relativa, introduzi dois indicadores, que oferecem uma ideia da frequência de desequilíbrio e participação directa em golos de cada jogador, por cada período de 90 minutos jogados (OC+OF/90' e A+GM/90').

Quanto aos resultados, sem surpresa o destaque vai para Jackson, que repete o protagonismo da época passada neste tipo de análise. No mesmo sentido do que sucedeu em 13/14, ao avançado colombiano do Porto segue-se um conjunto de jogadores do Benfica, com as prestações relativas de Gaitan e Jonas em destaque. No que respeita ao Sporting, destaque para Slimani, que foi o segundo jogador com mais ocasiões de golo finalizadas, apesar de ter uma quantidade muito reduzida de minutos, e para Carrillo que se tem conseguido aproximar de Gaitan no que ao número de ocasiões criadas diz respeito. Nota, finalmente, para o facto de constarem nesta lista vários jogadores que se destacaram na primeira metade da temporada, mas que entretanto abandonaram as respectivas equipas, o que diz bem da dificuldade das equipas médias da liga portuguesa em manter os principais jogadores, mesmo dentro da mesma temporada. 

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26.3.15

Notas da semana (Benfica, Porto, superclásico, Bayern)

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- Começo pela derrota do Benfica em Vila do Conde, que abriu um pouco mais a luta pelo título, ainda que bem menos do que à partida se poderia supor. O Benfica não fez, de facto, um jogo muito bom em termos ofensivos, ainda assim não partilho de todo do pessimismo em torno da exibição da equipa encarnada, uma ideia que como sempre me parece ter grande influência da carga emotiva que o desfecho negativo acarreta consigo. Há, na exibição do Benfica, alguns pontos que me parecem interessantes de analisar, desde a forma como a equipa não produziu o que seria desejável em termos ofensivos, até às dificuldades defensivas que acabaram por ditar a surpreendente reviravolta na segunda parte. E é mais sobre este último ponto que me quero debruçar, porque ao contrário do que seria normal os vários desequilíbrios a que a defensiva encarnada foi exposta não resultam tanto de uma grande dificuldade do bloco defensivo, como um todo, mas de um estranho mau desempenho individual de alguns dos seus jogadores, com os centrais em destaque. De resto, e retirando aqui o lance do primeiro golo, o Benfica começa por sentir dificuldades de controlo na resposta aos pontapés longos ("longos", neste caso até soa a eufemismo!) de Ederson, o que não deixa de ser uma abordagem ofensiva primária e em princípio fácil de anular, por muito invulgar que seja o alcance do pontapé do guarda redes brasileiro. Estranho, portanto, as dificuldades sentidas neste ponto específico, assim como estranho a forma como Luisão se deixou bater por Zeegelaar, também numa abordagem ofensiva relativamente primária, e que acabou com Del Valle isolado na frente de Júlio César, ou a forma como a defesa do Benfica não reagiu de forma coordenada (como é seu hábito, note-se) no lance que culmina na expulsão de Luisão. Por fim, era perfeitamente evitável, também, a precipitação de Maxi no lançamento lateral que está na origem do segundo golo. Seria interessante trazer a visualização de todos estes lances, mas por falta de tempo não o vou poder fazer, ficando no entanto a minha nota pessoal em relação à importância que me parece ter tido o mau desempenho individual dos defensores encarnados nesta derrota.

- Uma nota sobre o jogo que se seguiu à derrota do Benfica, com o Porto também a perder pontos na sua deslocação à Choupana. O Porto foi superior ao Nacional, mas outra coisa não seria de esperar tendo em conta as diferenças de recursos das equipas. A questão está mais, a meu ver, nas dificuldades de controlo defensivo da equipa de Lopetegui, o que contrasta bastante com o registo característico da equipa, em especial no plano interno. Referência, a este propósito para o lance do golo do Nacional (corro aqui o risco de sobrevalorizar um lance pontual), e para a importância que em parece ter Casemiro em termos defensivos para a equipa. Já referi há muito que o brasileiro tem uma capacidade de intervenção notável e que isso ajuda muito o Porto a filtrar as iniciativas ofensivas contrárias, tanto mais que o trabalho defensivo dos seus extremos não é propriamente o mais abnegado.

- Incontornável, nesta semana, o "superclásico". Há sempre inúmeras formas de olhar para um jogo de futebol e este não será excepção, mas eu não consigo começar por destacar outra coisa que não seja o entretenimento que estas duas equipas proporcionam aos vastos milhões de espectadores que param para os ver actuar. Talvez mais do que nunca, um duelo entre Real e Barça é um jogo equilibrado, de parada e resposta, e com superioridade constante dos ataques relativamente às defesas, o que faz deste não só um jogo de desfecho imprevisível, mas igualmente com uma expectativa muito elevada de golos. Ora, estas são características que raramente se vêm combinadas de forma tão expressiva num campo de futebol. Talvez Real e Barça pudessem ser melhores enquanto colectivo - ainda que me pareçam as duas equipas mais fortes do futebol actual - mas quanto ao entretenimento não me parece que fosse justo pedir mais!

- Uma nota também sobre a derrota do Bayern, que decorre obviamente de uma combinação improvável de factores. Ainda assim, nota para as dificuldades da equipa de Guardiola na abordagem ao último terço, não conseguindo ser consequente relativamente ao domínio territorial que impôs. Não se pode, aqui, dissociar deste facto a ausência de Ribery ou a saída por lesão de Robben, com menos de 25 minutos de jogo. Sem maior capacidade individual ao seu dispor, o Bayern protagonizou uma chuva de cruzamentos exteriores, alguns mesmo de posições frontais e sem grande presença na área. A equipa de Guardiola continua a parecer-me uma das mais fortes, mas não a consigo colocar ao nível de Barça e Real em termos de recursos individuais e esse, como sempre, parece-me o ponto que mais diferença pode fazer...

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