20.2.15

Notas da semana (Porto, Champions e Sporting)

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- Em Basileia, o Porto terá realizado uma exibição que me parecer dizer muito daquilo que é, e tem sido, a equipa de Lopetegui. Grande capacidade para se impor no jogo, dominando o adversário quase que por completo, num registo que julgo ser muito meritório e ao alcance de um número não muito extenso de equipas. Por outro lado, este domínio não tem correspondência na capacidade criativa da equipa no último terço, sobrando a ideia de que as suas dinâmicas poderiam oferecer mais a esse nível. O já muito discutido problema jogo interior (ou melhor, da falta dele), claro, mas não apenas isso, como também já escrevi. Há, porém, outro ponto que vem marcando muito a trajectória desta equipa, e que tem penalizado de forma decisiva as suas aspirações. Refiro-me, à facilidade com que a equipa sofre golos, perante tão pouca exposição defensiva. Foi assim frente ao Benfica, frente ao Marítimo e agora também em Basileia, complicando uma eliminatória que poderia nesta altura estar já muito mais bem encaminhada. É difícil perceber até que ponto este é um problema que deriva da simples aleatoriedade do jogo, ou de algo que possa denunciar uma tendência da própria equipa, mas eu tendo a valorizar mais a primeira hipótese...

- Em relação à Champions 2015, que arranca agora para a sua fase decisiva, a minha perspectiva é que existem três equipas com mais hipóteses de sair vitoriosas do que as outras. Em primeiro lugar, o Barcelona, que como já escrevi me parece claramente a melhor equipa do futebol europeu nesta altura, e depois Bayern e Real Madrid. O Bayern, pelo potencial técnico, mas também pela mais valia que representa ter Guardiola na liderança, o que faz com que dificilmente alguma equipa poderá dominar um jogo contra os bávaros (teria a curiosidade de ver um confronto Bayern-Barça, a este propósito). O Real, porque apesar de ser uma equipa a meu ver não muito optimizada do ponto de vista colectivo, tem simplesmente um conjunto de jogadores fantástico, com quem apenas o Barcelona rivalizará. Há, na minha leitura, duas ou três formações que se poderiam aproximar bastante deste trio, dado o potencial técnico que possuem, mas que não creio que estejam colectivamente preparadas para tal. Casos de PSG ou Man City, por exemplo. Assim, fora dos três candidatos que distingui, parece-me que pode haver um grande equilíbrio, incluindo aqui também o Porto, que me parece ter a consistência suficiente para se bater de igual para igual (ou muito próximo disso) com a generalidade das formações ainda em prova.

- Em foco na semana, e sobretudo por resultados menos positivos, esteve o Sporting. Como os dois jogos me parecem bastante diferentes, penso que fará sentido separá-los, começando pelo do Restelo. Estou de acordo, e parece-me pouco discutível, que o Sporting terá feito um jogo pouco inspirado, mas também não me sobram grandes dúvidas de que a veemência das criticas à equipa resultam essencialmente do resultado, e não tanto da exibição. No futebol, e apesar de sistematicamente ouvirmos o contrário, são os resultados que ditam praticamente tudo, e nem os próprios protagonistas conseguem fugir à sua influência. O exemplo, é a própria análise de Marco Silva ao jogo, assim como as suas substituições ao intervalo, a meu ver sem grande justificação para tal. Será que se Montero ou William tivessem convertido as boas oportunidades de que desfrutaram nesse período, Marco Silva teria sido tão cáustico na sua análise ao desempenho da primeira parte, e teria feito as substituições que fez? Mesmo estando num domínio apenas conjectural, eu arriscaria claramente que não. Assim como não me parece que houvesse grandes criticas à equipa se esta tivesse sido mais eficaz relativamente às ocasiões criou. Não foram muitas, é certo, mas também é inegável que o Sporting conseguiu ser uma equipa bastante dominadora num jogo frente a um dos adversários mais fortes do contexto nacional, e que a exibição que produziu não terá sido assim tão inferior a outras que terminaram com os 3 pontos para a equipa de Marco Silva. O resultado, reforço, dita quase tudo no que respeita aos sentimentos e análises pós-jogo.
O jogo frente ao Wolfsburgo foi, obviamente, diferente. O Sporting revelou capacidade para ter bola, não se submetendo a um domínio demasiado acentuado em termos de presença territorial, mas é por outro lado uma equipa que se continua a revelar muito frágil em termos defensivos. Seria, a meu ver, bastante mais desculpável se a equipa tivesse sido exposta em situações de bola parada ou transição, que podem sempre acontecer num determinado jogo, mas o que se passou foi que o Wolfsburgo conseguiu de forma demasiado fácil expor o Sporting no momento de organização, onde normalmente quem defende encontra mais condições para ser bem sucedido. Nomeadamente, os movimentos de De Bruyne foram sempre mal controlados pelo bloco defensivo, que repetidamente permitiu que o belga recebesse em zonas onde tinha condições para criar vantagem, pagando o Sporting bastante caro por essa e outras fragilidades. É um mal que acompanha o Sporting desde o inicio de temporada, e aquele que na minha leitura mais prejudicou as aspirações da equipa em todas as frentes onde jogou. O Sporting é uma equipa que consegue ter bons períodos de posse de bola e que por isso não tem de defender muito (especialmente a nível interno, onde o diferencial técnico é enorme para a generalidade das equipas), mas consente demasiadas ocasiões para o tempo que passa no processo defensivo e, como referi, isso tem sido o seu maior e mais custoso pecado em toda a época, tendo a ver na minha perspectiva com a qualidade dos seus processos colectivos e não com as qualidades dos individuais dos seus jogadores, que me parece ser a teoria mais em voga.

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13.2.15

5 jogadas (Intensidade, Atlético-Real, Sporting-Benfica)

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Jogada 1 - O primeiro golo do Atlético, na surpreendente goleada aplicada ao Real, é um bom exemplo de como a equipa de Simeone envolve várias unidades no processo ofensivo, mesmo sendo uma equipa muito forte na transição defensiva. Este é um aspecto que me parece interessante na análise que deve ser feita a esta equipa, que tanto sucesso tem tido e durante tanto tempo. Isto porque o que vemos várias vezes é as equipas envolverem mais ou menos jogadores nos momentos de organização, ofensivo ou defensivo, conforme o enfoque que pretendem dar ao momento de transição subsequente. Um desses casos será o do Real Madrid, que tende a envolver menos gente no processo defensivo, tentando tirar depois partido do momento de transição ofensivo. O objectivo, segundo este paradigma, é defender/atacar melhor com menos jogadores nos momentos de organização, para depois tirar partido do momento de transição seguinte. Por aqui se percebe a diferença do Atlético a este respeito, já que sendo uma equipa reconhecidamente muito forte nos momentos de transição, não deixa de envolver normalmente muita gente nos dois momentos de organização, o que ajuda a explicar o porquê do seu sucesso transversal, tanto perante equipas mais fortes como na generalidade dos jogos da liga interna. A resposta está, evidentemente, na intensidade, que é também a chave de quase todas as jogadas que estão neste vídeo. Já agora, fica a minha questão sobre este tema: será que é mesmo possível defender/atacar bem e sustentadamente com menos unidades? Ou será que o melhor que se pode conseguir é defender/atacar menos mal? Se olharmos apenas para os casos de Real e Atlético, claramente é esta segunda tese que sai reforçada...

Jogada 2 - Mais uma vez Tiago, figura principal deste jogo. Aqui, fica realçada a sua intensidade defensiva, na reacção a uma situação de jogo onde o Real Madrid consegue o raro feito de abordar a zona de finalização em muito boas condições para se conseguir aproximar seriamente do golo. Este movimento do médio português pode parecer relativamente trivial, mas a verdade é que é muito comum vermos equipas de topo a não revelar grande relação intersectorial, nomeadamente com os médios a negligenciar os desequilíbrios que são criados pontualmente na linha defensiva. Aliás, já várias vezes trouxe aqui exemplos desse tipo, sendo este mais um ponto por onde se pode perceber o sucesso colectivo do Atlético.

Jogada 3 - De novo, a intensidade dos jogadores do Atlético - com Tiago também novamente em destaque - no ataque às zonas de finalização. Aqui, e já com uma vantagem de 2 golos no marcador, o Atlético não deixa de colocar unidades no processo ofensivo e na zona de finalização, acabando por criar uma vantagem gritante na resposta ao cruzamento. É claro que a expressividade da vitória colchonera não se pode explicar apenas por aqui, sendo nomeadamente de sublinhar a notável e muito rara capacidade para neutralizar o ataque tão poderoso como é o do Real, mas a verdade é que são inúmeros os lances neste jogo a revelar o enorme desnível de intensidade na reacção dos jogadores às mudanças circunstanciais que o jogo ofereceu. Aliás, se da parte do Atlético já não há muito para dizer em relação à capacidade que a equipa tem tido em superar aquelas que seriam as suas expectativas normais (volto a sublinhar aqui o tempo e regularidade com que o vem conseguindo), também devo dizer que não consigo compreender alguns elogios feitos ao trabalho de Ancelotti no Real (sobretudo depois de ter vencido a Champions 2014), que me parece pouco mais do que banal, tendo em conta os recursos ao seu dispor.

Jogada 4 - Sobre o derbi de Lisboa, um primeiro comentário ao facto do Sporting ter conseguido muito poucas ocasiões claras de golo, tendo em conta o ascendente que conseguiu e as jogadas que construiu até à zona de finalização. Aqui, parece-me haver algum demérito da equipa de Marco Silva, sendo no entanto primeiro importante fazer uma contextualização relativamente às dificuldades que o processo defensivo do Benfica criou. Boa parte da qualidade da organização defensiva do Benfica resulta do bom trabalho que a sua linha defensiva realiza na dicotomia entre encurtar o espaço interior e controlar o risco de exposição na profundidade. Neste sentido, é normal e expectável que o Sporting tenha tido dificuldades em fazer uso do seu jogo interior, precisamente porque é isso que a boa organização defensiva consegue condicionar. Face a este cenário, e a lógica continua a ser relativamente trivial, seria importante que o Sporting conseguisse ter boa capacidade de explorar a profundidade, porque esse é precisamente o risco que Benfica assume ao defender desta forma. Fosse de uma forma mais directa, através de lançamentos para as costas da linha defensiva, o que raramente resultou, quer por mérito do Benfica como por algum demérito do Sporting (nomeadamente, parece-me, por algum desajuste das características de alguns dos seus jogadores a esse tipo de movimento), fosse de uma forma mais indirecta, nomeadamente aproveitando o espaço nos corredores laterais para obrigar a linha defensiva a baixar e defender dentro da sua área. E foi precisamente por esta segunda via que o Sporting conseguiu várias vezes causar problemas ao Benfica, encontrando boas condições para colocar a bola na zona de finalização, muitas vezes com a defesa do Benfica ainda a recompor-se posicionalmente. O problema do Sporting, porém, foi que repetidamente - e o lance no vídeo é apenas um dos exemplos deste problema - os seus jogadores não conseguiam ter uma boa presença na área, sobretudo por algum défice de intensidade e agressividade neste tipo de movimentos. O lance incluído no vídeo é um bom exemplo deste problema, no caso com Montero a não conseguir acompanhar a velocidade do lance, apesar de ser à partida o jogador a dar mais profundidade no corredor central, (João Mário era quem estava mais atrasado, nesta ocasião). Não se trata de uma questão de velocidade, mas de concentração e percepção para este tipo de movimentos. Intensidade, portanto. Já agora, no lance do golo do Sporting é bem ilustrada a importância que a profundidade posicional (no caso, de João Mário) pode ter perante uma defesa como a do Benfica, precisamente pelo tipo de risco que esta assume para tentar encurtar o espaço interior do adversário.

Jogada 5 - O lance do dramático golo do Benfica é essencialmente determinado pela aleatoriedade própria do jogo, mas há também alguns registos a ter relativamente à reacção de alguns dos protagonistas. E, de novo, a intensidade com que estes abordam o lance e a sua mudança de circunstâncias, é decisiva. Primeiro, Jonas, que como lhe é característico antecipa a oportunidade do lance, sendo o mais lesto a reagir, e a ganhar vantagem por isso. Depois, a diferença entre William e Jardel, que partem sensivelmente da mesma zona. Enquanto que Jardel parte de imediato para a zona de finalização, William permanece pouco reactivo, acabando por não proteger a zona onde precisamente Jardel acaba por finalizar com sucesso. Mais uma vez, não é uma questão de velocidade, mas de concentração e percepção da importância que a sua reacção pode vir a ter, mesmo não sendo certa a sua utilidade. Há uma semana trouxe o exemplo positivo de Cedric, numa jogada em Arouca, e desta vez foi essa mesma intensidade que faltou a William para que a sua boa exibição nos 90 minutos não tivesse terminado com um amargo empate em cima do apito final.

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9.2.15

Notas do Sporting - Benfica

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- Quanto ao jogo creio, julgo que tal como a maioria, que foi uma partida onde foi o Sporting quem mais fez por merecer a vitória, pelo ascendente que conseguiu impor, mas onde o Benfica fez valer também a sua boa organização defensiva, o que culminou numa partida praticamente sem ocasiões à excepção dos próprios golos. 0-0 ou 1-0 talvez fossem os resultados mais certos, mas esse é um conceito que o futebol por natureza tende a desrespeitar.

- Sobre o Sporting, e se tinha dúvidas em relação à capacidade de resposta em alguns aspectos de pormenor mas que poderiam ser decisivos, não me parece de todo surpreendente que a equipa se tenha conseguido superiorizar ao Benfica em termos de ascendente ofensivo. De elogiar, neste sentido, o pouco risco assumido pelos jogadores mais defensivos, o que pode não ter contribuído para uma maior expressividade do jogo ofensivo - nomeadamente, em termos de construção - mas terá certamente sido importante para a seca de acções ofensivas por parte do Benfica, nomeadamente em transição. A este respeito, de resto, dizer que o golo mais não é do que um acidente, de probabilidade muito reduzida nas condições em que ocorreu (na verdade, há que dar também algum mérito a Jonas pela qualidade técnica com que baixou a bola dentro da grande área), e que não vejo qualquer motivo para que se perca muito tempo a discutir o tema. Ainda a propósito da tão abordada questão dos centrais, e mesmo se não concordo com algumas contratações como as de Naby Sarr ou Ewerton (por diferentes motivos, note-se), creio que o Sporting tem abordado correctamente a questão ao não entrar no equívoco de investir muito dinheiro em jogadores com mais currículo e experiência. Já escrevi que pode ser cedo de mais para lançar Tobias, mas é bem mais compreensível esse risco do que canalizar verbas orçamentais importantes para contratar jogadores supostamente experientes para a posição, mas que na verdade pouca diferença fazem em relação à estabilidade defensiva da equipa, que é sobretudo definida pela qualidade do processo defensivo como um todo, e não tanto pela experiência individual dos defensores. Aliás, o próprio passado recente do Sporting é um excelente exemplo disto. Nota menos positiva, claro, para o mau aproveitamento do domínio ofensivo que a equipa conseguiu exercer. A este respeito, duas notas específicas, e ambas que têm a ver com algum défice de agressividade nos movimentos sem bola. A primeira, para a incapacidade dos médios protagonizarem movimentos de rotura que pudessem tirar partido da profundidade que a linha do Benfica oferecia perante a construção do Sporting. A equipa tentou-o várias vezes, e havia de facto essa oportunidade, mas raramente o conseguiu fazer com a eficácia desejada. Ainda assim, e apesar deste primeiro problema, o Sporting conseguiu um número substancial de abordagens em boas condições à zona de finalização, nomeadamente através dos corredores laterais. O que se observou recorrentemente, porém, é que às acções de aceleração que criavam desequilíbrios nas alas, não correspondia depois a mesma velocidade nos movimentos sem bola para garantir presença na zona de finalização. E aqui é incontornável falar-se da ausência de Slimani, nomeadamente por ser este o aspecto na minha opinião mais fraco em Fredy Montero, que com demasiada frequência não se oferece como solução de finalização em acções de ataque mais rápido.

- Sobre o Benfica, a grande nota na minha opinião tem a ver com a qualidade do onze apresentado, que me parece bastante aquém do que a equipa apresentou nos últimos anos. Aliás, fala-se recorrentemente da menor capacidade dos recursos individuais do Sporting, mas francamente parece-me que o Benfica se apresentou com uma equipa em nada superior ao seu rival, antes pelo contrário creio que era o Sporting quem tinha melhores condições individuais para se impor no derbi, e foi isso que acabou por acontecer. E desta constatação não resulta apenas uma ameaça para o presente ou futuro imediato. Se o Benfica conseguiu encurtar a diferença para o Porto nos últimos anos, foi essencialmente (e que não haja equívocos sobre isto!) porque se foi conseguindo reforçar com qualidade no mercado. O que tem acontecido recentemente é que essa capacidade não se tem mantido nos últimos anos, e aos jogadores que têm saído não têm correspondido entradas com a mesma qualidade. E aqui não colhe a justificação das saídas milionárias, primeiro porque não tem sido por falta de investimento que o Benfica não se tem reforçado melhor, e depois porque a natureza do modelo de gestão do Benfica passa precisamente por ser capaz de vender mais caro e comprar mais barato, sem perder qualidade ao longo do tempo. Sem qualidade nas escolhas que são feitas, o modelo estará essencialmente condenado à ruína. Resta, no fim disto tudo, elogiar a qualidade da organização defensiva da equipa - e aqui sim, o Benfica ganha uma vantagem importante sobre o Sporting na corrrida ao título - que tem sobretudo a ver com o cunho pessoal do seu treinador. Veremos, a este respeito também, se essa será uma mais valia com que o Benfica continuará a contar nos próximos anos...

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6.2.15

5 jogadas (Porto, Sporting, Bayern, Chelsea, Barça)

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Jogada 1 - Já tenho escrito aqui várias vezes sobre o enorme desequilíbrio existente na liga portuguesa, e nesse sentido não posso sobrevalorizar demasiado a oposição que representava o Paços. Mesmo, se como também já escrevi, a equipa de Paulo Fonseca é das que mais atenção e mais elogios me parecem merecer no actual contexto do futebol nacional. Ainda assim, parece-me incontornável a qualidade da exibição portista, uma semana depois de ter perdido pontos importantes na Madeira. Em particular, de sublinhar a grande intensidade revelada na primeira parte, também na circulação de bola, mas sobretudo nos momentos defensivos, o que explica o facto do Paços ter sido praticamente confinado ao seu meio reduto, apesar dos seus esforços para valorizar a posse de bola. Mesmo considerando o desnível de valores entre as equipas, não me parece nada fácil realizar a exibição que o Porto conseguiu. Isto, na primeira parte, porque a segunda foi bastante diferente.

Quanto à jogada, que paradoxalmente acontece já após o intervalo, revela tanto o bom efeito do pressing portista, como o risco assumido pelo Paços, mesmo perante o contexto que tinha pela frente. E, aqui sim, pode levantar-se a questão sobre a abordagem estratégica do Paços. Costuma dizer-se, até porque é bonito e fica bem, que as equipas devem sempre manter a sua identidade, independentemente do contexto. Eu tendo a pensar que, mesmo podendo ser muito nobre (se é que isso existe, tacticamente falando), uma abordagem que ignora o contexto em que se insere não tem nada de inteligente, e sendo assim corre o risco de não ser também a mais eficaz. O objectivo que me parece mais lógico, e como sempre, é o da maximização da eficácia dos processos, e a dúvida neste caso é se a abordagem escolhida foi a que mais potenciou esse objectivo, isto claro sem querer passar a ideia de que o resultado e as dificuldades pudessem ter sido muito diferentes com qualquer outra abordagem.

Jogada 2 - Em Arouca, o Sporting realizou uma exibição que na minha opinião pecou pela intermitência. Isto é, a equipa impôs um ascendente claro, tanto antes do 1-1 como depois do 1-3, mas não o fez no largo período que intervalou essas duas fases, o que poderia ter colocado em risco a conquista de 3 pontos. Em vésperas do derbi, tenho alguma dificuldade em projectar o que esse duelo poderá dar. Tanto Sporting como Benfica são boas equipas e com recursos individuais de potencial não muito distante (ao contrário do que se diz), mas ambas me suscitam dúvidas relativamente a alguns pontos do seu jogo, sendo que o habitual grau de dificuldade existente na liga portuguesa não permite que se perceba bem o verdadeiro alcance dessas limitações. Um ponto provavelmente essencial relativamente a esse jogo passará pela estratégia de ambas as equipas, relativamente à construção, sendo que é de prever que qualquer das equipas tente pressionar o seu adversário em praticamente toda a extensão do terreno. No caso do Sporting, há algumas questões relativamente à segurança em posse, que não tem sido propriamente a ideal. No caso do Benfica, a minha previsão é que o risco assumido seja baixo, assim como aconteceu no Dragão, sendo que a equipa também ainda não se revelou muito eficaz com uma estratégia de saída de bola mais longa, nomeadamente pelas dificuldades de Talisca para actuar naquela zona do terreno.

O lance que trago tem como destaque essencial a reacção de Cedric, que faz aquilo que provavelmente é mais difícil - em termos de atitude, bem entendido - no futebol. Ou seja, reagir de forma agressiva, independentemente da incerteza da utilidade dessa reacção para o lance. Porque quando o lance se inicia não é de todo adquirido que Cedric vá ser chamado a intervir no lance, sendo que isso não o impede de recuperar com a celeridade que o lance revela. A meu ver, há poucas coisas mais valiosas para a solidez táctica de uma equipa do que esta intensidade na reacção à mudança de contexto do jogo, e talvez seja também por isso que o Sporting sentiu quase sempre as ausências de Cedric. Uma nota também para Tobias Figueiredo, protagonista pela negativa no inicio deste lance e que terá um teste importante frente ao Benfica, correndo-se na minha perspectiva o risco de se estar a lançar o jogador cedo de mais na equipa principal do Sporting. Isto é, dada a sua posição, parece-me que talvez fosse mais aconselhável que tivesse mais tempo de utilização em equipas de menor pressão mediática, havendo a possibilidade de ser exageradamente penalizado por alguns erros que possa vir a cometer por uma eventual falta de maturidade.

Jogada 3 - Perder, mesmo que por números avultados, em futebol pode sempre acontecer. O que mais surpreende na derrota do Bayern é mesmo o que o jogo mostrou. Talvez 4-1 seja exagerado, mas mesmo considerando outros indicadores relevantes do jogo, como ocasiões claras de golo, foi o Wolfsburgo quem se superiorizou e isso foi o que realmente me surpreendeu. Recentemente, e a propósito de Guardiola, escrevi aqui recentemente que me parecia que a Bundesliga lhe era tão acessível que poderia não servir para testar realmente o risco que o seu modelo de jogo pretende assumir, chegando e sobrando para a generalidade dos jogos, mas que pode depois ser seriamente exposto perante equipas com mais capacidade no aproveitamento do espaço concedido, como sucedeu na última meia final da Champions. Neste sentido, o Wolfsburgo acabou por me contradizer, sendo capaz de expor de forma flagrante os riscos que o modelo do Bayern assume. Ou então, a percepção do risco é que se perdeu completamente, por parte dos bávaros, porque é essa a ideia que fica em vários dos lances do jogo. Talvez o mais claro - chegando até a ser caricato - seja mesmo aquele que está no vídeo, e que culmina no 3º golo sofrido pelo Bayern, onde os elementos da última linha defensiva estão de tal forma empenhados em apertar o espaço interior que se parecem esquecer de que a regra do fora de jogo só tem efeito a partir da linha do meio campo, e negligenciam por completo o risco que o seu posicionamento representa, em termos de exposição espacial. É claro que a exibição e as dificuldades sentidas não se explicam apenas pelo comportamento nos momentos tácticos defensivos, mas torna-se difícil não realçar especialmente a exposição da equipa, que ainda a meio da semana voltou a complicar as suas aspirações ao ser estranhamente surpreendida por estar demasiado adiantada numa jogada tão básica quanto um pontapé longo do guarda redes do Schalke.

Jogada 4 - Na Premier League, um jogo muito importante na corrida para o título, com um desfecho aparentemente mais favorável para Mourinho, mas sem que nada esteja verdadeiramente decidido. Sobre o jogo, referir a justiça do empate, sendo que provavelmente o nulo se ajustaria melhor a uma partida onde o Chelsea nunca fez valer o favoritismo de jogar em casa, e onde o City também nunca conseguiu ser consequente relativamente ao domínio territorial que exerceu. A Premier League, e como escrevi há algumas semanas, parece aberta porque não vejo nenhuma equipa verdadeiramente consistente para que se possa pensar que não venha a perder pontos. Relativamente ao lance do primeiro golo do Chelsea, a nota vai, de novo, para a forma como uma linha defensiva que tenta tirar partido da lei do fora de jogo para cortar o espaço de ataque do adversário, acaba por ser exposta por trajectórias que tiram partido da largura do terreno.

Jogada 5 - Nota para o Barcelona, e para mais uma exibição que me pareceu bastante conseguida, apesar das dificuldades sugeridas pelo curso do marcador, e frente a uma das melhores equipas do futebol espanhol actual, o Villarreal. Aliás, o Barça é a equipa que mais me agrada nesta altura no futebol europeu, restando saber que capacidade de reacção terá perante adversários com um potencial técnico mais equivalente ao seu. Desta referência positiva que faço ao Barça não está, naturalmente, dissociado o contributo de Messi. Confesso que nunca consegui ver em Messi um sub-rendimento e que as oscilações das suas prestações individuais sempre me pareceram ter mais a ver com problemas colectivos do que o contrário, mas ainda assim não posso deixar de sublinhar o seu momento e aquilo que na minha opinião é um super-rendimento, provavelmente sem paralelo no futebol mundial.

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30.1.15

5 Jogadas (Porto, Benfica, Sporting, Braga e Atl.Madrid)

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Jogada 1 - O golo sofrido na Madeira, e que ditou a surpreendente derrota portista, resulta na minha leitura essencialmente de um desequilíbrio no meio campo da equipa, com Oliver e Herrera a permitir a progressão de Raul Silva, o que ditou depois a exposição das costas da linha defensiva, sendo que a recuperação dos médios (nomeadamente de Oliver) também poderia ter sido mais bem conseguida, e evitado o desfecho final. De todo o modo, e apesar da derrota, o Porto não sentiu grandes problemas do ponto de vista defensivo, acabando este por ser um lance bastante isolado dentro do contexto do jogo. Por outro lado, e repetindo sinais que já vêm desde a pré temporada, a equipa não conseguiu fazer grande uso do domínio territorial de que usufruiu no jogo, nomeadamente não conseguindo ter grande correspondência no volume de desequilíbrios provocados no último terço. De novo, a principal nota vai sem dúvida para o foco no jogo exterior, sendo que a retirada de Quintero perante um contexto de desvantagem não parece ter ajudado muito a atenuar esse problema. No entanto, gostaria de salientar que o problema do Porto não é apenas a ausência de uso do corredor central, porque mesmo jogando por fora como gosta de fazer, exigir-se-ia mais ao Porto em termos de capacidade de penetração no último terço. Ou seja, mais do que jogar por fora ou por dentro, o problema tem a ver com o aproveitamento da dinâmica ofensiva pretendida, que é relativamente baixo para o potencial técnico existente, e que deveria ser maior mesmo apostando essencialmente na penetração pelos corredores laterais. Outra conclusão inevitável, do meu ponto de vista, é que o grau de dificuldade do contexto interno é nesta altura tão baixo que estes problemas apenas acabam por ser evidenciados de forma intermitente...

Jogada 2 - Em Paços, o Benfica desperdiçou uma oportunidade importante de se distanciar ainda mais do Porto, na corrida para o título. A jogada seleccionada tem mais a ver com os primeiros minutos do que com aquilo que o jogo mostrou a partir dos 25-30 minutos. Na verdade, nada de substancial mudou a partir dessa altura, mantendo-se a estratégia do Paços e a abordagem ofensiva do Benfica. A diferença está na eficácia dos processos, que nos primeiros minutos foi francamente favorável à equipa campeã nacional, e que se inverteu completamente  a partir daí. De facto, são muito invulgares as dificuldades de penetração que o Benfica sentiu em praticamente toda a segunda parte, onde quase não conseguiu entrar na área do Paços, a não ser de bola parada. Mérito inquestionável para o Paços, que é uma equipa que já elogiei no passado, e que de facto me parece ter menos pontos do que aquilo que a sua performance qualitativa justificaria, nomeadamente sendo a equipa que na minha perspectiva mais explora o corredor central, na liga portuguesa. Neste jogo, e tal como já havia acontecido frente ao Porto, Paulo Fonseca apostou numa estratégia diferente da habitual, nomeadamente com um bloco mais baixo e uma construção mais directa e a assumir menos riscos na saída em apoio. O facto é que, e à margem do tal período inicial onde houve também bastante mérito do Benfica nos desequilíbrios que criou, a equipa conseguiu um excelente condicionamento do jogo ofensivo do Benfica, convidando a entrar pelos corredores laterais, onde a sua presença numérica era favorável ao sucesso da pressão defensiva, como o tempo acabou por mostrar. No que respeita ao Benfica, e tal como escrevi para o caso do Porto, há debilidades que não são devidamente denunciadas pelo grau de dificuldade da competição interna, mas que poder-se-ão tornar evidentes sempre que a fasquia suba, sendo que o caso do meio campo me parece relativamente evidente, havendo dificuldades tanto em Talisca como em Samaris.

Jogada 3 - Um fim de semana de raro aproveitamento para o Sporting, que não só venceu o seu jogo como tirou partido de vários deslizes alheios. No entanto, esta terá sido provavelmente a mais modesta exibição da equipa no seu estádio, se considerarmos apenas a produção ofensiva. A nota, e comparando este jogo com outros que resultaram na perda de pontos, vai para o capítulo defensivo, sendo que nessas ocasiões o Sporting foi penalizado pelo facto de ter concedido aos seus adversários uma vantagem inicial. Uma evidência, na minha leitura, de como pode ser importante manter um bom controlo defensivo, mesmo nos jogos onde a superioridade esperada é maior. Desta vez, e na minha leitura sobretudo por demérito da Académica, os sobressaltos defensivos foram bem menores do que noutras ocasiões. O destaque da jogada, concretamente, vai para a acção de João Mário, que mais uma vez conseguiu um excelente timing de abordagem à zona de finalização, percebendo a liberdade circunstancial de que usufruiu William Carvalho. É esse movimento que cria dúvida na defesa da Académica e que permite, primeiro, abrir espaço para Tanaka e, depois, beneficiar o próprio João Mário na recarga. Curiosamente, há 2 semanas escrevia que João Mário certamente teria muitos golos por celebrar se mantivesse a capacidade que mostrou em Braga, e onde foi fracamente infeliz no capítulo da finalização. Coincidentemente, acabou mesmo por marcar em duas jornadas consecutivas, e na sequência de acções do mesmo tipo.

Jogada 4 - No Bessa, mais um resultado surpreendente da jornada. Um jogo que na minha opinião foi globalmente fraco de parte a parte, mas no qual o Braga conseguiu um excelente aproveitamento das poucas acções ofensivas que conseguiu levar até ao último terço, criando um número substancial de ocasiões para marcar, nomeadamente na segunda parte. Paradoxalmente, e como tantas vezes acontece no futebol, foi o Boavista quem conseguiu chegar ao golo, naquela que foi praticamente a única vez em que realmente conseguiu ameaçar o extremo reduto do Braga. O interesse desta jogada reside nos comportamentos tácticos dos jogadores do Braga, que facilmente poderiam ter evitado este desfecho. Várias vezes tenho aqui trazido exemplos da vulnerabilidade de linhas defensivas com comportamento mais agressivo no que respeita ao risco que assumem relativamente ao espaço nas suas costas, e de facto essa é a tendência mais comum nas equipas do futebol actual. O Braga de Sérgio Conceição é um exemplo contrário, sendo este um lance que ajuda a perceber o porquê de cada vez mais treinadores apostarem em linhas defensivas mais altas e menos profundas. Assim, de notar, primeiro, as referências individuais dos jogadores na zona da bola, que são arrastados por movimentos de adversários e acabam por não conseguir fazer a cobertura interior, que impediria Tengarrinha de progredir em direcção ao corredor central, como aconteceu. Depois, e face à iminência do remate, a linha defensiva do Braga não sobe, como geralmente acontece, sendo este um comportamento que não faz parte dos instintos colectivos da equipa e que facilmente colocaria Uchebo em posição irregular, inviabilizando a recarga final. De facto, percebe-se facilmente as vantagens que o Braga retiraria em incorporar e rever certos princípios defensivos, mas é importante não partir desta constatação para conclusões simplistas sobre o que é a qualidade defensiva de uma equipa. Se o objectivo é a eficácia, a qualidade não pode ser medida por questões de estilo ou preferências pessoais sobre determinados princípios. O caso do Braga de Sérgio Conceição é um excelente exemplo disto mesmo, porque apesar de ter princípios colectivos que podem ser questionáveis, a verdade é que a equipa tem conseguido como um todo ser bastante consistente defensivamente, registando o melhor registo defensivo do clube desde a época 09/10 (por exemplo, tem menos de metade dos golos sofridos por Peseiro, no mesmo número de jogos!). Ou seja - e de novo tendo como base axiomática a ideia de que o objectivo é a eficácia - fica claro que, e ao contrário do que me parece tantas vezes acontecer, a qualidade não pode ser medida linearmente a partir dos princípios defensivos que cada equipa assume, sob pena de se chegar a conclusões completamente desfasadas daquilo que é depois a eficácia prática e real do seu desempenho.

Jogada 5 - Para terminar, o caso do Atlético - Rayo da última jornada. O Atlético não fez um grande jogo, nomeadamente do ponto de vista da afirmação territorial ou mesmo da frequência com que invadiu com propósito o último terço contrário. No entanto, não só resolveu facilmente o problema que tinha pela frente, como ainda acabou por desperdiçar a hipótese da goleada, perdendo algumas boas ocasiões já na recta final da partida. A explicação aqui vai, e mais uma vez, para a eficácia dos processos do Atlético, nomeadamente para a capacidade que equipa tem de ajustar rapidamente o seu posicionamento ao longo das jogadas, seja na transição ou mesmo dentro dos próprios momentos tácticos. O primeiro golo serve de excelente exemplo, parece-me, e por isso trouxe a jogada. Em particular, o sublinhado vai para a forma como a equipa do Atlético mantém, como um bloco, a intensidade da pressão ao longo de uma extensão tão dilatada do terreno, enquanto a equipa do Rayo tenta precisamente evitar que isso aconteça, ao retirar a bola da zona de pressão, socorrendo-se da profundidade para o fazer. A propósito do Atlético e de Simeone, uma nota sobre as discussões que muitas vezes dividem opiniões sobre o trabalho do treinador argentino. Mais uma vez, as questões de estilo parecem-me acabar por dominar um tema que devia estar muito mais centrado naquilo que é realmente o objectivo de um treinador, que é optimizar a eficácia da equipa e dos seus processos. Assim, pode-se ter paradigmas muito diferentes quando se discute e compara treinadores de topo e com trajectos verdadeiramente excepcionais (há muito poucos, na verdade). Por exemplo, pegando em Simeone e Guardiola podemos focar-nos no estilo, e dar-mo-nos ao exercício trivial de salientar as diferenças entre ambos, ou na eficácia, e tentar encontrar os pontos comuns que podem explicar o sucesso a partir de registos tão diferentes. A mim, pessoalmente, é apenas esta última perspectiva que me interessa...

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23.1.15

5 jogadas (Benfica, Sporting, Barça, Man Utd, Chelsea)

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Jogada 1 - O terceiro golo do Benfica é revelador do porquê de uma vitória tão fácil numa deslocação que à partida seria das mais difíceis para o líder e campeão. Começando pelo mérito do Benfica, são incontornáveis as dificuldades que a mobilidade dos seus avançados causam às defensivas contrárias. Aqui, novo destaque para Jonas, que veio realmente injectar uma grande qualidade à frente de ataque encarnada. Por outro lado, o Marítimo não revelou grande capacidade para controlar esta capacidade do seu adversário, apresentando várias debilidades que acabaram por contribuir decisivamente para o acentuar da diferença no marcador. No caso desta jogada, nota para a forma como a linha média é atraída para pressionar sem que existisse enquadramento posicional que lhe permitisse ter grande sucesso nessa acção, o que acabou por expor a zona interior do bloco e, consequentemente, a linha defensiva. Uma boa imagem da forma como a linha média do Marítimo foi exposta pela mobilidade dos jogadores do Benfica é Danilo Pereira, que assume uma postura posicional durante toda a jogada, mas que mesmo assim acaba por não conseguir intervir sempre que a bola entra na sua zona. De todo o modo, o contexto no campeonato parece ser agora bem mais positivo para o Benfica, que tem conseguido exibições bastante positivas e mais do que suficientes para o nível da oposição interna. Ainda que isto não signifique, pelo menos na minha leitura, que os padrões de qualidade do Benfica actual, sejam tão elevados como foram nas últimas temporadas.

Jogada 2 - Em Alvalade, um jogo interessante pela capacidade que ambas equipas tiveram para provocar dificuldades de controlo defensivo ao seu adversário. Não há aqui grande surpresa, se considerarmos o perfil das duas equipas e aquilo que já haviam mostrado nesta temporada. Uma análise cuja conclusão não é muito abonatória para o Sporting, já que a exigência a que a equipa está sujeita passa, não apenas por se superiorizar à generalidade dos adversários que encontra internamente, mas de conseguir um nível de controlo bastante acentuado do resultado e do destino dos 3 pontos. Sobre os problemas defensivos do Sporting, de resto, esta semana trouxe-nos a notícia de uma relevante mudança de centrais. A saída de Maurício, parece-me, é sobretudo boa para o jogador, não apenas por factores financeiros, mas também porque em Portugal tinha um contexto mediático muito pouco favorável, que teve como génese o preconceito de ter vindo de uma divisão secundária do futebol brasileiro, e que culminou na incrível tese de que era nele que estava o epicentro dos problemas defensivos da equipa nesta temporada. Ora, Maurício não era seguramente um central de qualidades extraordinárias ou que me pareçam especialmente difíceis de substituir, mas não só é importante não esquecer que foi titular absoluto com dois treinadores distintos e vários concorrentes para o lugar como que, e aqui entra a minha leitura pessoal, no tempo em que esteve no clube apenas um jogador da sua posição se revelou mais consistente, Paulo Oliveira. Ou seja, gastaram-se tantas energias a escalpelizar, em absoluto, os defeitos de Maurício (que existiam, de facto), que receio que se possa ter esquecido o seu enquadramento relativo, nomeadamente a comparação com os defeitos das alternativas existentes para a posição. E voltando à subjectividade da minha apreciação pessoal, sendo Maurício claramente o segundo melhor central que o Sporting tinha nos seus quadros, isso significa que a sua saída, mesmo sendo aparentemente tão desejada, não pode deixar de ser considerada como um risco, tanto mais que não sou capaz de precisar por antecipação o que pode valer Ewerton. Esperemos, pois, para ver...
Quanto à jogada, nela está mais um exemplo do porquê de não me parecer de todo que os problemas defensivos do Sporting tivessem como epicentro Maurício ou a qualidade individual dos jogadores da linha defensiva. O problema está, como quase sempre acontece, no processo defensivo como um todo e no seu enquadramento com as características individuais dos jogadores. No caso, salta à vista, e mais uma vez, a dificuldade de William Carvalho na recuperação defensiva, um problema que embora não mereça tanta atenção mediática, me parece ser dos mais evidentes do Sporting 14/15.

Jogada 3 - Na Corunha, o Barça realizou uma exibição a lembrar os seus melhores tempos, nomeadamente expondo a linha defensiva contrária com uma facilidade e frequência impressionantes. É claro que há aqui uma boa parte de demérito do próprio Depor, mas ainda assim sou da opinião de que há sinais optimistas para que possamos vir a ter um Barcelona na primeira linha para a disputa dos principais títulos da temporada, tanto internamente como a nível europeu. Aliás, anormal seria que a expectativa fosse outra. No caso da jogada do primeiro golo, a nota vai para a forma como o Deportivo negligenciou o risco que representa oferecer espaço nas costas da linha defensiva quando se perde presença pressionante sobre o portador da bola. Uma vulnerabilidade identificada e explorada de forma quase instintiva por Messi. Aliás, este tipo de capacidade para ler e antecipar movimentos de abordagem às zonas de finalização é a característica que mais aproxima os grandes goleadores do futebol mundial. Sobre Messi, de resto, o seu rendimento recente tem sido notável, abrindo de forma bastante prometedora o ano de 2015 (na verdade, também aqui o que é invulgar é o rendimento de Messi não ser excepcional!). Já agora, nota também para o jogo a meio da semana frente ao Atlético. Como era previsível, não foi possível realizar um jogo tão conseguido como aquele que opôs as duas equipas para o campeonato, e o Atlético voltou a conseguir um controlo defensivo notável para quem joga no terreno de uma super potência do futebol mundial, como provavelmente só mesmo a equipa de Simeone consegue nos tempos que correm. Ainda assim, o Barça voltou a realizar uma exibição que me parece muito conseguida, voltando a merecer-me destaque a distribuição da equipa em ataque posicional, nomeadamente relativamente à profundidade dos extremos, o que causou problemas de controlo defensivo á linha defensiva do Atlético.

Jogada 4 - Uma nota sobre Falcao, no United de Van Gaal. Teve um conjunto de ocasiões que não conseguiu concretizar, frente ao QPR, e daí resulta a habitual dicotomia de opiniões. A corrente mais comum passará por penalizar a ineficácia circunstancial, mas como quem me vai lendo saberá, eu tendo a pensar que quem se movimenta desta forma e chama a si tantas ocasiões, mais tarde ou mais cedo acabará por festejar golos com muita regularidade. Na jogada que seleccionei, fica evidente o bom timing de Falcao ao baixar no tempo certo para ficar no limite do fora de jogo e depois explorar as costas de uma linha defensiva que também não teve a melhor das reacções a um lançamento largo e bastante previsível.

Jogada 5 - Uma longa jogada o Chelsea, que retrata bem a facilidade e superioridade da equipa de Mourinho na deslocação ao terreno do Swansea. Algo que, pessoalmente, me surpreente, porque a Premier League revela uma grande competitividade, com as principais equipas a denotarem dificuldades em praticamente todas as partidas. Por exemplo, no jogo anterior o Chelsea recebeu o Newcastle, e teve enormes dificuldades na primeira parte, como nenhum candidato ao título sente em Espanha ou Portugal, acabando por beneficiar da eficácia e de uma boa dose de fortuna para não se colocar em apuros nesse jogo. A manter-se este contexto tudo pode acontecer na Premier League, sendo de prever que tanto Chelsea como Man City possam perder pontos com alguma regularidade, na corrida para o título. O mesmo se pode dizer, de resto, da luta pelos lugares de acesso à Champions, onde me parecem haver 5 candidatos (Arsenal, Man United, Liverpool, Southampton e Tottenham) para 2 lugares.

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20.1.15

Liga 14/15: balanço da primeira volta

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Aproveito o final da primeira volta para deixar aqui um pequeno balanço da performance das equipas até agora. Divido esta análise em três partes, deixando como nota prévia a noção de que todos os quadros apresentados têm por base os dados recolhidos ao longo da época, segundo os critérios que venho mantendo.

Ranking por ocasiões de golo
Este é um quadro que venho apresentando com alguma regularidade ao longo da temporada, por isso não deverá constituir grande novidade para quem já se cruzou com ele. A vantagem de usar ocasiões de golo neste tipo de análise, em vez dos habituais golos efectivamente marcados e sofridos, é que este é um indicador menos vulnerável à aleatoriedade, o que em princípio deverá permitir uma tradução mais fiável dos méritos e deméritos das equipas.
O ranking não me parece surpreender muito. No topo, um grande equilíbrio entre Porto e Benfica, explicando-se a liderança dos encarnados, e à luz destes dados, sobretudo pela eficiência e não tanto por uma melhor produção em termos de ocasiões criadas e consentidas. O Sporting aparece em terceiro lugar, sendo curioso observar que conseguiu criar mais ocasiões do que os seus rivais, sendo no entanto muito penalizado pelo registo defensivo, como alíás já foi analisado noutra altura. Em relação a algumas discrepâncias relativamente à tabela classificativa, a principal explicação será a mera aleatoriedade no aproveitamento das ocasiões criadas e consentidas, mas obviamente haverá outros factores com algum carácter explicativo.

"3 Grandes": Evolução comparativa
O gráfico pretende ilustrar a evolução comparativa dos "3 grandes", ao nível da % de ocasiões a favor nos respectivos jogos. Obviamente, este é um indicador que se torna cada vez mais estável ao longo do tempo, uma vez que considera os dados da época de forma acumulada. O gráfico confirma uma maior regularidade do Benfica, assim como uma melhoria progressiva do Porto, em especial nas últimas jornadas. Quanto ao Sporting, o seu início não lhe foi favorável, e embora tenha conseguido uma evolução positiva na segunda metade da primeira volta, a diferença para os outros dois rivais continua a ser clara, sendo que como já se referiu ela se explica essencialmente pela performance defensiva.

Destaques individuais
 Relativamente à performance individual, a primeira nota que quero deixar ficar tem a ver com o contexto da análise, que oferece grande importância às ocasiões de golo. Para além dos jogadores destacados no 11 sugerido no quadro, destaque para os seguintes jogadores: Assis (guarda redes, Guimarães); Maxi (lateral, Benfica), Jefferson (lateral, Sporting); Jardel (central, Benfica); Aderlan (central, Braga); Tarantini (médio defensivo, Rio Ave); Herrera (médio ofensivo, Porto); Quintero (médio ofensivo, Porto); Carrillo (extremo, Sporting); Urreta (extremo, Paços); Hernani (extremo, Guimarães); Lima (avançado, Benfica); Montero (avançado, Sporting); Deyverson (avançado, Belenenses).

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16.1.15

5 jogadas (Benfica, Porto, Sporting, Barcelona e Roma)

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Jogada 1 - Lance de contra ataque do Benfica, numa primeira parte muito bem conseguida pela equipa de Jesus, construindo um número impressionante de ocasiões de golo. O meu sublinhado vai para o desempenho individual dos três protagonistas do lance, em especial para Jonas, não apenas pelo movimento final da jogada, mas também pelo pormenor técnico com que dá inicio à transição. Restam cada vez menos dúvidas de que o brasileiro se veio constituir como uma das principais mais valias do campeonato, tendo sido uma das mais acertadas aquisições da temporada e um jogador que justifica as mais optimistas esperanças por parte dos adeptos encarnados.

Jogada 2 - Este não é o ciclo de jogos ideal para testar a evolução da equipa, mas não me deixa de parecer que o Porto de Lopetegui tem dado sinais positivos nos tempos mais recentes. Ao nível da organização defensiva, já confessei as minhas elevadas expectativas a partir do que a equipa vem mostrando, mas surgem também alguns sinais positivos relativamente à dinâmica ofensiva, que durante muito tempo estiveram ausentes. O lance do primeiro golo na recepção ao Belenenses, com uma movimentação muito bem conseguida pelos dois médios sobre o corredor central, e que não foi caso isolado no jogo. O favoritismo não está claramente do lado portista no que respeita à corrida pelo título, mas a julgar pelo rendimento recente, o Benfica terá mesmo de manter a bitola elevada se quiser valer os 6 pontos de vantagem que conseguiu.

Jogada 3 - Vitória importante do Sporting em Braga, que foi justificada sobretudo pelo que a equipa conseguiu produzir no primeiro quarto de hora da segunda parte. Este lance, parece-me, reflecte bem como a equipa de Marco Silva conseguiu criar tantos lances de golo eminente num curto espaço de tempo. Decisivo o meio campo e as bolas divididas nessa zona do terreno, como ponto de partida. Depois, a incidência sobre os corredores laterais na fase criativa, coisa que também o Braga procurou fazer (e com algum sucesso, especialmente através de Pardo). Finalmente, a importância de ter boa presença na zona de finalização para dar sequência aos cruzamentos, sendo que aqui a acção de João Mário merece-me especial destaque. Não é a primeira vez que refiro à importância de ter um jogador capaz de ser, simultaneamente, um elemento extra na linha média e uma presença recorrente na zona de finalização. João Mário tem-no conseguido fazer com sucesso, e mesmo se neste jogo perdeu algumas oportunidades flagrantes, a dar continuidade a este tipo de prestação, certamente que ainda virá a festejar muitos golos até final da temporada.

Jogada 4 - Não há nada de surpreendente na vitória do Barça, frente ao Atlético de Madrid. A diferença de forças é enorme, e não se pode esperar que o Atlético repita sucessivamente os milagres que vem protagonizando sob o comando de Simeone. Mérito para o Barça, sobretudo pela inspiração na primeira parte, mas isso não pode afectar o reconhecimento de nova época notável que o Atlético vem realizando, se tivermos em conta o desnível entre os seus recursos e os dos rivais. Enfim, haverá mais para falar sobre Barça e Atlético até final da época... Sobre o lance do segundo golo, o meu destaque vai para o posicionamento estrategicamente aberto dos dois alas do Barça, que retiveram os laterais do Atlético, aumentando o espaço nas costas da primeira linha de pressão. O ajustamento posicional do Atlético vai ser circunstancialmente imperfeito e permite que Bravo encontre uma linha de passe dentro do bloco contrário. O desequilíbrio propriamente dito, porém, surge na má abordagem de Juanfran, que perde o tempo de antecipação sobre Messi e permite que o Barça parta para a área numa situação de 4x3. Depois, é igualmente interessante o movimento cruzado de Suarez e Neymar, com o brasileiro a arrastar o lateral e a abrir o espaço onde Suarez irá finalizar. Um comportamento defensivo que pode ser questionado, sem dúvida, mas como escrevi o desequilíbrio surge à priori.

Jogada 5 - Sublinhado para o primeiro dos dois golos de Totti no derbi de Roma. A Lazio opta por defender com uma linha defensiva muito próxima da linha da bola, sendo essa uma opção comportamental normal. À partida, esta é uma situação pouco favorável para que a Roma crie um desequilíbrio através de um cruzamento, tendo apenas um jogador na área, e por sinal atrás de toda a linha defensiva. O ponto aqui tem a ver com a oportunidade que este tipo de posicionamento defensivo abre perante bolas que atravessem quase paralelamente a linha defensiva. Ao estar colocado atrás de toda a linha defensiva, Totti tem uma dupla vantagem. Primeiro, relativamente ao controlo da legalidade do seu posicionamento, porque tem todos os defensores no seu campo de visão. Depois, o tempo de reacção à trajectória da bola, que é maior para ele do que para qualquer outro defensor, pelo facto de ser ele quem está mais afastado. E é precisamente a combinação destes dois factores que permite que Totti tire partido de uma vantagem improvável neste lance, sendo que grande parte do mérito vai para a lucidez de Strootman, que efectua o cruzamento com toda a intenção. Um exemplo de como diferentes soluções ofensivas podem ter um potencial de sucesso completamente diferente, em função dos princípios defensivos do adversário. Mais uma vez, uma constatação que valoriza a especificidade e reduz a hipótese de certos comportamentos e princípios tácticos serem, per se, amplamente superiores a outros.

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