18.9.14

Notas da Champions (Benfica, Porto e Sporting)

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Benfica - Zenit - Um desfecho decepcionante face às expectativas do Benfica para este duelo e para esta competição. Há duas formas de ler o que se passou. A primeira, enfatizando o condicionalismo de se ter jogado em inferioridade numérica durante 70 minutos. A segunda, sublinhando que o Zenit demorou apenas 20 minutos a materializar o 'knock-out' no estádio da Luz. Pessoalmente, tendo a valorizar mais a segunda, até porque se o Benfica ficou reduzido a 10, tal só aconteceu porque Artur resolveu adiar o segundo golo, trocando-o pela sua presença em campo.
Explorando os motivos que estão na base da derrota, começo por Jardel, e pelos passes perdidos em zona proibida. A importância da segurança na primeira fase de construção é um tema que valorizo muito e que abordo com bastante frequência e há muito tempo a esta parte. Mas importa não confundir as coisas, porque ter segurança não implica que se tenha uma grande qualidade de construção, e vice versa. O primeiro problema, da segurança, precede o segundo, da qualidade de construção. A segurança visa impedir aquilo que sucedeu ao Benfica, ou seja ser exposto defensivamente, e a qualidade de construção tem como objectivo fazer a equipa progredir de forma útil para fases mais adiantadas do jogo ofensivo. E, aqui e por tudo isto, quero logicamente reforçar que o problema das perdas de bola do Benfica não tem como explicação fundamental uma eventual falta de qualidade técnica dos seus centrais, mas sim com o seu critério em posse. A qualidade técnica afectará, sim, o potencial qualitativo da construção, e aquilo que ela pode oferecer ao processo ofensivo, mas não necessariamente a segurança. Até porque para fazer um passe lateral de 10-15 metros, como aquele que deu origem ao primeiro golo no jogo, não é preciso uma qualidade técnica especialmente relevante. Para dar exemplos do futebol português, posso lembrar David Luiz, que era um jogador que oferecia grande potencial à construção, precisamente pela qualidade técnica que tem, mas que colocava em risco várias vezes a segurança na fase de construção, pelo critério que assumia. Outro exemplo idêntico, mas no Porto, Otamendi. Em sentido inverso, temos no Benfica o caso de Luisão, que é um jogador que não oferece especial mais valia à construção, mas que raramente coloca em causa a segurança da equipa, pelo bom critério que assume.
Ainda assim, e apesar do destaque que lhe dei, não atribuo todas as responsabilidades da derrota do Benfica à falta de critério na sua fase de construção. Outro ponto em que a equipa se revelou vulnerável foi na exposição das costas da sua linha defensiva. Aqui, mais do que a coordenação dos próprios defensores, destacaria a perda de presença pressionante sobre o portador da bola, que é uma condição umbilicalmente ligada à segurança da própria linha defensiva. Demérito para o meio campo do Benfica, que foi incapaz de se impor a esse nível, mas também muito mérito para o Zenit. Aqui, destacaria os duelos directos (o Zenit venceu a maioria, e isso foi um ponto de partida importante), a capacidade para sair de forma útil de zonas de pressão, e a preparação dos jogadores para realizarem diagonais de rotura nos tempos certos. Este último ponto, das diagonais de rotura, parece-me ainda pouco trabalhado no futebol português, e talvez também por isso tenhamos tanta dificuldade em formar jogadores com facilidade em explorar eficazmente as zonas de finalização. Finalmente, uma nota sobre Garay. No ano passado coloquei-o entre os principais jogadores do campeonato, com Jackson, Gaitan, Wiliam e Rodrigo, e penso mesmo que haverá poucos centrais com a sua capacidade no futebol actual. Com bola, e recuperando o tema do parágrafo anterior, combina qualidade técnica com critério, oferecendo potencial e segurança. Sem bola, tem uma notável leitura de jogo, o que lhe permite antecipar as jogadas, sendo forte tanto a controlar o espaço nas suas costas, como a dominar os duelos que trava com os avançados, na sua frente. Se tem sido difícil ao Benfica substituir Garay? Pudera!

Porto - BATE - Criticou-se a ausência de jogo interior, e a equipa vinha do seu resultado menos conseguido na temporada. O que fez Lopetegui? Tirou um médio, colocou um avançado, acentuou ainda mais a profundidade vertical e a necessidade de recorrer à largura para progredir. Resultado? Uma goleada que recupera toda e qualquer mazela no estado anímico de equipa e adeptos, fazendo ressurgir mais do que nunca o optimismo em torno do sucesso desportivo na presente temporada.
Há algumas conclusões a retirar de tudo isto. A primeira é que Brahimi é um craque (já se sabia, é verdade, mas convém não esquecer que o Porto chega ao 4-0 com 3 golos de iniciativas individuais suas)! A segunda, que mesmo que se reconheça alguma previsibilidade no seu jogo, o Porto tem condições para ter sucesso dentro da sua proposta de jogo, nomeadamente porque tem jogadores capazes de oferecer qualidade ao jogo exterior e tem depois um ponta de lança muito forte na resposta às acções de cruzamento. A terceira - e fico-me por aqui - é que Lopetegui dificilmente trabalhará alternativas à sua ideia de jogo, nomeadamente ao nível do jogo interior, e o mais provável é mesmo que "largura" continue, e seja até ao fim, a palavra dominante, relativamente ao Porto 14/15.
Quanto ao resto, não tenho muito a acrescentar aos números do próprio jogo: Uma grande vitória, a lembrar as grandes noites europeias que aquele estádio já viveu!

Maribor - Sporting - Mais um empate a 1 golo, que vem acentuar o sentimento de frustração em torno da época do Sporting. Apesar da semelhança dos desfechos, começo por traçar as diferenças entre este empate e aquele que o antecedeu, frente ao Belenenses, porque me parecem casos completamente diferentes. É verdade que desta vez a vitória esteve praticamente garantida, e que apenas não se confirmou devido a uma oferta desnecessária no último lance do jogo, no entanto, e por muito que a forma como as coisas aconteceram sugira o contrário, este é um resultado bem mais coerente com a história do jogo, do que aquilo que acontecera no passado sábado. Ou seja, é verdade que o Sporting teve mais domínio e presença territorial do que o Maribor, mas ao contrário do que aconteceu frente ao Belenenses onde foi ameaçado apenas por 2 vezes, a equipa permitiu que os eslovenos dividissem o jogo em termos de proximidade real com o golo. Na parte final, e de forma decisiva, por erros individuais dos centrais - e já lá vou - mas no resto do jogo por motivos que ultrapassam esse problema. A saber, o Maribor forçou sempre um jogo de grande presença junto da zona de finalização, e sempre que lhe era permitido verticalizar de forma rápida, o Sporting sentia problemas óbvios. Era, neste contexto, fundamental que o Sporting tivesse realizado um jogo mais conseguido do ponto de vista posicional. E, aqui, podemos até incluir os dois momentos do jogo. Em organização defensiva, porque era necessário que a linha média não se distanciasse muito dos centrais, sob pena de rapidamente ser criada superioridade numérica nessa zona fulcral. Em organização ofensiva, porque era preciso gerir com critério a posse de bola e ter uma preparação posicional adequada para responder à perda de bola, porque com 2 elementos adiantados, era muito fácil que o Sporting fosse colocado numa situação de igualdade numérica em situações de ataque rápido. Nem num caso, nem no outro o Sporting correspondeu a essa especificidade que o jogo lhe exigia, e por isso acabou por não ver o seu domínio ser traduzido numa grande diferença de proximidade com o golo. Não porque não tivesse criado boas ocasiões, que criou, mas porque acabou por também permitir que o adversário as criasse. E este será um cenário previsivelmente repetido frente a Schalke e Chelsea, com o óbvio acréscimo de risco para a equipa.
Explorando então o tema dos centrais, começo por dizer que, embora eu não acredite em tais coisas, o futebol de facto parece por vezes alinhado com fenómenos paranormais. Tanto se falou dos centrais, e eles acabaram mesmo por deitar por terra uma vitória praticamente garantida, os dois, e na última jogada do jogo. Se fosse ficção, pareceria irrealista! Enfim, é verdade que o Sporting tem limitações ao nível dos centrais - bastante mais pronunciadas em Sarr, na minha leitura, e como já expliquei - mas não me parece de todo que tais problemas sejam suficientes para hipotecar as possibilidades da equipa realizar uma boa temporada, ou que justifiquem a carga dramática que têm suscitado. Primeiro, porque os problemas defensivos do Sporting - e como expliquei acima - me parecem muito longe de estar circunscritos aos centrais. Depois, porque o Sporting apenas perdeu 1 dos seus titulares da última época, que foi muito conseguida ao nível deste sector específico, e não me parece que Rojo alguma vez tenha representado uma mais valia individual para que a sua saída represente, por si só, um drama. Posto tudo isto, não espantará se disser que é a Marco Silva que me parece caber grande parte das possibilidades de sucesso da equipa. O treinador terá de encontrar respostas aos problemas que nesta altura se lhe apresentam, de forma a potenciar as virtudes e atenuar os defeitos dos seus recursos. Tanto em termos colectivos, como a nível individual, porque há várias unidades - para além dos centrais! - em sub-rendimento neste inicio de época, e cujo desenvolvimento depende em grande medida das orientações tácticas que lhes forem dadas. É um teste importante para o treinador e para a sua carreira, e provavelmente o desfecho definir-se-á entre a sua capacidade de se abstrair dos inúmeros diagnósticos externos, e encontrar ele próprio as respostas a partir de dentro. Se o conseguir, possivelmente acabará rotulado de "teimoso", mas também terá mais hipóteses de se manter no patamar a que chegou...

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15.9.14

Notas da jornada (Benfica, Sporting e Porto)

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Setúbal - Benfica - Os números não são um equívoco e este foi, sem dúvida, o jogo mais expressivo do Benfica em termos ofensivos. Mérito próprio, em particular para a qualidade das suas soluções ofensivas, que oferecem mobilidade e um nível qualitativo que está muito para além do patamar de resistência ao alcance da generalidade dos opositores internos. Ainda assim, é impossível, não destacar os problemas revelados pelo Setúbal, que apesar dos 5 golos encaixados não se pode queixar da sorte, em face da exposição e dos riscos em que incorreu. A estratégia, claramente, passava por encurtar o campo de ataque encarnado, através do adiantamento da linha defensiva. O problema, porém, foi a total ausência de pressão sobre o portador da bola, tanto fora como dentro do bloco, o que redundou numa constante exposição dos espaços essenciais, sempre bem explorados pelo Benfica. Tenho escrito aqui sobre isto recentemente, e este é mais um exemplo da relevância que assume a presença pressionante que os defensores consigam exercer sobre os seus opositores. Sem isso, nenhuma estratégia ou ideia defensiva terá aplicabilidade prática...

Sporting - Belenenses - Há vários pontos de interesse a explorar no jogo do Sporting, e não me irei sequer debruçar sobre todos. Essencialmente, e apesar dos resultados sugerirem o contrário, parece-me que a versão actual do Sporting tem um potencial muito mais próximo dos rivais do que aquilo que acontecia no ano anterior. Como explicar então os resultados? A meu ver, caprichos da aleatoriedade de curto prazo, traduzidos numa eficácia ofensiva muito baixa, para o número de ocasiões conseguidas, e em claro contraste com aquilo que aconteceu em 13/14. Uma coisa é certa, porém: de acordo com o esperado, e com o que já havia escrito no lançamento da temporada, esta é uma equipa com muito maior propensão para o risco, que aumenta pela intenção de sair mais por dentro e não tanto por fora (por isso temos visto muito mais perdas de risco do que no ano anterior), e pelo posicionamento mais alto da linha defensiva (por isso, vemos mais bolas nas costas da defesa, também). Grande parte das hipóteses de sucesso do Sporting (e não estou aqui a referir-me ao título, que é um objectivo em qualquer cenário muito improvável), estão na capacidade que Marco Silva terá para ajustar o modelo às especificidades das suas soluções individuais, nomeadamente ajudando a atenuar defeitos e potenciar virtudes. Por exemplo, em ataque posicional, não faz sentido que a equipa saia quase sempre pelos centrais, ou que distancie tanto Adrien da primeira fase de construção. Da mesma forma, parece-me importante enquadrar melhor a mais valia que Nani traz para o jogo interior, de forma a que esse contributo se transforme num acréscimo de potencial ofensivo, e não numa mera mudança de estilo. Finalmente, sobre o golo sofrido, é a segunda vez que o Sporting é penalizado por não conseguir manter presença pressionante na zona da bola (corredores laterais), tendo vantagem numérica para o fazer. Claramente um aspecto a rever, tal como a noção defensiva de Esgaio, de resto (em princípio, estes problemas não são impeditivos da evolução do jogador na posição, desde que sejam devidamente corrigidos).

Guimarães - Porto - Pela primeira vez esta temporada, o Porto foi forçado a sair da sua zona de conforto, e o Guimarães reclama para si os méritos desse feito. Como explicou Rui Vitória no final do jogo, o foco da sua estratégia foi impedir a circulação baixa do Porto, com a sua característica ligação de corredores. E a verdade é que conseguiu mesmo fazê-lo com boa eficácia! Um aviso importante para o Porto, que deve perceber que o conforto que vem sentindo na imposição do seu jogo, pode rapidamente transformar-se num elevado risco, especialmente frente a adversários mais fortes e capazes de explorar o momento de transição. Ainda assim, continua-me a não parecer fácil que isso aconteça. O Porto esteve, apesar de tudo isto, incomparavelmente mais perto de sair vencedor do que o seu adversário, o que é uma consequência natural do desequilíbrio de potencial individual. A este respeito, entre reforços de Barcelona, Atlético e Real Madrid, é um jogador proveniente do Granada que se afigura como a principal mais valia para esta temporada. Não deixa de ser curioso. Noutro plano, é interessante lembrar o recente jogo de Paços de Ferreira, e comparar as estratégias de Fonseca e Vitória. No caso do primeiro, o foco foi defender espaços mais baixos, oferecendo um domínio territorial enorme ao Porto, mas dificultando mais a penetração no último terço. Desta vez, o domínio territorial não foi tão fácil de exercer, mas os espaços eram muito maiores sempre que a equipa chegava de forma útil às costas da linha média. Mais risco na opção de Vitória, que arriscava uma goleada caso não tivesse a melhor eficácia na sua presença pressionante, mas também mais possibilidades de sair do jogo com os 3 pontos, porque potenciou muito mais o erro do que aquilo que Fonseca tentou fazer. Seja como for, é sempre a eficácia a ditar as hipóteses de sucesso de qualquer das duas abordagens, e frente a uma equipa como o Porto é sempre complicado ser eficaz, seja qual for a estratégia escolhida.

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11.9.14

Destaques individuais do Brasileirão

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Talvez não seja o campeonato mais seguido pelos leitores do blogue, mas nem que seja a título de curiosidade deixo a listagem dos jogadores que mais se destacaram na primeira metade do Brasileirão 2014. Nota para salientar que esta é uma análise centrada nas ocasiões de golo de cada jogo, e que não tem ainda em conta a jornada que está a decorrer nesta semana.




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9.9.14

Portugal - Albânia: Análise e opinião

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Fatalidade ou acidente? - Bem sei que depois do jogo, e perante um resultado tão adverso e surpreendente como este foi, a tendência inevitável é para que se veja o desfecho como fatalista e totalmente lógico, de forma a realçar assim os pecados próprios da equipa. Pessoalmente, concordo que esta é uma altura para reflexões, e que este resultado vem contribuir muito para isso, mas não consigo ver nenhum fatalismo num jogo em que uma equipa exerce tanto domínio e acaba por ser derrotada na única ocasião clara que o adversário constrói. Ou seja, na minha perspectiva há que separar as águas: a Selecção vive uma realidade preocupante e deixou a desejar em vários pontos neste jogo, sim, mas isso não impede que esta derrota tenha sido sobretudo definida por um desnível de eficácia muito assinalável entre as equipas. E foi isso que, a meu ver, aconteceu.

Renovação ou meritocracia? - Do falhanço desportivo no Mundial resultou a conclusão sobre a necessidade de renovar a Selecção. A renovação, em si mesma, pode até ser feita por decreto, riscando os mais velhos e promovendo os mais novos, e fazendo da idade o argumento principal das convocatórias. A questão prende-se, obviamente, com a qualidade. Na minha óptica, há vários problemas com esta obsessão recente com a "renovação da Selecção". O primeiro tem a ver com a qualidade dos candidatos das gerações mais jovens. Basta ver quantos jovens jogadores portugueses se afirmaram desportivamente nos 2 clubes que mais sucesso têm tido em Portugal nas últimas 5 temporadas. O segundo problema tem a ver com a lógica de centrar na Selecção a responsabilidade de lançar e promover jovens jogadores. É que a Selecção faz, anualmente, um número de jogos sensivelmente equivalente a uma pré época de um clube profissional, logo não me parece exactamente o contexto ideal para dar competição e fazer evoluir os jogadores. Resumindo, tenho alguma dificuldade em vislumbrar algum sentido na ideia de "renovação da Selecção", porque a Selecção tem, por natureza, uma vocação reactiva em função daquilo que acontece nos clubes, cabendo-lhe essencialmente fazer a melhor equipa possível com os jogadores disponíveis. Ou seja, para mim a palavra chave no que respeita à Selecção principal continua a ser "meritocracia" e não "renovação". Se há um problema geracional com a qualidade dos jogadores portugueses, ele deve ser tratado a montante e deve incluir obrigatoriamente as selecções jovens e os principais clubes portugueses. Como isso basicamente não aconteceu, receio que o mais provável é que tenhamos mesmo uma quebra qualitativa importante no final desta geração, e que não haja nenhuma medida de curto prazo que possa evitar, no essencial, essa fatalidade. 

Com ou sem Paulo Bento? - Como sempre no futebol, o treinador é agora o foco da discussão. Na minha leitura, e como penso já ter escrito, a federação e o próprio Paulo Bento deviam ter anunciado o fim da sua relação contratual antes do Mundial do Brasil. Não por questões de competência, mas simplesmente porque a cultura do futebol português não favorece ciclos de liderança técnica muito prolongados, e uma gestão sábia nunca deve ignorar os caprichos culturais do meio onde se insere. Em concreto, esta parece-me uma questão pouco relevante, porque entendo haver alternativas de qualidade no mercado, e porque dificilmente vejo que qualquer dessas alternativas venha a representar uma grande vantagem qualitativa, tanto mais que ao nível do trabalho táctico as selecções têm as limitações que se conhecem. Aliás, a meu ver o grande problema da actual estrutura técnica nacional tem a ver com a observação de jogadores, um tema esse sim central para a Selecção, dada a crescente escassez de soluções de qualidade e a abrangência também cada vez maior do raio geográfico de observação (ou seja, para observar o mesmo número de jogadores, é preciso ver cada vez mais jogos). Basicamente, a substituição de Paulo Bento parecer-me-á potencialmente útil se 1) a nova equipa técnica viesse resolver esse problema da observação de jogadores, nomeadamente introduzindo metodologias diferentes, ou 2) se o seleccionador for visto como um problema pelos principais jogadores da Selecção, ou seja se estiver afectada a relação de confiança com a liderança técnica. Caso contrário, tenho as maiores dúvidas de que essa seja uma medida que venha a resolver, no essencial, o que quer que seja.

O reavivar do estigma dos últimos 20 metros! - No que ao jogo, propriamente dito, diz respeito, a principal crítica em relação à exibição portuguesa tem a ver com a dificuldade em materializar o ascendente territorial em ocasiões claras de golo. Ou seja, é verdade que aquilo que criou deveria ser suficiente para, com um nível de eficácia mais normal, ter conseguido pelo menos 1 golo, mas contextualizando a fragilidade do adversário e a necessidade que a equipa teve em chegar ao golo, também me parece óbvio que a exibição deixou muito a desejar e que Portugal deveria ter sido capaz de se aproximar muito mais do golo. Aqui, em primeiro lugar, há que voltar a sublinhar a assustadora escassez de soluções que nesta altura existem para a posição de ponta de lança, o que reflecte um problema muito mais estrutural - e por isso preocupante - do que circunstancial. A minha crítica, relativamente ao plano estratégico, tem a ver com a forma como Paulo Bento negligenciou a pouca apetência da equipa para ser mais incisiva no último terço, especialmente num jogo em que esse seria previsivelmente um ponto fundamental para o sucesso colectivo. Em primeiro lugar, há que notar a baixíssima propensão da zona criativa da equipa inicial (Vieirinha, Nani, Moutinho e André Gomes) para protagonizar movimentos de abordagem à zona de finalização, sendo que o próprio avançado (Eder) tem na mobilidade a sua principal virtude. A meu ver, justificar-se-ia a introdução de um sistema de 2 avançados móveis, mais fácil de adaptar outras soluções a essa função, por um lado, e estruturalmente forçando a que houvesse maior presença em zonas de finalização, o que claramente é muito pouco garantido com as características dos médios e extremos actuais, num sistema de apenas 1 avançado. Aliás, esse parece-me ser o motivo por trás da troca de Vieirinha por Ivan Cavaleiro, sendo que aqui entramos noutro problema estrutural e que tem a ver com a qualidade das novas soluções, que me parece ser consideravelmente mais baixa do que aconteceu em gerações anteriores. Mas, se Paulo Bento me pareceu sensível a essa carência da equipa nessa substituição, parece-me ter negligenciado a outra via pela qual era mais provável que Portugal conseguisse chegar ao golo: as bolas paradas. Ao tirar William e depois Ricardo Costa, o seleccionador abdicou de 2 dos seus habituais elementos em zona de finalização em situações de bola parada ofensiva, o que numa fase em que se perspectivava o acumular de cantos e pontapés livre, talvez possa não ter sido uma boa ideia, tanto mais que ao introduzir Veloso, por exemplo, a equipa pode ter ganho qualidade no passe e na construção, mas isso acabou por acrescentar pouco a um jogo onde o domínio territorial foi sempre assinalável e a lacuna esteve antes e constantemente nas derradeiras fases do processo ofensivo da equipa. Não estou com isto a defender que se acrescentasse altura à equipa, mas parece-me importante - especialmente no caso português, pelas lacunas que já referi - que se mantenham alguns jogadores capazes de ser mais-valias no domínio específico das bolas paradas, e com as substituições Portugal passou a ser uma equipa igualmente com poucas aspirações a esse nível. Resumindo, mais do que nunca Portugal reavivou neste jogo o seu velho estigma da pouca capacidade de resposta nos últimos 20 metros, algo que deriva sobretudo da natureza específica das soluções existentes, mas que o plano e gestão de jogo também não terão ajudado a atenuar.

Notas individuais
João Pereira - Um pouco à semelhança da equipa, conseguiu um bom envolvimento até à fase final das suas aparições, onde vai repetindo a sua pouca aptidão para ser preciso no cruzamento. É um desperdício, de facto. Pareceu perder clarividência com o aproximar do final do jogo.

Coentrão - Arriscou no lance do golo, ao ir pressionar em zonas muito adiantadas, e ficou definitivamente fora da jogada, nem sequer tentando recuperar a sua posição. Conseguiu algumas jogadas de envolvimento, especialmente na segunda parte, como um excelente cruzamento, que Nani desperdiçou.

Ricardo Costa - Esteve bastante activo e com boa presença em posse. Já no capítulo defensivo ficou aquém do esperado, mesmo num jogo de baixa exigência. Em particular, parece-me o jogador com acção mais censurável no lance do golo. É certo que foi forçado a sair da sua zona, mas ao intervir na dobra ao lateral, não pode ser batido da forma como aconteceu, entrando à queima, sendo batido e permitindo um cruzamento para uma zona que, sem ele, estaria forçosamente desguarnecida. No mínimo, deveria ter parado o lance em falta, ou aguentado a posição, dando tempo a que a restante organização defensiva ficasse restabelecida.

Pepe - Fica na fotografia do lance do golo, mas como expliquei acima não me parece muito correcto responsabilizá-lo por não ter sido capaz de controlar uma zona tão ampla. Poderia ter controlado melhor o avançado albanês, valorizando mais a referência individual, mas também corria o risco de ser batido em antecipação, se o fizesse. De resto, voltou a ter níveis excepcionais no controlo da sua zona de intervenção, vencendo vários duelos e ajudando a equipa a manter e prolongar as suas fases ofensivas. Com bola, esteve menos bem, nem sempre com o melhor critério na gestão da posse.

William - Estava a cumprir no seu papel de pivot, embora sem ser especialmente entusiasmante do ponto de vista da resposta defensiva. A sua substituição compreende-se pela intenção de passar a modelo de dois médios mais móveis, mas tenho dúvidas de que tenha sido uma boa solução. Quando se fala de renovação, William é um bom exemplo de como as renovações não precisam de ser reclamadas quando existe qualidade. Pena é que seja exemplo quase único...

André Gomes - Um jogo em que manteve uma boa presença em posse, num jogo que também não era especialmente exigente a esse nível, mas onde não acrescentou praticamente nada em termos de presença criativa. De sublinhar, como já o fiz acima, a redundância de perfil relativamente a Moutinho, nomeadamente na pouca apetência para estender os seus movimentos até às zonas de finalização.

Moutinho - Começou por ser um jogador especialmente importante no pressing, protagonizando algumas jogadas de elevado potencial a partir de recuperações altas, e que poderiam ter ajudado Portugal a contornar os seus problemas em ataque posicional. Nessa fase, porém, acabou por não ter a influência e eficácia habituais na sua presença em posse, acabando por recuperar a esse nível na segunda parte do jogo, nomeadamente após ao baixar no terreno, com a saída de William.

Nani - Não fez um jogo deslumbrante, mas comparado com as restantes individualidades da equipa, foi sem dúvida o jogador que mais conseguiu aproximar a equipa do golo, tendo sido protagonista mais como finalizador do que como criador. Pena o desacerto na hora de concluir...

Vieirinha - Um jogo pouco conseguido, fundamentalmente por nunca ter conseguido aproximar a equipa do golo, actuando sempre muito perto da linha e distante da baliza. Isto, em bola corrida, porque esteve próximo de marcar num lance de bola parada.

Eder - Repetidamente, escrevo que pior do que falhar muitos golos é não ser capaz de protagonizar nenhuma ocasião clara de golo. E, com isto, resumo o quão negativa me parece a exibição de Eder, num jogo em que tinha todas as condições para ser protagonista.

Ivan Cavaleiro - Entrou com o objectivo de dar maior profundidade e verticalidade ao ataque, e se de facto essas são características mais fortes no seu perfil, relativamente a Vieirinha, a verdade é que na prática não acrescentou nada em nenhum aspecto. Como, aliás, confirmam os seus modestíssimos números, em 45 minutos de jogo.

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4.9.14

Benfica - Sporting (III): análise de jogadas

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Para finalizar a análise ao derbi, deixo a minha perspectiva sobre algumas das principais jogadas do jogo. Sem grandes comentários adicionais, gostaria apenas de sublinhar a importância da reacção à perda na generalidade dos desequilíbrios provocados em lances de bola corrida. Seja pela incapacidade de neutralizar as transições, ou em sentido contrário, pela capacidade de não deixar o adversário sair em transição e tirando partido de uma nova acção ofensiva...

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3.9.14

Benfica - Sporting (II): performance individual

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Benfica
Artur - O lance do golo dispensa comentários, assim como outras situações em que a sua falta de confiança ficou perfeitamente notória. Ainda assim, penso que é justo salientar que o risco que o guarda-redes assume no jogo de pés tem a ver com a ambição da equipa em sair de forma apoiada a partir de trás e de fazer uso do seu guarda-redes esse objectivo. Ou seja, a ineficácia é individual, indiscutivelmente, mas o risco deriva de uma orientação colectiva. Também é um justo notar que, apesar do erro decisivo, teve duas intervenções em lances determinantes.

Maxi - Deu sequência ao bom inicio de época com mais uma exibição muito positiva, combinando uma presença assídua, intensa e eficaz no jogo, com uma assistência decisiva. Nota para a elevada % de acerto em posse, uma das melhores entre todos os protagonistas do jogo.

Eliseu - Foi o jogador com mais intervenções defensivas no jogo, o que acaba por traduzir a sua boa presença defensiva no jogo, precisamente o ponto onde lhe eram reconhecidas mais dificuldades no desempenho da função. Destaque, aqui, não só para a boa presença nos duelos com os extremos do Sporting, mas também para a intensidade e bom posicionamento no momento de transição defensiva. Já agora, é para mim um mistério o seu percurso na Selecção...

Luisão - O jogo acabou por não lhe exigir muito em termos de intervenção defensiva, e acabou por fazer uma exibição bastante modesta em termos de presença defensiva. Com bola, esteve regular.

Jardel - Ligeiramente mais interventivo do que Luisão e até com maior acerto em posse do que o capitão do Benfica. No entanto, uma exibição também com mais problemas, acumulando alguns erros e denotando dificuldades pontuais. Em destaque, a este nível, os duelos com Slimani (muito agressivo) e um equívoco comprometedor com bola, já na fase terminal da partida.

André Almeida - Um jogo regular, dentro daquilo que lhe é pedido pela especificidade da função. No entanto, acabou por não ser capaz de oferecer à equipa uma maior amplitude na circulação ao longo da primeira linha de construção, o que se reflecte numa presença em posse relativamente modesta para a posição que interpretou. Um aspecto que, claramente, deverá tentar melhorar...

Enzo Perez - Basta olhar para o seu número de passes e comparar com todos os outros protagonistas do jogo, para perceber a importância e qualidade que Enzo empresta à equipa em termos de presença em posse. Ainda assim, acabou por não ser um protagonista nos lances de maior impacto no jogo, e também do ponto de vista defensivo não fez um jogo especialmente bem conseguido.

Gaitan - Marcou o golo e esteve ainda na maioria dos principais desequilíbrios da equipa, crescendo a esse nível na segunda parte. Nos outros capítulos do jogo, esteve apenas regular, mas tudo considerado, é bem capaz de justificar o maior destaque individual do jogo.

Salvio - Começou por ter uma acção determinante no lance do golo, onde provavelmente será o maior responsável pelo desequilíbrio criado. Depois, manteve-se sempre bastante encostado à linha, onde protagonizou um duelo muito dividido com Jefferson, o que retirou eficácia às suas aparições com bola. No entanto, a amplitude da sua utilidade só pode ser verdadeiramente entendida se se considerar a frequência e facilidade com que aparece em zonas de finalização, tendo sido ele o denominador comum das jogadas de maior potencial criadas em situações de bola corrida. É verdade que não foi o jogo mais feliz em termos de eficácia nesse tipo de situações, mas parece-me uma benção que o Benfica tenha nesta altura um jogador com as características de Salvio, num contexto em que os seus dois avançados aparecem a finalizar com muito pouca frequência.

Talisca - Não fez um mau jogo, mas também não escondeu as dificuldades que ainda tem para ser uma mais valia num papel bastante exigente. Apareceu várias vezes sobre a esquerda, talvez procurando outros espaços e outros ângulos de recepção para intervir no jogo, mas não me parece nada positivo que se distancie muito da zona de finalização, onde até agora não deu mostras de se sentir muito à vontade. Destacou-se sobretudo nos lances de bola parada.

Lima - Fez um jogo com bastantes pontos positivos, sem dúvida. A nota de maior preocupação, porém, não tem tanto a ver com este jogo, mas com a ideia de que tendo em Talisca um jogador com menor propensão para aparecer em zonas de finalização, a equipa passará a precisar de um contributo mais assíduo de Lima nessa função específica. E a verdade é que, para já, Lima não tem conseguido esse patamar de protagonismo.


Sporting
Rui Patrício - Como escrevi, foi na minha análise um dos grandes responsáveis pela boa época que o Sporting realizou no ano anterior. Nesta temporada, voltou ao mesmo nível, e tem tido para já um contributo muito positivo, relativamente à sua eficácia em lances decisivos. Como nota menos positiva, ainda que não tanto por responsabilidades próprias, o sua presença nas reposições de jogo. Na fase de maior dificuldade do Sporting no jogo, a equipa passou a recorrer ao seu guarda-redes para tentar evitar o pressing do Benfica, sendo que Patrício procurou estrategicamente colocar a bola nos laterais, abdicando de reposições mais profundas. Não conseguiu grande eficácia, e foi a partir desse tipo de situação que nasceram algumas das situações de maior potencial do Benfica, nessa fase do jogo.

Esgaio - Se considerarmos o contexto, a sua exibição tem de ser considerada positiva. No entanto, teve algumas dificuldades em vários aspectos. A saber, na segunda parte perdeu alguns duelos que estavam ao seu alcance, perante Gaitan; teve algumas dificuldades em definir posicionamentos interiores, em situações de transição, e ao nível do cruzamento também não emprestou a mais valia técnica que dele se podia esperar, tendo em conta a posição de onde é originário.

Jefferson -Um dos jogadores mais interventivos no jogo, travando um duelo muito intenso com Salvio. Nota para as suas dificuldades de desempenho técnico neste contexto, sendo o jogador da equipa com menor % de acerto em posse, o que para um lateral não é nada positivo.

Maurício - As suas grandes dificuldades no jogo passaram pela presença em posse, onde foi várias vezes forçado a jogar de forma mais directa e menos eficaz, acabando por acumular também uma perda que poderia ter custado mais caro à equipa. Sem bola, porém, voltou a fazer um jogo muito positivo, destacando-se a sua capacidade para travar duelos directos, nomeadamente anulando várias vezes o ponto de referência para o primeiro passe de transição do Benfica, o que permitiu à equipa prolongar o seu tempo de ataque. Aliás, foi o jogador da partida com mais intercepções no momento de transição defensiva, o que reflecte bem essa virtude do seu jogo. Parece-me que ao contrário dos seus defeitos, os pontos fortes de Maurício não são bem percebidos pela generalidade dos adeptos, mas se se entende o potencial que pode ter para um avançado ser capaz de receber e enquadrar, também ficará fácil perceber o quão importante é ter um defesa que seja capaz de evitar que os seus adversários façam precisamente isso...

Sarr - Com bola foi mais eficaz do que Maurício, fundamentalmente porque não foi forçado a jogar tantas vezes de forma mais longa. No entanto, também não conseguiu esconder as suas limitações no capítulo técnico, acrescentando pouco ou nada à qualidade de construção. Sem bola, por outro lado, não conseguiu o mesmo nível de intervenção do seu parceiro de sector, o que não surpreende uma vez que não tem o mesmo à vontade de Maurício na leitura de lances e no confronto directo com os opositores. Na jogada do golo, a gestão do seu posicionamento também me parece questionável. Ainda assim, há um ponto que quero ressalvar em relação às minhas criticas relativamente a Sarr. A minha perspectiva tem sempre em vista o rendimento presente, e com isso poderei muitas vezes não considerar a margem de evolução do jogador, que será da minha parte uma falha do ponto de vista da análise. No caso de Sarr, as suas condições físicas são, como é evidente, incomuns, e pode haver da parte de Marco Silva uma aposta de médio prazo no desenvolvimento do jogador, que do ponto de vista técnico-táctico, tanto com bola como sem ela, me parece não estar acima do nível médio do que se pode encontrar em qualquer equipa da primeira liga portuguesa. E, se é certo que do ponto de vista técnico dificilmente será um grande jogador, o mesmo não se pode dizer da sua margem de evolução táctica, que é o que indiscutivelmente mais importa na sua posição. Tudo dependerá da sua própria capacidade de aprendizagem e do acompanhamento que tiver, e o tempo dirá se esta será, ou não, uma aposta ganha por parte do Sporting (sendo certo que, do mesmo modo, ela podia ser igualmente feita com outros jogadores dos quadros do clube).

William - Relativamente a Adrien, tentou auxiliar mais a primeira linha de construção, e não se pode dizer que tenha sido mal sucedido nesse papel, em termos de desempenho técnico. No entanto, a frequência e qualidade desse envolvimento não foi aquela que a equipa necessitava para as características técnicas dos seus centrais, sendo esta uma critica mais colectiva do que individual. Claramente, e tal como já escrevi, parece-me menos vocacionado para actuar numa função mais simétrica (com bola) relativamente a Adrien, ficando a perder relativamente ao enquadramento que as suas características tinham com o modelo de Jardim. Sem bola, manteve-se mais posicional do que Adrien, e fez um jogo apenas regular nesse plano.

Adrien - Ontem escrevia relativamente à pouca influência dos médios do Sporting na presença em posse, e essa critica pode ser sustentada na baixíssima presença em posse de Adrien neste jogo. Sem bola, esteve sempre muito próximo de Enzo, notando-se a sua preocupação específica com a influência do argentino do Benfica. Com bola, porém, não esteve minimamente próximo de dar ao seu adversário o mesmo tipo de dor de cabeça, o que certamente lhe poderia ter provocado um desgaste muito maior. Mais uma vez, e tal como noutras exibições em jogos deste calibre, Adrien merece mais destaque pelas acções defensivas, do que propriamente pela sua presença em posse.

Nani - Não foi ainda, e nestes 2 jogos, o desequilibrador que dele se espera, embora estivesse perto de oferecer a Slimani o golo da vitória. Também não teve a intensidade e eficácia defensiva que é habitual nele nos jogos da Selecção. Espera-se, portanto, que melhore nestes pontos, sendo que para já traduziu apenas a sua mais valia pela capacidade de ter bola, sendo o jogador da equipa que mais passes completou, o que para um extremo não deixa de ser assinalável.

Carrillo - Voltou a repetir uma exibição importante neste inicio de época, estando bastante activo na criação de desequilíbrios. É, a este nível, o jogador com mais rendimento da equipa nesta abertura de campeonato, reavivando a esperança de que possa ser este o ano em que as suas exibições venham atingir a regularidade que à tanto tempo dele se espera.

André Martins - Não tem, neste modelo, uma posição semelhante à de Adrien, mas a minha critica não pode ser muito diferente. Pouca presença em posse, e pouca capacidade desequilíbrio. Neste último aspecto, de resto, prometeu bastante na pré-época mas ainda não correspondeu na época oficial, o que se torna mais problemático se considerarmos que, com Marco Silva, tem uma presença bem mais próxima das zonas de finalização, e por isso com mais responsabilidades na capacidade de desequilíbrio. Continua-me a parecer um jogador mais vocacionado para fases mais precoces do jogo...

Slimani - Se já havia a ideia de que com ele o Sporting ganharia outra agressividade e presença na zona de finalização, o derbi apenas serviu para reforçar essa convicção. Marcou um golo, mas com outra inspiração, e com as ocasiões que teve, poderia até ter feito uma exibição histórica no derbi. E é por aqui que, na minha perspectiva, está a diferença que nesta altura pode marcar em relação a Montero. Não tanto porque será mais eficaz na finalização, mas porque poderá fazer muito mais vezes as movimentações que a equipa precisa, nos sítios onde ela precisa. Veremos, mas se confirmar aquilo que mostrou neste jogo e nas aparições que já havia tido na época anterior, Slimani facilmente se tornará num nome determinante para o sucesso da equipa.

Capel -  Marco Silva voltou a refrescar os seus extremos por volta da hora de jogo, sem que houvesse propriamente justificação para tal. Num jogo em que se questiona tanto a falta de substituições por parte de Jesus, o exemplo da entrada de Capel é bem esclarecedor de como uma substituição, por si só, está muito longe de garantir qualquer melhoria ao rendimento da equipa...

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2.9.14

Benfica - Sporting (I): performance colectiva

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Sendo objectivo, dos 3 clássicos que Benfica e Sporting haviam disputado na última temporada, apenas 1 não foi, no essencial, equilibrado. Ainda assim, e correndo o risco de ser impreciso nesta perspectiva de análise, não vou resistir à tentação de centrar o termo de comparação com o último desses jogos, que terminou com a confortável vitória do Benfica, por 2-0. Deste ponto de vista, será um sinal claramente mais positivo para o Sporting que, para além do resultado, a equipa também tenha sido capaz de se equivaler ao seu rival na generalidade dos restantes indicadores do jogo. Isto, claro, atendendo aos objectivos de ambas as equipas para 14/15, com o Benfica a desejar manter a margem qualitativa para os rivais, e o Sporting ambicionando precisamente o encurtamento dessa distância. A pergunta fundamental, seguindo esta perspectiva de análise comparativa é, obviamente, quais os motivos para o restabelecimento deste equilíbrio entre as duas equipas, tão distante do cenário que tivemos em fevereiro último?

Trivialmente, surgem-me 3 hipóteses de resposta: 1) o retrocesso qualitativo do Benfica; 2) a melhoria qualitativa do Sporting; e, claro, 3) a própria circunstância do jogo. Em meu entender, o mais provável é que a verdade acabe por combinar um pouco dos 3 factores, sendo o terceiro particularmente relevante numa base de análise tão curta como são 90 minutos de futebol, mas é claramente nos primeiros dois factores que reside a maior quota parte de interesse. Assim, dos dois diria que dou bastante mais crédito à hipótese de um Benfica hoje menos capaz, do que propriamente à tese de um Sporting substancialmente mais forte. Sem qualquer surpresa, de resto, já que duvido que haja muita gente a ter uma leitura diferente...

Benfica
Na verdade, e tendo em conta o que havia escrito na semana anterior, já esperava um Benfica bem menos autoritário do que aquele que recebera o seu rival há pouco mais de meio ano. Na exibição do Benfica, há 3 pontos que claramente destacaria. O primeiro, claro, é Artur, que teve um peso decisivo no jogo, pelo erro que cometeu no golo do empate. Se há época que serve para enfatizar a importância que pode ter um guarda-redes nas aspirações de uma equipa, é precisamente a do Benfica em 13/14. Não sabemos ainda o que oferecerá Júlio César, mas sabiamos o risco que representava ter Artur num jogo destes. E Jesus também sabia! O segundo ponto foi aquele que abordei na tal breve antevisão que fiz, e tem a ver com a fase de construção do Benfica. Nomeadamente, perdendo Garay na primeira linha, o Benfica passa naturalmente a sentir mais dificuldades para sair de forma útil a partir de trás, e por aqui passa grande parte da explicação da equipa não ter conseguido impor-se pela posse e presença territorial, como sucedeu no último derbi. Neste Benfica, e para já, a importância de Enzo Perez não fica apenas enfatizada, mas acaba por se tornar também num factor mais óbvio e menos complicado de anular por parte dos adversários, porque o Benfica tem menos vias por onde sair. Finalmente, os avançados, e a ausência de Rodrigo, cuja importância venho sublinhando há muito. A saída do espanhol tem como implicação mais óbvia a diminuição de capacidade de desequilíbrio no último terço, mas estende-se também até ao ponto anterior, e que tem a ver com a ligação de jogo da equipa, já que Rodrigo era uma presença muito mais solícita e confortável no espaço entrelinhas do que Talisca, o que ajudava a equipa a progredir para zonas mais adiantadas do terreno. Hoje, e por este motivo, a equipa parece-me depender mais das aparições interiores de Gaitan, ou da capacidade de envolvimento de Lima. Com tudo isto, o Benfica não parece ter nesta altura o mesmo potencial que apresentava na segunda metade da época passada, não sendo difícil perspectivar algumas dificuldades no ciclo que se iniciará após a primeira paragem no campeonato. Aqui, as oportunidades são a mais valia que se espera de Julio César, e a capacidade de Jesus para fazer evoluir a equipa ao longo da temporada, como quase sempre aconteceu. As ameaças, por outro lado, são a maior dependência qualitativa de algumas unidades nucleares, as dificuldades clássicas da equipa em ciclos competitivos que combinam campeonato e Champions e, já agora, a hipótese dos rivais (em particular, o Porto) oferecerem pouca margem de erro na disputa interna.

Sporting
Para o Sporting, e como escrevi, para além do bom resultado que é em teoria representa um empate no terreno de um rival, fica também a ideia de que a equipa foi capaz de dividir o jogo, o que nas últimas temporadas acontecera poucas vezes, tanto nas deslocações à Luz como ao Dragão. Um bom indício, portanto! Entre os pontos positivos e negativos, na exibição da equipa, destacaria a sua capacidade de desequilíbrio, por um lado, mas também alguma vulnerabilidade, por outro. Em concreto, é preciso não ignorar a ajuda decisiva que ofereceu a intranquilidade de Artur, mas do derbi sai também reforçada a ideia de que com Carrillo, Nani e Slimani, a equipa poderá vir a ter outra sua capacidade de desequilíbrio no último terço de campo. Lá atrás, e em sentido oposto, o destaque vai para a série de sobressaltos sentidos na segunda parte, e em especial entre os minutos 60 e 65. Aqui, importa perceber o contexto desses desequilíbrios, e que quase todos foram conseguidos em situações de transição, tendo como ponto de partida perdas de bola ou dificuldades na construção. Ou seja, mais do que por problemas de resposta defensiva, a permeabilidade defensiva do Sporting no jogo derivou da sua própria incapacidade para ter bola com mais qualidade e segurança. E, aqui, parto para nova divisão, entre aspectos positivos e negativos na exibição do leão. Pela positiva, o encurtamento de espaços entre sectores, e o pressing da equipa, o que também contribuiu para anular o tal domínio que o Benfica tivera na versão 13/14 do derbi da Luz. Pela negativa, a própria dificuldade de construção e presença em posse do Sporting, acabando por não conseguir corrigir colectivamente a fragilidade específica dos seus centrais para a saída de bola e, num segundo momento, canalizando mesmo essas responsabilidades para as reposições de Rui Patrício, de onde o Benfica também conseguiu partir para algumas situações de ataque rápido de elevado potencial. Este foi, também, um aspecto que já abordara na antevisão, e a verdade é que a resposta dos médios do Sporting acabou por ser bastante fraca (para o nível que a equipa se propõe, entenda-se), com pouco auxílio à primeira linha de construção, ou capacidade de envolvimento num segundo momento de construção. Esta é uma leitura que é sustentada de forma bastante evidente pela estatística individual do jogo (que publicarei amanhã), e que volta a colocar algumas dúvidas sobre a capacidade de imposição com bola dos médios do Sporting, que já nos clássicos da época passada haviam sentido bastantes dificuldades nesse ponto específico. O meio campo é quase sempre tido como o ponto forte da equipa, mas eu volto a repetir algumas reticências sobre a resposta individual de alguns dos protagonistas, sobretudo quando comparamos com o que se vai vendo nos rivais. Mas, sobre isso, reservo mais comentários para a análise individual...

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27.8.14

Porto, posse de bola e o derbi

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Porto, e um apuramento tão desejado como esperado - Não há muito a dizer sobre o triunfo do Porto. A qualificação já era esperada, e mesmo a vitória afigurava-se como o cenário mais provável para o segundo jogo. Desta vez, o Lille teve outro arrojo na sua proposta de jogo, tentou condicionar mais a circulação baixa e, com bola, sair de forma mais apoiada. Em desvantagem na eliminatória, os franceses simplesmente não podiam perspectivar quaisquer hipóteses de apuramento se voltassem a passar tanto tempo a ver jogar, como aconteceu há 1 semana. Ainda assim, o futebol do Porto voltou a ser mais do que suficiente para controlar por completo o seu adversário, e essa é a nota de maior realce no cômputo geral dos 180 minutos que as equipas disputaram. Este era um apuramento muito importante para a estratégia do clube, e se o seu paradeiro final é ainda incerto, podemos já ter a certeza que o destino do Porto de Lopetegui não ficará condicionado por uma falsa partida.

Porto e os paradoxos (aparentes!) da posse de bola - Ainda relativamente ao arranque de temporada do Porto, há dois pontos óbvios a destacar na prestação da equipa. O primeiro tem a ver com o estilo, que exacerba fortemente a sua presença em posse. O segundo, de constatação mais objectiva, tem a ver com a segurança defensiva da equipa nestes primeiros 360 minutos de futebol, estando esta a impressionar bem mais nesse plano do que propriamente na criação de desequilíbrios junto das balizas contrárias. Há aqui um primeiro paradoxo, que no entanto é apenas aparente porque resulta do equívoco de se assumir que a posse é um recurso que serve apenas para potenciar ofensivamente as equipas. A posse - à semelhança do pressing, por exemplo - é um meio que tanto pode potenciar os objectivos defensivos como ofensivos das equipas, dependendo do desempenho que estas apresentem. No caso, o exacerbar da posse por parte do Porto tem sobretudo servido para reduzir tempos de ataque adversários, muito mais do que para criar ocasiões de golo para a própria equipa. Numa segunda linha de raciocínio, há outro paradoxo aparente que pode surgir, e que tem a ver com a ideia de que, se o exacerbar da posse limita as ocasiões do adversário e não potencia as próprias, então o estilo implementado por Lopetegui reduz o risco de exposição da equipa. Na minha leitura, é precisamente o contrário, porque uma ideia de jogo que se propõe, com bola, circular tanto em zonas tão baixas e, sem bola, pressionar tanto em zonas tão altas, terá sempre de ser considerada de elevado risco. A questão, aqui, tem a ver com a eficácia da equipa nas diferentes vertentes do seu jogo, que tem sido muito mais competente a circular e pressionar do que propriamente em potenciar situações de desequilíbrio no último terço contrário.

Benfica-Sporting - Nota ainda para o derbi que se aproxima. Na minha leitura, há algum tempo que o Sporting não parte para um embate na Luz com tantas hipóteses de discutir o jogo e o resultado. O Benfica continuará a ser favorito, mas em doses muito mais relativas do que num passado recente. Em parte, porque do lado do Sporting a introdução de Nani lhe oferece um potencial de desequilíbrio muito mais próximo do que Jesus conta do seu lado, particularmente através de Salvio e Gaitan. Mas, pessoalmente, apostaria que o jogo será definido pela capacidade de resposta das equipas na sua fase de construção. O Benfica, que no ano passado conseguiu saltar o presssing do Sporting com grande facilidade, partindo daí para uma das exibições mais conseguidas na Liga, não contará agora com Garay e previsivelmente deverá testar pela primeira vez Samaris na primeira linha de construção. Por seu lado, e ao contrário do que já tenho visto ser sugerido (o que 20 milhões e a selecção argentina fazem à reputação de um jogador!), mas é inegável que Sarr só vem reduzir o potencial da equipa nessa fase de jogo e que, no mesmo sentido, a chegada de Marco Silva acrescenta o ênfase de saída de bola pelo corredor central. Aqui, e como já escrevi, a falta de propensão específica dos centrais parece-me tornar decisiva a qualidade do envolvimento dos dois médios (William e Adrien) e o auxílio que estes possam oferecer à primeira linha de construção. Tanto mais, perante um Benfica que certamente fará do pressing um ponto fundamental da sua proposta de jogo.

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