27.8.14

Porto, posse de bola e o derbi

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Porto, e um apuramento tão desejado como esperado - Não há muito a dizer sobre o triunfo do Porto. A qualificação já era esperada, e mesmo a vitória afigurava-se como o cenário mais provável para o segundo jogo. Desta vez, o Lille teve outro arrojo na sua proposta de jogo, tentou condicionar mais a circulação baixa e, com bola, sair de forma mais apoiada. Em desvantagem na eliminatória, os franceses simplesmente não podiam perspectivar quaisquer hipóteses de apuramento se voltassem a passar tanto tempo a ver jogar, como aconteceu há 1 semana. Ainda assim, o futebol do Porto voltou a ser mais do que suficiente para controlar por completo o seu adversário, e essa é a nota de maior realce no cômputo geral dos 180 minutos que as equipas disputaram. Este era um apuramento muito importante para a estratégia do clube, e se o seu paradeiro final é ainda incerto, podemos já ter a certeza que o destino do Porto de Lopetegui não ficará condicionado por uma falsa partida.

Porto e os paradoxos (aparentes!) da posse de bola - Ainda relativamente ao arranque de temporada do Porto, há dois pontos óbvios a destacar na prestação da equipa. O primeiro tem a ver com o estilo, que exacerba fortemente a sua presença em posse. O segundo, de constatação mais objectiva, tem a ver com a segurança defensiva da equipa nestes primeiros 360 minutos de futebol, estando esta a impressionar bem mais nesse plano do que propriamente na criação de desequilíbrios junto das balizas contrárias. Há aqui um primeiro paradoxo, que no entanto é apenas aparente porque resulta do equívoco de se assumir que a posse é um recurso que serve apenas para potenciar ofensivamente as equipas. A posse - à semelhança do pressing, por exemplo - é um meio que tanto pode potenciar os objectivos defensivos como ofensivos das equipas, dependendo do desempenho que estas apresentem. No caso, o exacerbar da posse por parte do Porto tem sobretudo servido para reduzir tempos de ataque adversários, muito mais do que para criar ocasiões de golo para a própria equipa. Numa segunda linha de raciocínio, há outro paradoxo aparente que pode surgir, e que tem a ver com a ideia de que, se o exacerbar da posse limita as ocasiões do adversário e não potencia as próprias, então o estilo implementado por Lopetegui reduz o risco de exposição da equipa. Na minha leitura, é precisamente o contrário, porque uma ideia de jogo que se propõe, com bola, circular tanto em zonas tão baixas e, sem bola, pressionar tanto em zonas tão altas, terá sempre de ser considerada de elevado risco. A questão, aqui, tem a ver com a eficácia da equipa nas diferentes vertentes do seu jogo, que tem sido muito mais competente a circular e pressionar do que propriamente em potenciar situações de desequilíbrio no último terço contrário.

Benfica-Sporting - Nota ainda para o derbi que se aproxima. Na minha leitura, há algum tempo que o Sporting não parte para um embate na Luz com tantas hipóteses de discutir o jogo e o resultado. O Benfica continuará a ser favorito, mas em doses muito mais relativas do que num passado recente. Em parte, porque do lado do Sporting a introdução de Nani lhe oferece um potencial de desequilíbrio muito mais próximo do que Jesus conta do seu lado, particularmente através de Salvio e Gaitan. Mas, pessoalmente, apostaria que o jogo será definido pela capacidade de resposta das equipas na sua fase de construção. O Benfica, que no ano passado conseguiu saltar o presssing do Sporting com grande facilidade, partindo daí para uma das exibições mais conseguidas na Liga, não contará agora com Garay e previsivelmente deverá testar pela primeira vez Samaris na primeira linha de construção. Por seu lado, e ao contrário do que já tenho visto ser sugerido (o que 20 milhões e a selecção argentina fazem à reputação de um jogador!), mas é inegável que Sarr só vem reduzir o potencial da equipa nessa fase de jogo e que, no mesmo sentido, a chegada de Marco Silva acrescenta o ênfase de saída de bola pelo corredor central. Aqui, e como já escrevi, a falta de propensão específica dos centrais parece-me tornar decisiva a qualidade do envolvimento dos dois médios (William e Adrien) e o auxílio que estes possam oferecer à primeira linha de construção. Tanto mais, perante um Benfica que certamente fará do pressing um ponto fundamental da sua proposta de jogo.

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21.8.14

Porto: notas do triunfo em Lille

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O resultado, dado o carácter decisivo da eliminatória, é claramente mais importante do que toda e qualquer indicação que a equipa pudesse dar (afinal, de que serviriam as boas indicações se se pusesse desde logo em causa um dos principais objectivos da temporada?). Ainda assim, e porque não deixamos de estar em inicio de época, aqui ficam as minhas notas sobre a exibição da equipa, para além do resultado:

- O jogo, no essencial, acabou por ir de encontro às indicações com que havia ficado da pré época, e sobre as quais havia escrito. Como notas mais positivas, a capacidade de imposição no jogo pela posse (mais previsível), e o controlo defensivo (menos evidente, à partida). Aqui, destaque para os momentos defensivos. Em organização, condicionando os tempos de ataque do Lille, sem que isso tivesse implicações na exposição espacial, pelo adiantamento do bloco (confirma-se que, na prática, não é evidente explorar fragilidades e espaços que, em teoria, são facilmente identificáveis no comportamento defensivo do Porto). Em transição, porque a equipa acabou por não ser penalizada no momento da perda da bola, isto apesar de ter repetido uma posse quase sempre baixa, e por isso em zonas onde o risco é maior.

- Como nota menos positiva, o pouco partido que a equipa retirou da sua elevada presença em posse. Aqui, convém explorar a estratégia das duas equipas, porque o Lille definiu uma marcação muito individualizada, que determinou um policiamento aos 3 médios portistas, impedindo-os de aparecer como gostariam no jogo. Ora, se à partida esta era uma estratégia que permitiria ao Porto potenciar algum espaço pela atracção dos elementos do corredor central do seu adversário, a verdade é que na prática ela obteve um grande sucesso, se tivermos em conta o tempo que o Porto teve a bola e o número de vezes em que conseguiu ameaçar verdadeiramente o último terço contrário. Ao Porto, por isso, valeu sobretudo a pouca capacidade do Lille para criar problemas com bola, num jogo de muito poucas ocasiões claras de golo. Enfim, retomando a questão das dificuldades de progressão portistas, apesar do elevado tempo de posse de bola, e partindo para as possíveis explicações, encontro duas. A primeira, é alguma prudência e aversão ao risco com bola, dada a juventude da equipa (talvez ainda pouco confiante relativamente às suas próprias possibilidades), e o carácter decisivo do próprio jogo, onde um erro pode colocar tudo em causa. A segunda tem a ver com o jogo posicional da equipa, e com uma tendência que também já identificara na pré temporada. Ou seja, o Porto exacerba muito a abertura posicional da equipa, em particular dos extremos, que raramente solicitam linhas de passe no corredor central (apesar de tudo, Brahimi fê-lo mais do que Oliver). O policiamento aos médios portistas abria a oportunidade de desposicionar o corredor central, em particular o espaço entrelinhas, sendo depois fundamental que houvesse uma dinâmica que envolvesse outros jogadores para esse espaço, em especial os extremos. Como o Porto se manteve quase sempre aberto e apenas com os médios (+Jackson) no corredor central, a estratégia da marcação individual do Lille acabou por dar resultados muito positivos, porque no corredor central manteve-se sempre um 3x3. Da principal excepção a estas dificuldades de penetração - o golo, claro - resulta uma outra conclusão que se repete da pré época e que tem a ver com a importância de ter um jogador como Jackson, numa equipa que vai exacerbando tanto a entrada pelos corredores laterais.  

- Uma nota sobre o Lille. Não desvalorizo minimamente o valor do Lille ou do futebol francês, como vejo tantas vezes ser feito em Portugal, usando o ranking da Uefa como suporte argumentativo. A liga francesa não tem, em termos de qualidade transversal dos jogadores, comparação possível com a liga portuguesa. O problema do futebol francês é outro e o Lille é um bom exemplo. A qualidade do seu plantel permitir-lhe-ia lutar, no mínimo, por um dos primeiros lugares em Portugal. No entanto, e em sentido inverso, seria impossível que um treinador durasse muito no futebol português com o tipo de abordagem táctica que vimos ontem o Lille apresentar frente ao Porto. A questão das marcações individuais (e eu até acho que em Portugal este recurso é quase sempre tratado de forma demasiado acrítica e dogmática), defensivamente, e a falta de ideias, ofensivamente, não resistiriam muito tempo perante a crítica que temos. Valha-nos isso...

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19.8.14

Sporting: notas do empate em Coimbra

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A importância de um golo - No cômputo geral, creio que a exibição do Sporting foi positiva, dentro das expectativas, e que a equipa acabou por potenciar bastante as suas hipóteses de sair de Coimbra com os 3 pontos. A excepção, claro, é o período em que a equipa se viu reduzida a 10 jogadores. No futebol, porém, um golo pode fazer toda a diferença, e parece-me que o pontapé de Rafael Lopes teve, não só, o condão de retirar 2 pontos ao Sporting, como de alterar boa parte dos estados de ânimo em redor da equipa. É curioso fazer o paralelismo com a época anterior, porque na minha análise - e como fui escrevendo - o sucesso conseguido foi sendo muitas vezes alicerçado na sua capacidade de resgatar triunfos tangenciais em jogos essencialmente equilibrados. A tendência é sempre para se ver tudo isto com uma grande dose de fatalismo, mas porque não sou capaz de encontrar grandes explicações para o fenómeno, diria apenas que Marco Silva não teve, para já, a sorte que tantas vezes acompanhou o seu predecessor. Ainda assim, deixo algumas notas de opinião sobre a exibição do Sporting, infelizmente sem tempo para acrescentar outros suportes que as fundamentem...

Sarr, os centrais e o envolvimento dos médios - Com a saída de Rojo, abre-se a questão sobre quem será o seu substituto ao lado de Maurício. A primeira aposta parece ser em Sarr, e por isso começo por ele. Estou francamente mal impressionado com as suas primeiras indicações, e apenas o pouco tempo de análise me inibe de ser mais convicto na ideia de que dificilmente manterá por muito tempo o estatuto de titular. As limitações do seu contributo com bola são mais óbvias, mas também ao nível sua presença defensiva, tem deixado muito a desejar. Mais até do que em questões posicionais, destacaria a sua dificuldade de imposição nos duelos em que tem sido obrigado a travar com os avançados contrários. Há sempre a tendência para se ligar essa capacidade à imponência física, mas como revelam tantos e tantos exemplos, a vertente atlética está muito longe de explicar tudo no que respeita à capacidade de imposição nos duelos directos. Faltará, portanto e na minha perspectiva, ainda a Marco Silva encontrar um parceiro para Maurício, mas dificilmente o Sporting terá uma dupla de centrais muito forte do ponto de vista técnico. Ora, isso não é a meu ver necessariamente um grande contratempo e vai até de encontro às ideias de Marco Silva que, ao aproximar mais os médios da primeira linha no inicio de construção, retira responsabilidades aos centrais, entregando-as aos seus médios. Relativamente aos centrais, muito mais importante do que qualidade técnica é a questão do critério, de forma a garantir segurança e fluidez. É aqui, por exemplo, que surge a minha critica em relação a Sarr, porque uma coisa é não ter grande capacidade para progredir com bola ou fazer lançamentos longos, outra é repetir passes denunciados para a zona central, que põem em causa tanto a fluídez como a segurança da equipa. A este respeito, o envolvimento dos médios numa fase mais precoce é uma boa solução, uma vez que são jogadores com maior capacidade de presença em posse e acabam por criar muito mais dificuldades ao pressing contrário, que de outra forma teria boas hipóteses para ter sucesso. Na primeira parte do jogo de Coimbra, e perante uma Académica que tentou sempre condicionar o inicio de construção, o Sporting acabou por retirar partido do envolvimento precoce de Adrien e William, conseguindo potenciar várias vezes os espaços dentro do bloco contrário.

Duplo-pivot, com bola, bom para Adrien, não tanto para William - Já tinha escrito sobre isto, e de Coimbra sai reforçada a ideia de que, com Marco Silva, William poderá ter um enquadramento menos favorável às suas características. Aqui, claro, estou-me a referir às acções com bola. A diferença é que, com Jardim, William mantinha um papel essencialmente posicional, nas costas dos dois médios, havendo uma simetria de comportamentos entre Adrien e Martins (com bola, reforço). Nesta versão, a simetria passa a existir na linha mais recuada, entre Adrien e William, pedindo-se aos dois maior amplitude no seu envolvimento. Ora, se Adrien me parece ganhar com esta alteração, por ser um jogador com boa capacidade para oferecer dinâmica, com e sem bola, já William tem características eminentemente posicionais, sendo muito forte como apoio recuado à circulação, mas marcadamente menos vocacionado estender a sua presença a uma área maior de terreno.

Montero, e o contexto  - De novo, e tal como na pré época, ficou-me a ideia de que Montero não tem as características ideias para o tipo de desequilíbrios que a equipa vem criando. Em Coimbra, quase todos os desequilíbrios conseguidos foram marcados por chegadas rápidas à zona de finalização, quase sempre com cruzamentos a tentar aproveitar o desposicionamento momentâneo da defensiva contrária. Mais uma vez, fica-me a ideia clara de que Montero não é de todo o jogador ideal para este tipo de situação, e que por isso algumas situações de elevado potencial não terão tido a finalização ideal. Montero é, essencialmente e na minha leitura, um jogador muito difícil de contrariar em situações de apoio, em espaços curtos, mas raramente a equipa tem sido capaz de o solicitar nesse contexto. É claro que se pode, aqui, ter uma perspectiva inversa, e pedir que seja a equipa que vá de encontro às características do seu avançado. Mas, até certo ponto, será um pouco como a história de Maomé e a montanha. Pode-se pedir a Deus que faça com que a montanha venha até nós, mas o mais provável é mesmo que acabemos por ser nós a ter de ir até à montanha...

Gestão do jogo - Como quem me lê saberá, sou um pouco céptico em relação à forma algo mecânica (e pouco específica, portanto) como a generalidade dos treinadores gerem os jogos, relativamente às substituições. Neste caso, e na minha leitura, Marco Silva poderá ter sido algo prejudicado por esse hábito. Em concreto, a troca de Heldon por Capel não me parece ter sido fundamental, com 30 minutos por jogar, e uma substituição já forçada, pela lesão de Cedric. A expulsão de William veio trazer uma outro tipo de urgências, em particular reforçando a necessidade de ter jogadores menos desgastados em certas posições mais exigentes do ponto de vista físico. Em particular, parece-me que nessa fase a equipa teria beneficiado em ter contado com um jogador mais fresco na frente, já que foi precisamente essa posição que acabou por ficar mais isolada pelo ajuste táctico realizado após a expulsão.

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14.8.14

Porto 14/15: notas no arranque de temporada

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Revolução e política desportiva
E a revolução anunciada, aconteceu mesmo! Era um desfecho intuitivamente sugerido pela carga negativa de uma época mal sucedida, mas não me posso confessar um grande adepto das alterações que estão a ser realizadas no Dragão. Tanto relativamente ao diagnóstico que dá origem à revolução, como às mudanças propriamente ditas. Ou seja, não sou da opinião de que o insucesso decorresse de uma fraca qualidade da generalidade dos jogadores - pelo contrário, acho que o Porto 13/14 tinha vários jogadores de grande qualidade - e, tão pouco, me entusiasma a ideia de adquirir, de repente, uma série de jogadores cujo principal ponto de contacto é a proveniência da liga espanhola (nada contra a liga espanhola, obviamente, antes pelo contrário). Aliás, este tipo de gestão é bastante atípica no percurso de sucesso portista, ao longo dos últimos 30 anos, onde quase sempre o protagonismo do defeso foi deixado para os rivais. Também aqui, os tempos parecem ter mudado, no futebol português.

Porto 14/15: diferente, e favorito
Apesar de não me rever na revolução, não posso esconder o interesse que ela terá do ponto de vista da análise. Lopetegui traz consigo uma ideia de jogo com características muito vincadas e que, creio eu, nenhum treinador português escolheria. Independentemente do sucesso que vier ou não a ter, a sua presença no futebol português será benéfica para a discussão do jogo em si mesmo. Quanto às hipóteses de sucesso, que é o que realmente interessa a adeptos e administração, concordo com a ideia de que, no arranque, o Porto é a equipa que mais favoritismo justifica para chegar ao título. Não porque esteja necessariamente mais forte do que estava há um ano por esta altura (não tenho a certeza de que seja o caso), mas porque a concorrência me parece apresentar-se agora com mais fragilidades.

Potencial do modelo de jogo: a largura e posse de bola
Partindo para as minhas considerações mais concretas sobre o modelo de jogo do Porto de Lopetegui, diria que a palavra chave é, claramente, largura.
Defensivamente, a equipa encurta de forma extremamente acentuada o bloco na profundidade, propondo-se pressionar muito alto e condicionar ao máximo as possibilidades do adversário circular dentro do seu bloco. Para tal, a linha defensiva sobe imenso, socorrendo-se para tal da regra do fora de jogo, e sendo por vezes forçada a arriscar muito nesse comportamento. A implicação desta postura é que o adversário passa a ter muita dificuldade em fazer uma circulação mais elaborada e é rapidamente tentado a fazer lançamentos na profundidade. Ou seja, os tempos de ataque são tendencialmente reduzidos.
Ofensivamente, Lopetegui introduziu outra característica marcante e que tem a ver com a propensão para mudar o corredor de jogo. Os extremos estão permanentemente abertos, os médios orientam os seus movimentos de rotura para os corredores, e até o avançado revelou alguma propensão em aproximar-se do extremo. A equipa apresenta-se bastante orientada para este tipo de circulação, o que lhe permite desgastar repetidamente o bloco contrário, obrigado-o a flutuar repetidamente de um corredor para o outro. Também aqui, o Porto 14/15 tende a acentuar o seu tempo de presença em posse, sendo que, tudo considerado, não se prevê fácil a qualquer adversário controlar o jogo com bola, frente a este Porto.

Risco do modelo de jogo: pouco jogo interior e exposição da profundidade
Começando pelos riscos defensivos, destacaria dois pontos. O primeiro, mais óbvio, tem a ver com o momento de organização defensiva. A tentação dos adversários, perante o encurtamento do bloco, é solicitar imediatamente a profundidade, com lançamentos directos para as costas da linha defensiva, nomeadamente para avançados e extremos. Na minha perspectiva, e embora o risco exista sempre, esta é a solução que mais beneficia as intenções portistas, porque a defesa tem normalmente tempo para antecipar este tipo de jogada. As dificuldades serão, porém, acentuadas caso os adversários consigam entrar e enquadrar dentro do bloco (com a exposição que a equipa assume, bastará 1 passe para que a linha defensiva fique imediatamente em grandes apuros, o que implica um acréscimo de responsabilidade para a pressão exercida nas primeiras linhas), ou caso optem por solicitar na profundidade jogadores vindos de trás (por exemplo, laterais). São situações que, a acontecer, representarão um risco muito acentuado, mas que também não serão fáceis de realizar por parte dos adversários.
O outro ponto tem a ver com o jogo posicional e o momento de transição. Aqui, a nota mais óbvia vai para a ausência de um jogador mais posicional, o que poderá acarretar algum risco para a eficácia da reacção à perda. Depois, a própria variação constante de corredor dificulta que a equipa se mantenha permanentemente bem posicionada para reagir à perda eventual, assim como aumenta o número de passes lateralizados para o corredor central, que é normalmente um momento de pressão para os adversários. Também aqui (e como sempre!) o sucesso dependerá da eficácia, exigindo-se ao Porto bastante competência na gestão da sua posse.

Finalmente, no capítulo ofensivo a equipa aparece nesta altura quase exclusivamente vocacionada para entrar através dos corredores laterais. Uma das situações que a mudança de corredor potencia é o aumento dos espaços laterais entre os defensores, o que pode permitir explorar situações de rotura no corredor central. No caso do Porto, porém, raramente surgem movimentos de rotura enquanto a bola viaja de um corredor para o outro. A viagem lateral, para já, ainda é uma finalidade em si mesmo, e não um meio para criar o desequilíbrio. Aqui, é interessante notar o jogo posicional da equipa, nomeadamente a abertura posicional dos extremos, que raramente surgem por dentro, mesmo quando a bola está no flanco oposto. A implicação, aqui, é que o número de apoios no corredor central fica mais reduzido. A minha percepção, porém, é que Lopetegui terá tendência a tentar a atenuar esta situação, nomeadamente apelando a movimentos mais interiores de pelo menos 1 dos extremos. Aliás, ofensivamente parece-me provável que a equipa ainda venha a ajustar muitos dos seus comportamentos actuais, pelo que alguns destes sinais poderão vir a revelar-se pouco relevantes no decurso da temporada.

Algumas notas individuais
Jackson - Na minha leitura, é uma peça chave na equipa, e seria muito mais céptico em relação às suas possibilidades de sucesso caso tivesse saído. Tanto mais nesta altura, em que a equipa se inclina tanto para os corredores laterais, acabando por recorrer muito a cruzamentos.

Tello - Um dos meus principais pontos de discórdia em relação às mudanças encetadas tem a ver com o pressuposto de que os jogadores vindos de clubes como Real Madrid ou Barcelona representarão mais valias claras dentro do actual plantel portista. No passado do futebol português encontramos alguns exemplos em que tal sucedeu, mas também outros em que essa ideia é muito claramente desmentida. O caso de Tello não se me afigura, de forma nenhuma, como uma certeza.

Quaresma - Fui bastante céptico em relação à mais valia do 'Mustang', na época passada. A entrada de Lopetegui, porém, poderá vir a revelar-se num ponto de viragem nesta segunda passagem de Quaresma no Dragão. Estar permanentemente aberto, quase restringido às acções junto à linha e distante de incursões interiores ou movimentos de rotura, é o cenário ideal para Quaresma. Se é isso que Lopetegui quer dos seus extremos (ou pelo menos de 1 deles), então dificilmente haverá no plantel uma solução melhor do que Quaresma, e se isso acontecer é bem possível que venha a ter um protagonismo que, francamente, já não pensava poder ter.

Quintero - Há muitos jogadores novos e talentosos no Porto 14/15, mas pessoalmente não vejo nenhum que se aproxime do potencial que Quintero tem para oferecer. Para mim, potenciar a genialidade deste jogador, conseguindo enquadrá-lo melhor colectivamente, deveria ser uma das prioridades mais evidentes para esta temporada. Lopetegui, porém, não parece ter conseguido muito mais do que os seus antecessores, e o colombiano parece estar mais próximo de se tornar num excedentário do que numa figura do Porto 14/15.

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13.8.14

Sporting 14/15: notas no arranque de temporada

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Modelo de gestão
Começando por me referir à política desportiva do clube, devo esclarecer - até porque creio que ainda não o tinha feito, desde a entrada em funções da actual direcção - que me identifico bastante com o caminho que o Sporting tem seguido. Em concreto, sou partidário de um modelo de gestão que viva com orçamentos coerentes com as receitas operacionais, e não recorrentemente inflaccionados pela expectativa de receitas provenientes de vendas de passes de jogadores. Neste sentido, parece-me que a diferenciação pode ser feita através de um scouting mais arrojado, que tente encontrar mais valias em mercados menos evidentes e, por isso, mais acessíveis. Isto e, claro, através da formação, mas esse será um ponto mais consensual. No entanto, os modelos de gestão são um pouco como os modelos de jogo, ou seja independentemente do perfil, que pode ser mais ou menos ajustado às características e contexto de cada clube, o seu sucesso será sempre determinado pela qualidade com que sejam implementados. No caso do Sporting, a resposta será em grande parte dada pela utilidade que os reforços venham a ter para a principal equipa. Ainda assim noto, com alguma curiosidade, que esta opção estratégica goza hoje de bastante popularidade, depois de cerca de uma década onde os modelos de alto risco, assentes no investimento e valorização de jogadores, atingiram grande sucesso (nomeadamente através do Porto, primeiro, e Benfica, depois) e apreço mediático. Os tempos, no futebol português e a este respeito, podem estar a mudar...

Sporting de Marco Silva, sem surpresas
No final da época passada fiz uma espécie de antevisão do que me parecia poder ser o Sporting de Marco Silva, e a verdade é que por aquilo que se pôde até agora ver, as surpresas não são muitas. A este respeito, noto que, com alguma frequência, se analisa o trabalho do actual treinador como tendo partido da base anterior, em termos de características de modelo de jogo. A minha interpretação, porém, é diferente. Concordo que há pontos de contacto entre as duas versões, evidentemente, mas vejo essas semelhanças sobretudo como implicações que decorrem da proximidade conceptual dos modelos preferenciais de ambos os treinadores, que já existiam quando Marco Silva era treinador do Estoril. Apesar de tudo, há diferenças relevantes, e é sobre elas que mais me quero centrar...

Sporting 14/15 vs 13/14
Em relação à sua versão anterior, então, o Sporting tem a meu ver 3 diferenças fundamentais:
1) Bloco defensivo mais compacto, nomeadamente com uma linha defensiva mais subida e a fazer maior recurso da regra do fora de jogo para encurtar o espaço entre sectores. Aqui, há algum risco e maior exigência para os elementos da linha defensiva, mas creio que o Sporting tem boas condições para ter boa eficácia e que provavelmente ficará a ganhar em relação aos comportamentos mais conservadores da era Jardim.

2) 4-2-3-1 mais declarado. Com Leonardo Jardim, o Sporting apresentou um posicionamento hibrido dos seus médios. Concretamente, sem bola Adrien baixava para a mesma linha de William, mas com bola adiantava-se para uma posição simétrica à de André Martins (que em organização defensiva partia da mesma linha do avançado). Ou seja, em 14/15 o Sporting deverá actuar num 4-2-3-1 mais claro, com dois médios mais vocacionados para a construção e equilíbrio posicional, e um outro sempre mais próximo do avançado, e por isso com mais exigências ao nível da capacidade de desequilíbrio e presença em zonas de finalização.

3) Com bola, maior foco para o papel dos dois médios de construção, e menor canalização do jogo pelos corredores laterais. Por exemplo, com Leonardo Jardim, repetidamente víamos os laterais a solicitar os extremos, ou os movimentos diagonais dos médios, nas costas dos laterais contrários, mas essa dinâmica não tem surgido com a mesma recorrência com Marco Silva. Por outro lado, vemos agora mais passes interiores dos laterais, a procurar os dois médios, ainda em fase de construção. Desta nova característica resulta maior exigência para a fase de construção (e para os médios, especialmente), a perspectiva de maior potencial ofensivo, mas também menor risco. Para a definição deste binómio, entre potencial e risco, entra claro a eficácia, e é preciamente aqui que as perspectivas são nesta altura más para o Sporting de Marco Silva, comparativamente com o de Leonardo Jardim. A equipa não tem conseguido extrair grande vantagem ao nível da dinâmica de construção, através deste maior envolvimento dos seus médios e, por outro lado, tem aumentado o volume de perdas em zonas de risco, o que se apresenta como um indício preocupante, até tendo em conta o aumento de exigência pela presença na champions. Para já, diria, relativamente à sua versão anterior, o Sporting de Marco Silva defende pior... com bola!

Algumas notas individuais
Com a janela de mercado aberta até final do mês, poderá ainda haver algumas mexidas relevantes. Pessoalmente, não vejo no Sporting grandes riscos relativamente à saída de 1 ou 2 jogadores. E é fácil explicar esta perspectiva, porque se concordo que o Sporting não tem as mais valias individuais dos seus rivais, e que por isso não tem as mesmas possibilidades para chegar ao título, também não poderia considerar que haveriam elementos com um peso especialmente relevante (a não ser que as segundas linhas fossem péssimas, o que não é o caso). A este respeito, Rui Patrício será, talvez, o caso mais critico, já que o guarda redes teve uma grande eficácia na época anterior, e não creio que Marcelo Boeck tivesse grandes hipóteses de repetir esse nível de desempenho. William, que será o jogador mais valorizado mediaticamente, seria a meu ver uma perda com impacto potencial mais reduzido, e creio que o Sporting poderá encontrar uma solução eficaz, mesmo que sem a mesma qualidade, para essa eventualidade. Aliás, penso até que William poderá perder algum do seu enquadramento específico ideal neste modelo, mas precisarei de mais tempo para retirar conclusões a este respeito. Também ao nível dos centrais, e perante a eventual saída de Rojo, creio que o Sporting tem condições para encontrar uma solução à altura (a este propósito, Dier, cuja saída teve um grande destaque mediático, não poderá de forma nenhuma ser considerado uma perda, dado o reduzido tempo de jogo no ano anterior e, já agora, a enorme irregularidade da qualidade dos seus contributos).

Uma nota importante, ainda, para as fases mais adiantadas do jogo da equipa. Apesar da tal vocação colectiva para sair mais pelos médios e menos pelos laterais (na construção), a verdade é que os principais desequilíbrios continuam a surgir pelos corredores laterais. Se esta tendência se mantiver - e é bom não esquecer que já com Leonardo Jardim este problema existia, não havendo para já novidades individuais que possam ajudar a mudar o cenário - o Sporting estará muito dependente da presença em zona de finalização, tanto do seu avançado, como dos seu médio mais adiantado (neste modelo, com mais características de 2º avançado do que de médio, na minha leitura). Aqui, temos duas notas contrastantes, que me parecem bastante claras. Primeiro, André Martins, com bastante produtividade ao nível da finalização, nesta pré temporada (tenho dúvidas, confesso, que possa manter este rendimento neste aspecto específico). Depois, Montero. O problema de Montero com os golos também tem a ver com a eficácia, obviamente, mas esse não me parece de todo o ponto fundamental. Aliás, diria, esse não é um problema, mas apenas uma tendência de circunstância e que o tempo acabará, inevitavelmente, por relativizar. Montero gosta de sair da zona de finalização, envolver-se em zonas exteriores, e até aqui tudo isso é positivo. O problema surge depois, porque essa mobilidade não é complementada com a agressividade que a equipa precisa no ataque às zonas de finalização. Sem ter visto todos os jogos, por mais do que uma vez o vi esbanjar vantagens relativamente aos centrais contrários no ataque às zonas de finalização, tornando estéreis jogadas que chegam ao último passe com boas perspectivas de sucesso, mas que acabam esvaziadas pelo facto do colombiano se deixar bater na velocidade de reacção ao lance. O ideal, obviamente, será ter as duas coisas: mobilidade, primeiro, e agressividade (no ataque às zonas de finalização, bem entendido), depois. Mas, o extra não pode comprometer o essencial na posição, e dentro das actuais dinâmicas do Sporting (muito vocacionadas para os desequilíbrios sobre os corredores), é essencial garantir uma agressividade e uma presença em zonas de finalização que Montero simplesmente não tem oferecido. Nunca fui um entusiasta de Slimani, e confesso apreciar muito mais as características de Montero, mas se o jogo tem um objectivo (o golo), não faz qualquer sentido sobrevalorizar o estilo, e a verdade é que Slimani, pelas suas características, pelo contexto colectivo que descrevi, e pela utilidade que apesar de tudo sempre conseguiu ter, merece (ou "mereceria", já que a sua situação disciplinar o parece ter excluído das contas, pelo menos para já) bastante crédito neste arranque de temporada. Tanto mais, que Tanaka é, para mim, ainda uma incógnita. Quanto a Montero, ou muda ele, ou muda a equipa, o que se tem visto é que me parece descontextualizado.

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11.8.14

Benfica 14/15: notas no arranque de temporada

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Pessimismo, e uma gestão desportiva duvidosa
O futebol, pelo peso que tem a sua vertente emocional, é especialmente propício a estados de alma desproporcionados. O Benfica várias vezes passou por uma sensação inversa às portas de uma nova época, mas desta feita repete o pessimismo generalizado que já se observara há 1 ano, nesta mesma altura. A diferença, em relação a 13/14, é que hoje há algo mais do que o mero azedume do minuto 92 para sustentar essa sensação.

A saída de alguns jogadores nucleares não pode ser considerada surpreendente, nem tão pouco uma novidade relativamente ao passado recente do clube. Aliás, das 5 perdas fundamentais em relação à equipa de 13/14 (Oblak, Garay, Siqueira, Markovic e Rodrigo), apenas no caso do guarda redes se pode falar numa saída inesperada. Ou seja, o Benfica tinha todas as condições para estar devidamente preparado para colmatar grande parte destas saídas, e se me parece quase inevitável que a equipa partisse para a nova época com algumas fragilidades em relação à sua versão anterior, também penso que essas diferenças estão sobretudo exacerbadas pela pouca capacidade de extrair do mercado soluções de maior qualidade para a equipa principal. É certo que aqui estou a ignorar os problemas financeiros em que aparentemente o clube se viu envolvido, mas como escrevi, a necessidade de ir ao mercado era antecipável há algum tempo, sendo que por outro lado o Benfica não deixou de gastar uma verba significativa em novos jogadores, pelo que o problema parece-me ter mais a ver com algum desacerto nos alvos identificados do que com outros factores.

Segundas linhas e os primeiros meses, o maior risco para a nova época
Apesar das vendas, e até à data, o Benfica ainda preserva grande parte da sua estrutura num eventual onze base, nomeadamente mantendo a liderança defensiva de Luisão, a influência de Enzo e a capacidade de desequilíbrio de Salvio e Gaitan. O problema, porém, é que as hipóteses do Benfica na nova temporada se jogarão muito para além daquilo que o seu melhor onze terá para oferecer. Descontando aqui os riscos - nada negligenciáveis, como é evidente! - de mais saídas ou eventuais lesões, Jesus deparar-se-á provavelmente com a mais difícil das suas temporadas no que diz respeito à gestão da rotatividade da equipa. A regra do treinador tem sido de oferecer primazia à champions, relegando alguns riscos para o campeonato, e invertendo as prioridades sempre que a equipa transitou para a Liga Europa, o que não impediu o sucesso nesta competição. Se a isto acrescentarmos a habitual necessidade de algum tempo até que a equipa fique devidamente entrosada, também característica nos anos mais recentes, temos que os primeiros meses da temporada se afiguram como especialmente relevantes para as hipóteses de sucesso interno da equipa. Jesus terá de dividir, nesta fase, atenções entre campeonato e champions, terá de o fazer com um plantel visivelmente desequilibrado entre a qualidade de primeiras e segundas linhas, e terá ainda de conseguir fazer os novos jogadores evoluir neste período, para que pelo menos alguns deles se tornem alternativas ao nível das ambições da equipa. Tudo isto, claro, debaixo da ofuscante pressão dos resultados imediatos, porque nem o campeonato oferecerá à partida vantagens para gerir nos primeiros meses, nem tão pouco a champions permitirá muita margem para eventuais deslizes.

Baliza e um avançado
As baixas do defeso afectam todos os sectores, mas não creio que todas tenham a mesma urgência no que respeita às movimentações de mercado, até ao final do mês. Na defesa, dificilmente se encontrarão soluções que possam oferecer no imediato a qualidade de Garay ou Siqueira, e nesse sentido o Benfica sairá quase inevitavelmente a perder relativamente à época anterior, mas na minha óptica o grande garante da qualidade da linha defensiva do Benfica é o seu treinador, pelo que as perdas individuais acabarão por não ter tanta probabilidade de afectar o desempenho colectivo. Um pouco no mesmo sentido surge o caso de Markovic. O sérvio foi muito utilizado na época anterior, mas tal sucedeu sobretudo pela lesão de Salvio. Com o regresso do argentino, o Benfica fica a meu ver numa situação no mínmo idêntica (na verdade, penso que Salvio poderá oferecer consideravelmente mais do que Markovic, em época de adaptação, ofereceu no ano anterior) à que teve em grande parte da época passada, relativamente aos seus extremos. Ou seja, um grande desfasamento entre os dois titulares (Salvio e Gaitan) e as restantes soluções (aqui, a minha critica vai para o investimento em Bebé, que me parece demasiado avultado para as limitações do jogador em diversos aspectos), mas em grande parte devido à enorme qualidade da dupla argentina (um autêntico luxo, a meu ver!). Restam, a baliza e os avançados.

Na baliza, o problema de Artur é o mesmo de há 1 ano, só que nessa altura não era tão evidentemente percepcionado por todos, tendo Oblak contribuído para clarificar as dúvidas que os indicadores de desempenho do brasileiro vinham levantando (foi um tema que explorei muito no inicio da época passada, como quem leu se lembrará). É fundamental que o Benfica resolva bem esta questão, mas há para mim alguns maus indícios relativamente à fiabilidade dos critérios de selecção da estrutura do clube, relativamente a esta posição específica. Desde a aposta em Roberto, passando pela insistência em Artur, até ao interesse em Romero. Resta esperar para ver...

Outra posição que me parece nuclear no modelo de Jesus é a do avançado de ligação. Também no ano passado escrevi bastante sobre isto, em particular sobre a importância que me parece ter tido o papel de Rodrigo na equipa, a meu ver não devidamente valorizado por adeptos e critica, na distribuição dos créditos do sucesso final. Tal como a entrada de Oblak, há também uma correlação forte entre a afirmação de Rodrigo da equipa base e a melhoria da equipa em termos de resultados, numa altura em que se discutia muito a hipótese de Jesus mudar de sistema táctico, nomeadamente abdicando de um jogador com estas funções. Aliás, já anteriormente, o Benfica teve em Saviola um jogador fundamental para o seu sucesso ofensivo, pela sua capacidade de ligar o jogo ofensivo da equipa e ser depois uma unidade muito influente em termos de criação de oportunidades de golo. O Benfica, a meu ver, precisa contar com uma solução de qualidade para esta posição, que lhe valha envolvimento ofensivo, golos e assistências. Uma solução que, com qualidade próxima da de Rodrigo ou Saviola, não vislumbro ainda no plantel actual. Creio que a ideia passou muito pela a aposta em Talisca, mas embora não conheça suficientemente o jogador para ter grandes convicções a seu respeito, fica-me a ideia de que poderá estar ainda distante do rendimento que Jesus certamente pretenderá para esta posição. E, se for assim, uma investida certeira no mercado para esta posição, poderá também relevar-se um ponto importante para as aspirações da equipa.

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15.7.14

Mundial 2014: considerações finais

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O campeão e a final
Não creio que se pudesse esperar um campeão mais indiscutível, sobretudo se considerarmos o equilíbrio de forças que inicialmente perspectivava entre os favoritos. Arrisco, aliás, que a sensação de superioridade germânica na prova se venha a acentuar, à medida que o tempo vá colocando este Mundial na prateleira que a memória lhe terá destinado. A Alemanha já partiu entre o pelotão dos favoritos, quase unanimemente restringido a 4 selecções, e se uma caiu precoce e inesperadamente (Espanha), as outras duas foram combinando o seu trajecto com uma mediocridade exibicional indisfarçável (Brasil e Argentina). Entre os que corriam por fora, houve surpresas agradáveis, sem dúvida, mas a essas faltou-lhes sempre o potencial individual das principais forças, o que faz da Alemanha a única equipa que verdadeiramente combinou um elenco individual de topo com uma ideia de jogo bem conseguida.

Ainda assim, note-se, a final poderia ter perfeitamente conhecido outro desfecho. Porque, e como venho escrevendo desde o início, um Mundial é apenas para ver quem ganha, e não necessariamente para distinguir a melhor equipa. E a Argentina teve boas condições para ser chamar a si a vitória, mesmo sem ter sido no cômputo geral da prova, a melhor equipa. Há um ponto que me parece interessante analisar na final, e que tem a ver com o contraste entre as exibições de Brasil e Argentina. É claro que um jogo é apenas um conjunto singular de acontecimentos e por isso muito pouco conclusivo, mas há uma distinção essencial na abordagem táctica de brasileiros e argentinos, que me parece marcar toda a diferença. Ambas enfatizaram a exploração do momento de transição, mas enquanto a Argentina, e de forma absolutamente previsível (aliás, já tinha antecipado o mesmo cenário para a meia final frente à Holanda, que se confirmou), privilegiou sempre a protecção dos espaços essenciais, não tendo relutância em baixar muito bloco, o Brasil, e de forma para mim mais surpreendente, partiu para uma postura muito mais ambiciosa na sua presença pressionante. Ora, como não há ambição sem risco, a falta de qualidade do comportamento posicional brasileiro determinou esta se transformasse em mero aventureirismo táctico, com os custos que todos presenciamos. Várias vezes escrevo sobre a importância do ajuste estratégico à realidade e potencial das equipas, e aqui temos um bom exemplo disso mesmo, porque não creio que Sabella, tal como Scolari, fosse capaz de trabalhar com grande qualidade uma abordagem táctica mais arrojada, mas ao contrário do seu homólogo brasileiro, o ‘Pachorra’ foi humilde perante as suas limitações, escolheu uma estratégia realista e arriscou-se a vencer um adversário que lhe era muito superior em termos de dinâmica colectiva.

O melhor Mundial, para uns, o pior, para outros
No que respeita à opinião sobre o torneio em geral, tenho assistido a uma curiosa radicalização das opiniões sobre este Mundial. Alguns – a maioria – tendem a salientar a vertente emocional, os golos, as surpresas, e até a riqueza cultural que a prova nos ofereceu, para a classificar como uma das melhores de sempre. Outros, mais centrados nos detalhes tácticos e na realidade do futebol europeu de clubes, parecem-se sentir-se defraudados pelo sucesso pontual de abordagens tácticas, totalmente anacrónicas segundo esta perspectiva, sendo que as condições climáticas são aqui entendidas como inapropriadas para a prática do futebol. Quanto aos primeiros, não posso rebater argumentos sustentados pela emoção, já que não me cabe contestar a forma como cada um sente o jogo. Já no que respeita ao segundo caso, e por motivos que já expliquei noutras ocasiões, sou mais critico. Ou seja, é verdade que neste Mundial vimos selecções a ter sucesso com abordagens tácticas completamente ultrapassadas no futebol europeu, e outras a sentir muitas dificuldades em impor as suas ideias de jogo, apesar de estas nos parecerem bem mais evoluídas do que as dos seus adversários. Estou de acordo também que as condições em que se jogaram alguns jogos podem ter um alcance explicativo assinalável, relativamente a alguns fenómenos estranhos que observamos nesta prova. O meu ponto de discórdia, porém, reside no pressuposto de que não estavam reunidas as condições para se jogar futebol. O futebol é um jogo global, não pertence apenas à meia-estação europeia, e por esse mundo fora há várias equipas que jogam nas condições encontradas em certos estádios deste Mundial. Pessoalmente, este Mundial fez-me perceber melhor o porquê da diversidade táctica que vamos observando de continente para continente, ou de país para país, fazendo eu uma associação forte entre o sucesso dos sistemas tácticos com mais protecção posicional dos espaços vitais e menos exigência física, ao nível do pressing (nomeadamente, aqui, o caso dos sistemas com 5 defesas). Nesse aspecto, este Mundial não poderia ter sido mais enriquecedor. Quanto ao resto, à emoção, cada um a sentirá à sua maneira…

As surpresas, as desilusões e as influências para o futuro
Começando pelas melhores equipas deste Mundial (em termos relativos, claro) destacaria 5 casos, e por esta ordem: Costa Rica, Holanda, França, México e Argélia. A Costa Rica porque se conseguiu apurar com todo o mérito num grupo muito difícil e ainda ser apenas eliminada nos penáltis0. A grande nota de destaque, e para surpresa minha em face do que foram os jogos de preparação, vai para o comportamento da sua linha defensiva, terrivelmente eficaz no condicionamento através do fora de jogo. A Holanda, porque conseguiu retirar grande eficácia de uma estratégia inesperada. No entanto, não tenho dúvidas, com um pouco menos de sorte, e Van Gaal teria sido dos treinadores mais penalizados mediaticamente, neste Mundial, já que foi em sentido inverso daquela que é hoje a filosofia convencionalmente defendida por quem faz opinião. A França, porque parece-me ter sido a principal boa notícia entre os mais fortes, tendo sido a selecção que mais perspectivas deixou de se aproximar do potencial dos 4 favoritos. Aliás, sendo honesto, creio que apresentou mais argumentos do que Argentina, Holanda ou Brasil, mas quis a sorte que se cruzasse primeiro com a Alemanha. O México, porque apresentou grande qualidade dentro da sua proposta de jogo, apurando-se num grupo onde não era favorito e apenas sucumbiu perante o desespero final holandês. Finalmente, a Argélia, que embora tenha tido alguma felicidade num grupo acessível (pode agradecer ao guarda redes russo!), superou largamente as expectativas e ainda fez um bom jogo frente à Alemanha, forçando os futuros campeões mundiais a um inesperado prolongamento.

Referência para os casos de equipas muito valorizadas, mas a meu ver algo excessivamente. A Colômbia, porque se limitou a vencer um grupo e uma eliminatória onde era favorita, tendo contado ainda com uma eficácia desproporcionadamente elevada das ocasiões de golo criadas. Os Estados Unidos, porque foram a meu ver a equipa com mais felicidade nesta prova, começando pelo triunfo frente ao Gana, passando pelo benefício que retiraram da goleada sofrida por Portugal, e terminando no incrível desperdício belga nos oitavos de final, que normalmente teria terminado num resultado muito desnivelado. Finalmente, a Nigéria, porque se apurou num grupo onde a Bósnia e até o Irão mostraram mais qualidade colectiva.

Do lado das desilusões, a maior de todas será a Espanha, claro. Depois, os casos de Itália, Portugal e Bósnia, que com os espanhóis me pareceram as equipas que mais sentiram as condições climatéricas, crendo eu que teriam outras hipóteses se tivessem jogado debaixo de outras condições. Noutro plano, colocaria selecções como a Croácia, Bélgica, Brasil e Argentina, que mesmo em alguns casos com trajectórias de aparente sucesso, me parecem ter feito muito menos do que aquilo que o seu potencial técnico lhes permitia, muito devido a modelos tácticos que na minha leitura tiravam muito pouco partido do seu potencial individual. Falar, finalmente, das influências que este Mundial poderá ter, em particular relativamente à vertente táctica. Aqui, separaria dois casos, o do futebol europeu e o do Brasil. Na Europa, é possível que venhamos a ter algumas experiências com sistemas de 3 centrais, mas não creio que venham a conhecer grande sucesso, já que me parece que no futebol europeu o contexto não é especialmente favorável, e que o sucesso desta opção no Mundial tem muito a ver com o contexto. No Brasil, há a esperança que o choque dos 1-7 possa vir a mudar qualquer coisa. Só o tempo trará essa resposta, mas no caso de um gigante como é o futebol brasileiro, qualquer pequena melhoria pode ter efeitos tremendamente positivos. Como último ponto, referenciar o mistério que é para mim a opção de Van Gaal por uma marcação muito individualizada. Não sou capaz de perceber os motivos, mas como não parto do princípio (absurdo) de que saberei menos do que o experimentado treinador holandês, gostaria que lhe perguntassem o seu raciocínio. Ainda por cima, e goste-se ou não da ideia, o facto é que teve sucesso!

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9.7.14

A caminho do Maracanã #19 (Sobre o 1-7!)

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Arrisco afirmar que esta partida tem tudo para se tornar no jogo mais célebre da história dos campeonatos do mundo. Na minha opinião, um jogo com estas características, sobretudo a celeridade com que o vencedor ficou definido, acaba por ter menos interesse do ponto de vista da análise, já que grande parte dos 90 minutos são disputados num contexto competitivo singular e dificilmente replicável. Por outro lado, o resultado adquire um simbolismo tal, que nos arrasta intuitivamente outras discussões, de âmbito mais lato. Como o momento actual do futebol dos dois países, no caso as duas maiores potências históricas do futebol mundial. Assim, aproveito este jogo e este resultado para dar também a minha opinião, breve, sobre esses temas, começando naturalmente por algumas notas sobre o jogo, propriamente dito.

O jogo: surpresas, para além do resultado
Começo por deixar claro que não retiro grandes conclusões a partir deste jogo, e que não me revejo nesse tipo de leitura. Um jogo tem sempre uma história própria e grande parte do que nele acontece é específico e único. Ou seja, os números da derrocada brasileira são, não tenho dúvidas, situacionais e quase impossíveis de vermos repetidos no futuro, seja qual for o destino destas duas selecções. Daí, precisamente, o carácter histórico do resultado a que assistimos. No mesmo sentido, os problemas do Brasil e as virtudes da Alemanha não decorrem do que se passou neste jogo. O Brasil, e conforme venho escrevendo, apresenta problemas claros do ponto de vista da sua qualidade organizacional, e não é por ter sido goleado que passa ser pior equipa do que era, nem tão pouco seria a melhor selecção do mundo caso vencesse o Mundial, como perfeitamente poderia ter acontecido. O mesmo se poderá dizer, já agora, de Holanda e Argentina, cujo destino ainda não conhecemos, mas que poderão bem sagrar-se campeãs mundiais com colectivos repletos de fragilidades facilmente identificáveis. Em sentido inverso, a qualidade da Alemanha também não é maior por este feito histórico, assim como não deixaria de ter melhores processos colectivos do que o Brasil, caso tivesse uma noite menos feliz em Belo Horizonte. Um jogo pode definir um campeão, distinguir entre vencedores e vencidos, mas não é minimamente suficiente para determinar a qualidade de uma equipa!

Relativamente ao jogo, e situando-me mais no que aconteceu na primeira parte, confesso-me surpreendido por algo mais do que o resultado. É que se esperava uma Alemanha a assumir o jogo mais em organização, e um Brasil com maior foco no que poderia conseguir após a recuperação da bola. Em boa verdade, porém, tivemos mais o cenário inverso, se atentarmos com rigor às incidências do primeiro tempo. A Alemanha, e perante o pressing alto brasileiro, optou por construir várias vezes de forma longa, aproveitando a vantagem de estatura de Muller face a Marcelo e a extensão do bloco brasileiro para poder ganhar vantagem na conquista pela segunda bola, nas costas do duplo-pivot canarinho. O Brasil, por seu lado, foi quem teve mais vezes a iniciativa de jogo a partir de trás, verificando-se facilmente a estratégia de solicitar, de forma larga, o extremo do lado oposto - o que explica claramente a aposta em Bernard, em detrimento de uma opção mais interior. Na minha leitura, porém, onde os germânicos retiraram mais vantagem estratégica no jogo foi na liberdade defensiva dada aos extremos, Muller e Ozil, no sentido de aproveitar as costas dos laterais, após a recuperação da bola. Como a partida acabou por ter muitos duelos na zona média, a Alemanha ganhou claramente vantagem com esta opção, porque conseguiu sucessivamente ultrapassar a reacção à perda do Brasil, muito ineficaz apesar da agressividade dos seus jogadores. Mas, se estas opções estratégicas de Low surtiram efeito e contribuíram para a afirmação da sua equipa no jogo, elas estão muito longe de explicar a goleada a que assistimos. Para tal, temos de recorrer, em primeiro lugar e de forma clara, à eficácia. Porque assistimos a jogos neste Mundial onde equipas conseguiram um número de ocasiões até superiores ao da Alemanha e acabaram o jogo com o credo na boca (estou a lembrar-me, por exemplo, do Estados Unidos - Bélgica). Depois, a uma série de comportamentos individuais muito pouco conseguidos por parte dos jogadores brasileiros nos lances chave. Restringindo-me apenas à primeira parte, destacaria: Fernandinho e Marcelo, no segundo golo; A perda de Fernandinho, no quarto golo; David Luiz, no quinto golo. Finalmente (e porque nem a eficácia nem os erros individuais costumam marcar tanta diferença a este nível), então, destacaria o carácter explicativo dos problemas crónicos da organização brasileira, muito bem potenciados pela algo surpreendente abordagem estratégica de Low, cujos pontos principais descrevi acima. Aqui, o foco vai para a pobreza da dinâmica colectiva de apoio à saída de bola, e para a extensão do bloco brasileiro, querendo definir um inicio de pressão, a meu ver, demasiado alto para uma linha defensiva tão relutante em subir posicionalmente no terreno, o que isolava de forma gritante os dois médios. Debilidades amplamente conhecidas e identificáveis antes do jogo, que contribuíram para o cocktail explosivo que desfez o 'escrete', sem dúvida, mas que estão muito longe de o poder explicar como um todo.

Brasil e o problema da qualidade táctica
Em qualquer discussão sobre o futebol brasileiro, sobretudo se esta for feita a partir de quem o olha da outra margem do Atlântico, o mais provável é que se acabe por sublinhar o contraste entre a riqueza de recursos individuais e as debilidades tácticas. Neste sentido, a selecção brasileira não podia ser um melhor reflexo do futebol do seu país. A meu ver, o problema da qualidade táctica do futebol brasileiro deriva de dois pontos fundamentais. O primeiro tem a ver com a forma paradoxal como são vistos os treinadores, que por um lado são a primeira explicação para tudo o que acontece, mas que por outro não vêem o seu trabalho ser devidamente valorizado nas decisões e planeamento da gestão desportiva. Está longe de ser uma exclusividade brasileira, bem o sabemos, mas naquele cenário este é um fenómeno especialmente exacerbado, chegando por vezes a parecer que os treinadores são meros amuletos da sorte, tal a facilidade com que se trocam uns por outros, na esperança de finalmente acertar naquele que vai trazer o milagre do sucesso. O outro ponto é o facto de ser um futebol muito virado para dentro e com uma receptividade reduzida (para não dizer nula) para treinadores e ideias vindas de fora. Este também não é um mal exclusivo do Brasil e é até bastante mais comum do que possa parecer. Na Europa, por exemplo, destacaria os casos de França e Holanda, que na minha óptica têm perdido muito por algum autismo do seu futebol.

Até aqui, parece-me que o tema é relativamente pacífico e dúvido que muitos discordem da leitura que deixei acima. Menos unânime, calculo, deve ser a minha forma de ver a solução para este problema. Particularmente, não concordo que o que o futebol brasileiro precisa é de uma mera importação das melhores ideias do futebol europeu. Ganharia com essa abertura, sem dúvida, e provavelmente seria mesmo esse o primeiro passo a ser dado, mas a ideia de um recolonização do Brasil, agora de natureza futebolística, parece-me um potencial equívoco. Se há coisa que este Mundial mostrou aos europeus é que as suas ideias, para serem idealmente implementadas, pressupõem um determinado contexto, facilmente desencontrado fora das fronteiras do velho continente. Refiro-me às condições climatéricas, claro! O futebol brasileiro precisa de se abrir a novas e melhores ideias, indiscutivelmente, mas precisará de fazer também a sua própria evolução, de acordo com a sua própria realidade. E nesta diversidade específica reside mais uma das riquezas do futebol. Já agora, da mesma forma que os europeus duvidarão que os brasileiros tenham aprendido alguma coisa com a lição dos 1-7, eu também tenho dúvidas que na Europa se tenha aprendido grande coisa com o que se passou em vários jogos deste Mundial.

Alemanha, a palavra é formação, não Guardiola!
Já fiz alusão a isto em textos recentes, mas parece-me que mais uma vez se está a ceder à tentação de confundir correlação com causalidade, no futebol. Vimos a Espanha dominar as grandes competições nos últimos 6 anos, e vemos agora a Alemanha a impressionar o Mundo, na copa brasileira. Ponto comum aparente: Guardiola. Não digo que o fantástico treinador catalão não tenha influência em tudo isto. Se é ele quem treina durante o ano boa parte dos jogadores que depois evoluem numa competição de curta duração, naturalmente que a sua importância não pode ser desprezada. No caso da Alemanha, evidenciaria os casos de Neuer, Lahm e Muller. Neuer, com muito mais qualidade para ser uma espécie de líbero e complemento importante para a ideia de jogo da selecção. Lahm, que nunca seria solução interior caso não se tivesse cruzado com Guardiola. Muller, que passa a poder ser também uma solução como falso 9, oferecendo à equipa uma maior vocação para explorar o jogo interior e o espaço entrelinhas. Mas, a Alemanha já vem impressionando pela qualidade do seu futebol há vários anos a esta parte, vivendo na sombra de uma equipa espanhola que se revelou sempre mais forte nos duelos directos com os germânicos. Da mesma forma, também a Espanha já havia imposto o seu estilo ainda antes de Guardiola ter chegado ao comando técnico do Barcelona, ainda que seja também inegável a sua influência positiva nas versões da Roja em 2010 e 2012.

Assim, o verdadeiro ponto em comum entre Espanha e Alemanha está, sim, na formação. E, aqui, mais do que os resultados ao nível dos escalões mais jovens (onde a Espanha vem sendo demolidora), talvez seja mais importante abordar a forma como as novas gerações são integradas nas principais ligas dos respectivos países, sendo que no caso alemão todos os anos surgem novos valores a ter oportunidade de iniciar o seu trajecto nas principais equipas da Bundesliga. Claro que esta é apenas uma visão simplista e que haverá sempre uma dependência importante da qualidade das novas gerações. Seja como for, e mesmo havendo outros factores importantes a ter em conta, parece-me claro que é na geração e desenvolvimento de talento que reside o grande impulsionador da equação de sucesso destas duas selecções.

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