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Sporting, Paulo Sérgio e a importância de saber escolher

Se há uma coisa perigosa e que devemos sempre desconfiar é da generosidade da nossa memória. Nomeadamente em relação ao acerto das nossas projecções passadas. No caso de Paulo Sérgio, porém, encontro uma grande identificação actual com aquilo que escrevi aquando da sua entrada. Ainda assim, e em boa verdade, posso dizer que esperava um pouco mais do treinador em termos de qualidade táctica. Quer em termos de ideias, quer em termos de capacidade de imposição das mesmas. Enfim, mais do que o passado, importa contextualizar o futuro, e, sobre isso, deixo alguns tópicos de opinião.

O menos culpado, ou o mais culpado?
O termo “culpado” é exagerado e incorrecto, mas o seu uso generalizado compreende-se bem. É a tal natureza humana de que tantas vezes falo, que anseia por estabelecer relações directas e lineares entre efeitos e causas – “culpas”. Seja como for, as análises dividem-se. Desde os que defendem que o treinador não era o “único culpado” (La Palisse não diria melhor), até aos que vêem na sua falta de capacidade um condimento essencial para o insucesso.


Pessoalmente, e como já várias vezes escrevi, defendo que o treinador é uma peça fundamental de qualquer estratégia desportiva. Talvez a distinguisse, até, como a mais fundamental de todas, pelo menos no curto prazo (não faltarão exemplos que sustentem esta tese). O plantel do Sporting não é tão forte como o dos outros 2 “grandes”? Certo. Mas também é para mim uma evidência que o seu valor é bem maior do que aquilo que o seu rendimento hoje faz parecer.

Em suma, se o Sporting 2010/11 teve a história que teve, entendo que nenhum factor teve tanto peso relativo como a escolha insuficiente que fez para o seu comando técnico.

Impossível fazer pior?
A ideia de que se bateu no fundo advém do dramatismo próprio do fenómeno clubístico. Mas, o fundo, normalmente, é muito pior do que aquilo que se pode imaginar. Exemplos? O próprio Sporting, e a transição da época anterior para esta. Parecia impossível fazer repetir, mas aconteceu, e talvez até pior. O Besiktas, na Turquia, que investiu loucuras em talentos de inegável valor e colocou um treinador de renome à sua frente – Schuster. O resultado? 6ºlugar na liga turca e uma eliminação com goleada da Liga Europa. O Feyenoord – talvez o caso mais extremo – um “grande” da Holanda e com valores mais do que suficientes para se bater pelas primeiras posições, muitos deles oriundos da sua boa formação. Onde está? A 6 pontos da linha de água, tendo já perdido por 10-0 em Eindhoven na presente época. Estes exemplos, note-se, são diferentes, mas ambos têm contextos competitivos – Turquia e Holanda – semelhantes ao português.

O risco de fazer pior, para o Sporting, é bem real. Por 2 motivos: primeiro, porque o nível dos adversários é, nesta fase, muito elevado. Há mais investimento, melhores soluções, e também muita competência em termos de orientação técnica. Depois, porque o clube vive um momento em que coincidem o trauma do insucesso e o fervor eleitoral. Uma combinação que potencia soluções populistas e diagnósticos pouco lúcidos. É, dentro deste cenário, provável que se cometam vários erros.

O sucessor: a importância de saber escolher
Não há nada mais decisivo para o futuro imediato do Sporting do que a escolha do treinador. Mais do que Presidentes, modelos e fundos de investimento. Saber escolher é, como sempre tenho referido, o factor de sucesso mais decisivo para qualquer gestão desportiva, e a próxima direcção do Sporting não será excepção.

O processo eleitoral ainda está em fase de definição - e, para ser sincero, estou ainda muito pouco familiarizado com as propostas já apresentadas - no entanto, os indícios deixados nos perfis definidos para o próximo treinador serão desde logo relevantes para aferir sobre o que será o futuro próximo do Sporting. Bons treinadores (como maus), há em todo o lado, mas Portugal tem a particularidade de ser, muito provavelmente, o país que mais bons valores revela neste particular. Ora, se quem escolhe não for capaz de identificar esse valor cá dentro, que probabilidade haverá de que o identifique lá fora?!
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6 comentários:

David disse...

Bom dia Filipe.
Antes de mais parabens pelo blog e pelas analises (concordando ou não sõa opiniões que revelam interesse/saber.) Gostava de saber se na tua opinião existe algum treinador português com capacidade para treinar o Sporting neste momento(sendo que momento será a proxima epóca e o planeamento da mesma). OU se estrangeiro quem.
Eu vou dar dois nomes que me parecme pode resultar. Um será o antigo selecionador de sub-20Argentino (Peckerman) com um adjunot português conhecedor da nossa realidade (e aí poderiamos ir pelo caminho da antiga glória - Manuel Fernandes ou do ex-jogador com experiencia de treinador - Paulo Torres ou ou Felipe Ramos). Em alternativa um treinador alemão sendo que ai gostava de destacar o Ralf Rangnick que se demitiu por causa da venda do melçhor jogador a meio da epoca sem serem encontradas alternativas. POrtuguês tirando o Mourinho acho que qq um não ia resistir a critica prematura e ia começar a epoca fragilizado.

filipe disse...

David,

Vamos por partes:

- treinadores portugueses: Domingos é um deles. Não tem um modelo tão forte como Jesus, nem tem a capacidade de Villas Boas, mas tem conseguido equipas fortes tacticamente e muito fortes mentalmente (mais fortes do que as dos outros 2, por exemplo). Depois, Leonardo Jardim é um treinador que preciso de analisar melhor em termos de ideias ofensivas, mas é também um candidato. Há outros, mas para oferecer uma opinião definitiva teria de os analisar mais detalhadamente.

- treinadores estrangeiros vs. portugueses: tive algumas discussões semelhantes quando foi a sucessão de Quique Flores, porque muitas pessoas entendiam que não havia treinadores portugueses com capacidade para aguentar a pressão de treinar o Benfica. Eu discordei e discordo. Porque, se os treinadores estrangeiros têm maior estado de graça, têm também menor resistência aos problemas. Porque para um treinador português, um "grande" é a oportunidade de carreira, para um estrangeiro é apenas mais 1 contrato. Ou seja, para mim, os treinadores portugueses ganham neste aspecto em termos de perfil.

- Em relação a treinadores estrangeiros, é difícil encontrar uma "escola" aconselhável. A América do Sul será, quase seguramente, uma ilusão porque o futebol é muito menos rigoroso tacticamente. A Holanda vive um momento horrível e basta ver a falta de qualidade táctica das suas equipas. Em Espanha, há aspectos fortes mas outros muito fracos. Em Itália, o momento também é um dos mais negativos da história em termos de treinadores. Um futebol interessante, nesta altura, é o Alemão, com muitos treinadores novos a aparecer. Ainda assim, cada caso é um caso e só analisando pormenorizadamente filosofias, comportamentos e resultados, poderia dar opinião definitiva. Um treinador que gostaria de analisar, porque tem uma carreira impressionante é o Philippe Montanier do Valenciennes.

Ivan disse...

Pessoalmente creio que esta opinião

http://videos.publico.pt/Default.aspx?oldId=634345102098906250

está perfeita. E a frase que a conclui é bastante esclarecida e até esclarecedora para quem não quiser ver tudo com o véu incongruente da clubite.

www.contingentetuga.blogspot.com

montoya disse...

Se Godinho Lopes vencer as eleições,penso que a escolha do Carlos Freitas recairá sobre Domingos ou Jesualdo.

montoya disse...

Filipe,
falando de treinadores, o que pensas sobre Ancelotti e o Chelsea desta época?
Talvez sirva para reflectir sobre factores, extra treinador e jogadores, que podem levar ao insucesso.

filipe disse...

Não acompanho o Chelsea com assiduidade e detalhe suficiente para ter uma opinião sustentada.

No ano passado vi alguns jogos no inicio de época, e pareceu-me uma equipa muito dependente dos laterais para ter mais dinâmica ofensiva. Na altura, pensei que talvez acabassem por perder o campeonato mas acabaram por conseguir resistir até ao fim.

No entanto, é uma equipa que se tem sabido renovar com qualidade individual e, nesse aspecto, parece-me das mais fortes da Europa.