28.11.10

Sporting - Porto: análise de jogadas (Vídeo)

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Começo por um vídeo com as principais jogadas, um pouco ao contrário do que é norma. Mais tarde trarei a análise e a estatística, assim como, possivelmente um outro vídeo sobre um aspecto táctico que julgo interessante.

- O primeiro lance de perigo do jogo acontece quase por acaso. Ou seja, num lance em que o Porto começa por ter as linhas de passe cortadas e com a perda eminente. Ao contrário do que acontece mais tarde, no golo, não creio haver particular demérito de Polga na forma como é batido por Belluschi. A sua saída para fazer contenção justifica-se, não tendo conseguido ganhar o lance, apesar de ter pressionado correctamente.

- No lance do golo do Sporting, o descrédito foi atribuído a Maicon, mas julgo não lhe ser devida uma responsabilidade única. A primeira bola, entrando na zona dos centrais, não pode nunca bater e cabe à dupla resolver o lance. Rolando é cai sai para abordar o lance e cabia a Maicon ajustar o posicionamento nas suas costas. Maicon é surpreendido porque tarda em perceber que a bola vai passar sem ser abordada e porque, parece-me, não se apercebe da presença de Valdés. No entanto, Rolando tem de atacar a bola e não encostar-se a Liedson. Se fosse ao contrário - Maicon a atacar a bola, duvido que o lance tivesse tido a mesma sequência.

- O lance do golo do Porto surge após uma longa sequência de bolas disputadas na zona central. O Sporting tem responsabilidade colectiva porque, por várias vezes, deveria ter sido capaz de tirar a bola da zona de pressão e dar sequência à transição (falarei mais disso). Ainda assim, nada faria antecipar o que sucedeu depois. A equipa está equilibrada, com a linha de 4 e ainda André Santos em zona central. Não se percebe a decisão de Polga sair da sua zona nesta situação. Não era o jogador mais próximo da bola, não era possivel pressionar imediatamente a decisão de Moutinho, dada a distância e, talvez mais importante, a sua posição é fulcral em termos de controlo zonal, merecendo muito maior cautela numa decisão deste tipo. Ficam 3 jogadores na frente de Moutinho, mas sem capacidade para cortar a linha de passe para Hulk que, depois, tem várias opções na área.

- Finalmente, nota para mais um exemplo da excepcional capacidade de trabalho de Liedson. O demérito de Maicon é óbvio e nenhuma circunstância ou perante algum jogador se justifica perder a bola, mas, ainda assim é recorrente vermos Liedson conseguir lances destes (a última terá sido em Goodison Park), pelo que é inegável o seu mérito, quer na atitude, quer na forma como aborda o desarme. Desta vez, para mais, o seu isolamento é total. Não vale tanto, mas é mais difícil de conseguir do que um golo.

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Empate no clássico (Breves)

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- A volatilidade táctica de Paulo Sérgio tem essa particularidade: tornar-se muito fácil surpreender. E creio que desta vez, o treinador do Sporting conseguiu surpreender a generalidade das antevisões, começando pela minha mas acabando na do próprio Villas Boas. Numa coisa não me equivoquei: a atitude iria fazer parte da receita e era bom que o Porto fosse precavido, porque a diferença de valias não é tão grande como as emoções sugerem. Enfim, não me quero alongar muito porque voltarei com uma análise mais detalhada, mas não posso deixar de creditar o mérito devido ao Sporting pela primeira parte que fez. Pela sagacidade e atitude.

- Mas, se chegar à vantagem foi uma conquista, mantê-la era, para o Sporting, também um requisito. A resposta do Porto era óbvia e era preciso estabilidade e força mental para aguentar mais tempo sem errar. O Sporting sucumbiu depressa - também, e muito, por mérito do Porto, não se confunda - e provavelmente só não passou por maiores dissabores porque Liedson voltou a fazer de Liedson num clássico. O resto está à vista de todos: não foi por jogar com menos um que o Porto ficou mais longe da vitória do que o seu oponente e, bem feitas as contas, o empate será até mais reconfortante para os da casa. Porquê? Porque toda a gente esperava um Porto mais forte e vencedor e porque a conversa da distância pontual para o 1º é, há muito e para o Sporting, apenas... conversa.

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26.11.10

Sporting - Porto (Notas de antevisão)

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- São mais as dúvidas do lado do Sporting. Os jornais avançam com a possibilidade de jogarem Postiga e Liedson, e André Santos, Maniche e Pedro Mendes. Pessoalmente, acho difícil que ambas as opções se confirmem porque há uma outra que me parece mais provável: o regresso João Pereira como médio-ala. Ora, conciliar tudo isto implicaria abdicar de Valdes e Vukcevic, e não me parece que, pelo menos o chileno, seja discutível na cabeça de Paulo Sérgio. Assim, e por entre muitas dúvidas, apostaria num só avançado, Postiga, na coexistência dos 3 médios, e em João Pereira e Valdés como alas.

- Uma coisa que me parece clara, e que com certeza poderemos observar no jogo, é a utilização de um 2x1 sobre os flanqueadores, especialmente Hulk. Isto será feito com a proximidade de 1 dos médios – possivelmente, se jogar, André Santos sobre a esquerda – ao lateral. Algo que Paulo Sérgio testou sobre Sougou em Coimbra e que deverá repetir agora.

- Ainda no Sporting, já várias vezes critiquei a falta de consistência nas opções de Paulo Sérgio, na minha perspectiva uma maneira pouco produtiva de construir uma equipa. Nesta altura, e no que respeita concretamente ao jogo do Porto, não há nada a fazer. Custa-me entender como, depois das provas dadas, Valdés sai de uma posição central onde havia sido determinante, e Vukcevic não é integrado numa estrutura que aproveite as suas virtudes e compense os seus defeitos. Uma coisa seria não conseguir, outra é não tentar.

- Por fim, e sobre o Sporting, há 2 jogadores que eu não abdicaria nunca, num jogo destes. Maniche e Liedson. Maniche, porque é, de longe, o jogador de maior rendimento da equipa, ainda que isso não lhe seja unanimemente reconhecido. Mas porque, também, é um jogador de grandes jogos, onde frequentemente marca e desequilibra. Faria-o sempre jogar como 2º médio e nunca mais adiantado, mas, ainda assim... olhos nele porque, para o bem ou para o mal, pode ser a figura. Liedson, que acredito não jogará, é outro de alto rendimento nos grandes jogos. A sua veia goleadora nos grandes momentos é o mais fácil de ver, mas Liedson tem também a particularidade de ser um jogador excepcionalmente interventivo para a posição em que joga. Porque os avançados participam menos e porque nos grandes jogos, mais do que nos outros, todos são poucos, Liedson é, ou seria, uma enorme mais valia.

- No Porto, mais estabilidade e menos dúvidas. Não há qualquer indicio ou motivo para que Villas Boas se desvie muito da sua estrutura, ou mesmo que siga uma estratégia muito diferente daquela que escolheu nos jogos frente ao Benfica. É que, tal como o seu vizinho, o Sporting gosta da bola e da posse e não tem uma alternativa muito bem preparada para quando não se consegue afirmar dessa maneira. Villas Boas tem 2 alternativas, ou tenta destituir o Sporting da sua pretensão de ser o dono da bola – o que pode não ser fácil – ou opta por uma estratégia mais objectiva e pragmática, tal como frente ao Benfica. Vejo com maior probabilidade que Villas Boas prepare a equipa especialmente para esta segunda opção, até porque, se tiver de ter a bola mais tempo, o Porto também o saberá fazer sem problemas.

- Para o Porto, o problema é como o jogo, “clássico”. Ou seja, o momento antagónico entre as duas equipas faz supor uma diferença de valores maior do que a que realmente existe. Se isto se passar para os jogadores, se não houver do Porto uma elevação dos níveis de intensidade e concentração, próprios deste tipo de jogos, então a equipa está mais próxima de ser surpreendida. Essa é a principal missão de Villas Boas, até porque, desengane-se quem pensar o contrário, o Sporting vai ter uma atitude muito forte.

- Em termos de opções individuais, é para o Porto relevante não ter Álvaro Pereira. É um jogador de grande intensidade e capaz de dar total profundidade ao flanco. De resto, é no quarteto defensivo que residem as dúvidas, com Fucile e Otamendi a serem, hoje bem mais do que frente ao Benfica, candidatos ao lugar. Por questões de rendimento, mas também de morfologia. Mais Fucile do que Otamendi, parece-me. Ainda assim, calculo que Villas Boas prefira manter ao máximo uma estrutura que se tem dado bem em jogos de maior exigência. Privilegiar o todo pelas partes é algo que faz sempre sentido.

- Os elementos potencialmente decisivos, creio, são os de sempre. Hulk, Falcao, Varela e Belluschi. Mas talvez venhamos a ter alguns esquemas tácticos especialmente preparados para as bolas paradas. A fragilidade do Sporting e a opção por marcações individuais, pode sugerir uma oportunidade à equipa técnica portista...

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25.11.10

Derrocada do Benfica em Israel (Breves)

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- O resultado, como sempre e especialmente perante estes números, vai precipitar as mais gratuitas análises. A verdade, porém, é que me parece muito claro que este, mais do que qualquer outro jogo, escapa ao prisma técnico-táctico, quando se quer explicar o resultado. Porquê? Porque o Benfica teve um domínio simplesmente avassalador sobre o adversário. Desde o primeiro minuto, e nunca por ter sido concedido ou planeado pelos israelitas. A qualidade - ou falta dela - da oposição, aliás, é parte da explicação para tão grande superioridade. Agora, se o Benfica foi absolutamente superior no planto técnico-táctico, se não teve a sorte do seu lado na forma como sofreu antes de marcar, por outro lado - e este é o ponto que deve ser relevado - só perdeu por culpa própria e porque é uma equipa emocionalmente vulnerável. É-o desde o inicio de época, como sempre o afirmei, mas é-o cada vez mais com o passar do tempo.

- Que o centro dos problemas encarnados está no campo emocional, já eu escrevi desde os primeiros sinais de crise, e também fui antecipando que os sintomas não estavam a ser bem identificados e resolvidos. Desta vez, destacaria 3 pontos. O primeiro tem a ver com a estratégia. Saber como ganhar é tão fundamental como fazer os jogadores sentir que essa proposta os vai conduzir ao sucesso. Quem o consegue raramente perde, e se o Benfica perdeu é porque não o tem conseguido. O "ouro" dos israelitas estava no pressing e na forma inocente como estes saíam a jogar. O Benfica conseguiu várias recuperações, mas nunca identificou essa como a via mais fácil para o sucesso, e devia-o ter feito desde o inicio. A orientação foi sempre utilizar extremos (Gaitan e Salvio) para potenciar os "pinheiros" (Kardec e Cardozo). Como já disse, facilmente teria tido outro resultado, mas esta não era, nem a estratégia mais correcta, nem aquela que poderia trazer mais confiança aos jogadores. O segundo ponto tem a ver com Martins. Não por uma critica da opção técnica ou táctica, mas porque abdicar de um jogador super-motivado por razões de ordem física é também um sinal de como os aspectos emocionais são desvalorizados na gestão da equipa. Finalmente, fala-se muito da perda de confiança da equipa, mas eu pergunto: e a confiança de Jesus? O que sentirá o outrora super-confiante líder do processo perante uma realidade tão adversa e surpreendente? E, já agora, que motivação ou confiança poderá ele transmitir para o grupo nesta altura?

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23.11.10

Mais um feito do Braga, e a jornada 'Champions' (Breves)

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- Não vi o jogo e por isso, o meu comentário terá de ser bastante restrito. Ainda assim, visto ou não, ganhar ao Arsenal é mais um marco fantástico no trajecto europeu do Braga neste ano. Mais mérito ainda tem pelo facto de acontecer numa fase em que a equipa se procura reabilitar em termos emocionais e de confiança, tanto em relação às suas próprias capacidades individuais, como em relação à sua proposta de jogo. É um trabalho que não se resolve com esta vitória, mas que pode seguramente ter aqui uma importante ajuda. Já que falo de confiança, e embora desta vez não o tenha escrito antes, os 2-3 do Emirates no fim de semana podem ter sido a primeira boa notícia para o Braga, em relação a este jogo. Os jogos começam todos 0-0, mas nenhum começa efectivamente do zero. Enfim, Liga dos Campeões, mais 9 pontos em 5 jogos: dê qualificação ou não (não dará!), a resposta sobre a capacidade de Domingos na Europa está mais do que dada.

- No fim de semana vi o Ajax-PSV e pude de novo constatar a fragilidade defensiva da escola holandesa. Não é atacar muito, é defender mal. Especialmente o Ajax que só não perdeu por benevolência do seu rival. A goleada do Real, neste contexto, era uma previsão fácil de fazer. Outro jogo que poderia dar surpresa, pelo momento do favorito, era o Chelsea-Zilina. Não deu, esteve quase, mas também era demasiado escandaloso.

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Ranking de treinadores (Liga 2010/11)

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Ainda é cedo para balanços definitivos, dado que nem 1 volta está completa. Fica, no entanto, o alinhamento do aproveitamento do trabalho dos treinadores, em relação às expectativas criadas pelas casas de apostas. Sem surpresas no topo da tabela, é de assinalar o último lugar de Domingos neste "ranking" parcial. Ele, que pulverizou a mesma classificação do ano anterior. O calendário pode ajudar a explicar, mas houve claramente um excesso de expectativa em relação ao rendimento dos bracarenses.

Entretanto, e neste mesmo âmbito, talvez fosse interessante analisar objectivamente se as "chicotadas psicológicas" têm, ou não, um efeito prático real e consistente. Algo que trarei noutra altura, para já fica a pergunta: será que vale a pena o "chicote"?

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22.11.10

Triunfos magros de Porto e Sporting (Breves)

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- Duvido que alguém esperasse tantas dificuldades do Porto para passar em Moreira de Cónegos. A verdade é que, se o Moreirense poderia ser um adversário como outro qualquer no Dragão, em casa torna-se muito mais difícil de ser batido. E não é preciso muito para perceber isto: basta ver que a equipa ainda não sofreu qualquer golo em casa em jogos para a liga! Ainda assim, não dá para retirar algum peso da responsabilidade à equipa portista, que face à capacidade e diferença de valores, bem pode exigir mais de si própria. Sobre o Porto, há 2 aspectos a realçar: O primeiro é, de novo, a gestão de Villas Boas, nunca prescindindo do seu núcleo duro e da sua estrutura. O segundo, para o facto de, no pós-Benfica, o Porto ter tido 2 exibições com um fulgor bem distante do esperado. Finalmente, sobre o Moreirense, uma pergunta: que impacto emocional pode ter uma derrota como esta? Será interessante acompanhar o percurso imediato da equipa de Casquilha...

- Em Alvalade, não dá para dizer que o Sporting não foi quem mais mereceu a vitória, mas dá para questionar a exibição da equipa. Primeiro, não entendo como Paulo Sérgio pretende construir uma equipa se continuamente altera estrutura e protagonistas - em certos casos, abdicando de elementos em óptimo momento. Face a isto, só seria de espantar se a equipa tivesse uma grande resposta. Depois, referir que esta até pode ser vista como uma das mais confortáveis vitórias da equipa, dado que passou por muito menos sobressaltos do que é costume. O problema é que "controlar" não é algo que este Sporting faça voluntária e conscientemente. Pode acontecer - como aconteceu - mas não resulta de nenhuma estratégia preparada. Se melhor prova faltasse, basta atentar ao último lance do jogo. Aquele que poderia ter complicado de forma dramática a continuidade da equipa na Taça. Uma equipa que quer e sabe controlar o jogo, não pode nunca permitir, nunca, uma transição como a que aconteceu. Nem que, do outro lado, tivessem estado 2 contra o guarda redes! O equilíbrio seria sempre a prioridade. Enfim, importa em tudo isto destacar o demérito do Paços, que fez muito pouco durante 90 minutos. Sobre esse dado, relembro o excelente jogo da equipa na Luz. De lá para cá, e com algumas lesões à mistura, a equipa perdeu claramente o seu momento. A Rui Vitória de nada adiantará as boas exibições numa dada fase se, depois, não for capaz de manter os índices emocionais. Ou as coisas mudam, ou esta equipa arrisca-se a servir de luz ao fundo do túnel para Naval e Portimonense, os fortíssimos candidatos à descida, se nada for feito em contrário.

- Nos restantes jogos, destaco a vitória do Guimarães. Não por ser inesperada - que não foi - mas porque é a terceira consecutiva, que resulta de uma reviravolta. Aliás, das 6 que conseguiu na Liga, a equipa de Machado teve de virar 3. Um número, que embora curto, é raro, importando perceber até que ponto se trata de um acaso...

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19.11.10

Portugal - Espanha: Análise e números

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Um pouco às avessas com aquilo que é normal, a análise do jogo ficou relegada para o fecho do “capítulo Selecção”. Já fui amplamente elogioso em relação à exibição e, por isso, talvez seja melhor começar por salientar outro aspecto. É que, se o jogo descambou para um goleada, nada o fazia supor nos primeiros 35 minutos. Ao contrário do que é muitas vezes sugerido, não me parece que tivesse havido especial demérito da Espanha na primeira parte. A equipa foi igual a si própria, lidando bem com uma pressão fortíssima do meio campo português, quer em termos de circulação, quer em termos de reacção à perda da bola. Na segunda parte, sim, a história é um pouco diferente. Quanto à primeira, o mérito vai 100% para Portugal que acabou por vencer um autêntico duelo de nervos entre a posse espanhola e o pressing português. Aliás, sendo um exercício obviamente especulativo, parece-me improvável que, em Lisboa ou na África do Sul, a resposta dos espanhóis pudesse ser muito diferente daquela que foi dada na primeira parte.

Notas colectivas
A estratégia portuguesa foi completamente diferente daquela que a maioria das equipas optam por escolher frente ao “tiki taka” e, seguramente, muito diferente daquela utilizada por Queiroz no mundial. Um "pressing" colectivo muito forte e feito em toda a área do campo – comprimento e largura. O segredo, e única via para o sucesso, estava em estar sempre junto e em ter uma grande capacidade de reacção ao movimento da bola. Sim, porque a Espanha não iria perder a bola facilmente. Um desafio enorme em termos de concentração e união colectiva e que, repetindo a ideia, forçou um jogo de nervos entre a posse espanhola e o "pressing" luso. Quem iria fraquejar primeiro? A qualidade de circulação espanhola, perante o pressing permanente? Ou a qualidade de ajuste posicional do pressing, perante a óptima e constante circulação?

Não há suspense, todos sabemos qual o resultado, mas importa também dizer que não foi a pouco custo que Portugal o conseguiu. Os espanhóis tentaram de tudo, circulação apoiada, bolas na profundidade (ainda que poucas) e variações de flanco. Portugal foi notável na reacção, conseguindo manter quase sempre uma grande concentração na zona da bola, mesmo quando esta mudava rapidamente a sua posição. “Quase”! É que a Espanha também encontrou os seus buracos, especialmente quando conseguiu levar o jogo até às alas, com a subida dos laterais, encontrou espaços e por pouco não chegou ao golo.

Entendo, por tudo isto, que o demérito espanhol é muito pouco e seguramente muito menor do que aquilo que agora se quer fazer crer. Pelo menos na definição do jogo. A Espanha jogou com o seu melhor 11 e as suas individualidades não estão propriamente num momento de descompressão ou precoce em termos de preparação. É uma equipa que joga junta há anos, muitos deles todos os dias, e que está numa altura de alto rendimento em termos de temporada. A sua resposta, aliás, foi boa, e duvido que qualquer outra equipa tivesse durado tanto tempo perante a qualidade do "pressing" da Selecção portuguesa. A critica que pode ser feita é em termos de reacção à adversidade, quando esta apareceu. Na segunda parte, de facto, houve uma perda de qualidade no jogo colectivo espanhol, sobretudo na qualidade de circulação e reacção à perda, a que não são alheias as substituições. Uma coisa é ter Xavi e Iniesta, outra é não ter. Mas também do lado português houve uma perda de qualidade. Perda de qualidade pelas alterações individuais, e também porque seria impossível manter a intensidade que a equipa revelou nos primeiros 45 minutos.

Como balanço, importa voltar a sublinhar o impacto da entrada de Paulo Bento. Impacto nos níveis de confiança da equipa, que são explicados pelo habitual efeito da “chicotada”, e que foram depois catapultados pelos primeiros resultados positivos. Porque uma coisa é os jogadores acreditarem nas ideias de uma nova liderança, outra é sentirem realmente que essas ideias têm reflexo prático nos seus resultados. E impacto, também, ao nível da qualidade táctica da equipa, porque aquilo que se vê hoje a Selecção fazer está bem a cima do nível geral das Selecções mundiais, não tem nada a ver com a banalidade das estratégias (muitas vezes auto destrutivas) de Queiroz, ou sequer com a “era Scolari”, onde simplesmente não existia estratégia a este nível. O que não dá para afirmar é que Portugal está hoje mais motivado do que no mundial, ou que são os jogadores que estão a marcar a diferença entre Queiroz e Bento. É simplesmente absurdo supor que um jogador se sente mais motivado num particular do que numa fase final de uma campeonato do mundo, apenas por questões de simpatia com o seleccionador. Pelos para mim, é absurdo.

Um potencial problema que pode emergir reside no facto de Portugal ter atingido um pico demasiado cedo. Isto é, o nível que Portugal atingiu frente à Espanha não é superável. Não há adversários mais fortes do que a Espanha e não é possível realisticamente obter melhores resultados do que aquele que tivemos. Ou seja, com tudo ainda por jogar, convém não deixar que este resultado sirva para desactivar níveis de intensidade e ambição.

Notas individuais
João Pereira – Fez um jogo fantástico em termos de intensidade e qualidade. Seria, à partida um dos casos que mais problemáticos, dada a movimentação típica de Villa, mas a forma como a equipa jogou e a sua própria concentração e intensidade fizeram dele um dos jogadores mais assertivos no terreno. Só lhe faltou a parte ofensiva.

Bosingwa – Jogou adaptado e não se pode dizer que se tenha dado mal. Afinal, a Bosingwa não lhe falta experiência no que respeita a adaptações. Ainda assim, é um jogador que oscila entre uma excepcional capacidade física e técnica, com alguns momentos menos prudentes em termos de opção. Nesse aspecto, jogando com o pé direito, à esquerda, pode potenciar alguns passes interiores menos aconselháveis. E isso chegou a acontecer. É uma nota a tirar.

Centrais – O destaque vai para os números de Bruno Alves. Jogou os 90 minutos mas teve um nível de participação baixíssimo. Neste caso, porém, não lhe é devida uma critica especial. Em relação a Pepe e, sobretudo, Carvalho, foi um jogador mais posicional e menos agressivo a jogar em antecipação. Essa característica, combinada com o mérito colectivo que impediu a Espanha de accionar muito poucas vezes a zona dos centrais, fez com que estivesse muito tempo fora do jogo. De resto, cada um ao seu estilo e cada um no seu tempo, Carvalho e Pepe, estiveram esplêndidos (destacando ainda assim o papel de Carvalho na primeira parte, importante no papel táctico de cortar o espaço entre linhas).

Meireles – Um jogo fantástico do “pivot”. Teve uma missão especialmente próxima dos médios, formando um bloco intermédio que bloqueava a zona central. Muitas vezes formou mesmo uma linha com Moutinho e Martins, mas pôde também ler o jogo de trás, ajustar posicionamentos, antecipar, preparar o momento da perda... Enfim, um jogo tacticamente excelente, com a particularidade de ter dado, com bola, uma certeza fundamental na sua zona.

Moutinho – Será um dos maiores destaques do jogo, pelo papel táctico que teve, e por ter sido, desta vez, determinante ofensivamente. Já muito se falou dele e da sua cultura táctica e, de facto, não há muito a acrescentar a cada exbição que faz. O rigor é sempre o mesmo, a fiabilidade também, o que varia é a inspiração - e a oportunidade para tal - ofensiva.

Martins – Este era um bom teste para ele. Isto porque é um jogador que tem alguma dificuldade em termos defensivos. Não parece gostar muito de defender e, sobretudo, não tem uma grande percepção táctica em termos defensivos, o que faz com que a sua reacção posicional nem sempre seja tão rápida como devia. Neste desafio, de correr mais sem bola do que com ela, esteve muito bem e acabou por ser o protagonista de algumas intercepções decisivas.

Nani – Fica marcado pelo lance de Ronaldo e é óbvio que deve ser censurado pela opção que tomou. A questão é que a reacção não é tão anormal quanto isso em ambiente de jogo, e talvez o próprio Ronaldo fizesse o mesmo. De resto, e à parte de outro chapéu displicente que tentou, fez um grande jogo, provando de novo que é um dos melhores extremos do futebol mundial.

Ronaldo – A sua utilidade táctica e técnica combinam agora para que seja, quase sempre e enquanto está em campo, o maior dos destaques. Porque é que Ronaldo não chuta agora de 40 metros? Porque é que parece um jogador muito mais útil em todos os momentos? Porque é que não está tão ansioso em fazer tudo sozinho? O que mudou não foi Ronaldo, o que mudou foi a Selecção. Afinal, aquilo que sempre foi óbvio e que sempre fui escrevendo. O problema nunca foi Ronaldo, mas sim a envolvente...

Postiga – Fez um jogo importante em termos tácticos, orientando o “pressing”. Não é um jogador muito agressivo nessa tarefa, mas quando a equipa tem um propósito colectivo, torna-se também ele um jogador integrado e útil sem bola. De resto, os golos fazem-lhe bem. A ele, como a qualquer avançado, mas ele especialmente.

Manuel Fernandes – Acho-o um jogador de tremendo potencial e havia feito bons jogos no ciclo terrível que terminou com a saída de Queiroz. O problema de Manuel Fernandes é o risco que assume no meio campo e alguma displicência em que cai com facilidade. Sempre foi e provavelmente sempre será o seu pecado. Por alguma coisa perdeu um passe que deu transição para ataque rápido, na fase dos “olés”. Gostaria de o ver numa fase de outra organização e intensidade colectiva como aquela a que assistimos na primeira parte.



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