30.6.10

Diário de 'Soccer City' (#19)

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Ambição. É uma maneira comum de abordar o jogo. Dir-se-á que nos faltou ambição, porque não tivemos a ousadia de discutir o jogo de forma mais aberta desde o inicio. Não que fosse preciso, mas a última meia hora provou precisamente que discutir o jogo, frente à Espanha, é algo que não estava ao nosso alcance. É por isso que não hesito em riscar “ambição” como a falha fulcral de Portugal no jogo. Em vez disso, opto por “qualidade”. O que faltou a Portugal foi qualidade. Qualidade colectiva, isto é. Qualidade para poder ter ambição e para poder escolher discutir o jogo. Sei que os oitavos de final e o “umzerinho” levarão a óptica resultadista a chutar para o lado no que respeita às consequências do que se viu. A meu ver, no entanto, em 2010 a qualidade foi medíocre de mais para ser ignorada.

Sobre o jogo, e acho justo começar por dizê-lo, não tenho nada a apontar aos jogadores. Individualmente deram tudo, estiveram concentrados e determinados. Infelizmente, um jogo que foi dividido em termos de oportunidades durante 1 hora acabou por se desfazer em 2 minutos de desequilíbrio emocional. Não teve a ver com as substituições, que nada alteraram em termos tácticos, mas sim com ocasião de Llorente na marca dos 60’. Foi esse momento que despertou os espanhóis para o ascendente que lhes valeu a vantagem.

O problema, claro, veio a seguir. Quando Portugal deixou de poder esperar, de poder controlar o espaço e a ter de dominar a bola. Aí, tudo foi diferente. “Tiki-taka”, posse, passes... chame-se o que se quiser. Meia hora de total impotência, e a prova de que a Portugal nada mais restava do que abordar o jogo como abordou e esperar poder ter a sorte de marcar primeiro. Infelizmente não foi assim.

Qualidade
Mas vamos então à qualidade de que falei inicialmente.

- Diz-se que Portugal defendeu bem, o “score” confirma-o, é verdade, mas esconde também o outro lado da questão. Mais do que bem, Portugal defendeu muito. Esteve sempre equilibrado, arriscou o minímo em posse e contou com bons jogadores, do melhor que há na prova em termos defensivos. Colectivamente e tacticamente, porém, tenho mais criticas do que elogios. A Portugal exigia-se que fosse capaz de defender alto, de subir linhas e de pressionar o adversário desde o primeiro passe. Viram o que aconteceu quando a Espanha resolveu trocar a bola?

- Passamos ao momento ofensivo e, para tal, talvez o melhor seja olhar para a Alemanha. Não tem nenhum desequilibrador marcante em termos individuais e, apesar disso, é das equipas que melhor ataca neste mundial. Porquê? Porque a Alemanha, ao contrário da maioria das equipas, tem um verdadeiro modelo de jogo. Trabalhado de forma colectiva e com rotinas conhecidas e interpretadas por todos. A Portugal há muito que isto é pedido, mas infelizmente dá ideia que o modelo português se resume a um sistema. Por isso, depende quase a 100% da inspiração das suas individualidades.

- Outro aspecto que não foi corrigido, foi a situação de Ronaldo. Continuamos a criticar o jogador, quando o erro está na equipa e na forma incompetente como tira partido de um dos mais decisivos jogadores do futebol mundial. Percebe-se a ansiedade de Ronaldo em ser decisivo. Mal ganha a bola tenta acelerar, driblar ou rematar. Esteja a 15 ou 50 metros da baliza. Isto não acontecia no Manchester, nem acontece em Madrid. Acontece em Portugal, e acontece porque, em vez de se reproduzirem as condições e exigências em atinge o sucesso, época após época, insiste-se em pedir-lhe que seja uma espécie de santo milagreiro do futebol nacional, coisa que obviamente não pode ser.

- Por fim, falar de um pormenor que me parece sintomático. Ontem falei da numeração holandesa e do planeamento de um modelo e de uma forma de jogar. Queiroz chegou a falar da importância das 3 semanas e eu, embora não convencido, achei que valia a pena acreditar (na verdade, não havia alternativa!). O que sucede é que Portugal adoptou, em 2 dos 4 jogos que realizou, uma estratégia completamente diferente daquela que havia sido testada em todos as ocasiões anteriores. Uma estratégia que notoriamente precisava de isolar Ronaldo na frente e ter profundidade nos flancos, ao estilo do que aconteceu várias vezes no Manchester. Ora, Queiroz não só levou poucos extremos, como se deu ainda ao luxo de substituir Nani com Amorim. Frente à Espanha, Portugal não tinha ninguém indisponível, mas também não tinha gente suficiente para desempenhar de forma ideal as funções previstas na estratégia adoptada. O que me diz tudo isto? Que Portugal não planeou nada disto e que apenas o decidiu porque, como todos percebemos, não foi capaz de ter qualidade para mais.


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29.6.10

Diário de 'Soccer City' (#18)

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Já se desconfiava, e o caminho começa confirmar isso mesmo: entre Brasil e Holanda, sairá um finalista do Mundial 2010. Os dois defrontam-se agora num dos mais interessantes embates dos quartos de final, e seja quem for o vencedor recolherá sempre amplo favoritismo na passagem à final. Principalmente se for o Brasil. Enfim, antes disso tudo vale a pena olhar um pouco para os jogos do dia. Mas vale apenas por razões de reflexão sobre o que se viu, porque quanto a emoção, confesso, não poderia ter havido dia mais previsível do que o terceiro dos oitavos de final...

Holanda – Eslováquia
Sobre o primeiro jogo, de facto, não tenho muito a dizer. A Eslováquia foi dos que menos fez para chegar aos oitavos e se há alguma coisa que este Mundial nos tem ensinado é que é mesmo preciso jogar para ganhar, poque milagres não tem havido. E assim foi, novamente.

Mas quero deixar algumas notas sobre o candidato, a Holanda: (1) Primeiro, para reforçar a ideia de que é uma equipa que, tendo as suas principais debilidades na cultura defensiva – colectiva e individual – das suas unidades mais recuadas, não me parece das piores deste Mundial. Nem de perto, nem de longe. À beira de formações como o Gana, o Uruguai ou a Argentina, a Holanda é uma perfeição defensiva. (2) Segundo, para destacar o regresso de Robben. Apesar da qualidade individual das suas unidades ofensivas, a verdade é que o futebol holandês raramente tem merecido grandes elogios pelo que faz quando tem a bola. Robben é um dos jogadores mais desequilibrantes do futebol actual. Adora o risco, e dos seus pés saem várias perdas e transições. O que sai também são lances decisivos com uma frequência assustadora. Será o “abre latas” da laranja. (3) Finalmente, referir uma curiosidade. A Holanda jogou numerada de 1 a 11. Não sei se mais alguma equipa o fará neste mundial (duvido!), mas este dado não é uma mera curiosidade. Basta recordar a passagem de Adriaanse pelo Porto, para perceber que os números são mais do que um capricho. São também uma indicação do posicionamento táctico de quem os traz nas costas. É uma curiosidade que vale o que vale, mas que indica, pelo menos, que as coisas não são feitas por acaso na equipa holandesa.

Brasil – Chile
O Chile até poderia ser das formações mais interessantes em alguns aspectos deste Mundial, mas se me perguntassem qual o embate mais previsível dos oitavos, não hesitaria em apontar para este.

É bonito entretermo-nos com um futebol técnico e com boa qualidade colectiva quando em posse, mas torna-se para mim difícil perceber o que espera Bielsa de um jogo contra o Brasil, mantendo certas debilidades crónicas na sua equipa. Será que ele acreditava ter alguma hipótese de ganhar? Francamente, não entendo...
O Brasil é uma equipa obcecada com o equilíbrio táctico, que adora jogar em transição e que procura aproveitar a eficácia das suas investidas ofensivas para ganhar vantagem. O Chile, para os brasileiros, era o adversário perfeito e não é por acaso que quase sempre sai goleado. Sai e sairá de novo, se voltar a repetir a receita...

Comecemos pelo primeiro golo. Já o tinha escrito há muito e era improvável que a factura não acabasse por ser paga. Como é que é possível pensar em fazer carreira num Mundial com uma equipa que não tem um único jogador utilizado acima do 1,85m, e onde apenas 5 dos 14 que jogaram ultrapassam, ainda que marginalmente, o 1,80m?! Não admira que sofressem um golo pelo ar, e não admiraria que fosse também essa uma via privilegiada para o Brasil marcar a diferença caso o nulo se tivesse mantido por mais tempo.

Mas há mais... Se o Brasil gosta da transição, nada como uma equipa que, apesar de boa em posse, não percebe a importância dos equilíbrios tácticos e que assume um risco absurdo para a natureza do jogo que está a jogar. Perfeito para Dunga. Foram 3, e foram apenas porque os brasileiros resolveram trocar a eficácia pelo brilhantismo individual na conclusão de algumas transições quando jogo já estava mais do que sentenciado.

Diria que o Chile esteve algures entre o sofisma e o conto de fadas, mas inclino-me bem mais para a segunda hipótese. Mostrou-nos uma ideia bonita e coerente, sem dúvida, mas nunca com potencial para enganar alguém. Todos sabíamos que, por mais bonita que fosse a princesa, nenhum sapo viraria príncipe...



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28.6.10

Diário de 'Soccer City' (#17)

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O dia mais importante do Mundial até ao momento. Teve entretenimento, emoção e grandes estrelas. Todos os condimentos para ser um grande dia para o futebol. O que todos sabemos, porém, é que este dia ficará na História dos mundiais como um dos mais polémicos de sempre. De repente, o mundo deu de caras com as fragilidades do jogo, e com erros humanos que – ao contrário do que muitas vezes se diz – não só não deviam fazer parte do jogo, como seriam facilmente evitáveis. Como sempre, não vou falar de arbitragens, mas, porque não dá para contornar um “monstro” destes, não poderia deixar de começar por este apontamento. Afinal, este até poderá ter sido um excelente dia para o futebol. Assim alguém queira...

Alemanha – Inglaterra
Polémicas à parte, creio que já poderemos anunciar um vencedor: Joachim Low. Ainda vou bem a tempo de ser surpreendido por algum outro concorrente, mas duvido seriamente que tal aconteça. Esta Alemanha não tem nenhuma estrela do futebol mundial, e pode até dizer-se que tem algumas carências em determinadas posições. Pode dizer-se, por isso, que está longe de ser uma potência em termos individuais, mas é-o seguramente em termos colectivos. E isso deve-se àquele que é o treinador com melhor trabalho neste mundial.

No lançamento do jogo tinha falado da maior qualidade colectiva dos alemães, mas não evitei deixar a porta aberta para um brilharete inglês. Pela seu potencial e pela forma como chegou até este mundial. Mais uma vez, porém – e é um dado comum nesta prova – foi a lógica do jogo que vingou. Ou seja, ganhou quem era melhor e não tivemos nenhuma surpresa neste sentido.

Como pode a Inglaterra ser tão vulnerável em posse? Como pode ter tantas dificuldades em encontrar soluções de passe? Como pode um central como Terry ter uma abordagem tão desastrosa a uma primeira bola? Como pode uma defensiva perder-se tão facilmente com as movimentações germânicas? Como pode Johnson não fazer falta sobre Schweinsteiger numa situação de 3x2 e quando ainda não tinha um cartão amarelo? Como pode Barry jogar? Tudo perguntas para Capello. Quanto a mim, para todas elas tenho a mesma resposta: não devia poder.

Sobre a Alemanha, a confirmação de uma qualidade que não enganou desde o primeiro jogo – a Sérvia não foi mais do que um acidente. Os melhores, para mim, voltaram a ser Schweinsteiger e Ozil. A espinha dorsal da equipa, e a grande injecção de qualidade desde o Euro 2008. Desta vez, porém, há também que deixar uma palavra de realce para o notável jogo do tridente ofensivo: Podolski, Klose e Muller. Todos eles tiveram uma movimentação excelente, permutando de forma notável com as movimentações de Ozil, e abrindo crateras numa defesa inglesa que sucumbiu sempre por onde era mais proibido: a zona central.

Argentina – México
E a Argentina passou mais uma barreira. Não começou por ser fácil, mas acabou por sê-lo realmente. O México tinha tudo para fazer um jogo mais inteligente e para explorar melhor as fragilidades defensivas dos argentinos. Até começou por fazê-lo, mas, creio, acabou por pagar a factura de não ter um plano de jogo tão claro como aquele que apresentou frente à França.

Não que esperasse uma grande qualidade táctica dos mexicanos, mas de facto pensei que pudessem fazer melhor. Franco não jogou de inicio e a possibilidade de o utilizar como “pivot” para as primeiras bolas não foi repetida. O facto de Messi jogar demasiado baixo e decidir em zona de construção como se estivesse nas imediações da área, também não fez parte das prioridades no plano estratégico mexicano. Por fim, claro, há que falar de mais um erro próprio de divisões amadoras. Algo que não pode acontecer, mas que se tornou numa espécie de lugar comum neste Mundial.

Tudo isto foi demasiado para que os mexicanos pudessem sobreviver, e assim permanece viva a pergunta: será possível esta Argentina ser campeã Mundial?



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27.6.10

Diário de 'Soccer City' (#16)

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Terão faltado as estrelas, os grandes nomes, mas, para quem gosta de misturar futebol com entretenimento, terão sido bons os primeiros jogos a eliminar do Mundial 2010. Pelo menos, o segundo foi. Pessoalmente, também gosto de ver velocidade e emoção, mas não prefiro esses condimentos à qualidade. Gostos! Ora, é precisamente no que respeita à qualidade que este Mundial – e este é um comentário que me recordo ter repetido durante o último Europeu – não pode deixar de desiludir. Talvez fosse expectável, mas é impossível não se sentir o choque qualitativo entre clubes e selecções. E é por aqui que quero começar por pegar no comentário aos dois primeiros embates dos oitavos de final.

Do Uruguai, já se sabia: a qualidade individual é o alicerce para o sucesso, enquanto que as limitações colectivas serão sempre o seu grande obstáculo. Não que os uruguaios tenham entretanto repetido os erros tácticos do jogo inaugural, mas porque não conseguem nunca deslumbrar em termos colectivos. E, mais uma vez, frente à Coreia foi assim. Apesar de ter tido o jogo sempre a seu favor e contar, claramente, com mais qualidade, o Uruguai raramente dominou o jogo. Pelo contrário, consentiu que uma frágil Coreia – e já vou a ela – mandasse continuamente no jogo, que empatasse e que chegasse, até, a ameaçar a reviravolta. Não aconteceu porque, mais uma vez, a qualidade individual falou mais alto.

Sobre os coreanos, confesso, tinha algumas expectativas. Não tanto em termos individuais, mas em termos colectivos. A verdade é que a Coreia desiludiu e pagou bem caro esse preço. Jogar contra um adversário mais forte individualmente exigiria mais concentração e eficácia defensiva para, primeiro, não oferecer nada ao adversário e, depois sim, tentar tirar partido dos erros que acontecessem do outro lado. Ora bem, a Coreia começou cedo por fazer o oposto do que precisava. Ofereceu um golo de forma primária e depois – muito devido às limitações da generalidade dos seus jogadores – acabou por não conseguir compensar esse prejuízo.

Mas a história da eliminação coreana repetiu-se apenas poucas horas depois. Talvez não fosse tão claro o diferencial entre as individualidades, mas a verdade é que também os Estados Unidos partiam com a vantagem teórica de serem mais consistentes. Ora, essa foi uma ilusão desfeita logo no primeiro golo. Uma perda em posse – algo normalmente raro, mas que tem sido comum neste Mundial – e uma factura bem cara assinada pelo “Prince” ganês. Nada mais delicado para um jogo a eliminar.

A verdade é que o Gana mostrou também que de consistente nada tem. Não soube jogar com a vantagem no jogo quando teve a bola, nem tão pouco evitar o acelerar do ritmo por parte dos americanos. E este foi o ponto positivo da partida: o ritmo. Os americanos colhem aqui a maior parte do mérito, pela forma como jogaram sempre simples, rápido e objectivo. É claro que deveria ter havido uma resistência mais inteligente, mas todos já vimos neste Mundial situações em que equipas mais fortes conseguiram uma reacção bem menor do que aquela que foi protagonizada pelos americanos. Tanto, que pareciam ser eles – e de novo – os candidatos à qualificação, aquando do prolongamento. Mas a história repetiu-se. Má abordagem defensiva e o preço do talento africano que, dessa vez, foi demasiado para o que os americanos podiam pagar.

Todos sabemos que estas fases se determinam em grande parte pelos erros cometidos, mas se continuarmos a este ritmo, este Mundial poderá ser recordado mais como um festival de oferendas do que como qualquer outra coisa...



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26.6.10

Diário de 'Soccer City' (#15)

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Talvez seja por tanto terem escutado as profecias da desgraça dos velhos do Restelo. Ou, então, talvez seja apenas do fado que nos está no sangue. A verdade é que este empate frente ao Brasil, serve para a maioria como uma vitória. Um alívio. Tanto, que até o próprio seleccionador afirma ter visto a sua equipa jogar de “smoking”. É verdade que o Brasil é uma equipa de potencial superior, e que um empate frente à “canarinha” nunca será um mau resultado. É verdade, também, que o jogo foi dividido e que não estivemos mais longe de o ganhar do que o Brasil. Para mim, porém, custou-me ver o jogo português, especialmente na primeira parte. Venho dizendo que Portugal não pode esperar que o nível dos seus últimos 15 anos se eternize no tempo, e que o mais normal é que voltemos a um patamar mediano, mais tarde ou mais cedo. Ainda não lá chegamos, mas, confesso, frente ao Brasil dei por mim a concluir que já recuamos uns bons degraus em relação a anos anteriores. E falo principalmente da mentalidade.

Começo por clarificar a minha posição. Não há nada de errado em definir como prioridade o equilíbrio táctico ou em adoptar uma estratégia de transição frente a um adversário com o potencial técnico dos brasileiros. Creio, até, que é o caminho mais curto para a vitória. O problema, porém, é que Portugal tem nível suficiente para ser mais ambicioso na qualidade que tenta empregar em cada momento do jogo. Não era preciso ter medo de jogar quando ganhamos a bola, ter medo de trabalhar a posse com critério e qualidade, ou pedir a Ronaldo que tente rematar de 40 metros de cada vez que tivesse oportunidade para tal. Não era preciso, porque Portugal ainda vale bem mais do que isso e porque pode e deve ter mais ambição e exigir mais do seu jogo. O que vi naquela primeira parte foi um “flashback” dos tempos em que éramos Futre e mais dez – para não invocar outros tempos ainda piores – e em que coleccionávamos os cromos dos outros nas grandes competições. Felizmente que as coisas mudaram alguma coisa na segunda parte...

Enfim, não quero ser ingrato e exigir o impossível da Selecção, mas continuo a não encontrar um leque substancial de equipas que nos sejam claramente superiores. Uma ideia que trouxe comigo para o Mundial e que não foi entretanto desfeita. Espero agora que a má fortuna do sorteio – já sabíamos que teríamos de contar com ela – não sirva de desculpa para não sermos ambiciosos. Espero que Portugal seja inteligente e não utópico na forma como escolhe a sua estratégia, e posso facilmente prever que será muito semelhante àquilo que fez frente ao Brasil. Em traços gerais, parece-me bem. O que desejo, porém, é que não regrida demasiado depressa no tempo. Que se valorize e que valorize o seu jogo. Que apresente um futebol confiante e não aquele complexado da primeira parte frente ao Brasil. Se assim for, não tenho duvidas, o favoritismo espanhol depressa deixará de ser uma certeza.



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25.6.10

Diário de 'Soccer City' (#14)

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Seria seguramente um daqueles casos em que o futebol dizia uma coisa e as pessoas adivinhavam outra. Ou seja, apesar de todos termos visto o pior possível da Itália nos primeiros dois jogos, duvido que alguém não estivesse convencido da sua qualificação. Eu estava. Acabou por vingar a lógica do jogo, e numa espécie de embate da mediocridade, foi a Itália quem levou a pior. Levou, e justamente. Tal como os franceses – com quem partilharam a final há 4 anos – o seu futebol não deixará qualquer réstia de saudade ao torneio africano. A lamentar, creio, só mesmo o espectáculo deprimente que é ver talento a ser desperdiçado no mais importante dos palcos. Com isso, enfim, conviverá a bem História, e, como tal, também nós deveremos ser capazes de calmamente o fazer. Vale muito mais a pena continuar a olhar para o que ainda aí vem e, claro, para o que de bom se tem visto.

Holanda – Eslováquia
De repente, com tanto pela frente, a Holanda sobe em flecha no ranking de favoritos. E nada tem a ver com as indicações do seu futebol. Coisas do calendário e da, agora mais clara, caminhada par “Soccer City”. O futebol dos holandês, em boa verdade, pouco ou nada iludiu nos primeiros 3 jogos. Tem talento de sobra do meio campo para a frente e algumas reticências na forma como defende. É, digamos, uma versão “soft” do caso argentino. Não tem os desequilibradores de Maradona – embora falte enquadrar Robben – mas também não tem, nem de perto, a inconsistência defensiva dos argentinos. O caminho foi-lhes aberto e eles têm capacidade mais do que suficiente para o percorrer. Veremos se o farão...

Quanto à Eslováquia, confesso, surpreende-me mais a sua qualificação do que a eliminação da Itália. Isto porque a prestação dos eslovacos havia sido – e recuperando o termo – nada mais do que medíocre. Confunde-me, por exemplo, como é que Miroslav Stoch foi suplente desta equipa, mas foi sobretudo a sua limitação ofensiva nos primeiros dois jogos que me desiludiu. Talvez tenham recuperado alguma capacidade depois do “thriller” com Itália. Assim espero, porque senão os oitavos serão apenas uma formalidade para a “laranja”.

Paraguai – Japão
Um cenário idêntico ao do primeiro jogo dos oitavos, entre Uruguai e Coreia. Os sul americanos recolhem favoritismo e terão mais qualidade individual. Resta saber, porém, se isso chegará, ou se serão os asiáticos a fazer valer a sua capacidade de trabalho e organização. Aqui, porém, a recente performance frente à Dinamarca japonesa acabará por equilibrar a balança do favoritismo. E justamente, parece-me.

Para mim, de facto, o Japão é uma das grandes surpresas – agradáveis, isto é – da primeira fase. Uma equipa que em todos os jogos se apresentou com uma organização defensiva inesperadamente boa e que, ao contrário de outras, não se limita a esperar pelo adversário. Os japoneses não fazem apenas um constrangimento zonal sobre o receptor do primeiro passe, mas também um constrangimento temporal sobre o portador da bola. Ver uma equipa subir progressivamente no campo e obrigar o adversário a recuar é algo que aprecio. Mesmo contra a Holanda, em que acabaram por perder, os japoneses não deixaram jogar e forçaram a posse holandesa, repetidamente, a andar para trás.

O problema do Japão está no que acontece a seguir. Ou seja, na transição defesa-ataque. Raramente a equipa consegue soltar-se ofensivamente e ser uma ameaça em jogo corrido. Frente à Dinamarca, por exemplo, foi preciso usufruir de lances de bola parada para ver a equipa subir colectivamente no campo. Isto, claro, será sempre limitativo, e cada vez mais o será com o andar da prova.

Mas não se pode falar do Japão sem falar de Keisuke Honda, uma das revelações do torneio. Um jogador que andou pela segunda divisão da Holanda e que conheci na primeira metade desta época, quando ainda jogava no modesto Venlo. O seu talento – como médio criativo e não referência ofensiva como joga na Selecção – não passava despercebido, apesar da modéstia do seu clube. Tanto, que o CSKA pagou para cima de uma dezena de milhões pelo seu concurso. É assim nos dias de hoje. Honda pode ser uma revelação do mundial, um nome desconhecido para a maioria, mas já ninguém o apanha por meia dúzia de trocos...



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24.6.10

Diário de 'Soccer City' (#13)

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Jogado o segundo dia de decisões na fase de grupos, estão já definidos 4 jogos dos oitavos de final. Apesar de ser a rodada das decisões, a verdade é que poucos motivos há para olhar muito para os derradeiros embates da fase de grupos. As “fotografias” das equipas já estão recolhidas, e a cada um dos apurados abre-se também a luz sobre o caminho que a espera até à desejada final. É por isso que o interesse recai, nesta altura, muito mais em olhar para a frente do que para trás, e é por isso também que aproveito o momento para deixar algumas notas sobre os emparelhamentos já definidos. Antes, porém, fica a nota: entre Uruguai, Coreia, Estados Unidos e Gana sairá um improvável semi finalista. Este cruzamento apetecível está ao alcance do 1º classificado do grupo G – o de Portugal. Juntando este aliciante, à probabilidade da Espanha ser primeira, fica claro que o Brasil-Portugal pode vir a tornar-se num embate bem mais importante do que à partida possa parecer.

Uruguai – Coreia do Sul
Escrevi sobre o Uruguai no primeiro jogo, e dele não disse boa coisa em relação à qualidade colectiva. Talento não falta no Uruguai, e essa capacidade deverá ser suficiente para merecer o favoritismo. Sem lhe retirar esse crédito, porém, volto a realçar as minhas reservas sobre a organização dos sul americanos. A este aspecto junto um outro, o da mentalidade, para concluir que, apesar de favorito, o Uruguai deve manter os pés bem assentes na terra se não quiser estragar uma oportunidade de ouro que tem para regressar aos grandes palcos de uma fase final do campeonato do mundo.

Estados Unidos – Gana
É-me difícil falar deste jogo, porque o acho realmente fraco. Há bons jogadores em ambos lados e no caso dos Estados Unidos há um pouco mais do que isso também. No entanto, não vejo em nenhum dos conjuntos uma grande qualidade. Apesar de haver mais casos de talento no lado africano, parece-me que a organização e experiência dos americanos justifica o favoritismo. Aliás, poderemos vir a assistir a uma histórica caminhada de um destes conjuntos.

Alemanha – Inglaterra
Ora aí está o prato forte. Um jogo destes vale quase por todos os oitavos de final – embora se adivinhem outros embates titânicos. A Alemanha é, a seguir, à Espanha a selecção que mais me agrada do ponto de vista colectivo. Mas pode não bastar. Ozil e Schweinsteiger são as unidades essenciais deste conjunto e perder alguma delas, creio, será um golpe que dificilmente deixará de abalar seriamente as pretensões germânicas. Do outro lado, temos um caso quase oposto. A Inglaterra tem algumas das unidades mais determinantes do futebol actual, mas em falhado colectivamente. As coisas melhoraram frente à Eslovénia. Rooney reapareceu, Defoe ganhou o lugar e Gerrard voltou a provar que a discussão em torno da sua utilidade à esquerda não é mais do que um dos habituais sofismas de quem procura justificações imediatas para problemas mais complexos. Mais, Milner fez lembrar Beckham a cruzar e terá, também ele ganho um lugar. O colectivo de Capello não é brilhante mas pode estar a ganhar uma forma. Acredito que a História nunca se repete sempre e, não sei porquê, parece-me que pode ser desta vez que a sorte da Inglaterra possa mudar. A ver vamos...

Argentina – México
Pode a Argentina ser campeã?! A pergunta pode parecer tonta para a maioria. Afinal, poucas selecções terão entusiasmado tanto o grande público como a ‘albiceleste’. Para mim, porém, esta Argentina não pode logicamente ganhar o mundial. Não pode, porque não percebe o que são equilíbrios tácticos, porque facilmente se alonga no campo e abre o campo de ataque ao adversário, porque decide mal e arrisca excessivamente em zonas onde não o pode fazer. Para mim, esta Argentina pode cair a qualquer momento e parece-me impensável que esse momento não chegue até ao último apito da prova. Seria um grande contra senso, um grande equívoco, diria mesmo. Mas todos sabemos que no futebol a bola é bem redonda, e poucos a tratarão tão bem quanto os argentinos. É por tudo isto que a dúvida permanece viva: será possível?!



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22.6.10

Diário de 'Soccer City' (#12)

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Da tormenta à euforia, que não há tempo para perder em boas esperanças. Será assim que a maioria dos até aqui pessimistas encararão esta viragem do cabo da Selecção. Uma analogia óbvia, dada a simbologia do local, mas que faz também todo o sentido em relação ao estado de ânimo dos adeptos. A volatilidade emotiva do costume, portanto. Pessoalmente, não estou particularmente entusiasmado com o que se passou frente à Coreia. Agradado com o desfecho, é certo, mas não crente que este jogo tenha mostrado algo de significativamente diferente em termos qualitativos. Será tão errado alicerçar esperanças neste resultado, como o exagerado catastrofismo que assistimos até aqui. Como quase sempre, é algures no meio que está a virtude.

Confesso a minha surpresa com o que se assistiu desde o primeiro minuto. Esperava uma Coreia conservadora, “afundada” no campo e de risco mínimo. Algo se terá passado com o ego dos Coreanos que, tal como o resto do mundo, terão valorizado excessivamente o surpreendente placar tangencial frente ao Brasil. Só assim se explica o que se viu. A verdade é os Coreanos (como os neozelandeses, por exemplo) não são deste nível e só podem sobreviver com algum êxito se juntadas 2 condições. A primeira é a humildade própria. A segunda é a incompetência colectiva do adversário. Ora, os coreanos perderam a primeira e com isso foram incapazes de testar, sequer, a segunda condição. Confesso que para meu contentamento, diga-se.

A primeira parte de Portugal foi má. Não há outra palavra. Com os Coreanos estendidos no campo, a Portugal nem era preciso ser particularmente forte no pressing, como ontem acreditava. Bastava organização, claro, e dar prioridade ao critério na posse. Critério que levasse Portugal a chegar de forma apoiada e segura ao último terço e, aí sim, arriscar as roturas decisivas. Assim, Portugal poderia aproveitar as debilidades defensivas dos Coreanos no seu último reduto e, não menos importante, estar bem preparado para eventuais transições ataque-defesa. Seria um jogo de domínio total.

O que Portugal fez, porém, foi dar prioridade à velocidade sobre o critério. Decidiu mal e foi ainda traído pelas condições em que o jogo se disputou, acumulando erros técnicos invulgares em alguns jogadores. Com isto, Portugal permitiu um jogo de transições, onde os Coreanos conseguiam tirar partido da forma estendida como se apresentaram. Um desperdício, acredito eu, porque como o jogo estava parece-me que em vez de 1, Portugal poderia ter ido facilmente para o intervalo com mais 2 ou 3 golos na bagagem.

A verdade é que – e pensando bem – talvez até tenha sido bom o que se passou na primeira parte. Os remates dos coreanos e a sua desvantagem apenas tangencial terá reforçado a crença coreana na sua própria capacidade. Uma ilusão que se transformou um verdadeiro “kamikaze” táctico. Portugal, porque é uma selecção ao nível das melhores em termos de potencial individual, facilmente colheu os frutos e terá praticamente garantido um apuramento que se adivinhava complicado. Isto, claro, a acreditar que os coreanos tenham aprendido a lição do que se passou, porque se voltarem a repetir a “graça”, não é de excluir a hipótese de novo “capote” frente aos marfinenses. Esperemos que recuperem o juízo...

Chile e Suíça
Suíça e Chile era um embate curioso e interessante por juntar as 2 selecções secundárias (permitam-me a expressão) que mais competência apresentam, mas também por o conseguirem ser em filosofias radicalmente diferentes.

Os chilenos apelam à sua filosofia do gosto pela posse e pela bola. Procuram recuperá-la rapidamente e depois circular com velocidade. Procuram o domínio, para além do controlo. Tudo isto faz sentido pela qualidade técnica acima da média dos seus intérpretes, mas pessoalmente tenho de levantar algumas reticências em relação à sua capacidade de se impor perante adversários tecnicamente mais fortes. Como no futebol só há uma bola, não basta ao Chile ser forte com ela, é preciso também ser forte quando não a tem, e tenho dúvidas se o será. Depois, há ainda a consistência na zona decisiva. Jogar com uma equipa tão baixa e com centrais adaptados não me parece nada bom indício. Dúvidas que não poderiam ter melhor teste do que o adversário que se segue: a Espanha.

A Suíça, por seu lado, repetiu a estratégia frente à Espanha e, pode dizer-se, estava a resultar bem até à expulsão. Os suíços não tiveram mais bola, nem criaram grande coisa, é certo, mas também não era a isso que se propunham até aquela altura. A zona suíça consegue ser curta e alta como mais nenhuma o foi neste mundial. Não é perfeita, e comete até vários erros, mas a nível de selecções é difícil alguém fazer melhor. Isto, enquanto tiveram 11 jogadores, porque depois a Suíça reduziu aquilo que era uma zona defensiva a uma simples linha defensiva. Ao contrário do que acontecera na primeira parte, onde mantivera os chilenos a dezenas de metros da sua baliza, na segunda parte a Suíça acabou por “encostar” e, assim, não evitar o sufoco chileno. Não digo que façam tanto – seria preciso um novo e improvável alinhamento de estrelas – mas esta Suíça, se passar, tem capacidade para dar umas dores de cabeça ao bom estilo grego de 2004.

Acabou por ganhar o Chile, mas por uma margem curta para aquilo que produziu depois da expulsão. Um desperdício que, aliás, repetiu depois do embate com os hondurenhos e que lhe retira qualquer favoritismo à qualificação, apesar da liderança destacada que possuí. Enfim, será um final interessante de seguir num grupo onde só as Honduras destoam em termos de qualidade.



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