13.8.10

Paraíso para Deco

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Cada um terá o seu sonho, mas poucos conseguem tornar real a imagem que os acompanha durante toda a carreira. A imagem de um final ideal aos olhos dos próprios. Deco, sabe-se agora, será um desses raros privilegiados. Escolheu o regresso ao futebol quente e escolheu bem. Não só porque nenhum outro destino valorizará tanto as suas características como, mais ainda, nenhum outro clube poderá dar tanta côr ao futebol de Deco como o Fluminense actual.

Para um veterano criativo, não há melhor do que o futebol brasileiro. Aliás, estou por conhecer uma cultura que valorize tanto o pormenor técnico num jogo de futebol. Um passe ou um drible podem ser suficientes para esquecer tudo o resto, tanto para comentadores como para adeptos. Não é incomum, aliás, vermos veteranos esgotados a pedir substituição, enquanto o treinador é vaiado por aceder ao pedido do craque. Foi assim com muitos e é-o ainda com Ronaldo ou Petkovic, entre muitos outros. Esse é o ambiente que Deco encontrará. Um ambiente profundamente exigente - desengane-se quem achar que a pressão é menor - mas com uma tolerância infinita para a criatividade. Estão a ver Deco neste contexto, não estão?

Mas, se o Brasil pode ser o paraíso para o futebol de Deco, o Fluminense será, provavelmente, a melhor garantia de que não será já que o “mágico” deixará de ganhar. Depois de um longo período de crise, o “Flu” emergiu no momento mais inesperado, recuperando espectacularmente no final do Brasileirão 2009 e virando a página para se tornar num dos mais sérios candidatos ao título de 2010. Muricy Ramalho é o treinador de maior sucesso no presente do futebol brasileiro, e Fred um dos mais consagrados atacantes do campeonato. Mas é mesmo no meio campo criativo que este “Flu” mais promete entusiasmar. Deco vai formar uma dupla de “baixinhos” com Dario Conca, um dos mais interessantes criativos do futebol sul americano da actualidade. O Maracanã vai escaldar!



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11.8.10

Como o Porto ganhou a Supertaça (II) - a concentração

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Ontem escrevi sobre a vertente estratégica do sucesso portista na supertaça, altamente alicerçado naquilo que o seu pressing conseguiu fazer. O segundo “capítulo” da explicação da superioridade azul e branca não pode ser dissociado do primeiro, e da interpretação dessa estratégia montada por Villas Boas: a concentração.

Tanto na análise ao jogo como ontem carreguei na tecla da concentração e da intensidade mental com que ambas as equipas abordaram o jogo. Isso reflectiu-se na forma como cada jogador se entregou a cada lance e teve, no final, um forte pendor para o lado portista, com o Benfica a acumular perdas enquanto que o Porto coleccionava recuperações que lhe proporcionavam momentos de transição. Nos exemplos que trouxe sobre o pressing, encontramos erros evitáveis de Airton, Aimar e Cardozo. Hoje, trago outros exemplos, noutras situações.

A concentração pode parecer um tema pouco interessante e óbvio, mas é tudo menos irrelevante no que se passa em campo. Nenhuma estratégia pode ter grande sucesso se não for acompanhada por uma boa dose de disponibilidade mental por parte dos jogadores. Disponibilidade essa que se reflecte na velocidade, acerto e agressividade das suas acções. No jogo da supertaça, mais do que a estratégia, o Porto teve uma postura muito mais séria e comprometida com a importância do desafio.

O Benfica melhorou com o tempo, mas os primeiros minutos mostraram que a equipa entrou no jogo ainda em ambiente de pré época. Uma preparação mental que não produziu bons resultados e que, diga-se, já na época anterior causou alguns dissabores em alguns jogos importantes, onde o Benfica falhou no objectivo de se superar a si próprio e à sua própria, e já de si elevadíssima, qualidade.



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10.8.10

Como o Porto ganhou a Supertaça (I) - o "pressing"

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Na análise que deixei aqui ontem, apontei alguns motivos essenciais para o feito do Porto, não só de vencer o jogo, mas de o fazer de forma clara e categórica. Hoje e amanhã trarei vídeos que complementam essa análise. Entre concentração, estratégia e eficácia – os 3 items que distingui como essenciais para o sucesso – abordarei apenas os dois primeiros nestes vídeos, até porque a eficácia é si mesmo auto explicativa.

Começando então pela vertente estratégica do plano de Villas Boas, temos o pressing. É curioso que não foi preciso mais do que 1 jogada para verificar essa intenção do treinador portista. Curiosamente, também, não foi preciso mais do que esse exemplo, logo a seguir ao pontapé inicial, para ver também a primeira perda de bola encarnada.

Como expliquei ontem a estratégia passou por bloquear a saída de bola por David Luiz e força-la a acontecer por Luisão e Airton. Para além da diferença de qualidade entre os intérpretes, esta limitação tornou previsível a saída de bola, facilitando a tarefa da zona de pressão que esperava na linha média (daí ter dito que o pressing não foi especialmente alto, ao contrário do que chegou a dar a entender). Em vez de se distribuir a toda a largura do campo, o bloco portista pode concentrar-se na meia-esquerda e assim criar uma zona mais densa, onde havia menos espaços para entrar.

Esta estratégia foi implementada especialmente na primeira parte, perdendo agressividade com o passar dos minutos e com o baixar do bloco portista, em função do tempo e do resultado. Mas durante o tempo que foi aplicada teve notáveis resultados e com um peso enorme no balanceamento do jogo.

Claro que para que não basta explicar a estratégia para justificar o resultado da mesma. Houve um diferencial de intensidade e concentração, na forma como o erro foi facilitado pelos jogadores do Benfica e, por outro lado, como a pressão foi feita com grande intensidade pelos jogadores do Porto – aqui o mérito vai para o losango formado por Falcao, Belluschi, Moutinho e Fernando, que foram os mais activos nesta estratégia. Outra critica que se pode fazer ao Benfica é que em termos estratégicos não soube reagir a esta adversidade. Não houve, nem um plano alternativo em termos colectivos para a saída de bola, nem 1 elemento com personalidade para emergir nesse momento. Pelo vídeo, percebe-se também que se tal tivesse acontecido, provavelmente o desfecho teria sido outro, já que o Porto sentiu sempre mais dificuldades sempre que o Benfica conseguiu forçar a construção pela esquerda.



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9.8.10

Supertaça: números e análise

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Começou com uma surpresa. Não pelo desfecho, nem sequer pelo resultado, mas surpresa, porque dificilmente alguém preveria uma sobreposição tão expressiva daquele que era, afinal, o menos favorito. Razões para o sucedido? As diferenças que ambas as equipas mostraram em 3 items: Concentração, estratégia e eficácia. Por ordem de importância. Concentração, pelo diferencial errático entre ambos os conjuntos – isto praticamente decidiu o jogo. Estratégia, porque a houve por parte do Porto, resultando em pleno no condicionamento do jogo do adversário. E eficácia, não porque tenha sido pela eficácia que o Porto venceu – pelo contrário, aliás – mas porque sem ela, e nestes jogos, não dá para ganhar. Antes de passar a mais considerações, nota para os números: o Benfica fez muito mais passes e com mais eficácia. Jogou melhor? Claro que não.

Notas colectivas: Benfica
No ano passado lancei aqui a teoria de que as equipas de Jesus tinham uma performance inferior à qualidade do seu futebol, apontando para o falhanço da equipa se conseguir superar nos momentos importantes. É apenas uma teoria, e não matéria factual, mas esta ganha novo reforço com o que se viu em Aveiro.

Fica a ideia de que o Benfica não se preparou convenientemente para a competição e para a intensidade do jogo. O Porto entrou com uma estratégia para condicionar o jogo encarnado que, por seu lado, não tinha nada de específico. Aliás, Jesus apostou muito mais em desenvolver o 4-3-3 nos últimos encontros do que em aprimorar o seu modelo base, ainda longe de ter o rendimento do ano anterior. Mais importante do que questões tácticas, porém, foi a atitude de algum facilitismo dos jogadores. Às dificuldades que o Porto colocou à construção, o Benfica respondeu sem intensidade e acumulou perdas de bola em construção que lhe custaram o jogo. 15 para 1 em perdas de bola é a estatística mais importante do jogo e aquela que espelha o sucesso da estratégia portista.

O que coloca em causa este jogo? Quase nada. O Benfica continua a ser a melhor equipa do país, mas qualidade em Agosto não ganha campeonatos em Maio. Os riscos são a própria melhoria dos adversários – que têm potencial para isso – e, claro, o risco do próprio Benfica não corrigir alguns problemas.

Há um problema individual ao nível das soluções para o meio campo, sendo preciso encontrar algumas respostas, mas o principal problema do Benfica não são as ausências de Di Maria e Ramires. Aliás, mais peso do que a ausência destes 2, parece-me, faria mais sentido centrar atenções no eclipse de Aimar. O papel da construção no Benfica foi decisivo, com o Porto a condicionar a saída de bola por David Luiz e sem que o meio campo criativo soubesse emergir à altura das necessidades. O Benfica bloqueou quando não pode sair pela esquerda e teve o seu melhor período quando lhe foi permitido jogar pelo corredor canhoto. Não é por acaso. Outra nota, e para finalizar, vai para Fabio Coentrão: a sua utilização no meio campo é um erro porque lhe retira metros. Coentrão tem uma intensidade e uma capacidade de preenchimento do corredor que é invulgar no futebol mundial. Depois de se ter percebido que poderia atingir o topo como lateral, vai agora dar-se um passo atrás?!

Notas colectivas: Porto
Terá sido o Porto muito diferente daquele que se viu em Paris? A resposta é não. Tinha falado do carácter estratégico de Falcao no pressing e Villas Boas fez dessa uma arma à qual o Benfica – talvez por má preparação – não soube responder. Essa é a primeira parte da estratégia do Porto, a utilização de Falcao como elemento bloqueador da construção através de David Luiz. Ao intervalo, aliás, David Luiz tinha um número de passes altamente inferior a Luisão, tal como Peixoto em relação a Amorim. O que ganhou o Porto com isto? Primeiro escolheu o lado e por quem queria que o adversário construísse. Depois, preparou o pressing para as zonas onde o adversário tentou sair a jogar, tirando partido da densidade numérica que criou nesses sectores.

Por tudo isto, não é correcto dizer-se que o Porto usou um pressing extraordinariamente alto. O que aconteceu foi uma estratégia que potenciou os resultados da zona pressing feita no meio campo. Isso e a intensidade com que os portistas reagiram à perda de bola (em confronto com o facilitismo contrário), ditou o bloqueio do jogo encarnado e, por contraponto, o domínio azul.

É curioso quando olhamos para os números individuais, vemos que os defensores portistas não fizeram um jogo extraordinário. Não porque tivessem errado, mas porque, simplesmente, participaram pouco. O mesmo vale para os avançados adversários (Cardozo quase nem jogou!), e com este simples dado se conclui que, apesar da posse e dos passes, o Benfica nunca conseguiu colocar em jogo quem o aproximava do golo. Por outro lado, a zona de recuperação de bola foi muitas vezes já dentro do meio campo oposto. Lembram-se do que escrevi aqui no outro dia: “Diz-me onde e como recuperas a bola, dir-te-ei o quão dominadora a tua equipa é!”. Este jogo foi mais um bom exemplo desta máxima.

Falta, finalmente, falar de outro ponto que me pareceu intencional: a exploração de Roberto. Não só pelo elevado número de tentativas de finalização – muitas delas bastante distantes da baliza – mas também pela forma como alguns livres e cantos foram apontados. Em vez de tirar a bola da zona, como acontece frequentemente, esta foi colocada em cima de Roberto. E foi assim que o primeiro golo chegou.

Notas individuais
Muito do que escrevi está espelhado também nos números individuais. Como referi, os defensores portistas foram pouco expostos – se era esse o ponto fraco da equipa, Villas Boas contornou-o bem – e, ao contrário, os defensores encarnados foram quem mais participação teve na equipa de Jesus. Sintomáticas são também as diferenças entre a participação de David Luiz em relação a Luisão/Sidnei e entre Peixoto e Amorim. Estes dados, em conjunto com as perdas de bola, chegam para explicar grande parte do jogo.

Em termos de destaques, Belluschi ganhou a corrida pelo melhor em campo. Não só pela sua participação criativa, mas muito pela influência que teve ao nível da recuperação, onde foi o mais importante atrás de Fernando. Outro destaque foi Hulk, que embora não tenha tido uma participação directa no marcador, foi o elemento com mais desequilíbrios no jogo e um elemento com uma presença importante na recuperação. Outro elemento de destaque foi, claro, Falcao. Mas sobre o colombiano não tenho nada a acrescentar ao que já dele aqui escrevi.

Do lado encarnado, David Luiz, apesar dos condicionalismos tácticos, acabou por ganhar mais presença nos últimos minutos, quando o pressing portista abdicou de o condicionar. Isso, em conjunto com o facto de ter sido o mais recuperador, valeu-lhe o número máximo de pontos, ainda que próximo de Saviola. “El conejo”, sem estar ainda ao nível que o celebrizou na época anterior, foi quem mais tentou. Pouco jogo lhe chegou, mas Saviola esforçou-se por isso e acabou por estar presente em todos os desequilíbrios da equipa, ficando mesmo próximo do golo. Pela negativa, Cardozo e Aimar. Não é surpresa a escassíssima participação do paraguaio, já aqui tinha alertado para isso. Foi o destaque da pré época, mas, desta vez, foi o pior. Também importante é a pouca participação de Aimar. Pouca e sem grande qualidade, diga-se. Mas disso também já falei.




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5.8.10

4-3-3: a nova extravagância de Jesus

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Para além das inevitáveis entradas e saídas não se previam grandes motivos de interesse na pré época encarnada. Mesmo treinador, mesmo modelo, mesmas rotinas. Ou então... não. Precisamente, Jesus resolveu dar mais uma prova de que na Luz a estrela é mesmo ele e regou a pré temporada do Benfica com um inesperado motivo de interesse: o seu novo 4-3-3. O que tem de espectacular um sistema que meio mundo utiliza? Bem, o problema é que, tal como o seu 4-4-2, o 4-3-3 de Jesus não é exactamente como o do resto do mundo. É uma versão própria, com particularidades que, não fugindo dos princípios orientadores da sua filosofia de jogo, a tornam ainda mais arrojada. Talvez mesmo demasiado, mas isso é algo que teremos de verificar com o tempo. Mas vamos aos pontos desta novidade táctica:

3 avançados... mesmo! – O 4-3-3 corrente pode ser confundido com o 4-5-1. De facto, é até difícil definir qual a nomenclatura mais correcta na maioria dos casos, porque, se os extremos abrem em posse, também se juntam aos médios quando a equipa não tem a bola. Ora, no caso do 4-3-3 de Jesus, não é assim. Os avançados não são extremos, nem médios, são avançados... mesmo. Quer nos momentos ofensivos, quer defensivos. E é isso que dá também um pouco mais de risco ao modelo.

Menos 1 a defender – Porquê o maior risco em relação ao 4-4-2? Porque, nesta versão, Jesus tenta defender igual, mas com menos 1 jogador. Bom... não é totalmente correcta a expressão. Todos os jogadores de defendem, o que acontece é que enquanto que no 4-4-2, a primeira linha do pressing era composta por 2 jogadores e eram estes que ficavam fora da jogada ao primeiro passe vertical, agora, são 3 a ficar de fora. Depois deste primeiro passe, em vez de 8 jogadores de campo, Jesus tem agora 7 para defender. Como resolve? A resposta passa sobretudo por uma grande intensidade táctica dos restantes jogadores, sempre com 1 deles a fazer 2 zonas do anterior modelo.

10 desaparece – Se o 10 era a principal unidade do 4-4-2, em 4-3-3 ele praticamente se extingue. Há a preocupação de colmatar esse espaço em termos defensivos, mas é um dos médios que sai da sua posição para o fazer. Quando a equipa baixa no campo, forma-se uma linha de 3 médios e o 10 deixa de estar presente como principal referência para o primeiro passe vertical em transição. Agora, são os 2 avançados que caem sobre as alas a merecer esse destaque.

6 mais exposto – A “extinção” do 10 faz com que o carácter posicional do 6 seja também mais vezes colocada em causa. Mais vezes tem de sair da sua zona, ou para fechar sobre uma das alas, ou para manter a proximidade com a linha pressionante da frente. É também por isso que Airton ganha força nesta versão sobre o mais posicional Garcia.

Laterais com mais profundidade – Em 4-4-2, os médios interiores pressionam sobre as alas, mas fazem-no muito mais baixo do que os avançados do 4-3-3. Para uma equipa pressionar alto, não se pode manter em terra de ninguém. É preciso aproximar linhas e encurtar distâncias, e é por isso que nesta versão os laterais têm mais responsabilidade. Responsabilidade de pressionar alto mas não perder o controlo sobre o seu flanco. Não é para todos.

Pressing avassalador – Na verdade não estou a ver muitas equipas da nossa liga a correr esse risco, mas é um verdadeiro campo minado sair em construção contra esta versão do Benfica. É nisso que aposta Jesus, na compressão do adversário.

Mais presença em transição – Se para defender a equipa perde uma unidade, quando ganha a bola, tem de imediato uma presença importante na frente. Sempre 3 jogadores à frente da linha da bola, com 2 médios com liberdade para acompanhar a transição e ainda os laterais.

Ritmo alucinante – Jesus falou há dias da componente física. Talvez tenha a ver com estas suas novas ideias. Será que dá para jogar a este ritimo durante 90 minutos? É que, a não ser que o adversário não saia lá de trás – o que também pode acontecer – um jogo de transições como força este modelo é também muito exigente para grande parte dos jogadores.

Não é para todos! – Forçar um jogo deste tipo não é para todos. A maioria das equipas dar-se-ia muito mal com esta proposta e só por ter uma grande qualidade individual – fantástica mesmo! – em jogadores como Coentrão, Airton ou David Luiz é que Jesus se pode atrever a isto. Qualidade individual e, claro, qualidade colectiva. Por exemplo, só com uma linha defensiva com um comportamento tão apurado e agressivo é que é possível arriscar estar tão alto em campo e com tão pouca gente atrás durante tanto tempo. Ainda assim, pergunto-me e duvido seriamente que Jesus adopte esta versão perante adversários e jogos de maior exigência.



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4.8.10

Benfica: o balanço da pré época

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Foi uma boa pré época para o Benfica. Permitiu analisar novas soluções e ganhar confiança, com bons resultados e boas exibições. Se calhar, em certos casos demasiado bons, daí que perder o último jogo talvez tenha sido um bom “timing” para descer à terra. É que, apesar da qualidade que se lhe reconhece, este Benfica não é ainda tão forte como o da época anterior. Perdeu algumas unidades, ainda não recuperou outras e conta, ainda, com alguns elementos fundamentais que não estão ainda no seu máximo rendimento. A grande novidade, porém, é o 4-3-3 testado por Jesus. Algo que merece uma análise mais dedicada e que deixarei para os próximos dias. Para já, as notas da pré época.

Notas colectivas
Começando então pelo 4-3-3. Mudar para este sistema representa um elevar de patamar em termos de risco. O Benfica passa a jogar tudo no pressing e assume uma exposição na sua zona mais recuada como não conheço igual. Será que Jesus vai mesmo apostar nesta versão? Eu aposto que não, que a deixará para adversários mais fracos ou momentos de necessidade ofensiva nos jogos. Se o fizer, no entanto, Jesus arrisca-se a ser o treinador mais ousado do mundo em termos tácticos. Nos próximos dias tentarei explicar melhor o porquê.

De resto, o Benfica tem o seu modelo táctico definido e assimilado pela maioria, faltando-lhe perceber como e com quem poderá tirar melhor rendimento. É uma preocupação colectiva, sim, mas que depende muito dos intérpretes, e por isso passarei para a componente individual.

Notas individuais
Em primeiro lugar, referir que, entre os quadros que apresentei para os 3 grandes, o caso do Benfica é o mais interessante porque é aquele que tem mais tempo de análise. Ainda assim, importa também dizer que houve momentos muito diferentes dentro de cada um dos jogos e que, obviamente, há jogadores mais beneficiados do que outros em relação ao momento em que estiveram em campo. Vamos por partes.

Laterais: à esquerda, Coentrão confirmou, sem surpresa, o seu momento e que representa uma enorme mais valia para o modelo (então se for em 4-3-3, é indispensável). Em vários períodos, houve a troca com Peixoto, abrindo-se também aqui a dúvida sobre se poderá haver permuta entre os 2 em determinados momentos. Coentrão é seguramente o jogador mais explosivo do Benfica neste momento, mas sou da opinião que retirar-lhe metros no corredor é um desperdício.

À direita, Amorim tem uma fiabilidade que lhe é reconhecida e que os números não reflectem. Não reflectem simplesmente porque, em 5 jogos, Amorim cometeu 2 erros decisivos, com influência directa no marcador. Algo que não se perspectiva poder repetir-se. Ainda assim, continua-se à espera de Maxi.

Centrais: O espectáculo David Luiz continuou, desta vez com Sidnei ao lado. Mais uma vez reforço a qualidade individual e colectiva deste sector, destacando aquilo que o Benfica faz com a sua linha de fora de jogo, uma das mais perfeitas que conheço. É por isso que mexer na defesa com a saída de David Luiz seria um enorme risco. No tal 4-3-3 agora testado, então, a importância do recentemente convocado para a canarinha é ainda mais importante. Ao seu lado, Luisão deverá ter o lugar assegurado. Sidnei fez uma boa pré época, mas sem um nível e consistência que permita colocar em causa o estatuto de Luisão.

Pivot: Garcia perdeu o lugar. Quando perspectivei a contratação de Airton referi que inevitavelmente estaria à altura do espanhol dentro de algum tempo. Esse momento chegou e, nesta altura, é difícil encontrar algum parâmetro de avaliação onde o brasileiro fique a perder. Mais uma vez, se for em 4-3-3, a sua presença torna-se ainda mais importante. De qualquer modo, a diferença não é enorme e Jesus terá sempre 2 óptimas soluções para o lugar.

10: Aqui começam os problemas de Jesus. Aimar não vem demonstrando ainda o nível que o consagrou, para mim, como o jogador mais importante do modelo anterior. O seu rendimento é bom, mas não ao nível que nos habitou, tendo essa atenuante de ter jogado muito tempo num modelo diferente daquele em que estava habituado (no 4-3-3, a sua função altera-se quase radicalmente). Outro problema poderá ser a disponibilidade física do 10 ao longo da temporada. Sempre que estiver ausente, e jogar em 4-4-2, o Benfica perderá rendimento.

Alas: Outro problema. Saiu Di Maria e agora parece que também Ramires. São jogadores diferentes e a sua saída em comum marca um forte abalo no ADN do desempenho.

Di Maria, disse-o, tem em Gaitan um substituto natural (ao contrário do que se diz). O problema é que a pré época não correu bem ao novo 20, que ao contrário de outras estreias perdeu confiança neste arranque de temporada, em vez de a ganhar. Gaitan não esteve nos melhores momentos da equipa e perdeu a oportunidade que, por exemplo, Jara aproveitou de crescer com a confiança colectiva. Desistir dele será um grande erro, até porque ele poderá ser uma boa parte da solução.

Enquanto se espera um substituto para Ramires, a alternativa é Carlos Martins. Está a fazer um grande inicio de época – como é hábito – e tem em relação a Ramires a vantagem de ser bem mais participativo e criativo do que o brasileiro. Aliás, é como ala interior que Martins mais se destaca. Outra solução, ainda que não testada, é Ruben Amorim, que garantirá um rendimento ao nível de Ramires, excepto em transição. Aliás, Amorim, é mais forte em construção do que Ramires.

Ainda dentro das soluções, está Peixoto que fez um excelente inicio de época e que, como expliquei atrás, poderá funcionar em combinação com Coentrão sobre a esquerda.

Avançados: Não sou um grande fã do futebol de Cardozo. Acho que tem um pé esquerdo raro e uma boa qualidade técnica, mas não aprecio a sua intensidade no jogo, que é invariavelmente baixa. Ainda assim, perante o seu rendimento, não há discussões. Impressionante a qualidade das suas participações. Quase sempre que tocou na bola foi para fazer golo ou criar perigo.

De resto, outro problema em termos de rendimento é Saviola, a milhas do que fez no ano anterior. Pouco certo, pouco interventivo e, mesmo, pouco desequilibrador. De Saviola, no entanto, espera-se que melhore.

O grande destaque, e grande beneficiado com o 4-3-3 foi Jara. Avisei, ainda antes de o ver jogar no Benfica, para a sua intensidade e... ela aí está. Em 4-3-3 é fundamental uma enorme intensidade de todos e aí Jara não fica a perder para ninguém. Mostrou-se participativo e em crescendo de confiança. Não é, nem será a curto prazo, uma enorme mais valia, mas é uma solução útil e está na “pole position” para o 11, se a opção for o 4-3-3.



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3.8.10

Benfica: uma explicação redutora

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A pergunta que acompanha a sazonalidade, desta vez, não levanta grandes discussões. Se normalmente se debate quem parte melhor para a temporada, desta vez o consenso é uma regra quase geral: o Benfica. Sobre a pré época dos encarnados escreverei em breve e com mais detalhe, mas, para já, gostaria de me debruçar sobre outra pergunta: o que marca a diferença no futebol do Benfica?

A resposta, como sempre, não é simples. Vou, no entanto, ceder à natureza humana e, permitam-me, ser redutor. Mesmo com a noção deste erro de análise, vou centrar-me apenas num ponto: o pressing.

Sempre que alguém escreve ou analisa uma equipa com um futebol dominador, a regra geral é invadir-nos de poesia. Poesia futebolística. A técnica e a inteligência dos jogadores, tudo com bola, sempre com bola. Obviamente é importante, mas – lá está a natureza humana – profundamente redutor. Bem mais, no meu entender, do que a redução que eu próprio estou a fazer.

Se não vejamos, o Sporting, por exemplo, conseguiu na pré época uma posse de bola com índices muito superiores aos do Benfica. Mais tempo, muito mais passes e muito mais % de certeza na entrega. Reforço o “muito”. Isso implica que o seu futebol seja melhor? Obviamente que não.

Mais do que ter a bola, é preciso tê-la nas zonas certas e nos momentos certos. Para se explicar um futebol dominador, para mim, deve-se começar por explicar o que a equipa faz sem bola e o que faz para a ganhar. Se a recuperação é feita no meio campo adversário e com o adversário em desequilíbrio, não é preciso muita inteligência, nem sequer técnica para criar sucessivas oportunidades de golo.
Digam-me onde e como recuperam a bola, e eu digo-vos o quão dominadora é a vossa equipa.

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2.8.10

Porto: O balanço de Paris

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Confesso que tinha alguma expectativa para ver estas partidas – lamentavelmente as únicas que tive a oportunidade de ver do Porto de Villas Boas na pré época. O resultado, porém, não satisfaz os melhores prognósticos. Os resultados, todos o sabem, não foram os melhores, mas o Porto de Villas Boas, na sua estreia, falhou em mostrar um “upgrade” em relação ao passado. Já se sabia, e ao contrário do que muitas vezes injustamente foi repetido, que a herança de Jesualdo era pesada e que melhorar não seria fácil. E não será. Para já, o Porto tem algumas diferenças e também algumas atenuantes para alguns aspectos, mas melhorar... ainda não melhorou.

Notas colectivas: dificuldades e diferenças
A “olho nú” não se vislumbram diferenças entre o passado e o presente. Isto é, o sistema é o mesmo e o posicionamento relativo dos jogadores também, sendo que mesmo as opções aparecem nos mesmo locais. Mas há diferenças. Os dois pontos, esperava-se, em que Villas Boas podia trazer novidades eram (1) no pressing e (2) na posse de bola. Na verdade, muito destas expectativas partiam de uma ideia errada e algo preconcebida de que o Porto de Jesualdo (1) não pressionava alto e (2) não trabalhava bem o seu momento de posse. Estas ideias não são justas e é por isso que a missão de melhorar o passado será mais difícil do que por vezes se fez crer.

Mas esperavam-se diferenças, de facto. Acima de tudo, diferenças no posicionamento da linha mais recuada e, depois, na vontade de manter mais vezes a bola no último terço. O que se viu, porém, foi um pressing menos capaz do que no passado, com o papel do 9 a ser mais orientador e menos agressivo, como que a preparar a recuperação em zona intermédia em vez de dar o mote para o fazer, já ali, junto dos centrais. Isso não aconteceu, e o Porto não foi autoritário em 3/4 dos 2 jogos que realizou, salvando-se o seu melhor período, após a entrada de Ruben Micael no primeiro jogo.

Ao problema do pressing, juntou-se outro. A qualidade em posse. Mais uma vez com a excepção do mencionado período frente ao PSG, a qualidade da posse foi sempre uma decepção, com muitos passes perdidos e muitas dificuldades para envolver as defensivas contrárias em organização.

A estes 2 problemas – pressing e posse – junta-se as bolas paradas. É que não foi só nos golos que se sentiram dificuldades.

Tudo somado, importa terminar com 2 notas. A primeira para falar da atenuante da qualidade dos adversários. O futebol francês – e eu conheço bem a liga – tem uma qualidade muito elevada, quer em termos individuais (técnica e fisicamente o nível é fantástico), quer em termos tácticos (não é uma regra geral, porém). A segunda nota, para dizer que o que se viu não é mau. Apenas falhou, para já, em mostrar uma evolução em relação ao passado. Melhorar o passado será a primeira barreira de Villas Boas. A outra, é melhorar ao ponto de ser mais forte do que o Benfica.

Notas individuais: Bons e maus
Houve algumas notas bem distintas entre todas as exibições, mas importa também lembrar que os dados apresentados não têm a solidez mais vasta. Observações de 1 ou 2 jogos não têm grande solidez e aquelas com menos de 90’ podem ser mesmo enganosas. Ainda assim, várias notas importantes.

Nas laterais, Alvaro Pereira deixou a sua marca. Muito interventivo, mas nem sempre certo. Foi assim e será sempre assim, porque é o seu estilo. Na direita menos consistência dos 3, embora Fucile e Miguel Lopes consigam dar boas garantias.
Na zona central, um problema. Maicon foi o melhor e isso diz bem do que Villas Boas poderá ter pela frente. Perder Bruno Alves poderá ser uma dor de cabeça e ter trocado Nuno André Coelho provar-se um erro. Nenhum dos 3 é excepcional, mas é Maicon que me parece o mais consistente.

No “pivot”, Fernando mostrou-se um varredor, participando enormemente no jogo, embora peque por alguma inconsistência e qualidade quando o comparamos com outros exemplos de outros clubes. A alternativa, porém, é tudo menos uma segurança. Não pelo erro de Souza, mas porque o jogador que actua ali tem de ter um peso muito maior no jogo do que aquele que Souza demonstrou.

No meio campo, e esquecendo Meireles, a melhor versão foi com Micael mais solto no espaço entre linhas e Moutinho como médio de transição, capaz de se juntar rapidamente a Fernando ou aparecer no apoio aos da frente. O ex-capitão do Sporting, aliás, tem uma fiabilidade que justifica a utilização de um jogador mais solto em termos tácticos como complemento a ele e a Fernando. Esse jogador poderá ser Micael ou Belluschi, que teve o “azar” de ser utilizado com a pior das companhias.

Nas alas, Hulk é o mesmo de há 1 ano. Resta saber se fará melhor quando for a sério, porque a sua pré época volta a ser fantástica. De resto, para além do brasileiro, o melhor pareceu ser Varela – nada de novo, portanto. As alternativas são boas, porque se Cristian Rodriguez tem tudo para discutir a titularidade, James mostrou que com uma boa evolução (e mais tempo) também poderá lá chegar.

Na frente, marcou Walter, mas para o nível de Falcao falta-lhe muito. É impressionante a consistência do colombiano. O número de bolas que ganha e a fiabilidade que oferece ao jogo. Se não o conhecêssemos poderíamos duvidar da sua capacidade de desequilíbrio, mas, como se sabe, situações de golo sabe ele arranjar. Como ele, não há muitos por aí.



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