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A qualidade táctica em transição (Sporting vs Porto)

Na análise ao jogo contestei a "perfeição táctica" reclamada por Paulo Sérgio no final do jogo. De facto, a minha leitura do jogo leva-me a concluir que a estratégia escolhida pelo treinador foi inteligente, sim, causou alguma surpresa no adversário, também, mas esteve muito longe de ser "perfeita".

Uma estratégia de jogo tem de ser um plano de vitória, e pressupõe uma amplitude total, em termos de momentos de jogo. Aquilo que o Sporting conseguiu com algum sucesso foi defender. Provocou o erro do adversário e recuperou várias bolas com possibilidade de transição, mas... não mais do que isso. Ou seja, não conseguiu dar sequência à transição partindo para ataques rápidos que aproveitassem um momento de desorganização do adversário. Ou a bola era imediatamente perdida, ou a transição passava para ataque organizado, ou acontecia o isolamento de um jogador perante a defensiva portista. Qualquer destas situações tem em comum o facto de dar a vantagem a quem defende e nunca o contrário.

Aqui, há que dividir responsabilidades, sendo que nesta divisão está, também, boa parte da explicação da diferença de qualidade entre uma e outra equipa, em termos tácticos. O Porto esteve sempre muito forte em termos de reacção à perda da bola, quer na pressão imediata, quer no restabelecimento dos equilíbrios posicionais. O Sporting nunca teve uma saída bem preparada e foi, invariavelmente, neutralizado pelo adversário.

Talvez o lance mais sintomático desta diferença de qualidade esteja no lance que deu origem ao golo do empate. Por 2 vezes o Sporting recuperou a bola. Na primeira, Valdés não tinha linha de passe e tentou a iniciativa individual. Na segunda, Maniche ganhou o ressalto, mas não tinha nenhum jogador na zona livre que se abriu do lado direito, acabando por dominar mal e ser pressionado.

Para quem queira realmente perceber o porquê da diferença entre o rendimento das 2 equipas na temporada, talvez seja uma boa ideia começar pelo que cada uma faz nos momentos de transição. É que nada disto é circunstancial e, antes sim, o produto do trabalho que vem sendo feito ao longo da época...

7 comentários:

LMGM disse...

Filipe, isto não se faz! Não se mata assim o treinador do Sporting com um video e 5 paragrafos.

Ricardo disse...

Muito bom!

E o mais preocupante para o Sporting é que nem sempre a reacção do Porto à perda foi feita de forma correcta e/ou pressionante. Muitos dos erros que vemos são fruto da pouca capacidade da equipa para se desdobrar e dar opções ao portador da bola - o que, neste jogo em específico, parece-me que resulta mais do temor por perder o posicionamento atrás do que por falta de intensidade.

Anónimo disse...

Neste video vejo de cabeça varias perdas de bola de jogadores do porto que não aparecem nas estatisticas...

Hulk 8 segundos,
Emidio Rafael 45 segundos,
Falcao 1:54;
Varela 2:55;

sendo que compreendo que em casos como os do falcao e um pouco o caso do varela a perda é provocada por más recepçoes e passes a queima, acho que nos outros casos não entendo bem o critério e se calhar é um erro de interpretação da minha parte do que o que significam as Perdas que aparecem nas estatistica.

filipe disse...

A estatística de "perdas de bola" tem uma interpretação táctica e um peso importante na avaliação. Ou seja, não é contabilizada qualquer perda de bola, em qualquer zona ou situação. Para isso existe a estatística da sequência da posse.

Só é contabilizada "perda" se o jogador perder a bola numa fase de construção e que permita ao adversário partir para ataque rápido, obrigando a sua própria equipa a reagir em recuperação e não com a possibilidade de pressionar imediatamente o portador da bola. Por exemplo, um médio que falhe um passe em zona intermédia mas tenha a equipa organizada defensivamente e atrás de onde a bola foi perdida, não acumula perda. Um extremo que perca a bola no enfiamento da área contrária não acumula perda, porque é uma zona de criação e a equipa tem, tacticamente, a obrigação de estar preparada para a perda.

No caso do vídeo, são contabilizadas como perdas as acções:

Fernando 0:30
Fernando 1:20
Mainche 3:18

Raul disse...

Boas Filipe,

Consegues inverter os papéis neste jogo?
Obviamente excluindo o lance do golo, dado que foi um erro individual e não estratégico.
Um ponto que eu vou realçar sobre o Porto é o seu tão falado controlo emocional, ou muito me engano ou o se o Porto tem o azar de não ganhar 2 jogos seguidos vai-se abaixo. Baseio-me nisto com as atitudes do seu treinador sempre que a equipa não tem o resultado que pretende (Nacional, Besiktas e agora Sporting). Isto é apenas uma opinião pessoal.

Cumprimentos,
Continuação de bom trabalho.

MM disse...

Filipe, e de facto um regalo olhar para o que escreves e depois de feita essa leitura reconhecer nas imagens todos os elementos nela contidos.
Ao ver-se o jogo - 1'a parte - percebe-se (ou percebi eu) um Sporting bom, compacto, solidario, atento mas tambem criador de muitos problemas para o Porto. Lendo este post e vendo as imagens - que nao sao so de 1 nem 2 nem 3 lances - percebe-se um Sporting melhor do que os anteriores, mais atento e compacto de facto mas ... perfeitamete desorganizado e amador na forma de jogar a bola.
Significa isto que apesar de tudo o Sporting tem bons jogadores, jogadores esses que mesmo desorganizados, pouco ensinados e pouco mecanizados conseguem aqui e ali entender-se e criar perigo, para alem do perigo que ja causam pela sua individual valia (Liedson, Valdes, o enorme Joao Pereira e mais um ou outro).
E por isso que vale a pena ler quem percebe e sabe do que fala, porque aprende-se.
Obrigado por isso entao ...

Ja agora, essas imagens nao anulam aquilo que durante o jogo se viu e percebeu: emocionalmente, mentalmente e na predisposicao para de uma forma seria investir no jogo ... o Sporting na 1'a parte deu um baile ao Porto. O que foi surpreendente. Nao sei se isto e algo mais que pode ser contrariado por uma analise mais sapiente como as que aqui sao feitas por ti mas seja como for essa impressao mantem-se> o Porto surpreendeu, pela negativa. Jogadores muito nervosos, com algum medo, alguns bastante apaticos e sempre ultrapassados pela intencao e rapidez que os jogadores do Sporting meterem na partida.
Mais coracao verde, mais organizacao azul. Algo assim, ainda que essa organizacao azul tivesse tipo interpretes desinspirados / medrosos / surpreendidos pela tonica predadora - embora desorganizada - que a maior potencia desportiva nacional colocou no jogo.

Pedro disse...

Filipe fica aqui uma sugestão para o futuro se tiveres tempo: Videos com varios exemplos do que significam as estatisticas: O que consideras as perdas e o que não consideras, o que consideras passe completado e o que não consideras, intercepções, desiquilibrios e por ai fora. E depois deixar o post num lugar acessivel no blog, até para as pessoas novas que chegam ao blog entendam melhor as estatisticas e assim compreendam melhor do que se está a falar.