30.8.06

Liga 06/07 – Façam-se as apostas!

ver comentários...

Não foi para todos, mas começou! À margem do caso “Mateus” e no respeitante ao simples “pontapé na bola”, o campeonato deu-nos uma visão ainda distorcida daquilo que será a realidade da época 06/07 – a agitação final do mercado e as peripécias de pré-temporada condicionaram, nuns casos mais do que noutros, um arranque já coincidente com as pretensões dos mais variados treinadores... Entre os três grandes, o ponto de situação é diferente caso-a-caso, não havendo porém nenhum que possa reclamar uma total tranquilidade: Façam-se as apostas!

FC Porto – Uma questão filosófica
“O FC Porto tem uma estrutura que conhece bem, e vamos evoluir para outra... temos de equilibrar mais esta equipa.” (Jesualdo Ferreira, após a estreia vitoriosa com o Leiria)

Da confirmação de Jesualdo Ferreira como treinador do FC Porto adveio a certeza de que o futebol no Dragão iria forçosamente mudar em 06/07. Muito mais do que o sistema – o 3x4x3 de Adriaanse ou o 4x3x3 normalmente adoptado por Jesualdo – trata-se de uma questão quase filosófica.
Adriaanse passava as suas conferências de imprensa a falar de espectáculo, de golos e de goleadas e, embora o seu FC Porto fosse mais vezes eficaz do que entusiástico, a verdade é que as palavras do teimoso Holandês encontravam eco no modelo de jogo por si implementado: avançados, extremos, pressão alta e posse de bola sempre no meio campo adversário eram alguns dos ingredientes da “fórmula Co”.
Jesualdo Ferreira tem uma visão diferente – quase radicalmente diferente. O futebol para o “professor” faz-se de trás para a frente ou seja, primeiro há que garantir a interiorização dos processos defensivos, vindo apenas posteriormente a preocupação pelo golo. Expressões como “equilíbrio defensivo” e “reconhecimento do momento de transição” são comuns no discurso de Jesualdo e dizem muito sobre um ideal futebolístico bem distante daquele que marcou as palestras no Dragão durante o último ano.
Face ao exposto, as próximas lições do “professor” no Olival deverão ser, mais do que trabalhosas, importantes: importantes no curto-prazo desportivo e no médio-prazo financeiro. Isto é, a rápida assimilação dos processos pretendidos por Jesualdo Ferreira influenciará não só o número de pontos do clube no primeiro terço da época, mas também (e mais importante) a receita que a SAD portista recolherá da sua presença na Champions League deste ano – tendo em conta a proximidade do ínicio da prova, os riscos de uma não tão rápida adaptação colectiva aos processos de Jesualdo são evidentes. Num mero exercício especulativo aqui ficam alguns dos potenciais problemas (uns mais saudáveis do que outros) do ex-lider bracarense:

- Duelo Helton/Baía
- Re-adaptação de Pepe a uma defesa a 4 (onde ainda não se revelou tão capaz como nos sistemas a 3)
- O outro elemento da dupla de centrais (face à ausência de Pedro Emanuel, a capacidade de Bruno Alves e Ricardo Costa levanta algumas dúvidas)
- Falta de competitividade nas laterais defensivas
- Um meio-campo a 3 diminui o número de vagas num sector já muito concorrido

Benfica – Novas ideias sobre o mesmo esqueleto
Protagonista indirecto do deprimente caso “Mateus”, o Benfica dificilmente poderá invocar qualquer prejuizo desportivo (financeiramente, a história não será bem a mesma) proveniente do adiamento do seu primeiro jogo. A extensa lista de lesões e as dificuldades que Santos tem sentido para impôr o seu modelo conseguem enganar tanto como o algodão do anúncio: qualquer momento seria melhor do que este para a estreia na liga, tanto mais que com a redução do número de clubes haverá certamente espaço para uma recalendarização confortável...
Calendários à parte, na Luz a saga Simão parece ter tido como efeito prático a reintegração do capitão no plantel de Fernando Santos, transformando o regresso ao 4x3x3 em, mais do que uma opção, numa inevitabilidade! Assim, o relvado da Luz voltará a “descair” para o lado em que o capitão alinha, concentrando na velocidade e técnica do extremo grande parte das esperanças para desbloquear as defesas numerosas que se lhe oporão – Simão é um jogador demasiado valioso no futebol português, não sendo possível que uma equipa como o Benfica menospreze de alguma forma o seu papel no processo ofensivo. De resto, a formação de Santos será na sua natureza aquilo que usualmente é designado por “equipa ofensiva”, tendo como princípios orientadores do seu jogo a recuperação e posse de bola no meio-campo adversário, pretendendo ter uma postura dominadora nas partidas em que intervém.
As exibições de ínicio de temporada mostraram uma equipa ainda longe dos níveis exigiveis para um verdadeiro candidato e aparentemente desenquadrada com a sua própria orientação estratégica. Não creio que estes possam ser problemas minimamente negligenciaveis, no entanto não constituem ainda motivo suficiente para excluir à partida o Benfica da linha da frente da corrida para o título: na Luz moram, salvo melhor opinião, o mais capaz quarteto defensivo do campeonato (embora não preveja que venha a ser a defesa mais eficaz), um meio campo completo, talentoso e experiente e um ataque com alternativas em quantidade e qualidade. O futebol tem porém poucas memórias de problemas colectivos resolvidos sustentadamente por soluções individuais, e é por aqui que ganha importância o muito trabalho que Fernando Santos tem ainda pela frente, num clube onde as ocorrências de pré temporada dificilmente poderiam ter sido mais desestabilizadoras... Aqui ficam alguns dos potenciais dilemas de Fernando Santos:


- A luta “a três” pela baliza (resultará em frustração de pelo menos um dos competidores)
- Os princípios de Santos resultarão em situações de exposição espacial nas costas da defesa – situação menos confortáveis para defesas como Luisão
- O estatuto “super-vedeta” de Simão perante si próprio e o grupo (eventual desmotivação)
- A adaptação de Rui Costa ao 4x3x3 e a Simão – O 10 sempre pareceu mais talhado para jogar descomprometido de tarefas defensivas e a servir (magistralmente) ataques compostos por 2 atacantes, servindo bolas para as costas dos defesas adversários
- Plantel construido para o 4x4x2 parece ter excesso de avançados e carência de extremos de qualidade – Miccoli dificilmente poderá ser utilizado como extremo clássico, sendo uma alternativa a utilização de um 4x3x3 “à Barcelona” (com extremos geneticamente diferentes um do outro)

Sporting – Do pragmatismo à concentração
Sven Goran Erikson disse uma vez que a realidade tem o seu lugar algures no espaço intermédio entre a optimismo proveniente das vitórias e a pessimismo inevitavelmente resultante das derrotas. A pré época do Sporting terá precisamente desenvolvido algum exagero em torno de uma equipa que dentro das suas limitações, tem de facto muito de bom! Se há uma palavra que pode descrever este Sporting versão 06/07, essa palavra é “pragmatismo”. Pragmatismo nos recursos utilizados na construção da equipa (composto a partir de um orçamento realista e limitado, de aquisições a “custo zero” e tirando o máximo partido daquilo que melhor o clube tem: a sua formação) e pragmatismo na forma como a equipa aborda os seus jogos (tendo no equilíbrio e concentração os seus predicados e esperando sempre matar o jogo nos erros do adversário).
O jogo com o Boavista terá, neste contexto, representado um importante alerta para a equipa: Em competição (muito mais do que em fase meramente preparatória) é preciso estar-se altamente concentrado, ser agressivo e dinâmico, dependendo o sucesso do Sporting na época desportiva que agora se ínicia do cumprimento estrito destas premissas. É precisamente por aqui que residem as principais ameaças para Paulo Bento - É certo que uma recriação em 06/07 do “seu” Sporting de 05/06 dificilmente será batida, tal a regularidade e eficácia demonstradas (apenas 5 golos sofridas na 2ªvolta). Os desafios da nova época são porém bastante mais abrangentes, exigindo a manutenção de um alto nível competitivo durante mais jogos, mais competições e, essencialmente em mais jogadores. Paulo Bento terá então como missão passar as suas ideias e os seus processos de forma igualmente fiável a um número elevado de jogadores, desenvolver anti-corpos para as oscilações psicológicas que inevitavelmente atingem as equipas num espaço tão largo como uma temporada e manter os níveis de concentração constantemente elevados em jogos com intensidades motivacionais profundamente dispares. Aqui ficam alguns dos problemas que se podem perspectivar para Paulo Bento:

- Os centrais
– Apesar da eficácia colectiva, o Sporting não possui nem em quantidade nem em qualidade grandes soluções nesta posição - Gestão de expectativas num meio-campo onde existem variadas opções - A qualidade criativa do meio-campo está amplamente dependente de jogadores cuja história não deixa perspectivar grande regularidade: Carlos Martins e Romagnoli
- O ataque para além de Liedson – O modelo táctico de Paulo Bento faz depender muito a sua dinâmica ofensiva da capacidade dos seus avançados (não só de finalizar mas também de criar). Nesse aspecto, Paulo Bento ainda não conseguiu encontrar opções de clara credibilidade


ler tudo >>

23.8.06

“O Maior Espectáculo do Mundo”

ver comentários...
A Premier League é hoje a competição desportiva mais vista em todo o mundo e os seus clubes respiram uma saúde económica e financeira invejável... no inicio da década de 90 o campeonato inglês sofreu uma alteração estrutural de relevo que passou a direccionar a organização do jogo no sentido da profissionalização, fomentando uma cultura de espectáculo do futebol e percebendo a necessidade de, colectivamente promover e desenvolver o “produto futebol” dentro e fora das fronteiras britânicas... Em Portugal a visão sobre esta problemática é limitada - quase nula – prevalecendo uma cultura clubista, sem estratégia comum e onde apenas os grandes clubes vão modernizando o seu relacionamento com a respectiva massa adepta... as consequências do “agigantamento” inglês são uma ameaça bem real!


As aparências iludem de facto - diversas vezes somos confrontados com situações que em quase tudo se aparentam mas que em quase nada são verdadeiramente iguais. Em certa medida é também isso que acontece quando descontraidamente assistimos ao início de cada um dos campeonatos que nesta altura protagonizam a “reentre” futebolística, sem percepcionar a importância que diferencia cada um dos momentos observados... Abandonado ao seu próprio destino depois da tragédia de Heysel Park e desconsiderado durante por mais de uma década pela pobreza técnica do seu estilo “Made in England” – o “Kick n’ Rush” – o Campeonato Inglês é hoje um caso de inegável sucesso no panorama desportivo mundial, tornando-se em muito mais do que uma competição atractiva: no “Maior Espectáculo do Mundo”...
O acórdão Bosman e o “boom” das receitas televisivas formam um cocktail que reorientou radicalmente as coordenadas na Europa do futebol, gravando para sempre a importância do final da década de 90 na história do jogo. Como em qualquer mudança, saem reforçados (ou em última análise, sobrevivem) aqueles que mais rapidamente a ela se adaptam. No caso do futebol inglês, a grande virtude estará, mais do que na adaptação, na antecipação da mudança – no inicio da década de 90 o campeonato inglês sofreu uma alteração estrutural de relevo que passou a direccionar a organização do jogo no sentido da profissionalização, fomentando uma cultura de espectáculo do futebol (não confundir este conceito com “futebol espectáculo” – um erro de muitos!) e percebendo a necessidade de, colectivamente promover e desenvolver o “produto futebol” dentro e fora das fronteiras britânicas.
A paixão pela modalidade e a dimensão socioeconómica do país representavam uma vantagem natural, sem dúvida, contudo não poderá ser esta uma explicação suficiente para justificar todo o caminho percorrido desde o inicio da década de 90: a Premier League é hoje a competição desportiva mais vista em todo o mundo (mais de mil milhões de telespectadores repartidos por 195 países) e os seus clubes respiram uma saúde económica e financeira invejável. A lógica é simples: quanto mais visto for o campeonato, mais interesse gera nos patrocinadores, mais receitas conseguem os clubes, mais disponibilidade existe para pagar a (muitos e bons) jogadores e maior interesse é gerado no público. Trata-se pois de um ciclo de valor que há muito foi percepcionado pelos responsáveis ingleses tendo estes implementado uma estratégia que, a tempo e horas começou a colher os seus frutos. Acções promocionais levadas a cabo em todo mundo (particularmente no mercado asiático onde já se realizaram torneios especiais com equipas inglesas em 2003 e 2005), a criação de magazines semanais sobre a competição e uma cultura de defesa e valorização do jogo e do espectáculo são apenas algumas das diligências que aos olhos de toda a gente foram postas em prática.
Não sendo, a meu ver, o melhor dos campeonato sob ponto de vista estritamente futebolístico, a Premier League consegue, para a maioria de nós, ser hoje o mais atractivo – algo apenas alcançado através do respeito e culto de um valor essencial: o espectáculo do futebol (mais uma vez, não confundir “futebol espectáculo”).

Uma ameaça real...
Para o futebol português as consequências do “agigantamento” inglês são uma ameça bem real!
Em Portugal a visão sobre esta problemática é limitada - quase nula – prevalecendo uma cultura clubista, sem estratégia comum e onde apenas os grandes clubes vão modernizando o seu relacionamento com a respectiva massa adepta (as campanhas promocionais vistas nos três grandes não encontram paralelo na generalidade dos clubes nacionais). Os grandes clubes europeus estão assim a conquistar lenta mais seguramente o seu espaço entre as preferências dos adeptos lusos, sendo esta uma situação evidentemente preocupante: o maior prejuízo recairá, sem surpresas, sobre os mais pequenos que dificilmente poderão manter a sua condição de profissionalismo face à escassez de receitas que inevitavelmente resultará de uma redução progressiva do número de adeptos. Os clubes grandes, por seu lado, manterão o seu estatuto aquém fronteiras, mas ficarão cada vez mais isolados e distantes do poderio económico (e por conseguinte, desportivo) dos grandes europeus.
Este é um cenário que assombra o futuro dos países (uns mais do que outros) fora do poderoso quinteto formado por Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e França e que deverá alterar ainda mais a forma como até hoje percepcionamos o futebol europeu.

ler tudo >>

14.8.06

O "Xeque ao Rei" de Adriaanse

ver comentários...

O FCP viu-se na posição embaraçosa de estar “de mãos atadas” perante os desabafos provocatórios do seu treinador... O “embaraço Adriaanse” não é então mais do que uma inevitabilidade lógica de uma gestão pouco avisada da SAD portista...a obtenção dos objectivos desportivos em 06/07 não estão ainda em nada comprometidos, no entanto existe um risco inerente a uma não tão rápida adaptação do próximo treinador ao clube e aos jogadores...o que realmente conta são as vitórias e será essencialmente delas que Pinto da Costa, mais do que nunca nesta altura dependerá.

Atentemos à sequência das afirmações:
- "não vamos contratar ninguém" (Pinto da Costa, 27-07-2006)
- "Se não comprarmos um avançado continuaremos a jogar bonito e a perder" (Co Adriaanse, 05/08/2006)

Contextualizando-as é intuitivo perguntar:
- Perante tão evidente rotura entre treinador e direcção, porque razão não foi Adriaanse dispensado a tempo de um planeamento mais eficaz da próxima temporada?

A resposta será a mesma que foi dada pelo presidente azul e branco quando indagado sobre os motivos da não contratação de Hesselink: Dinheiro, ou melhor, a falta dele!

Apenas dois anos após a apresentação do relatório e contas anual mais lucrativo da história das SAD do futebol português, o FCP viu-se na posição embaraçosa de estar “de mãos atadas” perante os desabafos provocatórios de um treinador em clara rotura com a direcção e blindado pela extensão plurianual do seu contrato, altamente valiosa em caso de despedimento antecipado.


(Carregar na imagem para ver evolução das contas da Porto SAD)

O “embaraço Adriaanse” não é então mais do que uma inevitabilidade lógica de uma gestão pouco avisada da SAD portista, incapaz de antecipar uma realidade iminente e previsível e que exigia que o caminho do equilíbrio orçamental fosse trilhado, sobretudo no que respeita ao peso desmesurado dos seus custos com o pessoal – ou seja, os salários de jogadores.
O problema do equilíbrio orçamental das SAD é comum aos três grandes do futebol português, e só a sua resolução permite a independência das receitas extraordinárias – vendas de passes de jogadores - que ano após ano condicionam o nível qualitativo dos planteis. A questão é conceptualmente simples: quando o que se ganha (publicidade, merchandising, direitos televisivos, bilheteira,...) não chega para pagar o que se gasta (salários, manutenção, prémios de jogo, ...), é necessário obter mais valias provenientes da venda de jogadores.
A peculiaridade do caso da Porto SAD deriva do facto do incontornável caminho do equilíbrio orçamental ter sido identificado há já alguns anos sem que, no entanto, tenha sido verdadeiramente percorrido pela sociedade. Por paradoxal que possa parecer, o problema aparenta derivar dos muitos milhões conseguidos no rescaldo das recentes glórias europeias, uma benesse que aparentemente terá ofuscado a visão pragmática da realidade e desviado a SAD do caminho inicialmente delineado ( a prioridade no final de 03/04 passou a ser a “componente variável” das remunerações). O resultado desta “miragem” da gestão portista é, à entrada de 06/07, uma forte dependência das mais valias em vendas de passe de jogadores – provavelmente será hoje a SAD que mais depende deste tipo de receitas entre os 3 grandes – e um valor de capitais próprios bem próximo do registo ao final de 02/03 (ou seja, antes da injecção milionária conseguida com a conquista da Champions). Nesta altura e face ao desequilíbrio corrente que a SAD azul e branca apresenta (-17M€ em 9 meses), o cenário de falência-técnica – capitais próprios negativos - tem de ser encarado como uma possibilidade, o que estando longe de ser um drama de sobrevivência, não deixa de ser um grande embaraço para a reputação da actual Administração.

O período pós-Adriaans
e

Face ao exposto não será dificil de perspectivar a importância que os próximos meses terão para Pinto da Costa. A qualidade e capacidade do plantel portista é indiscutível e a obtenção dos objectivos desportivos em 06/07 não estão ainda em nada comprometidos, no entanto existe um risco inerente a uma não tão rápida adaptação do próximo treinador ao clube e aos jogadores – a fase de grupos da Liga dos Campeões começa a decidir-se nos primeiros meses da temporada. Por outro lado, a exigente plateia do Dragão dificilmente tolerará mais uma época como aquela que sucedeu as glórias europeias de José Mourinho. O crédito do líder portista é, ao fim de quase 25 anos, muito e merecido mas o nível das recentes diligências do Presidente parecem distantes de um passado não tão longinquo quanto isso: Os casos da vida pessoal, o envolvimento no caso “apito-dourado”, a súbita incapacidade para gerir e escolher treinadores e a gestão duvidosa no período pós-Mourinho (contestada até pela principal claque portista) terão deixado as suas marcas. Nestas coisas do futebol, porém, o que realmente conta são as vitórias e será essencialmente delas que Pinto da Costa, mais do que nunca, nesta altura dependerá...


ler tudo >>

7.8.06

"Case study" do golo

ver comentários...
No habitual processo de intenções a que os treinadores se submetem no lançamento de cada temporada há sempre espaço para os discursos sobre a necessidade de jogar não só bem mas bonito, de entreter e essencialmente de enraizar a cultura do golo nas equipas como forma de trazer o público aos jogos (honestamente, essa é uma visão que sendo agradável me parece descontextualizada com as verdadeiras motivações dos adeptos, mas não é esse o ponto que proponho aqui abordar). Partindo para o objectivo da “cultura do golo”, qual será então o modelo que se deve adoptar?

Analisando 6 casos que no passado recente foram bem sucedidos no que ao balançar de rede diz respeito, chegamos à conclusão de que não existe uma fórmula exacta, um sistema chave, um conjunto de características que sendo satisfeitas garantirão a concretização de muitos golos. Outra das ilações a tirar é a de que o futebol ofensivo e concretizador nem sempre traz sucesso às equipas e nem sempre será o mais recordado pelos adeptos das respectivas equipas. Há porém alguns aspectos comuns aos 6 casos analisados: a procura de provocar o erro no adversário, a existência de padrões base na composição das equipas em termos ofensivos (sejam a mobilidade e criatividade – Arsenal e Sporting - a velocidade – Barcelona e Benfica – ou a intensidade elevada de jogo – Milan e Porto) e a definição implícita de um elemento chave nos processos ofensivos das equipas, esteja ele presente na construção (1ª ou 2ª fase) ou na finalização.

FC Porto – 2002/2003 – José Mourinho – 73 golos no campeonato – 1º Lugar
Foi na época(completa) de estreia de José Mourinho à frente do FC Porto que, estou em crer, se viu o futebol mais atractivo da sua era de sucesso enquanto treinador principal. Ao contrário do que sucedeu em épocas posteriores o Porto versão 2002/2003 foi uma equipa com uma vocação ofensiva constante, tendo conseguido muitos golos em todas as competições em que participou (e venceu). Mourinho montou uma equipa à base de jogadores ex-Leiria, recuperou Maniche e Costinha e lançou Deco para a galáxia das “super-estrelas”. O Porto protagonizava um futebol intenso desde o primeiro minuto, minimizando o tempo de respiração dos adversários para depois lançar a criatividade mágica de Deco, as diagonais desconcertantes de Derlei ou os momentos de 1x1 de Capucho para conseguir as suas inúmeras ocasiões de golo (muitas vezes finalizadas por Postiga, o goleador da equipa no campeonato com 13 golos). Para além das virtudes ofensivas o Porto 2002/2003 era também equilibrado nos processos defensivos, tendo dominado internamente e conseguido a brilhante conquista europeia de Sevilha. Para a memória ficam, entre outros, a meia-final com a Lazio (4-1) ou a goleada em Barcelos (5-3).



Benfica – 2002/2003 – Camacho – 74 golos no campeonato – 2º Lugar
A época não começou bem na Luz com Jesualdo a ser demitido após a humilhante eliminação da Taça frente ao Gondomar. Seguiu-se um curto período em que Chalana descobriu o excelente lateral que havia em Miguel e, finalmente, Camacho. O ex-seleccionador espanhol conseguiu devolver ao Benfica um futebol como não se via há quase uma década, impondo as suas características de homem de balneário e desenvolvendo um modelo de jogo sem grandes complexidades, mas que respeitava aquilo que de melhor havia no plantel encarnado. A dinâmica das alas era a principal virtude da equipa e Simão a sua principal figura, um jogador capaz de arrancar desequilíbrios constantes e com uma veia goleadora assinalável (18 golos, sendo com Fary o melhor goleador da prova). Como alternativa às arrancadas de Simão a equipa contava com a classe de Nuno Gomes (9 golos), os momentos de Zahovic e Geovanni, mas sobretudo com os movimentos sem bola daquele que seria a grande revelação da temporada: Tiago (13 golos). As goleadas ao Paços de Ferreira (7-0) e Setúbal (6-2) foram exemplos da capacidade explosiva de uma equipa que acabou por ser uma das vítimas da passagem do “furacão Mourinho” pelo futebol português.

Sporting – 2004/2005 – Peseiro – 66 golos no campeonato – 3º Lugar
Não foi num ápice que a máquina ofensiva de Peseiro começou a carburar. Os discursos de intenção do treinador ribatejano não coincidiram com a qualidade das primeiras prestações do Leão 2004/2005. O tempo acabaria porém por provar que o trabalho estava a ser bem feito e o Sporting por protagonizar um futebol encantador quer interna, quer externamente. Com sede de bola, a formação de Peseiro procurava recuperá-la cedo para depois fazer aquilo que os seus jogadores mais gostavam: a circulação de bola em apoio - trocas de bola deliciosas que envolviam todos os elementos da equipa, desde Ricardo a Liedson. A ordem era para jogar bem e com muita mobilidade. A virtude da equipa estava claramente na qualidade e quantidade de soluções existentes no meio campo do Sporting para protagonizar este tipo de futebol: Custódio, Rochemback, Pedro Barbosa, Hugo Viana, Sá Pinto, Carlos Martins, Rogério, Tello, Douala e a “prenda de Natal” João Moutinho. À frente desta parada de artistas Peseiro contava com um homem que pela sua influência e particularidade se tornava na principal referência de todo o jogo ofensivo da equipa: o goleador Liedson (25 golos). Na retina terão ficado as exibições como as conseguidas com o Newcastle (4-1) ou Boavista (6-1). O Sporting de Peseiro ficará também conhecido pela rápida descida “do céu ao inferno”, tendo perdido o campeonato e a Taça UEFA no curto espaço de uma semana e pela desorganização em que a equipa era apanhada nos momentos de transição defensiva – tudo em prol do golo!

Arsenal – 2004/2005 – Arsene Wenger – 87 golos no campeonato – 2º Lugar
Em 2004/2005 o Arsenal de Arsene Wenger partia para o campeonato como Campeão invencível e principal candidato à revalidação do seu titulo. As coisas podem não ter corrido da melhor forma para os Gunners que não contariam com a dimensão do “efeito Mourinho”, mas para história terá ficado a mais bem conseguida fórmula ofensiva engendrada pelo técnico Francês. Com a super-estrela Henry (sagrou-se goleador-mor da Premiership com 25 golos) como referência ofensiva, Wenger compôs uma formação capaz de baralhar qualquer defesa através da movimentação ofensiva dos seus homens, sem utilizar extremos-natos para conquistar a linha mas tendo como prioridade conseguir penetrações interiores com a “bola no pé”. Sem menosprezar a função de “suporte” realizada pelos sectores mais recuados, é impossível ignorar as soluções existentes para o quarteto ofensivo dos Gunners – Ljungberg, Pires, Henry, Bergkamp, Van Persie, Aliadere, Reyes, Pennant – todas elas com três denominadores comuns: técnica, mobilidade e repentismo.




Barcelona – 2005/2006 – Rijkaard – 80 golos no campeonato – 1º Lugar
2005/2006 ficará no registo como uma das épocas mais gloriosas do clube blaugrana deixando importantes títulos para o museu – o Campeonato e a muito ambicionada Champions League – e grandes jogadas para a memória dos adeptos “Culé”. Rijkaard, que não teve tempos fáceis nos primeiros meses como treinador, conseguiu em 05/06 a afirmação e consolidação definitiva de um modelo de jogo que tem por base uma equipa cuja técnica e velocidade não encontram, em muitos momentos da história, paralelo. De resto, o esqueleto 4x3x3 ganha dinâmica através de 4 premissas básicas impostas pelo ex-trinco do Milan: Pressão alta; Subida dos laterais, fazendo o “Overlapping”; Jogo apoiado no centro, com Deco como principal referencia nesta zona; Prioridade para “encontrar” Ronaldinho, pondo este toda o seu génio ao serviço da equipa, solicitando os movimentos de rotura de Giuly ou Eto’o ou encontrando ele próprio os desequilíbrios que possibilitem a penetração. Rijkaard teve o mérito de voltar a mostrar ao mundo uma equipa com genética de ataque, sendo simultaneamente dominadora à escala planetária e, paralelamente, de encontrar um modelo que potenciasse um “génio preguiçoso” (Ronaldinho Gaúcho) quando este tipo de jogadores pareciam marginalizados pelas exigências do futebol moderno.


AC Milan – 2005/2006 – Ancelotti – 85 golos no campeonato – 2º Lugar
No país do rigor táctico e do catenacio, não há memória de uma equipa com uma média de golos tão elevada como o Milan 2005/2006. Ancelotti compõs um modelo com uma dinâmica e eficácia ofensiva invulgar e destruidora quer através das letais transições ofensivas, quer através da sublime capacidade de encontrar espaços em quase todos os espaços defensivos dos adversários. Pirlo, o atipico pivot defensivo, é o principal responsável pela coordenação de todo o jogo ofensivo. Kaka e Shevchenko protagonizam movimentos imprevisíveis, quase caóticos, explorando quer o espaço entre linhas, quer a zona dos laterais. Inzaghi é o finalizador, um jogador que gosta de jogar no erro do adversário e de aproveitar as costas dos defesas quando estes colocam os olhos na bola. Seedorf oscila entre a largura, encostando sobre a esquerda, e o equilíbrio interior. Finalmente os laterais, elemento fundamental para a largura de jogo ofensivo da “squadra” de Ancelotti - uma vez que não existem extremos no esqueleto traçado: 4x3x1x2 – normalmente alinha apenas um lateral de características claramente ofensivas actuando quase como extremo (ou Cafu na direita, ou Serginho na esquerda). Não deixa de ser curioso que uma equipa tão invulgarmente concretizadora não tenha terminado em 1º Lugar – talvez seja esta apenas mais uma lição táctica

ler tudo >>

30.7.06

Época 06/07 - Os primeiros toques

ver comentários...
Para os adeptos é tempo de banhos, sol, sorrisos e sobretudo esperança! Para os que trabalham, o período é marcado pelo contraste entre o peso do fisico e a leveza da mente... uma leveza rara e atípica para os que têm na pressão um modo de vida. Para quem simplesmente anseia por futebol o tempo é de expectativa e de algum vazio proveniente da ausência de futebol propriamente dito. A formação dos planteis, as reportagens sobre os treinos e os ilusórios jogos de preparação podem pouco mais do que oferecer coordenadas dubias para o mapa futebolístico da temporada, mas... é tudo o que temos!

Nota: A análise feita às diferentes equipas tem por base informações sobre o trabalho das equipas que foram publicadas nos jornais desportivos.

FC PORTO
Na Holanda, mais do que os passeios de bicicleta e os já característicos episódios de disciplina à “moda de Co” – tudo em prol da concentração colectiva e disciplina de grupo – houve um estágio com muita bola e exercícios variados com um objectivo central: o desenvolvimento de um modelo que maximize a posse de bola. Para Adriaanse e o jogo do seu FCP houve e haverá duas palavras fundamentais – pressão e transição.

Sistema de jogo
Na época transacta os dragões começaram em 4x3x3, mas foi quando Adriaanse colocou em prática a sua defesa a 3 que, paradoxalmente, a equipa conseguiu defender melhor. Este ano tudo indica que teremos um Porto em 3x4x3 ou 3x3x4 em função do potencial do adversário, sendo que a limitação de recursos disponíveis para fomar uma dupla de atacantes pode condicionar a utilização do 3x3x4 (mais utilizado em 05/06).

Princípios de jogo
Adriaanse fala sempre em golos e espectáculo, o seu modelo responde com uma obsessão pelo domínio da bola, tentando recuperá-la o mais cedo possível através da pressão e da superioridade numérica na zona da bola. Com bola, os laterais e extremos oferecem largura e os avançados e médios (através de movimentos verticais) fornecem a profundidade que torna o “campo grande”. Tudo isto com circulação, preferencialmente pelos corredores.

SPORTING
João Aroso, o complemento fundamental da equipa técnica e do próprio Paulo Bento é o responsável pela preparação da equipa e pela assimilação da filosofia definida pelo líder. O método parece ter sido o treino integrado, utilizando preferencialmente a bola para conseguir os objectivos dos exercícios que podem ser físicos ou tácticos. De resto, o objectivo parece simples: projectar para 06/07 a filosofia implementada na segunda metade da época transacta.

Sistema de jogo
Sem complicações nem invenções, o modelo de jogo de Paulo Bento é para evoluir em 4x4x2, sem extremos, ou seja o popularizado “sistema do losango”.

Princípios de jogo
Paulo Bento tem uma visão simples e pragmática do jogo. O equilibrio e a concentração em 90 minutos são as premissas essenciais da sua equipa. Os mais simplistas dirão que joga para o “um-zerinho” e o facto é que a procura de momentos de transição que possam explorar os espaços e a preocupação sistemática com o equilíbrio da equipa oferece muitas vezes razão ao prognóstico. O objectivo é controlar em lugar de dominar, dando presença e pressão à zona intermédia e esperando pelo erro inevitável do adversário.


BENFICA
No Benfica a pré época tem sido tempo de mudança e apreensão. Mudança na equipa técnica, no modelo, no sistema e na referência... Simão (se é que vai sair...), um extremo que oferece momentos de rotura e velocidade por Rui Costa, um 10 que tem na racionalização do jogo e na qualidade de passe as suas características principais. A preocupação advém naturalmente das prestações no Guadiana e principalmente do jogo com o Sporting. Ainda vamos começar Agosto e se é verdade que o Benfica tinha mais tempo de preparação, o Sporting tem uma forma de jogar que transita da época passada e seria realmente surpreendente se o Benfica se tivesse superiorisado nesta altura. Se for bem acompanhado (na equipa técnica) e se tiver estabilidade, Santos, estou certo, imporá o seu modelo convenientemente, como fez em todos os clubes em que passou (excepto no Panathianaikos)

Sistema de jogo
Santos escolheu o 4x4x2 “losango”, preparou o trabalho e o plantel para essa escolha que teve sempre um pressuposto: a saída de Simão. Porém, no caso do imprevisto acontecer, o sistema, podem estar certos, vai mudar...

Princípios de jogo
Santos gosta de ter a bola, por isso os avançados defendem pressionando bem alto e é a partir das recuperações no meio-campo que as suas equipas procuram e conseguem desequilibrar. De resto a circulação faz-se procurando os espaços entre-linhas e aproveitando a dinâmica entre laterais, médios e avançados. Uma referência para as bolas paradas: já se viu que Luisão poderá ser a referência dos pontapés indirectos, aparecendo “tarde” em zona de finalização e num espaço que lhe é criado por um companheiro.

BRAGA
Carvalhal é novo e terá eventualmente mais tempo, mas a oportunidade que lhe foi concedida em Braga é pouco menos do que um “tudo ou nada” para o jovem professor. Um amante dos métodos que Mourinho também preconiza, Carvalhal preocupou-se, segundo os relatos de quem presenciou, principalmente com os aspectos ofensivos, sendo que a “porta fechada” foi também um dos hábitos dos treinos de inicio de época... Estará a ser escondida a fórmula para o declarado ataque aos três grandes? Uma coisa parece-me evidente: por muitos e bons recursos que possua será já um feito se Carvalhal estiver, na primeira época, à altura do seu antecessor!

Sistema de jogo
Tudo indica que teremos um 4x2x3x1 com extremos e com João Pinto como “pivot” do meio campo ofensivo.

Princípios de jogo
Não foram dadas muitas indicações nas recolhas jornalísticas feitas, apenas o apoio ofensivo dos laterais nas rotinas ofensivas e, previsivelmente, uma equipa que procura assumir o jogo com bola e com a busca da sua posse.



BOAVISTA
Ultrapassado o período traumático do divórcio com o Braga, o “Professor” passou ao tempo das lições... Com um discurso revelador do seu conhecimento e esclarecimento em torno das problemáticas que envolvem a sua profissão, Jesualdo tem sido o principal destaque – digo eu – de toda a pré época, tendo definido e sustentando claramente o que pretende para a sua equipa. Não terá facilidades até porque os recursos não serão os de outros tempos numa equipa em que o exigido é sempre muito, mas não tenham dúvidas da sua capacidade para desempenhar o cargo que lhe é proposto.

Sistema de jogo
Jesualdo simplifica: 4x3x3, à Braga - complemento eu.

Princípios de jogo
Também aqui as semelhanças com o Braga das últimas temporadas não é mera coincidência: O objectivo é “defender (colectivamente) antes de atacar”, fazendo uma ocupação racional e zonal dos espaços e dotando a equipa da inteligência necessária para perceber os momentos em que pode explorar os espaços concedidos pelo adversário, criando assim vantagem ofensiva.


LEIRIA
Domingos é o debutante surpresa da temporada. Com um discurso ambicioso – “objectivo UEFA” – e definindo a ambição de rotura com o Leiria dos contra-ataques para dar lugar ao Leiria do ataque continuado e da posse de bola, Domingos tem tido o papel mais fácil da sua tarefa que é exactamente aquele que antecede o inicio da competição. Não sou futurologista nem ponho em causa as capacidades do ex-goleador – até porque não as conheço- mas infelizmente não acredito muito em discursos de futebol de domínio constante, principalmente em equipas que não os “grandes”...

Sistema de jogo
O que se viu até agora foi um 4x4x2 com dois avançados nas alas, mas não há ainda certezas.

Princípios de jogo
A posse de bola e o domínio constante do jogo foram as declarações de princípio do jovem treinador, ficando igualmente claro o enfoque no ataque lateral. É ainda pouco...


OS OUTROS
De forma genérica, os relatos sobre a pré-época descrevem, numa primeira fase, intensas sessões de treino fisico, dando lugar aos ensaios tácticos que são por sua vez rapidamente substituídos por uma panóplia de jogos de preparação com índices baixos de competitividade...
Em Coimbra, o desafio parece não ser fácil para o bem sucedido Manuel Machado, que já exprimiu as suas preocupações com a pouca evolução demonstrada pela sua equipa sobretudo no que respeita à ocupação colectiva e eficaz dos espaços e à ligação entre os sectores.
Jardel é a palavra mais ouvida para os lados de Aveiro. No entanto, para já Inácio tem dado enfoque à posse de bola e... aos treinos físicos.
Os relatos de Setúbal ecoam uma preocupação essencialmente direccionada para a auto-vitimação, sobretudo no que respeita às limitações orçamentais a que o clube está sujeito para a composição do plantel – não é um bom pronuncio, mais uma vez...
Dos Barreiros vieram algumas das histórias mais curiosas deste período inicial. Primeiro com os banhos em água gelada para ajudar à recuperação e depois o discurso curioso do peculiar Ulisses Morais – o treinador definiu 3(!) modelos opcionais para o seu jogo (para jogar em função do adversário) e, quando instado sobre o que pretendia para o seu Marítimo, Morais não podia ser mais esclarecedor: “uma equipa consciente, sólida e segura, que revele boa capacidade defensiva e ofensiva, em suma, uma equipa completa...”.
Uma das frases mais enigmáticas do periodo foi proferida por José Mota após o jogo com a Académica , afirmando que os seus jogadores tinham tido “Problemas de raciocinio” durante a partida...
Finalmente, da Vila das Aves têm chegado relatos que, embora escassos, deixam perceber a humildade assumida pela equipa de Neca – a ausência de um autocarro para transportar a equipa será mesmo um sintoma preocupante de escassez de receitas de uma equipa que disputa o primeiro escalão de uma liga que pretende estar entre as melhores da Europa.


ler tudo >>

22.7.06

Ranking "jogo directo" de Clubes Europeus - final 05/06

ver comentários...
Sem surpresas o Barcelona terminou a temporada no primeiro lugar do Ranking JDCE, sagrando-se assim e segundo esta rigorosa classificação no melhor clube europeu da época. Entre os Portugueses o Porto consegue o melhor posto (18º) pouco à frente do Benfica (21º) e com alguma distância para o Sporting (36º). De resto, o destaque vai para a campanha positiva do Sevilha que lhe valeu um surpreendente 5º lugar final.




(Carregar
na imagem para ver

a primeira parte
do Ranking)




(Carregar
na imagem para ver
a primeira parte
do Ranking)


ler tudo >>

16.7.06

O Alemanha 2006 em "post scriptum"

ver comentários...

1 Mês de emoção

Para que uma prova como um campeonato do mundo possa ser bem sucedida na sua plenitude em termos de emotividade são necessárias duas componentes fundamentais: 1- a espectacularidade do futebol praticado: basicamente muitos e bons golos, mas também jogadas, passes, finalizações ou defesas... 2 – a incerteza e ansiedade em torno das partidas: confrontos de resultado imprevisível entre grandes equipas com grandes jogadores. Neste contexto, o Alemanha 2006 correspondeu aos dois requisitos, ainda que em fases distintas (na fase de grupos os golos: muitos e bons, nas elimitórias os grandes confrontos e as grandes emoções). Perante o “fantasma” que resultou de 2002 com o afastamento precoce de grandes selecções, o Alemanha 2006 terá sido um verdadeiro alívio para os adeptos e... para a FIFA.



Mundial Luso

Se houve lugar no mundo onde este Mundial foi vivido de forma apaixonada e intensa, terá sido em Portugal. A atitude, entrega e determinação dos jogadores portugueses em cada minuto dos seus jogos “arrastou” um país de futebol mas com pouco culto de selecção (pelo menos até ao Euro 2004). Depois da “clubite”, estará finalmente implantada a “Portugalite”?

Qualidade inextinta

Os “dinossauros”, como eram apelidados pelos próprios media franceses, afinal ainda não estavam extintos. Superaram à justa a fase de grupos e depois cumpriram o mais duro trajecto até à final, derrotando Espanha, Brasil e Portugal. Tendo em conta o percurso facilitado que os italianos tiveram até às meias-finais e o balanceamento dos 120 minutos finais, não tenho dúvidas em afirmar que se a justiça fizesse parte do jogo os franceses teriam vencido os penaltis. Para história ficam o último episódio de uma das mais bem sucedidas gerações de sempre e... uma cabeçada!

Jejum dos goleadores
Tivemos golos, muitos e bons, é uma evidência. Porém, quando as coisas apertaram, quando contou verdadeiramente para a história, foram as defesas que invariavelmente levaram a melhor. Rarearam as reviravoltas (na segunda fase foram apenas duas e ambas nos oitavos: o Espanha – França e o México – Argentina) e ao contrário do que é tradição foram poucos os homens-golo que decidiram partidas (apenas Klose logrou marcar 5 golos). A pergunta faz-se: haverá uma crise de goleadores no futebol mundial? A resposta, estou em crer, é não. O que se passou na Alemanha tem a ver com as estratégias adoptadas: O sistema mais utilizado foi o 4x5x1 (até a Inglaterra, tão fiel ao 4x4x2 o utilizou) o que deixa os ponta de lança mais sós na área. Os blocos defensivos tinham como prioridade defender junto da sua área e não conceder quaiquer espaço nas suas costas, o que é uma tortura para avançados que gostam de jogar “no erro”, como Henry, Pauleta, Ronaldo ou Rooney. Para além disto houve uma preocupação comum das equipas que lograram o sucesso: o equilibrio nas transições defensivas como requisito fundamental para se conseguir eficácia defensiva e controlar os jogos (o Brasil que o diga!).

Modelo de preparação

O campeonato do mundo é uma competição que se desenrola num curto período de tempo o que tradicionalmente torna difícil a consolidação dos habituais alicerces que sustentam as equipas enquanto colectivo. Creio que há 3 condições fundamentais para a que o sucesso das selecções possa ter lugar neste tipo de competições: 1 – Qualidade individual dos jogadores; 2 – Prioridade para a concepção e consolidação de um modelo de jogo e não para criação de um “melhor onze”; 3 – Criação de um espirito de grupo sólido. Entre as 3 condições elencadas uma, a primeira, tem caracter “genético” e as restantes um “carácter comportamental”, ou seja podem ser desenvolvidas através de um processo de aprendizagem. Naturalmente, quanto mais tempo se der a esse processo, maior serão as possibilidades de assimilação por parte do grupo e é por isso que a preparação destas competições deve ser feita ao longo de 2 anos e não nas 3 semanas imediatamente precedentes. E assim se explica, por exemplo, o sucesso de Scolari e o insucesso de Aragones ou Parreira.

'Paper Samba'
No papel teriam sido campeões de caras, mas mal se viu o primeiro jogo percebeu-se que o Brasil não passava daquilo que era no papel, ou seja o melhor conjunto de jogadores que existia na prova. Enquanto equipa o Brasil foi sempre desequilibrado e pouco concentrado, tendo sido apenas conseguido o resgate de uma eliminação mais humilhante pela qualidade individual dos seus jogadores e (não tenho dúvidas) por alguma fortuna de circunstancia. Parreira criou um onze com talento, mas sem principios de jogo ofensivos (por exemplo, quando Ronaldinho recebia a bola não havia movimentos sistemáticos que pudessem aproveitar a sua qualidade de passe), incapaz de fazer transições defensivas eficazes e com uma pressão “mole” que não complementava o bloco alto em que procurava defender. Não tenho nada contra o Brasil, mas enquanto apreciador de futebol, modalidade colectiva sinto-me aliviado que não tenha chegado mais longe... Seria uma má mensagem para quem pensa que o futebol são apenas 11 contra 11.

Avô cantigas

Poucos países preenchem tantos requisitos como a Espanha no que respeita a condições para ganhar um campeonato do mundo. Jogadores em qualidade e quantidade para todas as posições, um dos campeonatos mais competitivos e exigentes do mundo e um país com uma mentalidade descomplexada (em tudo excepto precisamente no que respeita à sua selecção). A selecção com o trauma “dos quartos” desta vez nem passou dos oitavos depois de, e mais uma vez, ter iludido meio mundo com o talento dos seus jogadores a vir ao de cima nos jogos de menor exigência. Os espanhóis encararam a sua eliminação como mais um sinal da “assombração” que se apoderou da sua selecção, uma inevitabilidade divina, no entanto não terá passado do desfecho mais natural para uma competição mal preparada. A Espanha iniciou a preparação para o mundial sem sequer ter definido um sistema de jogo, tendo sido convocados apenas dois avançados e vários extremos para, finalmente, fazer evoluir um 4x3x1x2 com muita troca de bola, pressão e bloco altos, mas sem largura ofensiva para criar soluções de passe e com muitas lacunas no processo defensivo (particularmente no papel dos avançados). Enfim, não foi o disparate táctico do Brasil mas apenas o resultado de uma preparação claramente mal feita por seleccionador com visão e métodos evidentemente ultrapassados.

ler tudo >>

8.7.06

Itália - uma paixão eminentemente táctica

ver comentários...

No âmbito desportivo e no futebol em particular, os italianos nunca deixaram que a sua paixão e espírito competitivo passassem em claro... Futebolisticamente falando, os italianos são reconhecidos como “mestres” da táctica, sendo esta vocação muitas vezes confundida com uma capacidade inexplicável para vencer jogos de forma cínica... Na Alemanha, em 2006, a Italia aparece orientada por mais um nome consagrado do seu futebol, o estudioso e metódico Lippi, que criou um modelo de jogo ímpar nesta competição, baseado num futebol directo que busca rupturas constantes na extrema defesa adversária em vez da mais usada valorização da posse de bola.
País latino, de temperamento quente a Itália marca presença em praticamente todos os capítulos da história civilizacional. Também no âmbito desportivo e no futebol em particular, os italianos nunca deixaram que a sua paixão e espírito competitivo passassem em claro, sendo hoje um país em que o “Calcio” se confunde por entre as tradições mais ancestrais da sua cultura e costumes.
Embora seja tricampeã mundial e uma das nações de maior tradição em fases finais de grandes competições, a verdade é que a selecção italiana tem tido dificuldade em materializar em vitorias as suas consecutivas participações nesses grandes eventos, apesar de apresentar à partida e por norma colectivos de irrefutável valia.
Futebolisticamente falando, os italianos são reconhecidos como “mestres” da táctica, sendo esta vocação muitas vezes confundida com uma capacidade inexplicável para vencer jogos de forma cínica, tendo este ultimo adjectivo sido amplamente ligado ao futebol transalpino desde a década de 80. De todo modo e embora o “cinismo” possa não passar de uma personificação futebolística de quem não encontra melhor explicação para o fenómeno, não deixa de ser verdade que existe na cultura do futebol italiano uma forte índole táctica. Sacchi ficou famoso por “criar” a defesa à zona no Milan, Trapattoni ligado ao “Catenaccio” e Cappelo ao 4-4-2 tacticamente perfeito em que faz evoluir as suas variadas equipas. A verdade, no entanto é que para a “I Azzurri” não têm sobrado mais do que treinadores em pré-reforma, reconhecidos pelos seu passado mas ignorados pelos grandes clubes italianos. Foi assim com Sacchi, Maldini, Zoff e Trapp, resultando as prestações nacionais da Itália sob o comando destes homens em sucessivas desilusões desprovidas de qualquer feito à altura das exigentes expectativas do seu povo.
Na Alemanha, em 2006, a Italia aparece orientada por mais um nome consagrado do seu futebol, o estudioso e metódico Lippi cujo sucesso recente apenas pode ser rivalizado, no que respeita a técnicos italianos, por Cappelo. Embora já não seja um novato, Lippi, de quem Alex Ferguson disse um dia apenas bastar olhar nos seus olhos para que se perceba o domínio que tem sobre o que faz, está bem ciente das complexidades e exigências do futebol moderno, não caindo na vulgaridade do jogo exageradamente defensivo (com que o futebol italiano está conotado), mas fazendo uso das capacidades físicas, técnicas e sobretudo tácticas de que dispõe nos seus jogadores para criar um modelo de jogo ímpar nesta competição, baseado num futebol directo que busca rupturas constantes na extrema defesa adversária em vez da mais usada valorização da posse de bola.

Princípios de jogo
A Itália proporciona jogos com momentos electrizantes como resultado da notável capacidade dos seus jogadores se movimentarem em bloco e da predisposição que têm para apanhar as defesas adversárias em sobressalto, quer em transição, quer em ataque organizado.
Quando tem a bola a Itália procura as suas referências. Pirlo é um exímio passador, combinando o seu talento no trato da bola com uma invulgar visão de jogo. A outra alternativa, menos utilizada nesta fase de jogo provém do movimento característico de Totti que recua verticalmente no campo (ou seja ao longo corredor central) para tentar ele próprio organizar o jogo a partir dessa posição. Esta redundância de tarefas entre Pirlo e Totti acaba por “tirar” Totti muitas vezes do jogo.Ainda assim, a movimentação do 10 tem sempre a virtude de atrair a marcação para zonas interiores, proporcionando o ambicionado espaço que pode ser aproveitado em diagonais de ruptura por Toni, Perrotta ou Camoranesi. Embora este seja o movimento preferencial do ataque italiano, nem sempre ele é possivel. Como alternativa, a largura é dada pelos laterais que, possantes e rápidos, combinam muito bem com um dos médios ala, menos propensos para atacar a linha e cruzar (Camoranesi fã-lo mais do que Perrota, até porque tem mais características para desequilibrar no 1x1). Este movimento dos laterais constitui uma grande mais valia para os italianos tendo já resultado diversos golos através das suas “galopadas” ao longo das laterais. Uma última nota para as transições ofensivas: os italianos procuram recuperar a bola cedo e esta ambição constitui uma ameaça constante para as equipas adversárias, porque quando o fazem os italianos desdobram-se muito eficazmente em movimentos ofensivos que visam criar e aproveitar momentos de desorganização defensiva.
Sem bola, a Italia “estica e encolhe” em profundidade no campo como mais nenhuma equipa o faz. Totti e Toni pressionam alto, Perrota e Camoranesi fazem o movimento pressionante ao longo das alas, basculando horizontalmente em função da bola e Gattuso e Pirlo estão talhados e rotinados (desde o Milan) para fazer a cobertura de toda a zona central. O movimento destes dois é admirável e importantíssimo para o sucesso do processo defensivo, pois têm sobre a sua responsabilidade uma área de dimensões enormes. Apesar de começar a pressionar alto, a selecção italiana não corre o risco de subir as suas linhas na tentativa de manter o bloco compacto, prefere confiar na capacidade táctica dos seus jogadores e no reagrupamento rápido do bloco quando o adversário avança no terreno. Esta atitude defensiva provoca muito desgaste fisico nos seus jogadores, o que justifica segundas partes com mais dificuldades em termos defensivos. Curiosamente é aqui que normalmente aparece o aparente “cinismo” italiano. É que os italianos têm como característica nunca perderem o seu sentido táctico e a sua organisação. Quando a Itália se torna mais vulnerável na sua pressão, os adversários tornam-se mais ambiciosos e emocionais no seu jogo, concedendo mais espaços para as transições. Os italianos adoram esses espaços e frequentemente cometem a crueldade de os aproveitar, “matando” os adversários precisamente no momento em que estes parecem estar por cima na partida...

Sistema de jogo
4x4x1x1.

Individualidades
Buffon é um autêntico “monstro” na baliza. Domina todos os aspectos do seu “metier” parecendo, por vezes, impossível transpô-lo.
Os laterais Grosso e Zambrotta são rápidos e altos, fecham bem por dentro e, a atacar, percebem muito bem qual o momento para intervir, desequilibrando de forma poderosa quer em penetrações interiores, quer exteriores.
Cannavaro é díficil de adjectivar. Baixo, não perde um confronto aéreo. Tem um sentido posicional impressionante, dobrando na zona central ou na lateral direita, parecendo às vezes que sozinho daria conta de todo recado. Para mim o melhor do mundo e candidato sério a MVP do mundial. O seu parceiro, Matterazzi (na ausencia de Nesta) peca por uma abordagem mais bruta e emocional nas suas actuações. No entanto é um dos melhores intérpretes no jogo aéreo e temível na marcação.
Gattuso é um guerreiro, perfeito na ocupação dos espaços e confortável na distribuição. Pirlo é menos dado ao choque mas tem uma facilidade invulgar de organização e distribuição de jogo. A sua visão de jogo reflecte-se também defensivamente nas inúmeras antecipações e intercepções que consegue.
Perrotta e Camoranesi, os alas, têm um perfil genético diferente. Perrotta é muito evoluído tacticamente, fechando e posicionando-se bem. Ofensivamente é jogador de 1, 2 toques, jogando em apoio ou procurando movimentos em diagonal que explorem as costas da defesa contrária. Camoranesi, sendo um trabalhador incansável, tem maior afinidade com a bola, procurando ocasionalmente desequilibrios no 1x1 sendo mais propenso a tentar a linha.
Totti é o 10, talhado para o desequilibrio ofensivo. Média distância, passes de ruptura e finalizações na área são as mais valias de um jogador que desaparece muitas vezes do jogo (Pirlo retira-lhe algum protagonismo na organização) e que gosta muito pouco de defender.
Finalmente, Luca Toni. Capaz de jogar como pivot, procurando espaços interiores, de atacar nas costas através da sua velocidade ou de procurar as alas dando soluções de passe à construção ofensiva, Toni é um avançado completo e um “mouro de trabalho” que tem na sua potência física a principal característica.

ler tudo >>

AddThis