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30.1.12

Feirense - Benfica: opinião e estatística

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- Antes de ir ao jogo propriamente dito, acho interessante comentar a situação da tabela classificativa. O Benfica tinha duas vantagens, que garantiu na primeira metade do campeonato: 2 pontos de avanço e a perspectiva de disputar em casa o jogo que se adivinha com maior potencial decisivo. Quanto à segunda vantagem, não há muito a acrescentar para além do óbvio, mas parece haver mais importância na liderança do que a mera diferença pontual. Ano após ano e de país para país parece verificar-se uma tendência para que as equipas que vão atrás tenham mais dificuldade em reagir às adversidades. Um problema de confiança, seguramente, mas todos sabemos como a confiança pode ser tudo no futebol (e o Benfica de Jesus que o diga!). Não é uma verdade absoluta, obviamente, mas será uma tendência geral, que explica, por exemplo, porque é que 24 dos últimos 30 campeões já lideravam ao fim de apenas 1/3 do campeonato, quando esse não parece ser um período suficientemente longo para que o factor aleatório tenha sido isolado. Seja como for, esta jornada tivemos um passo potencialmente decisivo para a definição do campeonato, onde a reacção à adversidade dos dois primeiros foi totalmente distinta. Neste mesmo sentido, o Feirense poderá vir a ser uma equipa chave na corrida ao título, não tanto por este jogo, mas pelo facto de ter sido inesperadamente frente a este adversário que o Porto perdeu a sua vantagem na fase inicial da prova.

- A perspectiva de um jogo algo diferente do habitual, confirmou-se. O Feirense forçou o Benfica a disputar um jogo de futebol muito verticalizado e pouco tempo para pensar. A resposta do Benfica foi sempre boa, mas demorou até que a equipa conseguisse realmente dominar o jogo. Acabou por fazê-lo com a evolução do tempo, havendo também a coincidência de isso ter acontecido após a passagem de Rodrigo para uma zona mais central, com Witsel a ocupar uma posição mais descaída para a direita, sobretudo em situação defensiva. Esta organização criou alguns problemas de controlo a Maxi (frequentemente o ajustamento posicional de Witsel não chegava a tempo de bloquear o corredor), mas a verdade é que o Benfica pareceu ganhar com a mudança, sobretudo pela maior presença de Rodrigo em zona central e pela amplitude de acção de Witsel, que libertou Aimar. Já contra o Marítimo, o Benfica se dera bem com a alteração, e embora não seja liquido que tal tenha sempre um efeito positivo (nomeadamente, porque aumenta o risco de perda em posse), a verdade é que tem tido precisamente esse efeito.

- Recentemente, destaquei o papel importante da abordagem do Benfica ao mercado, com muito investimento, mas com apostas muito certeiras. Hoje, e neste jogo em particular, quero realçar outro ponto importante na construção do plantel e nas opções do treinador. É que, provavelmente como poucos, Jesus sabe bem que jogadores quer para a sua equipa. Por exemplo, a estatura é essencial em pelo menos 4 unidades da sua equipa. O guarda redes, os centrais e o pivot são sempre altos nas equipas de Jesus, e quando não são passam a ser (no caso da dispensa de Quim, por exemplo, parece ter sido decisivo). Do mesmo modo, um dos avançados tem tendencialmente essa característica, sendo que para esta posição o treinador confia naquilo que o faz ganhar, os golos. Por isso, Cardozo é discutível para quase todos, mas não para Jesus. Estas prioridades do treinador conferem ao Benfica uma grande adaptabilidade, nomeadamente sendo capaz de responder de forma muito forte num jogo com estas características. Obviamente, não quer isto dizer que todos os treinadores e todas as equipas devam repetir a fórmula (mais uma vez a importância da especificidade...), mas parece-me indiscutível a utilidade de se saber o que se quer, fazendo convergir as características individuais para os objectivos colectivos. Ainda no capítulo individual, destaque para Rodrigo, Cardozo (grande jogo, de utilidade cirúrgica para aquilo que foi o jogo) e Artur. O guarda redes merece aqui uma referência especial, porque não foi pelo que Artur defendeu que foi importante, mas pelas suas reposições, nomeadamente com os pés. Esse é outro ponto onde o Benfica evoluiu nesta época, e duvido que de agora em diante Jesus passe também a não dispensar um bom jogo de pés nos seus guarda redes...

- Nota, finalmente, para algumas dinâmicas colectivas do Benfica. Na saída em construção, o Feirense tentou forçar o pontapé longo de Artur, mas o guarda redes forçou até ao limite a saída em posse, normalmente por Garay, e muitas vezes com um passe praticamente paralelo à linha final. A opção pelo argentino é intencional, porque é o jogador com maior qualidade de passe nos elementos mais recuados, e mesmo que a saída curta do guarda redes não tenha tido como consequência constante a progressão em apoio (várias vezes não teve), sempre que o Benfica tentou a construção longa conseguiu criar muitas dificuldades de controlo ao Feirense, tendo Cardozo um papel essencial como referência para o jogo directo. Outra dinâmica em evidência e que causou dificuldades ao Feirense, aconteceu em situações de progressão mais apoiada, com a bola a ter como destino quase constante o corredor oposto àquele onde a jogada havia começado. Aqui, o Benfica aproveita a mobilidade de Aimar e a boa abertura da sua estrutura para provocar dificuldades de controlo ao bloco adversário.
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19.9.11

Feirense - Porto: opinião

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- Começo com uma pequena reflexão, que é aquela que mais me sobra da exibição portista... A natureza complexa do futebol torna muito difícil podermos ser concretos e objectivos sobre a utilidade de várias coisas. Normalmente, usamos a percepção, forçamos relações de causalidade, mas, também, recorremos com frequência a regras, pequenos dogmas, sobre o que é "jogar bem", sem que, de facto, tenhamos certezas objectivas sobre essas considerações. No caso do Porto, há várias perguntas a sobressair do que se viu em Aveiro, numa exibição que, muito claramente, foi intencionalmente arrojada na inovação em relação àquilo que foram comportamentos e rotinas de jogo desta equipa, ao longo dos últimos 15 meses:

 Qual a utilidade real do exacerbar dos movimentos interiores de James? Será benéfico fazer a equipa orientar-se de forma tão marcada para o corredor central, e espaço "entrelinhas"? O "falso 9", que efeitos práticos realmente tem? Qual o impacto da perda de um elemento deliberadamente mais posicional ao nível dos equilíbrios na zona mais recuada?

... tudo isto me faz voltar a sublinhar a necessidade da centralização na dúvida como método, e no objectivo do jogo, o golo, como único foco fundamental para o que é, ou não, "jogar bem". E, se nos centrarmos na dúvida, facilmente concluímos que pode ser um risco a aceleração de um processo de inovação sobre uma equipa que, com grande certeza, vinha sendo muito competente.


- Entrando no campo mais específico, há algo de estranho no que se observou. Vitor Pereira abdicou do médio posicional, entre Fernando e Souza, escolheu Moutinho, e a equipa tirou frutos dessa situação. Tirou frutos, porque conseguiu aquilo que raramente se vê, que é construir com segurança pelo corredor central. Não teve de ligar com os extremos, ou sair pelos laterais. Não, a dinâmica dos três médios chegava para fazer a bola chegar, com elevada fluidez, à segunda linha de construção. O "estranho", é que este factor costuma ser suficiente para vermos as equipas encurralar territorialmente os adversários e, inevitavelmente, ir acumulando ocasiões de golo. Ora, o Porto, na primeira parte, teve 1 ocasião. Ou seja, algo de errado se passou no "assalto" à área do Feirense. O que se viu foi uma grande confluência de jogadores no corredor central. James nunca abriu, e jogou mesmo como elemento livre, aproximando-se de Kleber, ou indo mesmo para próximo de Cristian Rodriguez. Por outro lado, esta centralização do extremo não teve complemento em termos de largura. Tanto os médios permaneceram centrados nas dinâmicas interiores, como os próprios laterais fizeram frequentemente movimentos por dentro. Ora, e mantendo-me no campo da dúvida, não é certo ou impossível que esta centralização sobre o corredor central torne as coisas mais difíceis. Pode haver uma grande capacidade especifica de criar soluções de rotura dentro destes comportamentos. Pode, mas não é, em teoria, muito provável. Centralizar as acções é diminuir o campo de ataque, reduzir espaços e, logicamente, tornar mais fácil a tarefa de quem defende. E foi precisamente isso que aconteceu...

- Sobre James, o protagonista principal deste processo de centralização do jogo, entendo que, de facto, pode e deve ser potenciado pela sua capacidade em posse, mas que isso não deve acontecer em terrenos muito próximos do avançado. Porque, a sua presença mais constante nesse espaço retira imprevisibilidade à exploração do espaço "entrelinhas", e porque para o próprio se torna mais difícil executar a partir de espaços tão fechados. Ou seja, o que me parece é que a sua especificidade pode ser útil para criar focos de atracção em zonas mais baixas (sobretudo quando joga à direita), mas que a sua qualidade é também potenciada em acções mais à largura (sobretudo à esquerda).

- Na segunda parte, o jogo alterou-se ligeiramente. O Porto piorou na sua construção, tornou-se mais ansioso e cometeu mais erros, mas também se aproximou mais do golo, fundamentalmente porque teve mais largura, e porque foi mais reactivo às incidências do jogo, aproveitando pequenos momentos de desorganização no adversário. Mas também se expôs em demasia, nomeadamente apresentando-se mais desorganizado e invulgarmente desequilibrado na recta final do jogo. Aqui, uma reflexão para notar a importância de ter um elemento mais posicional no meio campo. A mobilidade dos médios trouxe benefícios em termos de dinâmica de construção, mas fez com que se perdesse também essa noção constante da necessidade de manter equilíbrios junto da última linha. O Porto não sofreu, mas dificilmente manterá esse registo defensivo se repetir alguns erros. Nota, ainda no mesmo âmbito, para o efeito das sucessivas alterações estruturais na segunda parte. É um risco que se vê frequentemente, que se percebe, mas que raramente é um risco verdadeiramente calculado. Mexer muito, destrói referências, distorce tendências e acrescenta ruído. O ideal, é controlar tendências e não ficar vulnerável ao ruído.

- Sobre o "falso 9", protagonizado na segunda parte por James, importa também reflectir. O futebol tem mais de 100 anos e, ao longo desse tempo, os finalizadores tiveram sempre uma relação estreita com o sucesso colectivo. Parece-me perigoso desvalorizar repentinamente a relevância dessa função sem uma forte base de sustentação. O exemplo que inspira esta iniciativa, todos sabemos, é o do Barcelona. Mas, no Barcelona, para além da excelência técnica dos seus intervenientes, há uma enormidade de movimentos que potenciam a fase de finalização. Movimentos muito difíceis de repetir, mas que acabam por fazer com que o "falso 9" (Messi) marque 30% dos golos da equipa. Ou seja, na prática, jogue mais à frente ou mais atrás, o finalizador mantém-se. Talvez seja mais realista, neste processo de inspiração, olhar para a Roma, que tem uma excelente fase de construção, um "falso 9" (Totti), mas fez apenas 2 golos em 4 jogos oficiais. Ou seja, parece-me uma solução possível mas de enquadramento muito complicado, sobretudo quando não está Hulk.

- Finalmente, sobre o Feirense, curiosamente não destaco muito os méritos defensivos da equipa, porque não  me pareceu muito capaz de filtrar a construção portista, o que, normalmente, ser-lhe-ia fatal. Mas destaco as boas combinações no flanco direito, colocando por vezes 4 jogadores nesse processo e construindo muito boas situações de cruzamento. Outra nota, para as situações de transição a partir de lances de bola parada defensiva. É outro tema em que se invocam frequentemente certezas onde elas não existem: é melhor defender zona ou homem a homem? Uma resposta generalizável, ninguém tem. O que se conhecem são as potencialidades que cada método oferece e, entre elas, está a possibilidade de, defendo hxh, deixar mais gente na frente. Foi a partir dessa característica que o Feirense se aventurou até à sua melhor ocasião no jogo. Nota para Rabiola, que justifica acompanhamento (Mangala que o diga...).

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23.8.11

Benfica - Feirense: opinião

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- "Vitória sofrida". A adjectivação, desde já, não é questionável. O "sofrimento" é uma emoção, e as emoções sentem-se, não se discutem. Esse é o primeiro ponto de reflexão que gostaria de deixar. Ou seja, a importância da emoção, e a sua sobreposição sobre razão, na definição da percepção que temos sobre o jogo, e os seus protagonistas. Fica, realmente, a sensação de que o Benfica poderia ter deixado escapar os 3 pontos em cima da meta, mas isso não quer dizer que tenha feito pouco para ganhar. Pelo contrário, somadas todas as incidências do jogo, os 2 golos de vantagens dão, até, maior justiça ao marcador. Recuperando a breve introdução filosófica, e como qualquer especialista em inteligência emocional seguramente concordaria, é importante manter-se uma capacidade critica e de auto reflexão, em relação à influência da componente emocional na percepção que temos sobre o jogo.

- Entrando no jogo, propriamente dito, a primeira parte deu-nos um Benfica dominador e consequente, em termos de proximidade com o golo. Tipicamente, diria, o Benfica tem um objectivo primordial neste tipo de jogos: chegar ao último terço. Se o fizer, tem, depois, tudo para ganhar vantagem no jogo. Não só pelo talento, mas, sobretudo, pela forte reacção à perda, e, também, pela força que tem nas bolas paradas. É essa a história da primeira parte: foi superada a fase de construção e, com maior ou menor brilhantismo, chegaram as oportunidades e as condições para ter acabado, logo aí, com o jogo.

- Apesar de ter sido bem sucedido nessa primeira parte, não creio que haja grandes motivos para euforias no que respeita à construção do Benfica. O Feirense mostrou-se estrategicamente preocupado com Javi, mas como Javi não é um ponto de saída primordial, facilmente o Benfica ultrapassou o condicionalismo na primeira linha, inclusive tirando partido do tradicional recuo do pivot, para alargar os espaços no bloco contrário. Não só o Benfica chegou com facilidade ao último terço, como não teve problemas de controlo de segurança em posse, nessa zona. De resto, há, na construção, um ponto a reflectir, e que recupero de algo que já havia escrito há pouco tempo. Tem a ver com a assimetria provocada pela saída de Coentrão. O Benfica mantém a sua filosofia de progressão, diria, em "atropelo". Ou seja, seja qual for o corredor escolhido para a saída, não há uma grande preocupação em trabalhar o espaço, e os jogadores forçam a entrada. É assim à direita, com Maxi, ao meio, com Aimar e Saviola mas, agora, não tanto à esquerda, com Capdevilla ou Emerson. Isto, porque nem um nem outro têm esse perfil. Particularmente, Capdevilla é um jogador mais criterioso e menos agressivo, ao contrário de Maxi ou Coentrão. Se, à direita, a bola circula, na maioria das vezes, de Luisão para Maxi e deste para o extremo, forçando a entrada mesmo que o lado esteja fechado, à esquerda esta sequência necessita sempre de um ponto de apoio interior. Se juntarmos aqui Garay, outra novidade em 2011/12, temos uma situação que será curioso acompanhar, em termos de evolução.

- E a segunda parte? Bom, em primeiro lugar, recupero a ideia do primeiro ponto. Isto, porque o Feirense marcou na sua primeira oportunidade, sendo esse um lance de enorme impacto emocional, mas que não reflectiu uma tendência acentuada no jogo. Depois, não é possível esperar que as equipas mantenham uma intensidade constante e tão elevada ao longo de 90 minutos. Ou melhor, é possível, mas não é provável. Por isso, a importância de se ser eficaz quando a oportunidade surge. De resto, o Feirense fez-se sentir junto de Artur, quase sempre em situações de transição rápida, sobretudo após lances de bola parada, do lado contrário. Onde, talvez, mais motivos existam para preocupações, é na dificuldade que o Benfica voltou a demonstrar para gerir o jogo, e se colocar a salvo do sobressalto. Repare-se na melhor ocasião do Feirense, já com 2-1: o Benfica sai pela direita, com Maxi a dar em Perez e, de imediato a fazer o "overlap", retirando apoio ao argentino, que recebeu pressionado, e de costas. É o tal futebol de "atropelo". Não há nada a apontar em termos técnicos, mas o ponto é mesmo esse. A equipa preferiu o risco da progressão impulsiva (em que é muito forte, não confundir), e expôs-se ao mérito que o adversário pudesse ter em transição, caso a iniciativa encarnada não fosse bem sucedida. Valeu que, no caso, o mérito do Feirense só durou até à finalização, mas fica mais um exemplo da forma como o Benfica cria condições para a transição adversária, ao não trabalhar o critério em construção.

- Uma nota final para duas situações. A primeira, tem a ver com a substituição de Witsel por Gaitan. Não parece, de facto, fazer muito sentido a alteração com 1-1 no marcador. Witsel, creio que é praticamente consensual, é uma mais valia que deve fazer parte da solução principal da equipa. O ponto aqui é que Jesus não parece saber muito bem o que fazer com as suas soluções. Não inclui o belga nas opções iniciais e, depois, sente-se obrigado a lança-lo, fazendo-o numa altura em que a equipa precisava mais de criatividade e não tanto de consistência e equilíbrio. A segunda, tem a ver com a importância que tem a eficácia e a presença de elementos que possam materializar o ascendente naquilo que, realmente, é o objectivo do jogo: o golo. Refiro-me, claro, a Cardozo e Nolito.
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