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As 2 faces de Jaime Valdés

Não é muito difícil perceber a sua qualidade técnica. No entanto, apreciar-se a estética do seu futebol é uma coisa, outra, bem mais relevante, é atestar-se da utilidade do mesmo. Nesse particular, confesso, não fui um grande entusiasta de Jaime Valdés. Não só nos primeiros jogos de leão ao peito, mas nos outros, que observei enquanto jogador da Atalanta. O perfume do seu futebol estava lá, mas sempre demasiado isolado do jogo e da própria equipa para que pudesse, realmente, influenciar o destino dos acontecimentos. E assim foi, sempre, até à lesão de Matias Fernandez. O "remendo" Valdés, escolhido para tapar o buraco da posição 10, acabou por se revelar na grande aquisição que o outro Valdés, aquele que jogava amarrado à ala, nunca mostrara ser. É bem possível que a lesão de Matías Fernandez tenha sido a melhor notícia da sua carreira.

Porquê da diferença?Como explicar a diferença de rendimento? Bom, terá a ver com o enquadramento colectivo, mas sobretudo com as características do próprio jogador. Quando chegou, classifiquei Valdés de "driblador nato", pela sua facilidade de sair da marcação em drible curto. O problema de Valdés é que este recurso não é um fim em si mesmo. Ou seja, dá-lhe tempo e espaço para criar uma situação de passe ou de cruzamento, mas essa vantagem de pouco lhe servia na ala. Porquê? Porque, primeiro, Valdés não tem uma grande capacidade de cruzamento ou de remate e, depois, porque a própria equipa cria poucos apoios no corredor para poder retirar proveitos colectivos desta característica individual.

Ao aparecer no meio, Valdés passou a poder aplicar a sua capacidade técnica em zonas muito mais próximas da baliza, tornando cada drible curto num acontecimento muito mais gravoso para a defensiva contrária. Mas não é só. Para se jogar em posições centrais, não basta habilidade: é preciso cultura de movimentos. E é aqui que surge a aptidão escondida de Valdés. O seu critério de movimentação tem sido muito bom, oscilando a sua presença no centro, na ala ou em profundidade. Valdés não é um 10 de construção - como Matías, por exemplo - mas tem-se revelado um jogador muito mais determinante no último terço.

Mais uma solução de qualidade

O rendimento de Valdés nesta posição tem sido de tal forma elevado que é até irrealista esperar a manutenção dos mesmos níveis de desempenho. Ainda assim, diria que dificilmente Valdés deixará de ser - com alguma distância - a melhor solução para o lugar e, igualmente, uma mais valia para a equipa. Valdés aparece nesta fase como mais uma solução individual de elevado rendimento, numa equipa de quem, muito se diz e escreve, não ter qualidade individual para lutar pelo título. Esta é uma ideia que não partilho, em absoluto. Não digo que o Sporting tenha melhores recursos individuais do que Benfica e Porto, mas tem-nos suficientes para exigir bem mais do seu rendimento colectivo. Tem, por exemplo, um plantel muito melhor do que anos anteriores. É só uma opinião...



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4 comentários:

Mário Rui Oliveira disse...

o que não entendo é porque não se tenta meter o Matias na ala ! Não será um extremo, mas tem criatividade e a posição permite estar menos presente que a de 10, e esse é o problema de Matias ... estar presente 90 minutos ! o que achas disto, Filipe ?

Anónimo disse...

Na minha opiniao a mais-valia do Valdes reside na sua movimentacao sem bola. Ainda que com o devido distanciamento em termos de qualidade tecnica acho-o extremamente parecido com o Saviola.
Se no caso de Saviola ninguem espera que ele renda o mesmo quer na ala quer como 10 classico organizador de jogo, a visao ja nao e tao concensual quando se fala de Valdes.
Acho que o facto de ja nao ser um jogador muito jovem, faz com que se parta do principio de que a melhor posicao para ele ja foi encontrada. Se estivessemos a avaliar um jovem das camadas de formacao, certamente seria mais facil contrariar esses preconceitos.
Penso que a solucao de Paulo Sergio, ou de quem vier a ser treinador do Sporting, tera de forcosamente passar por uma adaptacao do desenho tactico aos recursos disponiveis. Para retirar o maior partido de Valdes, este tera de jogar entre linhas, ora esta opcao implica muito provavelmente que jogara apenas com um homem mais adiantado no corredor central, uma vez que os medios de cobertura nao tem caracteristicas que permitam a exploracao dos flancos. Vejo claramente Postiga ou Liedson a ficarem no banco para que Vukcevic, muito mais explosivo na linha de largura ao jogo do Sporting. Com esta opcao nao seria de estranhar um Joao Pereira mais ofensivo com Pedro Mendes a fazer as devidas compensacoes, entao surge o problema Abel.
Sinceramente apesar de concordar que a qualidade em nada fica a dever a de outras epocas, tambem me parece que existem demasiadas "incompatibilidades" e dependencias.

Voz disse...

Concordo em certa medida neste comentario anterior, de usar Valdes como apoio ao avancado. A questao que isso deixa entao e o que fazer com o resta da equipa?
Usar alas para canalizar o jogo? Infelizmente aqui Vukcevic tem-se mostrado pouco capaz de jogar a medio esquerdo, onde precisa de ter cuidados tacticos para fechar o flanco e pressionar. A subida de Joao Pereira para o outro flanco tambem e solucao, mas longe da ideal, ja que onde ele rende mais e a lateral. Assim sendo, so com o regresso de Izmailov e que esta hipotese parece ter pernas para andar.
A outra alternativa poderia ser usar Liedson, Postiga e Valdez, todos com ordem de divagar (algo que o Paulo Sergio tem recusado, preferindo sempre amarrar Liedson ao meio), e ter depois tres medios mais defensivos, portanto Maniche, Pedro Mendes, e Andre Santos, com o Mendes no vertice defensivo.
Isto obviamente seria apenas para maximizar caracteristicas dos jogadores. A questao a seguir era se o Valdes se mostraria capaz de montar uma pressao alta juntamente com Liedson e Postiga, e isto sem deixar demasiada distancia entre os 3 medios, ou estes com os defesas, mas isso ja e outra conversa inteiramente.

filipe disse...

Sobre o Matias Fernandez, penso o seguinte: jogadores com qualidade técnica e criatividade, como a que tem, são sempre muito apreciados pela critica e adeptos.

No caso do Matías, porém, o "todo" do seu rendimento ainda não se mostrou inquestionavelmente útil à equipa. E é o "todo" que deve ser considerado e não a técnica, criatividade, ou qualquer outro recurso isolado, por muito que dele se goste.

O primeiro passo, a meu ver, é fazer o jogador perceber isso, que é preciso melhorar e encontrar soluções que produzam resultados para além do que vem sendo conseguido. De resto, como qualidade não lhe falta, seguramente hipóteses de soluções também não faltarão.