12.2.14

Benfica - Sporting (I): notas colectivas

ver comentários...
Conto, nos próximos dias, apresentar novas análises ao jogo, nomeadamente com os dados estatísticos, opiniões sobre exibições individuais e uma revisão de alguns aspectos tácticos do jogo (vídeo). Não me sendo possível apresentar já essas análises mais detalhadas, deixo umas primeiras notas de opinião sobre as duas equipas.

Benfica - Foi mais um bom jogo do Benfica, provavelmente dos mais bem conseguidos desta temporada, e com um resultado que, sendo bom, peca por escasso. Muito do que se passou no derby, e da enorme diferença de rendimento entre as equipas, será abordado a partir do demérito do Sporting, porque é normalmente assim que acontece e porque neste caso foi Jardim quem mais mexeu. Na minha leitura, porém, a incapacidade do Sporting deve-se, em primeira instância, à qualidade do Benfica. Distingo, aqui, alguns pontos a este respeito: 1) a fase de construção, decisiva na definição do enorme domínio que o Benfica teve, com evidência para o papel dos centrais e para a capacidade de transporte e envolvimento de Enzo Perez. 2) a intensidade e agressividade nos duelos, muito em especial na reacção à perda, várias vezes o ponto de partida para acções de ataque-rápido de grande potencial. 3) a mobilidade ofensiva, porque mesmo garantido o domínio pelos dois pontos anteriores, só é possível aproximar-se com tanta frequência do golo se essa qualidade existir. Invariavelmente, o foco das discussões vai para as opções tácticas, mas é quase sempre na eficácia da interpretação das ideias que se define a validade das mesmas. Por isso é que é mais fácil ter melhores ideias com melhores jogadores, e por isso também é que as opções tácticas de Jesus prevaleceram neste derbi.
Havia escrito aqui, após o final do ciclo-Champions, que previsivelmente o Benfica melhoraria neste período. Não era um dado adquirido, claro, mas antes uma probabilidade que deriva do que se viu nas épocas anteriores do Benfica de Jesus. O Benfica melhorou e chegou à liderança, sempre com o 4-4-2, por quase todos diabolizado. A meu ver - e como fui escrevendo - foi a melhor opção, e se muitas vezes vejo treinadores a ceder a análises pouco consistentes que se generalizam externamente, este é um episódio que reforça o meu apreço por Jesus. Enfim, o Benfica partirá, em breve, para um novo ciclo da temporada, numa posição muito favorável - novamente! - para ser campeão. O problema não é tanto a sobrecarga de jogos, até porque não tenho dúvidas de que a Liga Europa será relegada para segundo-plano. O problema são os 3 jogos com o Porto, onde a tentação de queimar energias é maior e onde se poderá perder o foco relativamente à competição principal. Foi sempre quando as prioridades entre competições ficaram menos definidas que o Benfica de Jesus perdeu pontos decisivos na corrida ao título. Veremos o que sucede desta vez...

Sporting - A leitura que fiz sobre a estratégia de Jardim confirmou-se em pleno, com Martins à direita e Montero ao meio, e isso poupa-me algum texto para explicar o porquê de ser expectável que fosse assim que o treinador iria dispor as suas peças, e o que poderia ganhar e perder com essa opção. A má notícia para o Sporting é que, na prática, pouco ganhou, acabando praticamente por só perder com a estratégia escolhida. Porque, mesmo com Slimani como referência, teve pouca eficácia na construção longa. Porque raramente conseguiu potenciar o 2x2 com os centrais do Benfica (através da colocação de uma unidade mais central, Montero, e próxima do avançado). Porque o seu jogo exterior ficou completamente descaracterizado, sendo que tal como havia escrito na antevisão, sentiu-se muito impacto que tiveram na fase de construção, a perda de um o pé canhoto para a habitual ligação do jogo ao longo do corredor esquerdo (uma solução que, recorde-se, causou muitos problemas ao Benfica no jogo da primeira volta), e também a perda da mobilidade de André Martins sobre o corredor direito, nomeadamente nos movimentos em profundidade, nas costas do extremo. Por fim, e como se não bastasse, também porque não teve William, com Dier a confirmar outro ponto abordado na antevisão: o péssimo critério que vem mantendo com a bola nos pés.
Num outro capítulo, que eu não abordei na antevisão mas que teve forte impacto no jogo e que foi referido pelo próprio Jardim após a partida, o Sporting poderá também ter perdido qualidade na presença pressionante da sua primeira linha, nomeadamente por ter retirado André Martins dessa zona. Não é certo que tenha sido decisivo, porque o Benfica esteve realmente muito bem em construção, mas parece-me - e aqui sim, à posteriori - que poderá ter feito falta um elemento de maior intensidade/agressividade nessa zona, como é André Martins. 

Jardim deu-se mal, é certo, e muitas das suas opções são questionáveis porque muitos dos problemas da sua estratégia eram previsíveis. No entanto, devo fazer duas ressalvas em favor do treinador do Sporting - ou, melhor, em desfavor de muitos dos seus críticos!: 1) o onze era conhecido desde domingo, mas poucos foram aqueles que anteciparam os problemas desta aposta. Aliás, foram bem mais os elogios ao arrojo do treinador, por este incluir 2 avançados de inicio neste jogo. 2) Como esclareceu o próprio treinador, não houve mudança de sistema com estas alterações. Falar de uma mudança de 4-4-2 para 4-3-3 só é possível para quem não conheça a forma de jogar do Sporting. Jardim mudou características individuais, e forçosamente algumas intenções colectivas, mas não mudou o sistema!

Esta é uma derrota, por todos os motivos, muito penalizadora para o estado de ânimo do Sporting. Num dérbi, numa exibição que deixa a ideia de impotência e numa situação em que a possibilidade da liderança se transforma, de repente, num terceiro lugar. Mas, não faço qualquer "lapalissada" com o calendário quando digo que a época do Sporting não acaba aqui. Faltam jogos e pontos suficientes para que o título, estando obviamente muito mais complicado, esteja longe de ser uma mera hipótese matemática. É claro que me parece que o Sporting tem entrado em alguns equívocos, que não vêm apenas deste jogo, mas de toda uma ideia em torno dos planos A e B, que foi marcando os últimos jogos. Na minha opinião, o Sporting deverá partir sempre da sua identidade e dos seus pontos fortes, que foram afinal o alicerce do sucesso vivido durante grande parte da época. O sucesso do plano B, aplicado sempre em períodos curtos e específicos dos jogos, trouxe pontos importantes, é certo, mas trouxe também aquilo que na minha leitura é a ilusão de um caminho que, sendo possível, será sempre mais longo e de menor probabilidade de sucesso. O Sporting tem deixado de apostar numa evolução a partir dos pontos fortes, em favor de uma ideia de jogo que se encontra num ponto necessariamente bem menos avançado, tendo por isso muito menos qualidade. Essa parece ser a tentação de Jardim, com a aprovação de grande parte dos adeptos e comunicação social, mas pessoalmente tenho muitas dúvidas de que seja por aí o melhor caminho...

ler tudo >>

10.2.14

O "onze" de Leonardo Jardim

ver comentários...
O adiamento do derby terá poucos pontos positivos, mas oferece-nos pelo menos a possibilidade de comentar as opções iniciais dos treinadores antes do apito inicial, o que é sempre um exercício mais interessante do que fazê-lo depois do jogo. Aqui, obviamente, há uma enorme diferença entre as duas equipas, contrastando a previsibilidade das opções de Jesus com a pequena revolução que Leonardo Jardim encetou no seu onze. A primeira ideia passa por uma aposta num jogo mais directo, por parte do treinador madeirense, com Slimani como referência aérea. Mas há, na minha opinião, outras questões a levantar em torno das implicações de algumas opções, nomeadamente no que respeita ao jogo exterior. Aqui ficam algumas notas sobre as opções de Jardim, salvaguardando que este cenário poderá, agora, ser alterado antes do inicio do jogo.

Onde vão jogar Montero e Martins? - A primeira ideia sugere que a única alteração no meio-campo de Jardim é a substituição directa de William por Dier. Mas será mesmo assim? Na minha leitura, não. Olhando para o passado, sempre que Jardim utilizou, em simultâneo, Slimani, Montero e Martins, foi sempre o médio português a derivar para uma posição mais lateral. No mesmo sentido, não é a primeira vez que Jardim recorre a um ala de características mais interiores (aliás, foi essa a sua primeira opção na pré-época, com Magrão ou o próprio Martins), nem tão pouco a primeira vez que encosta André Martins a uma das linhas. Mas seria, isso sim, a primeira vez que utilizaria Montero numa posição mais exterior...

Construção mais directa, com Slimani 
Este tipo de jogos apresentam problemas obviamente diferentes para o Sporting, em relação à generalidade dos outros opositores internos. Em particular, ao nível da fase de construção, sendo muito mais difícil (e arriscado) ter bola. A opção passa, recorrentemente, por construir de forma mais directa, usando uma referência frontal que faça o jogo "saltar" o risco da primeira fase de construção. No jogo para a Taça, foi o Benfica quem melhor proveito tirou desta alternativa, com Cardozo a ter um desempenho muito forte nesse plano, em contraste com as maiores dificuldades de Montero. Desta vez, os papeis podem-se inverter, com Jardim a apostar em Slimani e, a meu ver, a pensar muito naquilo que o argelino pode oferecer em termos de soluções para uma construção mais longa.

Desvirtuar das dinâmicas dos corredores laterais?
A grande interrogação, na minha leitura, sobre aquilo que implicam as opções de Jardim tem a ver com a capacidade do jogo exterior, habitualmente o ponto mais forte do futebol leonino. Ora vejamos, assumindo que Martins joga sobre a direita e Montero ao meio, o Sporting colocará mais foco no corredor central, com Martins a oferecer mais capacidade no jogo interior do que a generalidade dos extremos da equipa, e com Montero a permitir uma presença mais constante no espaço entrelinhas e, sobretudo, a potenciar mais duelos directos, 2x2, com os centrais (provavelmente jogando muito a partir da segunda-bola). Esta parece-me ser a intenção de Jardim, mas há um outro lado para esta opção. Desde logo, o Sporting perderá um dos movimentos mais eficazes da sua fase de construção, que contempla o baixar do extremo-direito e a entrada de Martins, em diagonal, no espaço aberto nas suas costas. Para além disso, perderá profundidade com Martins como extremo, e perderá também o apoio que o próprio Martins oferece habitualmente ao extremo quando joga como médio, sendo expectável que Montero se fixe mais sobre o corredor central.
Do outro lado, à esquerda, também há muitas limitações em relação à dinâmica habitual. Mesmo que Piris protagonize bem os movimentos de profundidade - habitualmente muito fortes, com Jefferson - dificilmente conseguirá os mesmos timings de execução, uma vez que o seu pé preferencial é o direito. Aliás, com Piris e Heldon, o Sporting não tem nenhum canhoto no seu corredor esquerdo. Finalmente, e tal como acontece à direita, a utilização da dupla Slimani-Montero, sugere menor presença em apoio sobre os corredores laterais, sendo possivelmente Adrien o maior suporte a vir do corredor central, não se esperando porém que possa surgir daí grande alternativa em termos de profundidade, ja que Adrien tem uma missão de bastantes exigências em termos posicionais.

Dier - Não surpreende a opção por Dier - embora talvez surpreenda que Vitor tivesse sido relegado para a bancada. Jardim manterá uma boa presença no jogo aéreo, o que será provavelmente importante neste jogo, já que o Benfica facilmente recorrerá a uma construção mais longa. Em termos defensivos, também creio que a equipa passar sem se ressentir muito, sendo um jogador fisicamente com virtudes e defeitos semelhantes às de William. O risco, neste capítulo, estará mais no posicionamento, tendo em conta a pouca habituação do jogador à posição. A grande diferença surgirá, claro, quando a equipa tiver a bola. A vantagem para Dier reside no facto de, previsivelmente, Jardim não lhe exigir muito neste plano, com a entrada de Slimani a sugerir uma aposta mais declarada na construção longa. Ainda assim, é importante que o inglês conserve grande lucidez no seu critério com bola, um capítulo em que revelou alguma irregularidade quando foi utilizado como central e que num jogo desta natureza poderá ser um factor decisivo, sabendo-se do condicionamento que o Benfica habitualmente faz no seu pressing mais alto e, claro, na capacidade que os seus jogadores terão para "punir" eventuais perdas em zonas de risco. Em suma, diria que é perfeitamente possível que o Sporting não se ressinta da ausência de William, mas que para tal aconteça é preciso que exista uma resposta colectiva, e não apenas individual, à ausência do médio.

Heldon - Estive para escrever sobre ele na semana que passou, mas acabei por não o fazer. Não é um jogador que tenha alguma vez observado com grande detalhe, e por isso tenho ainda algumas dúvidas sobre alguns aspectos. Ainda assim, sei o suficiente para afirmar que o Sporting contratou aquele que é, fora dos "grandes", a individualidade de maior destaque em termos ofensivos da primeira metade da época. Não apenas pelos golos que marcou - onde se incluem penáltis - mas também pela capacidade de, em jogo corrido, desequilibrar e aproximar a sua equipa do golo. É verdade que foi apenas meia época e que nos outros anos não conseguira o mesmo protagonismo, mas é incontornável que o seu rendimento foi extraordinário. Em particular, destaca-se o seu sentido de baliza, tanto na capacidade de aparecer em zonas de finalização como na qualidade de execução (é provável, inclusivamente, que seja protagonista nas bolas paradas). A minha maior dúvida reside na sua capacidade de envolvimento em fases mais precoces do jogo, nomeadamente ao nível da decisão/percepção em zonas mais distantes da área adversária.

ler tudo >>

5.2.14

Man City - Chelsea: o duplo-pivot de Mourinho

ver comentários...

É uma semana rica em jogos de elevado interesse e, provavelmente, voltarei mais tarde com a opinião sobre algumas dessas partidas. Para já, a semana começou com o muito aguardado Man City-Chelsea, que redundou numa importante vitória da equipa de Mourinho. Não é a primeira vez que destaco a qualidade da organização defensiva da equipa de Mourinho, comparativamente com as restantes formações da Premier League, sendo interessante perceber os motivos que, do ponto de vista táctico, podem explicar essas diferenças. Neste caso, foco-me no papel do duplo-pivot, que me parece ter sido decisivo no sucesso da estratégia para este jogo em concreto. Em particular, o controlo que o Chelsea conseguiu fazer dos corredores laterais, onde habitualmente o City consegue causar muitos estragos pela velocidade de desdobramento da sua equipa. Mais do que tudo, sublinharia a forma como Mourinho conseguiu atenuar essa ameaça sem que, com isso, tivesse "perdido" Hazard, desgastando-o com o foco no acompanhamento defensivo. Aliás, com o ajuste lateral de Matic, o belga passou a estar até mais liberto para aproveitar o espaço oferecido pela projecção ofensiva de Zabaleta. Do outro lado, a inclusão de Ramires como extremo teve, a meu ver, o objectivo inverso. Ou seja, fazendo um acompanhamento defensivo até zonas mais baixas, Ramires possibilitou que David Luiz pudesse permanecer em zonas mais centrais.

É claro que o comportamento do duplo-pivot, por muito competente que tenha sido, não pode ser isolado do mérito global da equipa, mas creio que se justifica elogiar o desempenho de Matic (especialmente!) e David Luiz. Matic, mais forte no equilíbrio e ajuste posicional, David Luiz actuando mais em antecipação e sobre o corredor central. De todo o modo, este foi um jogo específico, de pouca exigência em termos de construção com bola, não me parecendo uma solução replicável para a maioria dos jogos da equipa. Seja como for, e se houvesse dúvidas, o Chelsea mostrou como deve ser muito seriamente introduzido nas contas de todas as competições onde está envolvido. Especialmente, acrescento, nas competições a eliminar.

Relativamente ao Man City, a derrota não foi uma fatalidade - como próprio Mourinho, aliás, reconheceu - e este mesmo jogo poderia ter dado outro desfecho. Também me parece incontornável que não ter Fernandinho e Aguero é uma perda muito grande e que, com estes dois jogadores, a equipa ganha muito mais qualidade (em especial no jogo interior). Não terá passado este relevante teste, é verdade, mas continuo a ver aqui o mais forte candidato ao título inglês.

ler tudo >>

4.2.14

Carlos Eduardo e o espaço entrelinhas

ver comentários...

É um tema sobre o qual já venho escrevendo há algum tempo, e que na minha opinião tem prejudicado muito a ligação de jogo portista nos últimos tempos (particularmente, nos jogos de Alvalade e da Luz). Fica também a nota para referir que não pretendo centrar a critica no jogador em si, mas antes focar aquilo que me parece ser o desajuste do perfil dos seus movimentos com aquilo que a equipa pede, havendo uma enorme diferença em relação ao que oferecia Lucho Gonzalez nos movimentos sem bola e no espaço entrelinhas. O caminho, a meu ver, terá forçosamente de passar por uma adaptação colectiva a esta nova realidade. Nomeadamente, deverá potenciar o aparecimento de Carlos Eduardo de outra forma e, por outro lado, criar movimentos de outros jogadores no espaço entrelinhas, sob pena de perder completamente a utilidade do seu jogo interior. Palavra, de novo, a Paulo Fonseca...

ler tudo >>

3.2.14

Marítimo - Porto: Estatística e análise

ver comentários...

Regressão qualitativa e eclipse do jogo interior - Já o escrevi noutras ocasiões, e a ideia vem-se solidificando: o Porto de hoje, é consideravelmente mais fraco do que aquele que iniciou a temporada. Em parte, esta opinião resulta da perda de qualidade no jogo interior e na ligação entre as fases ofensivas do seu futebol. Antes, a equipa tinha Lucho, que oferecia sempre muitas soluções nas costas da linha média contrária. Hoje, tem Carlos Eduardo, que apesar do potencial técnico raramente recebe uma bola entrelinhas, oferecendo muito poucas soluções de passe verticais no corredor central. Uma opção própria, do treinador e do clube, que a meu ver e do ponto de vista estritamente técnico-táctico, se constituiu num erro importante e nesta altura já irreversível. O que faz agora o jogo do Porto? Procura sistematicamente os extremos - sobretudo Quaresma - não para promover dinâmicas colectivas, mas na esperança de que dali possam sair rasgos individuais que resolvam o que colectivamente a equipa não é capaz resolver. Não é difícil de antever o pior, caso as coisas não mudem. Não que o jogo exterior não possa ser até uma solução, tendo o Porto até, individualmente, soluções que permitem pensar que por aí pode estar o caminho. Mas, porque para tal acontcer, é preciso criar uma intenção colectiva que vá nesse sentido, coisa que até agora ainda não se viu no trabalho de Paulo Fonseca. Não digo que não o tenha tentado no treino, mas nos jogos o que parece é que tem tentado mais acertar num "onze" do que desenvolver uma equipa.

Individualidades (Porto)
Helton - Pouco trabalho e sem reparos, com destaque para uma defesa vistosa num remate exterior, já na segunda parte.

Danilo - Esteve muito activo no jogo, tanto ofensivamente como defensivamente. Pela negativa, claro,o lance do penálti. Não só pela forma como abordou de forma displicente um corte dentro da área, mas porque deveria estar mais perto da jogada, o que lhe permitiria fazer a cobertura sem problemas. À margem desse lance, o seu contributo foi até dos mais positivos da equipa, com muito trabalho no seu corredor e algumas (poucas) incursões ofensivas a destacar - quase sempre pelo corredor central, o que é uma característica invulgar num lateral.

Alex Sandro - Não foi um jogo especialmente conseguido, note-se, mas terá sido dos menos maus da equipa, sem grandes reparos a fazer-lhe em qualquer plano, e estando inclusivamente em algumas das jogadas mais perigosas da equipa, entre as quais o cruzamento para a finalização de Varela. De todo o modo, foi interessante vê-lo com Quaresma pela frente, percebendo-se que o entendimento entre os dois não é propriamente algo que esteja muito desenvolvido.  

Maicon - Muito activo defensivamente, ganhando vários duelos, mas sentindo também muitas dificuldades perante Derley (que fez um grande jogo). Em especial, deixou-se bater, em duas ocasiões, pela forma como o avançado do Marítimo usou o corpo para rodar e ficar à frente do central.

Mangala - Globalmente, menos interventivo do que Maicon, mas não foi igualmente por ele que o Porto saiu da Madeira com uma derrota.

Defour - É o patinho feio da equipa, mas continuo a não ver sentido em apontar-se-lhe o dedo quando os problemas não passam, seguramente, pelo desempenho da sua função. Estava a realizar um jogo regular, sem grandes destaques nem reparos.

Josué - Havia a dúvida sobre onde jogaria, mas voltou a ser colocado no duplo-pivot, atrás de Carlos Eduardo. Inclusivamente, na fase final, actuou como primeiro médio, o que é um pouco mais estranho. Posso concordar que o duplo-pivot não seja o papel que melhor potencia as suas características, mas isso não quer dizer que não possa jogar numa missão de maior ênfase na primeira fase de construção. Pode, e voltou a fazê-lo sem problemas de maior.

Carlos Eduardo - Um jogo bastante fraco e onde voltou a demonstrar que não se lhe pode pedir grande capacidade de movimentação no espaço entrelinhas. Tem qualidade de definição, em especial no último terço, e até boa capacidade de trabalho, mas para ser potenciado de forma útil para a equipa tem de haver um enquadramento diferente para as suas acções. Nos 3 últimos jogos mal sucedidos da equipa revelou sempre o mesmo problema, sendo na minha leitura um dos factores-chave para o insucesso colectivo. Uma situação que, pela recorrência, não pode fazer dele o principal culpado.

Quaresma - Parece ser o novo farol da equipa e, já se sabe, tem uma qualidade técnica muito acima da média. A questão é saber se isso basta só por si, porque as suas acções são quase sempre estritamente individuais e, por outro lado, oferece muito pouco à equipa para além do tempo em que a bola está nos seus pés. É verdade que foi protagonista de um dos lances de maior perigo da equipa, mas isso não pode chegar para 90 minutos de tanto ênfase numa equipa com aspirações do Porto.

Varela - Bem menos accionado do que Quaresma, mas nem por isso com um rendimento inferior (o que não quer dizer que tenha tido uma boa prestação). Esteve perto de marcar, no instante imediatamente anterior à sua saída.

Jackson - Não foi a solução nem teve o protagonismo ofensivo que lhe é habitual, mas também é difícil ser muito contundente na crítica quando a equipa passa tanto tempo com tantas dificuldades em chegar à sua zona de forma a perspectivar, minimamente, o sucesso.

Quintero - Uma nota apenas para voltar a sublinhar que o seu talento é raro e que um dos grandes falhanços de Paulo Fonseca até agora foi não ter sido capaz de potenciar a sua integração colectiva de forma a que pudesse ser mais do que uma opção individual para as fases de desespero.

ler tudo >>

31.1.14

5 jogadas (Bilbao - Atlético, Man City e Bayern)

ver comentários...

Atl.Bilbao - Atl.Madrid - Um grande jogo, na segunda mão dos quartos-de-final da Taça do Rei, entre aquelas que serão, provavelmente, as duas melhores equipas do futebol espanhol da actualidade, descontados os "gigantes" Barça e Real. É claro que há alguma diferença entre Athletic e Atlético, mas jogando-se no novo San Mamés e com várias ausências relevantes do lado madrileno, estava criado um grande teste à equipa de Simeone. Mais um! É certo que o resultado não sugere grandes complicações para uma equipa que já levava da primeira mão uma vantagem de um golo, mas a história do jogo tem para contar várias complicações criadas pelos bascos à habitual segurança defensiva do Atlético. Esse mérito do Atl.Bilbao tem por base a intensidade com encarou o jogo, mas teve também, do ponto de vista táctico, algumas nuances que me parecem ter contribuído para uma intranquilidade acrescida, relativamente ao que é costume na equipa de Simeone. Em particular, o posicionamento dos laterais, quase sempre bastante profundos, criou problemas de ajustamento posicional da linha média. A verdade é que o esforço do Bilbao acabou por ser inglório, em parte pelo mérito defensivo do seu opositor, mas também pela capacidade madrilena de aproveitar as situações ofensivas que o jogo lhe ofereceu, seja no capítulo das bolas paradas (onde é, repetidamente, muito forte), quer no aproveitamento das costas e do risco posicional que estava inerente à postura basca no jogo. Com maior foco no campeonato, diria que o Athletic será o mais forte candidato ao 4º lugar no campeonato. Já relativamente ao Atlético, continuo a não vislumbrar limites para as possibilidades nesta temporada. Não é favorito a nada, mas é candidato... a tudo!

Sobre as duas jogadas do vídeo, no primeiro lance começo por sublinhar o pressing alto do Atlético de Madrid. Aqui reside mais um dos méritos do comportamento táctico da equipa de Simeone, que é a capacidade de identificar muito correctamente a postura que deve adoptar em termos de presença pressionante. Como sabemos, não tem relutância em baixar muito o bloco, fazendo-o com grande competência e frequência, mas não raras vezes potencia igualmente o erro adversário em zonas bastante altas. Nesses casos, o Atlético forma uma espécie de 4-1-3-2, "partindo" o posicionamento dos seus dois médios, com um deles a adoptar uma postura mais pressionante e o outro permanecendo mais perto da linha defensiva. Na sequência do lance, Diego Costa acaba por, mais uma vez, demonstrar a sua apetência para explorar a profundidade, aproveitando o posicionamento exageradamente alto da linha defensiva, que acaba por se deixar apanhar numa situação em que a distância para o portador da bola é demasiado curta e não lhe permite reagir minimamente ao lance.
Na segunda jogada, está evidenciado o efeito da projecção dos laterais do Atl.Bilbao, durante o jogo. Neste caso a construção da jogada acaba por potenciar ainda mais a dificuldade dos alas do Atl.Madrid em fazer um ajustamento posicional atempado, acabando por não haver controlo sobre o 'overlap' de Balenziaga. Nota ainda para a qualidade do cruzamento, que retira a bola do primeiro poste e da acção de Courtois, e para o tempo de salto de Aduriz, que fazendo-se primeiro à bola, inviabiliza a acção de Godin.

Tottenham - Man City -  Um jogo que supostamente seria equilibrado, mas que acabou com um cenário repetido para as duas equipas: goleada! E sem surpresa, porque a qualidade que ambas mostraram foi, de facto, muito díspar. Aqui, importa mais falar do Man City, que vem revelando níveis de confiança muito elevados, conseguindo ser uma das formações mais dominadoras do futebol europeu da actualidade, pelo seu potencial técnico. A sua capacidade de circulação foi, de resto, a grande chave do sucesso neste jogo, já que o bloco defensivo do Tottenham acabou sempre por se deixar envolver pela movimentação, com bola, da equipa de Pellegrini, acabando assim desposicionada e à mercê da grande valia individual dos avançados contrários. Foi, de resto, um jogo completamente falhado em termos estratégicos por parte dos Spurs, que não só foram incapazes de controlar os espaços essenciais, defensivamente, como também não tiraram partido algum da tentativa de usar Adebayor como referência frontal para a sua construção ofensiva. O caso deste jogo, e do que sucedeu ao Tottenham, é um exemplo para a generalidade das equipas da Premier League, que perante o City actual se confrontam com a quase fatalidade de terem de passar muito tempo sem bola. Se não definirem bem as suas prioridades posicionais, nomeadamente ao nível de referências prioritárias, acabam por não só não ter bola, como se verem expostos os seus espaços essenciais. O City, pelo invulgar potencial técnico que apresenta, é, sem dúvida, um dos grandes pontos de interesse para o restante da temporada do futebol europeu. De imediato, teremos um desafio interessante frente ao Chelsea - uma das equipa que não deverá discutir a posse de bola, mas que será potencialmente muito forte numa estratégia de contra-ataque - e, mais tarde, o interesse de ver duas das equipas mais dominadoras do futebol mundial, City e Barça.

Quanto aos dois lances que escolhi para o vídeo, em ambos é notória a forma como o Tottenham sentiu dificuldades em controlar a movimentação dos jogadores do City, perante a circulação da bola. O primeiro golo da equipa de Pellegrini é simplesmente notável, com a bola a circular entre vários jogadores, com poucos toques, e percorrendo uma área muito grande do terreno. O destaque, claro, vai para o movimento de David Silva, mas também será importante notar a forma como a equipa do Tottenham permite que se abram tantos espaços entre os seus jogadores. O mesmo problema no segundo caso, sendo criada uma zona de 4x3 no corredor central e com os médios dos Spurs a focarem-se excessivamente nas referências individuais, o que perante uma situação de inferioridade numérica é sempre desaconselhável, mas que no caso tem a agravante desse posicionamento implicar a abertura do espaço entre si.

Estugarda - Bayern - Uma pequena nota sobre este jogo em que, sem Robben e Ribery (entre outros, mas sobretudo estes), o Bayern sentiu muitas dificuldades para vencer, conseguindo-o apenas nos minutos finais, através de uma fantástica finalização de Thiago Alcantara. Mas a nota principal, aqui, vai mesmo para os problemas que o Bayern sentiu em ser consequente nas suas acções ofensivas durante grande parte do jogo, acabando por consegui-lo após as alterações de Guardiola, o que nos leva até ao outro foco de interesse. Guardiola colocou, em simultâneo, duas referências ofensivas (Pizarro e Mandzukic), passando a actuar apenas com dois médios (Lahm e Alcantara). Esta maior presença física não determinou um jogo mais directo, mas acabou por tirar partido do acréscimo de presença ofensiva, sendo que a circulação na linha média não perdeu grande eficácia pela qualidade de Lahm e Alcantara. Um figurino, já agora, bastante parecido com o de Jesus no Benfica, com um médio mais baixo (Lahm) e apenas outro à sua frente (Alcantara), a quem se exigia uma boa capacidade de transporte de bola. O Bayern venceu e Guardiola terá até tirado notas positivas dos últimos 20 minutos, mas ficou também a ideia de que sem os seus principais desequilibradores, o potencial da equipa pode ser bastante afectado.

ler tudo >>

29.1.14

Fredy Montero e a relação com o golo

ver comentários...
Começou por ser a grande figura do campeonato, pela facilidade com que ia marcando jogo após jogo. Recentemente, porém, tem sentido mais dificuldades em encontrar-se com o destino do golo, acumulando já 476 minutos sem marcar (em todas as provas).

Tenho escrito bastante sobre os avançados e a forma como a sua relação com o golo é, na minha visão, avaliada com demasiada focalização em ocorrências de curto-prazo, ignorando-se por outro lado alguns indicadores mais sólidos e que oferecem uma estimativa mais realista sobre o que devemos esperar do futuro. Sobre o próprio Fredy Montero, aliás, havia aqui alertado para o peso da sua elevada eficiência (golo/ocasião) no inicio da temporada, não sendo projectável que essa performance se pudesse manter ao longo do tempo. Sem surpresa, a eficiência baixou até um registo relativamente normal e Montero deixou de marcar com tanta frequência.

Quer isto dizer que o que vimos de Montero no inicio de época foi apenas um acidente e que, afinal, do colombiano não se devem esperar muitos mais golos? Sem fazer deste um exercício de futurologia, mas antes uma projecção realista em face daquilo que a sua performance evidenciou até ao momento, a resposta é: não! Ou seja, tal como não seria de esperar que a sua veia goleadora mantivesse o fulgor do inicio de época, também agora o mais provável que, mais jogo menos jogo, Montero volte a marcar. Aliás, ao seu período de "seca", deve notar-se, corresponde uma série de jogos em que a própria equipa sentiu dificuldades em se aproximar do golo, pelo que este contexto não deve ser ignorado.

É claro que esta perspectiva mais moderada não é aquela que vigora, e se da parte dos adeptos é natural que existam exageros nas expectativas geradas, a verdade é que a falta de golos parece ter já passado para o próprio Montero, que vem revelando alguma ansiedade nas suas decisões em jogos mais recentes, nomeadamente forçando finalizações em contextos pouco favoráveis. Esse é, a meu ver, o grande risco deste tipo de volatilidade em torno da apreciação dos avançados e da sua relação com o golo, transmitindo-se injustificadamente uma ansiedade que afecta depois negativamente o desempenho dos jogadores noutros capítulos do seu jogo.

Para terminar, deixo a minha a minha projecção: considerando o desempenho que manteve até agora e caso mantenha os mesmos tempos de utilização, diria que será razoável esperar de Montero mais 6-8 golos (sem penáltis) até ao final da temporada.



ler tudo >>

28.1.14

A previsível saída de Lucho

ver comentários...
Desfecho previsível - Venho escrevendo pontualmente sobre a forma como, particularmente em Portugal, os jogadores são olhados após entrarem na casa dos trinta. Lucho era um dos casos mais evidentes nesta temporada, e também já me tinha referido à probabilidade desta ser a sua última época no futebol português, tanto mais que estava em final de contrato. Não era óbvio que fosse tão imediato, mas era previsível que a saída estivesse para acontecer...

Rendimento elevado, apesar do B.I. - Pessoalmente, penso que o Porto faz mal em não ficar com Lucho, e mesmo tentar prolongar-lhe o contrato. Não sei quantificar o peso da sua influência no grupo, mas sei que dentro do campo Lucho era, ainda e como sempre, uma das unidades de maior rendimento da equipa. Apenas atrás de Jackson, que a meu ver está noutro patamar. É verdade que nos últimos tempos foi recuado para uma posição que não potenciava a mais valiosa das suas características, que é a capacidade de, sem bola, encontrar espaços e linhas de passe virtuosas, dentro do bloco defensivo contrário. Lucho não era - nem nunca foi - um jogador que se evidenciasse pelo seu envolvimento na primeira fase de construção, e foi sempre quando teve liberdade para se soltar numa segunda fase ofensiva que mais se destacou, mas recentemente criou-se essa ideia e Paulo Fonseca acabou ceder, ignorando a mais-valia que o jogador vinha trazendo ao jogo entrelinhas da equipa. Seja como for, o seu rendimento era incomparavelmente superior à média da equipa, sendo que foi inclusivamente o jogador portista que mais quilómetros correu nos jogos da Champions League. Tudo somado, e considerando ainda a sua parca propensão para lesões, dá para dizer que, no caso de Lucho Gonzalez, o problema da idade é mesmo, apenas e só, um problema de preconceito, porque tudo apontava para que o jogador tivesse ainda vários anos para poder jogar ao mais algo nível.

Mudança no ADN do meio-campo - Obviamente que o Porto não deixará de ser competitivo sem Lucho, perspectivando-se agora a aposta mais continuada noutros protagonistas. O caso mais sério, e revelado recentemente, é o de Carlos Eduardo, mas também Josué e mesmo Quintero terão agora outra margem para se afirmar no onze base. Uma coisa é certa, porém, se o Porto teve como marca mais forte dos primeiros tempos de Paulo Fonseca o jogo entrelinhas, muito dificilmente na era pós-Lucho manterá essa identidade. É que, não havendo dúvidas sobre a capacidade técnica de qualquer das alternativas para jogar na frente do triângulo, nenhuma tem especial vocação para trabalhar a sua aparição no jogo sem bola e dentro do bloco contrário, como acontecia com Lucho. Mais incidência no jogo exterior, é o que se aguarda (e o que já se tem visto, de resto).

ler tudo >>

AddThis