Diz a definição que Calor é a energia transferida entre 2 sistemas. Não sei exactamente o que se passa quando estas transferências se dão em pleno relvado, mas há indícios claros de que a temperatura mexe, e bem, com o calor do jogo. Pelo menos, deve ser por isso que os nórdicos jogam aquele futebol frenético e os sul americanos se parecem arrastar nos “gramados”. Mas não é só no ritmo que o calor influi. Porquê isto agora? O Celtic, primeiro, e, mais tarde (bem mais tarde!), a final da Copa do Brasil.
Não me entendam mal, o Celtic não é nenhuma potência, mas espera-se sempre dos escoceses outra intensidade num jogo de futebol. Lembro-me sempre daquele mundial de clubes no Brasil: e se os pusessem a jogar num clima tórrido, será que mantinham a atitude? Pois parece que não. Parece que as transferências de energia não são mais as mesmas. Dá que pensar.
Noutro país, outras transferências de energia, que é como quem diz: outro calor! A final da Copa do Brasil. Na apertada Vila Belmiro, casa do Santos, jogou-se a primeira mão e o Vitória teve o pesadelo de tentar sobreviver ao “caldeirão” do adversário (não sei porquê, é sempre um pesadelo para quem joga fora). É um mistério para mim, como o futebol pode ser tão diferente na América do Sul em relação à Europa. Deste lado do Atlântico, a pressão torna os embates decisivos numa espécie de “jogo do sério”, em que quem ri, perde. Grande concentração, poucos erros e poucas oportunidades. Do lado de lá, é o contrário. Explosões emocionais, capazes de extrair o melhor e o pior dos protagonistas, e uma chuva de desequilíbrios tácticos. Já aqui falei várias vezes das lacunas tácticas do futebol sul americano, mas a verdade é que isso não explica tudo. Aliás, explica mesmo muito pouco.
Não sei bem o que concluir sobre esta coisa do “calor do futebol”, mas uma coisa tenho como certa. Do ponto de vista do entretenimento e da emoção, não há futebol como o brasileiro.


5 comentários:
Filipe, não existe qualquer relação causal directa entre a temperatura de um local e o futebol praticado nesse local. Quando muito, a temperatura pode ter uma parte pequena na formação da personalidade geral de um povo, mas mesmo isso é um pouco precipitado. Esta relação faz lembrar a teoria tola de que em Portugal as pessoas trabalham pior do que no norte da Europa por causa do calor, que propicia a preguiça e a moleza. É muito mais importante, para estas diferenças, as razões culturais, históricas, religiosas, sociais, políticas, ideológicas.
Em futebol, então, as características de um determinado futebol são de várias ordens, sendo a mais importante a própria tradição do que se foi fazendo ao longo dos anos. O futebol brasileiro é assim muito diferente do europeu não porque haja mais calor no Brasil, mas porque cresceu e evoluiu de uma forma diferente do futebol europeu e porque, tradicionalmente, foi-se construindo assim. As lacunas tácticas são os principais responsáveis por o futebol no Brasil ser tão "acalorado". O mesmo se passa em Inglaterra. São as lacunas tácticas que fazem com que o futebol inglês seja tão intenso. Claro que a permanência destas lacunas tácticas é, por sua vez, ditada muitas vezes por razões culturais. Deriva da cultura inglesa a mentalidade competitiva do jogador inglês, que o impede de ser mais ponderado e lhe incute a intensidade competitiva que tem, assim como deriva da cultura brasileira a mentalidade individualista do jogador brasileiro. Mas uma vez mais, essas razões culturais são essencialmente políticas, históricas, religiosas e sociais. As razões ambientais, digamos, têm um papel secundaríssimo. É assim muito menos relevante, para o futebol que se pratica no Brasil, o facto de ser um país quente, do que o facto de ser um país essencialmente católico, um país pobre no qual o futebol de rua é a escola de praticamente todos os atletas, um país com bastantes problemas de escolaridade, e um país com uma determinada história por trás a sustentá-lo.
Do facto de os escoceses não parecerem ter a mesma energia quando jogam sob intenso calor, não se segue que a temperatura afecta a energia de cada um. A razão pela qual os escoceses não conseguem manter a intensidade deve-se a habituação. O corpo de cada pessoa está habituado às condições ambientais em que vive. Os escoceses estão habituados a uma determinada temperatura e a uma determinada concentração de oxigénio. Se mudarem isto, não conseguem reagir do mesmo modo porque o corpo está fora do seu habitat. É por isso que a preparação em alta montanha num ciclista é crucial para quem quer ganhar um Tour de França. O corpo tem de se habituar às características desse ambiente para que possa reagir bem em competição nesse ambiente. Quando qualquer equipa sul americana vai jogar a Quito, tem sempre dificuldades porque não está habituado às baixas concentrações de oxigénio àquela altitude. O Equador joga como sempre e tem enorme vantagem por isso.
Os germânicos ou os nórdicos não têm uma personalidade "fria" porque o clima é "frio". Nós é que associamos o carácter ponderado e menos emocional desses povos ao clima deles e chamamos, metonimicamente, a essa característica mental "frieza". Contribui para esse carácter, por exemplo, muito mais o facto de serem protestantes do que o de viverem com um clima mais frio. O mesmo para todas as manifestações culturais. O futebol, enquanto manifestação cultural, é influenciado por aquilo que mais influencia a cultura desse país e depois também pela própria tradição que essa manifestação foi criando dentro dessa cultura. Os factores ambientais têm pouquíssimo que ver com as características de qualquer manifestação cultural.
Belo texto, Nuno. Podemos então afirmar que a temperatura não afecta o jogo, nem sequer as culturas dos povos? E que aqueles que afirmam o contrário não passam de "tolos"? É isso?
Não. Podemos afirmar que a temperatura não afecta o jogo e podemos afirmar que tem uma influência reduzidíssima na cultura dos povos. E atenção, que o que eu apelidei de "tola" foi a teoria de que a temperatura de um país é causa da capacidade de trabalho do povo desse país...
o nuno tem razão. não há motivo nenhum para não haver 5000000 suecos a jogar futebol nas praias e nos pátios das favelas.
JT
Filipe, bom artigo! O fator casa aqui no Brasil faz muita diferença porque se trata de um país continente, é como se fosse uma Champions League aonde o Porto tem que jogar na Rússia (frio) e depois jogar na Inglaterra (calor), seguindo o exemplo, pegando o meu São Paulo FC que fica em uma região central do país, tem jogo domingo contra o Grêmio que fica no Rio Grande do Sul (que pode ser a nossa Rússia, devido ao frio) e depois tem jogo na quarta contra o Náutico de Recife (calor intenso, 40 graus na somba). Mas o fator casa mais dominante na América do Sul são dos times do Equador, Colômbia e da Bolívia por causa da altitude, que para mim tinha que ser banida do esporte porque faz muita diferença!
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