13.3.14

Champions, oitavos-de-final (VI)

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Barcelona - Man City
Foi um jogo muito entretido, e onde quase sempre sobressaiu o elevado nível técnico dos dois conjuntos. Daí o número elevado de oportunidades, com os golos a tardar em fazer justiça à superiorização dos ataques relativamente às defesas. De novo, e tal como no Bayern-Arsenal, parece-me importante notar que o Barça não precisava de ganhar, e isso terá sido um factor decisivo para que não tivesse forçado a vitória que, ainda assim, lhe acabou mesmo por sorrir.

Sobre o Man City, começo por questionar a ideia com que todos ficamos - eu incluído - de que "se tivesse jogado assim, na primeira mão...". De facto, a equipa apareceu menos preocupada com o controlo defensivo do adversário, com dois alas interiores que a meu ver potenciam melhor a qualidade do jogo ofensivo da equipa, e teve o mérito de ser uma das raras equipas que, de há muito tempo a esta parte, conseguiu passar uma boa parte do tempo com a bola também do seu lado - mérito para a circulação baixa da equipa que, com excepção de Bayern e Barça, talvez não fique actualmente a dever nada a ninguém. A minha questão, porém, tem a ver com as comparações entre diversas fases do jogo, onde o contexto é manifestamente diferente. Ou seja, na segunda mão, o resultado era já de 2-0, o que leva a uma atitude diferente de ambas as equipas, e com o Barça intuitivamente a ter como prioridade o controlo sobre a vantagem conseguida. Não é a primeira vez que me refiro a este problema - de tirar conclusões a partir de comparações a partir de contextos diferentes - e muitos exemplos semelhantes acontecem todos os anos, quando as equipas são derrotadas mas aparentam jogar melhor depois de estar em desvantagem. Normalmente, e precisamente por ignorar o contexto, a conclusão revela-se uma ilusão.

Relativamente ao Barça, passou uma eliminatória difícil com grande naturalidade, como talvez nenhuma outra equipa o conseguisse fazer frente a este Man City (eventualmente o Bayern teria essa capacidade), e isso prova a sua força. Ainda assim, é inegável o subrendimento da equipa quando comparada com aquilo que foi nos 5 anos anteriores. Quais são, então, as diferenças que explicam esta quebra? Começo por referir que tenho acompanhado a equipa apenas pontualmente, e que por isso poderá haver aspectos que me escapam. Ainda assim, e começando pelo lado defensivo tantas vezes desprezado nas equipas de Guardiola (de novo, o que escrevia ontem: nenhuma equipa atinge a excelência sem ser muito competente em TODOS os momentos tácticos do jogo), o Barça actual tem muito mais dificuldade no condicionamento pressionante dos seus adversários, o que lhe retira presença territorial e tempo de posse de bola. Por exemplo, creio que em épocas anteriores esta equipa do Man City teria tido muito mais dificuldade em circular como fez neste jogo. Com bola, e mesmo mantendo uma qualidade individual que, a meu ver, não encontra par em qualquer outra equipa da actualidade, há também diferenças, sobretudo ao nível do jogo posicional. Em particular, destaco - aliás, já o havia feito no jogo da primeira mão - a falta de soluções colectivas quando a equipa se aproxima da última linha do seu adversário. Neste jogo, por exemplo, foram inúmeras as vezes em que os jogadores catalães forçaram iniciativas individuais, o que obviamente acaba por favorecer as hipóteses de quem está organizado, e em superioridade numérica, para defender. Ainda dentro deste ponto, parece-me haver uma focalização excessiva em Messi, com a equipa a procurar constantemente o seu astro, mas com este a ser relegado muitas vezes para iniciativas individuais que, mesmo para ele, não são fáceis de resolver. Enfim, é este o novo Barça que temos, e duvido que possa mudar muito com esta liderança técnica. Mantém-se uma equipa fortíssima, claro, mas é também apenas uma sombra daquilo que foi na sua anterior versão.

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12.3.14

Champions, oitavos-de-final (V)

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Atl.Madrid - Milan
Pessoalmente, gostei bastante do jogo. Pela qualidade do Atlético, que voltou a fazer um grande jogo em praticamente todas as dimensões, mas também pela réplica pontualmente oferecida pelo Milan, que apesar da goleada final conseguiu criar alguma incerteza no desfecho da eliminatória, nomeadamente na primeira parte. O movimento de Balotelli, na origem do golo italiano é, aliás, um dos pontos que mais destacaria na partida, criando um invulgar momento de desorganização na defensiva 'colchonera', que teria como consequência não só o golo, mas também uma fase psicologicamente favorável ao Milan, que terminaria com o golo de Arda. E, depois sim, o Atlético tomou em definitivo as rédeas do jogo e da eliminatória.

Ainda sobre ao Atlético, e à margem do jogo, queria realçar a forma como o sucesso da equipa nos é invariavelmente explicado, quer antes, quer durante as partidas. A explicação passa sempre por realçar, primeiro, a atitude/agressividade da equipa, e depois a sua prestação num ou noutro momento táctico do jogo - normalmente transição. Ora, seja por desleixo ou incapacidade de quem analisa, a verdade é que este tipo de diagnóstico contém alguns equívocos triviais, e acaba por passar a ideia errada sobre o que é preciso para se ter, ou não, sucesso no futebol. Desde logo, dar ênfase primordial à agressividade é dar-lhe uma importância explicativa, no que ao sucesso diz respeito, que ela não manifestamente não tem. Porque se o Atlético tivesse tanto sucesso - estamos a falar de uma das 4-5 equipas de maior rendimento na Europa, actualmente - devido à agressividade, então a excelência estaria ao alcance de qualquer equipa distrital. Depois, de igual modo, nenhuma equipa pode atingir este patamar sem ter enorme competência em todos os momentos tácticos do jogo. Todos! Aliás, é interessante porque no caso do Atlético parece-me que se comete o erro inverso relativamente às análises que se fazem a equipas tacticamente mais evoluídas. Por exemplo, no caso do Barça de Guardiola, raramente se destacava a sua agressividade e competência nos momentos tácticos defensivos, quando essas eram, também, componentes fundamentais do enorme sucesso que a equipa conseguiu, e sem as quais certamente nunca o teria conseguido.

Neste jogo, por exemplo, o Atlético conseguiu 3 dos 4 golos em organização ofensiva, fruto de uma boa distribuição posicional dos jogadores, sempre com muitos apoios oferecidos ao portador da bola, o que lhe permite, não só criar situações de envolvimento no corredor por onde a bola entra, como também estar bem posicionado para a reacção à perda da bola, caso esta aconteça. É claro que o Atlético não tem a qualidade de equipas como Barça, Real ou Bayern, mas seria praticamente impossível que a tivesse, dada a disparidade de mais-valias individuais. Este é, porém, o exercício mais interessante do futebol - tentar fazer melhor, com menos - e o meu ponto, aqui, é que só se pode perceber o "fenómeno" se o analisarmos e reflectirmos na sua plenitude, e nunca através de "clichés" e análises tacticamente superficiais.

Bayern - Arsenal 
Não foi um grande jogo, nem tão pouco a eliminatória tinha já muito para nos oferecer, depois do que se passou em Londres. Aliás, creio que o conforto com que o Bayern sempre esteve na partida é a principal explicação para que o empate tivesse subsistido até ao final, já que a vitória era dispensável para os alemães. Ainda assim, do ponto de vista táctico, há bastantes pontos de interesse a explorar...

Começando pelo Bayern, a nota principal vai claramente para a estrutura que Guardiola utilizou, recorrendo ao duplo-pivot, algo que não sendo inédito desde os tempos do Barça (onde chegou a utilizar o 4-4-2, por exemplo), não deixa de ser uma novidade relativamente ao que foi hábito no percurso do treinador até aqui. Sobre sistemas tácticos, e como sempre, não tenho muito a comentar, por entender que determinam muito pouco em termos qualitativos, e só se tornam mais relevantes quando a dinâmica colectiva é mais rudimentar, o que não é - de todo! - o caso do Bayern. Assim, em posse, o Bayern apresentou uma boa movimentação colectiva, sempre com grande mobilidade em praticamente todas as suas unidades, mas com algum défice de intensidade, o que explica em grande parte as poucas ocasiões criadas, relativamente ao volume de jogo que a equipa teve. O principal contraste, em relação à primeira mão, foi o menor foco dado ao espaço entrelinhas, transferindo-se esse ênfase para as combinações sobre os corredores laterais, com Gotze e Schweinsteiger a incorporar essas zonas do terreno. Convém aqui também salientar a maior/melhor protecção do Arsenal ao seu espaço entrelinhas, particularmente através da acção de Arteta, sempre muito atento à presença de Gotze nessa zona. Para além da habitual qualidade na circulação baixa, parece-me também fundamental destacar o comportamento defensivo da equipa, em meu entender um aspecto decisivo para o conforto que a equipa manteve no jogo. Bom jogo posicional e muito boa agressividade/reactividade, o que determinou o controlo do momento de transição ataque-defesa, mas também o condicionamento constante da circulação do Arsenal, que permanentemente era obrigada a recuar a bola para o seu guarda-redes.

Sobre o Arsenal, tenho de me confessar desiludido (novamente!) com a réplica da equipa, neste jogo e nesta eliminatória. Começando pelo ponto mais estranho - a utilização de Ozil como médio-direito - talvez seja útil tentar perceber a intenção de Wenger, que certamente não era apenas colocar o criativo alemão a correr atrás de Alaba, durante 45 minutos. Penso que a lógica por detrás desta aparentemente imperceptível opção reside na principal estratégia de Wenger para a sua construção: bater longo, para o lado direito. A ideia, neste sentido, passaria por tentar que Ozil jogasse a partir da segunda-bola, tentando fazer a bola sair da zona de pressão e, possivelmente, tirando depois partido da maior verticalidade de Podolski, que partia do corredor oposto. No papel, talvez tivesse alguma lógica, na prática, revelou-se um disparate. Mas o principal problema do Arsenal não foi Ozil, nem tão pouco o aspecto defensivo, onde a equipa até esteve melhor do que na primeira mão. Foi, isso sim, a total incapacidade para ter bola, sucumbindo permanentemente ao "aperto" do pressing bávaro. Se o Bayern já é muito difícil de contrariar quando tem a bola, a tarefa torna-se irremediavelmente inglória se as poucas ocasiões em que os papeis se invertem terminam invariavelmente com o guarda-redes a pontapear a bola para a frente. Ora, foi precisamente isso que sucedeu e, no caso do Arsenal, creio que se exigia mais arrojo e mais qualidade na circulação baixa, até porque se o pressing do Bayern fosse ultrapassado, a equipa teria depois boas possibilidades de criar os desequilíbrios de que tanto precisava. Mas esta não é a primeira vez que o Arsenal deixa a desejar em grandes confrontos europeus, sendo essa a regra do seu historial recente. Discute-se muito, relativamente a Wenger, se o copo está meio-vazio ou meio-cheio. Pessoalmente, parece-me que o principal mérito do francês é mesmo o recrutamento, tendo conseguido compor sistematicamente equipas de elevado nível técnico, o que naturalmente potencia o "fancy-football" que todos apreciamos. No que respeita à capacidade de superação da sua própria equipa, porém, não creio que se possa esperar muito de Wenger. O Arsenal parece sempre demasiado dependente da superioridade técnica para se afirmar, e quando isso não se verifica a equipa não tem, nem um nível de organização, nem tão pouco uma versatilidade estratégica que lhe permita fazer frente a adversários mais fortes. Não posso dizer que o problema do Arsenal seja Wenger - até porque esse tipo de análise tem de ter sempre uma perspectiva comparativa - mas parece-me claro que, com o francês, o objectivo de competir com os melhores terá sempre de passar por um nível de investimento muito elevado, e nunca pela capacidade de superação da própria equipa.

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11.3.14

Penáltis e a apofenia da derrota

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O jogo de Setúbal serviu de mote para reforçar o tema das arbitragens na primeira linha do plano mediático. Sem querer, como é óbvio, entrar com grande profundidade nesse tipo de discussão, aproveito para deixar um simples exercício comparativo, sobre a importância dos penáltis nos golos marcados pelas várias equipas, no campeonato e ao longo das últimas 10 épocas. Para efeitos comparativos, incluí também as duas ligas mais competitivas da actualidade, de Espanha e Inglaterra. A ideia é ter um indicador relativo, e não absoluto, já que uma equipa que ataca mais terá, naturalmente, tendência para ter mais penáltis marcados a seu favor, e vice-versa. Seria igualmente interessante complementar a análise com os dados defensivos (ou seja, % golos sofridos por penáltis), mas o acesso a esses dados revelar-se-ia bem mais moroso para mim, não sendo este um tema que justifique tanto trabalho.

A primeira nota a salientar, olhando para estes quadros, é que não há uma disparidade tão escandalosa como a veemência dos discursos dos adeptos e dirigentes parece sugerir. Sem qualquer surpresa, de resto. O ponto que mais realçaria, aliás, vai para o facto de, em Portugal, os "grandes" estarem todos no topo da tabela, o que não acontece em Espanha ou Inglaterra. Mas, tão pouco, esta é uma tendência clara que nos permita confirmar uma outra tese tantas vezes repetida, de que os "grandes" são mais favorecidos do que os outros. Em suma, e na melhor das hipóteses, os dados de penáltis não podem ser considerados mais do que inconclusivos, relativamente às diversas teorias acerrimamente defendidas nas discussões sobre o tema. Uma constatação que parece afastar, pelo menos, a hipótese de tendências claras em favor ou desfavor de alguns clubes (no que a penáltis diz respeito), já que se isso acontecesse seria impossível que tal não se reflectisse nos números acumulados.

Para mim, e como quem me lê saberá, este é um tema que valorizo muito pouco na definição do sucesso de médio-longo prazo dos clubes, ainda que como agentes directos no jogo, os árbitros possam ter obviamente influência nos resultados de cada partida. Vejo a permanente polémica em torno da arbitragem como uma consequência inevitável da natureza emotiva do fenómeno futebolístico e da relação dos adeptos com os seus clubes. Uma espécie de apofenia colectiva, que ganha especial força na hora das derrotas. E é essa a minha explicação para o facto de assistirmos repetidamente - ano após ano - ao mesmo tipo de discussão, e para o facto dos clubes campeões serem sempre conotados como favorecimentos das arbitragens, no final de cada temporada. Foi assim com Porto, Benfica, Sporting e Boavista quase sempre que chegaram aos seus títulos. Neste sentido, e na minha óptica, a arbitragem é e será sempre um tema central nas discussões extra-jogo, aconteça o que acontecer. Porque o que as motiva, verdadeiramente, não é tanto os erros dos árbitros, mas sim a natureza dos adeptos.

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10.3.14

As 4 lutas da tabela

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Primeiro lugar - a questão a colocar, depois desta jornada, é se ainda haverá alguma dúvida a colocar em relação ao campeão 2013/14? É certo que o passado recente não aconselha precipitações na atribuição precoce das faixas, mas é bom não confundir a excepção com a regra, e a regra é que uma equipa nas condições actuais do Benfica tem uma probabilidade muito reduzida de perder o título ou, mesmo, de ainda ver o seu primeiro posto ser colocado em causa nas jornadas que faltam. Para mais, não tenho dúvidas de que Jesus continuará oferecer ao campeonato prioridade total na gestão da equipa (tal como fez frente ao Estoril, em vésperas de uma difícil jornada europeia), o que não ajuda as perspectivas de Porto e Sporting para uma eventual recuperação. Ou seja, e no que ao Benfica diz respeito, o campeonato continuará a ser a prioridade, mas o mais provável é que o tempero do que ainda falta jogar esteja reservado para as 3 competições restantes, onde se aproximam duelos muito interessantes.

Segundo lugar - O clássico da próxima semana será, obviamente, muito importante para definir posições antes da recta final do campeonato. Pessoalmente, acho improvável que Porto e Sporting somem por vitórias todos os jogos que fiquem por jogar depois desse jogo. No caso do Porto, porque mesmo perspectivando uma melhoria da equipa no futuro imediato, há que contar com o peso do calendário. Para além da Liga Europa, o Porto jogará nas duas taças, e até mais do que a conquista das mesmas, muito do brio da sua equipa actual. Jogar contra o Benfica, para o Porto, não é o mesmo que jogar contra outra equipa qualquer, e por isso esses duelos acabarão por ter uma importância que, nessa altura, poderá relegar o campeonato para segundo plano e custar alguns pontos. Isto, claro, para além da Liga Europa, onde o Porto mantém ambições. Quanto ao Sporting, e como venho escrevendo, o seu futebol há muito que não é suficiente para que se possa perspectivar uma sequência muito continuada de vitórias. A equipa tem lidado bem com a adversidade, é certo, mas isso não será nunca suficiente numa prova de longa duração como é o campeonato. Com apenas 2 pontos de vantagem sobre o Porto e, face ao actual rendimento do futebol leonino, seria mesmo muito importante uma vitória no próximo fim-de-semana. O Sporting depara-se agora com o irónico cenário, que se lhe projectou como pior possibilidade depois do bom inicio de época que realizou: ou seja, a equipa corre o risco de cumprir as suas metas iniciais no campeonato, e mesmo assim, sair de 2013/14 com um sentimento de frustração.

Europa - Com o Estoril em excelente posição - quer pela situação pontual, quer pela qualidade que apresenta - para confirmar o quarto lugar, poderemos ter um final de época muito interessante na luta pelo quinto posto. Esta jornada contemplava dois jogos muito importantes a este respeito: o Braga-Nacional e o Marítimo-Guimarães, ainda por jogar. É uma corrida, nesta altura, muito imprevisível: o Nacional tem a vantagem pontual, mas pouco mais do que isso. O Braga será a equipa com melhores recursos, mas nem o seu futebol é ainda suficientemente consistente nem, tão pouco, o calendário lhe é favorável. O Guimarães tem um óptimo calendário, mas nem por isso o nível do seu jogo lhe permite dar por garantida a vitória em qualquer dos embates que tem por disputar. Sobra ainda o Marítimo, que certamente continuará a sonhar com a Europa enquanto isso lhe for permitido e que, se vencer o Vitória, passará certamente a ser um importante candidato ao ambicionado quinto lugar.

Despromoção - Os dois jogos deste fim-de-semana tiveram como especial consequência a saída do Gil Vicente das contas da despromoção. Aliás, com o calendário que tem, a equipa de João de Deus poderá até acabar a prova muito bem posicionada. Para baixo, ficaram Paços, Belenenses, Olhanense e, também, Arouca, sendo que dificilmente outro clube conseguirá o "feito" de se intrometer nesta luta. O Paços tarda, e provavelmente já não vai a tempo, em se encontrar nesta temporada. O desgaste competitivo e emocional da aventura europeia e uma época muito mal gerida no que respeita ao comando técnico, ditaram uma longa trajectória à procura de um carácter e identidade colectiva que, no entanto, nunca chegou. Tudo o que resta é salvar a pele e minimizar danos. Em Olhão, a equipa parece, pelo menos em termos de crença colectiva, estar no seu melhor momento da época. O problema é que são muitos os danos acumulados e, se combinarmos a situação pontual com o calendário, talvez ninguém quisesse trocar de lugar com o Olhanense. Outro candidato sério à despromoção é o Belenenses que, passe o exagero, é uma equipa que só conhece um momento táctico: organização defensiva. É espantoso que uma equipa com tão poucos golos sofridos esteja nesta situação, mas a verdade é que o Belenenses é uma equipa de contrastes e se defensivamente se organiza bastante bem (ainda que, a meu ver, tenha perdido alguma qualidade desde a primeira volta), com bola denota uma preocupante ausência de ideias, o que lhe tem custado golos e muitos pontos. Nestas contas, há ainda que não descartar o Arouca. É improvável, mas como bem sabe Pedro Emanuel pelo que lhe aconteceu em Coimbra, o futebol às vezes prega algumas partidas deste tipo.

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7.3.14

5 jogadas (controlo da profundidade)

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Aproveito algumas jogadas do passado fim de semana para abordar o tema do controlo da profundidade, tantas vezes na origem dos golos que vamos vendo. Como ponto prévio, quero referir que esta é uma situação muito difícil de defender com eficácia, porque normalmente exige decisões num espaço de tempo muito curto, requerendo a coerência de vários jogadores e, várias vezes, com muito espaço para controlar. No mesmo sentido, não é minha intenção passar a ideia de que há formas certas e erradas de abordar o problema - aliás, essa é uma abordagem que refuto em quase tudo no futebol. A utilidade deste, como qualquer outro princípio comportamental, está dependente da eficácia na sua implementação, e é praticamente impossível alguém ter a certeza de que uma forma de defender seja, por si só, mais eficaz do que a outra. Como em quase tudo no futebol, a opção acaba por depender da convicção de cada um, sendo que bons treinadores, que conseguem colocar as suas equipas a controlar bem este tipo de situação, têm frequentemente abordagens perfeitamente distintas na forma de o fazer. Pessoalmente, a minha percepção é que equipas, como Chelsea ou Atlético de Madrid, que tendem a arriscar menos em termos de exposição espacial, acabam por ter um melhor controlo deste tipo de situação. Mas, como referi, é uma situação discutível, e daí também o seu interesse...

1 - Começo por recuar 1 semana no tempo para recuperar o primeiro golo do Arouca em Braga. O meu foco, aqui, vai para a ausência de pressão sobre Ceballos, sendo que Sasso tinha todas as condições para o fazer - inclusivamente, Ceballos começa por receber de costas. A pressão sobre o portador da bola é um dos aspectos fundamentais para o controlo da profundidade e, neste caso, para além de dar tempo à equipa para se reorganizar, a pressão seria fundamental para evitar a exposição das costas de uma linha defensiva ainda demasiado subida no terreno. Este lance, tal como o do segundo golo sofrido pelo Braga no mesmo jogo, evidenciam as dificuldades de Sasso para jogar como defesa-lateral, e daí a minha crítica em torno da decisão de, no jogo de Alvalade, ter sido novamente lançado para a mesma posição.

2 - O segundo golo sofrido pelo Porto em Guimarães espanta pela simplicidade com que Marco Matias surge na cara de Hélton. O primeiro ponto a abordar é, na minha opinião, o posicionamento de Alex Sandro. É normal haver alguma abertura posicional, já que era o Porto quem tinha inicialmente a bola, mas no momento em que se torna evidente a reposição de Hélton para o lado direito, exigia-se maior prudência do lateral-esquerdo no seu posicionamento, coisa que não aconteceu. Depois, porém, também me parece questionável a abordagem de Abdoulaye. Mais uma vez, tudo surge numa situação em que se perde a presença pressionante sobre o portador da bola - no caso, Maazou. Abdoulaye optou por se manter na mesma linha, tentando usar o fora-de-jogo para condicionar a iniciativa do Vitória. A meu ver, é muito discutível a opção, simplesmente porque a ausência de controlo sobre o tempo de execução de Maazou determina que o risco de exposição aumente assinalavelmente.

3 - O grande golo de Gaitan também justifica alguma reflexão a este propósito. Ao manter-se mais alta, a linha defensiva do Belenenses consegue cortar todas as linhas de passe ao extremo argentino, o que num primeiro momento aparenta garantir o sucesso da sua acção. Perante um jogador que vinha em velocidade, porém, o número de metros nas suas costas acabou por oferecer outra solução a Gaitan, no caso a progressão individual. No lance, há ainda que destacar dois aspectos: primeiro, claro, a qualidade de Gaitan. Depois, também, a acção de Matt Jones. O ideal, perante uma defesa tão alta, é que o guarda-redes esteja preparado para intervir nas suas costas. Não sendo isso possível, porém, exigia-se mais prudência na saída da baliza, precisamente para não permitir que Gaitan fizesse o que acabou por fazer. Ainda assim, note-se, Matt Jones tem sido um dos grandes destaques da prova, no que a guarda-redes diz respeito.

4 - O primeiro de golo do Chelsea em Craven Cottage evidencia-se pela facilidade com que a equipa transformou um lançamento lateral na imediação da sua área, numa situação de 1x0, na área oposta. E, de novo, o tema do controlo da profundidade justifica discussão. O ponto mais evidente e comprometedor é, claro, a falta de sintonia entre os jogadores do Fulham, com alguns jogadores a tentar manter a linha de fora-de-jogo e outros a recuar, tentando desesperadamente recuperar metros. Seja como for, a questão que coloco é até que ponto se justificava arriscar usar o fora-de-jogo como condicionamento do adversário, numa situação em que Hazard não estava a ser directamente pressionado?

5 - Neste último caso, o desfecho acaba por ter algum perigo para a baliza de Courtois, mas o meu sublinhado vai para aquilo que me parece ser uma boa reacção colectiva do Atlético de Madrid. Ao tirar a bola da zona de pressão, o Real fica com uma situação muito favorável para explorar a profundidade, não havendo pressão sobre Di Maria e com Ronaldo e Benzema a terem reacções fortíssimas neste tipo de situação. O Atlético, porém, consegue rapidamente cortar a profundidade, e mesmo se o Real, por mérito próprio, chega a uma situação de finalização, parece-me que o facto de a acção não ter terminado com um jogador na cara de Courtois é, em si mesmo, um significativo atenuar dos danos potenciais.

Fugindo um pouco ao tema, aproveito para realçar o bom derbi de Madrid que tivemos no passado fim-de-semana. Duas das melhores equipas do futebol mundial, com características e pontos fortes muito diferentes, mas ambas com muita qualidade. O Real com um grande potencial técnico na frente, e hoje com uma circulação baixa que usa muito bem a largura e abertura dos seus médios (Di Maria e Modric) como ponto de partida para as suas jogadas. O Atlético - provavelmente a equipa que, actualmente, mais admiro - com recursos mais modestos, mas como uma organização e sentido colectivo notáveis, fortíssima no controlo defensivo, e muito lúcida sobre a forma como pode causar estragos nos adversários. Um grande jogo, e um desfecho que, também ele, me pareceu justo.

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6.3.14

A saída de Paulo Fonseca

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No Dragão, finalmente, o virar de página com a saída de Paulo Fonseca. Escrevo "finalmente", porque creio que era um desfecho que todos ansiavam, tanto adeptos como o próprio treinador, e reflectindo-se essa ansiedade no comportamento recente da equipa. Sobre o Porto, no futuro imediato parece-me claro que a equipa só pode ficar a ganhar, e por dois motivos. Primeiro, e mais importante, pelo tão popular choque psicológico da "chicotada", que neste caso concreto me parece ter todas as condições para surtir efeito. Depois, porque - e tal como fui escrevendo - a equipa foi regredindo tacticamente ao longo da época, vivendo hoje um momento em que nem se identifica um ajuste da estrutura às características dos jogadores, nem, tão pouco, se vislumbram dinâmicas colectivas que possam potenciar aquilo que cada uma das partes tem para oferecer. A perspectiva é que o Porto regresse no imediato a um sistema "mono-pivot", o que na minha leitura poderá, pelo menos, ir ao encontro das características de jogadores como Fernando ou Carlos Eduardo. Quanto ao resto, teremos de esperar para ver o que trará o trabalho da nova direcção técnica.

Mas, olhando a um horizonte temporal mais largo, parece-me que convém não confundir as coisas. O principal problema do Porto nesta temporada não foi Paulo Fonseca, mesmo se o treinador acabou por se revelar, também ele, uma "não-solução". O problema do Porto, na minha leitura, divide-se fundamentalmente em duas partes: primeiro, o contexto, porque se o objectivo é ganhar, convém também ter sempre claro que ninguém compete sozinho, pelo que o valor da oposição é sempre uma variável fundamental para o sucesso. Neste sentido, os recentes campeonatos, conquistados sistematicamente em disputas ao 'sprint', vieram dar uma sensação de domínio - hegemonia é a palavra mais usada! - que não correspondia verdadeiramente à diferença entre Porto e Benfica. Não se pode confundir o que se passou nos últimos dois anos com aquila que foi a regra da maior parte dos campeonatos conquistados dos últimos 20 anos, onde o Porto ganhava com um conforto arrebatador. Aqui, o crescimento competitivo do Benfica na "era-Jesus" - e apesar de tantas vezes desvalorizado, até pelos próprios adeptos encarnados - veio indiscutivelmente aumentar a fasquia para as exigências internas, e este é um factor que não pode ser menosprezado. Depois, olhando um pouco mais para dentro, é indisfarçável a perda de qualidade da equipa nos últimos anos, cada vez mais dependente do encaixe de milhões, e sem conseguir colmatar ausências em sectores fundamentais, onde destaco claramente a zona criativa. Em particular, em dois anos a equipa perdeu Hulk, James e Moutinho e não foi capaz de colmatar a saída de qualquer dos três no mercado. Juntando estes dois factores, proximidade qualitativa do Benfica e saída de unidades-chave que não foram bem colmatadas, o cenário actual acaba por se revelar até bastante previsível.

Finalmente, uma palavra sobre Paulo Fonseca: sai bastante amarrotado de uma experiência que foi bem mais difícil do que muitos imaginavam - repete-se tantas vezes que no Porto qualquer um ganha, que muita gente acaba mesmo por acreditar! Já escrevi, e repito, que geriu muito mal a evolução da equipa e os problemas que foi encontrando, parecendo bastante afectado por todo o ruído proveniente da envolvente mediática. Inclusivamente, na tentativa de corrigir deficiências, acabou por neutralizar alguns dos pontos mais fortes da equipa, como é o caso do jogo anterior, tantas vezes aqui abordado nos tempos recentes. No entanto, nem vejo nele o foco central do problema, nem me parece que a sua ascensão tenha sido um acaso. Paulo Fonseca não revela grande flexibilidade em termos tácticos, é verdade, mas o seu modelo parece-me bom e equilibrado, e não tenho dúvidas de que poderá voltar a ter sucesso assim que lhe seja dada nova oportunidade. Agora, estes 8 meses revelaram também muitos pontos onde pode e deve melhorar, alguns deles fundamentais para que possa triunfar sustentadamente num nível superior, e convém que o treinador faça, ele próprio, um auto-diagnóstico sobre este atribulado percurso no Dragão.

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5.3.14

Controlo defensivo na Liga - Análise comparativa

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O momento defensivo de Benfica e Porto, e por motivos obviamente distintos, tem sido bastante destacado recentemente. Aproveitando a ocasião, deixo uma análise comparativa da evolução do controlo defensivo dos três 'grandes' ao longo do campeonato, centrando o exercício no número de ocasiões de golo consentidas, de acordo com o que venho registando desde o inicio da temporada:

Benfica - A percepção geral é de que o Benfica passou, subitamente e sem explicação aparente (já que, tacticamente, não houve qualquer alteração), do 8 para o 80 no que respeita ao controlo defensivo. Uma ideia que tem a ver com contraste entre o número de golos sofridos pela equipa: em maior quantidade no inicio de temporada, e em menor volume, mais recentemente. A verdade é que, e tal como fui sempre alertando, o número de golos sofridos pela equipa de Jorge Jesus nunca se deveu a um elevado volume de ocasiões consentidas mas, antes sim, a um aproveitamento anormalmente elevado das oportunidades que os adversários foram criando. Um problema que vinha acompanhando a equipa desde a pré-época, mas que dificilmente se poderia manter no tempo, saltando à vista a má eficácia do guarda-redes (ainda que sem um número de erros especialmente elevado, por parte de Artur, note-se). Neste sentido, não surpreende que o Benfica se tenha afirmado como a melhor defesa da prova, já que há muito que vem sendo a equipa com menos ocasiões de golo consentidas. Aliás, e ao contrário da imagem tantas vezes criada, é precisamente no registo defensivo que, claramente, o Benfica alicerçou o sucesso que conseguiu até ao momento.

Sporting - Um pouco em sentido contrário, relativamente ao Benfica, o Sporting sempre foi alicerçando o seu bom registo defensivo no baixo aproveitamento das ocasiões criadas pelos adversários, tendo em Rui Patrício uma figura importante durante quase toda a temporada. E é por aí que se explica o facto do Sporting ter sido durante muito tempo a equipa com menos golos sofridos na prova, já que em termos de ocasiões consentidas, esteve sempre num patamar superior aos seus rivais. Note-se, porém, que o Sporting tem melhorado esse registo recentemente, consentindo menos ocasiões do que acontecera na fase inicial da temporada, um pouco em sentido contrário do que vem acontecendo com o seu registo ofensivo. A excepção, neste ciclo de jogos mais recente, é mesmo a deslocação à Luz, onde a equipa teve, também defensivamente, o jogo mais complicado de toda a temporada.

Porto - Quase sempre entre Benfica e Sporting, o Porto foi sendo uma equipa com bom controlo defensivo ao longo da prova, no que ao número de ocasiões consentidas diz respeito. A preocupação resulta, sobretudo, dos sinais mais recentes, já que tanto para a Liga Europa como para o campeonato, a equipa de Paulo Fonseca tem repetido exibições com um anormal volume de ocasiões de golo consentidas aos seus adversários, sublinhando-se a eliminatória frente ao E.Frankfurt e a deslocação a Guimarães (o jogo com mais ocasiões consentidas da equipa, em todo o campeonato). Sinais que não se podem desligar do actual momento psicológico da equipa, com um número anormal de erros individuais a penalizar muito a equipa neste particular.

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3.3.14

Sporting - Braga: Opinião e Estatística

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- Nova jornada, e o Sporting repete o filme: dificuldades no plano ofensivo, um erro a ditar a desvantagem e, à custa de grande eficiência das poucas ocasiões criadas... a reviravolta! Na semana passada escrevia sobre a improbabilidade deste cenário se poder repetir sem ter custos pontuais - o que, obviamente, mantenho - mas o facto é que a equipa de Jardim parece mesmo apostada em desafiar a sorte. Assinalo, ainda assim, que a vitória não cabe mal ao Sporting, já que, e apesar das tais dificuldades ofensivas, foi sempre superior aos visitantes.

- No que respeita ao Sporting, importa sublinhar sobretudo os problemas ofensivos da equipa. É certo que o Sporting tem marcado golos, mas parece-me muito perigoso descansar à sombra dessa constatação. É que a produção ofensiva - entenda-se, ocasiões de golo - tem estado bem abaixo do desejável, e se é verdade que nos últimos dois jogos a equipa conseguiu corrigir isso com o elevado aproveitamento do pouco que criou, também é preciso não esquecer os nulos que a equipa repetiu num passado bem recente. Entrando num campo mais explicativo para o problema, parece-me que começa a ser gritante a forma como o Sporting simplesmente negligencia o corredor central e o espaço entrelinhas. Algo que sempre aconteceu, mas que talvez esteja mais claramente identificado pelos adversários, nesta altura. Frente ao Braga, por exemplo, creio que a linha média adversária apresentava algumas fragilidades e que poderia ter sido muito mais exposta caso houvesse maior diversidade de movimentos, nomeadamente aproveitando as costas dos médios. A verdade é que isso não aconteceu, quer porque não há essa orientação colectiva, quer porque, individualmente, nenhum dos jogadores parece ter essa vocação no seu ADN. Jardim está, nesta altura, tentado a manter Slimani no 'onze', e é possível que não queira retirar Montero da equipa. Se isso acontecer, é provável que o Sporting passe a contar com maior presença no espaço entrelinhas, criando-se porém um dilema para o treinador, já que como se viu na Luz há também vários problemas que se podem levantar ao assumir esta opção.

- Este jogo era também interessante pelo estreia de Paixão no Braga. Fiquei com a ideia de que o treinador ficou bem visto pela critica nesta primeira "avaliação", e o próprio pareceu satisfeito com a sua equipa, no final do jogo. Pessoalmente, não partilho minimamente deste optimismo. Em primeiro lugar, sobre as dificuldades que o Braga criou ao Sporting, parece-me que os elogios só podem resultar de um baixar de expectativas, a meu ver, desajustado ao real potencial da equipa. É que, comparando com Nacional, Académica e Olhanense - os últimos a serem recebidos em Alvalade - a exibição do Braga foi, no máximo, normal. Será, um problema de perspectiva, portanto. Entrando nos aspectos mais específicos do jogo, não consigo ligar muito do que se viu ao trabalho de apenas 1 semana do treinador, mas posso, isso sim, ser mais concludente sobre o lado estratégico do jogo. E aí, confesso, não fiquei nada impressionado com a estreia de Paixão. Em primeiro lugar, o papel de Alan, que foi colocado em campo para ser o polícia de William Carvalho. Não sou propriamente o mais purista nestas coisas de marcações individuais (para mim, no futebol nada é generalizável, e tudo é contextual), mas confesso que me causa alguma impressão ver este tipo de opção, para mais sendo feita por aquele que é, na minha opinião, o jogador mais criativo da equipa. William é um jogador importante no Sporting, sem dúvida, e justificava-se uma atenção à sua acção, mas a meu ver sempre com um foco colectivo e nunca promovendo este tipo de policiamento. Aliás, e apesar da qualidade de William, a própria dinâmica colectiva do Sporting enfatiza muito mais a saída pelos corredores laterais do que o papel do seu médio mais defensivo. Depois, e como já escrevi, a linha média do Braga pareceu-me bastante frágil em termos posicionais, com os extremos a fechar pouco por dentro, algo que não foi muito bem explorado pelo Sporting. O lado mais positivo no que fez o Braga, aliás, decorre um pouco deste último ponto já que a equipa aproveitou a abertura dos extremos para ser muito célere no aproveitamento das costas dos laterais do Sporting, no momento de transição defesa-ataque. Finalmente, nota para a substituição de Dabo por Sasso. É-me muito difícil entender esta opção, por dois motivos: o primeiro tem a ver com o facto de Dabo ter tido sempre um extremo à sua frente - aliás, teve 3, antes de Capel - e ter visto o amarelo bastante tempo antes da entrada do espanhol, e por perder tempo e não por um excesso de agressividade. Ou seja, não percebo o que é que Capel trazia de tão especial em relação às outras soluções do ataque do Sporting que haviam jogado naquele corredor, para que ficasse tão eminente a expulsão do jogador. Depois - e mais importante! - Sasso havia entrado para a mesma posição - defesa esquerdo - no jogo frente ao Arouca, e os dois golos que a equipa sofreu nesse jogo decorrem, em grande parte, da sua inaptidão para desempenhar essa função, primeiro não pressionando o portador da bola no momento de transição, e depois não fechando convenientemente por dentro. Eu respeito sempre as opções dos treinadores, até porque não assisto aos treinos, mas pergunto-me se Jorge Paixão viu o jogo com o Arouca? Seja como for, a verdade é que esta foi, certamente, a decisão que mais peso teve na derrota da equipa...

Individualidades (Sporting)
Patrício - Vem fazendo uma boa época, mas desta vez borrou mesmo a pintura, curiosamente depois de me ter parecido também mal batido no golo sofrido em Braga, na primeira volta. É verdade que também não teve muita sorte porque tem errado pouco e, quando aconteceu, pagou logo com um golo.

Cédric - Esteve, a meu ver, bem defensivamente, com muito trabalho e sendo quase sempre bem sucedido. É verdade que Rafa aproveitou muito as suas costas, mas na minha leitura isso decorre dos riscos da dinâmica colectiva das duas equipas, e não tanto do desempenho individual dos jogadores. Com bola, esteve também regular, não conseguindo grande preponderância no último terço, mas acabando por ser protagonista no cruzamento que antecede o golo de Slimani.

Jefferson - Como sempre, muito bom timing ofensivo e boa capacidade de cruzamento. Desta vez, porém, as suas acções não tiveram consequência. Defensivamente, sentiu novamente problemas.

Maurício - O Braga ofereceu, estrategicamente, protagonismo aos centrais do Sporting, em construção. Na minha leitura, porém, não foi por aí que a equipa deixou de ser produtiva ofensivamente. No caso de Maurício, novamente com um critério ajustado, o que se reflectiu numa boa eficácia das suas acções com bola. Defensivamente, foi outra vez imperial no jogo aéreo, uma arma importante na estratégia do Braga e que foi anulada muito pela sua presença.

Rojo - Também um bom jogo. Muito interventivo e com acções até mais vistosas do que Maurício (com maior incidência no momento de transição ataque-defesa). Com bola, assumiu protagonismo, tendo tido um período onde perdeu alguma lucidez em termos de critério, o que acrescentou algum risco à equipa. Depois, estabilizou também nesse plano.

 William - O Braga distinguiu-o na sua estratégia, colocando Alan em permanência sobre a sua acção, o que lhe retirou influência. Na minha leitura, foi uma opção tacticamente pouco ajustada para aquilo que representa William no futebol do Sporting. Ou seja, a sua importância não decorre da frequência do envolvimento, mas antes da qualidade que consegue manter sempre que é solicitado. Assim, William terá perdido influência, é verdade, mas não deixou de emprestar a qualidade habitual sempre que a oportunidade se lhe colocou. Depois, sem bola, tem também evoluído bem desde o inicio da época, sendo hoje mais agressivo sobre o portador da bola. William é uma grande revelação do futebol do Sporting, sobretudo pelo que faz com a bola nos pés, mas também discordo de algum exagero na apreciação das suas exibições. Por exemplo, este não me parece ter sido um jogo invulgarmente positivo do jogador, tendo tido inclusivamente algumas dificuldades no controlo sobre a acção de Alan, na primeira parte (muito por mérito do brasileiro, note-se). Do mesmo modo, não teve um papel especialmente fulgurante em termos de recuperação de bola, como é sugerido. Em termos de intercepções/duelos, por exemplo, não foi mais interveniente do que Magrão ou Martins, enquanto este esteve em campo. O que sucede é que William, por mérito próprio e ao contrário de outros jogadores, já conseguiu colocar todos os olhos sobre si.

Magrão - Ofereceu maior mobilidade às acções ofensivas da equipa, é verdade, envolvendo-se mais sobre a esquerda relativamente ao que faz Adrien, e garantindo assim maior simetria com a acção de André Martins, sobre o flanco oposto. O problema, no entanto, é que a qualidade/eficácia das suas acções foi muito reduzida e isso comprometeu o seu desempenho, levantando muitas dúvidas sobre o ajuste desta aposta. Defensivamente, esteve bem, em especial com bom timing na acção pressionante, o que lhe valeu várias intercepções no meio-campo contrário.

André Martins - O mesmo perfil de jogos anteriores. Muito bem em termos de intensidade e agressividade sem bola, sendo muito eficaz na pressão e reacção à perda. Por outro lado, com muitas dificuldades em ser uma unidade desequilibradora no último terço. Mais uma vez, creio que não tem vocação para actuar em espaços tão adiantados, mas Jardim não pensa claramente da mesma forma.

Carrillo - Foi, na primeira parte, o jogador com maior envolvimento no jogo da equipa, mantendo alguma irregularidade nas suas acções, é certo, mas nunca se escondendo do jogo. É evidente que ainda tem de melhorar em termos de tomada de decisão, nomeadamente percebendo onde e em que circunstâncias deve apostar no 1x1, Mas continuo a pensar que valia a pena dar-lhe mais tempo de jogo, porque tem mais-valias que não se vislumbram em mais nenhuma solução.

Mané - Teve, a espaços, algumas acções bem conseguidas, acabando por estar na origem do penálti (ainda que mais por demérito alheio do que por mérito próprio). No entanto, não foi um jogo muito bem conseguido, com pouca eficácia nas suas acções.

Slimani - Conseguiu marcar e isso deve continuar a valer-lhe a titularidade. No mesmo sentido, a sua frequência goleadora mantém-se muito elevada, o que lhe credita uma utilidade incontornável. A questão coloca-se em relação às expectativas futuras. Pessoalmente, mantenho algumas reticências, e parece-me claro que estará sempre muito dependente da capacidade de ser determinante dentro da área, já que não parece muito talhado para acções em zonas exteriores.

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