30.4.14

Bayern - Real Madrid

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Não resto muito a fazer quando, a este nível e num contexto de tanto equilíbrio, uma equipa consegue o aproveitamento que o Real teve na primeira parte do jogo. A história da eliminatória ficou aí, e de forma praticamente irremediável, resolvida. Ou seja, o meu primeiro ponto vai para o peso da eficácia no resultado e na definição precoce de uma eliminatória que se pensava poder manter-se viva até bem perto do final. Agora, se a volumetria do placard se explica muito pelo capricho da eficácia, o mesmo não se pode dizer do desfecho da eliminatória ou de qualquer dos jogos que a definiram, com o Real a conseguir repetir um desempenho incomparavelmente mais bem conseguido, nomeadamente ao nível da proximidade do golo, por um lado, e do controlo defensivo, por outro.

Do ponto de vista do Real, já me havia confessado agradavelmente surpreendido na primeira mão, e a equipa voltou a mostrar-se muito forte dentro de uma estratégia diferente daquela que habitualmente utiliza, mas a meu ver perfeitamente adequada à especificidade do adversário. Aliás, mais do que os 5 golos marcados, surpreende a forma como o Real Madrid conseguiu anular quase que por completo o Bayern. E, aqui, não me reporto apenas à ausência de golos sofridos, mas sobretudo ao número muito escasso de ocasiões consentidas. Uma prova de qualidade e adaptabilidade estratégica que o Real não havia mostrado até aqui, mas que foi a meu ver absolutamente decisiva para o sucesso nestes dois jogos.

Se o Real me surpreendeu pelos motivos já expostos, diria que o caso do Bayern é ainda mais interessante, e por diversos motivos. Começo pelo tema da posse de bola, que parece servir para concluir tudo e o seu contrário, em função daquilo que os resultados vão sugerindo. Quando o Barça de Guardiola jogava no limite da perfeição, não faltava quem estabelecesse uma relação causal e linear entre estilo e sucesso. Agora, e particularmente para os criticos internos do treinador catalão, o estilo parece ser o que explica tudo aquilo que corre menos bem. Podem ser perspectivas radicalmente opostas, mas partilham do mesmo equívoco: confundem estilo com qualidade. É que, seja qual for o estilo escolhido, será sempre a qualidade da sua interpretação que irá determinar o sucesso ou insucesso da sua aplicação. E, aqui, chego ao segundo ponto, que tem a ver com a qualidade dos recursos do Bayern, comparativamente com o que tinha Guardiola no Barça. Já escrevi, e mantenho, que a qualidade do modelo do treinador é enorme, não fazendo sentido colocar isso em causa. Agora, uma coisa era implementar as suas ideias no Barcelona, onde a capacidade dos jogadores era, não só superior, mas perfeitamente enquadrada com o estilo pretendido, outra é fazê-lo no Bayern onde o potencial oferecido pelos recursos - ainda que sendo dos melhores planteis do mundo, obviamente - não é manifestamente o mesmo. A este problema junta-se um outro, e que tem a ver com o risco do modelo de Guardiola, algo a que também já me referi diversas vezes ao longo da época, nomeadamente por me parecer que o Bayern poderia ser relativamente vulnerável a este problema. Ou seja, nem todos os modelos de jogo têm o mesmo nível de risco e quanto maior este for, maior a sensibilidade à eficácia na interpretação das ideias que servem de base a esse mesmo modelo (e, por consequência, maior será também a exigência do modelo para quem o vai interpretar). Por exemplo, quando um treinador pretende pressionar a todo o campo, usar uma linha defensiva mais alta ou colocar sempre muita gente à frente da linha da bola, está implicitamente a expor-se a riscos mais elevados do que outros treinadores com uma visão mais prudente nestes aspectos tácticos do jogo. E é pela conjugação destes dois factores (risco elevado do modelo e menor capacidade dos jogadores para fazer frente a certos problemas) que a meu ver se explicam as duas derrotas pesadas caseiras que a equipa sofreu recentemente em casa, tendo ficado excessivamente exposta à volatilidade da eficácia no aproveitamento das ocasiões de golo: 0-3 frente ao Dortmund, e 0-4 frente ao Real.

Do ponto de vista de Guardiola, parece agora mais claro que a sua missão no Bayern será bem mais complicada do que aquela que teve em Barcelona. Por tudo o que escrevi acima, mas também pelo facto do título da Bundesliga lhe ser colocado como uma obrigação, ficando o grande peso da avaliação da sua performance relegado para a Champions, onde o formato da competição - a eliminar - torna muito mais difícil garantir uma relação directa entre o mérito/demérito próprio e o sucesso/insucesso. Do ponto de vista do clube, parece-me um disparate colocar o treinador em causa, não só pela qualidade que este obviamente acrescenta, mas porque seria uma aberração o mesmo motivo - estilo de jogo - servir para, primeiro, contratar o treinador e, ao fim de 1 ano, prescindir dele. No futebol, porém, já vimos de tudo. Pessoalmente, espero que o privilégio de assistir às equipas de Guardiola não seja de novo interrompido. Não tanto pelo estilo - estilos diferentes é o que não falta por aí -, mas sobretudo pela qualidade, essa sim rara e valiosa.

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28.4.14

Porto - Benfica: Aleatoriedade ou profecia?

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- No futebol, já sabemos, a diferença entre ganhar e perder, por muito ténue que seja, abre invariavelmente um abismo emocional no sentimento que passa de dentro para fora do campo. Aliás, o Benfica tem sido um excelente exemplo disto mesmo, bastando ver como duas épocas praticamente idênticas ao nível da sua própria performance podem conduzir a sentimentos tão dispares em torno da equipa e da percepção de competência dos seus protagonistas. Ora, neste jogo foi o Benfica quem se apurou e quem reuniu, para si e para os seus adeptos, todo o capital de emoção positiva que a partida tinha para oferecer. É a partir deste sentimento que todos (ou quase todos, para não ser injusto) estão tentados a procurar, no jogo, méritos que possam explicar o desfecho final, pintando-o como lógico e inevitável.
Mas, terá sido mesmo assim? Terá sido este um desfecho lógico e inevitável? Honestamente, não creio. Aliás, não só não creio, como a meu ver este foi o jogo mais desequilibrado entre todos os que estas duas equipas disputaram entre si esta época, com clara superioridade portista. O Benfica defendeu bem? Bom, se olharmos para a segunda parte, é certamente possível elogiar a performance defensiva da equipa de Jesus, e até com bastante justiça. Mas, no cômputo geral dos 90 minutos, não se pode propriamente dizer que o Benfica tenha sido muito competente no controlo defensivo. O Porto terá conseguido, segundo o meu critério de análise, 6 ocasiões claras de golo (na sua maioria, situações de 1x0 com o guarda-redes), o que é inclusivamente um número superior à média das equipas que no campeonato visitaram o Dragão esta época. A própria expulsão, de resto, resulta de mais um lance de exposição da linha defensiva encarnada, ou seja a inferioridade numérica decorre, também ela, dos problemas defensivos da equipa.
Aleatoriedade e a profecia, são dois candidatos que rivalizam pelo estatuto de factor explicativo do jogo. Confesso que o futebol a mim também me parece muitas vezes profético, mas ainda assim nesta balança a minha fé orienta-se por completo para o prato da aleatoriedade, e recorro sem hesitação a esse desinteressante factor para explicar grande parte do desfecho deste jogo e desta eliminatória.

- É evidente que o Benfica tem muitas atenuantes para uma exibição que a meu ver foi - e repito a ideia - tão modesta quanto feliz. A inferioridade numérica, porém, parece-me ser o menor de todos, já que o Benfica se viu reduzido a 10 precisamente devido à sua incapacidade de controlo do adversário, num lance que não foi isolado, mas antes em acto contínuo de outros que foram aproximando vertiginosamente o Porto do golo, nesse período do jogo. A atenuante principal é, claro, a importância que foi dada ao jogo e à eliminatória, tanto ao nível da equipa apresentada, como da própria gestão que foi feita ao longo dos 90 minutos por parte do treinador, sempre tendo a Juventus como prioridade.
É evidente, também, que a equipa se bateu muito bem defensivamente - e apenas neste plano - após a expulsão e quando passou a defender em zonas mais baixas do terreno. Aqui, sim, muito mérito para a equipa do Benfica. Fica, aqui, uma sugestão de reflexão sobre a diferença de desempenho defensivo, jogando com 11 e com 10, que ao contrário do que seria expectável foi muito melhor em inferioridade numérica.

- "Acreditar nas suas ideias até ao fim!"
Tantas vezes ouvimos esta frase, que nos aparece sempre como sugestão virtuosa para todos os treinadores, em períodos onde o tempo e o resultado apelam tentadoramente a que se altere a forma de atacar. A minha pergunta é: porque é que é uma virtude "acreditar nas suas ideias até ao fim"? Será um dogma? Ou será porque é essa a forma que mais e melhor potencia as possibilidades de sucesso, mesmo num contexto de jogo diferente? A meu ver, só faz sentido a segunda hipótese e, sendo assim, terá também toda a lógica que se questione se aquela é, mesmo, a forma que mais e melhor potencia as possibilidades de sucesso da equipa...
Tudo isto a propósito do Porto, que pela segunda vez se viu eliminado de uma competição depois de estar muito tempo a jogar em superioridade numérica e a precisar de marcar (explico que aqui estou a considerar o jogo de Sevilha e não o da Luz, já que nessa ocasião esteve em vantagem numérica mas quase sempre também com vantagem na eliminatória, o que é um cenário diferente deste). A equipa optou, em qualquer dos casos, por acentuar a circulação exterior e resistiu quase sempre bem à tal tentação do jogo directo, para a área do adversário. O resultado, porém, foi muito modesto, nomeadamente com muito poucas ocasiões claras de golo construídas dentro de um contexto que lhe era francamente favorável. Não estou aqui a defender que a abordagem directa seja a mais aconselhável para este tipo de situação, apenas a sugerir que se questione e que não se deixe que o "porque sim" seja uma explicação.

- Uma nota final para referir que a análise estatística foi centrada na equipa do Porto. O motivo é simples: este tipo de análises têm o objectivo de analisar e reunir uma quantidade relevante de dados das equipas e jogadores nos jogos de maior importância da temporada. Ora, claramente, esse não foi o estatuto que o Benfica ofereceu a este jogo, não fazendo por isso sentido incluí-lo nessa categoria. Outras oportunidades, e com muito mais propósito, surgirão nos próximos tempos, desde logo o jogo de Turim.

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25.4.14

Benfica - Juventus: Opinião e estatística

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- Começo pela Juventus. É uma equipa de grande qualidade - ou não dominaria, como domina, uma liga com a dimensão da Serie A - com um futebol muito vertical, de poucos toques, mas com uma notável lucidez táctica. E, aqui, não me estou a referir ao sistema de jogo ou a recorrer ao cansativo estereótipo que teima em permanecer alapado ao futebol italiano e que vai servindo para caracterizar tudo o que, futebolisticamente, vem daquele país. Refiro-me, isso sim, à capacidade que a equipa de Turim revelou nos seus movimentos individuais e colectivos, quase sempre identificando correctamente as oportunidades e ameaças que as situações de jogo lhe iam oferecendo. Sem bola, definiu muito bem a sua presença pressionante, ajustando lateralmente com grande eficácia, bloqueando a entrada em jogo de Enzo, e encurralando a circulação encarnada que ficava repetidamente sem linhas de passe para dar continuidade útil ao jogo ofensivo. Com bola, um jogo muito vertical e de poucos toques, é verdade, mas com uma intencionalidade colectiva muito clara e sempre tendo em vista a criação de problemas à organização defensiva do Benfica. A este respeito, curiosamente, há algumas semelhaças no comportamento das duas equipas. Estruturalmente, ambas começam a construir a partir de uma linha de 3 unidades, com os laterais projectados e apenas 1 médio (Enzo de um lado, Pirlo do outro) a procurar ser solução de apoio mais próximo, no corredor central. Isto, para além da verticalidade, claro. Mais à frente, aí sim, as equipas distinguem-se. No caso da Juventus, muitos movimentos dos médios nas costas dos laterais - Pogba repetiu isto à exaustão, levando consigo André Gomes -, uma permanente perturbação da linha defensiva contrária, ameaçando continuadamente a profundidade e com boa identificação do timing em que essa rotura deve ser tentada, e com Tevez a ter também uma acção complementar no espaço entrelinhas, que também foi criando alguns problemas ao Benfica. Enfim, vários movimentos diferentes e muitas vezes a surgir de forma sucessiva dentro da mesma jogada, o que revela bem a cultura táctica da equipa e dos seus jogadores.

- Quanto ao Benfica, é evidente que a equipa não se submeteu voluntariamente às dificuldades a que todos assistimos. Se aconteceu isso deve-se, quase por inteiro, ao mérito que teve a Juventus. Ainda assim, a equipa conseguiu resgatar uma vitória importante, muita alicerçada na eficácia e aproveitamento das poucas ocasiões criadas, é certo, mas também com mérito próprio na capacidade de resposta e resistência em alguns aspectos. Em particular, a meu ver, o comportamento da linha defensiva, que como escrevi acima foi constantemente fustigada pela agitação dos movimentos dos avançados contrários, mas que se aguentou com uma eficácia assinalável, se considerarmos todas as condicionantes.
Dentro do capítulo defensivo, as maiores dificuldades estiveram na definição do pressing que costuma ser um pilar importante para a afirmação da equipa. O Benfica teve muitas dificuldades em lidar com a largura da primeira linha de construção da Juventus, e acabou por permitir que os italianos "saltassem" com alguma facilidade essa primeira fase do condicionamento defensivo, em especial quando saíram pelo lado direito do Benfica. Isto, porque Markovic era atraído à bola (saindo sobre o central do seu lado), libertando nas suas costas Asamoah, que ficava livre e distante quer de Maxi (fixado mais atrás), quer de Enzo (frequentemente demasiado interior e atraído por Pirlo). Na segunda parte, o extremo sérvio guardou mais a posição e o controlo sobre Asamoah, o que impediu a Juventus de repetir este movimento, mas que acabou por outro lado por determinar que a equipa passasse a defender mais baixo do que havia feito no primeiro tempo, o que resultou no acentuar do domínio territorial italiano, constatado por todos (o que não quer dizer, forçosamente, que tenha criado mais problemas de controlo defensivo ao Benfica). Ao ver o jogo, pensei que esta alteração tivesse sido intencional, mas ao ouvir Jesus no final fica claro que as diferenças resultaram da iniciativa dos jogadores (em concreto, Markovic), não me parecendo ter havido qualquer diferença nos movimentos da Juve, de uma parte para a outra, como sugeriu o treinador encarnado.
Se, sem bola, e apesar de todas as dificuldades, haverá bastante por onde elogiar o desempenho da equipa, já com bola o Benfica foi bastante menos competente nas soluções que encontrou para os problemas criados. Não conseguiu, nunca, ligar o seu jogo em posse - como era sua intenção - e nem sequer a sua construção longa, a partir do guarda redes, se revelou eficaz. Salvaram-se algumas jogadas, poucas e muito menos do que aquilo que é desejável, mas factualmente foi o suficiente para valer dois golos e a vitória.

- É evidente que se projectarmos a segunda mão a partir do que se passou nestes primeiros 90 minutos, e considerarmos o peso que certamente terá o factor casa, então, e mesmo com a vitória, o cenário fica muito complicado para o Benfica. Mas não tem de ser assim, e aliás penso que o segundo jogo tem boas possibilidades de ser substancialmente diferente, já que se jogará em bases muito distintas. A conclusão que me parece mais importante retirar destes 90 minutos, é que os jogadores do Benfica não pareceram devidamente preparados para responder a algumas dinâmicas-base do seu adversário, e o tempo de intervalo entre as duas mãos deverá servir para Jesus poder preparar melhor o lado estratégico da segunda mão, em especial a resposta a algumas especificidades da equipa de Conte. Esse é o desafio fulcral e que pode definir a presença, ou não, numa segunda final europeia consecutiva para o Benfica.

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24.4.14

Atl.Madrid - Chelsea | Real Madrid - Bayern

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Atl.Madrid - Chelsea
O sorteio, no caso desta meia-final, tinha o condão de poder ditar, logo à partida, embates de características muito distintas. Pela diferença entre o potencial técnico das 4 equipas, e pela própria abordagem estratégica que decorre em grande medida dessa condicionante. Ao juntar Atlético e Chelsea, as sortes praticamente sentenciaram um duelo muito fechado, onde a organização defensiva e a protecção dos espaços essenciais se sobreporia, previsivelmente, à capacidade e potencial ofensivo de qualquer dos conjuntos. E foi precisamente isso que sucedeu nesta 1ªmão, ainda que com diferenças óbvias entre a postura das duas equipas.

Um ponto interessante a explorar, parece-me, é a questão do peso do factor casa na eliminatória e na estratégia dos treinadores. Contrariando uma perspectiva mais distanciada da vertente emocional do jogo, poderíamos supor que não faria diferença jogar primeiro ou fora. A verdade, porém, é que a história dos confrontos europeus mostra que o factor casa no jogo decisivo acaba ser mesmo uma vantagem nada desprezível. Neste caso, essa ideia pareceu estar muito claramente absorvida por Mourinho e pelo Chelsea, já que, mesmo com o 0-0 a permitir dois resultados possíveis ao Atlético no segundo jogo, Mourinho pareceu apostar tudo em levar esse resultado para o seu estádio. Estará errado? Provavelmente não, se considerarmos o que escrevi atrás. Agora, se isso se vai provar decisivo a seu favor neste caso concreto, já é outra conversa...

Em relação ao jogo, quero começar por comentar a abordagem estratégica do treinador português. Será discutível a sua opção, sem dúvida, e a riqueza deste jogo passa precisamente pelo debate em torno das ideias que cada um tem sobre a melhor forma de potenciar a vitória. Mas, sublinho, tendo sempre e apenas esse fim em mente e nunca em favor de qualquer idiossincrasia que ceda à tentação de inventar dogmas e moralismos tácticos que, não só são desprovidos de qualquer sentido lógico como apenas servem para atrofiar a riqueza intelectual de uma discussão que se quer tão aberta quanto possível. Cada treinador é, neste sentido, livre de fazer as suas opções estratégicas de acordo com os seus interesses - sejam estas certas ou erradas - e, por isso mesmo, saúdo a postura de Simeone que não se desculpou com os "autocarros" do adversário - expressão que ironicamente foi inventada pelo próprio Mourinho. O que me parece claramente criticável, por outro lado, é a incapacidade de ter bola que o Chelsea revelou, de resto completamente contrastante com a qualidade com que se defendeu perto da sua área. É certo que há muitas ausências que podem explicar parte do défice de capacidade do Chelsea neste particular, mas este não é um problema que se possa circunscrever a este jogo específico, sendo uma fragilidade que se vem arrastando com a equipa ao longo da época e que constitui o grande desafio do treinador português para os próximos anos.

Da parte do Atlético, confesso que não esperava tanto domínio territorial. Na maioria dos jogos internos, o Atlético confronta-se com equipas de perfil mais defensivo e a verdade, ao contrário do que situação classificativa sugere, é que raramente os consegue ultrapassar com grande facilidade. Nesse sentido, este não foi um jogo muito diferente daqueles que a equipa habitualmente disputa no seu estádio, talvez com mais domínio territorial e menos ocasiões claras de golo construídas. Parece-me que a ausência de Arda em 2/3 do jogo foi bastante relevante, já que é a unidade que oferece maior mobilidade e presença em posse à equipa, virtudes que fizeram falta durante boa parte do jogo na abordagem ao último terço, a meu ver excessivamente directa. O Atlético está a fazer uma época fantástica, e já elogiei aqui diversos aspectos da equipa, mas mesmo com todo o mérito que tenha, para atingir este patamar de sucesso a equipa 'colchonera' depende muito mais do factor aleatório do que em equipas como Real Madrid ou Bayern, que conseguem um volume de ocasiões consideravelmente maior do que os seus adversários em cada jogo que disputam. Convém, a este respeito, não confundir as coisas.

Para a 2ª mão sobram-me algumas dúvidas, nomeadamente na abordagem que ambas as equipas terão - especialmente o Chelsea. A perspectiva é que as coisas não fujam muito do que vimos no Vicente Calederon. O Chelsea com outra estrutura (regressando ao 4-2-3-1) e discutindo mais o jogo territorialmente, mas a ideia deverá passar sempre por manter o bluff até que a eliminatória caia para algum dos lados. Estes eram dois dos 3 "dark horses" (o outro era o Dortmund) que aqui havia perspectivado como possibilidade para disputar o título até ao fim, mesmo tendo um potencial técnico significativamente inferior a outros emblemas. Uma delas estará, com certeza, na final de Lisboa, e isso em si mesmo já é um feito assinalável.

Real Madrid - Bayern
De facto, não podia ter características mais diferentes este segundo embate das meias-finais. Grande potencial individual e, de parte a parte, uma mentalidade muito orientada para a vertente ofensiva... Bem, na verdade não foi exactamente assim que tudo se passou, e em grande parte porque o Real se apresentou estrategicamente diferente em relação àquilo que é habitual e que eu próprio esperava. A meu ver bem, mas já irei aos motivos concretos dessa minha opinião. Para já, fazer notar que tinha como expectativa ver mais ocasiões claras do que aquelas que o jogo ofereceu, e para isso foi decisiva, precisamente, a tal postura estratégica do Real.

Abordando separadamente as equipas, começo pelo Bayern. Guardiola congratulou-se pelo domínio que a equipa exerceu, o que face ao resultado final servirá para aguçar os anticorpos internos em relação ao estilo do treinador. "De que serve a posse de bola se foram eles quem tiveram as melhores ocasiões?", dirão. E com razão. No entanto, isso não implica que a satisfação de Guardiola não faça, também ela, todo o sentido, sem que isso implique qualquer contradição entre as duas ideias. Explicando melhor o meu ponto, se Guardiola vê na posse e no domínio através dela o melhor caminho para aproximar a equipa do sucesso, é normal que se sinta realizado pela imposição que a equipa conseguiu nesse aspecto específico do jogo, perante um adversário tão forte como é o Real. Pessoalmente, não dava como certo que o conseguisse de uma forma tão clara. Agora, isso não implica que a equipa não tenha de melhorar noutros capítulos, e que por via disso não tenha estado tão perto da vitória quanto o pretendido. O que sucede, na minha leitura, é que o Bayern tem uma proposta de jogo que assume muito risco em qualquer dos momentos tácticos defensivos. Em transição, porque a abertura posicional da equipa implica, forçosamente, uma grande exposição espacial. Em organização, porque a intenção de recuperar imediatamente a bola implica também que se adiantem muitas unidades em missão pressionante, o que prejudica o equilíbrio defensivo em zonas mais recuadas, sempre que essa primeira fase é superada pelo adversário. Dado o potencial técnico do Real, e como também referiu Guardiola, era expectável que a equipa acabasse por sofrer um pouco dos efeitos secundários da sua proposta de jogo. O outro lado menos conseguido da exibição da equipa, foi a abordagem ao último terço, zona a que chegou com enorme frequência mas sem as consequências certamente desejáveis. Dentro de tudo isto, não vejo muito por onde se possa criticar o que fez o Bayern. A equipa faz tudo com um critério e intencionalidade notáveis, desde o jogo posicional dos laterais até à movimentação de Mandzukic (sempre a procurar potenciar duelos com os laterais, ao segundo poste, para retirar vantagem de estatura e criar espaço para a entrada dos médios). Agora, houve muito mérito no desempenho do Real, e a própria formação bávara terá os seus limites, possuindo enorme qualidade nos seus recursos, é verdade, mas ainda a alguma distância do que Guardiola contava no Barça. Também na reacção à perda, penso que a equipa justifica os mais rasgados elogios, com uma excelente entrega dos seus jogadores, ainda que como referi atrás fosse muito difícil conseguir 100% de eficácia ao longo do jogo.

Pois, se o Bayern justifica elogios e mesmo assim a derrota não causa qualquer surpresa, então só resta concluir sobre os méritos que o Real teve neste triunfo. À luz do que havia sucedido frente ao Barça, esperava um Real pouco ajustado à especificidade do adversário (com vulnerabilidades, nomeadamente nas no espaço entrelinhas), e confesso-me surpreendido pela abordagem de Ancelotti, que no meu entender acabou por se revelar francamente feliz. O Real não deixou de pressionar e potenciar o erro do adversário no seu meio terreno, mas fê-lo com muito mais critério do que noutras ocasiões. Nomeadamente, a sua linha média esteve bastante mais lúcida no jogo posicional, guardando melhor o posicionamento e a protecção dos espaços essenciais, mesmo que isso tivesse de implicar o reconhecimento do mérito do adversário e a submissão a dilatados períodos sem poder ter posse de bola. Aqui, há também que destacar o aspecto estrutural, já que Ancelotti definiu duas linhas de 4 muito claras, deixando mais à frente e ao centro Ronaldo e Benzema, também eles sempre com uma grande disponibilidade para defender. Tenho escrito aqui muito sobre a importância do lado estratégico para o sucesso a este nível, e se o Real havia sido até aqui um exemplo negativo a esse respeito, nomeadamente no tal jogo frente ao Barça que tanto complicou as suas contas do título, agora pode ter ganho uma vantagem importante para chegar à tão ambicionada "décima".

Dentro de 1 semana, teremos o desfecho de mais um fantástico duelo, numa Champions 13/14 riquíssima e que, confesso, me tem enchido completamente as medidas!

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21.4.14

Manter Jesus, o Ovo de Colombo de Vieira

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Consideremos o seguinte cenário:
- Numa determinada época, 2 clubes apresentam-se claramente mais fortes do que toda a concorrência, acabando separados na classificação final por apenas 1 ponto.
-  Na preparação da época seguinte, um desses clubes perde 2 das suas unidades de maior qualidade e importância, e substitui ainda o seu treinador. Por contraponto, o outro clube mantém o seu elenco praticamente inalterado, tanto relativamente aos principais jogadores, como ao nível da sua liderança técnica.

Qual o desfecho que se apresenta mais provável para a época seguinte?

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O problema, exposto desta forma, parece ser bastante trivial, mas com certeza que não serão precisos grandes apelos à memória para relembrar como poucos o viram de maneira bem diferente assim que terminou a época passada.

Não era obviamente um dado adquirido que o Benfica conseguisse chegar ao título mantendo a equipa técnica, nem tão pouco que não atingisse igualmente esse objectivo caso tivesse mudado de treinador. Mas, face às mudanças encetadas pelo seu principal rival, era lógico que as hipóteses se balanceavam favoravelmente para o Benfica, sendo que qualquer mudança no próprio elenco só poderia acrescentar risco indesejável a esta equação.

No futebol, e como já diversas vezes escrevi, a componente emocional é um factor omnipresente e que a meu ver não pode nem deve ser ignorado. Neste sentido, será errada uma gestão que permaneça autista perante a relevância dos sinais emocionais que lhe são dados a partir do exterior. Um equívoco maior, porém, será a sobresensibilidade ao domínio emocional, nomeadamente permitindo que este distorça aquela que é a lógica natural das coisas.

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18.4.14

Benfica - Porto (II): Análise individual

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Por falta de tempo, ficam apenas comentários às exibições de alguns jogadores...

Individualidades (Benfica)
Maxi - Muito bom jogo, saindo claramente vencedor do duelo travado com Quaresma, onde fez valer os seus níveis de intensidade e agressividade. Ofensivamente muito discreto, obviamente condicionado pela inferioridade numérica da equipa neste particular.

André Almeida - Foco para o lance do golo portista, onde tem responsabilidades óbvias. Ainda assim, na minha opinião não é justo isolá-lo nas criticas a esse lance. Aliás, se o Benfica foi eficaz defensivamente pela solidariedade colectiva e coberturas permanentes a todos os duelos individuais que o Porto forçou, foi precisamente nesse aspecto que a equipa mais pecou no lance do golo que esteve quase a deitar tudo por terra.

André Gomes - A grande figura mediática do jogo, pelo trabalho que foi realizando no meio-campo e sobretudo, claro, pelo golo decisivo que marcou. Fez, de facto, um bom jogo, coroado com a jogada de belo efeito. Mas não partilho de alguma euforia que se instalou em torno dos seus 90 minutos. Por exemplo, ao nível do trabalho defensivo, e embora tenha estado globalmente bem, não foi de todo uma exibição extraordinária, mantendo-se num plano muito mais modesto do que o seu parceiro de sector, Enzo Perez.

Enzo Perez - Não valorizo muito o golo que marcou, pelo facto de ter sido obtido de penálti. Ainda assim, não deixou de ser uma grande exibição - mais uma! - do médio argentino, na minha opinião e com alguma distância, o melhor em campo se considerássemos apenas o trabalho defensivo e a presença em posse.

Gaitan - Mais uma boa exibição de uma das figuras da temporada, com excelente presença defensiva e o habitual contributo criativo. O que o separa de uma exibição mais exuberante foram as dificuldades em conseguir ser mais eficaz nas suas aparições no jogo com bola, um problema que deriva muito da dificuldade em que estas ocorreram e que, por exemplo, foram também sentidas no corredor contrário, por Salvio.

Salvio - Teve um jogo até pouco conseguido na gestão da posse, muitas vezes por alguma precipitação no critério, é verdade, mas a meu ver sobretudo pelo grau de dificuldade que lhe foi imposto e que decorreu da densidade de jogadores do Porto na sua zona. No entanto, foi sem dúvida o jogador mais determinante na construção do resultado, o que fará dele o candidato a meu ver mais lógico para a sempre subjectiva eleição de melhor em campo. Em particular, destaco a sua capacidade de movimentos sem bola e a contundência com que ataca zonas de finalização, virtude que lhe vale a capacidade decisiva que se lhe conhece e que não é muito normal num extremo. Já no Dragão havia sido o único a tentar movimentações de rotura que aproveitassem a exposição da defesa portista, e se nesse jogo não foi bem sucedido, pode dizer-se que na segunda mão teve uma preponderância enorme nesse tipo de acções. Começou por ganhar a frente do lance a Mangala, no primeiro aviso do Benfica no jogo, marcou um golo de enorme mérito numa finalização de grau de dificuldade elevado e acabou por conquistar o penálti que relançou a equipa no jogo, mais uma vez surpreendendo a defesa portista pela rapidez com que atacou o espaço.

Rodrigo - Provavelmente o grande prejudicado pela expulsão de Siqueira. Até aí estava a ser uma das chaves do jogo, através dos seus movimentos interiores, que aproveitavam as costas dos médios portistas e expunham o isolamento de Fernando, entrelinhas. Jogando mais fixo na frente, não conseguiu o mesmo impacto, em parte por alguma infelicidade em alguns momentos, mas também pelo acréscimo de dificuldade que essa missão representou para si. Nota para a forma como se envolveu na missão defensiva, baixando várias vezes até zonas muito perto da área, onde conseguiu ser por diversas vezes um elemento importante para o sucesso defensivo da equipa.

Individualidades (Porto)
Fabiano - Não lhe atribuo responsabilidades em qualquer dos golos, mas fica a nota para a quebra de eficácia nos últimos tempos. E não quero com isto fazer-lhe qualquer critica, apenas alertar para o facto de ser praticamente impossível para um guarda-redes - qualquer que seja - manter os níveis de intervenção em lances decisivos que Fabiano vinha tendo. Para já, continua a ser uma época muito boa e prometedora, mas será preciso mais tempo para isolar completamente a aleatoriedade da amostra.

Reyes - Ganhou muitos duelos, nomeadamente no jogo aéreo, mas voltou a cometer uma série de erros comprometedores, dando sequência a uma tendência recente. Percebe-se que há uma tentativa de apostar no jogador, mas no caso dos defesas - e como será fácil de sustentar através de diversos exemplos - a afirmação está sempre muito dependente do contexto colectivo. Não ajuda, neste sentido, o momento da equipa e a exposição defensiva que esta assume. Reyes tem errado, talvez até mais do que outros, mas é interessante notar todos os centrais utilizados também vão repetindo deslizes a cada jogo que passa. Um sinal claro de que o foco do problema poderá não residir na componente individual.

Fernando - Foi o jogador com mais intervenção directa no jogo, entre todos os que pisaram o relvado. Não se escondeu do jogo e conseguiu manter um nível razoável de eficácia nas suas acções, apesar de ficar muitas vezes isolado à frente da linha defensiva. Isto não significa, porém, que não tenha tido também dificuldades em alguns lances de grande importância.

Herrera - Mais um jogo de grande impetuosidade, parecendo ser capaz de percorrer uma área assinalável do terreno, mas por outro lado sem emprestar grande qualidade - e critério - às suas aparições com bola. Um problema que, para um médio, tem muita relevância.

Varela - É um jogador relativamente mal-amado, e se posso concordar que não é um fora-de-série capaz de transportar a equipa para outra dimensão, também preciso de fazer notar que é dos mais regulares e daqueles que vai oferecendo competência à equipa numa cadência mais regular. Por exemplo, estava a ter um desempenho incomparavelmente superior ao de Quaresma, não apenas pelo excelente golo que marcou - o único rasgo de toda equipa no jogo, assinale-se - mas pela sequência em posse e utilidade no trabalho defensiva. Mas, como referi no inicio, é um mal-amado, e isso por vezes conta muito.

Quaresma - Foi um jogo de grande dificuldade para si, quer pela forma solidária como o Benfica defendeu, quer pela agressividade com que teve de se deparar. Na primeira parte ainda conseguiu arrancar algumas faltas, mas caíu por completo de rendimento na segunda. Quando não consegue desequilibrar, como foi co caso, a sua utilidade não se torna apenas escassa, mas praticamente nula. Como já escrevi, pareceu-me um erro a sua manutenção em campo.

Jackson - É um excelente avançado, e a meu ver muito completo. No entanto, parece perder muita da sua preponderância quando se lhe pede que ataque o espaço e não faça um jogo tão posicional. O Porto conseguiu abrir-lhe algumas possibilidades para que se tornasse protagonista, mas Jackson não conseguiu nunca dar boa sequência. Acabou também por ser vitima da dificuldade da equipa em entrar na muralha defensiva do Benfica, acabando por oferecer mesmo muito pouco à equipa.

Josué - Nota para a sua entrada, que pareceu oferecer um raio de lucidez à posse da equipa, nomeadamente atraindo a linha média do Benfica para fora da sua zona de conforto, em vez de ser o Porto a tomar sucessivamente a iniciativa da progressão, dando vantagem à acção defensiva numa situação em que paradoxalmente o relógio corria a favor das aspirações portistas. Infelizmente, para ele e para a equipa, a consistência defensiva acabou por anular o propósito da sua missão nesse papel específico. Com tantas oportunidades a serem dadas a Defour, Herrera e Carlos Eduardo, confesso que não vejo nenhum motivo pelo qual não possa jogar mais tempo.

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17.4.14

Benfica - Porto (I): Aspectos colectivos

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- O jogo não fugiu muito do que havia escrito na antevisão. Não quanto ao desfecho, claro, já que aí entramos num campo de maior imprevisibilidade, mas no que à abordagem estratégica das equipas diz respeito. O Benfica evidentemente mais agressivo e intencionalmente pressionante desde o primeiro minuto, já que entrava em desvantagem nesta 2ª mão. O Porto, respondendo também com poucas alterações específicas, nomeadamente tentando assumir o jogo em posse e mantendo uma zona pressionante bastante alta, confirmando a ideia de que Luís Castro não muda quase nada independentemente do adversário ou do contexto que a equipa tem pela frente. Também ao nível da vantagem que as equipas poderiam retirar de alguns aspectos do jogo e da eliminatória, se confirmaram as projecções a meu ver mais previsíveis. Ou seja, o Benfica bastante melhor, retirando partido do seu momento psicológico, que lhe era francamente favorável a todos os níveis, e também da exposição ao erro por parte do adversário, tanto ao nível do risco em posse, como de alguma negligência na protecção dos espaços essenciais. O Porto, por seu lado, conseguiu algum condicionamento do comportamento pressionante da linha média do Benfica, com a projecção dos seus médios interiores (um dado tacticamente muito relevante na primeira mão), mas estando sobretudo amparado pelo bom resultado que trouxera do Dragão, e que lhe permitiria retirar grande partido de uma qualquer incidência a seu favor, o que no caso acabou por acontecer através de uma expulsão.

- Do lado do Benfica, foram muito conseguidos os primeiros minutos, com boa intensidade e um bom aproveitamento das costas dos médios interiores portistas, que se adiantavam muito e isolavam Fernando como única protecção a uma linha defensiva já de si muito exposta em termos posicionais. Aqui, destaque para os movimentos de Rodrigo, preponderantes na afirmação do jogo encarnado até à expulsão de Siqueira. Depois, e mesmo quando esteve em desvantagem, o Benfica foi pragmático na sua abordagem estratégica, baixando linhas e assumindo a impossibilidade de discutir o jogo pela posse com o seu adversário. Dentro deste condicionalismo, é notável que a equipa tenha conseguido criar mais ocasiões do que o Porto, embora na minha perspectiva o Benfica tenha estado sobretudo bem a defender, já que o Porto não só não criou ocasiões claras de golo, como nem sequer se aproximou de tal feito (a única é excepção é mesmo o lance do golo). Aqui, há que destacar a solidariedade e capacidade defensiva de toda a equipa, com os 9 jogadores de campo a trabalharem muito para garantir o equilíbrio dos espaços essenciais. Depois, o resultado e a qualificação explicam-se pelo aproveitamento das ocasiões criadas, não sendo de forma nenhuma uma inevitabilidade. À posteriori tudo parece uma fatalidade, mas raramente é assim no futebol, e este jogo foi mais um que, dentro dos mesmíssimos parâmetros, poderia ter tido um desfecho igualmente lógico mas completamente diferente (no que diz respeito à eliminatória e não ao jogo, bem entendido), apenas com a alteração de alguns pormenores.

- Talvez o ponto que mais me tenha chamado à atenção na diferença entre as equipas tenha sido o comportamento estratégico de ambas os lados em relação à situação em que a eliminatória se foi encontrando. A este respeito, de resto, o contraste não poderia ser maior. O Benfica, a partir do momento em que se viu em desvantagem numérica, teve sempre como prioridade o controlo defensivo, mesmo quando a eliminatória passou a estar a uma distãncia de 2 golos. O Porto, ao invés, mesmo com tudo a seu favor, manteve uma postura de grande exposição ao risco, nomeadamente na pouca protecção à sua linha defensiva. Quem lê o que escrevo saberá bem o que penso da diferença entre estas duas abordagens - uma adaptável, a outra imutável - embora reconheça que tudo depende sempre da eficácia com que cada equipa seja capaz de implementar as suas ideias. No caso do Porto, e muito claramente, não existe eficácia minimamente suficiente para que a equipa possa assumir tanto risco nos seus comportamentos. Perante qualquer adversário (ainda pode haver tempo para maiores dissabores na Liga), mas especialmente frente àqueles de maior valia, como é o caso do Benfica.

- Entre mérito de uns e demérito de outros, parece-me lógico enfatizar-se a importância do que o Porto não fez para confirmar a sua presença no Jamor. Não se trata aqui de retirar crédito aos jogadores do Benfica, mas quando uma equipa está com vantagem de 2 golos e superioridade numérica, com pouco mais de meia-hora para jogar, parece-me muito claro de que lado está o ónus de chamar a si a responsabilidade sobre o destino do jogo. Neste sentido, há muito a questionar naquilo que fez o Porto. Desde logo, a forma como a equipa tardou a perceber (aconteceu com a entrada de Josué, já depois do 2-1) que a partir do momento em que Varela empatou o jogo a sua presença em posse era um elemento importante para fazer passar o relógio, não fazendo sentido arriscar a perda sem esperar pelo desposicionamento da linha média do Benfica. Não menos relevante (aliás, foi mesmo decisivo) foi a falta de controlo dos espaços defensivos, que deveria ser uma prioridade perante a vantagem na eliminatória, mas que mesmo assim não evitou a sucessiva exposição da linha defensiva através de movimentos rotura dos elementos do Benfica que partiam de trás. Finalmente, não é muito fácil de entender também a permanência de Quaresma no jogo, numa segunda parte de grande improdutividade do extremo (aparentemente estaria até mal disposto) e quando a partida entrava numa fase em que era preciso maior objectividade e eficácia em todos os capítulos do jogo. Enfim, esta tem sido uma época muito interessante do Porto (ainda que não da perspectiva dos seus adeptos, evidentemente), a tentar encontrar sucessivamente soluções para os seus problemas, mas a meu ver sempre a caminhar no sentido contrário ao pretendido, vivendo nesta altura provavelmente a sua pior versão, entre todas aquelas que assistimos desde agosto. Coisas que acontecem, no futebol.

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16.4.14

Benfica - Porto: Pontos de antevisão

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- Do ponto de vista estratégico, a grande dúvida está do lado do Porto. No caso do Benfica, a desvantagem na eliminatória e o facto de jogar em casa deverão determinar uma postura semelhante àquela que a equipa adopta perante qualquer adversário. Ou seja, linhas subidas para pressionar a primeira fase de construção contrária e, em posse, a tentativa de forçar a progressão apoiada, tendo sempre como ponto de partida a largura na sua circulação baixa, com 3 apoios na primeira linha e os laterais mais projectados ofensivamente.

- Quanto ao Porto, não antevejo também grandes novidades relativamente àqueles que são os traços gerais da sua estratégia habitual, e por dois motivos: O primeiro, tem a ver com aquilo que a equipa fez em situações semelhantes, nomeadamente nos segundos jogos das eliminatórias frente a Nápoles e Sevilha, onde sentiu grandes dificuldades, mas sempre pelos problemas causados pelos adversários e não por uma alteração de fundo na sua abordagem estratégica; O segundo motivo, porém, é mais interessante, e tem a ver com aquela que me parece ser a orientação filosófica de Luís Castro. Com ele, o Porto assume sempre a intenção de pressionar alto os seus adversários, nomeadamente adiantando os dois médios interiores ao longo do corredor central, e assume também a disponibilidade de sair a jogar curto a partir de trás, mesmo quando isso representa um risco assinalável para a sua segurança (e tem representado muitas vezes!). Para já, este perfil tem determinado jogos de grande entretenimento, com várias ocasiões em ambas as balizas. O problema, da perspectiva dos adeptos portistas, é que este entretenimento não tem sido propriamente um exclusivo azul-e-branco, e ver os outros ganhar não é algo que divirta muito os adeptos, seja lá de que maneira for. Do todo modo, este será um teste para esta rigidez estratégica (ou coerência ideológica, dependendo do ponto de vista) do treinador do Porto.

- Se o Porto, como penso que possa acontecer, mantiver a sua abordagem, teremos uma grande probabilidade de ter um jogo de assinalável exposição ao risco, nomeadamente no que respeita à saída de bola de qualquer das equipas. A probabilidade de perda em zona de construção será, dentro deste cenário, uma ameaça constante, e como se sabe essa é uma eventualidade para a qual nenhuma equipa está verdadeiramente preparada em termos posicionais, pelo que a reacção defensiva é sempre muito complicada. O Benfica terá do seu lado o momento emocional, já que o Porto tem acusado muitos problemas precisamente em jogos com este registo e fora do seu estádio. O factor-casa, aliás, parece ser um aliado importante dos encarnados, já que o próprio Benfica tem-se revelado bem mais competente na circulação baixa em jogos disputados na Luz. Basta verificar, por exemplo, a resposta contrastante que a equipa deu perante o pressing contrário frente ao Sporting (campeonato, casa) e Porto (taça, fora), ou Académica (casa) e Braga (fora).

- Os dados, de acordo com o que escrevi acima, não parecem muito favoráveis às aspirações portistas, no entanto há alguns aspectos que poderão jogar a seu favor. Primeiro, o capítulo táctico, com o Porto a ter muito mais presença no corredor central do que o seu adversário. Este foi um factor que me pareceu determinante na primeira mão, e com o qual o Benfica de Jesus historicamente não lida bem. Depois, o factor emocional, já que se é verdade que o Benfica iniciará o jogo com um grande capital de confiança, motivado tanto pelo ambiente do próprio estádio como pelo momento de euforia que a equipa vive, também não se pode esquecer que o Porto traz da primeira mão uma vantagem importante, e que terá a seu favor tanto o cronómetro como a ameaça que um só golo representa para as aspirações do seu adversário nesta eliminatória. Neste sentido, qualquer tendência positiva no jogo a seu favor, poderá rapidamente transformar-se numa montanha emocional para o Benfica e todos os seus adeptos.

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