27.11.13

Porto - O mau momento e suas responsabilidades

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Talvez não seja o 'timing' mais justo para os lenços - O empate na recepção ao Austria Viena é, obviamente, mais do que um mau resultado, um resultado proibido em função da situação do clube na competição. Ainda assim, não me parece que seja o jogo mais justo para questionar o rendimento da equipa. Aliás, se compararmos com as restantes exibições do Porto nesta temporada, este terá sido até dos jogos onde a equipa mais conseguiu produzir e onde foi mais traída pelo aproveitamento das ocasiões criadas, quer numa baliza quer na outra. O Porto terá perdido uma oportunidade soberana para sair de uma posição comprometedora, é certo, mas se chegou até ela foi porque não se conseguiu impor perante adversários directos na luta pelo apuramento. Seja como for, não há aqui da minha parte uma censura em relação aos apupos e lenços brancos mostrados à equipa no final do jogo. As manifestações de apoio/protesto resultam sempre de reacções emocionais, pelo que são sempre genuínas e bem fundamentadas desse ponto de vista. Absurdo seria esperar delas uma grande dose de racionalidade e ponderação.

As responsabilidades de Paulo Fonseca - O treinador, e no caso do Porto especialmente, é sempre o primeiro alvo, e é sobre ele que nesta altura mais apontam as criticas. Até que ponto será justo? Na minha leitura, Paulo Fonseca terá a responsabilidade de alguns escolhas individuais que me pareceram equivocadas, mas não mais do que isso. Na aposta em soluções para os corredores laterais (extremos) que teriam uma possibilidade de sucesso muito duvidosa a este nível (e escrevi-o na sequência das análises de pré-época, por isso não se trata de uma constatação à posteriori), e na forma como reagiu passivamente aos erros individuais que se iam repetindo e que são, a meu ver, o grande motivo da recente onda de maus resultados, já que o rendimento ofensivo da equipa vem sendo medíocre praticamente desde as primeiras jornadas. Concretizando, parece-me que deveria ter feito outra aposta nos extremos, e que deveria ter sido mais reactivo a mexer na dupla de centrais, que foi acumulando erros jogo após jogo, sem ser alterada.
Mas, na minha leitura as responsabilidades do treinador ficam por aqui, e não podem entrar no plano táctico. É um hábito que não é exclusivo do Porto, mas sempre que uma equipa passa por uma crise de resultados, surge imediatamente a pressão para que se mude de 'táctica', dando como certo que com outra 'táctica' a equipa teria um rendimento radicalmente diferente (e por 'táctica', entenda-se sistema táctico, porque é raro que este tipo de observação incida com pertinência sobre dinâmicas ou comportamentos colectivos, frequentemente bem mais relevantes do que o sistema em si mesmo). Ora, no caso de Paulo Fonseca e do Porto, nem me parece que o modelo de jogo seja assim tão desajustado às características dos jogadores que tem ao seu dispor. Analisando, o facto é que tem conseguido retirar bom partido dos laterais, de Lucho e de Jackson e que para além destes, convenhamos, não sobram muitas unidades que se possam afirmar estar longe do potencial que lhes é reconhecido. É possível - admito - que com um triângulo invertido (um pivot e dois médios interiores), o Porto pudesse envolver mais gente nas alas, ajudando a contornar o ponto fraco da equipa em termos ofensivos, mas tudo isso são apenas conjecturas que estão longe de poderem ser dadas como adquiridas. O ponto principal sobre Paul Fonseca e o seu modelo, porém, tem a ver com o facto de ele ser o mesmo que o treinador subir todos os degraus até à porta do Dragão. Ou seja, quem contratou Paulo Fonseca, contratou implicitamente este modelo e estas ideias de jogo, não fazendo sentido algum estar agora a pedir que o treinador jogasse de outra maneira ao fim de 3 ou 4 meses.
É curioso como, em abstracto, se ouve sempre dizer que os treinadores devem acreditar nas suas ideias e não mudar em função dos resultados, mas depois quando as coisas acontecem quase ninguém sugere outra coisa que não seja a mudança.

As responsabilidades da 'estrutura' - No futebol, invariavelmente se aponta a 'estrutura' como o factor mais decisivo para o sucesso. Confesso que quase nunca fico a saber exactamente do que é que se está a falar quando alguém se refere à 'estrutura', mas aqui vou-me referir à 'estrutura' como a quem tem poderes para tomar decisões técnicas na contratação de treinadores e jogadores, porque este é no meu entendimento o factor verdadeiramente decisivo para o sucesso desportivo a prazo (e, já agora, aquele que explica o domínio do Porto no futebol português nos últimos 20 anos).
Aqui, parece-me que a responsabilidade da 'estrutura' é bem maior do que a do treinador - desde logo porque foi quem decidiu a contratação do treinador, para o bem e para o mal.
Se o Porto tem uma fragilidade facilmente identificável nos extremos, é muito questionável a forma como o seu recrutamento tem lidado com essa posição, historicamente determinante no sucesso do modelo do Porto. Vejamos, há 2 temporadas o Porto tinha Hulk, James e Varela. Hoje, Varela é provavelmente o extremo que garante melhor rendimento entre todas as soluções disponíveis. Se o Porto sempre foi um clube vendedor, também é um facto que foi sempre um clube capaz de substituir à altura as suas principais mais valias, e isso é o que justifica o sucesso continuado apesar de tantas vendas. Nos últimos dois anos, e no que respeita a extremos, isso simplesmente não aconteceu.
Depois, há que questionar - e não sou certamente eu o primeiro a fazê-lo - o recente critério de aquisições do Porto, em particular a incidência do investimento em termos de posição do terreno. Os grandes negócios do Porto, historicamente, foram em posições defensivas. Fernando Couto, Ricardo Carvalho, Bruno Alves, Pepe, Bosingwa, Cissokho e Paulo Ferreira não foram apenas grandes vendas, mas foram sobretudo jogadores de elevado rendimento que surgiram directamente da formação ou de 'achados' em clubes de dimensão inferior. Ora, nos últimos anos o Porto inverteu essa estratégia e passou a canalizar grande parte do seu investimento para posições defensivas. Se é verdade que Danilo, Alex Sandro, Otamendi e Mangala são jogadores de indiscutível valor, convém também perceber que para os ter o Porto teve de pagar quantias que faltaram depois para investir noutras posições agora carenciadas, sendo que no passado o clube havia sido capaz de manter idêntica qualidade no sector defensivo, mas com um investimento incomparavelmente mais reduzido. Ou seja, a famosa formação de defesas do Porto foi - aparentemente por motivos estratégicos - abruptamente interrompida, com todos os prejuízos que daí resultam.
Enfim, algo está diferente na política de contratações do Porto, e esta não é uma constatação que resulte do último defeso e das vendas de Moutinho e James, mas antes de uma linha de actuação continuada e que culminou nas fragilidades que facilmente se identificam actualmente no plantel portista. E é por isso que é a 'estrutura' - muito mais do que o treinador - quem me parece ser quem tem mais responsabilidades no menor rendimento presente da equipa.

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25.11.13

Guimarães - Sporting: Opinião e Estatística

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Candidato? Não digas porque dá azar! - A discussão já tem meses, e durará enquanto o Sporting se mantiver próximo do primeiro lugar. Já escrevi sobre o tema nas primeiras jornadas e não tenho muito a acrescentar sobre as possibilidades reais do Sporting ser campeão - que são maiores nesta altura - e da relação entre o seu estatuto de 'grande' e a ambição pelo título. No entanto, confesso que este tema me entretém bastante, sobretudo pela importância que as pessoas dão ao que se diz, ou nãom à frente dos microfones. Isto é, é óbvio para todos que o Sporting ambiciona ser campeão. Independentemente de não ter o mesmo investimento e qualidade dos seus rivais, é com o título que todos sonham, porque 1) todos percebem que esse objectivo não é de todo uma impossibilidade e 2) porque é essa a ambição natural de um clube e de uma massa adepta como a do Sporting. Admite-se, portanto, que o Sporting assuma internamente essa ambição, mas por outro lado - e é este o ponto interessante de tudo isto - entende-se como proibitivo que se assuma publicamente o que todos pensam, porque supostamente isso irá ter efeitos directamente negativos nas possibilidades desportivas da equipa. Ora, talvez seja uma limitação minha, mas confesso que tenho alguma dificuldade em ver com tanta clareza a lógica deste raciocínio. Reconheço que a envolvente influencia o jogo, mas daí até se dar este tipo de importância ao que se diz à frente ou atrás dos microfones, vai uma grande - enorme! - distância . É, no fundo, um pouco como fazer uma fé plena na ideia de que "somos candidatos, mas não digas porque dá azar!"

Entretanto, e passando para o que se viu no jogo, no campo o Sporting vai dando todos os indícios de sonhar de facto com o título. Durante todo o jogo, o Sporting fez subir 5 unidades à área contrária para a disputa dos pontapés de canto. Nos últimos 5 minutos, e por duas vezes, aumentou essa presença para 6 elementos. 1 ponto em Guimarães só não é bom para quem luta por algo mais do que a Europa, e se o Sporting arriscou perder esse ponto numa deslocação tão complicada como é o Afonso Henriques, não foi certamente por ter o 3º lugar em mente.

Jogo tacticamente complicado - O Sporting resgatou - com muita felicidade, diga-se - os 3 pontos, mas este foi notoriamente um jogo complicado onde a equipa teve sempre muitas dificuldades em aproximar-se do golo e da vitória. Tacticamente, e olhando às características das equipas, era previsível que o Sporting encontrasse no Vitória um adversário difícil de ultrapassar. É que a formação de Guimarães tem no corredor central e no espaço entrelinhas a sua principal fragilidade, e sucede que o Sporting - tal como se viu em várias ocasiões no jogo - tem uma falta de afinidade quase genética com essa zona do terreno, preferindo invariavelmente entrar pelos corredores laterais. Assim, o Vitória abria um buraco à frente dos centrais, enquanto que o Sporting insistia em entrar pelos flancos. Depois, no outro sentido do jogo, o Vitória também encaixava pouco na estratégia de Jardim, porque à intenção de pressionar alto do Sporting, os vimaranenses respondiam com uma forte presença sobre a última linha defensiva do Sporting (com os extremos sempre muito projectados), e com os dois médios (André Santos e André André) a aparecer nas costas da linha média do Sporting. Assim, enquanto o Sporting tentava subir para pressionar, rapidamente via a bola ser colocada sobre a sua linha defensiva, havendo uma presença numérica várias vezes favorável ao Vitória, valendo ao Sporting o bom controlo sobre a acção de Maazou, que se apresentava aqui como elemento chave na ligação do jogo ofensivo da equipa de Rui Vitória. O Sporting sentiu algumas dificuldades também neste plano, mas foi conseguindo um melhor controlo do adversário com o decorrer do jogo, o que tem muito a ver com a forma como Maurício se foi sentindo cada vez mais confortável no duelo com Maazou.

Individualidades (Sporting) 
Rui Patrício - Um guarda-redes só pode actuar reactivamente, e Patrício respondeu sempre bem ao que lhe foi exigido. Sem reparos.

Cedric -  O Sporting forçou muito a entrada pelo seu corredor, sobretudo na primeira parte, o que explica a sua elevada presença no jogo ofensivo da equipa. Sem que a equipa tivesse tirado grande partido prático disso, deu sempre boa resposta individual ao seu envolvimento. Defensivamente, foi um jogo algo atípico, sendo menos chamado a intervir em duelos de 1x1, mas mais solicitado no controlo do jogo aéreo e a fechar em zonas interiores. Também nesse capítulo deu uma boa resposta. Tudo somado, foi o jogador com mais passes completados, com maior % de sequência em posse e também o protagonista da melhor situação do Sporting até ao golo. Sem ser uma exibição excepcional, terá sido provavelmente a unidade de maior rendimento da equipa neste jogo.

Jefferson - Não teve a mesma envolvência de Cedric, nem tão pouco a mesma eficácia nas suas acções. Acabou por ser o protagonista do canto que dá origem ao golo, o que disfarça uma exibição não muito conseguida.

E.Dier - Começou por ter, a meu ver, algumas responsabilidades na forma como se posicionou no lance que termina com a finalização de Maazou ao poste. Depois, e em termos defensivos, conseguiu um bom jogo, sendo uma presença útil na área e tirando partido da sua estatura num jogo de muitos duelos aéreos e trajectórias largas. Com bola, não foi um jogo onde se exigisse grande presença, mas mesmo assim voltou pontualmente a dar sinais de um critério muito questionável em posse, assumindo um risco pouco ajustado às suas características, nomeadamente tentando forçar o seu envolvimento ofensivo sem que apresente depois uma eficácia/qualidade que compense o risco que essas acções trazem para a equipa.

Maurício - Foi uma peça chave da equipa pela importância que tinha Maazou para o jogo ofensivo do Vitória, e pela presença dominadora que Maurício conseguiu nesse duelo. Com bola, teve um envolvimento reduzido para o que é normal (tem a ver com o tipo de jogo e não tanto com o jogador), embora mantendo uma boa eficácia e repetindo um critério lúcido e ajustado ao seu perfil.

William - Na primeira parte foi, diria, irreconhecível no seu envolvimento com bola, nomeadamente com uma (in)eficácia que não lhe é comum. Na segunda, e também porque a equipa se impôs mais colectivamente, conseguiu finalmente entrar num registo mais habitual, fazendo a equipa jogar e conseguindo também um melhor desempenho defensivo, tirando partido sobretudo da sua presença em termos posicionais para ganhar várias segundas bolas. Repito a ideia: o fundamental para William é que consiga manter o tipo de presença com bola, fazendo a equipa jogar e assumindo um critério ajustado à sua posição, ou seja privilegiando a segurança na circulação. Os holofotes trarão a tentação de tentar assumir maior protagonismo individual, introduzindo mais risco ao seu jogo. É bom, para seu bem e sobretudo da equipa, que saiba resistir.

Adrien - Com bola, jogou numa linha mais perto de William relativamente ao que é habitual, oferecendo uma presença mais útil para fazer a bola circular por fora do bloco do Vitória, do que propriamente por dentro deste. De resto, mais uma vez teve dificuldades em se impor com bola num jogo de maior dimensão física, acabando por registar um envolvimento em posse algo reduzido, e não conseguindo também fazer a diferença pela via criativa. É uma limitação que se repete. É a sua acção sem bola, porém, que justifica maiores elogios. Novamente com uma entrega notável, e também com uma capacidade de intervenção assinalável, destacando-se o número de duelos/intercepções que realizou, 17, sendo apenas superado por Maurício.

André Martins - É discutível que se diga que foi "médio". Jogou sempre a partir de um posicionamento profundo e descaído para a direita, tentando oferecer uma presença extra a esse corredor, quase como um avançado móvel, numa dinâmica que o Sporting forçou muito sobretudo na primeira parte. Repito o mesmo tipo de crítica que escrevi sobre a exibição de Adrien - e que nele também é recorrente - sendo que no caso de André Martins seja mais natural que a sua presença em posse seja mais reduzida e menos eficaz tendo em conta que se reservou mais para fases adiantadas do jogo ofensivo. Também é no capítulo defensivo onde mais elogios me parece justificar. Pela entrega e presença, ganhando inclusivamente alguns duelos aéreos. Também aqui, note-se, a sua presença posicional é mais próxima de um avançado do que de um médio, mas esse é um comportamento que não constitui novidade no modelo de Leonardo Jardim.

Carrillo - Assumiu grande protagonismo na primeira parte, conseguindo um bom envolvimento no corredor direito, apesar de uma ou outra decisão mais questionável. É verdade que não foi suficiente para aproximar verdadeiramente a equipa do golo, mas se alguém foi capaz de causar problemas ao extremo reduto do Vitória, na primeira parte, essa alguém foi Carrillo. Na segunda parte, começou à esquerda, depois voltou à direita e estava a perder eficácia e discernimento quando foi substituído.

Capel - Jogando à esquerda e com o jogo muito balanceado para a direita, acabou por ser um protagonista menor na primeira parte. Como não teve um grande envolvimento, restava-lhe ser capaz de acrescentar capacidade de desequilíbrio nas suas aparições no último terço, algo que também não conseguiu - nem ele, nem ninguém, diga-se.

Montero - Nestes jogos em que o Sporting tem mais dificuldade em assumir um domínio territorial do jogo, fazia falta uma presença mais forte no jogo aéreo, nomeadamente para oferecer outro potencial à construção longa. Montero não é esse jogador, como se viu agora, no Dragão ou na Luz. O seu envolvimento é muito bom, mas para isso é preciso que a bola lhe chegue no pé, e a sua dificuldade em aparecer tem a ver com os problemas da própria equipa no jogo. Apesar disso, ainda foi a tempo de ser protagonista no melhor lance de ataque da equipa, antes do golo.

Mané - Não conseguiu o protagonismo do jogo da Luz, e continua a não ser tempo suficiente para que se retirem grandes conclusões.

Salomão - É uma solução diferente dentro dos extremos do Sporting, que até me parece poder ser utilizado como elemento mais interior. Teve maior presença do que Mané, mas igualmente sem conseguir grande protagonismo.

Slimani - O futebol por vezes reserva-nos estes casos difíceis de explicar. Se noutras ocasiões até se pode destacar o mérito do seu jogo aéreo, desta vez trata-se de mera "fezada". Podia ter sido qualquer um dos outros 5/6 jogadores na área do Guimarães a beneficiar de um ressalto decisivo, mas foi Slimani, precisamente aquele que mais acreditava que isso lhe pudesse acontecer. É curioso, sem dúvida, mas será um erro retirar daqui ensinamentos ou conclusões. Noutro ponto, desta vez a sua entrada parecia-me fazer mais sentido do que noutras ocasiões. Não tanto por ele, mas pela implicação de libertar Montero no espaço entrelinhas, o que poderia ajudar a equipa a aproveitar mais o tal espaço que o Vitória tinha tendência a oferecer e que o Sporting nunca aproveitou. Também é verdade que essa seria sempre uma jogada de risco porque por outro lado o Sporting perderia presença numérica no meio-campo, e talvez por isso Jardim tenha tardado em tentar essa variante. Foi a minha leitura, mas o facto do Sporting ter chegado ao golo dentro desta estrutura não é suficiente para que se conclua sobre a sua validade em termos práticos. Tenho para mim que, no futebol, a cada golo sucede um sofisma. Um mau hábito que eu me esforçarei por não alimentar.

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21.11.13

Suécia - Portugal (II) - Análise individual

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Rui Patrício - Teve uma intervenção decisiva e sofreu dois golos, o que juntando a uma outra defesa importante na primeira mão, perfazendo uma eficácia de 50% nas ocasiões claras de golo que foram à baliza durante o playoff. Um aproveitamento positivo e dentro do que vem realizando no campeonato. A crítica, no entanto, surge no lance do segundo golo sueco, o livre de Ibrahimovic. Pessoalmente, parece-me que apesar de ser um remate violento e a uma curta distância, o guarda-redes poderia de facto ter feito melhor. Primeiro, porque reage mal, tentando chegar com a mão a uma bola baixa. Depois, porque se a barreira terá tido uma influência negativa, quem faz a barreira é precisamente o guarda-redes, sendo pouco perceptível o porquê do posicionamento de Moutinho uma vez que não há na sua zona qualquer adversário. Aliás, este é o terceiro golo sofrido de livre directo por Rui Patrício num espaço de tempo muito curto, e se esta estatística dificilmente se pode prolongará, também é verdade que justifica alguma reflexão. Por exemplo, no caso do golo sofrido no livre Cardozo, também me parece que o facto da barreira ter saltado foi uma má decisão, pouco ajustada ao perfil do marcador, que raramente opta por bater em jeito. Enfim, situações a corrigir...

João Pereira - Fez, a meu ver, o seu melhor jogo ao serviço da Selecção, e terá sido provavelmente a exibição mais subestimada em termos de mediáticos. Defensivamente, quase sempre bem posicionado, tal como no primeiro jogo aliás, o que lhe valeu algumas intercepções importantes já dentro da área. Aliás, só foi batido por Pepe no número de intercepções/duelos ganhos, o que é notável para um jogador com as suas características e num jogo onde o plano físico era tão relevante. Depois, em posse, foi "apenas" o segundo jogador mais influente, apenas superado por Moutinho. Realce, aqui, para a sua importância no inicio da transição, tendo completado 10 passes nesse momento táctico do jogo (mais uma vez, só Moutinho o superou, com 14). Finalmente, esteve envolvido nas 2 principais ocasiões da equipa na primeira parte, cruzando para uma finalização de Ronaldo e lançando ainda o mesmo Ronaldo no lance que seria mal concluído por Hugo Almeida.

Fábio Coentrão - Não dá para dizer que fez um mau jogo, mas se na primeira mão havia estado mais discreto do que é hábito, desta vez ter-se-ão notado ainda mais as suas limitações físicas. Alguma dificuldade nos duelos e mesmo no envolvimento em posse, raramente projectando-se na profundidade, abdicando de um espaço e de um movimento que normalmente faz dele uma arma ofensiva importante.

Pepe - Foi o jogador mais interventivo em termos defensivos, sendo dominador como é normalmente em todos os capítulos do jogo. No entanto, e sem que lhe possam ser apontados reparos de maior, também não foi um jogo onde tivesse conseguido um protagonismo excepcional, tendo em conta aquilo que normalmente consegue, que é quase sempre muito.

Bruno Alves - A sua exibição fica naturalmente marcada pela forma como abordou o lance do primeiro golo. Deixou-se envolver no confronto físico com Ibrahimovic e esqueceu a trajectória da bola, acabando por ficar no chão a ver o seu adversário cabecear. De resto, teve uma prestação positiva, sem que tivesse sido tão dominadora como no primeiro jogo, ganhando uns duelos e perdendo também outros. Foi dele o primeiro aviso, num lance onde era praticamente impossível fazer melhor.

Veloso - A meu ver, a avaliação dos médios defensivos é geralmente pouco rigorosa em muitos aspectos e parece-me que Veloso poderá estar a ganhar com isso, porque vem tendo prestações pouco conseguidas em diversas áreas. Se no primeiro jogo havia conseguido alguma eficácia na missão específica de auxiliar os centrais na neutralização de Ibrahimovic, desta vez isso não foi minimamente repetido. Teve dificuldades sempre que Ibra baixou e cometeu ainda um erro potencialmente decisivo no inicio da segunda parte. No total, conseguiu apenas 9 acções defensivas, o que é quase ridículo para quem joga na sua posição e num jogo deste tipo. Depois, a sua presença em posse voltou a ser também muito escassa, completando por exemplo menos de metade dos passes de Moutinho. É verdade que está normalmente bem posicionado e que tem reconhecidamente uma notável capacidade técnica, mas isso por si só parece-me de todo insuficiente, sendo preciso muito mais eficácia nas acções defensivas e também muito mais capacidade de envolvimento em posse. De que adianta estar bem posicionado se não se neutralizam as jogadas que entram na sua zona? De que adianta ter boa capacidade de passe, se não é capaz de se envolver no jogo?

Meireles - Não será um caso tão flagrante como o de Veloso, embora em termos mediáticos seja sempre mais destacado, mas é mais um jogador com grandes dificuldades em se impor no jogo. Tem boas aparições, claro, porque tem muita qualidade, mas a sua influência é muito descontinuada, sobretudo por não se conseguir envolver mais em posse. É um dos casos - com Coentrão, Veloso e Nani - cuja recuperação do momento ideal de forma me parece decisivo para que Portugal possa realisticamente sonhar com um Mundial ao nível do Europeu que fez.

Moutinho - A disparidade exibicional é de tal ordem que fica a dúvida se é ele que é tão extraordinário ou se são os outros dois médios que estão mesmo num momento tão mau. O seu nível de envolvimento e capacidade de intervenção defensiva não têm nada a ver com as de Veloso e Meireles. É verdade que Moutinho tem uma posição diferente - e que não é nova, assinale-se - nomeadamente sem bola, começando a defender em zonas mais adiantadas, mas isso até devia ser uma limitação, porque é muito mais difícil ser-se interventivo defensivamente jogando aí do que em zonas mais baixas e densas, onde estiveram Meireles e sobretudo Veloso. O facto é que Moutinho, sozinho, completou mais passes do que os outros dois médios, juntos, e praticamente conseguiu a mesmo protagonismo ao nível das intervenções defensivas, comparando com o somatório de Veloso e Meireles. Não é normal. Depois, claro, o que todos vimos, com dois passes decisivos. Ambos são bons, mas penso que o do terceiro golo é especialmente bem conseguido. Enfim, tudo somado, lavou a face do meio campo português, com uma grande exibição, também uma das melhores de sempre ao serviço da Selecção.

Nani - Defensivamente teve um papel meritório, conseguindo também ele uma boa capacidade de intervenção defensiva, embora não isenta de erros em algumas abordagens. Não dá, igualmente, para dizer que tivesse comprometido a equipa com bola, mesmo se se identificaram alguns lances onde a sua decisão não terá sido a melhor. Mas... Nani não é só isto! Nani é - e esperemos que o volte a ser - um jogador criativo, com uma grande capacidade de desequilíbrio e que normalmente quando lhe dão espaço torna-se num protagonista quase inevitável dos jogos. É esse jogador que faz hoje muita falta a esta equipa e que acentua ainda mais a dependência de Ronaldo na capacidade de desequilíbrio da Selecção. Não foi capaz de se envolver numa única ocasião clara de golo da equipa nestes dois jogos, o que é preocupante.

Ronaldo - Todos viram, todos estão fartos de falar, e por isso é redundante escrever seja o que for sobre o mérito, importância e excelência da sua exibição. A sua melhor de sempre pela Selecção? É possível, sobrando-me apenas a dúvida perante o jogo frente à Holanda, no Euro'2012. Uma nota apenas sobre Ronaldo: diz-se que tem muitas dificuldades quando não tem espaço. É verdade que Ronaldo se torna praticamente imbatível quando tem espaço, mas isso é uma característica comum a todos os desequilibradores. Conhecem algum desequilibrador que não sinta mais dificuldades quando não tem espaço? Eu não. Passar desta trivialidade à conclusão de que Ronaldo não rende quando não tem espaço é, normalmente, um instante. Um instante e um sofisma facilmente desmontável. Porque nem Ronaldo, nem nenhum desequilibrador sobrevive em equipas "grandes" se só render com espaço. Porque as equipas "grandes" passam a esmagadora maioria do tempo a jogar perante equipas fechadas, cujo objectivo principal é precisamente reduzir o espaço, e não a actuar em transição ou contra-ataque, como tantas vezes é sugerido. Portanto, Ronaldo não é um grande jogador por ser bom quando lhe dão espaço. É um grande jogador porque é bom - invulgarmente bom! - em todas as circunstâncias de jogo, sendo que - trivialmente, repito - quando tem espaço torna-se ainda mais fácil para ele desequilibrar. E isto é tanto válido para Ronaldo, como para Messi, Neymar, Bale, Ribery, Robben, Hazard, etc etc. Todos eles são muito mais perigosos com espaço, mas todos eles só são o que são, e estão onde estão, por serem extraordinários em todos os momentos tácticos do jogo. Por isso, esta conversa do espaço e do rendimento de Ronaldo não me parece mais do que uma "lapalissada", afinal algo comum em muitas conversas sobre futebol.

Hugo Almeida - Começo por falar da sua inclusão. Parece-me acertada a escolha, porque me parece que este seria um jogo onde Postiga previsivelmente não encaixaria (recordo, por exemplo, as dificuldade que teve em Copenhaga, no apuramento para o Euro'2012). Já tinha abordado isto na última análise, mas o posicionamento de Hugo Almeida não é normalmente idêntico ao de Postiga, havendo uma relação mais directa com Ronaldo, com Hugo Almeida a apresentar-se várias vezes sobre a esquerda, onde tem uma presença defensiva inclusivamente mais intensa do que o capitão da Selecção. Penso que foi nisso que Paulo Bento pensou e, também, na circunstância de Portugal ir previsivelmente construir de forma longa em caso de pressing sueco, sendo que o desempenho de Hugo Almeida e Postiga é obviamente muito diferente na resposta a este recurso. As bolas paradas, que é normalmente o aspecto mais comentado, é na minha leitura apenas um terceiro factor para esta opção.
No que respeita à sua exibição, digamos que assistência lhe salvou a face, porque se a aposta me parece acertada do ponto de vista estratégico, o desempenho de Hugo Almeida esteve longe de ser o melhor. Sentiu dificuldades no desempenho técnico (sobretudo nos primeiros minutos, tornando-se mais regular no decorrer do jogo), mas é noutros aspectos que mais merece reparo. Primeiro, claro, o trauma da baliza, com mais um golo incrível desperdiçado e que provavelmente (digo eu...) não o falharia com a camisola do Besiktas. Depois, os fora-de-jogo. Já escrevi que tem uma relação quase autista com esta regra do jogo, e parece-me absurdo que não corrija alguns dos seus comportamentos, tão flagrantes neste particular. Para fazer golos, reconheço, pode não ser tão fácil recuperar a confiança, mas para evitar ser apanhado em tantas situações de fora-de-jogo basta estar um pouco mais concentrado.

Antunes - Não entrou, de facto, numa altura fácil. Acabou por cumprir com regularidade e eficácia o seu papel, e no fim ainda lançou aquilo que foi o "quase-poker" de Ronaldo.

William - Entrou bem, para uma missão muito posicional, e conseguiu em pouco tempo fazer bem melhor do que Veloso. Aliás, se Veloso mantiver o andamento, é mais do que natural que acabe por justificar a titularidade. Agora, isto não serve também para que saltemos logo para o extremo oposto e concluirmos que teve uma acção extraordinária no jogo. Era lhe pedida uma função especifica e ele cumpriu-a bem, sendo que é importante também notar que do ponto de vista do posicionamento táctico colectivo não houve alterações relevantes com a sua entrada.

Ricardo Costa - A sua entrada fez bem à equipa, oferecendo-lhe melhor equilíbrio táctico perante a natureza do jogo e do adversário. Talvez tenha a ver também com o esvaziar do balão de esperança sueco, após o 2-3, mas a verdade é que me pareceu resultar. E aqui, até nem atribuo grande mérito individual ao jogador, sem tempo suficiente para grandes feitos.

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20.11.13

Suécia - Portugal (I): Aspectos tácticos

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O declive táctico da 2ª parte - Não me entendam mal! O que se passou na 2ªparte do jogo de Estocolmo foi algo épico, que certamente ficará gravado na memória de quem o viu, e assim o é pela emoção que o jogo transmitiu nesse período. O campo emocional, repito, é o ponto dominante deste desporto, aquele que explica a sua dimensão de fenómeno social e também grande parte do que se passa dentro do campo. Porque não é esse o foco deste espaço, "salto" um pouco esse avassalador lado emocional do jogo, mas não quer isso dizer que o ignore. Porque não é possível perceber verdadeiramente o jogo sem primeiro o sentir.

Enfim, cometendo então a afronta de "saltar" o lado emocional do jogo, parece-me também de grande interesse perceber, do ponto de vista táctico, o que esteve por detrás de tanta agitação num período tão curto e que paradoxalmente surgiu na sequência de 135 minutos de grande conservadorismo táctico. Para quem gosta de analisar o lado táctico do jogo, não há nada melhor do que estas roturas com o que é convencional, e que nos oferecem a possibilidade de observar, ainda que por alguns minutos, cenários várias vezes teorizados mas que raramente há coragem para os experimentar.

Comecemos pelo lado sueco, que foi quem teve a iniciativa. Na 2ªparte a Suécia passou a fixar praticamente os extremos sobre a linha defensiva portuguesa, o que juntando aos dois avançados (Elmander mais fixo e Zlatan mais móvel) obrigou Portugal a fixar praticamente 5 unidades sem capacidade de intervenção interior. A primeira implicação disto foi o jogo partido e, muito importante, a criação de mais espaço para jogar nas primeiras fases do jogo ofensivo sueco. Depois, a Suécia projectou os laterais ofensivamente, tentando dar largura a um jogo que visava sempre fazer chegar a bola à zona de finalização através de cruzamentos largos. Ou seja, para se aventurar no resgate da qualificação, a Suécia passou a ter apenas 3-4 jogadores em condição de reagir à perda de bola, sendo que assumiu sempre apenas 2 elementos na última linha desta estrutura de equilíbrio.

Não menos interessante é ver o que fez Portugal. A equipa portuguesa não alterou praticamente nada relativamente à sua intenção inicial. É verdade que foi empurrada para junto da sua área e também que com bola deixou de ser capaz de circular perante a pressão impulsiva dos suecos (um aspecto a merecer critica, mas que não vou abordar aqui), mas isso aconteceu sobretudo por imposição do seu adversário e não por uma cedência deliberada. É que Portugal manteve a intenção de pressionar a primeira fase de construção sueca praticamente a todo o campo, o que contribuiu para o espaço criado na zona intermédia, e manteve também a sua estratégia defensiva com Ronaldo à esquerda, mais ou menos a fazer de conta que defendia o lateral sueco mas verdadeiramente à espera pela oportunidade da transição.

Tenho dúvidas que esta tivesse sido a melhor forma de reagir ao novo cenário no jogo, sobretudo depois do 0-1. Do ponto de vista defensivo, talvez fosse mais recomendável utilizar linhas mais juntas, mesmo que para isso tivesse de assumir um bloco mais baixo, tentando depois sair em contra-ataque, possivelmente deixando Ronaldo sozinho na frente. De resto, Portugal conseguiu um equilíbrio muito melhor em termos defensivos após a entrada de Ricardo Costa, sendo também certo que nunca saberemos exactamente qual o peso que teve o facto de este ter entrado quando o jogo já estava em 2-3 e com o capital de entusiasmo sueco completamente esfumado.

É verdade que a Suécia não criou muitas ocasiões para construir os seus golos e que estes surgiram de bola parada, mas também o é que nesse período Portugal teve muitas dificuldades para controlar o assalto ofensivo adversário, tanto pelo menor ajuste posicional defensivo, como também pelo controlo que não conseguiu fazer do jogo com bola. Por outro lado, é claro, os golos de Portugal surgem todos com Ronaldo a aproveitar as costas do lateral no momento de transição, algo que tem a ver com a qualidade excepcional do extremo mas também com a estratégia que Paulo Bento define ao assumir deliberadamente o risco de manter Ronaldo como falso defensor.

O conservadorismo no onze - Um dos aspectos mais usados para criticar Paulo Bento tem sido a sua repetição do onze inicial, quase como se não existissem mais soluções. Confesso que me parecem absolutamente forçadas essas críticas. Primeiro, porque de facto, e mesmo nas posições de menor rendimento, é bastante discutível se, no campo estritamente individual, haverá melhores soluções disponíveis. Depois, porque não se pode tratar a Selecção como uma espécie de 'fantasy league' ou 'equipa da semana', em que se escolhe o melhor onze do momento. A equipa portuguesa tem - felizmente! - uma ideia de jogo que vem do Euro'2012 e que dificilmente pode ser trabalhada durante o período de qualificação. Parece-me, por isso, lógico que haja alguma relutância em lançar impulsivamente unidades com pouco tempo de trabalho na Selecção. Paulo Bento, na minha leitura, deu a oportunidade a alguns jogadores durante o trajecto da qualificação, como Vieirinha, Micael ou Neto, mas por motivos diferentes todos eles não foram capazes de agarrar esse estatuto. Em parte, isso revela o grande problema por detrás desta discussão que é falta de soluções de qualidade que neste momento existe na Selecção. Seguir-se-á agora um período diferente, em que se poderá trabalhar mais os aspectos colectivos e incluir aí novos protagonistas. Se em Junho, tudo estiver na mesma havendo unidades a justificar outra oportunidade, aí sim, as críticas poderão fazer mais sentido.

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18.11.13

Portugal - Suécia (III) - análise de jogadas

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5' - A primeira ocasião portuguesa no jogo. Infelizmente, foi um tipo de solução pouco explorada durante o jogo, onde se sucederam os cruzamentos perante uma equipa sueca quase sempre bem posicionada. É claro que não é evidente conseguir ser bem sucedido entrando apenas pelo corredor central, muito poucas equipas o conseguem fazer com eficácia constante e seria falacioso da minha parte estar a usar 1 lance isolado para defender o contrário. Aliás, o sucesso deste movimento só é possível por uma série de factores dificilmente conciliáveis: 1) O facto de ser Ronaldo quem inicia a jogada, o que aumenta a preocupação do jogador que está a fazer a cobertura e liberta Meireles. 2) a qualidade e apetência de Meireles para este tipo de jogada, antecipando a oportunidade (inclusivamente pedindo a bola) e executando de primeira. 3) o movimento de rotura de Moutinho, que acaba por ter um timing perfeito com tudo o resto, algo que é muito difícil de repetir intensionalmente.
Ainda que este lance deva ser usado com alguma cautela, parece-me claro que Portugal poderia e deveria ter envolvido mais o seu jogo no último terço, criando dificuldades de posicionamento à linha defensiva sueca e não se limitando a cruzar repetidamente, como quase sempre sucedeu.

6' - Talvez a melhor ocasião da Suécia, numa jogada que resulta, primeiro, do risco natural de quem tenta pressionar para recuperar a bola e não o consegue e, depois, do problema mais fácil de identificar na equipa portuguesa: o controlo do lateral que joga do lado de Ronaldo. Aqui, é preciso notar que a ausência de acompanhamento de Ronaldo é intencional na equipa portuguesa, por forma a potenciar depois a sua qualidade no momento de transição. Portugal consegue colmatar essa ausência de forma razoável em situações em que a bola entra directamente nesse corredor, porque a linha média consegue ajustar o seu posicionamento e fechar junto de Coentrão. O problema torna-se quase sempre mais grave quando a bola entra primeiro no corredor oposto, fazendo a equipa portuguesa 'bascular' para esse lado, e circulando depois para o corredor oposto, aproveitando o espaço criado nas costas de Ronaldo. Algo que, por exemplo, a Dinamarca soube aproveitar muito bem no Euro'2012 e que a meu ver deve ser trabalhado futuramente (no tempo que Portugal irá ter antes do Mundial, caso se qualifique). Talvez deva ser pedido a Ronaldo outra resposta defensiva em situações deste tipo, onde previsivelmente é mais difícil aos médios fechar no seu corredor.

29' - Uma jogada semelhante à primeira aqui abordada, embora com muito menos probabilidade de sucesso. A nota aqui vai para o instinto dos dois protagonistas da jogada, Meireles e Ronaldo. Meireles, de novo, a revelar a rapidez com que antecipa este tipo de movimento, recebendo e executando imediatamente. É uma qualidade importante no médio porque este tipo de movimento tem geralmente muito potencial uma vez que a linha defensiva está normalmente a ajustar-se posicionalmente à circulação lateral da bola e não necessariamente a controlar a profundidade. Mais à frente, também Ronaldo antecipa a oportunidade, posicionando-se para o movimento de rotura mesmo antes da bola chegar a Meireles. Os jogadores não têm muitas oportunidades por acaso, e Ronaldo tem-nas fundamentalmente porque, para além do capítulo técnico, é também muito forte a movimentar-se sem bola. Aqui, o sucesso acaba por não acontecer porque a linha defensiva sueca se expôs pouco e não cometeu o erro de se adiantar muito numa situação em que a linha média não tinha condições para pressionar o portador da bola.

49' - Uma das melhores ocasiões de Portugal no jogo, num cruzamento que até nem acontece numa posição muito favorável mas que conta com o detalhe de ser antecedido por uma mudança de corredor. Este facto explica a menor preparação da linha defensiva sueca para a resposta a este lance, mesmo tendo uma forte presença numérica dentro da área. Mais uma vez, reforço a ideia sobre a importância de não tornar previsível a situação do cruzamento, o que pode ser decisivo mesmo perante uma grande presença numérica do adversário.

62' - Mais uma excepção áquilo que foi a regra do jogo português no último terço, desta vez com uma penetração interior que resulta da opção de circular por dentro em vez de forçar o cruzamento a partir do corredor lateral. Ainda para mais, parece-me que Portugal tem vários jogadores fortes neste tipo de movimento, quer ao nível do passe, quer ao nível das movimentações de rotura.

82' - O grande destaque no golo português é, a meu ver, a acção de Hugo Almeida e Veloso. Não há nenhum golpe de génio escondido nisto, apenas a simplicidade trivial da rapidez com que ambos reagiram ao lançamento lateral. Sobretudo Hugo Almeida, que sai inclusivamente da zona onde era mais expectável ele estar para criar uma vantagem instantânea no corredor lateral. O facto de se reagir mais rápido em situações "mortas", como lançamentos laterais, faltas ou mesmo pontapés de baliza pode transformar um lance aparentemente inocente em vantagens potencialmente decisivas num jogo que se define tantas e tantas vezes nos pormenores. É também por aqui que se mede a "intensidade" com que os jogadores estão no jogo, e se Portugal construiu esta jogada foi precisamente por se ter mantido intenso no jogo.

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17.11.13

Portugal - Suécia (II): Análise individual

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Rui Patrício - Não se pode dizer que tenha sido uma grande exibição perante tão pouco trabalho, mas não é preciso fazer um grande exercício de memória para ter exemplos de como pode ser importante ser o papel do guarda-redes mesmo em jogos deste tipo. Depois do deslize frente a Israel (cujas implicações nunca saberemos quantificar), respondeu de forma competente, inclusivamente com uma defesa importante.

João Pereira - Portugal encontrou nele, e na facilidade com que o conseguia fazer entrar em jogo, uma solução evidente e muito solicitada no seu jogo ofensivo. João Pereira esteve bem até ao momento da definição, com uma série de cruzamentos perdidos, o que não é novidade porque não é um jogador especialmente eficaz na exploração desse recurso. Aqui, a principal critica vai para o critério de decisão no último terço, porque Portugal ganhou normalmente mais quando a sua opção passou por tentar o envolvimento interior em vez do cruzamento. E ele é bastante mais forte no envolvimento interior. Defensivamente, muito bem em termos posicionais, mantendo-se próximo dos centrais de forma a garantir maior presença na resposta às segundas bolas.

Coentrão - Com um envolvimento menos continuado do que João Pereira, relativamente à influência no último terço. Acabou, por outro lado, por ter maior participação na fase de construção, onde foi regular na resposta que deu. Defensivamente também não foi tão interventivo quanto o lateral do lado oposto. Normalmente imprime maior intensidade ao corredor, mas provavelmente por limitações físicas, esse protagonismo foi desta vez mais intermitente.

Bruno Alves - É possível que tenha festejado o sorteio, porque é frente a estes adversários que invariavelmente melhor se dá. Jogo aéreo, trajectórias longas e sem o incómodo de ter de controlar jogador mais ágeis e rápidos do que ele. O resultado foi, outra vez, um grande jogo, onde para além dos inúmeros duelos que venceu ainda acrescentou a sua competência na execução técnica, com uma boa presença na primeira fase de construção e um cruzamento que por pouco não deu em golo.

Pepe - Não fez um jogo tão bom como Bruno Alves, mas não andou longe. Aliás, se para o seu companheiro de defesa é decisivo o tipo de adversário que encontra, para Pepe é mais ou menos indiferente. Consegue impor-se perante qualquer estilo, provavelmente como poucos centrais do futebol actual, e mais uma vez o mostrou.

Veloso - Acabou por ser decisivo ofensivamente, com o cruzamento para o golo de Ronaldo. No entanto, não foi no capítulo ofensivo que mais se evidenciou ao longo do jogo. Pelo contrário. Sem bola, teve um papel importante, quer no mais tradicional equilíbrio posicional em posse, quer - e sobretudo - na missão mais específica de se aproximar dos centrais de forma a ajudar a controlar o jogo directo dos suecos. Um posicionamento que normalmente não é o seu, mas que o foi desta vez por motivos estratégicos e que produziu grandes resultados colectivos. Com bola, por outro lado, deixou-se eclipsar por Elmander (como mostram os seus números de participação em posse, de resto), cujo objectivo era neutralizar a acção do pivot português. Não é a primeira vez que isto acontece, e se Veloso pode acrescentar bastante ao jogo em termos de desempenho técnico, também é verdade que se torna muito fácil neutralizá-lo.

Meireles - Também não foi das suas melhores exibições, apesar do contributo positivo em vários aspectos. Não apareceu muito no jogo, cedendo maior protagonismo para Moutinho, o que não é incomum. Talvez a maior critica vá para a ausência de envolvimento nos corredores laterais, particularmente à esquerda onde se espera que abra mais vezes, dando apoio a Coentrão e permitindo que Ronaldo se integre em zonas interiores. Não aconteceu. Por outro lado, tem sempre um excelente instinto relativamente aos passes de rotura, sendo célere a perceber a oportunidade de explorar a profundidade a partir do corredor central, quando a linha defensiva contrária está a subir. Foi assim, por exemplo, que isolou Moutinho para a primeira oportunidade do jogo.

Moutinho - Começou por ser o protagonista da primeira ocasião portuguesa, num papel de finalizador que foi sempre o seu ponto mais débil. Depois assumiu o protagonismo habitual, sendo o médio mais influente no jogo e estando competente em praticamente todos os domínios do jogo. Ainda assim, há que destacar o seu constante envolvimento sobre o corredor direito, onde também ele deixou a desejar em termos de decisão no último terço, optando demasiadas vezes por forçar o cruzamento perante uma defensiva sueca invariavelmente preparada para responder a essa alternativa.

Nani - É um jogador irreconhecível, parecendo não ser capaz de extrair o potencial que se escondeu na sombra de um horrível momento de confiança - provavelmente o pior da carreira. O melhor, a meu ver, seria simplificar o mais possível e deixar que a confiança se fosse instalando aos poucos, mas estará provavelmente demasiado ansioso em fazer bem para que tenha essa paciência. Possivelmente também não terá ajudado uma presença posicional errática, demasiado tempo escondido do jogo e demasiado tempo fora do seu corredor habitual, do lado direito. É preocupante porque não há alternativa para a qualidade que pode acrescentar.

Ronaldo - Foi o herói do jogo e por pouco não foi mesmo suficiente para deixar tudo muito próximo de estar resolvido. Mas não foi um grande jogo para o seu patamar exibicional. Pareceu ansioso em intervir no jogo, e a própria equipa em solicitá-lo. Não é um bom sinal, até porque raramente algo forçado produz os mesmos resultados do que quando acontece naturalmente. A sua mobilidade é uma mais valia e deve ser potenciada, mas não ao ponto de se abdicar da ordem colectiva ou de o retirar da zona de definição, como por vezes aconteceu. Mas, lá está, há jogadores e jogadores, e para Ronaldo um dia menos bom não deixa de ser um dia onde consegue ser decisivo.

Postiga - Com Paulo Bento encontrou constância na sua utilidade na Selecção. Curiosamente, não dentro do perfil que durante tanto tempo lhe atribuíram, mas fundamentalmente como elemento de finalização, já que a sua participação nas restantes fases do jogo é invariavelmente escassa. Como é um bom executante, tem conseguido um bom aproveitamento das ocasiões de que vem desfrutando. O problema é que nem sempre lhe é fácil encontrar ocasiões e desta vez teve apenas uma, na sequência de um pontapé de canto. 

Hugo Almeida - Tem um perfil normalmente diferente do de Postiga, oferecendo maior dinâmica ao jogo ofensivo da equipa, nomeadamente por trocar várias vezes de lugar com Ronaldo. Algo que acabou por ser decisivo neste caso, já que foi com ele à esquerda e Ronaldo ao meio que Portugal construiu as suas melhores ocasiões. Paradoxalmente, o grande problema de Hugo Almeida tem sido a resposta na sua zona natural, onde para além de ter uma eficiência significativamente inferior à de Postiga revela alguma relação quase autista com a regra do fora-de-jogo.

Josué - Entrou para o lugar de Meireles e assumiu uma presença mais constante na primeira fase de construção, envolvendo-se menos nas dinâmicas em fases mais ofensivas do jogo. Algo que se pode considerar normal face ao pouco tempo que tem na equipa. Surge como mais uma solução para uma posição onde a meu ver não abundam alternativas de grande qualidade no futebol português actual. Estará nele a resposta? Até é possível que assim venha a ser, mas não sou da opinião de que já o seja.

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16.11.13

Portugal - Suécia (I): Aspectos Colectivos

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O melhor de Portugal - Concentração, controlo e a abordagem estratégica defensiva. Não que a Suécia tivesse ficado completamente em branco em termos de oportunidades para marcar, mas mesmo considerando essas excepções foi muito boa a resposta portuguesa no controlo do adversário. Em particular, sublinhar o enfoque estratégico no controlo do jogo directo, com a preocupação de aproximar os laterais dos centrais nas reposições longas e de manter o pivot (Veloso) mais próximo dos centrais, relativamente ao que é costume. Naturalmente, o sucesso do desempenho português neste particular tem muito a ver com a eficácia dos jogadores, e aí há que destacar a forma como mantiveram os níveis de concentração ao longo dos 90', e também a qualidade de jogadores como Pepe e Bruno Alves na resposta aos duelos aéreos. Também nota para o controlo da transição defensiva, onde o bom desempenho português já é mais habitual e não necessitou de uma abordagem estratégica tão específica. Sem sofrer, também fica mais fácil ganhar.

O pior de Portugal - Falta de lucidez no último terço. Paulo Bento lamentou-se - e vem-se lamentando - da falta de eficácia face ao domínio territorial que a equipa exerce. O facto é que a esse domínio não vem correspondendo um grande volume de ocasiões claras de golo. Sobretudo, e a meu ver, há que reflectir sobre a forma como a equipa decidiu no último terço. Portugal encontrou com grande facilidade espaço para progredir no corredor direito, aproveitando a projecção de João Pereira nas costas do extremo sueco. O problema é que, depois, se limitou a embater contra o muro sueco, que é como quem diz, a cruzar para uma zona onde os suecos estavam invariavelmente bem posicionados. E aqui, há que realçar também o mérito do adversário, que de facto se posicionou quase sempre bem para a resposta a este tipo de lance. Do lado português, a minha critica vai para a pouca tendência para trabalhar mais o jogo ofensivo, optando por tentar entrar através de combinações interiores, ou tentando desfazer o posicionamento da defesa antes do cruzamento. João Pereira e João Moutinho serão os principais visados aqui, já que foram os jogadores que mais forçaram cruzamentos em situações menos favoráveis, para mais qualquer dos dois esteve pouco feliz no desempenho técnico dos cruzamentos, o que também ajuda ao insucesso. Outra nota critica para o jogo ofensivo português vai para as movimentações de Meireles, Nani e Ronaldo. Meireles por não ter integrado a habitual dinâmica ao longo do corredor esquerdo, isolando em demasia Coentrão. Nani por ter andado sempre distante da direita, acabando por contribuir muito pouco para a capacidade criativa da equipa. Ronaldo por alguma ansiedade em intervir no jogo, acabando por forçar alguns movimentos pouco coerentes para ordem colectiva e, sobretudo, que o distanciavam excessivamente da zona de finalização. Nesse sentido, acabou por ser positiva a entrada de Hugo Almeida, já que foi com Almeida à esquerda e Ronaldo no centro que Portugal conseguiu as suas melhores ocasiões e, inclusivamente, o golo.

E agora? - A vitória foi muito importante, 1-0 é um bom resultado, mas tudo está, obviamente, longe de estar resolvido. A questão que coloco é que diferenças poderá acrescentar a Suécia no segundo jogo? Não conhecendo bem a equipa nórdica, é-me difícil responder convictamente a essa questão. Se repetir a insistência quase exclusiva no jogo directo, as hipóteses portuguesas são boas, já que a equipa parece muito bem preparada para responder a essa solução. Também é certo que a equipa sueca acabará por assumir outros riscos no jogo, o que trará a Portugal mais ameaças mas também a possibilidade de ter o espaço que lhe faltou nesta primeira mão. Apesar de tudo, e por aquilo que conheço da mentalidade nórdica, não me parece provável que assuma grande exposição desde o primeiro minuto, talvez esperando pela segunda parte para o fazer. No meio de todas estas incertezas, há pelo menos uma coisa que para mim é muito clara e tem a ver com a abordagem mental da equipa sueca, jogando perante o seu público. No passado recente, tivemos jogos muito complicados em terras nórdicas, nomeadamente na Noruega e na Dinamarca, onde nos demos muito mal com a intensidade do jogo adversário e onde o factor casa acabou por ter um peso muito relevante no desempenho das equipas. Não tenho dúvidas de que essas condições se vão repetir, mas esperemos que desta vez possamos ter também outra resposta da equipa portuguesa.

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14.11.13

Benfica: São os cruzamentos, estúpido!

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Começo por sublinhar que o título nem tem destinatário concreto, nem muito menos pretende ser insultuoso para quem quer que seja. A ideia é apenas recuperar a famosa frase de Bill Clinton, adaptando-a ao recente problema do Benfica.
Que há algo de estranho no registo defensivo do Benfica, já o percebemos há muito tempo. Particularmente, o problema da estrondosa eficácia dos seus adversários, é algo que já venho destacando desde a pré temporada. Recentemente, ganhou notoriedade o problema das bolas paradas, que como já escrevi estará possivelmente a ser sobrevalorizado. Uma análise comparativa com os rivais, aliás, desmente que o Benfica sofra proporcionalmente muito mais golos de bola parada do que Porto e Sporting. O problema, no caso do Benfica, está mais na forma como foi sucessivamente batido em pontapés de canto e de uma forma directa (isto é com finalização após o primeiro cruzamento), e não nas bolas paradas como um todo.

Mas, se nos distanciarmos da origem da jogada e nos concentrarmos apenas na origem da finalização, numa análise que separa remates, situações de 1x1 com o guarda-redes, cruzamentos e penáltis, aí sim chegamos a um valor verdadeiramente desproporcionado no registo defensivo do Benfica, quando comparado com os seus rivais. Os cruzamentos! 11 dos 15 golos tiveram origem em cruzamentos, sendo que aqui estão incluídos os 6 de bola parada. O que também emerge desta análise é o extraordinário aproveitamento dos adversários do Benfica quando conseguem finalizar por esta via. 11 das 16 ocasiões terminaram em golo, sendo que Artur apenas por 1 vez (frente ao Anderlecht) conseguiu impedir um golo numa ocasião clara finalizada após cruzamento. Se compararmos com os guarda-redes dos rivais, Patrício e Hélton já conseguiram 3 defesas cada, em ocasiões de golo finalizadas após cruzamento, sendo que ambos também partilham o número de golos sofridos por esta via, 4. Para concluir a análise, de referir que já na pré época, e nos 8 jogos analisados, o Benfica havia sofrido 8 dos 13 golos na sequência de cruzamentos. O que, tudo somado, talvez já seja mesmo demasiada coincidência...

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