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Sporting - Porto: opinião

- Ficou a zeros e, não sendo um jogo mal jogado, foi um jogo que ficou um pouco aquém das expectativas. Pelo menos para as minhas. O equilíbrio foi a nota dominante, tanto no empate, como na proximidade no número de oportunidades, como em termos de domínio e presença territorial. O Sporting mais em organização, o Porto mais em transição, mas sempre com pouca diferença.

- Alguma estranheza, sobretudo do lado do Porto. Optou por uma abordagem pouco pressionante sobre a primeira fase de construção, permitindo que o Sporting, sobretudo por Polga, chegasse facilmente até à linha média antes de ter de definir o primeiro passe. Ora, é certo que Polga não é um jogador que se sinta muito confortável na condução em posse, mas é também certo que é um jogador forte na definição do passe, e o Sporting tirou partido disso na primeira parte, ligando facilmente o seu jogo pelo corredor esquerdo. Há aqui outro pormenor que me parece importante: permitir que Polga progredisse tanto espaço sem oposição obrigou o bloco portista a ir baixando no terreno, o que dificultou depois a presença pressionante no destinatário do primeiro passe do central.


- Outro detalhe sobre o jogo portista tem a ver com alguma tendência excessiva para verticalizar no momento da recuperação e, sobretudo, com a dificuldade de encontrar qualquer ligação útil à excepção de Hulk. Vitor Pereira reajustou o meio campo, dando outra característica à segunda parte, mas voltei a ficar com a sensação da maior utilidade de Defour no meio campo, sobretudo pela simplicidade do seu jogo e pela utilidade dos seus movimentos sem bola. Isto, claro, sem retirar daqui uma dose excessiva de conclusões, porque por muito tentador que seja fazê-lo, raramente o que vemos como resultado de substituições ou alterações dentro de um jogo tem um grande nível de relevância conclusiva.

- 3 notas individuais do lado do Porto: (1) Hulk no meio continua a dar sinais notáveis no que respeita à mobilidade e utilidade do seu jogo. Muito mais útil e consequente do que nas alas, onde tem muito mais tendência para para forçar o drible, e incomparavelmente mais útil do que qualquer 9 do nosso futebol. Por exemplo, comparando Hulk com Wolfswinkel, neste jogo, Hulk completou 28 passes contra apenas 9 do holandês, foi o terceiro mais interveniente em termos de posse ofensiva na sua equipa, enquanto Wolfswinkel foi o que menos interveio entre os titulares do Sporting (para contextualizar, é normal que o ponta de lança seja o menos interventivo, o que não é normal é a utilidade que Hulk acrescenta a partir dessa posição). Que não haja grande complementaridade com os seus movimentos, estou de acordo, mas isso não tem nada que ver com qualquer desajuste ou subrendimento do 12 nesta posição, pelo contrário. (2) Djalma, um pouco na continuação do que escrevi sobre Hulk, não parece poder fazer muita falta ao Porto. Aliás, será uma oportunidade para tentar integrar outro jogador que ofereça mais à equipa em termos ofensivos. É um jogador capaz tecnicamente, muito forte fisicamente e com excelente capacidade de trabalho (até se pode imaginar uma tentativa de adaptação a lateral), mas a sua produtividade neste período em que foi titular foi manifestamente insuficiente para as exigências do Porto. (3) Otamendi... impressionante a sua capacidade de antecipar e intervir no espaço. O Sporting sentiu-se tentado a forçar o duelo entre Wolfswinkel e o argentino, mas Otamendi dominou completamente o avançado do Sporting. Continuo a ver como um erro enorme que se forcem duelos com Otamendi em vez de Rolando, seja no ar ou pelo chão. O problema do central argentino, por outro lado, é que continua a revelar uma enorme propensão para o erro, constituindo-se assim como a perfeita antítese do seu colega de sector.

- Quanto ao Sporting, fica difícil exigir-se muito mais. Quem vê o talento de Matias e Izmailov a emergir do banco e para um pivot remendado terá de pensar que esta não é nem pode ser a equipa que o Sporting idealizou para a sua época. Ainda assim, o Sporting, tal como na Luz, voltou a dividir o jogo por completo, estando até mais perto de o ganhar, se contarmos as oportunidades claras de golo. Como expliquei acima, creio que o Porto não teve a melhor abordagem ao jogo e que o Sporting acabou por beneficiar disso, mas, ainda assim, ficou a sensação de que poderia ter feito mais...

- Há um nome que me parece incontornável neste jogo, que é Wolfswinkel. Não tanto pelas oportunidades claras que não converteu (pode acontecer a todos), mas pelas jogadas que não foi capaz de dar melhor sequência e que poderiam ter terminado em mais oportunidades. Não posso deixar de pensar que há uma ligação entre a falta de golos e os restantes capítulos do jogo do holandês, que já viram melhores dias. É que um avançado vive de golos e, regra geral, o seu momento a esse nível transfere-se também para a confiança com que interpreta as restantes situações de jogo. O que escrevi sobre Wolfswinkel e Bojinov quando chegaram ao Sporting, escreveria hoje de novo, praticamente sem qualquer alteração. Ou seja, não creio que as suas características foram muito bem percepcionadas aquando das respectivas aquisições. Nomeadamente, Wolfswinkel não é um jogador forte nos duelos dentro da área (muito longe disso) e Bojinov não é um jogador móvel ou versátil como se disse que era (naturalmente, desconheço se internamente era esta a ideia que se tinha, mas para cá para fora foi a ideia que passou). Talvez venha a partilhar mais ideias sobre as movimentações dos avançados em situação de cruzamento, porque me parece um tema interessante de analisar, tal a diversidade de casos que existem...

- Sobre as lesões, que tanto afectam a qualidade e estabilidade deste Sporting, há que referir que se devem distinguir situações. Uma coisa, são casos como o de Rinaudo, outra são as situações de Rodriguez, Matias, Izmailov e Jeffren. Todos estes jogadores tinham um histórico de lesões que não garantia qualquer confiança em relação à fiabilidade da sua disponibilidade ao longo da época. Para ser campeão em Portugal, nos dias que correm, é preciso fazer uma prova praticamente imaculada e, nesse sentido, é fundamental que não se cometam alguns erros de planeamento como os que foram cometidos. Se o Sporting tem motivos para estar esperançado com a evolução da sua equipa, o próximo passo só poderá ser dado se não se repetirem certos lapsos perfeitamente previsíveis na formulação do plantel (e escrevo "previsíveis", porque os enunciei a todos na pré época, tanto a aposta em Postiga como referência concretizadora, como a volatilidade da disponibilidade física de alguns elementos nucleares).

- Um último ponto sobre Renato Neto e a opção para pivot. Não foi um jogo mau, mas também não foi suficiente para que se possa imaginar estar ali uma grande solução para o lugar. Excelente capacidade física e boa presença posicional garantiram um bom jogo do ponto de vista defensivo, mas em posse nem se apresentou como solução, nem revelou a consistência exigível para o lugar. Foi uma estreia, porém. Não deixa de ser difícil de compreender para quem está de fora que André Santos tenha baixado tanto na consideração de Domingos, isto se nos lembrarmos que chegou a tirar o lugar a Rinaudo no inicio de temporada. Isto, para quem vê de fora, repito...
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6 comentários:

Anónimo disse...

Filipe é sempre com grande satisfação que leio estas tuas análises. Relativamente ao Wolfswinkel, depois de ver os primeiros jogos dele (nomeadamente após Paços de Ferreira) lembro-me de não ter "gostado" de ler que consideravas "anormal" a elevada eficácia que até então tinha revelado.Hoje tenho que te dar razão!

É possível que esteja até a falhar mais do que o esperado mas reconheço agora que ainda tem muito para evoluir em termos de eficácia na finalização, sobretudo no seu jogo de cabeça.

Fica um pergunta sobre o teu novo projecto: o facto de passares a fazer análises aos principais jogos internacionais, noutro blog, significa que deixas de fazer análises aos jogos entre os grandes portugueses?

Cumprimentos,

Pedro Morgado

Anónimo disse...

E aonde podemos encontrar esse novo projecto?
André

filipe disse...

Pedro,

O inicio de época dele seria extraordinário para qualquer jogador, porque marcou com enorme regularidade. Mas é mesmo assim, os jogadores têm períodos bons e maus, e só ao fim de algum tempo se pode fazer o balanço. O outro ponto que sublinhei sobre isto é que os indicadores dos avançados ao nível de golos são muito estáveis de jogador para jogador, se mudarmos algumas variáveis (tempo de utilização e número de golos da equipa). No fundo, a conclusão das inúmeras análises deste género que já fiz é que o que muda normalmente é contexto e raramente o jogador. Daí a minha projecção sobre a sua capacidade goleadora ser independente dos primeiros sinais que deu...

Sobre o que penso fazer no futuro, a ideia não passa por manter este tipo de análises para o futebol português. Mas ainda tenho de definir os pormenores nos próximos meses.

André, a ideia é mudar apenas no Verão, pelo que por enquanto manter-me-ei por aqui e com especial atenção ao futebol português. Assim que tiver mais novidades sobre o novo endereço, dá-las-ei...

Anónimo disse...

Olá, tenho pena que não faças as análises em Português e em Inglês, porque apesar de sermos poucos a escrever, somos muitos a ler, e eu sei que sabes isso!
Posso te dizer, pensei por algum tempo que eras do Sporting, mas facilmente percebi que fazias analises aos jogos sem essa questão futebolista que por vezes nos cega (EU SOU BENFIQUISTA E SEI DO QUE FALO), mas já não consigo, depois de um jogo nacional passar sem ver os teus comentários, tu fizeste com que eu analisasse o futebol de outra maneira, (antes de toda a gente falar do Porto de Vilas Boas eu sabia que era uma equipa do carago)!
Devias publicar mais posts, provavelmente sim, em Inglês e Português sim, que devias mudar a imagem do Blog sim!
Tens muitas qualidades na análise dos jogos, não compreendo que não continues com os comentario á quarta melhor liga do mundo (EHEHEEH), porque tu vais chegar lá seja onde for que queres chegar (FUTEBOL).

Diogo disse...

Creio que o jogo ficou marcado pela baixo posicionamento de ambas as linhas defensivas. Não quiseram arriscar, optaram por cortar sempre profundidade em situações de dúvida. Como ambas as equipas tentaram pressionar no momento de perda da bola, originou algum espaço entre linhas que foi sempre controlado pelo tal recuo das linhas defensivas. Culminando com boas respostas aos cruzamentos por parte das defesas

Creio que este tipo de jogo beneficia Hulk. Com efeito, ter um avançado capaz de sair em drible perante uma linha defensiva algo desapoiada parece-me proveitoso. Não há muitos, Hulk tem esse perfil. E recordo-me de Totti ou Vucinic. Ou o exemplo mais claro, ainda que diferente dos restantes, Messi. Não sei se cordordas

É curioso falares da falta de condicionamento do Porto no 1º momento. É interessante a assimetria verificada. Do lado direito Djalma baixava para próximo de Maicon, convidando Insua a subir. Pareceu-me existir uma tentativa de aproveitamento estratégico com a solicitação de Hulk após o ganho da bola.

No lado direito, Rodriguez pressionava mais avançado João Pereira e o bloco do Porto não baixava tanto.

Por outro lado, pareceu-me que Fernando é mais forte no apoio aos laterais que Moutinho. O brasileiro condiciona melhor e tem um melhor timming de pressão, e quando Rodriguez não recuava creio que o Porto ganhava mais com ele do que com Moutinho.

Também não achei o jogo de Renatoo Neto especialmente bom, mas convenhamos é complicado jogar naquela posição numa equipa como o Sporting. Com bola o pivô fica com alguma frequência sem linhas de passe fruto do excessivo adiantamento dos médios interiores, e também é por aqui que o Sporting procura os corredores laterais. No entanto, se estão bloqueados fica complicado.

A defender preocupou-se bastante com o encaixe a Belluschi (que tb contribuiu para o aumento do espaço entre linhas), mas mais uma vez em transição ficou exposto devido ao adiantamento dos interiores e laterais. Rinaudo é bom individualmente e não o vimos contra Benfica e Porto, mas para fazer uma boa exibição naquela posição é preciso muita qualidade.

Continuo a achar que James jogar quase como 10 e o consequente adiantamento de Álvaro Pereira não trás nada de realmente positivo ao Porto.

filipe disse...

Diogo,

Sobre o Hulk, realmente não me é fácil antever esta capacidade de adaptação de um extremo a uma zona central tão adiantada. Honestamente, não antecipava que se adaptasse tão bem. O facto é que individualiza muito menos as suas acções quando joga a partir dali e não se mostra menos solicito por isso. Depois, Hulk é um jogador tecnicamente forte, mas também ligeiro e potente. É difícil para quem o controla antecipar e mesmo condicionar através do choque, que são as duas formas dos defesas normalmente condicionar os jogadores que recebem à sua frente. Acho que se o Porto conseguir uma dinâmica semelhante à que tinha em 2008/09, quando Lisandro fazia um pouco o mesmo, mas havia muita gente a aparecer no espaço que ele abria, pode ganhar muito. Mas também me parece claro que se os resultados não ajudarem vai haver uma pressão muito grande para fazer regressar o Hulk à ala, porque é uma critica que se repete independentemente do rendimento do jogador.

Em relação ao condicionamento diferente nos dois lados, partilho da tua opinião. Talvez houvesse uma intenção de evitar a construção pelo corredor direito, convidando o Polga a conduzir. Acho, no entanto, que não foi bem condicionada a entrada de bola no Insua. Por exemplo, frente ao Nacional, que optou pela mesma estratégia, o Sporting teve muito mais dificuldade em ligar no corredor esquerdo. Acho que o Porto poderia ter conseguido um melhor condicionamento dessa ligação...

Sobre o pivot, acho que é actualmente um problema chave do Sporting. Particularmente em posse, as equipas estão (como era previsível) a apostar tudo nas dificuldades de construção dos centrais, e com um pivot que não se apresenta como solução (casos tanto de Neto como do próprio Carriço), fica tudo muito mais difícil, porque como dizes, os médios interiores estão preparados para aparecer noutra fase. Rinaudo era um jogador muito solicito nessa fase do jogo e essa diferença sente-se muito. Depois, há outro pormenor que com Rinaudo era bem conseguido e que garantia ao Sporting alguma fluidez na circulação. No inicio de época, a equipa ligava muito mais facilmente os corredores, o que entretanto deixou de acontecer. É um problema que o Sporting vai ter de resolver, porque os centrais não vão ficar muito melhores no que respeita à construção.

Defensivamente, concordo contigo, jogar nesta posição no Sporting é mais complicado do que nos outros 2 "grandes", porque os médios frequentemente estão muito adiantados. Foi só 1 jogo e não o conheço para além do tempo que tem, mas acabou por ter uma presença bastante mais eficaz do que o Carriço frente ao Benfica, por exemplo. Nesse jogo, o Sporting teve alguma exposição no espaço "entrelinhas", até pela actuação do Aimar, mas neste não me recordo de algum lance em que isso tenha claramente acontecido. Como dizes, pareceu ter uma preocupação com os movimentos do Belluschi, não tanto num acompanhamento vertical, mas num ajuste lateral ao lado em que aparecia (por isso, descaiu mais para o lado direito).