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Barcelona: Não tentem fazer isto em casa!

Mais do que a qualidade, e porque esta não é necessariamente confundível com a estética do jogo, o Barcelona trouxe ao futebol de clubes uma abordagem notoriamente diferente das equipas que vêm discutindo o título europeu nos últimos anos. Em vez de blocos baixos e uma aversão ao risco, assistimos a uma pressão sempre alta e a uma prioridade total à saída em apoio. Esta é, sem dúvida, uma lufada de ar fresco no tipo de jogos que vínhamos assistindo, ainda que não seja em absoluto uma novidade porque o Barça, mesmo com Rijkaard, sempre respeitou estes princípios. A diferença está, por isso, muito mais na qualidade e resultados que esta equipa conseguiu com Guardiola, precipitando uma chuva de lições, provenientes dos mais variados remetentes, aconselhando a generalidade dos treinadores do mundo a colocar os olhos no modelo de jogo deste Barça e indo mesmo ao extremo de utilizar o verbo “copiar” neste, supostamente sábios, conselhos. Devo dizer que para mim esta ideia de “copiar”, “imitar” ou “reproduzir” modelos de jogo, assim, como uma fórmula de sucesso instantâneo choca em absoluto com a forma como vejo o futebol.

O modelo é único
O primeiro ponto que quero sublinhar é que não há modelos de jogo iguais. Um modelo é único e resulta da forma como treinadores e jogadores interagem no trabalho diário. Pode haver uma ideia igual, mas os jogadores, esses, têm sempre reacções únicas e interacções inigualáveis. Pensar que por se copiar as ideias, se vai conseguir o mesmo modelo, quer quantitativamente, quer qualitativamente, não pode passar de um triste equívoco.


Qual é o modelo ideal?
Para esta pergunta não há, obviamente, uma resposta objectiva. Há, isso sim, uma série de variáveis que devem ser respeitadas, pensadas e trabalhadas para que se possa chegar ao utópico objectivo do “modelo ideal”. O objectivo último é ganhar e, por isso, o melhor modelo será sempre aquele que conduzirá a uma maior probabilidade de vencer. Depois, há que ter em conta factores intrínsecos, como as características dos jogadores e a forma como elas interagem, mas também extrínsecos como as características da generalidade dos adversários, como o tipo de condições em que se vai jogar ou ainda a cultura futebolística do clube ou do país onde se está. Tudo isto em teoria, porque a componente prática, o sentir de quem trabalha no campo é depois essencial para que se chegue à melhor forma de jogar. Querer jogar alto, baixo, em apoio ou directo só porque se viu na televisão e se gostou não deverá, com a maior das probabilidades, conduzir a nada de bom.

Barcelona depois da Espanha
Se recuarmos um pouco no tempo, cerca de 10 meses, encontramos os rescaldos de um campeonato da Europa onde a Espanha encantou. O discurso final foi o mesmo. Ou seja, que afinal era possível vencer usando a bola como arma prioritária. Sem medo de a perder, sem estar tanto tempo preocupado em fechar espaços e tapar os caminhos ao adversário. Os casos não são obviamente dissociáveis. As características dos jogadores são muito semelhantes e ambas as equipas têm em Xavi e Iniesta o seu “pulmão”. Claro que o Barcelona de Guardiola é uma equipa muito mais perfeita do que a Espanha de Aragonês, mas ambas foram fieis, na sua ideologia de jogo, à génese de quem o interpretava. Por isso, os jogadores se mostraram tão confortáveis com a ideia de jogo e, por isso também, a ideia de jogo pareceu tão boa.

O paradigma da formação
Posso discordar desta ideia de “copiar” modelos, mas não deixo de achar que este Barcelona merece, de facto, servir de exemplo. Hoje, a posse de Xavi e Iniesta parece imune ao pressing de qualquer equipa mundial. A verdade, no entanto, é que estes não são jogadores com características muito vistas no futebol de top e, por isso também, será tão difícil alguma equipa ser tão forte em posse como o Barça onde ambos jogam. Talvez o sucesso deste Barcelona e deste modelo seja um exemplo, sim, mas para a formação. Se em vez dos aspectos físicos se valorizar mais a técnica e inteligência, seja ela em que posição for, talvez surjam mais Xavi e Iniesta por esse mundo fora e, aí sim, talvez mais equipas possam ter como modelo ideal algo parecido com aquilo que o Barcelona apresentou em Roma.



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16 comentários:

Pudget disse...

Com todo o respeito Filipe, mas as vezes parece-me que queres justificar o injustificavel ou, pelo menos, argumentar pisoteando a irrefutabilidade apenas porque se trata de uma questao de paixao. E justo teres essa postura, mas nao concordo com muito do que dizes neste post!

filipe disse...

Não percebi, Pudget.

O que é que é uma questão de paixão?

Pudget disse...

Tu e outros e o suposto Barcelona pleno de qualidade... ainda nao vi esse Barcelona de que tantos falam!!! Juro! Vi um Barcelona a passar as passinhas do Algarve na meia final, a ser ajudado por erros que apesar de terem sido susceptiveis de analise ambigua, inegavelmente o transportaram para a final... Depois a retorica toda sobre um modelo que parece que (re)inventaram quando a forca do Barcelona nesta final foi um desinspiradissimo Man Utd (e nao por forca da tactica do Barcelona, mas porque e sintomatico que no Man Utd existem 5 ou 6 que ja la nao deviam estar e outros 2 que nao tem a minima vontade de la ficar). Somado a este factor uma suposta genialidade do Guardiola quando com a equipa que tinha e perante a competicao interna (que pura e simplesmente nao teve) se fizesse pior que ser vencedor em Espanha era pessimo. Ninguem lhe pedia a Liga dos Campeoes e nao lhe tiro o merito de saber ajustar-se as obrigacoes com enorme pericia, mas dai a ser um produto de ciencia desportiva, acho demasiado. Se para o ano o Barcelona apresentar um futebol vencedor como este tiro-lhes o chapeu e assumo a minha [fraca] analise.

Mas uma equipa que enfrenta um jogo na retranca, que virou a mare do jogo porque teve a sorte do seu lado ao marcar cedo, teve um Iniesta e um Xavi moralizados e mais 9 a saberem gerir o relogio (que foi isso que o Barcelona fez)... do outro lado do campo so vi o Ronaldo a tentar dar a volta as coisas e mais 10 sem a minima iniciativa e espirito de equipa (e nao foi porque o Barcelona foi assim tao superior ou inteligente ou extremamente x y z, mas porque este Man Utd anda a sofrer de uma crise interna que se vai agudizar e muito neste defeso, acreditem).

O Messi se merece palmas e por ter para ai um metro e 65 e ter feito um golo de cabeca. Fez o que lhe era pedido, jogou para vencer mas nao foi um vencedor no aspecto do futebol jogado, longe disso.

Se pudesse resumir este Barcelona da final era com um label muito simples "Campeao Q.B.".

Adoro os teus artigos, nao leves esta opiniao demasiado a peito, mas ainda ninguem me convenceu a embarcar nesta euforia Pro-Barca que parece ter dado a conhecer um futebol inigualavel, imparavel ou insuperavel quando estao TAO MAS TAO longe disso!

Cumprimentos!

Pedro Fernandez da Silva disse...

Pudget se conheceres alguma equipa que tenha simplesmente trucidado todos os opositores, goleando todos os adversários jogo após jogo. Não houve competição interna? O real entre os 2 jogos com o barça ganhou 17 e empatou 1. Apesar de ser infinitamente inferior ao barça fez uma segunda volta fabulosa acabando por perder inevitavelmente a Liga frente ao barça. Não vou alongar muito o tópico porque acho que o que o barça fez está bem à vista de todos e nem sequer merece discução.

cumprimentos

Pudget disse...

@Pedro Fernandez da Silva:

Sao opinioes, eu pura e simplesmente acho exagerado! Agora, relativamente ao Real ter feito uma grande segunda volta... discordo a 100%, ter perdido a liga frente ao Barca, ainda discordo mais; e para concluir, tudo nesta vida merece discussao e quem se refugia na indiscutibilidade do que quer que seja, e parco de argumentos.

Nuno disse...

Filipe diz: "O objectivo último é ganhar e, por isso, o melhor modelo será sempre aquele que conduzirá a uma maior probabilidade de vencer. Depois, há que ter em conta factores intrínsecos, como as características dos jogadores e a forma como elas interagem, mas também extrínsecos como as características da generalidade dos adversários, como o tipo de condições em que se vai jogar ou ainda a cultura futebolística do clube ou do país onde se está."

Filipe, o Barcelona mandou os factores extrínsecos às urtigas e não foi por isso que deixou de ser melhor. Antes pelo contrário. Aliás, discordo em absoluto da teoria de que os factores extrínsecos são relevantes no que toca à escolha de um modelo de jogo. Esses factores têm o seu peso na parte estratégica do jogo, nas pequenas nuances de uma partida ou outra, mas jamais deverão ter influência no que toca ao modelo de jogo. Aliás, das coisas mais desacertadas que se têm dito sobre o Quique é que ele quis implementar um modelo que era adequado ao campeonato espanhol e que em Portugal era errado. Quer dizer, como é que se pode acreditar que um modelo que não funcionou num campeonato menos exigente possa ser mais adequado a um campeonato mais exigente? Não faz sentido. O tipo de adversários, a cultura e as condições podem fazer modificar algumas estratégias, mas nunca os princípios de uma equipa. Esses devem ser únicos e ajustados àquilo que o seu treinador considera, em teoria, o melhor para a equipa que conduz. Depois, sobre os factores intrínsecos, sim, faz sentido o modelo ter em conta as características dos jogadores. Já não sei se faz muito sentido a interacção entre eles, uma vez que é o modelo que vai contemplar essa interacção. Mas nada disto implica que não haja modelos melhores que outros e que não haja 5 ou 6 coisas absolutamente essenciais. Hoje em dia, não é racional optar por jogar em 235, por exemplo. Porquê? Porque é absolutamente essencial que os espaços recuados estejam protegidos por mais do que 2 jogadores. Da mesma maneira, é pouco aconselhável a uma equipa que queira jogar em posse que tenha apenas 2 jogadores no meio-campo. Assim, é aquilo que o treinador deseja para a sua equipa que deve presidir à escolha de um modelo, podendo, obviamente, esse desejo ser influenciado pela competência específica do conjunto de jogadores ao seu dispor. No entanto, em teoria, é perfeitamente possível perceber que umas coisas são melhores que outras e que uns modelos têm maiores probabilidades de êxito do que outros. Isto porque se trata de um jogo. E um jogo tem regras. As regras limitam as possibilidades do jogo, logo há modelos mais adequados do que outros e, em última análise, um modelo mais perfeito que os restantes. Em jogos mais simples, isso é perfeitamente perceptível. No futebol, porque se trata de um jogo complexo, e de um jogo em que a componente prática nem sempre espelha aquilo que se planeia teoricamente, não é tão fácil perceber isto. Mas o facto de ser difícil não invalida que não seja assim. Qualquer jogo, uma vez que tem regras, tem uma maneira melhor de ser jogado.

Nuno disse...

Além disso, comparar o Barcelona de Guardiola com o de Rijkaard não faz sentido. Não se trata somente de uma questão de qualidade. É também uma questão de filosofia. O Barcelona de Rijkaard podia ser uma equipa ofensiva, que tinha bom toque de bola, etc., mas a circulação de bola, os apoios constantes e tamanho privilégio concedido ao passe curto não faziam parte dos princípios da equipa. Daí que este modelo seja francamente diferente. Ao contrário de ti, o Cruijff acha que este é o melhor modelo. Eu também. Mas é precisamente por não achares que há modelos melhores que outros que não aceitas que este deva ser copiado. Também acho que o modelo é único, pois depende muito dos intervenientes, mas a filosofia que preside ao modelo, as ideias, os princípios básicos impostos aos jogadores podem e devem ser copiados por outros. Se comparar o modelo de Guardiola com o de Rijkaard já não fazia muito sentido, menos ainda faz compará-lo à Espanha de Aragonés. O modelo de jogo do Aragonés era ridículo. O facto de a Espanha, em muitos momentos, ter conseguido boa circulação de bola, deve-se aos intérpretes e não ao modelo. É um erro comparar isto com o Barcelona de Guardiola.

Quanto à questão da formação, concordo que o Barcelona é um exemplo a seguir. Mas discordo disto: “A verdade, no entanto, é que estes não são jogadores com características muito vistas no futebol de top e, por isso também, será tão difícil alguma equipa ser tão forte em posse como o Barça onde ambos jogam.” Iniesta e Xavi jogam os dois juntos, mas são apenas parte do que é este Barcelona. Quantas vezes, mesmo sem Iniesta, o Barça não foi bem sucedido esta época? E jogou igualmente bem. Aliás, Xavi e Iniesta podem ser os dois melhores representantes daquilo que é o futebol do Barcelona, mas e os restantes? O Henry desta época não tem nada a ver com o Henry do Arsenal ou o Henry da época transacta. Quantas vezes se vê o Messi tentar tirar partido daquilo em que ele é absolutamente fantástico, o um para um? Pouquíssimas. Todos os jogadores estão subordinados a uma ideia colectiva e a força deste Barça é essa ideia colectiva e não o facto de dois ou três jogadores serem adequados para jogar deste modo. Aliás, quantas equipas não têm jogadores parecidos com Xavi e Iniesta? O Real, o Milan, o Arsenal e o Chelsea, pelo menos, têm. E Iniesta e Xavi serão assim tão únicos? Van der Vaart, Sneijder, Guti, Beckham, Seedorf, Pirlo, Rosicky, Fabregas, Nasri, Deco, Lampard, Ballack não serviriam para jogar assim? E o que dizer de Diego, Gerrard, Scholes, Modric, Juninho, Lucho, Moutinho, Aimar? Não têm uma capacidade técnica e intelectual para coabitarem um modelo deste género. É evidente que têm. Não há poucos jogadores assim. O que há é poucas ideias nas quais jogadores assim possam ser excelentes. Felizmente para o Xavi e para o Iniesta, cresceram num clube que, por tradição (chamo tradição a isto, mas podia chamar-lhe o legado de Crujff) contempla um futebol no qual eles são extraordinários. Só para dar um exemplo português, se o modelo do Sporting privilegiasse coisas parecidas, o Romagnoli e o Pereirinha eram dos melhores jogadores a jogar em Portugal, neste momento. Como não contempla, consagram-se aqueles cujos atributos individuais melhor compensam a falta de ideias colectivas. Alguma vez o Busquets era opção numa equipa como o Sporting do Paulo Bento? Nunca na vida. E o Xavi era vulgaríssimo. Um jogador é o que é também pela equipa em que joga e pelo modelo em que essa equipa se apresenta. Achares que Xavi e Iniesta são únicos é ignorar que parte do que eles são é resultado da equipa em que jogam, o que é o mesmo que dizer que é bem possível que maior parte dos jogadores que citei poderiam ser bem sucedidos num modelo como este. Daí que seja perfeitamente possível implementar isto noutras equipas. O futebol só teria a ganhar. Assim como aqueles que apostassem nessa ideia.

Pedro Fernandez da Silva disse...

"Agora, relativamente ao Real ter feito uma grande segunda volta... discordo a 100%"

Juande Ramos estreou-se com uma derrota frente ao barça. Nos 18 jogos seguintes (até perder de novo com o barça e arrumar o campeonato) GANHOU 17 E EMPATOU 1!!! Que péssimo registo.

cumprimentos

Pudget disse...

Realmente, pessimo pessimo, podia ter sido tao melhor, nao e?!

Pudget disse...

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So para nao parecer que embirrei contigo ou que e uma questao pessoal.

filipe disse...

Pudget,

A minha opinião sobre o Barça não tem nada a ver com "paixão". E, aliás, este texto não discute a qualidade do Barça, mas sim a possibilidade de se poder agora tentar reproduzir o modelo.

Nuno,

não vou entrar em pormenores sobre tudo o que escreves-te. Porque foi muito e porque acabas por contestar coisas que eu não disse.

Sobre os factores extrinsecos, digo-te que eles contam e muito e disso não tenho qualquer dúvida. Não é o mesmo jogar contra 20 adversários que se fecham atrás ou que discutem o jogo. Não é o mesmo jogar num "batatal" de pequenas dimensões ou num campo em condições. Não é o mesmo jogar contra 20 equipas que jogam directo ou 20 equipas que jogam em apoio. Não são pormenores, são o essencial e o modelo do Barça também é ajustado a esses factores.

Sobre o Rijkaard. É evidente que há diferenças, até porque há diferenças nos jogadores e alguns com peso muito grande no jogo da equipa. O principal ponto deste tema não são pormenores sobre os principios. É a atitude estratégica nos grandes jogos. Aí, o Barcelona de Rijkaard também foi diferente na abordagem que fez aos jogos. A diferença esteve essencialmente na qualidade com que ambas as equipas o fizeram.

Sobre o que diz ou não o Crujff, como deves imaginar, a minha posição é suficientemente convicta e pensada para ser afectada pelo simples facto de alguém dizer o contrário. Ainda se o fundamentasse...

Abraço

Nuno disse...

"Sobre os factores extrinsecos, digo-te que eles contam e muito e disso não tenho qualquer dúvida. Não é o mesmo jogar contra 20 adversários que se fecham atrás ou que discutem o jogo. Não é o mesmo jogar num "batatal" de pequenas dimensões ou num campo em condições. Não é o mesmo jogar contra 20 equipas que jogam directo ou 20 equipas que jogam em apoio. Não são pormenores, são o essencial e o modelo do Barça também é ajustado a esses factores."

Queria só responder a isto. O modelo do Barça é ajustado a quê? Fosse contra equipas fechadas, fosse contra equipas abertas, fosse em batatais, fosse contra equipas que jogam directo, o Barça jogou sempre da mesma maneira. Os factores extrínsecos podem contar para alguns treinadores. Sobretudo para aqueles que gostam de tentar adequar a sua forma de jogar às condições e ao adversário que vão encontrar. Não é o caso de Guardiola e deste Barça. E não o é porque este modelo é o indicado para jogar contra quem quer que seja. É por isso também que o Barça é tão diferente de tudo o resto.

P.S. O Cruyff fundamenta-o e bem. Aliás, como eu o fundamentei.

filipe disse...

Desculpa, mas acho que não estás a perceber o que eu estou dizer...

Eu não estou a falar de adaptar equipas. Estou a falar de preparar e trabalhar 1 temporada. Preparar e trabalhar 1 modelo de jogo. Quem se adapta ao adversário não tem 1 modelo. Os outros é que têm. Obviamente (pelo menos para mim), não é disso que estou a falar. Todos os factores, intrinsecos e extrinsecos são relevantes para o modelo, mas os modelos não se fazem na semana anterior.

Dou-te um exemplo muito prático. Quando Mourinho "explodiu" no Porto houve por aí, e muito depressa, muitos que tentaram copiar o modelo de jogo de Mourinho. Não me recordo de 1 caso de sucesso repetido. Mourinho teve um impacto fantástico no futebol português, que mudou a partir daí, mas não foi por se "copiar" modelos que alguém ganhou e os treinadores que tiveram sucesso conseguiram-no sempre com modelos ajustados à sua própria realidade, não com "cópias". Aliás, o próprio Mourinho é um exemplo do que quero dizer. Os seus modelos foram-se sempre adaptando a onde estava e por isso o seu sucesso, embora nunca igual, foi sempre contínuo.

Sobre o Crujff, o que ele disse foi que se devia "copiar" o Barcelona porque se provou que é possível ganhar, jogando bonito. Isto não é fundamentar nada, é usar um facto (o Barça joga bem e bonito) para tirar a conclusão errada de que todos podem ser como o Barcelona.

Nuno disse...

Eu sei que tu não defendes que uma equipa se deva adaptar a outra. Mas o problema é que estás a dizer que os factores extrínsecos contam para a definição do modelo. Basicamente, estás a dizer que as condições exteriores à equipa, isto é, terrenos de jogo, modelos de jogo dos adversários, mentalidade socio-cultural, etc., têm um determinado peso na definição do modelo de uma equipa. Ora bem, o que estás a dizer é que uma das coisas que define um modelo de jogo são as condições em que esse modelo vai ser posto em prática, que é o mesmo que dizer que esse modelo tem de estar adaptado à realidade exterior que vai encontrar. Ou seja, acreditar que os factores extrínsecos são importantes para a definição do modelo implica necessariamente que o modelo seja adaptável à realidade exterior. Ou seja, toda a equipa que julga que um determinado modelo é mais eficaz mediante determinadas circunstâncias, enquanto outro modelo é mais eficaz mediante outras circunstâncias, tem um modelo que se adapta aos outros, ou seja, ao que rodeia a equipa. Isto é óbvio. Não podes defender que uma equipa tenha um modelo próprio e ao mesmo tempo defender que os factores extrínsecos são relevantes. Uma coisa anula a outra. E eu também estou a falar de preparar uma época.

Quanto ao Mourinho, as linhas gerais das suas equipas foram sempre as mesmas. Jogava no Porto como tinha já antes jogado no Leiria e como viria depois a jogar no Chelsea. Só no último ano do Chelsea é que modificou ligeiramente algumas coisas, dando preferência, em muitos momentos da época, a um futebol mais directo. Aquilo que variou, nos clubes por onde passou, foram as características dos jogadores, o que tem certa influência no modelo de jogo. Mas jamais as linhas gerais se alteraram, fosse porque ia encontrar uma realidade de futebol directo, agressivo e intenso, como em Inglaterra, ou fosse por encontrar um futebol tacticamente mais evoluído, mais cínico e frio, como em Itália. Nunca abdicou de um médio-defensivo e dois interiores, salvo raras e mal sucedidas experiências, nunca abdicou de defender numa zona pura, nunca abdicou da posse e circulação de bola, embora em alguns momentos as suas equipas não tenham tido qualidade suficiente para isso, nunca abdicou de avançados que soubessem jogar de costas para a baliza, etc. Também acho que não se deve copiar o modelo só por copiar, sem se ter conta os jogadores que se tem ao seu dispor. Mas é possível "copiar" um modelo encontrando soluções individuais que saibam interpretar aquilo que o modelo original pressupõe. O modelo do Jesualdo variou desta época para a outra. Mas, por exemplo, o Fernando, é uma "cópia" do Paulo Assunção. Aliás, mais ninguém triunfou naquela posição porque mais ninguém se conseguiu assemelhar tanto ao Paulo Assunção quanto o Fernando. E naquela posição o modelo do Jesualdo era inalterável. Só dali para a frente é que poderia alterar as dinâmicas da equipa. Daí que, dependendo das características dos jogadores, seja claramente possível "copiar" modelos. Agora, é óbvio que se não se tiver jogadores com uma criatividade acima da média, inteligentes, capazes de assimilar sem dificuldades de maior a exigência de um modelo tão diferente, "copiar" o modelo do Barça é ou pode ser um erro. Mas imagina, nas mesmas linhas do Barça, um Real Madrid com Casillas na baliza, S.Ramos, Pepe, Cannavaro e Marcelo na defesa, Gago, Sneijder e Guti/Van der Vaart no meio-campo, Raul à direita, a pisar terrenos semelhantes aos do Messi, vindo para dentro para criar superioridade no meio, Robben/Higuain à esquerda e Nistelrooy/Huntelaar na frente. Não achas que seria possível jogar de pé para pé, com apoios constantes, pressionando altíssimo, como o faz o Barcelona? Não achas que haveria qualidade, sobretudo intelectual, para interpretar um modelo como o do Barça? A mim, isso parece-me claro. E ainda sobravam Heinze, Diarra, Parejo e Saviola, se não me estiver a esquecer de ninguém. Ou seja, o Real é uma daquelas equipas que, de acordo com as individualidades que possui ao seu dispor, podia "copiar" facilmente o modelo do Barça.

Nuno disse...

Quanto ao Cruyff, de facto, neste último artigo, ele fala em copiar e não fundamenta a sua opinião. Mas tudo o que ele escreveu antes, todo o seu pensamento é o fundamento dessa opinião. Aliás, numa das crónicas das semanas anteriores, antes dos quartos-de-final, disse que o modelo do Barcelona não deveria temer os do Liverpool ou do Manchester, por exemplo, porque era o melhor de todos. O seu argumento consiste sobretudo no facto de, tendo na posse de bola e no jogo posicional as suas virtudes, o modelo do Barcelona é sempre superior a qualquer modelo que tenha na intensidade de jogo e na velocidade de execução as suas virtudes. Ou seja, quem tiver a bola e um bom jogo posicional, pode contrariar o que quer que seja. Isto disse-o ele claramente. E isto é o fundamento pelo qual ele acredita que o modelo do Barça deve ser "copiado".

Man Next Door disse...

Pudget... francamente...

Eu mesmo sendo adepto do Barcelona, nem conta-ataco a tua opinião por esse lado.

Como é possível teres essa opinião sobre a época do Real Madrid?

Quanto ao pensamento que fazes sobre os catalães, só pode ser de alguém que não seguiu a temporada a par e passo.

Eu perdia parte dos meus saturday nights para assistir aos jogos e, como exemplo, posso dizer-te que numa grande parte deles, ao intervalo ia embora porque estava tudo resolvido... E se não fosse o compromisso da final da Liga dos Campeões, teriam simplesmente fuzilado todos os recordes da Liga espanhola.
Juntar a tudo isto um estilo de jogo delicioso e de encantar, é capaz de ser uma façanha jeitosa... Digo eu...

Portanto, se as visões sobre este Barça são exageradas, fico desprovido de palavras para classificar outras equipas.