4.12.14

Destaques individuais do Brasileirão Serie B

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Não será, certamente, uma análise que diga muito a muita gente, dado o anonimato da generalidade destes jogadores para a maioria dos adeptos. Ainda assim, arrisco partilhá-la, sobretudo por ter uma base factual bastante significativa (ou seja, os destaques não resultam da minha opinião sobre os jogadores mas antes dos dados recolhidos nos jogos realizados). Na minha análise, a maioria destes jogadores dificilmente teria capacidade para se afirmar num clube grande português, mas por outro lado quase todos eles seriam sem grandes dúvidas mais valias potenciais para a generalidade das equipas da liga portuguesa (que, infelizmente e por outro lado, não deverão ter grandes hipóteses financeiras para conseguir atrair estes jogadores). No entanto, todos eles tiveram um rendimento objectivamente muito elevado ao longo de um período considerável de competição, o que sugere um potencial que a meu será um erro desprezar. Dentro de algumas semanas, deixarei o mesmo tipo de análise para a série A do Brasileirão e também para o campeonato argentino, onde surgirão certamente figuras de maior potencial. Deixo alguns destaques, esclarecendo que esta análise se foca sobretudo nos jogadores que são protagonistas frequentes nas principais jogadas de golo das equipas, e por isso deixa de fora defensores e boa parte dos médios deste campeonato. 
No topo desta tabela, surgem Rodrigo Pimpão e Magno Alves, e ambos são merecedores de uma atenção especial, por motivos diferentes. Rodrigo Pimpão porque consegue este destaque absoluto numa equipa que desceu de divisão, o que é notável. Magno Alves, porque fez um campeonato fantástico e muito desgastante aos 38 anos, ficando claramente a ideia que a sua carreira podia ter tido outra notoriedade (apesar de tudo, foi internacional brasileiro) se tivesse tido outras opções na sua carreira, tendo passado muito tempo no continente asiático e nenhum na europa. Entre os outros jogadores, destacaria os casos de: Junior Viçosa, que esteve ausente muito tempo devido a lesão, mas que conseguiu ainda assim um rendimento elevado; Na mesma categoria estarão jogadores como Rafael Costa, Edgar, Jael, Pimentinha, Thalles e Mancini (ex-Roma e Inter). Fernando Karanga e Tomas, do Boa, que são duas das principais revelações da prova e que provavelmente terão ofertas financeiramente atractivas nesta altura, provavelmente para paragens longínquas; Anderson Lopes, Edigar Junio, Jorginho e Cafu por serem dos poucos jogadores nesta lista com idade inferior a 25 anos.
Entre os guarda redes, nota para a presença de Marcos entre os destaques, ele que já havia deixado muito boa impressão na sua passagem por Portugal ao serviço do Marítimo.


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2.12.14

Notas da jornada 11

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Sporting - V.Setúbal
Se frente ao Maribor o Sporting havia tido uma exibição de grande superioridade, imposta tanto no plano defensivo como ofensivo, frente ao Vitória esse registo ainda foi mais acentuado. Aliás, a comparação desses dois jogos dará também mais um bom exemplo de como no futebol o marcador está longe de ter uma correspondência lógica e directa com aquilo que as equipas fazem em campo. Frente ao Maribor, o Sporting fez 3 golos em pouco mais de um hora de jogo, mas desperdiçou depois a hipótese da goleada na fase onde lhe foi mais fácil criar ocasiões. Frente ao Vitória, e em sentido inverso, foi no arranque do jogo que o Sporting foi mais forte e acumulou mais ocasiões claras para marcar, mas foi na fase em que o seu futebol foi menos expressivo que o resultado se definiu. Evidentemente que é mais provável marcar-se nos períodos em que se fica mais próximo do golo, mas no futebol a aleatoriedade tem papel muito relevante, jogo a jogo.

No Sporting, nota para a opção pela utilização simultânea de Montero e Slimani. Esta é uma solução sobre a qual já havia escrito fazer sentido, sobretudo antes do aparecimento de João Mário entre as principais opções. E fará sentido, porque é relevante ter jogadores com boa capacidade de movimentação no último terço e que se tornem mais dificeis de controlar nas zonas mais próximas da baliza. Aqui, porém, há que ressalvar que Montero não tem, nem a capacidade de envolvimento de João Mário nas fases mais precoces do jogo ofensivo da equipa (basta comparar o grau de participação de ambos), nem tão pouco tem a mesma eficácia nas suas presenças em posse (basta comparar a % de perdas de bola de ambos), destacando-se aqui o seu perfil de decisão que é pouco ajustado a um envolvimento nas primeiras fases do jogo ofensivo da equipa, podendo acrescentar bastante risco ao equilíbrio posicional da equipa. Ou seja, diria que a inclusão de Montero neste registo faz sentido, mas provavelmente apenas em jogos onde o Sporting consiga resolver sem dificuldades de maior o problema da primeira fase de construção, como foi o caso deste jogo.

Uma nota sobre o Setúbal que repetiu nova exibição de grande incapacidade, depois de o ter feito também frente ao Benfica. A subida da linha defensiva tem como pressuposto lógico o encurtamento de espaços por forma a conseguir maior capacidade de pressão no espaço interior, mas no caso do Setúbal isso não acontece e, como tal, a subida da linha defensiva resulta apenas numa transferência de risco de exposição, do espaço entrelinhas para as costas da defesa, o que aumenta obviamente as possibilidades de sofrer dissabores. Se Domingos não corrigir alguns aspectos desta equipa, dificilmente se salvará de um campeonato que, na melhor das hipóteses, será sofrível.

Académica - Benfica
Este jogo marca o inicio do resto da época do Benfica, depois da eliminação europeia. Para já, pode dizer-se que a resposta foi positiva, num jogo que não foi brilhante mas que foi bem conseguido do ponto de vista do controlo defensivo, ajudando muito a eficácia que a equipa conseguiu nas primeiras ocasiões de golo criadas, o que lhe permitiu rapidamente a possibilidade de gerir o jogo. Olhando retrospectivamente para o ciclo do Benfica sob o comando de Jesus, vemos que as suas equipas se deram quase sempre muito bem quando não tiveram de dividir atenções entre campeonato e europa, e se esse dado não servirá para garantir seja o que for, serve pelo menos de indicio para a expectativa que podemos formar em relação à resposta que o Benfica virá a dar nas competições que lhe restam disputar esta temporada.

Uma nota sobre a aposta na dupla Jonas-Talisca. Se quanto a Jonas creio que não restam dúvidas a praticamente ninguém, já relativamente a Talisca eu mantenho as minhas reticências. Aliás, diria que Lima e Talisca tiveram arranques de temporada radicalmente diferentes. Isto é, enquanto que Talisca teve um aproveitamento pleno das ocasiões de que desfrutou, Lima teve uma eficácia muito baixa, mas isso não quer dizer que Lima tenha contribuído menos do que Talisca para os desequilíbrios que a equipa criou, antes pelo contrário de acordo com algumas análises que já partilhei. Neste sentido, o facto de Talisca ter marcado mais do que Lima não implica que Talisca tenha maior probabilidade de marcar do que Lima, sendo que me parece que entre os dois é Lima que mais condições tem para fazer uma boa parceria com Jonas, já que sendo um jogador de maior profundidade pode libertar Jonas para um papel mais móvel, que manifestamente me parece assentar-lhe melhor.

Porto - Rio Ave
Se acima escrevi que o futebol pode ser muitas vezes pouco lógico na forma como o resultado se define, este é mais um jogo a servir de exemplo para essa ideia. Isto, porque estou de acordo com a ideia de Lopetegui, de que foi na primeira parte que a equipa melhor esteve, mesmo se a diferença entre o resultado das duas metades não podia sugerir de forma mais clara a ideia contrária. De facto, parece-me que o Porto teve uma boa entrada em jogo, criando bastantes problemas ao Rio Ave, e que acabou por fazer uns 25-30 minutos sofríveis na segunda parte, onde teve essencialmente a felicidade que não havia tido nos primeiros minutos.

Duas notas sobre a exibição portista. Primeiro, para voltar a referir-me ao controlo defensivo da equipa, que não passou por um número muito grande de sobressaltos, é verdade, mas que permitiu que o Rio Ave chegasse com uma assinalável regularidade até ao último terço, algo que já havia acontecido na recepção ao Nacional, e que estranhamente contrasta com o registo bem mais seguro que a equipa teve nos últimos dois jogos europeus. Um dado atípico e que importa continuar a acompanhar. A segunda nota vai para o regresso de Quintero às segundas opções, o que volta a retirar ao Porto grande parte da capacidade de extrair qualquer coisa do seu jogo interior. Isto porque, e como já escrevi, continua a não me parecer haver grande foco colectivo para a exploração dessa via, sendo Quintero provavelmente a melhor forma de individualmente ajudar a colmatar essa lacuna. Aliás, como se viu na maravilhosa assistência que realizou. Uma nota também para o Rio Ave, que fez um jogo bastante competente em vários aspectos, mas que acabou penalizado por perdas de bola em zona de construção, com 3 dos 5 golos a ter como ponto de partida esse problema. Pode-se ter equipas boas nos mais variadissimos aspectos, mas na minha opinião não dá para construir uma equipa fiável sem garantir segurança a este nível.

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27.11.14

Notas da Champions #5

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Bate - Porto
O contexto era diferente, o valor do adversário também, mas o produto final da exibição portista neste jogo foi muito semelhante àquele realizado no país basco, frente ao Athletic. Ou seja, uma equipa bem organizada nos seus momentos defensivos, com um controlo praticamente perfeito do adversário, mas sem grande capacidade para ser incisivo no último terço. Neste sentido, parece-me, a vitória portista não merece contestação, mas o seu registo ofensivo resulta sobretudo de um aproveitamento pleno das ocasiões criadas e não tanto de uma grande capacidade para criar situações de golo. Este, de resto, continua a ser o grande problema do Porto de Lopetegui, não tanto a nível europeu, mas com repercussões sobretudo no registo interno, onde a sua produção ofensiva tem estado abaixo do esperado. E, novamente também, o défice de jogo interior surge como principal candidato a factor explicativo deste fenómeno do futebol portista actual. No paralelismo entre o que a equipa tem feito interna e externamente, de resto, sobra também uma nota de reflexão em relação ao controlo defensivo, já que as recentes exibições europeias tiveram um controlo defensivo substancialmente superior àquele registado nos confrontos contra Nacional e Estoril, o que não se pode deixar de estranhar em face do grau de dificuldade de cada um destes desafios. Um problema que, na minha leitura, tem a ver com os níveis de risco assumidos nos dois planos competitivos, interno e externo, sendo que internamente o Porto se tem exposto mais, provavelmente pela consciência da necessidade imperiosa de fazer golos e da pouca confiança que terá na sua própria capacidade de resposta a esse nível.
Uma nota a nível individual para Marcano e para a questão dos centrais. Primeiro, sobre o tema de se ter dois centrais canhotos, que aparentemente será um problema para o Porto, a julgar por algumas análises que vi. A minha questão é porque é que ninguém levanta o mesmo tipo de problema quando, numa qualquer equipa, jogam dois centrais destros, como tantas vezes acontece? Não percebo... Depois, mais concretamente sobre Marcano, que ao que me parece é visto de forma quase unânime como o pior central do Porto. Já o escrevi, e mesmo se o tempo de observação ainda é curto, este jogo voltou a reforçar a minha opinião, de que o espanhol tem sido a solução que melhor rendimento tem dado à posição. Relativamente a Maicon, tem revelado uma propensão para o erro muito menor, e relativamente a Indi parece-me ter uma capacidade de intervenção defensiva substancialmente superior. Dá-me a ideia que ficou mediaticamente penalizado pelo facto de ter jogado em alguns jogos colectivamente pouco conseguidos nesta temporada (nomeadamente frente ao Sporting), mas na minha avaliação (que, reconheço, relativamente a centrais é tudo menos consensual!) isso não implica que individualmente as suas exibições tivessem sido más. No caso, muito pelo contrário.

Sporting - Maribor
Um jogo de grande superioridade do Sporting, confesso até para além das minhas próprias expectativas. A vitória é incontestável, e o resultado pecará até por escasso, sobretudo tendo em conta aquilo que foram os 20 minutos do jogo. Que hipóteses tem o Sporting agora de se apurar? Bom, digamos que o desfecho mais provável dos dois jogos finais é que o Schalke vença na Eslovénia e que o Sporting perca em Londres, mas que isso não impede que as hipóteses de apuramento sejam claramente favoráveis ao Sporting, diria na ordem dos 65%. Pode parecer paradoxal, mas não é...
Uma nota sobre o registo defensivo da equipa, que voltou a ser abordado no final do jogo. O Sporting tem tido de facto problemas graves a esse nível, e sobre os quais tenho escrito repetidamente. Neste jogo, porém, não os teve. O Maribor atacou, sim, e até marcou um golo, mas isso não quer dizer que tenha sido especialmente ameaçador durante os 90 minutos, e a realidade é que não o foi. De resto, tomara o Sporting ter tido a mesma capacidade de controlo defensivo que teve neste jogo nas recepções recentes, a Marítimo e Paços de Ferreira, e parece-me importante que haja a capacidade de distinguir as situações, porque não se pode desvalorizar o que se passou em muitos dos jogos recentes para vir depois sobrevalorizar uma reacção como a que teve o Maribor, sob pena de não se saber se a equipa está ou não a produzir aquilo que dela se exige.
Uma nota incontornável no plano individual, para Nani. Não pelo lado estético da sua performance mas, e como sempre tento fazer, mantendo o foco na produção objectiva do jogador. À excepção do primeiro golo, foi o denominador comum de todas as principais ocasiões da equipa, tendo estas sido em quantidade substancial. Uma exibição fantástica, muito difícil de igualar e que revela a importância que a chegada de Nani teve para o Sporting e para Marco Silva.

Zenit - Benfica
O cenário da eliminação europeia estava desenhado desde a segunda jornada. Não era uma inevitabilidade, claro, mas quem perde dois jogos num grupo tão equilibrado como este, nunca pode deixar de ignorar a probabilidade desse destino. Na minha opinião, a má campanha europeia do Benfica justifica-se sobretudo por esses dois jogos e não por aquilo que se passou a seguir, e muito concretamente não por este jogo. É fácil pegar nos resultados, na carga emocional que eles acarretam, e fazer análises que partem do efeito para as causas, fazendo tudo parecer uma inevitabilidade, mas esse é um oportunismo que neste caso me parece intelectualmente reles e que por isso rejeito. O Benfica perdeu o jogo, é certo, mas perdeu-o frente a um adversário de potencial idêntico ao seu, jogando fora, e num jogo que discutiu de igual para igual, tendo sido em minha opinião até ligeiramente superior em diversos momentos. O jogo, por isso, não me parece merecedor de grandes reparos ou motivos de preocupação, por muito que o resultado e a eliminação consequente possam trazer consigo uma carga emocional negativa e difícil de ignorar. O mesmo não se poderá dizer dos tais dois primeiros jogos desta fase de grupos, mas sobre eles é bom que o Benfica já tenha retirado as ilações devidas. Resta à equipa agora continuar a evoluir colectivamente, tendo como conforto a noção de que internamente a sua situação é bastante favorável, tendo por isso boas condições para repetir os sucessos internos do ano anterior.

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25.11.14

Os principais desequilibradores da Liga 14/15

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Partilho a lista dos principais desequilibradores da liga portuguesa até à 14/15, de acordo com o tipo de análise que venho mantendo. De forma breve, deixo alguns destaques (com foco assumidamente centrado nos "grandes"), fazendo notar que o tempo de utilização é ainda curto para que se possam tirar grandes conclusões. Primeiro, obviamente, para Deyverson que está a fazer um inicio de temporada assombroso, aparecendo no topo deste ranking, o que é fantástico para um jogador que actua numa equipa com o volume ofensivo do Belenenses. No Porto, e apesar da modéstia da prestação ofensiva da equipa, Jackson volta a surgir como uma figura incontornável de destaque, o que volta a sustentar a qualidade do colombiano. O outro nome portista nesta lista é Brahimi, de quem provavelmente se esperaria maior destaque dentro desta lista. A verdade, porém, é que o argelino tem conseguido ser bem mais contundente na Champions do que na Liga, sendo ainda assim provável que o tempo venha a atenuar essas diferenças. No Benfica, Gaitan mantém-se como o jogador com mais presença criativa nas ocasiões de golo da Liga, tal como foi na época transacta. Mas no Benfica, há outros nomes a sublinhar, como o de Talisca, que vem marcando a diferença mais pela eficácia do que pela frequência com que desequilibra (já tenho escrito bastante sobre isto), Lima,  que é um caso inverso ao de Talisca, e Salvio, que vem mantendo uma regularidade desequilibradora significativamente acima daquilo que Markovic havia feito na sua ausência no ano anterior. No Sporting, Nani surge sem surpresa entre os destaques, mas também Carrillo surge num nível de rendimento muito elevado a este nível, o que poderá ser mais surpreendente. No que respeita aos avançados, Slimani e Montero dividiram o tempo de utilização e por isso se percebe que nenhum dos dois possa estar mais próximo do topo desta lista. Ambos mantiveram uma boa presença nas principais situações de golo da equipa, mas o caso do argelino é claramente aquele que merece maior destaque, já que apesar do pouco tempo de utilização foi o segundo jogador com mais presença em situações de finalização em toda a competição. Uma constatação que, como já tenho escrito, me parece definir claramente a mais valia que o argelino pode representar para Marco Silva.

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20.11.14

As probabilidades do campeonato

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É o que os adeptos querem saber e anseiam por descobrir ao longo da época, se o seu clube se vai sagrar campeão! Naturalmente, ninguém tem uma bola de cristal que possa matar essa ansiedade, e neste sentido não haverá alternativa a esperar para ver o que vai acontecer, mas talvez seja possível ter uma ideia razoável das probabilidades de cada equipa. E é precisamente esse exercício que venho propor e partilhar.

Metodologia
A ideia é estabelecer um valor arbitrário para cada equipa e, a partir daí, obter as probabilidades de vitória, empate e derrota em cada um dos jogos que faltam, somando aos pontos daí resultantes aqueles que já foram conquistados. Se simularmos isto uma única vez, claro, vamos obter um resultado fortemente influenciado pela aleatoriedade, e que por isso nos vai dizer pouco. Mas, se a simulação for repetida um número considerável de vezes, então poderemos isolar com bastante segurança o ruído que vem do factor aleatório e ficar com expectativas resultantes apenas do desempenho esperado das equipas (o método "montecarlo", para quem estiver familiarizado). Assim, a tabela que apresento representa o resultado de 500 simulações do campeonato.

Importa, claro, perceber também o ranking pré definido para as equipas. Tentando ir de encontro àquela que será, parece-me, a visão mais comum, considerei Benfica e Porto com igual valia, o Sporting entre estes dois e o Braga, seguindo-se as restantes equipas.

O peso da aleatoriedade, mesmo numa prova de longo prazo
Para além das probabilidades e expectativas obtidas, parece-me haver algumas reflexões interessantes que decorrem deste exercício. Em particular, o desprezo que existe pela possibilidade do factor aleatório determinar posicionamentos inesperados. Explicando melhor, todas as simulações são feitas sob os mesmos pressupostos, que se mantêm sempre constantes, mas isso não impede que tenhamos pontuações e classificações finais bastante variáveis e algumas que consideramos surpreendentes. Por exemplo, Benfica e Porto têm respectivamente 4% e 12% de ficar fora dos 2 primeiros lugares, mesmo mantendo-se como as duas melhores equipas ao longo de todo o campeonato, assim como o Sporting terá 22% de hipóteses de ficar fora dos 3 primeiros lugares, mesmo num exercício que o considera constantemente e de forma bastante clara como a terceira melhor equipa. Ou seja, mesmo numa prova de longa duração como é um campeonato o factor aleatório por si só tem a capacidade de nos proporcionar resultados pouco consentâneos com o valor das equipas. Ora, em abstracto isto até pode parecer racional e pouco surpreendente, mas na realidade emotiva do futebol nunca vemos alguém explicar classificações invulgares dando grande relevância ao factor aleatório. A cultura passa por, diria quase sem excepções, extrair conclusões sobre o mérito e o demérito dos protagonistas, atribuindo aos resultados e classificações uma significância de carácter insofismável. E aqui, devo ainda ressalvar que existe um positivismo exacerbado nesta análise, porque raramente o valor das equipas se mantém constante ao longo de um campeonato como aqui é suposto, e sobretudo porque há a tal irresistível tentação de reagir aos resultados, alterando muitas vezes coisas sem critério e justificação (treinadores, jogadores, etc). Ou seja, o efeito real da aleatoriedade pode ser ainda mais perverso do que aquele que é aqui apresentado, nomeadamente por precipitar actos de gestão que não raramente acabam por ser prejudiciais. A conclusão de tudo isto, e na minha análise, não é que não se deve ter métricas objectivas para o trabalho que é realizado nas equipas (usar métricas arbitrarias como às vezes vejo sugerido será provavelmente ainda mais perigoso), mas antes que será fundamental encontrar indicadores igualmente objectivos mas não tão dependentes da componente aleatória, não ficando assim apenas centrado nos resultados.

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17.11.14

Notas do Portugal - Arménia

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- Penso que é perfeitamente possível fazer um paralelismo entre esta exibição e a que terminou com a derrota frente à Albânia. O volume de jogo conseguido pela Selecção foi semelhante, assim como as ocasiões claras criadas. Na verdade, parece-me até que a Arménia foi mais perigosa do que a Albânia, sendo que a diferença esteve, e de forma clara, na eficácia. Uma evidência (à luz desta análise, evidentemente...) de como no futebol os aplausos e os lenços brancos estão frequentemente muito mais dependentes de factores incontroláveis do que aquilo que à posteriori nos parece.

- Fernando Santos optou por alterar a sua estrutura, e tenho algumas dúvidas sobre a utilidade dessa opção. Em parte porque pareceu pouco natural o ajuste dado aos jogadores da frente, mas sobretudo porque se perdeu a oportunidade de desenvolver a ideia que o treinador em princípio utilizará nos jogos mais importantes e que, no fundo, deverão acabar por definir o sucesso ou insucesso na campanha para o Euro 2016. Era possível manter a estrutura, dando-lhe uma dinâmica diferente, sobretudo com uma missão menos posicional nos 3 médios, relativamente ao que acontecera frente à França e Dinamarca. Em termos de ajuste específico às características dos jogadores, parece-me que Portugal teria a ganhar em continuar a oferecer liberdade a jogadores como Danny e Nani.

- No que respeita à exibição da equipa portuguesa, destacaria de forma breve dois pontos menos positivos. Em termos ofensivos, pareceu-me haver alguma dificuldade na criação de dinâmicas de penetração no último terço, em especial no inicio da segunda parte onde me pareceu ter sido dado maior enfoque ao corredor central, mas sem que a equipa tivesse revelado a dinâmica suficiente para fazer essa ligação com qualidade e de forma mais apoiada, acabando por verticalizar muito e de forma previsível, perante uma linha defensiva muito baixa e por isso pouco vulnerável na exploração da profundidade. O outro ponto menos positivo diz respeito ao momento de transição defensiva, sendo verdade que a Arménia não se soltou ofensivamente com grande frequência ao longo do jogo, mas sendo também evidente a constante necessidade dos jogadores portugueses em recorrer à falta para evitar males maiores, o que resultou num invulgar número de faltas e cartões amarelos para os jogadores mais defensivos. Um aspecto a rever e corrigir, já que perante formações mais fortes, o preço a pagar será previsivelmente maior.

- Interessante o caso de Postiga, que não é único mas é muito comum. Ou seja, frequentemente discute-se o que os avançados podem trazer à equipa, mas quase sempre as conclusões reflectem mais a ideia pré concebida que é tida sobre cada um dos jogadores, do que propriamente aquilo que, na prática, realmente se observa no terreno de jogo. Postiga é um exemplo (há outros, como escrevi) disto porque constantemente se diz que traz maior capacidade de envolvimento e de ligação com os jogadores de linhas anteriores, mas a verdade é que invariavelmente a sua participação no jogo é extremamente reduzida e não especialmente eficaz. Frente à Arménia, Postiga completou 7 passes em 55 minutos, um registo quase desprezível numa partida com este volume de jogo e, comparativamente com outras opções, 3 vezes inferior ao de Eder nos 35 minutos que jogou, e igualmente muito menos participativo do que foram qualquer dos atacantes portugueses no jogo da Dinamarca, onde o volume de jogo colectivo foi muito inferior. Isto não quer dizer que Postiga não possa trazer mais valias à Selecção, sendo um jogador obviamente evoluído do ponto de vista técnico (o equívoco, creio, resulta daqui) e na minha opinião aquele que mais qualidade de finalização garante, relativamente a Eder e Hugo Almeida (embora, me pareça que Portugal deve contemplar a hipótese de actuar sem um referência mais fixa). O que não penso é que a sua inclusão deva ser considerada com base em expectativas equivocadas. 

- Ainda no capítulo individual, nota para a exibição de Moutinho. Assumiu, com Tiago, uma função mais posicional, mas destacou-se claramente nesse papel. Também ao nível do passe, onde esteve perto da centena de ligações bem sucedidas, mas sobretudo pela espectacular exibição defensiva, no momento de transição ataque-defesa. Foi protagonista de 23 acções defensivas neste momento táctico,  mais do dobro do segundo jogador com mais interventivo da equipa em transição defensiva.

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11.11.14

Notas do fim de semana

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Nacional - Benfica
Se o triunfo, pela sua importância, arrancará certamente sorrisos entre a generalidade dos adeptos encarnados, já a exibição não parece agregar o mesmo entusiasmo, a começar pelo próprio treinador. A minha opinião, relativamente à performance da equipa, é de que a recta final do jogo foi de facto pouco conseguida, havendo alguns aspectos a rever, mas de todo não concordo com a ideia de que os 3 pontos tenham sido a única coisa boa que o Benfica tem para extrair desta visita à Choupana.
Começando pelos aspectos positivos, destacaria essencialmente a primeira parte. Aí, o Benfica conseguiu sempre um bom controlo do jogo e do adversário e teve, junto da baliza contrária, uma proximidade significativa com o golo. É verdade que nunca conseguiu impor uma grande fluidez na sua posse, mas num jogo de bastantes bolas divididas, o Benfica conseguiu sempre desdobrar-se bem em ataques rápidos a partir desse tipo de situações, não concedendo por outro lado que o Nacional fizesse o mesmo. A outra nota positiva do jogo vai para Jonas, que definitivamente se parece confirmar como uma grande mais valia para o Benfica 14/15: baixa para oferecer linhas de passe no corredor central, entra nas costas dos extremos aproveitando o arrastamento do lateral (neste particular, combinou especialmente bem com Salvio), e aparece depois com propósito na zona de finalização. Muito bom!
Do outro lado da moeda, está a segunda parte, em especial os últimos 15-20 minutos do jogo. Primeiro, o Benfica perdeu profundidade ofensiva mas foi mantendo o controlo do adversário. Depois, na tal fase final de maior risco por parte do Nacional, perdeu também boa parte do controlo defensivo que até aí havia tido, não recuperando quer a capacidade para controlar o jogo com bola (que nunca teve), nem tão pouco a profundidade ofensiva (mesmo numa fase de maior risco e exposição por parte do Nacional, o que se estranha). Haverá várias explicações e motivos que contribuirão para este mau bocado que o Benfica passou, mas não posso deixar de destacar o pouco impacto que teve a introdução de Samaris, cuja entrada em campo tinha como objectivo acrescentar precisamente segurança numa fase que se previa de maior risco por parte do adversário. Acontece que Samaris, de facto, não parece muito vocacionado para a posição 6. Com bola, tem qualidade técnica, mas não tem o critério adequado para a posição que ocupa, como se viu na forma como geriu algumas intervenções no jogo, e que serviram de mote para a reacção final do Nacional. Sem bola, não parece ter agressividade nem capacidade de intervenção para que possa dominar uma zona tão fulcral como a que lhe é confiada. Confesso que estranho a aposta num jogador com estas características, tendo em conta o acerto que Jesus havia revelado nas suas escolhas anteriores para esta posição, mas o que é certo é que o Benfica se encontra realmente com um problema por resolver e que provavelmente assim continuará até à recuperação de Fejsa.

Sporting - Paços
A análise ao jogo foi dividida, por quase todos, em duas partes. Os primeiros e os segundos 45 minutos (na verdade, a partição de Marco Silva apontou para 30-60). Eu talvez preferisse 3 divisões, para melhor explicar o jogo...
1- Os primeiros 30 minutos - Notável entrada no jogo do Paços, contando com o contributo do Sporting que foi, na melhor das hipóteses, negligente. Paulo Fonseca voltou a definir uma equipa com as mesmas características, ou seja oferecendo grande incidência ao jogo interior e ao corredor central. A equipa tenta sair a jogar a partir de trás, e fê-lo mesmo perante o pressing do Sporting, sendo que para isso envolve os dois médios na primeira fase de construção, criando mais apoios nessa zona e atraindo o pressing contrário. O papel do duplo pivot é depois também muito importante para a reacção à perda, que me pareceu bastante boa por parte do Paços. Mais à frente, os alas têm uma grande vocação interior, sendo a largura normalmente garantida pelos laterais. Perante isto, o Sporting subiu as suas linhas para pressionar, como quase sempre faz, mas acabou sistematicamente exposto nas costas da sua linha média, numa sucessão de jogadas que expuseram a linha defensiva e que só por alguma falta de inspiração dos jogadores do Paços não terminaram num número significativo de ocasiões de golo. Aqui, e do ponto de vista do Sporting, destacaria a baixa intensidade revelada por alguns jogadores, pouco concentrados com bola, e pouco reactivos defensivamente. Em particular, na minha opinião, Carrillo e William, de resto os dois que Marco Silva deixou nos balneários. O caso de William, de resto, começa a ser flagrante, dada a pouca vocação que o jogador tem para defender numa área tão extensa do terreno. Com os dois médios a subir em simultâneo para pressionar, é importante que exista uma boa capacidade de recuperação destes jogadores, assim que a bola entre nas suas costas, como tantas vezes aconteceu neste jogo. Só que William não tem essa capacidade, e neste como noutros jogos, sempre que a bola entrou nas suas costas, só muito dificilmente o médio do Sporting voltou a intervir defensivamente na jogada. Tendo a ver o caso de William da mesma forma que vejo o dos defensores (à excepção de Sarr, como já escrevi). Ou seja, o problema das suas dificuldades relativamente ao ano anterior não me parecem tanto resultar de uma alteração súbita do rendimento individual, mas antes de uma alteração do contexto colectivo, que hoje é muito menos ajustado às suas características individuais. Uma nota final, relativamente a este período, para Paulo Fonseca. O ex-treinador do Porto foi mediaticamente devastado na época passada, mas a verdade é que esta segunda vida em Paços está a evidenciar que a sua rápida ascensão até ao topo do futebol português não terá sido um acidente. Equipas da dimensão do Paços, a jogar como o Paços? Não haverá muitas...
2- do golo do Paços, até à expulsão - Não é uma ideia que pareça muito racional, mas é um facto que o jogo é dominado por reacções emocionais dos jogadores às circunstâncias do jogo. Por isso, por exemplo, temos significativamente mais golos nos minutos finais das partidas. No caso deste jogo, o Sporting - e tal como referiu Marco Silva - reagiu de facto ao golo sofrido, e não o fez apenas na segunda parte. A equipa tornou-se essencialmente mais agressiva e intensa, e isso fez com que tivesse assumido definitivamente as rédeas de um jogo que até aí havia sido claramente dominado pelo seu adversário. Mas há duas coisas a dizer sobre este período, e que o distanciam dos minutos finais. Primeiro, que apesar da maior iniciativa e de algumas boas chegadas ao último terço, o Sporting criou muito poucos lances de perigo efectivo até à expulsão, sendo de alguma forma feliz pela improvável eficácia do remate exterior de Montero. Segundo, que neste período o Paços foi obrigado a uma maior presença defensiva, mas não deixou de expor defensivamente o Sporting, em especial o seu espaço entrelinhas, continuando por isso ameaçador.
3- depois da expulsão - Se até aqui o Sporting havia tido, no máximo, um ascendente sem grandes consequências objectivas ao nível da proximidade real com o golo, após a expulsão a equipa aproximou-se finalmente daquele que era o seu objectivo inicial, a vitória. E é este período, que, afinal, permite alguma divisão de perspectivas. Por um lado, poder-se-á dizer que, pelas ocasiões que perdeu neste período, o Sporting foi infeliz em não ter ficado com os 3 pontos. Por outro, argumentar-se-á que ao demorar tanto tempo para impor a superioridade o Sporting potenciou o seu próprio risco de insucesso no jogo. As duas ideias parecem-me válidas, assim como me continua a parecer evidente que para ter a consistência de resultados que pretende, o Sporting precisará também de ter uma consistência organizacional que no campo continua a não ter.

Estoril - Porto
O Porto regressou ao campeonato, e regressou também ao padrão que havia marcado o seu arranque de temporada. Ou seja, muito domínio territorial, tanto por vontade própria como por cedência estratégica do seu adversário, mas paradoxalmente e apesar de todo o talento que a equipa tinha em campo, também sem um número correspondente de ocasiões claras de golo. Aliás, é surpreendente como no final de uma partida como esta, o Estoril acaba por ter um número equivalente de jogadas de grande potencial ofensivo, mesmo com tanta submissão territorial. Mas, como referi, este não é um cenário novo na época portista, assim como não são as dificuldades de utilização do corredor central ou a dependência da circulação lateral e das iniciativas individuais dos extremos no último terço ofensivo do Porto.
A critica do pós-jogo vai para a inclusão de Adrian ao lado de Jackson, numa opção que já estava conotada com o insucesso, na sequência do jogo da Taça. Pessoalmente, não faço esse tipo de associações, que estou seguro tão apelativas como falaciosas, nem tão pouco compro a critica da "rotatividade" tal como a tenho visto apresentada, mas também penso que as coisas precisam de uma lógica, e neste caso confesso que não consigo desvendar nesta opção de Lopetegui. Ou seja, se a equipa havia denotado melhorias com opções que lhe trouxessem outra capacidade no jogo interior, particularmente perante equipas previsivelmente mais fechadas, então fazia sentido que Lopetegui voltasse a insistir nessa opção. E mesmo não podendo ter Quintero de inicio, o treinador tinha Oliver como solução para esta linha de raciocínio. Se a rotatividade de Lopetegui for uma gestão de recursos em função do desgaste e da estratégia competitiva, então há uma lógica que me parece fazer sentido e não vejo problema com ela, ou evidência concreta de que seja uma opção menos virtuosa do que a sistematização de um onze. Mas há também a hipótese de Lopetegui estar a utilizar a rotatividade fundamentalmente para distribuir minutos pelos diversos jogadores, e sem privilégio da componente estratégica. Se frente ao Sporting, e por muito que essa estratégia não tenha resultado, se percebeu a intensão de colocar Adrian ao lado de Jackson, desta vez ficou apenas a sensação de que se tratou de mera rotatividade, pela rotatividade...
Uma nota para o jogo do Estoril, que adoptou uma estratégia defensiva essencialmente assente na densidade numérica, com especial nota para a introdução de Esiti, como uma espécie de "joker" defensivo, entre as linhas defensiva e média, com o objectivo de garantir mais presença numérica na zona da bola, sempre e apenas quando esta entrava no último terço. Não foi uma opção brilhante, a de Couceiro, mas é indiscutível que produziu os resultados pretendidos, porque nem o Porto teve muitas ocasiões claras para marcar, nem o Estoril deixou de ter as suas. Mas há outro pormenor a focar aqui e que tem a ver com as exibições individuais dos defensores do Estoril. É que defendendo desta forma, muito baixo e com muita gente, cada jogador fica com uma área muito pouco extensa para controlar, o que facilita de sobremaneira a tarefa individual de cada jogador no seu espaço. Não estou com isto a querer menorizar as exibições individuais dos jogadores do Estoril, mas como tenho defendido parece-me fundamental considerar o contexto nas apreciações individuais...

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6.11.14

Notas da Champions #4

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Benfica - Mónaco
Uma jornada muito importante para o Benfica, abrindo repentinamente as hipóteses de apuramento, quando estas pareciam já muito complicadas. A vitória foi, obviamente, a componente mais importante para esta inversão de cenário, mas também o resultado de São Petersburgo veio ajudar muito as aspirações encarnadas para as duas jornadas finais. Isto, porque existe agora uma forte hipótese do Leverkusen visitar a Luz com o primeiro lugar garantido, na última jornada, o que poderá vir a ser um factor decisivo para um apuramento que se disputará em apenas 2 jogos, qualquer deles muito complicado para as equipas envolvidas. Logo veremos se este cenário se confirma...

Relativamente ao jogo, diria que foi uma vitória feliz do Benfica, uma vez que me parece que no essencial as equipas se equivaleram nos 90 minutos. Aliás, na minha opinião foi inclusivamente no período em que o Mónaco mais se conseguiu impor - segunda parte - que o Benfica conseguiu resgatar os ambicionados 3 pontos. Isto, depois de uma primeira parte onde a equipa de Jardim conseguiu neutralizar relativamente bem o ascendente do Benfica, mas onde fora também muito curta em termos ofensivos. Na segunda parte, porém, as dificuldades do Benfica foram maiores, em parte por mérito do próprio Mónaco que encontrou melhor enquadramento para as suas iniciativas atacantes, nomeadamente explorando a vantagem no duelo entre Ferreira Carrasco com André Almeida, mas também por alguma ansiedade do próprio Benfica que, pela urgência de conseguir um golo, passou a verticalizar muito mais, partindo o jogo e perdendo também alguma presença e qualidade em posse. Se o Benfica levou a melhor neste período, foi sobretudo por um capricho de eficácia. Bem mais positiva, do meu ponto de vista, foi a gestão que a equipa fez do jogo após o golo, não oferecendo qualquer margem de reacção ao Mónaco.

No capítulo individual, uma nota sobre Talisca, sobre quem havia escrito que dificilmente poderia continuar a marcar com a mesma assiduidade por muito tempo. O brasileiro parece determinado em contrariar a minha projecção, e tenho de reconhecer que é de facto um notável executante, que vem crescendo notoriamente em confiança. O problema poderá não ser tão simples como havia formulado, mas mantenho no essencial a minha perspectiva. Ou seja, continua a não me parecer muito provável que Talisca possa perpetuar a veia goleadora (ao ponto de discutir o título de melhor marcador do campeonato, por exemplo, uma vez que não desfruta de um número suficientemente elevado de ocasiões), e continua-me também a parecer um jogador muito mais forte em termos técnicos do que em termos de movimentações sem bola, ficando notoriamente mais confortável nas acções de ataque rápido ou contra ataque, onde o espaço é maior.

Sporting - Schalke 
Tal como para o Benfica, esta foi uma jornada muito importante, tanto por mérito próprio como pelo resultado do outro jogo do grupo, que garante que o Chelsea não possa abordar a visita a Gelsenkirchen sob um cenário de apuramento garantido. Se o Sporting vencer o Maribor - o que não é um dado adquirido, note-se - disputará o apuramento na última jornada e terá cumprido o essencial das expectativas relativamente a esta competição, onde foi vitima de dois episódios atípicos nos minutos finais de duas partidas e que acabaram por condicionar muito as suas aspirações relativamente ao apuramento.

Quanto ao jogo, foi mais um festival de golos entre estas duas equipas, mas devo também assinalar que nestes dois duelos entre Sporting e Schalke, o número de golos tem mais que ver com a elevada eficácia das equipas do que com uma quantidade desproporcionada de ocasiões desfrutadas. Em especial relativamente ao jogo de Gelsenkirschen, já que este teve um número superior de ocasiões para ambos os lados. De facto, e sem pôr aqui em causa o mérito que o Sporting teve na vitória que conseguiu, ficaram mais uma vez patentes as dificuldades de controlo defensivo da equipa. Há vários pontos que no meu entender justificam revisão no comportamento colectivo, mas destacaria o que se passou na etapa final do jogo, em particular após 2-1. O Sporting baixou declaradamente a sua linha média, protegendo-se mais no espaço entre sectores, mas nem por isso deixou de ser sucessivamente exposto pelas ofensivas alemãs, que de forma algo repetitiva foram encontrando espaços no último reduto do Sporting. A jogada que caracterizou este período foi a abertura larga, do meio para as costas dos laterais do Sporting, potenciando depois os espaços dentro da linha defensiva do Sporting - em particular entre lateral e central - com movimentos de jogadores alemães vindos de trás e quase sempre sem controlo por parte da linha média. Foi assim que o Schalke marcou o segundo golo, e foi assim também que potenciou outras situações de cruzamento algo perigosas. Sobre isto, duas notas. A primeira tem a ver com a preparação estratégica do Sporting, já que esta forma de atacar foi tão repetitiva que sugere ser recorrente no jogo do Schalke e, logo, possivelmente deveria ter havido uma resposta específica por parte do Sporting (sublinho que não conheço a equipa ao ponto de poder a afirmar que era, de facto, antecipável, mas ficou toda a ideia de que se tratou de um movimento recorrente, pela frequência com que foi tentado). A segunda tem a ver com a má relação intersectorial do bloco defensivo do Sporting, isto é com a capacidade da linha média reagir quando a bola entra no espaço da última linha, nomeadamente com movimentos de jogadores vindos de trás, e por isso criando superioridade nesse espaço.

A título individual, nota para dois casos. Primeiro, o de Jefferson que tal como já havia escrito me parece realmente uma solução superior a Jonathan. O argentino, e ao contrário do que vi ser sugerido, não me parece garantir maior segurança defensiva do que Jefferson, e não oferece de forma alguma o mesmo potencial de execução técnica do brasileiro. Nomeadamente, ao nível das bolas paradas, isso poderá fazer alguma diferença, não tendo o Sporting outro canhoto com a mesma qualidade de execução. A segunda nota vai para Slimani e para o último golo, que poupou boa parte da aceleração cardíaca que se antecipava para os últimos minutos. Normalmente, os treinadores têm tendência para substituir os avançados, quase que por defeito, em algum período da segunda parte. Marco Silva não o fez, e a meu ver muito bem, já que duvido que Montero tivesse a mesma capacidade para atacar o espaço com aquela profundidade. Montero terá mais qualidade técnica, não discuto, mas não se envolve no jogo com a mesma frequência do argelino, que ganha ainda mais vantagem neste confronto quando o jogo oferece espaços para atacar, como foi o caso dos minutos finais. Já o referi, e volto a sublinhar, Slimani parece-me um valor indiscutível e do qual o Sporting poderá vir a retirar muitos proveitos (desportivos, não me entendam mal), e vejo como uma óptima notícia que Marco Silva também pense da mesma maneira.

Ath Bilbao - Porto
Poderia usar um dos habituais "clichés" para este tipo de exibição, do tipo "equipa adulta" ou "exibição personalizada", mas vou tentar ser mais concreto na minha apreciação ao jogo e à performance da equipa de Lopetegui. Assim, sobretudo, esta foi uma exibição muito conseguida do ponto de vista defensivo, não apenas pelo número reduzido de ocasiões consentidas, mas sobretudo pela escassez com que o Bilbao foi autorizado a ameaçar a última linha portista, num registo semelhante ao que tipicamente se encontra num vulgar jogo no Dragão, para o campeonato (por exemplo, o Nacional foi neste aspecto bem mais ameaçador no Dragão do que o Athletic, em Bilbao). E isto sem que a equipa o tivesse feito através de uma grande presença com bola, o que por um lado é negativo porque obviamente seria melhor que o tivesse conseguido, mas que vem também realçar a qualidade do desempenho defensivo, já que é bem mais complicado neutralizar desta forma um adversário quando não se tem uma grande superioridade em termos de presença em posse. E, com isto faço também um elogio ao treinador, já que se tendo Brahimi ou Jackson se pode pensar sempre em fazer golos, cabe ao treinador garantir que a equipa tenha também a organização para poder capitalizar esse talento individual e não desperdiça-lo com sobressaltos e golos sofridos do outro lado do campo. Assim, e com esta capacidade defensiva, o Porto será sempre uma equipa muito complicada de ultrapassar, seja qual for o adversário.

Menos positiva parece-me ser a exibição do ponto de vista ofensivo, com o Porto também a não conseguir uma grande eloquência da sua posse, isto apesar de ter criado um número considerável de ocasiões, o que não resultou tanto da frequência com que ameaçou o último reduto do Bilbao, como seria desejável, mas mais por um bom aproveitament circunstancial de lances de bola parada e rasgos individuais. A este respeito, nota para a estratégia da equipa, claramente avessa a assumir grandes riscos na sua circulação baixa, e perante um adversário que previsivelmente seria muito agressivo na pressão mais alta. Lopetegui, possivelmente escaldado depois de tantos erros a tentar sair de forma apoiada, preferiu chamar os bascos e depois solicitar a qualidade de Jackson, actuando como "pivot", nas costas dos médios contrários. A equipa deu-se bem e não estou a questionar esta opção perante as dificuldades recentemente verificadas, mas se defensivamente a equipa deu um excelente sinal, parece continuar a haver algum trabalho a realizar no que diz respeito ao jogo interior.

Como notas individuais, realço dois casos. Primeiro, Casemiro. Têm sido frequentes os reparos à agressividade do jogador, mas eu pessoalmente não vejo nenhum problema nisso. Pelo contrário, porque se para quem ataca é muito importante conseguir enquadrar em linhas mais adiantadas, para quem defende é fundamental evitar que isso aconteça e para isso torna-se decisiva a capacidade de imposição dos defesas e médios defensivos nos duelos que travam. Desde que essa agressividade seja usada com critério, será sempre benéfica para as aspirações da equipa, mesmo que custe alguns amarelos ao jogador (se existem 3 substituições, será também para este tipo de situações e não, digo eu, para trocar extremo por extremo ou avançado por avançado!). Ou seja, Casemiro parece-me bastante bem defensivamente, e precisamente pela agressividade e capacidade de intervenção que tem revelado no espaço que se pede que controle. Menos positivo, por outro lado, é o seu contributo para a posse da equipa, parecendo-me um jogador muito inseguro ao nível do passe, e tendo muita dificuldade em jogar dentro do bloco contrário. Ora, isto não vem facilitar em nada a missão de Lopetegui, que provavelmente terá de equacionar cada vez mais a hipótese de baixar Casemiro para a primeira linha, na fase de construção, e trabalhar outras alternativas para a sua saída de bola. O outro caso que gostaria de abordar é do Quintero. O colombiano tinha conquistado a titularidade nos últimos jogos, e tinha a curiosidade de perceber se Lopetegui manteria essa opção para este jogo, o que previsivelmente não aconteceu. Ou seja, Lopetegui parece estar de acordo com a minha perspectiva de que Quintero oferece um potencial enorme ao jogo ofensivo da equipa, mas não terá ainda conseguido integrar essa mais valia ao ponto de lhe fazer confiança em todo e qualquer jogo. Esse continua a ser, na minha opinião, um dos maiores e mais valiosos desafios que o treinador tem pela frente.

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