7.7.14

A caminho do Maracanã #18 (antevisão 1/2 Final)

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Brasil – Alemanha 
Começando pelo que se passou nos quartos-de-final, e relativamente ao Brasil, diria que o jogo acabou por ser um espelho muito fiel da antevisão que havia feito. Dir-se-á que o Brasil realizou a sua melhor exibição neste Mundial, mas a verdade é que já também frente ao Chile os brasileiros haviam tido uma entrada muito mais forte no jogo, ganhando igualmente vantagem num lance de bola parada. A diferença, e por muito que isto seja contra-intuitivo, reside essencialmente na evolução do marcador e no golo que os brasileiros ofereceram ao Chile, e não à Colômbia. Porque se a Colômbia também tivesse logrado o empate, certamente que não seria fácil aos brasileiros recuperar a intensidade que serviu de alicerce à importante vantagem inicial. Seja como for, é esta a mais do que previsível matriz do jogo brasileiro, assente num forte pressing defensivo que serve igualmente de base para as suas iniciativas ofensivas, que se pretendem tão rápidas e verticais quanto possível, e mesmo que Scolari venha a mudar de intérpretes ou mesmo de estrutura, será sempre esta a sua primeira fórmula para chegar ao sucesso.

Quanto à Alemanha, a eliminatória frente à França também não fugiu muito do que se esperava. Mais posse alemã, mais verticalidade francesa. Aqui, e tal como já havia sucedido frente a Portugal, a eficácia voltou a favorecer as aspirações germânicas, oferecendo-lhes uma vantagem precoce num jogo até aí equilibrado. Que jogo e que resposta alemã teríamos se o cenário tivesse sido inverso? Isso, nunca saberemos. Seja como for, há um aspecto que me parece interessante explorar na abordagem de Low, não tanto relativamente ao mais óbvio ganho com a presença de Lahm como lateral, mas mais no que respeita à inclusão de Klose. Pessoalmente, parece-me que a Alemanha ganha em ter o seu veterano como referência ofensiva, especialmente perante linhas defensivas menos agressivas no encurtamento do espaço à sua frente, como foi o caso da França e será também do Brasil. Explicando melhor, uma linha defensiva com algum receio de expor o espaço na profundidade terá tendência a ser arrastada pela presença de um jogador mais profundo, mesmo que muito posicional, como é o caso de Klose. Assim, e mesmo sem intervir muito no jogo, a presença de Klose parece-me poder ser muito útil pelo espaço que tende a abrir na frente da linha defensiva, o que para uma equipa que aposta tanto no jogo interior, como é o caso da Alemanha, pode ser obviamente um detalhe muito importante. Se a linha defensiva tivesse outro comportamento, naturalmente mais destemida relativamente ao espaço oferecido nas suas costas (como foi o caso de Portugal ou será da Holanda, caso a final de 74 se repita), aí talvez não faça tanto sentido a presença deste tipo de jogador para este tipo de efeito.

Enfim, sobre o duelo propriamente dito, não consigo deixar de atribuir maior favoritismo à Alemanha, basicamente pelos mesmos motivos que expliquei na antevisão do jogo com a França. Ou seja, é a Alemanha quem tem mais qualidade para ter bola, e sendo assim será também a equipa com mais possibilidade de controlar os destinos do jogo. Não desfazendo, porém, convém realçar que o Brasil tem nos alemães o adversário perfeito para o estilo de jogo que preconiza, e que isso não pode ser menosprezado. Os alemães são mais fortes em posse, é verdade, mas para o Brasil essa é uma batalha com peso quase irrelevante na sua estratégia de jogo. Resta saber, pois, quem conseguirá maior eficácia na afirmação destes dois estilos contrastantes. Sobre quem levará a melhor, lamento, não consigo ter opiniões muito vincadas, apenas diria que ambos terão pela frente, à partida, o teste mais complicado desta prova até aqui. Para finalizar, é-me impossível não referenciar a importância da perda de Neymar para o Brasil, que representa um abalo significativo nas aspirações canarinhas. No quadro apresentado com o texto, Neymar aparece com 56% de intervenção nas ocasiões da equipa, e isso resume basicamente tudo aquilo que há para dizer sobre o assunto.

Holanda – Argentina
 A Argentina aparece neste Mundial com um perfil bastante semelhante ao dos brasileiros, num registo táctico muito característico dos sul americanos, tal como já diversas vezes escrevi. Diria que os argentinos serão, apesar de tudo, colectivamente inferiores aos seus rivais continentais, mas que são sem dúvida bem mais candidatos ao título do que há 4 anos, quando com Maradona apresentaram um registo quase diametralmente oposto ao actual. Um exemplo do porquê desta minha última afirmação está no jogo dos quartos de final, frente à Bélgica. Os argentinos, note-se, não fizeram mais do que o seu adversário para merecer a qualificação, mas foram presentados com um golo fortuito e descontextualizado com a forma como as duas equipas se iam conseguindo anular mutuamente, conseguindo depois bloquear o jogo e o resultado, através de um equilíbrio posicional quase obcessivo, essencialmente assente na densidade numérica. Há 4 anos, parece-me, o 1-0 que Higuain conseguiu teria sido uma vantagem bem menos decisiva para a Argentina de então. Uma nota sobre o jogo argentino, relativamente à falta de coerência colectiva na forma como Messi é chamado a intervir no jogo. O 10 tende a baixar para assumir a posse em linhas mais baixas, mas a Argentina parece ser uma equipa demasiado estática para esse tipo de movimento, mantendo 2 médios posicionais e nem sequer projectando muito os laterais. O resultado óbvio é que quando Messi recua, à sua frente ficam normalmente não mais do que 2 jogadores, em franca inferioridade numérica, o que dificulta muito a criação de linhas de passe que possam permitir à equipa progredir a partir desta situação de jogo. A meu ver, está aqui um bom exemplo de como todo o potencial de um bom movimento individual pode ser esgotado se não houver o correspondente contexto colectivo.

Quanto à Holanda, surpreende mais que tenha de ter passado pelos penáltis do que propriamente que tenha chegado às meias finais. Nem sempre foi assim neste Mundial, mas no caso dos quartos de final, grande parte do que se passou foi ao encontro daquilo que escrevi e que me parecia ser mais previsível. Também por essa previsibilidade, não há muito a acrescentar ao que já escrevi sobre a equipa holandesa, que no meio de tantos defeitos que lhe podem ser identificáveis, é sem dúvida a equipa que mais superou as expectativas entre as que marcam presença nas meias finais. Como disse Van Gaal, revelando mais uma vez uma enorme consciência do contexto que tinha pela frente, a Holanda não poderá rivalizar com a qualidade e competência de outros, mas será uma equipa certamente complicada de bater, e o perfil de jogo idealizado pelo seu treinador, goste-se ou não do estilo, será já um dos casos de sucesso desta prova.

Relativamente a esta segunda meia final, não posso antever outra coisa que não seja um jogo fechado e de muito pouco risco, de parte a parte. E será assim pelo menos até que o resultado se desbloqueie e o tempo comece a escassear. É possível que a Holanda consiga afirmar-se no jogo com bola, apesar da sua vocação para jogar no momento de transição. Isto, porque não vislumbro como provável que os argentinos tenham presença pressionante suficiente para condicionar a circulação baixa holandesa, nomeadamente a largura da sua linha de 3. Isto, porém, não deverá conduzir a mais do que uma posse estéril, já que nem a Holanda tem revelado qualidade para criar muito em organização, nem a Argentina se tem desposicionado 1 milímetro que seja na sua zona mais recuada. Aliás, nesta hipótese dos holandeses terem mais tempo em posse, vejo mais risco (perda e transição) do que potencial. A melhor hipótese dos holandeses, por isso, parece-me residir no momento de transição, e no pressing efectuado no corredor central, onde a posse argentina também não se tem revelado especialmente fluída. Se a Holanda conseguir alguma eficácia na sua zona de pressão, então Robben e Van Persie poderão voltar a ser letais. Do lado argentino, o grande potencial está no comportamento da linha defensiva contrária. Se Messi não for controlado nas suas aparições entrelinhas e houver movimentos de rotura na profundidade, como complemento, então não é difícil de adivinhar dificuldades para os holandeses. A Argentina, claro, tem mais do que recursos para conseguir explorar esta fragilidade do seu opositor, mas o problema surge naquilo que descrevi acima. Ou seja, os movimentos individuais de Messi são normalmente adinâmicos e, por isso, relativamente fáceis de antecipar por quem defende. Estou curioso para verificar a resposta de ambas as equipas neste detalhe específico, até porque penso que muito do que será o jogo poderá passar por aqui. Finalmente, referência para a ausência de Di Maria, que será sem dúvida uma perda importante para a Argentina. Ainda assim, não creio que tenha nem de perto o peso específico de Messi na própria Argentina ou, noutras selecções ainda em prova, de Robben na Holanda e Neymar no Brasil.



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3.7.14

A caminho do Maracanã #17 (antevisão 1/4 Final)

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França - Alemanha
Se este embate tivesse acontecido antes do Mundial e em solo europeu, seria bastante mais evidente o favoritismo alemão. Acontece, porém, que a França tem vindo a conquistar algum crédito num Mundial que, ainda por cima, tem sido fortemente marcado pelos efeitos das condições atmosféricas. E podemos começar por aqui, pela meterologia, porque ao que tudo indica a partida vai-se jogar debaixo de quase 30ºC, sol a pino e uma humidade considerável, o que deverá perfazer uma sensação térmica, digamos eufemisticamente, não muito favorável para os praticantes. Este será, não tenho dúvidas, um primeiro factor condicionante do jogo e das aspirações das equipas, mas haverá outros...
No futebol é sempre complicado distinguir um momento do jogo como o mais importante, mas olhando para as características das equipas não é muito difícil antever a relevância do que vier a acontecer na fase de organização alemã. A equipa de Low será, depois da eliminação precoce da Espanha, a equipa que mais capacidade tem para se socorrer da posse de bola, como forma de imposição no jogo. E é esta capacidade, fundamentalmente, que lhe oferece uma boa dose de favoritismo à partida, porque quem tem mais bola e mais domínio, terá tendencialmente mais hipóteses de controlar também os destinos do jogo. As dúvidas, porém, começam aqui. Ou seja, a Alemanha, e apesar da qualidade que indiscutivelmente se lhe reconhece, assume um jogo muito exigente a vários níveis, nomeadamente na capacidade de criar espaços em blocos densos, e na resiliência da sua circulação. Ora, é especialmente neste último ponto que os alemães têm deixado muitas reticências relativamente à sua capacidade de cumprir as elevadas exigências da sua proposta de jogo. Em praticamente todos os jogos - mesmo naqueles em que foram mais bem sucedidos, como frente a Portugal - os alemães têm-se revelado vulneráveis na sua presença em posse, acumulando algumas perdas comprometedoras, e nem sempre revelando a paciência e critério exigiveis para quem assume este estilo. Isto, claro, para além das dúvidas que ainda me persistem, não só sobre a evidente falta de largura do jogo germânico, mas também relativamente à ausência de um jogador com características mais clássicas na posição 9. A capacidade física francesa e as condições climatéricas afiguram-se, por tudo isto, como um assinalável obstáculo à maior qualidade técnica que indiscutivelmente o jogo alemão apresenta. Será interessante, a este nível, verificar o contraste entre dois candidatos com estilos bastante diferentes. Até que ponto a posse elaborada vai ser capaz de atrair e desorganizar o impulsivo pressing francês? Ou, noutro sentido, como lidará a Alemanha com a verticalidade do seu adversário, tanto em organização como em transição?

Brasil - Colômbia
Mais um jogo entre equipas sul americanas e, de acordo com o que venho escrevendo em relação à abordagem táctica característica daquele continente, isso deverá determinar que venhamos a ter duas formações relativamente prudentes relativamente ao posicionamento das suas unidades mais recuadas.
O Brasil, goste-se ou não do estilo, justifica um favoritismo, a meu ver, assinalável. Isto não quer dizer, porém, que venhamos a ter uma equipa bastante mais dominadora do que a outra, aliás, até se poderá dar o caso de ser a própria Colômbia a assumir grande parte do tempo de jogo, em organização ofensiva. O que, diga-se, até pode ser bom para o Brasil, dadas as características dos seus jogadores e da sua identidade colectiva. A este respeito, se o Brasil conseguir fazer um jogo semelhante ao que fez na primeira parte frente ao Chile, onde fundamentalmente tirou partido da zona defensiva que criou, como ponto de partida para as suas saídas em transição, estou em crer que terá boas hipóteses de ganhar uma vantagem importante no jogo. Resta saber de que forma reagirá a Colômbia a esta matreirice do seu adversário, porque se a equipa conseguir um bom jogo posicional e bom controlo dos momentos de transição (que se fará, essencialmente na gestão da sua posse), então terá de facto muito boas hipóteses de acabar definitivamente com as unhas dos brasileiros, já muito roídas, depois do jogo com o Chile. Mas não estou nada seguro relativamente à resposta colombiana.
Há um ponto que me parece interessante explorar, e que tem a ver com os equilíbrios nos corredores laterais. Tanto o Brasil como a Colômbia apresentam extremos muito ofensivos e, sobretudo, laterais de grande projecção. Ora, isto pode provocar desequilíbrios, porque tanto nos momentos de organização como transição, são as características ofensivas a parecer ter mais condições para prevalecer. Veremos se será por aqui que algum cântaro se parte...

Argentina - Bélgica
Mais um jogo a ser disputado na hora de maior calor, mas o facto de ser em Brasília, onde tanto a temperatura como a humidade são bem mais generosas para os jogadores nesta altura do ano, retira grande parte dos problemas que os factores climatéricos têm provocado neste Mundial. Para quem é que isso será menos mau? Sem ter a certeza, por não ser seguro que tipo de jogo teremos, diria que para a Argentina.
A Bélgica é, incomparavelmente, mais forte do que qualquer dos adversários que os argentinos tiveram até aqui. Isto pode até fazer com que a Argentina possa encontrar condições para ter um desempenho relativo melhor (ou seja, comparativamente com as expectativas). Isto, porque estou convencido de que esta equipa argentina se sentirá mais confortável quando também puder fazer uso do momento de transição com mais frequência, o que não sucedeu até aqui. A questão, aqui, é se a Bélgica irá ou não assumir uma postura muito diferente do que fez a Suíça, por exemplo. Pessoalmente, estou inclinado para pensar que não será muito distinta, e que os belgas provavelmente tentarão, primeiro, assumir pouco risco posicional para tentar depois aproveitar muito o momento de transição para fazer estragos. Se isso acontecer, o mais provável é que voltaremos a ter um jogo complicado para os argentinos, mesmo tendo mais bola e presença territorial, porque de facto a resposta dada até aqui dentro desse registo tem sido muito modesta e, claro, o adversário será assinalavelmente mais forte. Não é de excluir, dentro deste cenário, a possibilidade de assistirmos ao paradoxo de termos várias unidades de grande capacidade ofensiva em campo, e no entanto sermos presentados com um jogo de poucas ocasiões de golo. Isto, claro, caso o resultado persista no nulo, porque o risco e o espaço aparecerá seguramente, assim que a bola entre numa das balizas.
Uma nota para a Bélgica, que tal como a Argentina fez uma fase de grupos aquém do esperado, apesar das vitórias conseguidas. Os oitavos de final, porém, foram bem diferentes e o número de ocasiões criadas frente aos Estados Unidos foi dos mais expressivos da prova, até agora. Aqui, ter-se-á de considerar também alguma fragilidade do adversário, que como fui escrevendo foi das equipas mais felizes no apuramento conquistado, nomeadamente na forma como bateu o Gana e contou ainda com a externalidade da derrocada portuguesa no jogo de abertura. Ainda assim, foi sem dúvida um bom sinal de vitalidade por parte da Bélgica.

Holanda - Costa Rica
Mesmo considerando a boa prestação da Costa Rica, este não deixa de ser o embate, à partida, mais desequilibrado destes quartos de final. Estou em crer que qualquer das equipas apostará na mesma disposição táctica, o que a acontecer determinará novo confronto entre duas equipas a utilizar 3 centrais.
Relativamente às características do jogo, penso que as hipóteses ofensivas da Costa Rica passarão muito pela sua capacidade de expor as fragilidades comportamentais dos defesas holandeses, nomeadamente a sua última linha. Para tal, será decisivo tanto conseguir boas movimentações de rotura, como libertar os criativos da pressão que certamente os holandeses tentarão fazer no corredor central. Na minha leitura, porém, isto não será fácil, porque a Costa Rica depende muito de 3 jogadores, sendo que se não envolver outros elementos dificilmente se conseguirá soltar de uma defensiva holandesa que, apesar de não ser muito competente, é certamente bastante numerosa. Por outro lado, Campbell parece-me mais vocacionado para receber no pé do que para fazer movimentos no espaço, e se for esse o caso, será difícil ter sucesso.
Do outro lado, e mesmo se sofreu bastante frente à Grécia, a Costa Rica tem-se dado inesperadamente bem com as características da sua linha defensiva, neste Mundial. Em particular, com o uso do fora-de-jogo. Ainda assim, parece-me que há alguma fragilidade nesse comportamento, que não tem sido bem explorado pelos seus adversários até aqui. Se Sneijder baixar - num movimento que parece pouco coerente, mas que neste contexto até poderá criar estragos - e se libertar da pressão do meio campo costarriquenho, então poderá haver condições para que as costas da linha defensiva sejam exploradas, sendo Van Persie forte nesse tipo de movimento. Por outro lado, caso a Holanda opte por assumir mais risco no jogo, e olhando para as dificuldades que a Costa Rica sentiu frente à Grécia, também não consigo imaginar muito conforto perante um Robben até aqui intratável, ou mesmo perante o jogo interior de Van Persie ou Huntelaar. Ou seja, parece-me que a hipótese de novo milagre costarriquenho terá de voltar a passar em grande medida pela inspiração de Keylor Navas.

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2.7.14

A caminho do Maracanã #16

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Deixo, a título de curiosidade, um exercício que compara as ocasiões de golo de cada selecção (a favor e contra) com o que delas era esperado à luz das expectativas que foram criadas em cada jogo. Das 8 equipas ainda em prova, nota para o mau registo de Argentina e Brasil, o que confirma sobretudo o elevado potencial que se reconhece a cada um destes conjuntos. Destaque ainda para o facto das equipas que aparecem melhor classificadas nesta análise serem Grécia e Irão, ambas orientadas por treinadores portugueses. Saliência ainda para o caso da Bélgica, que depois de uma fase de grupos bastante discreta conseguiu um jogo muito expressivo no que respeita a ocasiões de golo criadas, nos oitavos de final.

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30.6.14

A caminho do Maracanã #15 (Holanda - México)

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Devo começar por dizer que apreciei bastante este jogo. Porque o seu inicio nos presenteou com duas equipas que, jogando no mesmo sistema, mostraram dinâmicas substancialmente diferentes (uma melhor do que a outra, como explicarei mais abaixo), e porque depois do primeiro golo essas características se alteraram radicalmente, culminando num final que figurará certamente entre as histórias mais marcantes desta prova. Mas, vamos por pontos...

O 3-5-2, as suas implicações, e as diferenças entre as duas equipas
Na verdade, o sistema não é exactamente idêntico, entre México e Holanda, com uma diferença importante no papel dos médios. Enquanto que o médio central do México (no caso, Salcido) é o mais posicional, o da Holanda (Sneijder) era aquele que mais se aproximava dos avançados, podendo-se até falar em 3-4-3, na minha perspectiva. Enfim, para o caso isso não é muito relevante, porque aquilo que quero abordar passa sobretudo pelas implicações de jogar com 3 centrais, em particular na fase de construção. Esta opção, de ter 3 elementos na fase de construção tem-se revelado bastante proveitosa para as equipas que a têm utilizado neste Mundial, porque dificulta muito a missão de quem pressiona, sendo normalmente garantia de alguns metros de terreno, em termos de presença posicional de quem ataca. Neste sentido, e até por não ser uma opção exclusiva dos sistemas de 3 defesas, creio que será uma opção com tendência a ser cada vez mais explorada pelos treinadores nos próximos tempos, mais não seja pela propaganda que este Mundial tem sido a esse respeito.
Aqui, porém, há que traçar as diferenças entre o que fez o México e a Holanda. O México, bem mais preparado nas suas dinâmicas, com alas de maior vocação ofensiva, médios mais móveis no corredor central e, sobretudo, centrais com mais propensão para assumir o jogo em posse, nomeadamente na capacidade de provocar com bola, sempre que o espaço lhes é oferecido. A Holanda, por outro lado, a ter alas e médios demasiado posicionais e centrais pouco afoitos para provocar com bola, vendo ainda o seu 10 (Sneijder) a baixar para a fase de construção, o que reduziu depois o número de linhas de passe dentro do bloco adversário, por onde a Holanda praticamente nunca conseguiu jogar. Por aqui passou, na minha leitura, grande parte da diferença de qualidade entre México e Holanda, na primeira parte, com clara vantagem para as dinâmicas mexicanas. Já agora, é interessante o ponto contacto entre estes dois países, com 3 jogadores mexicanos (Salcido, Moreno e Rodriguez) a terem importantes passagens pelo futebol holandês, sendo todos eles centrais com capacidade de assumir o jogo em posse, uma característica tradicionalmente apreciada no futebol holandês.
Por fim, e sobre este sistema, notar que o principal motivo pelo qual os treinadores Van Gaal e Herrera o utilizam, e na minha interpretação, tem a ver com o momento de organização defensiva, e a possibilidade de acrescentar densidade numérica à sua linha mais recuada. O outro lado desta opção, porém, é que esta retira uma unidade de zonas mais adiantadas do terreno, o que tende a dificultar uma abordagem defensiva que pretenda ser mais pressionante numa extensão maior do terreno. A meu ver, desta implicação decorre o principal motivo pelo qual este continuará a ser um sistema de utilização residual no futebol europeu, onde o pressing alto faz todo o sentido para a generalidade das equipas, e também uma possível explicação para o seu sucesso neste Mundial, já que, devido às condições climatéricas, as equipas têm tido muitas dificuldades em manter um pressing alto eficaz, beneficiando claramente quem optou por priveligiar a protecção das suas zonas fundamentais, neste caso através de uma maior presença numérica.

Holanda, um candidato. Cheio de defeitos, é certo, mas um candidato!
Como escrevi acima, o futebol holandês foi tudo menos um modelo no que respeita às suas dinâmicas. No plano ofensivo, pelas razões que sumariamente descrevi, mas também no plano defensivo, onde não faltam pontos igualmente questionáveis, em especial no comportamento dos elementos dos sectores mais recuados. Mesmo depois do 0-1, e com a mudança táctica, a Holanda foi basicamente impulsiva, retirando bons frutos dessa abordagem, é certo, mas sem uma grande qualidade e organização no seu jogo. Fundamentalmente, tirou partido da incrível forma de Robben neste Mundial (dá ideia que a sua sensação térmica é sempre de menos 20ºC, relativamente aos outros jogadores!), e do esgotamento físico do meio campo mexicano, incapaz de responder à energia que os holandeses forçaram no jogo. E, claro, teve também a felicidade do seu lado.
Sobre isto, porém, quero deixar, como ponto de opinião, a ideia de que a Holanda pode, de facto, estar longe da perfeição relativamente à interpretação do sistema que escolheu, mas eu continuo a ver nesta uma excelente opção por parte de Van Gaal, para este Mundial, e já com muitos proveitos obtidos. Primeiro, porque a Holanda é realmente bastante medíocre nas suas unidades mais defensivas, e tentar mudar isso em 3 semanas de treino seria, provavelmente, uma utopia, servindo a densidade numérica dos 5 defesas para atenuar essa debilidade. Depois, pelas características desta competição, que era à partida especialmente difícil para a Holanda, que em face do sorteio da fase de grupos iria disputar vários jogos com equipas muito fortes tecnicamente e com uma grande presença em posse, sendo que Van Gaal montou uma ideia de jogo incomparavelmente mais forte a jogar a partir do momento de transição. Finalmente, e tal como escrevi acima, a questão do desgaste físico provocado pelo clima parece-me também ter favorecido este tipo de sistema, porque mesmo pedindo uma presença pressionante das suas unidades mais ofensivas, o equilíbrio numérico na sua zona mais recuada está sempre salvaguardado. Aliás, e apesar de ser uma selecção europeia, nada habituada a este tipo de condições, a Holanda tem sido das equipas menos penalizadas pelo factor climatérico neste Mundial, como aliás este jogo atestou muito bem, sendo que na minha leitura há uma grande importância da componente táctica na explicação deste "fenómeno". Em suma, mesmo com as debilidades tácticas que facilmente se lhe identificam, o facto é que a Holanda tem sido muito bem sucedida neste Mundial, estando já a 180 minutos de repetir nova final. Pessoalmente, e por tudo o que expliquei, estou convencido que se Van Gaal tivesse optado pelo seu sistema e modelo habituais, o mais provável é que estivesse nesta altura já a pensar na primeira jornada da Premier League 2014/15...

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29.6.14

A caminho do Maracanã #14

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Brasil - Chile
Por pouco não se dava mais um grande tombo - seria o maior de todos! - neste Mundial. O Brasil voltará a chamar a si todas as dúvidas e críticas sobre o seu futebol, que a quase ninguém impressiona. Ainda assim, volto a escrever o mesmo sobre este Brasil: realmente surpreendente seria se esta equipa apresentasse uma qualidade excepcional na sua presença em posse, e se essa limitação (que era conhecida) não foi suficiente para por em causa o favoritismo canarinho neste Mundial, então hoje este percurso terá de ser considerado natural e não surpreendente. Talvez a maior prova de força do Brasil seja facto de, mesmo sem impressionar ninguém, a equipa estar já a apenas 180 minutos da final...

Sobre o jogo, mais concretamente, diria que o Brasil teve uma boa entrada na partida, sobretudo com alguma astúcia do ponto de vista estratégico, na minha interpretação. Isto porque me parece ajustada a opção de não apostar tanto no condicionamento da primeira fase de construção chilena - que seria um objectivo mais complicado e arriscado - e optar, antes sim, por definir um bloco mais baixo, mas com uma grande presença pressionante sobre o jogo interior do Chile, por onde mais se orientava o futebol da equipa de Sampaoli. Ou seja, em vez de apostar tudo em ter bola, onde não é tão forte, o Brasil preferiu tentar potenciar o momento de transição, onde Neymar e Hulk são muito difíceis de parar. O jogo acabou por ter uma história bem diferente, é verdade, mas parece-me justo referir também que o Brasil conquistou, dentro desta sua abordagem ao jogo, uma situação que tinha tudo para lhe ser muito favorável na resolução da eliminatória. Isto porque chegou à vantagem, e mesmo sem ter bola, tinha o controlo sobre a circulação chilena, que nessa altura era mais um ponto de partida para as transições brasileiras do que propriamente para desequilíbrios do próprio Chile. Dentro desta perspectiva, facilmente se percebe a importância que atribuo ao golo do empate, primariamente oferecido pelos brasileiros. Porque se o jogo entrasse numa fase mais adiantada com a igualdade no marcador, o Brasil teria de assumir necessariamente outra postura, mais autoritária com bola, para a qual não está tão vocacionado, e porque o próprio Chile poderia, nesse contexto, corrigir alguns dos erros com que se ia deparando e controlar melhor o jogo, nomeadamente através da sua boa presença em posse. E, no fundo, foi isso mesmo que aconteceu...

Sobre o Chile, que sai agora da competição, devo dizer que, à luz do jogo que vira na fase de preparação (frente ao Egipto), tive receio de uma abordagem bem mais arriscada (ou suicida, para utilizar o termo de Vidal) relativamente ao posicionamento da sua linha defensiva. Sampaoli terá também percebido que esse não poderia ser o caminho, e a equipa chilena acabou por se apresentar mais cautelosa a esse nível, apesar de não ter abdicado nunca do seu arrojado pressing. Por outro lado, com bola e como era previsível, foi uma equipa difícil contrariar na sua circulação baixa, e com um grande foco na mobilidade dos seus avançados, nomeadamente sobre o corredor central. Em suma, foi uma boa equipa, que se bateu muito bem contra dois dos principais candidatos (por pouco não os eliminou aos dois!), é verdade, mas que também revelou algumas fragilidades, nomeadamente alguma dependência da criatividade de Alexis (que neste Mundial provou que poderia ser bem mais do que uma espécie de sombra de Messi) e, claro, o jogo aéreo, o capítulo que mais penalizou a equipa e que certamente continuaria a ser um forte handicap para as suas aspirações, caso tivesse tido outra sorte nos penáltis.

Colômbia - Uruguai
No segundo jogo desta espécie de Copa América em pleno do Mundial, a Colômbia partia com um favoritismo que à partida, confesso, me pareceu exagerado. Sem dúvida que era do seu lado que estavam as unidades mais criativas e com maior capacidade de desequilíbrio, e também não discordo da importância da ausência de Suarez, cujo peso especifico já tinha abordado aqui. Mas este podia também ser perfeitamente um jogo ao jeito do Uruguai, que mesmo sem os mesmo argumentos técnicos tinha capacidade para ser bem sucedido num jogo assente no condicionamento defensivo e no momento de transição, um papel onde tantas vezes esta equipa se deu bem. Há duas notas fundamentais para mim, sobre esta partida. A primeira para o posicionamento do bloco do Uruguai que, mesmo numa estratégia assumidamente mais cautelosa, me pareceu excessivamente baixo e limitador em termos de possibilidade de gerir também o jogo com bola, o que me parecia importante. A segunda, claro, para James Rodriguez. Porque, mesmo com todo o domínio territorial exercido, a verdade é que o Uruguai foi conservando um bom controlo defensivo sobre as ofensivas do seu adversário, que fundamentalmente havia repetido finalizações exteriores. No fim, o resultado oferece-nos o conforto de poder analisar o jogo partindo da certeza sobre a superioridade colombiana na partida, mas não fosse o génio - outra vez ele! - de James Rodriguez, e a verdade é que poderíamos perfeitamente ter assistido a uma partida muito diferente e de resultado bem mais incerto. Sobre James, de resto, parece-me que a sua candidatura a melhor jogador do Mundial está confirmada com mais esta exibição, não sendo de excluir um assédio ao jogador por parte dos principais emblemas europeus, assim termine o Mundial.

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28.6.14

A caminho do Maracanã #13 (Dados 1ª Fase)

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Dados Colectivos


Como nota prévia, devo referir que as fontes de recolha de dados não são as oficiais, pelo que eventuais diferenças com outros dados, derivarão desse facto.
Os dados pretendem, de um modo geral, ser auto-explicativos, pelo que não serão precisos grandes comentários. Ainda assim, nota para o facto de praticamente todas as equipas apuradas estarem no grupo de equipas com melhor % de ocasiões de golo nos respectivos jogos. As excepções são - para mal de Portugal - os Estados Unidos e a Nigéria. No caso dos Estados Unidos, houve sobretudo uma grande felicidade relativamente ao jogo com o Gana, onde a equipa americana conseguiu uma vitória decisiva fundamentalmente através de um grande aproveitamento das poucas ocasiões criadas. Relativamente à Nigéria, o jogo frente à Bósnia acabou por ser o factor determinante no apuramento. Ainda no grupo F, é interessante o caso do Irão de Carlos Queiroz, que apesar de ter sido a pior equipa em diversos indicadores, conseguiu um bom desempenho em termos de proximidade real com o golo, tanto em termos defensivos como ofensivos (o jogo com a Argentina será o caso mais evidente desta ideia).

Dados Individuais


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27.6.14

A caminho do Maracanã #12 (Portugal - Gana)

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O jogo com o Gana
Diz-se que este foi o melhor jogo de Portugal no Mundial, e até aqui creio que não haverá grande margem para discussão. Já me parecem menos consensuais, porém, muitas das explicações que tenho encontrado para as diferenças observadas. Em particular, estabelecer uma ligação directa entre as mudanças nas primeiras opções e as melhorias, tanto ao nível do resultado como da exibição, parece-me no mínimo forçado. O futebol é, já de si, um jogo demasiado complexo para este tipo de reducionismo, mas no caso há outros factores que neste jogo mudaram, relativamente aos anteriores. E não foram propriamente pormenores. O adversário, porque nem o Gana é a Alemanha, nem as suas dinâmicas causaram tantos problemas como as dos Estados Unidos. O sistema táctico, porque Paulo Bento apresentou um 4-1-3-2 (losango) que difere de todos os registos tácticos que havíamos visto até aqui. E, claro, o clima, porque Brasília era, particularmente ao nível da humidade, muito diferente dos dois cenários anteriores, sobretudo Manaus. Motivos mais do que suficientes, portanto, para que exista alguma prudência no isolamento de factores explicativos.

Quanto ao que se assistiu, pessoalmente saúdo a mudança táctica encetada, mesmo se obviamente haverá aspectos a aperfeiçoar em termos de dinâmicas colectivas. Sobretudo, e como já venho escrevendo há algum tempo, parece-me lógico que Ronaldo seja liberto de acompanhamentos defensivos sem que isso ponha em causa o equilíbrio estrutural da equipa, sendo que também é benéfica a sua mobilidade nas acções com bola, particularmente a maior proximidade do corredor central, seja como elemento de ligação, ou presença na zona de finalização. Haverá a tendência para culpabilizar Ronaldo pelos golos que não foi capaz de concretizar, mas eu tenho uma visão diferente. É certo que o acerto na finalização é decisivo para a definição dos resultados - não é isso que discuto, obviamente - mas na minha análise o que separou Ronaldo de uma exibição histórica terão sido apenas pormenores muito difíceis de controlar, sendo notável que tenha conseguido chamar a si tantas ocasiões claras de golo num só jogo (até agora e a esse nível, a exibição mais expressiva de um só jogador, neste Mundial). Enfim, não só por ele, mas muito por Ronaldo e pelas suas características, parece-me que este poderá ser um bom sistema a adoptar por parte da Selecção no futuro próximo.

Para além de Ronaldo, e do 4-1-3-2 (losango), e não me querendo alongar muito mais neste ponto, queria deixar outras notas sobre o jogo: 1) Para o comportamento da linha defensiva, que arriscou menos no seu adiantamento, permitindo que o jogo se partisse mais, mas mantendo-se mais organizada perto da área, onde contou sempre com a proximidade do pivot. 2) Para o papel de William, muito posicional e com uma exibição bastante conseguida, o que lhe deverá ter garantido a titularidade. 3) Para o regresso de Moutinho a uma exibição de grande intensidade, ao seu nível, apesar de ter tido alguns problemas ao nível do passe (a perda na origem do golo ganês é sua). 4) Para o péssimo jogo de Veloso em termos defensivos, repetindo as indicações deixadas no jogo com os Estados Unidos, nomeadamente ao nível do posicionamento e da falta de celeridade que denotou no encurtamento de espaços. 5) Para Eder, a outra exibição de muito baixa qualidade, sendo que Varela acabou por mostrar que também ele pode vir a ganhar espaço caso se opte por um sistema que peça maior mobilidade aos avançados.

As razões do mau Mundial, e o valor da equipa
Já se tem falado e escrito muito sobre os motivos do insucesso da campanha portuguesa, e creio que o tema ainda terá algumas semanas até ficar esgotado. Também já escrevi sobre isto, nomeadamente na sequência do jogo com os Estados Unidos, e correndo o risco de me repetir, destacaria estes dois pontos: 1) a especificidade da prova, que sendo de curta duração coloca sempre grande dependência em factores menos controláveis, havendo depois pouca margem para os corrigir. Ora, se há coisa que é fácil de encontrar na prestação portuguesa, são precisamente factores menos controláveis. 2) o desfasamento, a meu ver claro, entre as orientações tácticas do modelo português - nomeadamente a exigência física do pressing que pressupõe - e as condições climatéricas que os jogadores encontraram para o interpretar. Moutinho, por exemplo, destacou esse como o factor mais relevante para as diferenças na sua própria performance individual, o que vai de encontro à ideia que também já me ficara, sobretudo depois do jogo com os Estados Unidos. Poder-se-á aqui criticar a equipa técnica por não ter antecipado o problema, mas também é verdade que se viram poucos seleccionadores a ter essa visão, acabando por ser as selecções com menor arrojo de exposição espacial a ganhar com a situação.

Há, agora e em face do insucesso, a tendência para se desvalorizar potencial da equipa, colocando-a num patamar mediano, tal como assumiu o próprio Ronaldo, numas declarações a meu ver muito infelizes. Dada a especificidade do contexto e a aleatoriedade própria do jogo, não creio que este Mundial seja um motivo para que se mude muito a avaliação que era feita sobre esta equipa, da mesma forma que o Mundial de 2002 não serviu para concluir que todos aqueles jogadores não prestavam. Se começasse hoje o Mundial da Rússia, e com estas mesmas equipas, eu voltaria a colocar a Espanha entre o leque dos principais favoritos, e Portugal entre as equipas com uma palavra a dizer. A minha convicção só seria afectada se, de novo, o cenário fosse nos trópicos.

Paulo Bento e o futuro
Sobre Paulo Bento, devo dizer em primeiro lugar que penso que tanto a Federação como o próprio treinador teriam a ganhar se tivessem decidido antecipadamente por uma mudança de ciclo, após o Brasil. Não tem a ver com o treinador ou com a Federação, tem a ver com a cultura do país, onde o desgaste sobre os treinadores se acumula rapidamente, e quase sempre através de criticas muito forçadas. A decisão, porém, foi exactamente a oposta, e também não vejo especiais problemas por isso. Haveria outras soluções com capacidade para orientar a Selecção, sem dúvida, mas vejo com grande cepticismo a hipótese de se darem grandes melhorias apenas pela alteração do treinador. Pelo contrário, acho que o risco de haver um retrocesso até será grande, quando chegar a hora de escolher o seu sucessor. Pelo menos, é isso que me é sugerido quando olho para a lista dos seleccionadores que antecederam Paulo Bento.

Mais importante - bem mais importante! - do que a questão do seleccionador, é a questão do futuro da Selecção, em termos de jogadores. Todos estão alarmados com a falta de soluções de qualidade em gerações mais jovens, e eu não fujo a essa regra, sendo-me difícil antever outro cenário que não seja uma queda acentuada de qualidade na Selecção, e num prazo temporal já não muito distante. Sobre isto, porém, gostaria de acrescentar alguns pontos: 1) Esta equipa - que, reforço a ideia, me parece ter bastante qualidade - deverá ainda ter condições para fazer o próximo ciclo, que terminará em 2016, pelo que até lá e salvo qualquer imprevisto, ainda deverá haver motivos para ter boas expectativas relativamente ao desempenho da Selecção. 2) No futebol, as coisas mudam muito mais rapidamente do que pensamos, e se melhor exemplo fosse preciso, basta olhar para o que sucedeu em 2002, quando uma geração fantástica de jogadores parecia terminado o seu ciclo. A esse Mundial não foram Miguel, Ricardo Carvalho, Costinha, Maniche, Deco e Cristiano Ronaldo, mas a verdade é que todos eles foram titulares na final do Europeu, apenas dois anos depois, dando inicio a uma nova geração que, embora não tivesse um rótulo dourado a embalá-la, acabou por atingir resultados muito mais consistentes do que os talentos anteriores. Isto não quer dizer que seja lógico esperar que nova fornada de jogadores surja do nada, mas no futebol nem sempre o facto de não vermos qualquer luz ao fundo do túnel significa que não exista uma saída surpreendente prestes a aparecer. 3) A exigência em torno de Portugal aumentou muito nos últimos 20 anos, e hoje estamo-nos permanentemente a comparar com as melhores selecções da Europa, o que no passado era relativamente absurdo. Sobre isto, parece-me possível perspectivar boas, e por vezes até óptimas equipas, mas já não me parece muito realista a comparação com o leque de seleccionáveis de países muito mais populosos, e com uma base de praticantes incomparavelmente superior. Ou seja, será possível formar equipas competitivas, centradas em elites de 10-20 jogadores, sem dúvida, mas não me parece aconselhável pensar o futebol português com o objectivo de ser uma potência europeia, que pela sua dimensão natural, nunca poderá ser.

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23.6.14

A caminho do Maracanã #11 (EUA - Portugal)

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Há muito para dizer sobre o que aconteceu em Manaus, mas começaria pelo resultado, que me parece justo em face das ocasiões que ambas as equipas criaram, embora estas tenham tido prestações muito diferentes, com Portugal a sentir muito mais dificuldades do ponto de vista da organização e consistência colectiva. A este respeito, de resto, a exibição portuguesa foi absolutamente desastrosa, e até difícil de acreditar. E é sobre isto que, a meu ver, mais importa reflectir...

Mundial 2014, um universo paralelo?
À primeira vista, e olhando para este jogo, dir-se-ia que Portugal é uma equipa com enormes fragilidades defensivas, sobretudo a nível individual, tendo uma proposta de jogo completamente desajustada à sua realidade. Mas isso era se víssemos apenas este jogo. Já vimos outros, sendo o Euro'2012 o exemplo mais fácil de relembrar, onde esta mesma equipa sentiu menos problemas frente às duas melhores selecções europeias (Alemanha e Espanha), juntas e em 210 minutos, do que em 90 minutos frente aos Estados Unidos, neste Mundial. Depois, este também não é um problema singular da equipa portuguesa, mas transversal ao que se tem visto em praticamente toda esta prova. Ainda ontem escrevia sobre isso, e praticamente todos os dias somos surpreendidos com incidências altamente surpreendentes, em jogos onde o desnível esperado entre as equipas é enorme, mas em que depois o que se passa em campo diverge completamente dessa expectativa. A Espanha será o exemplo mais evidente, e em sentido contrário o da Costa Rica, mas esses serão sobretudo os casos em que o resultado acabou por ser claramente afectado, porque também já assistimos a jogos absolutamente inesperados onde o desfecho acabou por não ser tão chocante, como o Austrália - Holanda, o Alemanha - Gana ou o Argentina - Irão, só para citar alguns exemplos. Ora, é-me muito difícil explicar qualquer destes fenómenos que se vêm sucedendo, mas ao considerá-los a todos em conjunto torna-se muito plausível a existência de um factor comum entre todos, que creio terá a ver com as condições climatéricas que as equipas têm encontrado. E, aqui, há outro ponto característico deste Mundial, e que tem a ver com as dificuldades que as equipas vêm sentido para manter uma atitude pressionante eficaz. Não me lembro de ter visto nenhuma equipa a conseguir grandes proveitos de uma estratégia mais pressionante sobre a posse contrária (eventualmente com resultados pontuais, como no caso do Chile), e inúmeras vezes tem-se assistido mesmo a problemas de agressividade e ajustamento posicional dentro do próprio bloco defensivo. Neste último caso, o exemplo de Portugal neste jogo será dos mais flagrantes.

Portugal: Péssimo ajuste estratégico
Em face do que escrevi acima, parece-me que Portugal - conjuntamente com outras selecções europeias - será das equipas mais afectadas por esta aparente condicionante em que se disputa o Mundial. O modelo táctico português é completamente dependente do pressing. A equipa propõe-se pressionar qualquer adversário em praticamente toda a extensão do terreno, e mesmo em zonas mais baixas existe uma orientação muito forte para que a equipa mantenha uma atitude permanentemente pressionante, inclusivamente com a linha defensiva a aproximar-se muito da linha média. Ora, se os jogadores não conseguem pressionar os adversários, se chegam sempre tarde na contenção sobre o portador da bola, é inevitável que se criem muitos espaços disponíveis para ser explorados, e foi isso que na minha leitura sucedeu frente aos Estados Unidos. A nível individual, podemos encontrar um excelente exemplo deste problema nas exibições de Moutinho, que é um jogador normalmente fulcral na dinâmica defensiva portuguesa, exactamente pela sua invulgar capacidade de preenchimento de espaços numa área muito alargada, mas que neste Mundial tem surgido absolutamente irreconhecível a esse nível, perdendo diversas vezes o seu enquadramento posicional ao longo das jogadas.

Nesta realidade, diria, Portugal, assim como outras selecções terão negligenciado os efeitos das condições climatéricas na eficácia da implementação da sua proposta de jogo. Paulo Bento afirmou que a equipa não tinha apostado num pressing alto, mas se olharmos às incidências do jogo, vemos que as cautelas do treinador português foram ainda demasiado aventureiras para aquilo que era recomendável, com vários jogadores a serem atraídos pela circulação adversária, e a perderem posição por não serem capazes de ser eficazes em termos de condicionamento pressionante. A este nível, por exemplo, os Estados Unidos fizeram um jogo incomparavelmente mais adequado, com um jogo posicional muito mais equilibrado e também com maior densidade numérica na zona média. É verdade que na segunda parte a equipa portuguesa melhorou (paradoxalmente, foi quando sofreu os dois golos), mas fê-lo jogando num sistema e num comportamento a que está pouco habituada, cometendo alguns erros de posicionamento que lhe foram fatais (tal como tento evidenciar no vídeo).

O que fazer contra o Gana?
Portugal está numa situação que, não sendo impossível, é seguramente bastante difícil. Se este Mundial estivesse a ser jogado em condições normais, não me pareceria tão inverosímil assim o cenário de que Portugal precisa, mas neste momento eu nem sequer daria por garantido que a Alemanha vença os Estados Unidos, que à partida seria um encontro francamente desnivelado.
De todo o modo, e apesar do que escrevi acima, penso que Portugal não terá outra possibilidade que não seja apostar tudo na sua ideia de jogo, nomeadamente no condicionamento pressionante que tanto a tem deixado ficar mal. Portugal precisa de um jogo excepcional frente ao Gana, e a sua melhor chance de o conseguir será seguramente através da forma para a qual está preparado para jogar. Brasília será certamente muito diferente de Manaus, ou mesmo de Salvador, e resta esperar que a equipa possa, nessas condições, encontrar maior eficácia na implementação do sua ideia de jogo. Com William no meio campo, porque entrou muito bem, e Veloso à esquerda, porque Portugal precisa de golos e não há outra solução. Mais do que a qualificação, diria, Portugal joga frente ao Gana boa parte do seu brio, e não há tempo para se reinventar até lá.

Depois do Mundial, e não sabemos ainda que implicações esta prestação virá a ter, há alguns aspectos que merecem revisão. Sendo certo que não é preciso colocar tudo em causa, até porque como escrevi parece-me haver aqui um enorme efeito do contexto competitivo, parece-me claro que se deverá pelo menos rever a forma como Portugal se defende ao longo do corredor esquerdo. 

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