30.6.14

A caminho do Maracanã #15 (Holanda - México)

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Devo começar por dizer que apreciei bastante este jogo. Porque o seu inicio nos presenteou com duas equipas que, jogando no mesmo sistema, mostraram dinâmicas substancialmente diferentes (uma melhor do que a outra, como explicarei mais abaixo), e porque depois do primeiro golo essas características se alteraram radicalmente, culminando num final que figurará certamente entre as histórias mais marcantes desta prova. Mas, vamos por pontos...

O 3-5-2, as suas implicações, e as diferenças entre as duas equipas
Na verdade, o sistema não é exactamente idêntico, entre México e Holanda, com uma diferença importante no papel dos médios. Enquanto que o médio central do México (no caso, Salcido) é o mais posicional, o da Holanda (Sneijder) era aquele que mais se aproximava dos avançados, podendo-se até falar em 3-4-3, na minha perspectiva. Enfim, para o caso isso não é muito relevante, porque aquilo que quero abordar passa sobretudo pelas implicações de jogar com 3 centrais, em particular na fase de construção. Esta opção, de ter 3 elementos na fase de construção tem-se revelado bastante proveitosa para as equipas que a têm utilizado neste Mundial, porque dificulta muito a missão de quem pressiona, sendo normalmente garantia de alguns metros de terreno, em termos de presença posicional de quem ataca. Neste sentido, e até por não ser uma opção exclusiva dos sistemas de 3 defesas, creio que será uma opção com tendência a ser cada vez mais explorada pelos treinadores nos próximos tempos, mais não seja pela propaganda que este Mundial tem sido a esse respeito.
Aqui, porém, há que traçar as diferenças entre o que fez o México e a Holanda. O México, bem mais preparado nas suas dinâmicas, com alas de maior vocação ofensiva, médios mais móveis no corredor central e, sobretudo, centrais com mais propensão para assumir o jogo em posse, nomeadamente na capacidade de provocar com bola, sempre que o espaço lhes é oferecido. A Holanda, por outro lado, a ter alas e médios demasiado posicionais e centrais pouco afoitos para provocar com bola, vendo ainda o seu 10 (Sneijder) a baixar para a fase de construção, o que reduziu depois o número de linhas de passe dentro do bloco adversário, por onde a Holanda praticamente nunca conseguiu jogar. Por aqui passou, na minha leitura, grande parte da diferença de qualidade entre México e Holanda, na primeira parte, com clara vantagem para as dinâmicas mexicanas. Já agora, é interessante o ponto contacto entre estes dois países, com 3 jogadores mexicanos (Salcido, Moreno e Rodriguez) a terem importantes passagens pelo futebol holandês, sendo todos eles centrais com capacidade de assumir o jogo em posse, uma característica tradicionalmente apreciada no futebol holandês.
Por fim, e sobre este sistema, notar que o principal motivo pelo qual os treinadores Van Gaal e Herrera o utilizam, e na minha interpretação, tem a ver com o momento de organização defensiva, e a possibilidade de acrescentar densidade numérica à sua linha mais recuada. O outro lado desta opção, porém, é que esta retira uma unidade de zonas mais adiantadas do terreno, o que tende a dificultar uma abordagem defensiva que pretenda ser mais pressionante numa extensão maior do terreno. A meu ver, desta implicação decorre o principal motivo pelo qual este continuará a ser um sistema de utilização residual no futebol europeu, onde o pressing alto faz todo o sentido para a generalidade das equipas, e também uma possível explicação para o seu sucesso neste Mundial, já que, devido às condições climatéricas, as equipas têm tido muitas dificuldades em manter um pressing alto eficaz, beneficiando claramente quem optou por priveligiar a protecção das suas zonas fundamentais, neste caso através de uma maior presença numérica.

Holanda, um candidato. Cheio de defeitos, é certo, mas um candidato!
Como escrevi acima, o futebol holandês foi tudo menos um modelo no que respeita às suas dinâmicas. No plano ofensivo, pelas razões que sumariamente descrevi, mas também no plano defensivo, onde não faltam pontos igualmente questionáveis, em especial no comportamento dos elementos dos sectores mais recuados. Mesmo depois do 0-1, e com a mudança táctica, a Holanda foi basicamente impulsiva, retirando bons frutos dessa abordagem, é certo, mas sem uma grande qualidade e organização no seu jogo. Fundamentalmente, tirou partido da incrível forma de Robben neste Mundial (dá ideia que a sua sensação térmica é sempre de menos 20ºC, relativamente aos outros jogadores!), e do esgotamento físico do meio campo mexicano, incapaz de responder à energia que os holandeses forçaram no jogo. E, claro, teve também a felicidade do seu lado.
Sobre isto, porém, quero deixar, como ponto de opinião, a ideia de que a Holanda pode, de facto, estar longe da perfeição relativamente à interpretação do sistema que escolheu, mas eu continuo a ver nesta uma excelente opção por parte de Van Gaal, para este Mundial, e já com muitos proveitos obtidos. Primeiro, porque a Holanda é realmente bastante medíocre nas suas unidades mais defensivas, e tentar mudar isso em 3 semanas de treino seria, provavelmente, uma utopia, servindo a densidade numérica dos 5 defesas para atenuar essa debilidade. Depois, pelas características desta competição, que era à partida especialmente difícil para a Holanda, que em face do sorteio da fase de grupos iria disputar vários jogos com equipas muito fortes tecnicamente e com uma grande presença em posse, sendo que Van Gaal montou uma ideia de jogo incomparavelmente mais forte a jogar a partir do momento de transição. Finalmente, e tal como escrevi acima, a questão do desgaste físico provocado pelo clima parece-me também ter favorecido este tipo de sistema, porque mesmo pedindo uma presença pressionante das suas unidades mais ofensivas, o equilíbrio numérico na sua zona mais recuada está sempre salvaguardado. Aliás, e apesar de ser uma selecção europeia, nada habituada a este tipo de condições, a Holanda tem sido das equipas menos penalizadas pelo factor climatérico neste Mundial, como aliás este jogo atestou muito bem, sendo que na minha leitura há uma grande importância da componente táctica na explicação deste "fenómeno". Em suma, mesmo com as debilidades tácticas que facilmente se lhe identificam, o facto é que a Holanda tem sido muito bem sucedida neste Mundial, estando já a 180 minutos de repetir nova final. Pessoalmente, e por tudo o que expliquei, estou convencido que se Van Gaal tivesse optado pelo seu sistema e modelo habituais, o mais provável é que estivesse nesta altura já a pensar na primeira jornada da Premier League 2014/15...

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29.6.14

A caminho do Maracanã #14

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Brasil - Chile
Por pouco não se dava mais um grande tombo - seria o maior de todos! - neste Mundial. O Brasil voltará a chamar a si todas as dúvidas e críticas sobre o seu futebol, que a quase ninguém impressiona. Ainda assim, volto a escrever o mesmo sobre este Brasil: realmente surpreendente seria se esta equipa apresentasse uma qualidade excepcional na sua presença em posse, e se essa limitação (que era conhecida) não foi suficiente para por em causa o favoritismo canarinho neste Mundial, então hoje este percurso terá de ser considerado natural e não surpreendente. Talvez a maior prova de força do Brasil seja facto de, mesmo sem impressionar ninguém, a equipa estar já a apenas 180 minutos da final...

Sobre o jogo, mais concretamente, diria que o Brasil teve uma boa entrada na partida, sobretudo com alguma astúcia do ponto de vista estratégico, na minha interpretação. Isto porque me parece ajustada a opção de não apostar tanto no condicionamento da primeira fase de construção chilena - que seria um objectivo mais complicado e arriscado - e optar, antes sim, por definir um bloco mais baixo, mas com uma grande presença pressionante sobre o jogo interior do Chile, por onde mais se orientava o futebol da equipa de Sampaoli. Ou seja, em vez de apostar tudo em ter bola, onde não é tão forte, o Brasil preferiu tentar potenciar o momento de transição, onde Neymar e Hulk são muito difíceis de parar. O jogo acabou por ter uma história bem diferente, é verdade, mas parece-me justo referir também que o Brasil conquistou, dentro desta sua abordagem ao jogo, uma situação que tinha tudo para lhe ser muito favorável na resolução da eliminatória. Isto porque chegou à vantagem, e mesmo sem ter bola, tinha o controlo sobre a circulação chilena, que nessa altura era mais um ponto de partida para as transições brasileiras do que propriamente para desequilíbrios do próprio Chile. Dentro desta perspectiva, facilmente se percebe a importância que atribuo ao golo do empate, primariamente oferecido pelos brasileiros. Porque se o jogo entrasse numa fase mais adiantada com a igualdade no marcador, o Brasil teria de assumir necessariamente outra postura, mais autoritária com bola, para a qual não está tão vocacionado, e porque o próprio Chile poderia, nesse contexto, corrigir alguns dos erros com que se ia deparando e controlar melhor o jogo, nomeadamente através da sua boa presença em posse. E, no fundo, foi isso mesmo que aconteceu...

Sobre o Chile, que sai agora da competição, devo dizer que, à luz do jogo que vira na fase de preparação (frente ao Egipto), tive receio de uma abordagem bem mais arriscada (ou suicida, para utilizar o termo de Vidal) relativamente ao posicionamento da sua linha defensiva. Sampaoli terá também percebido que esse não poderia ser o caminho, e a equipa chilena acabou por se apresentar mais cautelosa a esse nível, apesar de não ter abdicado nunca do seu arrojado pressing. Por outro lado, com bola e como era previsível, foi uma equipa difícil contrariar na sua circulação baixa, e com um grande foco na mobilidade dos seus avançados, nomeadamente sobre o corredor central. Em suma, foi uma boa equipa, que se bateu muito bem contra dois dos principais candidatos (por pouco não os eliminou aos dois!), é verdade, mas que também revelou algumas fragilidades, nomeadamente alguma dependência da criatividade de Alexis (que neste Mundial provou que poderia ser bem mais do que uma espécie de sombra de Messi) e, claro, o jogo aéreo, o capítulo que mais penalizou a equipa e que certamente continuaria a ser um forte handicap para as suas aspirações, caso tivesse tido outra sorte nos penáltis.

Colômbia - Uruguai
No segundo jogo desta espécie de Copa América em pleno do Mundial, a Colômbia partia com um favoritismo que à partida, confesso, me pareceu exagerado. Sem dúvida que era do seu lado que estavam as unidades mais criativas e com maior capacidade de desequilíbrio, e também não discordo da importância da ausência de Suarez, cujo peso especifico já tinha abordado aqui. Mas este podia também ser perfeitamente um jogo ao jeito do Uruguai, que mesmo sem os mesmo argumentos técnicos tinha capacidade para ser bem sucedido num jogo assente no condicionamento defensivo e no momento de transição, um papel onde tantas vezes esta equipa se deu bem. Há duas notas fundamentais para mim, sobre esta partida. A primeira para o posicionamento do bloco do Uruguai que, mesmo numa estratégia assumidamente mais cautelosa, me pareceu excessivamente baixo e limitador em termos de possibilidade de gerir também o jogo com bola, o que me parecia importante. A segunda, claro, para James Rodriguez. Porque, mesmo com todo o domínio territorial exercido, a verdade é que o Uruguai foi conservando um bom controlo defensivo sobre as ofensivas do seu adversário, que fundamentalmente havia repetido finalizações exteriores. No fim, o resultado oferece-nos o conforto de poder analisar o jogo partindo da certeza sobre a superioridade colombiana na partida, mas não fosse o génio - outra vez ele! - de James Rodriguez, e a verdade é que poderíamos perfeitamente ter assistido a uma partida muito diferente e de resultado bem mais incerto. Sobre James, de resto, parece-me que a sua candidatura a melhor jogador do Mundial está confirmada com mais esta exibição, não sendo de excluir um assédio ao jogador por parte dos principais emblemas europeus, assim termine o Mundial.

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28.6.14

A caminho do Maracanã #13 (Dados 1ª Fase)

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Dados Colectivos


Como nota prévia, devo referir que as fontes de recolha de dados não são as oficiais, pelo que eventuais diferenças com outros dados, derivarão desse facto.
Os dados pretendem, de um modo geral, ser auto-explicativos, pelo que não serão precisos grandes comentários. Ainda assim, nota para o facto de praticamente todas as equipas apuradas estarem no grupo de equipas com melhor % de ocasiões de golo nos respectivos jogos. As excepções são - para mal de Portugal - os Estados Unidos e a Nigéria. No caso dos Estados Unidos, houve sobretudo uma grande felicidade relativamente ao jogo com o Gana, onde a equipa americana conseguiu uma vitória decisiva fundamentalmente através de um grande aproveitamento das poucas ocasiões criadas. Relativamente à Nigéria, o jogo frente à Bósnia acabou por ser o factor determinante no apuramento. Ainda no grupo F, é interessante o caso do Irão de Carlos Queiroz, que apesar de ter sido a pior equipa em diversos indicadores, conseguiu um bom desempenho em termos de proximidade real com o golo, tanto em termos defensivos como ofensivos (o jogo com a Argentina será o caso mais evidente desta ideia).

Dados Individuais


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27.6.14

A caminho do Maracanã #12 (Portugal - Gana)

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O jogo com o Gana
Diz-se que este foi o melhor jogo de Portugal no Mundial, e até aqui creio que não haverá grande margem para discussão. Já me parecem menos consensuais, porém, muitas das explicações que tenho encontrado para as diferenças observadas. Em particular, estabelecer uma ligação directa entre as mudanças nas primeiras opções e as melhorias, tanto ao nível do resultado como da exibição, parece-me no mínimo forçado. O futebol é, já de si, um jogo demasiado complexo para este tipo de reducionismo, mas no caso há outros factores que neste jogo mudaram, relativamente aos anteriores. E não foram propriamente pormenores. O adversário, porque nem o Gana é a Alemanha, nem as suas dinâmicas causaram tantos problemas como as dos Estados Unidos. O sistema táctico, porque Paulo Bento apresentou um 4-1-3-2 (losango) que difere de todos os registos tácticos que havíamos visto até aqui. E, claro, o clima, porque Brasília era, particularmente ao nível da humidade, muito diferente dos dois cenários anteriores, sobretudo Manaus. Motivos mais do que suficientes, portanto, para que exista alguma prudência no isolamento de factores explicativos.

Quanto ao que se assistiu, pessoalmente saúdo a mudança táctica encetada, mesmo se obviamente haverá aspectos a aperfeiçoar em termos de dinâmicas colectivas. Sobretudo, e como já venho escrevendo há algum tempo, parece-me lógico que Ronaldo seja liberto de acompanhamentos defensivos sem que isso ponha em causa o equilíbrio estrutural da equipa, sendo que também é benéfica a sua mobilidade nas acções com bola, particularmente a maior proximidade do corredor central, seja como elemento de ligação, ou presença na zona de finalização. Haverá a tendência para culpabilizar Ronaldo pelos golos que não foi capaz de concretizar, mas eu tenho uma visão diferente. É certo que o acerto na finalização é decisivo para a definição dos resultados - não é isso que discuto, obviamente - mas na minha análise o que separou Ronaldo de uma exibição histórica terão sido apenas pormenores muito difíceis de controlar, sendo notável que tenha conseguido chamar a si tantas ocasiões claras de golo num só jogo (até agora e a esse nível, a exibição mais expressiva de um só jogador, neste Mundial). Enfim, não só por ele, mas muito por Ronaldo e pelas suas características, parece-me que este poderá ser um bom sistema a adoptar por parte da Selecção no futuro próximo.

Para além de Ronaldo, e do 4-1-3-2 (losango), e não me querendo alongar muito mais neste ponto, queria deixar outras notas sobre o jogo: 1) Para o comportamento da linha defensiva, que arriscou menos no seu adiantamento, permitindo que o jogo se partisse mais, mas mantendo-se mais organizada perto da área, onde contou sempre com a proximidade do pivot. 2) Para o papel de William, muito posicional e com uma exibição bastante conseguida, o que lhe deverá ter garantido a titularidade. 3) Para o regresso de Moutinho a uma exibição de grande intensidade, ao seu nível, apesar de ter tido alguns problemas ao nível do passe (a perda na origem do golo ganês é sua). 4) Para o péssimo jogo de Veloso em termos defensivos, repetindo as indicações deixadas no jogo com os Estados Unidos, nomeadamente ao nível do posicionamento e da falta de celeridade que denotou no encurtamento de espaços. 5) Para Eder, a outra exibição de muito baixa qualidade, sendo que Varela acabou por mostrar que também ele pode vir a ganhar espaço caso se opte por um sistema que peça maior mobilidade aos avançados.

As razões do mau Mundial, e o valor da equipa
Já se tem falado e escrito muito sobre os motivos do insucesso da campanha portuguesa, e creio que o tema ainda terá algumas semanas até ficar esgotado. Também já escrevi sobre isto, nomeadamente na sequência do jogo com os Estados Unidos, e correndo o risco de me repetir, destacaria estes dois pontos: 1) a especificidade da prova, que sendo de curta duração coloca sempre grande dependência em factores menos controláveis, havendo depois pouca margem para os corrigir. Ora, se há coisa que é fácil de encontrar na prestação portuguesa, são precisamente factores menos controláveis. 2) o desfasamento, a meu ver claro, entre as orientações tácticas do modelo português - nomeadamente a exigência física do pressing que pressupõe - e as condições climatéricas que os jogadores encontraram para o interpretar. Moutinho, por exemplo, destacou esse como o factor mais relevante para as diferenças na sua própria performance individual, o que vai de encontro à ideia que também já me ficara, sobretudo depois do jogo com os Estados Unidos. Poder-se-á aqui criticar a equipa técnica por não ter antecipado o problema, mas também é verdade que se viram poucos seleccionadores a ter essa visão, acabando por ser as selecções com menor arrojo de exposição espacial a ganhar com a situação.

Há, agora e em face do insucesso, a tendência para se desvalorizar potencial da equipa, colocando-a num patamar mediano, tal como assumiu o próprio Ronaldo, numas declarações a meu ver muito infelizes. Dada a especificidade do contexto e a aleatoriedade própria do jogo, não creio que este Mundial seja um motivo para que se mude muito a avaliação que era feita sobre esta equipa, da mesma forma que o Mundial de 2002 não serviu para concluir que todos aqueles jogadores não prestavam. Se começasse hoje o Mundial da Rússia, e com estas mesmas equipas, eu voltaria a colocar a Espanha entre o leque dos principais favoritos, e Portugal entre as equipas com uma palavra a dizer. A minha convicção só seria afectada se, de novo, o cenário fosse nos trópicos.

Paulo Bento e o futuro
Sobre Paulo Bento, devo dizer em primeiro lugar que penso que tanto a Federação como o próprio treinador teriam a ganhar se tivessem decidido antecipadamente por uma mudança de ciclo, após o Brasil. Não tem a ver com o treinador ou com a Federação, tem a ver com a cultura do país, onde o desgaste sobre os treinadores se acumula rapidamente, e quase sempre através de criticas muito forçadas. A decisão, porém, foi exactamente a oposta, e também não vejo especiais problemas por isso. Haveria outras soluções com capacidade para orientar a Selecção, sem dúvida, mas vejo com grande cepticismo a hipótese de se darem grandes melhorias apenas pela alteração do treinador. Pelo contrário, acho que o risco de haver um retrocesso até será grande, quando chegar a hora de escolher o seu sucessor. Pelo menos, é isso que me é sugerido quando olho para a lista dos seleccionadores que antecederam Paulo Bento.

Mais importante - bem mais importante! - do que a questão do seleccionador, é a questão do futuro da Selecção, em termos de jogadores. Todos estão alarmados com a falta de soluções de qualidade em gerações mais jovens, e eu não fujo a essa regra, sendo-me difícil antever outro cenário que não seja uma queda acentuada de qualidade na Selecção, e num prazo temporal já não muito distante. Sobre isto, porém, gostaria de acrescentar alguns pontos: 1) Esta equipa - que, reforço a ideia, me parece ter bastante qualidade - deverá ainda ter condições para fazer o próximo ciclo, que terminará em 2016, pelo que até lá e salvo qualquer imprevisto, ainda deverá haver motivos para ter boas expectativas relativamente ao desempenho da Selecção. 2) No futebol, as coisas mudam muito mais rapidamente do que pensamos, e se melhor exemplo fosse preciso, basta olhar para o que sucedeu em 2002, quando uma geração fantástica de jogadores parecia terminado o seu ciclo. A esse Mundial não foram Miguel, Ricardo Carvalho, Costinha, Maniche, Deco e Cristiano Ronaldo, mas a verdade é que todos eles foram titulares na final do Europeu, apenas dois anos depois, dando inicio a uma nova geração que, embora não tivesse um rótulo dourado a embalá-la, acabou por atingir resultados muito mais consistentes do que os talentos anteriores. Isto não quer dizer que seja lógico esperar que nova fornada de jogadores surja do nada, mas no futebol nem sempre o facto de não vermos qualquer luz ao fundo do túnel significa que não exista uma saída surpreendente prestes a aparecer. 3) A exigência em torno de Portugal aumentou muito nos últimos 20 anos, e hoje estamo-nos permanentemente a comparar com as melhores selecções da Europa, o que no passado era relativamente absurdo. Sobre isto, parece-me possível perspectivar boas, e por vezes até óptimas equipas, mas já não me parece muito realista a comparação com o leque de seleccionáveis de países muito mais populosos, e com uma base de praticantes incomparavelmente superior. Ou seja, será possível formar equipas competitivas, centradas em elites de 10-20 jogadores, sem dúvida, mas não me parece aconselhável pensar o futebol português com o objectivo de ser uma potência europeia, que pela sua dimensão natural, nunca poderá ser.

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23.6.14

A caminho do Maracanã #11 (EUA - Portugal)

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Há muito para dizer sobre o que aconteceu em Manaus, mas começaria pelo resultado, que me parece justo em face das ocasiões que ambas as equipas criaram, embora estas tenham tido prestações muito diferentes, com Portugal a sentir muito mais dificuldades do ponto de vista da organização e consistência colectiva. A este respeito, de resto, a exibição portuguesa foi absolutamente desastrosa, e até difícil de acreditar. E é sobre isto que, a meu ver, mais importa reflectir...

Mundial 2014, um universo paralelo?
À primeira vista, e olhando para este jogo, dir-se-ia que Portugal é uma equipa com enormes fragilidades defensivas, sobretudo a nível individual, tendo uma proposta de jogo completamente desajustada à sua realidade. Mas isso era se víssemos apenas este jogo. Já vimos outros, sendo o Euro'2012 o exemplo mais fácil de relembrar, onde esta mesma equipa sentiu menos problemas frente às duas melhores selecções europeias (Alemanha e Espanha), juntas e em 210 minutos, do que em 90 minutos frente aos Estados Unidos, neste Mundial. Depois, este também não é um problema singular da equipa portuguesa, mas transversal ao que se tem visto em praticamente toda esta prova. Ainda ontem escrevia sobre isso, e praticamente todos os dias somos surpreendidos com incidências altamente surpreendentes, em jogos onde o desnível esperado entre as equipas é enorme, mas em que depois o que se passa em campo diverge completamente dessa expectativa. A Espanha será o exemplo mais evidente, e em sentido contrário o da Costa Rica, mas esses serão sobretudo os casos em que o resultado acabou por ser claramente afectado, porque também já assistimos a jogos absolutamente inesperados onde o desfecho acabou por não ser tão chocante, como o Austrália - Holanda, o Alemanha - Gana ou o Argentina - Irão, só para citar alguns exemplos. Ora, é-me muito difícil explicar qualquer destes fenómenos que se vêm sucedendo, mas ao considerá-los a todos em conjunto torna-se muito plausível a existência de um factor comum entre todos, que creio terá a ver com as condições climatéricas que as equipas têm encontrado. E, aqui, há outro ponto característico deste Mundial, e que tem a ver com as dificuldades que as equipas vêm sentido para manter uma atitude pressionante eficaz. Não me lembro de ter visto nenhuma equipa a conseguir grandes proveitos de uma estratégia mais pressionante sobre a posse contrária (eventualmente com resultados pontuais, como no caso do Chile), e inúmeras vezes tem-se assistido mesmo a problemas de agressividade e ajustamento posicional dentro do próprio bloco defensivo. Neste último caso, o exemplo de Portugal neste jogo será dos mais flagrantes.

Portugal: Péssimo ajuste estratégico
Em face do que escrevi acima, parece-me que Portugal - conjuntamente com outras selecções europeias - será das equipas mais afectadas por esta aparente condicionante em que se disputa o Mundial. O modelo táctico português é completamente dependente do pressing. A equipa propõe-se pressionar qualquer adversário em praticamente toda a extensão do terreno, e mesmo em zonas mais baixas existe uma orientação muito forte para que a equipa mantenha uma atitude permanentemente pressionante, inclusivamente com a linha defensiva a aproximar-se muito da linha média. Ora, se os jogadores não conseguem pressionar os adversários, se chegam sempre tarde na contenção sobre o portador da bola, é inevitável que se criem muitos espaços disponíveis para ser explorados, e foi isso que na minha leitura sucedeu frente aos Estados Unidos. A nível individual, podemos encontrar um excelente exemplo deste problema nas exibições de Moutinho, que é um jogador normalmente fulcral na dinâmica defensiva portuguesa, exactamente pela sua invulgar capacidade de preenchimento de espaços numa área muito alargada, mas que neste Mundial tem surgido absolutamente irreconhecível a esse nível, perdendo diversas vezes o seu enquadramento posicional ao longo das jogadas.

Nesta realidade, diria, Portugal, assim como outras selecções terão negligenciado os efeitos das condições climatéricas na eficácia da implementação da sua proposta de jogo. Paulo Bento afirmou que a equipa não tinha apostado num pressing alto, mas se olharmos às incidências do jogo, vemos que as cautelas do treinador português foram ainda demasiado aventureiras para aquilo que era recomendável, com vários jogadores a serem atraídos pela circulação adversária, e a perderem posição por não serem capazes de ser eficazes em termos de condicionamento pressionante. A este nível, por exemplo, os Estados Unidos fizeram um jogo incomparavelmente mais adequado, com um jogo posicional muito mais equilibrado e também com maior densidade numérica na zona média. É verdade que na segunda parte a equipa portuguesa melhorou (paradoxalmente, foi quando sofreu os dois golos), mas fê-lo jogando num sistema e num comportamento a que está pouco habituada, cometendo alguns erros de posicionamento que lhe foram fatais (tal como tento evidenciar no vídeo).

O que fazer contra o Gana?
Portugal está numa situação que, não sendo impossível, é seguramente bastante difícil. Se este Mundial estivesse a ser jogado em condições normais, não me pareceria tão inverosímil assim o cenário de que Portugal precisa, mas neste momento eu nem sequer daria por garantido que a Alemanha vença os Estados Unidos, que à partida seria um encontro francamente desnivelado.
De todo o modo, e apesar do que escrevi acima, penso que Portugal não terá outra possibilidade que não seja apostar tudo na sua ideia de jogo, nomeadamente no condicionamento pressionante que tanto a tem deixado ficar mal. Portugal precisa de um jogo excepcional frente ao Gana, e a sua melhor chance de o conseguir será seguramente através da forma para a qual está preparado para jogar. Brasília será certamente muito diferente de Manaus, ou mesmo de Salvador, e resta esperar que a equipa possa, nessas condições, encontrar maior eficácia na implementação do sua ideia de jogo. Com William no meio campo, porque entrou muito bem, e Veloso à esquerda, porque Portugal precisa de golos e não há outra solução. Mais do que a qualificação, diria, Portugal joga frente ao Gana boa parte do seu brio, e não há tempo para se reinventar até lá.

Depois do Mundial, e não sabemos ainda que implicações esta prestação virá a ter, há alguns aspectos que merecem revisão. Sendo certo que não é preciso colocar tudo em causa, até porque como escrevi parece-me haver aqui um enorme efeito do contexto competitivo, parece-me claro que se deverá pelo menos rever a forma como Portugal se defende ao longo do corredor esquerdo. 

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22.6.14

A caminho do Maracanã #10

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Argentina - Irão
O resultado acabou por fugir ao Irão, mas não é pelo rasgo de inspiração final de Messi que este deixou de ser um dos mais surpreendentes jogos do Mundial, até à data. E, aqui, dividiria as coisas. Porque, uma coisa foi o que vimos na primeira parte, com a Argentina a ter muitas dificuldades em criar espaços, perante uma super densa equipa iraniana. Outra coisa, foi o que se passou após o intervalo, em que foi a formação asiática a criar as melhores ocasiões de golo. Isso sim, foi verdadeiramente inesperado!

Relativamente à Argentina, e um pouco em sentido contrário daquilo que comentava ontem sobre a França, estes primeiros jogos terão baixado muito as expectativas em torno desta equipa, e poucos serão aqueles que nesta altura acreditarão nas suas possibilidades de chegar até ao último dia deste torneio. Pessoalmente, não me desviaria muito das projecções iniciais, e desvalorizaria bastante o que se viu até aqui. As possibilidades de vitória jogar-se-ão em jogos de características muito diferentes, perante equipas que terão mais capacidade para ter bola, mas também que oferecerão outro espaço no momento de transição. É nesse perfil de jogo em que a Argentina terá de ser mais forte do que no passado, para poder atingir o sucesso, e eu até agora não vejo motivos para concluir que não o venha a ser. Na mesma linha do que penso sobre as hipóteses do Brasil, há que esperar...

Uma palavra sobre o Irão de Queiroz, que já tinha destacado como a equipa mais defensiva deste Mundial, num perfil que me parece ajustado ao seu contexto dentro desta competição. Individualmente, o Irão terá um dos conjuntos mais débeis desta prova, mas tem uma disciplina táctica superior a equipas do seu patamar, o que faz com que seja uma selecção mais difícil de ultrapassar. Sobre isto, é interessante realçar o caso de Queiroz. O treinador português tem agora 6 jogos em fases finais de campeonatos do mundo e 3 empates a zero, o que é algo muito improvável de conseguir. A este respeito, e fica a curiosidade, Queiroz esteve muito perto de igualar os recordistas de nulos em Mundiais, que são Antoni Piechniczek (seleccionador polaco em 82 e 86) e o mítico Helmut Schoen (seleccionador da Alemanha Federal, entre 66 e 78), ambos com 4 empates a zero. Queiroz terá pelo menos mais uma oportunidade...

Alemanha - Gana
Algumas surpresas neste jogo, que inevitavelmente servirá de ponto de comparação relativamente ao que aconteceu entre a Alemanha e Portugal. Isto, sobretudo, porque tal como Portugal, o Gana optou por assumir uma pressão mais alta, estendendo-se bastante no campo, em organização defensiva. Este parece-me um ponto decisivo naquilo que foi o curso do jogo, uma vez que a Alemanha teve até mais facilidade do que contra Portugal (antes da expulsão, obviamente) em encontrar soluções de passe entrelinhas, mas denotou depois muitas dificuldades em fazer o melhor aproveitamento dessa situação. Aqui, nota para as diferenças de rendimento da equipa depois da entrada de Klose, podendo-se destacar o acréscimo de uma solução de passe mais na profundidade, mas também o facto de nesta altura a pressão sobre o resultado ser muito maior, relativamente ao que sucedera na primeira parte. Seja como for, este foi um jogo que sempre deu a ideia de ter boas condições para que os germânicos se aproximassem muito do golo, mas isso apenas aconteceu na parte final da partida, o que parece indiciar a existência de algumas arestas por limar. É curioso porque o espaço entrelinhas foi um aspecto muito abordado no pós-jogo, frente a Portugal, mas como aqui escrevi também, e apesar desse espaço ter sido efectivamente explorado, as principais ocasiões alemãs não derivaram nunca desse ponto especifíco. Enfim, para o registo, e mais do que o empate, fica uma prestação alemã que me parece ter ficado bastante aquém do esperado, primeiro pela tal incapacidade de fazer um melhor aproveitamento das suas chegadas ao último terço, e depois pela dificuldade em controlar melhor o jogo, permitindo que este se partisse muito, o que frente a uma equipa como o Gana é sempre um risco. Aqui, não posso também excluir a hipótese de um efeito das condições climatéricas, com a Alemanha a juntar-se agora ao extenso leque de equipas mais fortes com dificuldades inesperadas em jogos frente a adversários que, à partida, não deveriam criar tantos problemas. E não me estou sequer a referir ao resultado...

Nigéria - Bósnia
Alguma desilusão pessoal com a eliminação bósnia. Do ponto de vista da qualidade de jogo, com bola, confirmou as boas indicações, mas acabou traída por uma resposta defensiva que, neste jogo em particular, acusou muitas dificuldades. Fica-me a ideia que poderá ter a ver com as condições climatéricas, já que houve sobretudo um défice de presença pressionante e capacidade de resposta individual perante as acelerações nigerianas na primeira parte. É verdade que o jogo foi equilibrado e que a Bósnia teve alguma infelicidade em vários momentos, mas também é inegável que à maior qualidade de construção bósnia não correspondeu o controlo do jogo que o seu plano de jogo certamente ambicionaria, pelo que o resultado ficou muito dependente de factores incontroláveis. Mantenho que a Bósnia é - ou, foi - uma das melhores equipas do Mundial no que respeita à sua ideia de jogo, mas o interesse do futebol e de uma prova como esta também passa pela imprevisibilidade...

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21.6.14

A caminho do Maracanã #9

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Itália - Costa Rica
Novo jogo, nova surpresa, e igualmente com justiça face àquilo que as duas equipas produziram.
Do ponto de vista táctico, diria que depois de termos visto a equipa espanhola a não ser capaz de tirar partido da exposição interior do seu adversário (Chile), agora vimos algo igualmente inesperado, com a Itália a não ser capaz de tirar partido da profundidade, oferecida pelo posicionamento da linha defensiva costarriquenha. E nem era preciso recordar Inzaghi, que tantas vezes fez mossa a jogar no limite do fora de jogo, porque o futebol italiano continua a ter alguns intérpretes muito fortes nesse tipo de movimento, sendo que provavelmente Balotelli não seria o jogador mais indicado para tal especificidade. Pegando neste e noutros aspectos, fica-me a ideia de que houve uma má preparação específica da Itália para este adversário. Pela falta de soluções criadas no espaço entrelinhas, para poder dar sequência à sua tão característica circulação baixa (Cassano entrou para tentar corrigir isso, na segunda parte), e pela falta de esclarecimento na tal definição das jogadas perante a linha defensiva da Costa Rica, com bastantes decisões pouco conseguidas e sobretudo uma incompreensível falta de concentração de alguns jogadores relativamente ao fora de jogo, sendo que na maioria dos casos essas situações ocorreram em situações junto às linhas laterais, onde havia a possibilidade de controlar a linha defensiva e não existia sequer a necessidade de antecipar o movimento de rotura. Enfim, foi a meu ver uma grande oportunidade perdida para a Itália, que continua a revelar muita capacidade para ter bola em zonas mais baixas, mas que parece bem menos esclarecida relativamente às suas soluções colectivas no último terço. Para além disto, há ainda a questão do pressing defensivo, que voltou a parecer-me pouco intenso e muito demasiado perante a circulação adversária, o que impede a Itália de ser uma equipa com a presença posse que a sua capacidade para ter bola sugere. Tudo considerado, e se não corrigir alguns destes aspectos, a Itália corre sérios riscos de ser eliminada no jogo frente ao Uruguai, que tem uma intensidade muito superior, colocando em sério risco um apuramento que, depois da vitória frente à Inglaterra, tinha tudo para ser confirmado.

Suíça - França
Com esta exibição, não tenho dúvidas, a França deixará de ser olhada com a desconfiança que ainda lhe sobrava de 2010, para gerar grandes expectativas em praticamente todos. Não vou dizer que a goleada fosse previsível, mas não me confesso surpreendido pelas dificuldades impostas à equipa suíça. Os helvéticos já haviam revelado grandes dificuldades na dinamização do seu jogo, frente ao Equador, e sendo o adversário a França esse nível de exigência certamente aumentaria muito. Confirmaram-se, pois, as dificuldades de ligação no jogo suíço, com erros que potenciaram as transições gaulesas, mas como se viu o problema esteve longe de se ficar por aqui. A França não terá o requinte técnico de outras equipas, nem tão pouco a mais culta tacticamente, mas tem outras virtudes que a tornam temível e difícil de contrariar. Com a saída da Espanha, será provavelmente a segunda maior candidatura entre os europeus, e já não surpreenderá ninguém se chegar até ao fim desta escalada...

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20.6.14

A caminho do Maracanã #8

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Colômbia - Costa do Marfim
Ambas tinham armas para poder acreditar na vitória, e a esse nível parece-me que os valores até eram bastante próximos. Mas, na prática, foi a Colômbia quem esteve quase sempre melhor, nomeadamente por ter mais capacidade para estrategicamente explorar o momento de transição, em particular na potenciação do erro adversário, assim como no rápido aproveitamento dos espaços.

No que respeita à Colômbia, será sempre uma equipa complicada de contrariar devido à forma como se protege através de uma estratégia de baixo risco, e depois potencia as suas hipóteses de sucesso pela qualidade individual que tem. E aqui, na qualidade individual, nenhum nome sobressai mais do que James Rodriguez. Já o tinha destacado como a unidade chave do modelo colombiano, mas James foi ainda mais longe na transversalidade da sua influência, marcando um inesperado golo de cabeça e identificando muito bem a oportunidade de pressão, para protagonizar a intercepção decisiva para o segundo golo. Mudando de contexto, continuo a manter a opinião de que foi provavelmente o primeiro motivo para a diferença de rendimento da época portista. Um craque!

Uruguai - Inglaterra
Muito melhor o Uruguai, a recolocar-se em posição para atacar uma qualificação que, ainda assim, continua difícil. Dois aspectos chave, a meu ver, na exibição da 'Celeste': primeiro, uma atitude mais arrojada em termos de pressing. Depois, claro, Luis Suarez! Havia referido que boa parte das dificuldades de rendimento no jogo frente à Costa Rica tinham de estar ligadas à ausência de um jogador com a sua qualidade, e ao ver a forma como se movimenta para ganhar espaços essenciais, creio que quaisquer dúvidas ficam desfeitas. Ainda a este respeito, destacaria o timing do seu movimento para o primeiro golo, convergindo na perfeição com a leitura que Cavani estava a fazer o lance. Perfeito!

Quanto à Inglaterra, e salvo uma conjugação agora muito improvável de resultados, trará do Brasil mais uma desilusão para juntar a um currículo cada vez mais penoso. A equipa, é bom ressalvar, perde dois jogos equilibrados e onde facilmente poderia ter conhecido outro destino, mas a questão não me parece ser essa. A questão é, antes sim, que a Inglaterra falha sistematicamente em ter uma abordagem que tacticamente ajude a potenciar a qualidade que, apesar de tudo, os seus recursos sempre lhe vão oferecendo. Desta vez, há uma série de equívocos de que já escrevera na antevisão, e que não vale a pena repetir. Fala-se, agora, da juventude e no potencial da sua nova geração. Para quem tem memória, porém, dificilmente o entusiasmo poderá ser muito, se recordarmos os resultados de gerações que combinaram Beckham, Shearer, Owen e Scholes, ou Gerrard, Lampard, Terry e Rooney. Nesta perspectiva, parece-me difícil ficar muito entusiasmado com as promessas de Sturridge, Sterling ou Welbeck...

Japão - Grécia
Seguramente, um dos jogos menos entretidos do Mundial, até agora. A atitude reflexa passará por associar a Grécia a mais um jogo mais fechado, mas eu pergunto qual das equipas merecerá mais responsabilidades por não ter conseguido maior proximidade com o golo? A resposta, olhando para o jogo e para os recursos individuais, tem indiscutivelmente de apontar para o lado nipónico. Foi o Japão quem usufruiu de superioridade numérica durante mais de metade do jogo, e era também do seu lado que estavam os principais recursos criativos do jogo. A propósito, será que Zaccheroni concluiu que o problema da sua dificuldade em integrar, ao mesmo tempo, Honda e Kagawa, se resolvia com a retirada de um dos dois? Ironias à parte, esta equipa do Japão tem confirmado a ideia que partilhei na antevisão e de que se trataria de uma das mais sobrevalorizadas equipas da competição. Mesmo jogando contra uma Colômbia possivelmente desfalcada, as suas hipóteses são agora muito remotas. Quanto à Grécia, e em sentido contrário, não posso ter outra coisa se não respeito por esta equipa, que é de longe a mais modesta das participantes europeias, mas que tem a seu favor uma proposta de jogo que me parece bastante ajustada às suas características. A Grécia, do meu ponto de vista, teve dois jogos bastante ingratos, primeiro sendo muito penalizada pela eficácia, frente à Colômbia, e agora vendo-se reduzida a 10 jogadores durante mais de meio jogo. E, ainda assim, as suas hipóteses de qualificação permanecem perfeitamente em aberto...

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