27.6.14

A caminho do Maracanã #12 (Portugal - Gana)

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O jogo com o Gana
Diz-se que este foi o melhor jogo de Portugal no Mundial, e até aqui creio que não haverá grande margem para discussão. Já me parecem menos consensuais, porém, muitas das explicações que tenho encontrado para as diferenças observadas. Em particular, estabelecer uma ligação directa entre as mudanças nas primeiras opções e as melhorias, tanto ao nível do resultado como da exibição, parece-me no mínimo forçado. O futebol é, já de si, um jogo demasiado complexo para este tipo de reducionismo, mas no caso há outros factores que neste jogo mudaram, relativamente aos anteriores. E não foram propriamente pormenores. O adversário, porque nem o Gana é a Alemanha, nem as suas dinâmicas causaram tantos problemas como as dos Estados Unidos. O sistema táctico, porque Paulo Bento apresentou um 4-1-3-2 (losango) que difere de todos os registos tácticos que havíamos visto até aqui. E, claro, o clima, porque Brasília era, particularmente ao nível da humidade, muito diferente dos dois cenários anteriores, sobretudo Manaus. Motivos mais do que suficientes, portanto, para que exista alguma prudência no isolamento de factores explicativos.

Quanto ao que se assistiu, pessoalmente saúdo a mudança táctica encetada, mesmo se obviamente haverá aspectos a aperfeiçoar em termos de dinâmicas colectivas. Sobretudo, e como já venho escrevendo há algum tempo, parece-me lógico que Ronaldo seja liberto de acompanhamentos defensivos sem que isso ponha em causa o equilíbrio estrutural da equipa, sendo que também é benéfica a sua mobilidade nas acções com bola, particularmente a maior proximidade do corredor central, seja como elemento de ligação, ou presença na zona de finalização. Haverá a tendência para culpabilizar Ronaldo pelos golos que não foi capaz de concretizar, mas eu tenho uma visão diferente. É certo que o acerto na finalização é decisivo para a definição dos resultados - não é isso que discuto, obviamente - mas na minha análise o que separou Ronaldo de uma exibição histórica terão sido apenas pormenores muito difíceis de controlar, sendo notável que tenha conseguido chamar a si tantas ocasiões claras de golo num só jogo (até agora e a esse nível, a exibição mais expressiva de um só jogador, neste Mundial). Enfim, não só por ele, mas muito por Ronaldo e pelas suas características, parece-me que este poderá ser um bom sistema a adoptar por parte da Selecção no futuro próximo.

Para além de Ronaldo, e do 4-1-3-2 (losango), e não me querendo alongar muito mais neste ponto, queria deixar outras notas sobre o jogo: 1) Para o comportamento da linha defensiva, que arriscou menos no seu adiantamento, permitindo que o jogo se partisse mais, mas mantendo-se mais organizada perto da área, onde contou sempre com a proximidade do pivot. 2) Para o papel de William, muito posicional e com uma exibição bastante conseguida, o que lhe deverá ter garantido a titularidade. 3) Para o regresso de Moutinho a uma exibição de grande intensidade, ao seu nível, apesar de ter tido alguns problemas ao nível do passe (a perda na origem do golo ganês é sua). 4) Para o péssimo jogo de Veloso em termos defensivos, repetindo as indicações deixadas no jogo com os Estados Unidos, nomeadamente ao nível do posicionamento e da falta de celeridade que denotou no encurtamento de espaços. 5) Para Eder, a outra exibição de muito baixa qualidade, sendo que Varela acabou por mostrar que também ele pode vir a ganhar espaço caso se opte por um sistema que peça maior mobilidade aos avançados.

As razões do mau Mundial, e o valor da equipa
Já se tem falado e escrito muito sobre os motivos do insucesso da campanha portuguesa, e creio que o tema ainda terá algumas semanas até ficar esgotado. Também já escrevi sobre isto, nomeadamente na sequência do jogo com os Estados Unidos, e correndo o risco de me repetir, destacaria estes dois pontos: 1) a especificidade da prova, que sendo de curta duração coloca sempre grande dependência em factores menos controláveis, havendo depois pouca margem para os corrigir. Ora, se há coisa que é fácil de encontrar na prestação portuguesa, são precisamente factores menos controláveis. 2) o desfasamento, a meu ver claro, entre as orientações tácticas do modelo português - nomeadamente a exigência física do pressing que pressupõe - e as condições climatéricas que os jogadores encontraram para o interpretar. Moutinho, por exemplo, destacou esse como o factor mais relevante para as diferenças na sua própria performance individual, o que vai de encontro à ideia que também já me ficara, sobretudo depois do jogo com os Estados Unidos. Poder-se-á aqui criticar a equipa técnica por não ter antecipado o problema, mas também é verdade que se viram poucos seleccionadores a ter essa visão, acabando por ser as selecções com menor arrojo de exposição espacial a ganhar com a situação.

Há, agora e em face do insucesso, a tendência para se desvalorizar potencial da equipa, colocando-a num patamar mediano, tal como assumiu o próprio Ronaldo, numas declarações a meu ver muito infelizes. Dada a especificidade do contexto e a aleatoriedade própria do jogo, não creio que este Mundial seja um motivo para que se mude muito a avaliação que era feita sobre esta equipa, da mesma forma que o Mundial de 2002 não serviu para concluir que todos aqueles jogadores não prestavam. Se começasse hoje o Mundial da Rússia, e com estas mesmas equipas, eu voltaria a colocar a Espanha entre o leque dos principais favoritos, e Portugal entre as equipas com uma palavra a dizer. A minha convicção só seria afectada se, de novo, o cenário fosse nos trópicos.

Paulo Bento e o futuro
Sobre Paulo Bento, devo dizer em primeiro lugar que penso que tanto a Federação como o próprio treinador teriam a ganhar se tivessem decidido antecipadamente por uma mudança de ciclo, após o Brasil. Não tem a ver com o treinador ou com a Federação, tem a ver com a cultura do país, onde o desgaste sobre os treinadores se acumula rapidamente, e quase sempre através de criticas muito forçadas. A decisão, porém, foi exactamente a oposta, e também não vejo especiais problemas por isso. Haveria outras soluções com capacidade para orientar a Selecção, sem dúvida, mas vejo com grande cepticismo a hipótese de se darem grandes melhorias apenas pela alteração do treinador. Pelo contrário, acho que o risco de haver um retrocesso até será grande, quando chegar a hora de escolher o seu sucessor. Pelo menos, é isso que me é sugerido quando olho para a lista dos seleccionadores que antecederam Paulo Bento.

Mais importante - bem mais importante! - do que a questão do seleccionador, é a questão do futuro da Selecção, em termos de jogadores. Todos estão alarmados com a falta de soluções de qualidade em gerações mais jovens, e eu não fujo a essa regra, sendo-me difícil antever outro cenário que não seja uma queda acentuada de qualidade na Selecção, e num prazo temporal já não muito distante. Sobre isto, porém, gostaria de acrescentar alguns pontos: 1) Esta equipa - que, reforço a ideia, me parece ter bastante qualidade - deverá ainda ter condições para fazer o próximo ciclo, que terminará em 2016, pelo que até lá e salvo qualquer imprevisto, ainda deverá haver motivos para ter boas expectativas relativamente ao desempenho da Selecção. 2) No futebol, as coisas mudam muito mais rapidamente do que pensamos, e se melhor exemplo fosse preciso, basta olhar para o que sucedeu em 2002, quando uma geração fantástica de jogadores parecia terminado o seu ciclo. A esse Mundial não foram Miguel, Ricardo Carvalho, Costinha, Maniche, Deco e Cristiano Ronaldo, mas a verdade é que todos eles foram titulares na final do Europeu, apenas dois anos depois, dando inicio a uma nova geração que, embora não tivesse um rótulo dourado a embalá-la, acabou por atingir resultados muito mais consistentes do que os talentos anteriores. Isto não quer dizer que seja lógico esperar que nova fornada de jogadores surja do nada, mas no futebol nem sempre o facto de não vermos qualquer luz ao fundo do túnel significa que não exista uma saída surpreendente prestes a aparecer. 3) A exigência em torno de Portugal aumentou muito nos últimos 20 anos, e hoje estamo-nos permanentemente a comparar com as melhores selecções da Europa, o que no passado era relativamente absurdo. Sobre isto, parece-me possível perspectivar boas, e por vezes até óptimas equipas, mas já não me parece muito realista a comparação com o leque de seleccionáveis de países muito mais populosos, e com uma base de praticantes incomparavelmente superior. Ou seja, será possível formar equipas competitivas, centradas em elites de 10-20 jogadores, sem dúvida, mas não me parece aconselhável pensar o futebol português com o objectivo de ser uma potência europeia, que pela sua dimensão natural, nunca poderá ser.

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23.6.14

A caminho do Maracanã #11 (EUA - Portugal)

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Há muito para dizer sobre o que aconteceu em Manaus, mas começaria pelo resultado, que me parece justo em face das ocasiões que ambas as equipas criaram, embora estas tenham tido prestações muito diferentes, com Portugal a sentir muito mais dificuldades do ponto de vista da organização e consistência colectiva. A este respeito, de resto, a exibição portuguesa foi absolutamente desastrosa, e até difícil de acreditar. E é sobre isto que, a meu ver, mais importa reflectir...

Mundial 2014, um universo paralelo?
À primeira vista, e olhando para este jogo, dir-se-ia que Portugal é uma equipa com enormes fragilidades defensivas, sobretudo a nível individual, tendo uma proposta de jogo completamente desajustada à sua realidade. Mas isso era se víssemos apenas este jogo. Já vimos outros, sendo o Euro'2012 o exemplo mais fácil de relembrar, onde esta mesma equipa sentiu menos problemas frente às duas melhores selecções europeias (Alemanha e Espanha), juntas e em 210 minutos, do que em 90 minutos frente aos Estados Unidos, neste Mundial. Depois, este também não é um problema singular da equipa portuguesa, mas transversal ao que se tem visto em praticamente toda esta prova. Ainda ontem escrevia sobre isso, e praticamente todos os dias somos surpreendidos com incidências altamente surpreendentes, em jogos onde o desnível esperado entre as equipas é enorme, mas em que depois o que se passa em campo diverge completamente dessa expectativa. A Espanha será o exemplo mais evidente, e em sentido contrário o da Costa Rica, mas esses serão sobretudo os casos em que o resultado acabou por ser claramente afectado, porque também já assistimos a jogos absolutamente inesperados onde o desfecho acabou por não ser tão chocante, como o Austrália - Holanda, o Alemanha - Gana ou o Argentina - Irão, só para citar alguns exemplos. Ora, é-me muito difícil explicar qualquer destes fenómenos que se vêm sucedendo, mas ao considerá-los a todos em conjunto torna-se muito plausível a existência de um factor comum entre todos, que creio terá a ver com as condições climatéricas que as equipas têm encontrado. E, aqui, há outro ponto característico deste Mundial, e que tem a ver com as dificuldades que as equipas vêm sentido para manter uma atitude pressionante eficaz. Não me lembro de ter visto nenhuma equipa a conseguir grandes proveitos de uma estratégia mais pressionante sobre a posse contrária (eventualmente com resultados pontuais, como no caso do Chile), e inúmeras vezes tem-se assistido mesmo a problemas de agressividade e ajustamento posicional dentro do próprio bloco defensivo. Neste último caso, o exemplo de Portugal neste jogo será dos mais flagrantes.

Portugal: Péssimo ajuste estratégico
Em face do que escrevi acima, parece-me que Portugal - conjuntamente com outras selecções europeias - será das equipas mais afectadas por esta aparente condicionante em que se disputa o Mundial. O modelo táctico português é completamente dependente do pressing. A equipa propõe-se pressionar qualquer adversário em praticamente toda a extensão do terreno, e mesmo em zonas mais baixas existe uma orientação muito forte para que a equipa mantenha uma atitude permanentemente pressionante, inclusivamente com a linha defensiva a aproximar-se muito da linha média. Ora, se os jogadores não conseguem pressionar os adversários, se chegam sempre tarde na contenção sobre o portador da bola, é inevitável que se criem muitos espaços disponíveis para ser explorados, e foi isso que na minha leitura sucedeu frente aos Estados Unidos. A nível individual, podemos encontrar um excelente exemplo deste problema nas exibições de Moutinho, que é um jogador normalmente fulcral na dinâmica defensiva portuguesa, exactamente pela sua invulgar capacidade de preenchimento de espaços numa área muito alargada, mas que neste Mundial tem surgido absolutamente irreconhecível a esse nível, perdendo diversas vezes o seu enquadramento posicional ao longo das jogadas.

Nesta realidade, diria, Portugal, assim como outras selecções terão negligenciado os efeitos das condições climatéricas na eficácia da implementação da sua proposta de jogo. Paulo Bento afirmou que a equipa não tinha apostado num pressing alto, mas se olharmos às incidências do jogo, vemos que as cautelas do treinador português foram ainda demasiado aventureiras para aquilo que era recomendável, com vários jogadores a serem atraídos pela circulação adversária, e a perderem posição por não serem capazes de ser eficazes em termos de condicionamento pressionante. A este nível, por exemplo, os Estados Unidos fizeram um jogo incomparavelmente mais adequado, com um jogo posicional muito mais equilibrado e também com maior densidade numérica na zona média. É verdade que na segunda parte a equipa portuguesa melhorou (paradoxalmente, foi quando sofreu os dois golos), mas fê-lo jogando num sistema e num comportamento a que está pouco habituada, cometendo alguns erros de posicionamento que lhe foram fatais (tal como tento evidenciar no vídeo).

O que fazer contra o Gana?
Portugal está numa situação que, não sendo impossível, é seguramente bastante difícil. Se este Mundial estivesse a ser jogado em condições normais, não me pareceria tão inverosímil assim o cenário de que Portugal precisa, mas neste momento eu nem sequer daria por garantido que a Alemanha vença os Estados Unidos, que à partida seria um encontro francamente desnivelado.
De todo o modo, e apesar do que escrevi acima, penso que Portugal não terá outra possibilidade que não seja apostar tudo na sua ideia de jogo, nomeadamente no condicionamento pressionante que tanto a tem deixado ficar mal. Portugal precisa de um jogo excepcional frente ao Gana, e a sua melhor chance de o conseguir será seguramente através da forma para a qual está preparado para jogar. Brasília será certamente muito diferente de Manaus, ou mesmo de Salvador, e resta esperar que a equipa possa, nessas condições, encontrar maior eficácia na implementação do sua ideia de jogo. Com William no meio campo, porque entrou muito bem, e Veloso à esquerda, porque Portugal precisa de golos e não há outra solução. Mais do que a qualificação, diria, Portugal joga frente ao Gana boa parte do seu brio, e não há tempo para se reinventar até lá.

Depois do Mundial, e não sabemos ainda que implicações esta prestação virá a ter, há alguns aspectos que merecem revisão. Sendo certo que não é preciso colocar tudo em causa, até porque como escrevi parece-me haver aqui um enorme efeito do contexto competitivo, parece-me claro que se deverá pelo menos rever a forma como Portugal se defende ao longo do corredor esquerdo. 

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22.6.14

A caminho do Maracanã #10

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Argentina - Irão
O resultado acabou por fugir ao Irão, mas não é pelo rasgo de inspiração final de Messi que este deixou de ser um dos mais surpreendentes jogos do Mundial, até à data. E, aqui, dividiria as coisas. Porque, uma coisa foi o que vimos na primeira parte, com a Argentina a ter muitas dificuldades em criar espaços, perante uma super densa equipa iraniana. Outra coisa, foi o que se passou após o intervalo, em que foi a formação asiática a criar as melhores ocasiões de golo. Isso sim, foi verdadeiramente inesperado!

Relativamente à Argentina, e um pouco em sentido contrário daquilo que comentava ontem sobre a França, estes primeiros jogos terão baixado muito as expectativas em torno desta equipa, e poucos serão aqueles que nesta altura acreditarão nas suas possibilidades de chegar até ao último dia deste torneio. Pessoalmente, não me desviaria muito das projecções iniciais, e desvalorizaria bastante o que se viu até aqui. As possibilidades de vitória jogar-se-ão em jogos de características muito diferentes, perante equipas que terão mais capacidade para ter bola, mas também que oferecerão outro espaço no momento de transição. É nesse perfil de jogo em que a Argentina terá de ser mais forte do que no passado, para poder atingir o sucesso, e eu até agora não vejo motivos para concluir que não o venha a ser. Na mesma linha do que penso sobre as hipóteses do Brasil, há que esperar...

Uma palavra sobre o Irão de Queiroz, que já tinha destacado como a equipa mais defensiva deste Mundial, num perfil que me parece ajustado ao seu contexto dentro desta competição. Individualmente, o Irão terá um dos conjuntos mais débeis desta prova, mas tem uma disciplina táctica superior a equipas do seu patamar, o que faz com que seja uma selecção mais difícil de ultrapassar. Sobre isto, é interessante realçar o caso de Queiroz. O treinador português tem agora 6 jogos em fases finais de campeonatos do mundo e 3 empates a zero, o que é algo muito improvável de conseguir. A este respeito, e fica a curiosidade, Queiroz esteve muito perto de igualar os recordistas de nulos em Mundiais, que são Antoni Piechniczek (seleccionador polaco em 82 e 86) e o mítico Helmut Schoen (seleccionador da Alemanha Federal, entre 66 e 78), ambos com 4 empates a zero. Queiroz terá pelo menos mais uma oportunidade...

Alemanha - Gana
Algumas surpresas neste jogo, que inevitavelmente servirá de ponto de comparação relativamente ao que aconteceu entre a Alemanha e Portugal. Isto, sobretudo, porque tal como Portugal, o Gana optou por assumir uma pressão mais alta, estendendo-se bastante no campo, em organização defensiva. Este parece-me um ponto decisivo naquilo que foi o curso do jogo, uma vez que a Alemanha teve até mais facilidade do que contra Portugal (antes da expulsão, obviamente) em encontrar soluções de passe entrelinhas, mas denotou depois muitas dificuldades em fazer o melhor aproveitamento dessa situação. Aqui, nota para as diferenças de rendimento da equipa depois da entrada de Klose, podendo-se destacar o acréscimo de uma solução de passe mais na profundidade, mas também o facto de nesta altura a pressão sobre o resultado ser muito maior, relativamente ao que sucedera na primeira parte. Seja como for, este foi um jogo que sempre deu a ideia de ter boas condições para que os germânicos se aproximassem muito do golo, mas isso apenas aconteceu na parte final da partida, o que parece indiciar a existência de algumas arestas por limar. É curioso porque o espaço entrelinhas foi um aspecto muito abordado no pós-jogo, frente a Portugal, mas como aqui escrevi também, e apesar desse espaço ter sido efectivamente explorado, as principais ocasiões alemãs não derivaram nunca desse ponto especifíco. Enfim, para o registo, e mais do que o empate, fica uma prestação alemã que me parece ter ficado bastante aquém do esperado, primeiro pela tal incapacidade de fazer um melhor aproveitamento das suas chegadas ao último terço, e depois pela dificuldade em controlar melhor o jogo, permitindo que este se partisse muito, o que frente a uma equipa como o Gana é sempre um risco. Aqui, não posso também excluir a hipótese de um efeito das condições climatéricas, com a Alemanha a juntar-se agora ao extenso leque de equipas mais fortes com dificuldades inesperadas em jogos frente a adversários que, à partida, não deveriam criar tantos problemas. E não me estou sequer a referir ao resultado...

Nigéria - Bósnia
Alguma desilusão pessoal com a eliminação bósnia. Do ponto de vista da qualidade de jogo, com bola, confirmou as boas indicações, mas acabou traída por uma resposta defensiva que, neste jogo em particular, acusou muitas dificuldades. Fica-me a ideia que poderá ter a ver com as condições climatéricas, já que houve sobretudo um défice de presença pressionante e capacidade de resposta individual perante as acelerações nigerianas na primeira parte. É verdade que o jogo foi equilibrado e que a Bósnia teve alguma infelicidade em vários momentos, mas também é inegável que à maior qualidade de construção bósnia não correspondeu o controlo do jogo que o seu plano de jogo certamente ambicionaria, pelo que o resultado ficou muito dependente de factores incontroláveis. Mantenho que a Bósnia é - ou, foi - uma das melhores equipas do Mundial no que respeita à sua ideia de jogo, mas o interesse do futebol e de uma prova como esta também passa pela imprevisibilidade...

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21.6.14

A caminho do Maracanã #9

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Itália - Costa Rica
Novo jogo, nova surpresa, e igualmente com justiça face àquilo que as duas equipas produziram.
Do ponto de vista táctico, diria que depois de termos visto a equipa espanhola a não ser capaz de tirar partido da exposição interior do seu adversário (Chile), agora vimos algo igualmente inesperado, com a Itália a não ser capaz de tirar partido da profundidade, oferecida pelo posicionamento da linha defensiva costarriquenha. E nem era preciso recordar Inzaghi, que tantas vezes fez mossa a jogar no limite do fora de jogo, porque o futebol italiano continua a ter alguns intérpretes muito fortes nesse tipo de movimento, sendo que provavelmente Balotelli não seria o jogador mais indicado para tal especificidade. Pegando neste e noutros aspectos, fica-me a ideia de que houve uma má preparação específica da Itália para este adversário. Pela falta de soluções criadas no espaço entrelinhas, para poder dar sequência à sua tão característica circulação baixa (Cassano entrou para tentar corrigir isso, na segunda parte), e pela falta de esclarecimento na tal definição das jogadas perante a linha defensiva da Costa Rica, com bastantes decisões pouco conseguidas e sobretudo uma incompreensível falta de concentração de alguns jogadores relativamente ao fora de jogo, sendo que na maioria dos casos essas situações ocorreram em situações junto às linhas laterais, onde havia a possibilidade de controlar a linha defensiva e não existia sequer a necessidade de antecipar o movimento de rotura. Enfim, foi a meu ver uma grande oportunidade perdida para a Itália, que continua a revelar muita capacidade para ter bola em zonas mais baixas, mas que parece bem menos esclarecida relativamente às suas soluções colectivas no último terço. Para além disto, há ainda a questão do pressing defensivo, que voltou a parecer-me pouco intenso e muito demasiado perante a circulação adversária, o que impede a Itália de ser uma equipa com a presença posse que a sua capacidade para ter bola sugere. Tudo considerado, e se não corrigir alguns destes aspectos, a Itália corre sérios riscos de ser eliminada no jogo frente ao Uruguai, que tem uma intensidade muito superior, colocando em sério risco um apuramento que, depois da vitória frente à Inglaterra, tinha tudo para ser confirmado.

Suíça - França
Com esta exibição, não tenho dúvidas, a França deixará de ser olhada com a desconfiança que ainda lhe sobrava de 2010, para gerar grandes expectativas em praticamente todos. Não vou dizer que a goleada fosse previsível, mas não me confesso surpreendido pelas dificuldades impostas à equipa suíça. Os helvéticos já haviam revelado grandes dificuldades na dinamização do seu jogo, frente ao Equador, e sendo o adversário a França esse nível de exigência certamente aumentaria muito. Confirmaram-se, pois, as dificuldades de ligação no jogo suíço, com erros que potenciaram as transições gaulesas, mas como se viu o problema esteve longe de se ficar por aqui. A França não terá o requinte técnico de outras equipas, nem tão pouco a mais culta tacticamente, mas tem outras virtudes que a tornam temível e difícil de contrariar. Com a saída da Espanha, será provavelmente a segunda maior candidatura entre os europeus, e já não surpreenderá ninguém se chegar até ao fim desta escalada...

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20.6.14

A caminho do Maracanã #8

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Colômbia - Costa do Marfim
Ambas tinham armas para poder acreditar na vitória, e a esse nível parece-me que os valores até eram bastante próximos. Mas, na prática, foi a Colômbia quem esteve quase sempre melhor, nomeadamente por ter mais capacidade para estrategicamente explorar o momento de transição, em particular na potenciação do erro adversário, assim como no rápido aproveitamento dos espaços.

No que respeita à Colômbia, será sempre uma equipa complicada de contrariar devido à forma como se protege através de uma estratégia de baixo risco, e depois potencia as suas hipóteses de sucesso pela qualidade individual que tem. E aqui, na qualidade individual, nenhum nome sobressai mais do que James Rodriguez. Já o tinha destacado como a unidade chave do modelo colombiano, mas James foi ainda mais longe na transversalidade da sua influência, marcando um inesperado golo de cabeça e identificando muito bem a oportunidade de pressão, para protagonizar a intercepção decisiva para o segundo golo. Mudando de contexto, continuo a manter a opinião de que foi provavelmente o primeiro motivo para a diferença de rendimento da época portista. Um craque!

Uruguai - Inglaterra
Muito melhor o Uruguai, a recolocar-se em posição para atacar uma qualificação que, ainda assim, continua difícil. Dois aspectos chave, a meu ver, na exibição da 'Celeste': primeiro, uma atitude mais arrojada em termos de pressing. Depois, claro, Luis Suarez! Havia referido que boa parte das dificuldades de rendimento no jogo frente à Costa Rica tinham de estar ligadas à ausência de um jogador com a sua qualidade, e ao ver a forma como se movimenta para ganhar espaços essenciais, creio que quaisquer dúvidas ficam desfeitas. Ainda a este respeito, destacaria o timing do seu movimento para o primeiro golo, convergindo na perfeição com a leitura que Cavani estava a fazer o lance. Perfeito!

Quanto à Inglaterra, e salvo uma conjugação agora muito improvável de resultados, trará do Brasil mais uma desilusão para juntar a um currículo cada vez mais penoso. A equipa, é bom ressalvar, perde dois jogos equilibrados e onde facilmente poderia ter conhecido outro destino, mas a questão não me parece ser essa. A questão é, antes sim, que a Inglaterra falha sistematicamente em ter uma abordagem que tacticamente ajude a potenciar a qualidade que, apesar de tudo, os seus recursos sempre lhe vão oferecendo. Desta vez, há uma série de equívocos de que já escrevera na antevisão, e que não vale a pena repetir. Fala-se, agora, da juventude e no potencial da sua nova geração. Para quem tem memória, porém, dificilmente o entusiasmo poderá ser muito, se recordarmos os resultados de gerações que combinaram Beckham, Shearer, Owen e Scholes, ou Gerrard, Lampard, Terry e Rooney. Nesta perspectiva, parece-me difícil ficar muito entusiasmado com as promessas de Sturridge, Sterling ou Welbeck...

Japão - Grécia
Seguramente, um dos jogos menos entretidos do Mundial, até agora. A atitude reflexa passará por associar a Grécia a mais um jogo mais fechado, mas eu pergunto qual das equipas merecerá mais responsabilidades por não ter conseguido maior proximidade com o golo? A resposta, olhando para o jogo e para os recursos individuais, tem indiscutivelmente de apontar para o lado nipónico. Foi o Japão quem usufruiu de superioridade numérica durante mais de metade do jogo, e era também do seu lado que estavam os principais recursos criativos do jogo. A propósito, será que Zaccheroni concluiu que o problema da sua dificuldade em integrar, ao mesmo tempo, Honda e Kagawa, se resolvia com a retirada de um dos dois? Ironias à parte, esta equipa do Japão tem confirmado a ideia que partilhei na antevisão e de que se trataria de uma das mais sobrevalorizadas equipas da competição. Mesmo jogando contra uma Colômbia possivelmente desfalcada, as suas hipóteses são agora muito remotas. Quanto à Grécia, e em sentido contrário, não posso ter outra coisa se não respeito por esta equipa, que é de longe a mais modesta das participantes europeias, mas que tem a seu favor uma proposta de jogo que me parece bastante ajustada às suas características. A Grécia, do meu ponto de vista, teve dois jogos bastante ingratos, primeiro sendo muito penalizada pela eficácia, frente à Colômbia, e agora vendo-se reduzida a 10 jogadores durante mais de meio jogo. E, ainda assim, as suas hipóteses de qualificação permanecem perfeitamente em aberto...

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19.6.14

A caminho do Maracanã #7

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Austrália - Holanda
O resultado acabou por convergir para a expectativa inicial de vitória holandesa, mas nem por isso este deixa de ser um jogo surpreendente. E, aqui, mesmo desconsiderando o bom jogo frente à Espanha, esperar-se-ia sempre mais dos holandeses, cuja diferença de valor para a equipa australiana é demasiada para que tivesse de passar por este tipo de sobressaltos. Do lado holandês, ficou confirmada a vocação desta equipa para actuar em transição, assim como algumas dificuldades para fazer da sua circulação baixa uma arma de afirmação no jogo. Mesmo frente a uma equipa com poucos recursos como é a Austrália, e mesmo com um modelo que contempla uma elevada presença no inicio de construção (também já havia escrito sobre isto na antevisão, mas mesmo assim foi uma surpresa). A verdade é que a posse, para a Holanda, trouxe sempre mais risco defensivo (devido aos erros e perdas que foi acumulando, e que potenciaram o próprio descontrolo defensivo) do que potencial ofensivo. Em suma, desta Holanda poderemos sobretudo esperar uma grande força no momento de transição, restando perceber até que ponto os desafios que encontrará se encaixarão, ou não, neste perfil. Para já, e apesar do mau jogo frente à Austrália, o saldo é francamente positivo.

Espanha - Chile
Tinha escrito aqui que me parecia perfeitamente possível uma recuperação espanhola, mas a realidade encarregou-se de mostrar o quão desmesuradamente optimista era essa minha expectativa. Sei que por aí não faltarão fatos à medida, a explicar como tudo era, afinal, um destino mais do que anunciado e à vista de todos. A começar pelos pecados do treinador - o mesmo que conduziu a equipa nas 2 vitórias anteriores - e a acabar no novo mito, do efeito maniqueísta da influência de Guardiola na selecção espanhola - como se Guardiola fosse treinador do Barcelona quando esta onda de vitórias começou, em 2008. Para mim, confesso, tudo isto me parece muito estranho e difícil de explicar. Em particular, é-me difícil perceber o volume de erros técnicos numa equipa com tanta qualidade a esse nível, sendo que foi precisamente pela vulnerabilidade em posse que a Espanha começou a definir a sua derrota. Enfim, com ou sem mistério, sai de cena, e de forma absolutamente inesperada, uma das melhores selecções do mundo, sendo que não tenho dúvidas que o continuará a ser no futuro próximo, muito provavelmente ainda com boa parte dos jogadores que fizeram parte deste fiasco. É uma saída que penaliza claramente o nível da competição, mas um Mundial é isto mesmo: é ver quem ganha e não quem é melhor!

Surpreenderia sempre a impotência revelada pelos espanhóis no jogo de ontem, mas para mim surpreende ainda mais tendo esta acontecido frente a uma selecção que é descrita por um dos seus principais jogadores como "tacticamente suicída". E, de facto, é muito isso que o Chile é, ainda que se tenham observado mais cautelas na exposição da sua linha defensiva, relativamente ao que fez noutras ocasiões. No futebol tudo é sempre possível, mas continuo a ver na equipa chilena algum talento (com Alexis à cabeça), é verdade, mas também muitas limitações na sua abordagem táctica, o que não me faz estar optimista quanto à chegada da equipa até às fases terminais da prova. Para já, jogará um interessante 3º jogo frente à Holanda, que definirá quem vai defrontar o Brasil nos oitavos. É uma partida que tenho dificuldade em antever. Por um lado, a transição holandesa tem tudo para provocar estragos, mesmo que Van Persie não possa jogar. Por outro, o pressing impulsivo do Chile poderá produzir frutos, caso a defensiva holandesa mantenha a displicência com bola, revelada frente à Austrália.

Camarões - Croácia
Não vou sugerir a introdução de regras radicais, mas creio que todos teriam ficado a ganhar se simplesmente fosse possível desclassificar os Camarões. Não pela baixa competitividade, até porque haverá equipas bem piores a esse nível, mas antes pelo triste espectáculo que é ver em campo, num Mundial, uma equipa que tem menos de colectivo do que um grupo de miúdos a jogar no intervalo de almoço. Foi tudo mau, desde a expulsão à disposição táctica 'kamikaze' da equipa, na segunda parte, mas nada ultrapassa a tentativa de agressão entre dois jogadores da mesma equipa que, suspeito, deverá ter sido uma estreia em fases finais de campeonatos do mundo. É uma péssima imagem para os jogadores, para a competição, e para o próprio país, que já tem problemas (e a sério!) de sobra para ainda ter de levar com este espectáculo dos seus mais mediáticos representantes.

Quanto à Croácia, mesmo com a goleada vou ter de continuar a ser crítico. Mais uma vez, um bloco muito expectante, e uma valorização muito pobre da posse de bola (aliás, é notável, porque foi preciso os Camarões ficarem com 10 para que a selecção de Rakitic e Modric ficasse com uma % de tempo de posse de bola superior ao seu adversário!). Não vou dizer que este será o pior modelo do Mundial, mas parece-me ser aquele que mais se afasta das virtudes das individualidades que tem ao seu dispor. Se mantiver a abordagem frente ao México, vai seguramente passar a maior parte do tempo a ver o seu adversário jogar, sendo que esta nem sequer é uma equipa especialmente talhada para o momento de transição. Restar-lhe-á, portanto, o talento individual e os pormenores...

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18.6.14

A caminho do Maracanã #6

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Bélgica - Argélia
É curioso o caso belga, porque nenhuma equipa pode ser considerada uma revelação se todos tiverem antecipadamente essa expectativa. Ou seja, Bélgica não será uma selecção que surpreenderá se tiver uma excelente prestação, sê-lo-á sim se isso não acontecer. Para já, porém, a sua estreia foi certamente uma das principais desilusões da primeira ronda, e isto mesmo tendo conseguido resgatar a vitória. Pessoalmente, e tendo em conta aquilo que vi na preparação, não me posso considerar supreendido pela exibição ou vitória belgas. A exibição, porque como escrevi na antevisão, já se adivinhavam dificuldades perante equipas muito fechadas. A vitória, porque apesar de não esperar um grande jogo da Bélgica, a diferença de valores era tal que mesmo assim esse era o desfecho incomparavelmente mais provável. Destaque claro, na exibição belga, para o impacto da entrada de Fellaini, oferecendo à equipa uma solução de jogo mais directo que ajudou a contornar as dificuldades que esta havia sentido numa abordagem mais apoiada, ao último terço ofensivo.

Menos previsível, para mim, foi a exibição da Argélia, que havia tido outra postura - mais aventureira - na preparação. A estrutura foi a mesma, e o onze base também não surpreendeu, mas o risco assumido foi completamente diferente, nomeadamente com um bloco muito expectante e baixo. Não se pode dizer, ainda assim, que este fosse um cenário a excluir, já que o contexto de dificuldade sugeria uma abordagem mais cautelosa. Será interessante ver até que ponto a Argélia irá repetir este tipo de estratégia nos próximos jogos, sendo que se isso não acontecer, me parece provável que vejamos um grau de exposição muito maior por parte dos argelinos, pelo menos a fazer fé naquilo que pude ver na preparação...

Brasil - México
Segundo jogo de pouco entusiasmo do Brasil, desta vez mesmo a valer a perda de 2 pontos. Há um aspecto que me parece interessante explorar e que tem a ver com a gestão do jogo e do risco por parte de Scolari. O treinador brasileiro foi prudente nas alterações, nomeadamente nunca acrescentando grande risco, o que como era previsível não agradou à esmagadora maioria dos adeptos. Pessoalmente, tendo a concordar com alguma prudência por parte do seleccionador, nomeadamente não aumentando o risco de derrota, já que o Brasil teria bem mais a perder com uma derrota do que a ganhar com uma vitória. Quanto à qualidade do jogo brasileiro, que está a decepcionar a maioria, parece-me que não era de esperar muito mais da equipa neste Mundial, e que isso não retira o Brasil do topo dos favoritos.

Mais interessante do que o Brasil, na minha perspectiva, é analisar o jogo do ponto de vista mexicano. Não sou um adepto deste sistema, mas penso que a equipa mexicana tem aquilo que é mais importante, que é uma identidade própria e bem definida. Naturalmente, não foi fácil fazê-lo, e o Brasil poderia facilmente ter ganho o jogo se tivesse concretizado uma das boas ocasiões criadas, mas os mexicanos apareceram no jogo apostados em jogar o seu jogo, de acordo com as suas ideias, acabando por criar muitos problemas a um adversário que lhe é incomparavelmente superior. Aqui, não resisto em fazer um paralelismo com aquilo que fez a Croácia no jogo inaugural, que com recursos bem mais fortes do ponto de vista individual, não conseguiu nunca dividir o jogo como fizeram os mexicanos, nomeadamente escolhendo uma postura reactiva e submissa e raramente controlando o jogo pela posse. Finalmente, sobre o México, parece-me claro que grande parte da sua capacidade ofensiva podia ser maximizada com a simples introdução de 'Chicharito' Hernandez, já que é um jogador muito mais forte nos movimentos de apelo à profundidade, criando muito mais soluções de passe aos médios e muito mais problemas de controlo aos defensores. Com Hernandez de inicio, estou em crer que este México podia aspirar a voos muito mais altos neste Mundial.

Fim da 1ª ronda: muitos golos!
A expectativa passava por que tivéssemos 40 golos nos primeiros 16 jogos da primeira ronda. Tivemos 49, mais 9. Ora, isto sugere que estamos a ter um Mundial inesperadamente ofensivo, com mais prevalência dos ataques, relativamente ao que se esperava. Mas não creio que foi isso que realmente se passou. Segundo a minha análise (e critério), tivemos exactamente 100 ocasiões claras de golo, o que quer dizer que o aproveitamento das mesmas esteve na ordem dos 49%. Tal como tenho defendido aqui, e de acordo com outras análises, este indicador deverá ser relativamente estável a prazo, não ultrapassando os 40%. Ou seja, se a capacidade de desequilíbrio das equipas se mantiver, o mais provável não é que continuemos a ter muitos golos, mas sim que essa marca decresça substancialmente na 2ª ronda.

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17.6.14

A caminho do Maracanã #5 (Alemanha - Portugal)

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Do entusiasmo da estreia à depressão colectiva!
A goleada sofrida por Portugal frente à Alemanha traz, como sempre acontece, uma onda de pessimismo e censura sobre tudo o que envolve a Selecção. As derrotas, mesmo as mais pesadas como foi esta, oferecem a oportunidade de se questionar o que está ser feito, e isso pode ser até muito positivo. Menos lúcido, porém, será o diagnóstico catastrófico que se formula sobre tudo e todos nestas ocasiões. Ainda assim, e de acordo com o que tantas vezes escrevo, toda esta irracionalidade é na minha óptica uma consequência incontornável da dimensão emocional, o motor daquilo que o futebol é hoje enquanto fenómeno social. Neste sentido, e por muito que tente ter uma perspectiva diferente das coisas, não serei certamente eu a lamentar esta volatilidade emocional generalizada, que tanto deprime quando se perde, como leva à euforia quando se ganha. Preocupante, mesmo, era se não fosse assim!

Enfim, indo então de encontro às questões sobre o jogo de Portugal frente à Alemanha, gostaria de começar por recuperar muito daquilo que escrevi a propósito da goleada sofrida pela Espanha, há uns dias a esta parte. Em particular, para referir que se existem muitos pontos questionáveis e até censuráveis - segundo a opinião de cada um, evidentemente - naquilo que fez Portugal, também é preciso compreender a verdadeira origem do resultado, que não resulta de um desequilíbrio extremo de forças como o resultado sugere, mas muito mais de uma sequência de acontecimentos que foram compondo o cenário final. Mais concretamente, se nos fixarmos no minuto 37, quando acontece a expulsão de Pepe (que na prática é o 'knock-out' das aspirações portuguesas no jogo), vemos que o que sucedeu até então não foi um jogo desnivelado. Aliás, muito pelo contrário, se contabilizarmos as situações de desequilíbrio que as ambas as equipas tinham sido capazes de criar até esse momento, encontramos um cenário marcado pela equivalência de parte a parte, explicando-se o resultado fundamentalmente pelo sempre decisivo pormenor da eficácia. A partir daí, evidentemente, tudo foi diferente. A minha conclusão de tudo isto, para Portugal, também é mais ou menos a mesma que aquela que partilhei no rescaldo da derrocada espanhola, ou seja que a goleada deve servir para questionar e rever situações que de facto existem, mas que o resultado está muito longe de traduzir a real diferença de valor entre as equipas, ou sequer de sentenciar as aspirações portuguesas nesta competição.

Passando à discussão sobre algumas questões tácticas, vou dividir por pontos a minha opinião sobre cada um dos aspectos que me parecem ser susceptíveis de debate:

Estratégia e risco defensivo - Contextualizando, a opção de Paulo Bento passou por tentar um condicionamento muito arrojado sobre a construção alemã. A Alemanha não fez o mesmo, e talvez à excepção do Chile, não creio que neste Mundial alguma outra equipa se tenha proposto defender numa extensão tão grande de terreno. Ou seja, existe aqui um risco implícito do momento de organização defensiva portuguesa, que será obviamente questionável. Não creio que Portugal se tenha dado mal com esta estratégia em particular, já que conseguiu provocar o erro na selecção alemã, potenciando situações de transição e diminuindo o tempo de presença em posse do seu adversário, que com outra estratégia teria sido seguramente maior. Por outro lado, e se nos reportarmos ao tempo em que ambas as equipas estiveram em igualdade numérica, a Alemanha não criou qualquer situação de golo por via deste tipo de risco. Em suma, parece-me arriscado defender assim, mas aceito perfeitamente a opção e - aqui sem margem para dúvidas! - prefiro-a à postura submissa e meramente reactiva que Portugal apresentou no Mundial 2010.

Posicionamento defensivo de Ronaldo - Não é um tema novo, e já aqui havia discordado desta opção, onde me parece estar a grande fragilidade defensiva da Selecção. Se olharmos para a primeira parte do jogo, de resto, veremos que foi quase sempre pelo seu lado direito que a equipa alemã conseguiu encontrar espaço para progredir e evitar o pressing alto português. Portugal defende com uma estrutura que deveria contemplar 2 linhas de quatro elementos, adiantando Moutinho para perto do avançado. O que sucede, porém, é que há uma assimetria deliberada entre o comportamento dos alas (Ronaldo e Nani), com o capitão português a não fechar ao longo do seu corredor. A consequência é que Portugal acaba por defender muitas vezes com uma linha média de apenas 3 unidades nos últimos 25-30 metros, aumentando muito a exigência sobre o papel defensivo de Meireles. Por exemplo, no lance do primeiro golo, que tem origem exactamente nesse corredor, Portugal não envolve 3 unidades nos últimos 25 metros (Ronaldo, Moutinho e Almeida). Pessoalmente, mantenho que este é o ponto que mais fragilidade provoca à Selecção portuguesa, parecendo-me que seria preferível que Ronaldo defendesse na primeira linha do corredor central.

Comportamento defensivo individual - Depois dos jogos é sempre fácil criticar este ou aquele comportamento individual dos jogadores. É, certamente, um exercício necessário e muito útil para se detectar erros e corrigir aspectos de pormenor, mas quando se passa disso para uma tentativa de assassinato público das competências dos jogadores, já se está entrar num campo onde a desonestidade intelectual e o mesquinhismo se sobrepõem a tudo o que de positivo pode haver neste tipo de análise. Sobre isto, quero apenas recuperar o primeiro ponto desta discussão e que tem a ver com o risco e exigência táctica que estavam implícitos na proposta de jogo portuguesa, para mais frente a um dos adversários mais fortes em termos de mobilidade e qualidade de circulação (apenas a Espanha poderia causar mais problemas a este nível). Ou seja, é fácil encontrar e isolar vários lances onde as opções poderiam ter sido outras (ainda que a tese de que o resultado seria diferente, não passe de uma mera conjectura), agora tenho sérias dúvidas que houvesse assim tantos que fossem capazes de fazer melhor...

Risco (pouco), em organização ofensiva - Se Portugal assume muito risco na sua postura em organização defensiva, o mesmo não se pode dizer quando a equipa tem a bola. Portugal denota uma grande aversão ao risco de perda em posse, o que significa que facilmente a equipa opta por um jogo mais directo perante o condicionamento do adversário. Mais uma vez, é fundamentalmente uma questão de opção. Portugal não tem uma equipa especialmente forte para ser radical a este nível (como a Espanha ou a Alemanha, por exemplo), mas tem certamente capacidade para definir uma abordagem mais arrojada para a sua fase de construção. Aqui, tendo a estar de acordo com a ideia de que Portugal deveria exigir mais de si próprio e envolver mais gente na circulação baixa, em vez de projectar tanto os médios em profundidade, algo que acontece sobretudo perante equipas de maior dimensão como foi o caso da Alemanha.

Lado esquerdo e a ausência de Coentrão - Este era um cenário que já havia explorado num comentário recente, e Paulo Bento aparentemente pagará mesmo a imprudência de não ter trazido outro lateral esquerdo de raiz para o Mundial. Pessoalmente, vejo com muito maus olhos a entrada de André Almeida para aquele corredor, tanto mais num modelo onde é ao lateral quem cabe normalmente oferecer profundidade ao lado esquerdo, dada a propensão interior de Ronaldo. Honestamente, e mesmo havendo outros riscos (nomeadamente defensivos) envolvidos, preferia ver Veloso adaptado ao lugar, entrando William ou Amorim para o meio campo. Mesmo em relação a André Almeida, penso que Ruben Amorim poderia ser melhor opção, devido à maior qualidade da sua presença em posse. Seja como for, se tivesse de eleger um aspecto onde a decisão de Paulo Bento me parece mais criticável, seria certamente na negligência da importância das características do lateral esquerdo para o modelo de jogo da Selecção, na definição da sua convocatória.

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