19.6.14

A caminho do Maracanã #7

ver comentários...
Austrália - Holanda
O resultado acabou por convergir para a expectativa inicial de vitória holandesa, mas nem por isso este deixa de ser um jogo surpreendente. E, aqui, mesmo desconsiderando o bom jogo frente à Espanha, esperar-se-ia sempre mais dos holandeses, cuja diferença de valor para a equipa australiana é demasiada para que tivesse de passar por este tipo de sobressaltos. Do lado holandês, ficou confirmada a vocação desta equipa para actuar em transição, assim como algumas dificuldades para fazer da sua circulação baixa uma arma de afirmação no jogo. Mesmo frente a uma equipa com poucos recursos como é a Austrália, e mesmo com um modelo que contempla uma elevada presença no inicio de construção (também já havia escrito sobre isto na antevisão, mas mesmo assim foi uma surpresa). A verdade é que a posse, para a Holanda, trouxe sempre mais risco defensivo (devido aos erros e perdas que foi acumulando, e que potenciaram o próprio descontrolo defensivo) do que potencial ofensivo. Em suma, desta Holanda poderemos sobretudo esperar uma grande força no momento de transição, restando perceber até que ponto os desafios que encontrará se encaixarão, ou não, neste perfil. Para já, e apesar do mau jogo frente à Austrália, o saldo é francamente positivo.

Espanha - Chile
Tinha escrito aqui que me parecia perfeitamente possível uma recuperação espanhola, mas a realidade encarregou-se de mostrar o quão desmesuradamente optimista era essa minha expectativa. Sei que por aí não faltarão fatos à medida, a explicar como tudo era, afinal, um destino mais do que anunciado e à vista de todos. A começar pelos pecados do treinador - o mesmo que conduziu a equipa nas 2 vitórias anteriores - e a acabar no novo mito, do efeito maniqueísta da influência de Guardiola na selecção espanhola - como se Guardiola fosse treinador do Barcelona quando esta onda de vitórias começou, em 2008. Para mim, confesso, tudo isto me parece muito estranho e difícil de explicar. Em particular, é-me difícil perceber o volume de erros técnicos numa equipa com tanta qualidade a esse nível, sendo que foi precisamente pela vulnerabilidade em posse que a Espanha começou a definir a sua derrota. Enfim, com ou sem mistério, sai de cena, e de forma absolutamente inesperada, uma das melhores selecções do mundo, sendo que não tenho dúvidas que o continuará a ser no futuro próximo, muito provavelmente ainda com boa parte dos jogadores que fizeram parte deste fiasco. É uma saída que penaliza claramente o nível da competição, mas um Mundial é isto mesmo: é ver quem ganha e não quem é melhor!

Surpreenderia sempre a impotência revelada pelos espanhóis no jogo de ontem, mas para mim surpreende ainda mais tendo esta acontecido frente a uma selecção que é descrita por um dos seus principais jogadores como "tacticamente suicída". E, de facto, é muito isso que o Chile é, ainda que se tenham observado mais cautelas na exposição da sua linha defensiva, relativamente ao que fez noutras ocasiões. No futebol tudo é sempre possível, mas continuo a ver na equipa chilena algum talento (com Alexis à cabeça), é verdade, mas também muitas limitações na sua abordagem táctica, o que não me faz estar optimista quanto à chegada da equipa até às fases terminais da prova. Para já, jogará um interessante 3º jogo frente à Holanda, que definirá quem vai defrontar o Brasil nos oitavos. É uma partida que tenho dificuldade em antever. Por um lado, a transição holandesa tem tudo para provocar estragos, mesmo que Van Persie não possa jogar. Por outro, o pressing impulsivo do Chile poderá produzir frutos, caso a defensiva holandesa mantenha a displicência com bola, revelada frente à Austrália.

Camarões - Croácia
Não vou sugerir a introdução de regras radicais, mas creio que todos teriam ficado a ganhar se simplesmente fosse possível desclassificar os Camarões. Não pela baixa competitividade, até porque haverá equipas bem piores a esse nível, mas antes pelo triste espectáculo que é ver em campo, num Mundial, uma equipa que tem menos de colectivo do que um grupo de miúdos a jogar no intervalo de almoço. Foi tudo mau, desde a expulsão à disposição táctica 'kamikaze' da equipa, na segunda parte, mas nada ultrapassa a tentativa de agressão entre dois jogadores da mesma equipa que, suspeito, deverá ter sido uma estreia em fases finais de campeonatos do mundo. É uma péssima imagem para os jogadores, para a competição, e para o próprio país, que já tem problemas (e a sério!) de sobra para ainda ter de levar com este espectáculo dos seus mais mediáticos representantes.

Quanto à Croácia, mesmo com a goleada vou ter de continuar a ser crítico. Mais uma vez, um bloco muito expectante, e uma valorização muito pobre da posse de bola (aliás, é notável, porque foi preciso os Camarões ficarem com 10 para que a selecção de Rakitic e Modric ficasse com uma % de tempo de posse de bola superior ao seu adversário!). Não vou dizer que este será o pior modelo do Mundial, mas parece-me ser aquele que mais se afasta das virtudes das individualidades que tem ao seu dispor. Se mantiver a abordagem frente ao México, vai seguramente passar a maior parte do tempo a ver o seu adversário jogar, sendo que esta nem sequer é uma equipa especialmente talhada para o momento de transição. Restar-lhe-á, portanto, o talento individual e os pormenores...

ler tudo >>

18.6.14

A caminho do Maracanã #6

ver comentários...
Bélgica - Argélia
É curioso o caso belga, porque nenhuma equipa pode ser considerada uma revelação se todos tiverem antecipadamente essa expectativa. Ou seja, Bélgica não será uma selecção que surpreenderá se tiver uma excelente prestação, sê-lo-á sim se isso não acontecer. Para já, porém, a sua estreia foi certamente uma das principais desilusões da primeira ronda, e isto mesmo tendo conseguido resgatar a vitória. Pessoalmente, e tendo em conta aquilo que vi na preparação, não me posso considerar supreendido pela exibição ou vitória belgas. A exibição, porque como escrevi na antevisão, já se adivinhavam dificuldades perante equipas muito fechadas. A vitória, porque apesar de não esperar um grande jogo da Bélgica, a diferença de valores era tal que mesmo assim esse era o desfecho incomparavelmente mais provável. Destaque claro, na exibição belga, para o impacto da entrada de Fellaini, oferecendo à equipa uma solução de jogo mais directo que ajudou a contornar as dificuldades que esta havia sentido numa abordagem mais apoiada, ao último terço ofensivo.

Menos previsível, para mim, foi a exibição da Argélia, que havia tido outra postura - mais aventureira - na preparação. A estrutura foi a mesma, e o onze base também não surpreendeu, mas o risco assumido foi completamente diferente, nomeadamente com um bloco muito expectante e baixo. Não se pode dizer, ainda assim, que este fosse um cenário a excluir, já que o contexto de dificuldade sugeria uma abordagem mais cautelosa. Será interessante ver até que ponto a Argélia irá repetir este tipo de estratégia nos próximos jogos, sendo que se isso não acontecer, me parece provável que vejamos um grau de exposição muito maior por parte dos argelinos, pelo menos a fazer fé naquilo que pude ver na preparação...

Brasil - México
Segundo jogo de pouco entusiasmo do Brasil, desta vez mesmo a valer a perda de 2 pontos. Há um aspecto que me parece interessante explorar e que tem a ver com a gestão do jogo e do risco por parte de Scolari. O treinador brasileiro foi prudente nas alterações, nomeadamente nunca acrescentando grande risco, o que como era previsível não agradou à esmagadora maioria dos adeptos. Pessoalmente, tendo a concordar com alguma prudência por parte do seleccionador, nomeadamente não aumentando o risco de derrota, já que o Brasil teria bem mais a perder com uma derrota do que a ganhar com uma vitória. Quanto à qualidade do jogo brasileiro, que está a decepcionar a maioria, parece-me que não era de esperar muito mais da equipa neste Mundial, e que isso não retira o Brasil do topo dos favoritos.

Mais interessante do que o Brasil, na minha perspectiva, é analisar o jogo do ponto de vista mexicano. Não sou um adepto deste sistema, mas penso que a equipa mexicana tem aquilo que é mais importante, que é uma identidade própria e bem definida. Naturalmente, não foi fácil fazê-lo, e o Brasil poderia facilmente ter ganho o jogo se tivesse concretizado uma das boas ocasiões criadas, mas os mexicanos apareceram no jogo apostados em jogar o seu jogo, de acordo com as suas ideias, acabando por criar muitos problemas a um adversário que lhe é incomparavelmente superior. Aqui, não resisto em fazer um paralelismo com aquilo que fez a Croácia no jogo inaugural, que com recursos bem mais fortes do ponto de vista individual, não conseguiu nunca dividir o jogo como fizeram os mexicanos, nomeadamente escolhendo uma postura reactiva e submissa e raramente controlando o jogo pela posse. Finalmente, sobre o México, parece-me claro que grande parte da sua capacidade ofensiva podia ser maximizada com a simples introdução de 'Chicharito' Hernandez, já que é um jogador muito mais forte nos movimentos de apelo à profundidade, criando muito mais soluções de passe aos médios e muito mais problemas de controlo aos defensores. Com Hernandez de inicio, estou em crer que este México podia aspirar a voos muito mais altos neste Mundial.

Fim da 1ª ronda: muitos golos!
A expectativa passava por que tivéssemos 40 golos nos primeiros 16 jogos da primeira ronda. Tivemos 49, mais 9. Ora, isto sugere que estamos a ter um Mundial inesperadamente ofensivo, com mais prevalência dos ataques, relativamente ao que se esperava. Mas não creio que foi isso que realmente se passou. Segundo a minha análise (e critério), tivemos exactamente 100 ocasiões claras de golo, o que quer dizer que o aproveitamento das mesmas esteve na ordem dos 49%. Tal como tenho defendido aqui, e de acordo com outras análises, este indicador deverá ser relativamente estável a prazo, não ultrapassando os 40%. Ou seja, se a capacidade de desequilíbrio das equipas se mantiver, o mais provável não é que continuemos a ter muitos golos, mas sim que essa marca decresça substancialmente na 2ª ronda.

ler tudo >>

17.6.14

A caminho do Maracanã #5 (Alemanha - Portugal)

ver comentários...
Do entusiasmo da estreia à depressão colectiva!
A goleada sofrida por Portugal frente à Alemanha traz, como sempre acontece, uma onda de pessimismo e censura sobre tudo o que envolve a Selecção. As derrotas, mesmo as mais pesadas como foi esta, oferecem a oportunidade de se questionar o que está ser feito, e isso pode ser até muito positivo. Menos lúcido, porém, será o diagnóstico catastrófico que se formula sobre tudo e todos nestas ocasiões. Ainda assim, e de acordo com o que tantas vezes escrevo, toda esta irracionalidade é na minha óptica uma consequência incontornável da dimensão emocional, o motor daquilo que o futebol é hoje enquanto fenómeno social. Neste sentido, e por muito que tente ter uma perspectiva diferente das coisas, não serei certamente eu a lamentar esta volatilidade emocional generalizada, que tanto deprime quando se perde, como leva à euforia quando se ganha. Preocupante, mesmo, era se não fosse assim!

Enfim, indo então de encontro às questões sobre o jogo de Portugal frente à Alemanha, gostaria de começar por recuperar muito daquilo que escrevi a propósito da goleada sofrida pela Espanha, há uns dias a esta parte. Em particular, para referir que se existem muitos pontos questionáveis e até censuráveis - segundo a opinião de cada um, evidentemente - naquilo que fez Portugal, também é preciso compreender a verdadeira origem do resultado, que não resulta de um desequilíbrio extremo de forças como o resultado sugere, mas muito mais de uma sequência de acontecimentos que foram compondo o cenário final. Mais concretamente, se nos fixarmos no minuto 37, quando acontece a expulsão de Pepe (que na prática é o 'knock-out' das aspirações portuguesas no jogo), vemos que o que sucedeu até então não foi um jogo desnivelado. Aliás, muito pelo contrário, se contabilizarmos as situações de desequilíbrio que as ambas as equipas tinham sido capazes de criar até esse momento, encontramos um cenário marcado pela equivalência de parte a parte, explicando-se o resultado fundamentalmente pelo sempre decisivo pormenor da eficácia. A partir daí, evidentemente, tudo foi diferente. A minha conclusão de tudo isto, para Portugal, também é mais ou menos a mesma que aquela que partilhei no rescaldo da derrocada espanhola, ou seja que a goleada deve servir para questionar e rever situações que de facto existem, mas que o resultado está muito longe de traduzir a real diferença de valor entre as equipas, ou sequer de sentenciar as aspirações portuguesas nesta competição.

Passando à discussão sobre algumas questões tácticas, vou dividir por pontos a minha opinião sobre cada um dos aspectos que me parecem ser susceptíveis de debate:

Estratégia e risco defensivo - Contextualizando, a opção de Paulo Bento passou por tentar um condicionamento muito arrojado sobre a construção alemã. A Alemanha não fez o mesmo, e talvez à excepção do Chile, não creio que neste Mundial alguma outra equipa se tenha proposto defender numa extensão tão grande de terreno. Ou seja, existe aqui um risco implícito do momento de organização defensiva portuguesa, que será obviamente questionável. Não creio que Portugal se tenha dado mal com esta estratégia em particular, já que conseguiu provocar o erro na selecção alemã, potenciando situações de transição e diminuindo o tempo de presença em posse do seu adversário, que com outra estratégia teria sido seguramente maior. Por outro lado, e se nos reportarmos ao tempo em que ambas as equipas estiveram em igualdade numérica, a Alemanha não criou qualquer situação de golo por via deste tipo de risco. Em suma, parece-me arriscado defender assim, mas aceito perfeitamente a opção e - aqui sem margem para dúvidas! - prefiro-a à postura submissa e meramente reactiva que Portugal apresentou no Mundial 2010.

Posicionamento defensivo de Ronaldo - Não é um tema novo, e já aqui havia discordado desta opção, onde me parece estar a grande fragilidade defensiva da Selecção. Se olharmos para a primeira parte do jogo, de resto, veremos que foi quase sempre pelo seu lado direito que a equipa alemã conseguiu encontrar espaço para progredir e evitar o pressing alto português. Portugal defende com uma estrutura que deveria contemplar 2 linhas de quatro elementos, adiantando Moutinho para perto do avançado. O que sucede, porém, é que há uma assimetria deliberada entre o comportamento dos alas (Ronaldo e Nani), com o capitão português a não fechar ao longo do seu corredor. A consequência é que Portugal acaba por defender muitas vezes com uma linha média de apenas 3 unidades nos últimos 25-30 metros, aumentando muito a exigência sobre o papel defensivo de Meireles. Por exemplo, no lance do primeiro golo, que tem origem exactamente nesse corredor, Portugal não envolve 3 unidades nos últimos 25 metros (Ronaldo, Moutinho e Almeida). Pessoalmente, mantenho que este é o ponto que mais fragilidade provoca à Selecção portuguesa, parecendo-me que seria preferível que Ronaldo defendesse na primeira linha do corredor central.

Comportamento defensivo individual - Depois dos jogos é sempre fácil criticar este ou aquele comportamento individual dos jogadores. É, certamente, um exercício necessário e muito útil para se detectar erros e corrigir aspectos de pormenor, mas quando se passa disso para uma tentativa de assassinato público das competências dos jogadores, já se está entrar num campo onde a desonestidade intelectual e o mesquinhismo se sobrepõem a tudo o que de positivo pode haver neste tipo de análise. Sobre isto, quero apenas recuperar o primeiro ponto desta discussão e que tem a ver com o risco e exigência táctica que estavam implícitos na proposta de jogo portuguesa, para mais frente a um dos adversários mais fortes em termos de mobilidade e qualidade de circulação (apenas a Espanha poderia causar mais problemas a este nível). Ou seja, é fácil encontrar e isolar vários lances onde as opções poderiam ter sido outras (ainda que a tese de que o resultado seria diferente, não passe de uma mera conjectura), agora tenho sérias dúvidas que houvesse assim tantos que fossem capazes de fazer melhor...

Risco (pouco), em organização ofensiva - Se Portugal assume muito risco na sua postura em organização defensiva, o mesmo não se pode dizer quando a equipa tem a bola. Portugal denota uma grande aversão ao risco de perda em posse, o que significa que facilmente a equipa opta por um jogo mais directo perante o condicionamento do adversário. Mais uma vez, é fundamentalmente uma questão de opção. Portugal não tem uma equipa especialmente forte para ser radical a este nível (como a Espanha ou a Alemanha, por exemplo), mas tem certamente capacidade para definir uma abordagem mais arrojada para a sua fase de construção. Aqui, tendo a estar de acordo com a ideia de que Portugal deveria exigir mais de si próprio e envolver mais gente na circulação baixa, em vez de projectar tanto os médios em profundidade, algo que acontece sobretudo perante equipas de maior dimensão como foi o caso da Alemanha.

Lado esquerdo e a ausência de Coentrão - Este era um cenário que já havia explorado num comentário recente, e Paulo Bento aparentemente pagará mesmo a imprudência de não ter trazido outro lateral esquerdo de raiz para o Mundial. Pessoalmente, vejo com muito maus olhos a entrada de André Almeida para aquele corredor, tanto mais num modelo onde é ao lateral quem cabe normalmente oferecer profundidade ao lado esquerdo, dada a propensão interior de Ronaldo. Honestamente, e mesmo havendo outros riscos (nomeadamente defensivos) envolvidos, preferia ver Veloso adaptado ao lugar, entrando William ou Amorim para o meio campo. Mesmo em relação a André Almeida, penso que Ruben Amorim poderia ser melhor opção, devido à maior qualidade da sua presença em posse. Seja como for, se tivesse de eleger um aspecto onde a decisão de Paulo Bento me parece mais criticável, seria certamente na negligência da importância das características do lateral esquerdo para o modelo de jogo da Selecção, na definição da sua convocatória.

ler tudo >>

16.6.14

A caminho do Maracanã #4

ver comentários...
Suíça - Equador
Um confronto interessante, por colocar em confronto duas selecções, digamos, da classe média dos respectivos continentes, sendo que ambas representam bem as orientações tácticas que hoje predominam quer nas equipas europeias, quer nas sul americanas. Ambas em 4-2-3-1, mas a Suíça a valorizar mais o momento de organização, enquanto que o Equador a revelar-se sobretudo vocacionado para o momento de transição. Daqui resulta uma consequência sobre aquele que seria - e foi, durante grande parte do jogo - o detalhe fundamental do jogo, ou seja o momento da perda da bola suíça. Quando os suíços conseguiram ter mais qualidade na ligação do seu jogo, prolongando-o até ao último terço, a resposta do Equador foi sempre muito complicada. Mas quando isso não sucedia, eram os equatorianos quem tinham uma presença mais ameaçadora no jogo. Pessoalmente, entendo que a Suíça é uma formação mais bem trabalhada tacticamente e com uma equipa mais completa em termos de qualidade, mas a verdade é que os suíços tiveram muita dificuldade em lidar com o bloco baixo e denso dos equatorianos, não confirmando no jogo - e muito por este ponto que, como disse, me parece fulcral - a superioridade que lhes reconhecia. Outro detalhe interessante, e decisivo na definição do resultado, foi a forma como o Equador permitiu que o jogo se partisse nos minutos finais, provavelmente deslumbrado pela possibilidade de vitória, mas acabando por ser penalizado pelas dificuldades que os seus defensores revelam quando saem do conforto daquele bloco baixo e denso que tanto caracteriza a equipa.

França - Honduras
Há pouco para dizer deste jogo, tal o desequilíbrio de valores entre os dois conjuntos. Na verdade, parece-me até que a percepção das diferenças não estava muito bem percebida, havendo alguma expectativa em torno da possibilidade de uma surpresa hondurenha. A verdade, porém, é que as Honduras são das equipas mais fracas deste Mundial (com Irão e Austrália, formam um grupo que destaco claramente das demais), enquanto que a França está no topo do segundo pelotão de favoritos para este Mundial, atrás dos 4 mais claros candidatos. Na equipa francesa, o sublinhado mais evidente recairá em Benzema ou no poderio do seu meio campo (fisicamente, o mais impressionante da prova), mas gostaria de destacar também a qualidade de Valbuena, que como já havia referido na antevisão sobre a equipa, tem um papel fundamental nos movimentos interiores da equipa, oferecendo-se sempre como solução de qualidade num zona que onde poucos o conseguem fazer. Ao vê-lo nesta função aos 29 anos, fico com a sensação de que terá passado ao lado de uma carreira de muito maior fulgor, nomeadamente ao ser sempre utilizado em posições exteriores. Que desperdício!

Argentina - Bósnia
A Argentina foi das equipas que menos se deu a mostrar nos jogos de preparação e, talvez por isso, aquela que mais me surpreendeu na sua abordagem inicial, em relação ao que tinha visto. De facto, não esperava os 3 centrais, e também não me parece a melhor forma de potenciar os recursos desta equipa. De resto, é interessante o caso de Messi, que marcou um grande golo, mas que passou também grande parte do jogo a ser anulado pelo adversário. Pessoalmente - e posso estar errado, aqui - continuo a pensar que o que distingue o patamar de rendimento de Messi é sobretudo o ajuste do contexto colectivo. A sua envolvência no jogo, na minha perspectiva, deve ser potenciada e explorada, mas de preferência entre as últimas duas linhas adversárias. O que me parece acontecer é que, em relação ao passado, Messi tem sido solicitado em fases cada vez mais precoces do jogo das suas equipas, nomeadamente quando tem ainda 30-40 metros para percorrer até chegar à baliza e, principalmente, duas ou três linhas defensivas por ultrapassar. Assim, acaba por desgastar-se física e mentalmente, quer pela maior frequência com que é solicitado, quer pela frustração de ser mal sucedido em iniciativas de grande improbabilidade de sucesso. Ou seja, potenciar Messi, sim, mas saltar etapas do jogo ofensivo, não.

Se a grande expectativa mediática para este jogo girava em torno da equipa argentina, a minha estava também muito centrada na Bósnia, sobre quem tinha sido muito elogioso. De facto, foi pena o golo sofrido logo no inicio do jogo, porque a qualidade que esta equipa confirmou tinha tudo para colocar os argentinos em sobressalto. Como havia referido, é uma equipa com uma proposta arrojada, tanto a nível defensivo como ofensivo, mas com bastante qualidade naquilo que se propõe fazer. Não diria que o resultado foi injusto, mesmo se foi a Bósnia quem conseguiu mais finalizações enquadradas ou pontapés de canto no jogo (o que, dado o desnível de recursos entre as equipas, é já de si notável), mas destacaria sem dúvida a capacidade que a equipa revelou para gerir o jogo com bola, sempre ligando o jogo de forma apoiada a partir de trás. E recupero aqui o que escrevi sobre a exibição da Croácia frente ao Brasil, que com recursos individuais bem mais capazes não teve o arrojo de ir além de uma postura submissa e reactiva. Na Bósnia, grande destaque para o corredor central, com Pjanic, Besic (já havia antecipado a qualidade deste jovem desconhecido, que me parece ter capacidade para jogar numa das principais equipas do futebol europeu, como médio defensivo), Misimovic e Dzeko, que contrasta com alguma mediocridade dos jogadores que actuam nos corredores laterais. Enfim, a prova é curta e bastante vulnerável a factores aleatórios, assim como aos caprichos de calendário (a Argentina jogará com a Nigéria na última jornada, podendo estar já qualificada nessa altura), mas mantenho a expectativa elevada sobre esta equipa, que me continua a parecer a mais bem potenciada colectivamente, em face dos recursos individuais que possui. Esperemos é que Susic não se deixa afectar por alguma miopia analítica, e queira mudar uma identidade forte que construiu para incluir outro avançado no onze, quem sabe encostando Pjanic outra vez a uma faxa ou abdicando do toque vintage que só Misimovic é capaz de oferecer à ligação da equipa. Seria uma crueldade, mas no futebol nunca se sabe...

ler tudo >>

15.6.14

A caminho do Maracanã #3

ver comentários...
Colômbia - Grécia
Diz-se, e repete-se, que a Grécia é uma equipa defensiva. Não posso discordar da classificação, mas já acho mais duvidoso que se enfatize essa característica quando pela frente temos uma equipa como a Colômbia. De resto, é curioso como, à excepção do Chile, todas as equipas sul americanas se apresentam em bases tácticas muito semelhantes:
- linha defensiva com muito pouco risco na gestão da profundidade (fora de jogo)
- bloco defensivo essencialmente expectante
- bloco defensivo com duas linhas de quatro jogadores
- 2 médios defensivos mais trabalhadores do que criativos
- dinâmica ofensiva simples e muito dependente daquilo que individualmente os jogadores têm para oferecer

Uma tendência que, na minha leitura, poderá ter a ver com questões históricas, e com a forma como estas selecções foram sendo penalizadas por algum aventureirismo táctico que as caracterizou durante décadas. Seja como for, não é seguramente brilhante do ponto de vista táctico, e por isso escrevi na antevisão que estas são - quase todas - equipas algo sobrevalorizadas, porque valem muito pouco para além daquilo que as suas principais unidades possam oferecer. Por exemplo, parece-me que a Grécia não só não é menos defensiva do que estas equipas, como é bem mais interessante do ponto de vista táctico. Só que, claro, não tem a mesma qualidade individual, e é por aí que se explica o facto do seu potencial ser inferior ao da Colômbia . De resto, diria que este foi, até agora, o resultado que mais contou com o peso da eficácia para a sua definição, porque se a Colômbia marcou três golos, a Grécia foi a única equipa que perdeu ocasiões claras de golo.

Uruguai - Costa Rica
Em futebol, diria, há dois tipos de resultados surpreendentes. Aqueles que decorrem da aleatoriedade e dos caprichos da eficácia, e os outros, que acontecem na sequência de performances globalmente inesperadas das equipas. Neste caso, esta foi claramente uma surpresa do segundo tipo. Ou seja, o Uruguai não perdeu porque fez um menor aproveitamento daquilo que produziu. Perdeu, porque produziu menos, e consideravelmente menos. De facto, mais do que o resultado, não esperava esta diferença de rendimento entre as equipas. Mesmo se agrupo o Uruguai no tipo de equipas com as características que descrevi acima e se já tinha escrito sobre os riscos da sua falta de vocação criativa. Uma parte da explicação, a meu ver, tem de estar mesmo na ausência de Suarez, porque se esta equipa vale essencialmente pela soma das suas partes, torna-se incontornável que sem a mais valiosa das parcelas o resultado acabe por ser menor do que à partida se poderia supor. Seja como for, é agora muito improvável que os uruguaios possam sequer ameaçar em repetir a presença numa final de um Mundial brasileiro.

Uma nota sobre a Costa Rica, que não passou a ser uma selecção de grande qualidade por causa deste seu merecido feito. Tem essencialmente, e para além de Navas, um tridente de muito boa capacidade técnica na frente, e isso é o que a faz ser consideravelmente mais perigosa do que as piores selecções que estão em prova. Porque, de resto, as suas limitações estão lá para serem exploradas, e em princípio é isso que acabará por acontecer nos próximos jogos.

Inglaterra - Itália
Um dos jogos mais aguardados, e que de acordo com a antevisão que havia deixado, foi de encontro às expectativas, nomeadamente no que respeita à identidade das equipas. No que respeita à Inglaterra, e tal como havia escrito, parece-me uma equipa com fragilidades no processo defensivo e sem grande capacidade para potenciar o seu rendimento colectivo. Isto, porém, não quer dizer que não veja boas hipóteses de qualificação para os ingleses, mesmo depois desta derrota, já que me parece melhor do que o Uruguai (ao contrário das perspectivas) e claramente com todas as possibilidades de vencer a Costa Rica. Mas, naturalmente, esta derrota não ajuda.

Mais interessante o caso da Itália. A esmagadora maioria das equipas neste Mundial recorre ao papel do duplo-pivot para dinamizar a sua primeira fase de construção. A Itália, e como havia escrito na antevisão sobre a equipa, vai mais longe e envolve 3 médios na circulação baixa, o que lhe confere uma grande capacidade nessa fase do jogo. E é nessa capacidade para ter bola que reside a grande força desta equipa. Defensivamente, a equipa opta por um bloco muito expectante, e se confesso não gostar muito dessa abordagem, também não é difícil de concluir que Prandelli não poderia fugir muito dessa abordagem, tendo na equipa jogadores como Balotelli ou Pirlo. Ainda assim, e mesmo definindo uma zona de pressão baixa, a Itália parece-me algo permissiva dentro do seu bloco, e talvez fosse possível subir um pouco mais a linha defensiva, de forma a conseguir maior encurtamento de espaços dentro do seu bloco. Outra limitação da equipa italiana, na minha óptica, reside nas dificuldades que tem na fase criativa. A ideia de Prandelli, claramente, é projectar muito os laterais, embora se perceba pouco que tendo essa ideia de jogo, depois apareça no Mundial com Chiellini como a alternativa para a lateral esquerda. Depois, e de um perspectiva conceptual, parece-me que face aos recursos que tinha ao seu dispor, Prandelli teria muito a ganhar em conceber um ataque com 2 unidades, já que essa é uma posição para qual o futebol italiano apresenta muitas soluções. Enfim, tinha incluído a Itália no lote das equipas que me pareciam subvalorizadas, e este primeiro jogo acabou por dar alguma razão a essa ideia. No entanto, confesso também que esta me parece uma equipa muito volátil em vários aspectos, e se podemos estar seguros da sua boa presença em posse, há outros pontos que facilmente poderão comprometer as aspirações da equipa.

ler tudo >>

14.6.14

A caminho do Maracanã #2

ver comentários...
México - Camarões
Nas antevisões que partilhei na véspera da competição, apenas não incluí duas formações, tendo uma delas sido os Camarões, não tanto pelo facto de apenas ter visto um jogo da equipa, mas sobretudo porque essa partida foi frente à Alemanha, o que ofereceu um contexto muito próprio e complicado para analisar certos aspectos tácticos. A verdade, porém, é que muito do que se viu nesse jogo voltou a repetir-se frente ao México. Ou seja, uma equipa muito expectante, e combinando essa postura com uma quase obsessão pela linha do fora de jogo, que parece ter prioridade sobre tudo o resto, o que leva a comportamentos tácticos que me parecem, no mínimo, muito discutíveis. É pena, porque os Camarões terão na minha opinião até um conjunto bastante razoável de jogadores, nomeadamente com maior equilíbrio do que outras formações africanas. Assim, porém, vai ser difícil...

Quanto ao México, justificou plenamente a vitória, apesar de ter acabado por não criar um número de ocasiões correspondente ao domínio territorial que exerceu. É uma selecção interessante, como já havia escrito, pela especificidade da sua proposta de jogo, nomeadamente na forma como se impõe na primeira fase de construção, tornando-se difícil de contrariar a largura da sua primeira linha. Depois, terá algumas fragilidades tácticas sobre as quais também já escrevi, mas será curioso ver como o Brasil e a Croácia se adaptarão a esta forma de jogar. Para já, o México tem pelo menos garantida a discussão do apuramento até à última jornada.

Espanha - Holanda
Aí está o primeiro choque!
Começando pela selecção espanhola, referir que foi precisamente, e a par dos Camarões, a outra selecção sobre a qual não escrevi antes da competição. O motivo é o mesmo da formação africana, e tem a ver com o facto de apenas ter visto jogos muito pouco conclusivos sobre as suas características tácticas, sendo que daqui resulta a minha primeira crítica em relação à equipa espanhola, que tem que ver com a sua fase de preparação. É que a Espanha apenas realizou dois jogos antes do Mundial, sendo que o primeiro foi "esbanjado" para escolher o 23º jogador (que provavelmente não fará qualquer minuto neste Mundial) e o segundo foi frente a uma formação de um nível quase amador. Isto, numa equipa que começava logo contra uma das selecções mais fortes da prova, e que inclusivamente partia para este Mundial com algumas alterações no seu onze base. Não vou aqui prestar-me ao papel que tanto critico e estabelecer relações causais depois de conhecer os resultados, mas indepentemente da derrota, é-me bastante difícil de entender este plano de preparação espanhol...

Ainda relativamente à selecção espanhola (permitam-me que me alongue um pouco...), o tema Diego Costa está na ordem do dia, servindo o resultado de mote para as tais relações causais que considero intelectualmente abomináveis. É verdade que Diego Costa não é um jogador forte em posse, que tem outras características, mas não vejo em que é que isso possa afectar negativamente o modelo de jogo espanhol. Desde logo, porque pela qualidade que tem ao seu dispor, não é necessário que a Espanha tenha todos os jogadores a envolverem-se na circulação de bola, para manter a sua identidade. Aliás, nem necessário, nem aconselhável, no meu entender. Para quem tem Xavi, Iniesta, David Silva, Xabi Alonso e outros jogadores excepcionalmente fortes no jogo interior, o que faz sentido é que haja alguém que esteja em campo essencialmente para oferecer profundidade e obrigar o adversário a abrir espaço para potenciar a tal característica que é marcante na equipa. Se tal não acontecer, torna-se mais fácil reduzir o espaço e atenuar o ponto forte da equipa espanhola. Aliás, se olharmos para o Barça de Guardiola, vemos sempre a presença de unidades muito pouco interventivas no jogo da equipa, como Villa, Pedro ou Alexis, mas que tinham a importante tarefa de potenciar o espaço por onde os outros jogavam. O argumento contra a utilização de Diego Costa é que este retira coerência à equipa, mas eu diria que se não tiver quem lhe ofereça profundidade (seja Diego Costa ou outro qualquer), mais do que perder coerência, a Espanha ganhará redundância!

Passando, finalmente, à Holanda, confesso que quando vi o primeiro jogo de preparação fiquei mal impressionado com a equipa de Van Gaal. No entanto, os jogos seguintes fizeram-me rever essa opinião ao ponto de ter escrito, na antevisão final que fiz, que esta me parecia uma das equipas possivelmente mais subestimadas. De resto, é interessante como Holanda e Espanha são casos antagónicos no que respeita ao aproveitamento do período preparatório, sendo que a equipa holandesa retirou grande utilidade dos seus jogos particulares para chegar a este Mundial com uma identidade nova e muito clara. Neste aspecto, tenho de tirar o meu chapéu a Van Gaal: a sua Holanda não é - nem podia ser, de resto - uma das principais candidatas ao título, mas tem certamente hoje uma identidade clara e mais ajustada, tanto relativamente ao contexto competitivo como às características dos seus recursos, sendo que para isso foi preciso alterar orientações tácticas importantes e que já vinham de há muito tempo a esta parte, com a selecção holandesa. Não ficou preso aos preconceitos e idiossincrasias, e foi de encontro à especificidade do seu contexto, e isso é menos comum do que pode parecer à primeira vista. Em particular, destacaria o foco pressionante sobre o corredor central e o facto de exigir uma envolvência muito activa de todos os jogadores no processo defensivo, sendo que a centralização de Robben, Sneijder e Van Persie oferece à equipa muito maior potencial no momento em que ganha a bola.

Para terminar, e sobre o jogo propriamente dito, não seria muito efusivo em relação ao volume do marcador, nem às conclusões a retirar a partir deste surpreendente placard. Cada jogo tem a sua história e se a deste contou, sem dúvida, com uma enorme exposição da defensiva espanhola na parte final da partida (assim como com erros em todo o jogo, que existiram também do outro lado note-se), também havia mostrado uma Espanha mais competente na primeira parte, capaz de se impor no jogo com bola, apesar da boa exibição e de todo o esforço feito pela equipa holandesa. A Holanda passará agora a ser mais respeitada e tem praticamente carimbada a presença nos oitvavos de final, mas o seu pior erro será deslumbrar-se com este resultado. Quanto à Espanha, não a retiraria do lote dos favoritos. Creio que tem todas as condições para se apurar, e se conseguir aproveitar a derrota para corrigir alguns aspectos, rapidamente se tornará de novo numa potência muito difícil de contrariar, até porque tem virtudes que mais nenhuma selecção possui.

Chile - Austrália
Já me havia referido ao risco, enorme, desta equipa chilena, e parece-me que Sampaoli terá ido ainda mais longe no seu aventureirismo, provavelmente pela modéstia do adversário, e duvido que venhamos a ver outra equipa tão ofensiva como esta equipa chilena. Neste aspecto, fica-me a dúvida sobre a estrutura a adoptar nos próximos jogos, porque foi diferente daquilo que havia visto na preparação, mas creio que será reforçada com mais uma unidade no eixo da defesa. De resto, e apesar de toda essa intencionalidade ofensiva, a verdade é que não foi um jogo muito conseguido por parte do Chile, que apesar de ser claramente superior, alicerçou fundamentalmente o seu triunfo no bom aproveitamento que fez das ocasiões que criou. O Chile tem a vantagem, que pode ser importante, de jogar com a Holanda no último jogo do grupo, já que face ao cenário agora definido não é de excluir a hipótese de haver uma poupança holandesa, que se tornará um dado praticamente adquirido caso os holandeses goleiem a Austrália. Neste cenário, e mesmo vencendo o Chile, os espanhóis terão de fazer uma autêntica corrida ao golo, já que o segundo factor de desempate é a diferença de golos.

Quanto à Austrália, há pouco a dizer. É uma equipa muito limitada e penso até que faz um bom aproveitamento dos recursos que tem. Mas, e em face do que escrevi antes, não é de excluir a hipótese de esta ser uma equipa decisiva nas contas finais do grupo, mesmo que... termine com zero pontos!

ler tudo >>

13.6.14

A caminho do Maracanã #1

ver comentários...
Brasil - Croácia
Face aos receios existentes, diria que o jogo de abertura correu bastante bem. A cerimónia inicial, o estádio, um jogo com golos e até um desfecho que ajuda a anestesiar os perigosos e ameaçadores descontentamentos populares (raramente faltam teorias da conspiração em torno deste tipo de eventos, mas depois de 1978 não consigo pensar num Mundial onde interesse tanto à organização que o país anfitrião possa ser bem sucedido!). Quanto ao jogo propriamente dito, que é o que mais interessa para este comentário, o que se viu não foi assim tão agradável, e de parte a parte...

Talvez seja injusto da minha parte, mas entre Brasil e Croácia, sou bem mais critico da abordagem táctica definida por Kovac. Não querendo comparar o potencial técnico de ambos os conjuntos, ainda assim parece-me ser do lado croata onde há uma maior fuga das principais características da equipa. Mas vamos por partes. Quanto ao Brasil, Scolari trouxe apenas a surpresa da dinâmica ofensiva, que resultou relativamente bem na primeira parte, nomeadamente pela capacidade de Neymar aparecer no corredor central, assim como pela atractividade que Óscar provocou ao lateral esquerdo croata, abrindo um espaço por onde o Brasil criou algumas das suas melhores jogadas do primeiro tempo. O lado negativo da exibição brasileira, na minha leitura, resulta sobretudo de um invulgar desacerto no plano individual. Algo que se viu em alguns passes perdidos, apesar do baixo grau de dificuldade, e também em algumas intervenções defensivas desastradas, com evidência para o lance do golo, onde na minha leitura David Luiz perde de forma algo displicente a frente do lance para Jelavic, quando essa deveria ser a sua primeira prioridade na abordagem ao cruzamento. Mas houve outras situações que, apesar de não terem tido as mesmas consequências, sugerem o mesmo diagnóstico. E é por aqui que me parece que o Brasil complicou as suas aspirações no jogo, na sua algo inesperada volatilidade defensiva, já que tudo o resto era mais ou menos previsível: a dificuldade de encontrar espaços num bloco tão baixo, as dificuldades específicas de Hulk a este nível, a dependência de Neymar como elemento de maior capacidade criativa, o foco nos corredores laterais para iniciar as jogadas, mas também a elevada probabilidade de que o domínio, mesmo sendo insípido, pudesse ser tanto que acabasse por produzir resultados concretos.

Quanto à Croácia, já o havia escrito na antevisão que se trata de uma equipa muito cautelosa na sua abordagem defensiva, baixando a meu ver em demasia e sem grande qualidade na aplicação de um pressing defensivo que faz da densidade numérica a sua grande, e praticamente única, mais-valia. Depois, a Croácia pode não ter os recursos das principais equipas, mas tem seguramente um conjunto de médios com que poucas selecções poderão rivalizar, fazendo por isso todo o sentido que esta seja uma equipa especialmente arrojada na tentativa de fazer da posse uma arma. Porque, pergunto-me, se com Rakitic e Modric a Croácia não conseguir ser forte na valorização da posse, vai ser forte em quê? A verdade é que não foi por essa via que a equipa tentou gerir o jogo e, especialmente na primeira parte, acabou mesmo por actuar quase exclusivamente em transição, o que determinou que as suas aspirações passassem sobretudo pela capacidade de sofrimento que a equipa tivesse, sem bola. Convém aqui, e no meu desta minha perspectiva crítica, fazer duas ressalvas que servem de atenuante: a primeira, para referir que apesar do domínio exercido o Brasil teve de contar com uma grande dose de eficácia para materializar a reviravolta; a segunda, para contextualizar o valor do opositor, sendo que evidentemente que se esperará outra capacidade da equipa croata (mais não seja, pelos valores individuais que tem) nos próximos jogos. Mas, se concordo que esta será a segunda equipa mais forte do grupo, continuo a não ver com grande surpresa a hipótese de um eventual não apuramento croata para a fase seguinte da competição.

ler tudo >>

12.6.14

Antevisão Mundial #30: O meu ranking... e algo mais

ver comentários...
Às portas do Mundial, e como balanço da antevisão que fiz nas últimas semanas, deixo aquele que seria o meu ranking de selecções, antes da prova. Para esclarecer, trata-se de uma classificação que traduz a minha opinião sobre o valor das equipas, e não a probabilidade de vencerem a prova (ou seja, não tive em conta o trajecto que cada equipa terá de realizar até à final). Do mesmo modo, a minha avaliação centrou-se nas equipas que mais provavelmente irão jogar, e não nos 23 seleccionados de cada país.

Relativamente aos favoritos, não discordo da apreciação geral, que tende a identificar 4 selecções como as mais fortes candidatas à vitória, sendo que na minha opinião este tipo de prova e a proximidade de valor entre as equipas faz com que seja praticamente impossível distinguir grandes discrepâncias entre as hipóteses de vitória destas 4 selecções, abrindo paralelamente hipóteses reais a mais um conjunto de selecções, onde incluo Portugal.

Depois, e de uma forma geral, diria que as equipas europeias tendem a ser mais organizadas tacticamente, o que não garante nada numa competição de tão curta duração, mas que na minha opinião acaba por determinar maiores possibilidades de sucesso para estas selecções. Mais concretamente, e comparativamente com aquela que é apreciação geral, vejo com melhores olhos selecções como a Itália, Holanda, Bósnia (como já escrevi, é uma equipa sobre a qual tenho algumas expectativas, por aquilo que mostrou na preparação) e Suíça. Em sentido contrário, penso que selecções como Chile, Croácia, Colômbia, Japão ou Estados Unidos possam estar sobrevalorizadas.

Por fim, queria referir-me ao contexto em que este Mundial se irá realizar. Aquando do anúncio do Brasil como país organizador, confesso que pensei que não poderia haver melhor cenário. Um país enorme, apaixonado pelo futebol, com uma identidade cultural ideal para ser anfitrião de um evento que se pretende que seja também uma festa. Aparentemente, perfeito! No entanto, desde a taça das confederações que existe a ameaça real de que o paraíso se torne num pesadelo para os organizadores. Sobre este tema, que ameaça ultrapassar largamente a importância que o evento em si tem, queria apenas desejar não voltar a ver protagonistas a colocarem-se do lado daqueles que tentam usar o mediatismo do jogo para branquear a discussão de temas bem mais sérios e certamente incovenientes para muita gente. Isso sim, seria o pior que poderia acontecer ao futebol neste Campeonato do Mundo!

Um bom Mundial para todos!

ler tudo >>

AddThis