25.3.14

Chelsea-Arsenal e Real-Barça (análise)

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Chelsea - Arsenal
Já tinha abordado a questão do Arsenal, nomeadamente relativamente à qualidade da sua liderança técnica, que me parece insuficiente para que a equipa se possa superar e discutir realmente títulos com adversários com mais capacidade de investimento. Não quero com isto dizer que Wenger seja "o" problema, quer dizer apenas que, neste contexto, me parece claramente insuficiente.
O que se viu em Stamford Bridge foi, em traços gerais, uma repetição do filme de Anfield, onde o Arsenal também acabou goleado e de forma muito semelhante. Em particular, destaque flagrante para a péssima gestão do risco em posse e para a má reacção defensiva da equipa, em situações de transição e ataque rápido. Aliás, é interessante notar como a abordagem de Wenger foi completamente oposta nestes jogos, relativamente ao que fez frente ao Bayern. Na eliminatória da Champions, o Arsenal pareceu avesso a qualquer tipo de risco na sua construção e acabou por procurar sistematicamente a construção longa, tentando jogar quase exclusivamente a partir da segunda-bola. Uma espécie de oscilação entre o 8 e o 80, que parece inevitavelmente atirar a equipa para cenários extremos, ora expondo-se de forma flagrante ao risco da transição, ora abdicando quase que por completo do potencial que a qualidade técnica das suas individualidades lhe oferece.

Real Madrid - Barcelona
Um jogo excelente do ponto de vista do entretenimento, com inúmeras situações de golo, e constante superioridade dos ataques relativamente às defesas. É óbvio que há aqui muito mérito de quem ataca - desde logo pela riqueza de recursos de ambas as equipas - mas também me parece que ambos os conjuntos ficam a dever alguma coisa a si próprios em termos defensivos. Certamente ficarão, se as compararmos com as respectivas versões de um passado recente.

Relativamente ao Real Madrid, claramente melhor a atacar do que a defender. Ofensivamente, é uma equipa que trabalha bastante bem a sua posse e a entrada no último terço contrário, nomeadamente através da circulação lateral e do uso da largura dos seus médios, Modric e Di Maria (fica aqui, a propósito, a recomendação de um post sobre o tema, no blog Segunda-bola). No mesmo sentido, tem também a capacidade de se desdobrar muito rapidamente em termos ofensivos, especialmente através da movimentação de Ronaldo, que rapidamente se junta a Benzema no corredor central, criando muitos problemas para o equilíbrio das defesas contrárias. Defensivamente, porém, mostrou-se excessivamente débil para o desafio que se lhe deparava, parecendo estranhamente impreparada para a especificidade do Barça e de Messi. A equipa apostou quase sempre muito no condicionamento pressionante em toda a extensão do terreno, conseguindo bons resultados neste particular. No entanto, isto implicou também alguma perda de rigor no controlo de alguns espaços fundamentais por parte da sua linha média, que frequentemente se viu exposta pela qualidade do jogo de posse do Barcelona e, de forma muito flagrante, pelas movimentações de Messi. Veremos quais as implicações desta imprudência estratégica nas contas finais do campeonato e, já agora, fica também o aviso para a Champions, onde para vencer o Real terá certamente de se confrontar com outros adversários de grande valia técnica.

Quanto ao Barcelona, e tal como venho escrevendo ao longo da temporada, continua a ser, na minha opinião e com alguma distância, a equipa com o melhor conjunto de jogadores do mundo. O que não quer dizer que seja imbatível, ou que tenha de ganhar tudo, obviamente. Mas, quando os adversários não se protegem bem, e mesmo que tenham a qualidade que tem o Real, o risco de derrota torna-se de facto muito elevado. O grande destaque da equipa é, claramente, Messi que foi a chave do jogo - e não valorizo aqui sequer os 3 golos que marcou, já que 2 foram de penálti. Já havia escrito que esta equipa parece, mais do que nunca, obcecada por Messi, procurando-o talvez até em demasia. A verdade é que como a protecção do Real para essa especificidade foi pouca, o Barça retirou grandes proveitos desse apelo previsível ao seu maior astro. Ainda assim, e apesar da vitória, há vários aspectos que se continuam a identificar e que marcam uma quebra qualitativa em relação a épocas anteriores. Neste jogo, identificaria a maior exposição ao risco em posse, com a equipa a não ter grandes respostas colectivas para as situações de pressing alto do Real (isto claro, para além da qualidade que oferecem naturalmente os seus jogadores), e também os problemas na resposta defensiva, em particular sendo menos eficaz no pressing e reacção à perda, relativamente ao tempo de Guardiola. Em suma, o Barcelona terá hoje mais pontos fracos, sem dúvida, mas os seus pontos fortes continuam a ser únicos e provavelmente inacessíveis a qualquer outra equipa do planeta, parecendo-me por isso bastante imprudente que sejam menosprezados.

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24.3.14

Marítimo - Sporting: Estatística e opinião

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Este era um jogo obviamente importante para que o Sporting pudesse continuar a manter alguma margem de conforto na corrida pelo segundo lugar. A equipa voltou a não fazer, de forma nenhuma, um jogo exuberante, e tal como frente ao Porto sentiu dificuldade em materializar em proximidade com o golo a superioridade que quase sempre manteve na afirmação da sua estratégia. Desde o inicio, foi o Sporting quem errou menos e mais potenciou as lacunas do seu opositor, mas foi também faltando quase sempre esclarecimento nas decisões do último terço, o que determinou que a equipa fosse mantendo uma vantagem apenas tangencial que, com o passar dos minutos, foi fazendo acreditar cada vez mais o Marítimo. Valeu, enfim, o golo de Jefferson, a evitar um final de jogo que certamente seria de grande ansiedade e incerteza para ambos os lados.

Relativamente a aspectos mais concretos do jogo, destacaria dois pontos que me pareceram importantes para que o Sporting se superiorizasse: 1) Na primeira parte, a exposição do corredor esquerdo do Marítimo, com Heldon a tirar partido da menor vocação de Márcio Rozário para a função de lateral, e com um ajustamento posicional nem sempre ideal por parte do Marítimo. 2) Na segunda parte sobressaíram as dificuldades de construção do Marítimo, com o pressing do Sporting a potenciar muita hesitação e alguns erros em zonas de grande risco. Foi a partir desta fragilidade que o Sporting criou as suas principais ocasiões neste período.
Do lado do Marítimo, e para além dos destaques negativos já referenciados, tanto relativamente a alguns aspectos defensivos como à própria lucidez da equipa na fase de construção, o grande destaque - positivo, neste caso - vai para Derley. À margem do golo, onde participa apenas pela movimentação sem bola, foi sempre através de Derley que o Marítimo causou problemas ao Sporting. Muito confortável no confronto físico, não permitiu que Maurício fosse tão dominador como é hábito neste particular. Dentro da área, soube sempre fugir da linha dos defesas para ganhar posição para cabecear. Finalmente, saiu igualmente com muito propósito da zona dos centrais, baixando ou abrindo na ala, para provocar - quase sempre em drible e com sucesso - os defensores contrários. 

Individualidades (Sporting)
Rui Patrício - Jogo sem grandes motivos, nem oportunidades de resto, para destaque.

Cedric - O Sporting conseguiu quase sempre mais profundidade pelo seu corredor, mas desta vez isso não lhe permitiu ter um protagonismo no último terço de outras ocasiões. O principal destaque vai para o seu contributo na reacção à perda, onde foi das unidades que mais contribuiu para que a equipa se mantivesse instalada no meio-campo contrário. Mas, no global, foi uma exibição regular, e sem grandes motivos de destaque.

Jefferson - Teria sido provavelmente a sua melhor exibição dos últimos tempos, não fosse a sua reacção no lance do golo do empate do Marítimo. Primeiro, leu mal a jogada e perdeu o tempo de antecipação, depois tentou corrigir o posicionamento, mas fê-lo mal, acabando perdido na jogada e sem perceber o espaço que deveria ocupar. Mas, como referi, à margem desse lance foi um jogo bem conseguido, com boa participação defensiva - foi dos mais activos neste particular - e o golo que terminou com as dúvidas do jogo.

Maurício - Provavelmente uma das exibições menos conseguidas da época, muito por força da acção meritória de Derley. Fazendo-lhe alguma justiça, convém referir que não foi apenas ele quem teve problemas com o avançado brasileiro, mas como lhe calhou a si a missão de travar um maior número de confrontos com Derley, acabou por ser ele a principal vitima da exibição inspirada do seu opositor. O principal destaque - e único reparo mais importante, também - vai para a forma como se deixou bater no 1x1 com Derley num lance junto à lateral, onde perdeu o equilíbrio e a presença defensiva na jogada.

Rojo - Também teve dificuldades perante Derley, mas como chocou muito menos com o avançado do Marítimo, acabou por fazer um jogo mais livre de apertos, partindo para uma exibição - mais uma - positiva.

William - O golo que marcou confere-lhe uma importância decisiva no triunfo conseguido. À margem desse lance capital, fez um jogo mais discreto do que é habitual. A sua mais-valia voltou a estar na qualidade das suas aparições no jogo e não tanto na frequência com que interveio - um aspecto que venho realçando repetidamente - com a equipa a focar mais a sua construção nos corredores laterais. Em destaque, a qualidade do seu contributo no momento de transição defesa-ataque, onde foi o jogador mais bem sucedido.

Adrien - Foi provavelmente o grande protagonista no jogo. Marcou o penálti - embora eu, pessoalmente, dê pouca importância a esse aspecto - esteve na origem de duas das principais ocasiões da equipa (tirando partido do seu bom sentido posicional e presença pressionante), e foi ainda o jogador com maior envolvência em posse. Como nota negativa, duas perdas de bola em situação algo comprometedora.

Mané - Jogou no lugar habitualmente desempenhado por André Martins. Não teve a mesma presença pressionante, não conseguiu grande qualidade no seu envolvimento em posse, nem tão pouco o mesmo timing de movimentos sobre o corredor direito. Ainda assim, factualmente, está na origem do primeiro golo, retirando novamente partido da sua rapidez para ganhar mais um penálti, e ainda na ocasião que Slimani desperdiçou na cara de Salin, cabendo-lhe o último passe. Se no futebol o objectivo são os golos, convém não desvalorizar quem consegue aproximar a equipa desse propósito. Jardim pareceu concordar com esta visão mais pragmática do jogo e deu-lhe os 90 minutos.

Capel - Voltou a repetir o mesmo tipo de exibição que havia feito frente ao Porto. Ou seja, destacou-se pela capacidade de envolvimento, retirando partido da sua facilidade em segurar e transportar a bola para dar sequência útil à esmagadora maioria das suas aparições. No entanto, tanto em termos defensivos como em termos de capacidade de desequilíbrio voltou a ficar aquém do que Jardim certamente esperará dos seus extremos. Na retina ficou um lance, já na segunda-parte, em que perdeu o tempo de passe para Heldon.

Heldon - Uma exibição algo ingrata porque foi durante muito tempo o grande agitador do ataque da equipa, mas acabou por não conseguir grande impacto em qualquer das suas acções. Esteve particularmente bem ao aproveitar a diferença de características no duelo com Marcio Rozário e, também, a pouca qualidade nas coberturas defensivas do Marítimo, o que lhe permitiu potenciar duelos individuais onde o seu repentismo lhe oferecia vantagem.

Slimani - Desta vez não marcou e não teve qualquer lance de destaque no jogo aéreo, o que é novidade. Ainda assim, e mesmo num jogo onde não conseguiu fazer valer as suas características, Slimani esteve novamente perto de deixar a sua assinatura na ficha de marcadores. O ponto positivo da exibição vai, obviamente, para o trabalho que deu à defensiva do Marítimo, intervindo com frequência no jogo e ganhando alguns duelos de relevo e que foram ajudando a equipa ainda em zonas distantes da área. O ponto negativo vai, claro, para a sua modéstia de recursos técnicos, o que retira sempre um potencial importante à equipa. Slimani vem mantendo a titularidade, mas as suas hipóteses de ser uma solução de qualidade no longo-prazo, numa equipa como o Sporting, estão exclusivamente confinadas à real mais-valia do seu jogo aéreo, que continuará a ser apurada à medida que for acumulando minutos como titular. Slimani não será nunca um "novo-Jardel", mas não tenho dúvidas que será sempre dentro desse perfil que as suas hipóteses de afirmação se colocarão.

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21.3.14

Nápoles - Porto: Estatística e opinião

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Repetindo uma ideia que venho passando com frequência, o futebol alimenta-se de estados de ânimo e estes são determinados, por completo, pelos resultados. Este jogo parece-me, a este respeito, mais um bom exemplo. O Porto qualificou-se, sobrevivendo a uma eliminatória muito difícil e frente a um adversário de grande valia individual, e por isso se multiplicam sorrisos e elogios à equipa. Na minha perspectiva, porém, e à margem de alguns contributos individuais positivos, o Porto não fez um bom jogo, nem tão pouco um jogo razoável. Fez, isso sim, um jogo bastante fraco do ponto de vista colectivo, e tanto no aspecto defensivo como ofensivo. Defensivamente, repetiu muitos dos problemas que aqui tenho discutido, permitindo que a sua baliza fosse constantemente ameaçada pelas iniciativas adversárias e com o Nápoles a desperdiçar um número muito elevado de ocasiões claras para marcar. De igual modo, ofensivamente, e mesmo beneficiando da generosidade de Benitez, que abdicou novamente de pressionar a primeira fase de construção portista, o Porto raramente chegou de forma útil ao derradeiro terço do campo. A qualificação é muito positiva, especialmente porque reabre a esperança de um êxito europeu numa época tão complicada a nível interno, e é também verdade que as dificuldades da equipa têm muito que ver com a qualidade do Nápoles, que tem um nível técnico que poucas mais vezes o Porto encontrará até ao final da época mesmo nesta competição. A confiança, todos suspeitamos, vem muito mais dos resultados do que das exibições, mas se ao ganho de confiança não corresponder, paralelamente, uma evolução qualitativa da equipa, então todo e qualquer reforço emocional servirá de muito pouco no que às aspirações da equipa diz respeito. O meu ponto aqui é que o resultado não deve servir para deturpar o que a equipa realmente mostrou, até porque faltam muitos jogos e 3 troféus por disputar, e se a equipa não melhorar em vários dos problemas que denota - e continua a denotar, independentemente de um ou outro resultado - então o mais provável é que acabe por festejar muito pouca coisa para além desta passagem aos quartos-de-final.

As únicas notas positivas, na minha leitura, vão para o plano individual, e para as exibições de Fabiano (sem dúvida, o homem do jogo, com um número absolutamente invulgar de intervenções em ocasiões claras do adversário), Mangala (que se redimiu da má prestação em Alvalade), Fernando (combinando um bom jogo defensivo com uma assistência decisiva) e os suplentes Ghilas e Josué (ambos entraram muito bem, particularmente Ghilas). Falta aqui Quaresma, claro, que me merece também um comentário: o seu golo é, mais uma vez, a evidência da sua genialidade, e não serei eu certamente a desvalorizar, nem o peso que um golo tem num jogo, nem tão pouco a importância que pode representar ter um jogador com a capacidade decisiva de Quaresma. Ainda assim, uma boa jogada e um grande golo, não fazem uma grande exibição, e à margem do grande golo que marcou, Quaresma produziu pouco ou quase nada, inclusivamente estando envolvido em dois lances de grande falta de rigor defensivo, e que estiveram muito próximos de ter custos para a equipa. Tal como relativamente à performance colectiva, convém aqui não confundir a parte com o todo.

Uma nota, ainda, para o Nápoles e para a sua estratégia. Benitez abdicou de pressionar o Porto em praticamente 50-60 metros, parecendo quase condicionado por alguma regra oculta a defender apenas no seu meio-campo, e isto mesmo num jogo em que partia em desvantagem e jogava no seu terreno. É impressionante a obsessão pelo momento de transição que esta equipa e o seu treinador revelam, e só pode ficar a ideia de que muito do potencial do Nápoles fica por explorar com este tipo de comportamento restritivo. E este é mais um factor que não abona a favor do Porto, se tivermos em conta as dificuldades que, mesmo assim, a equipa sentiu em controlar o jogo e o seu adversário.

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19.3.14

Sporting - Porto (III): 5 jogadas

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1. Cruzamento Quaresma - A primeira nota vai, claro, para o mérito de Quaresma na criação do lance. Cedric poderia ter tido outra abordagem mas, face ao que fez Quaresma, parece-me de todo inapropriado centrar as atenções num eventual demérito do lateral. Uma segunda nota para a acção de William, ainda que dificilmente pudesse, também ele, evitar o sucedido. O médio está inicialmente preocupado com o passe interior, numa situação em que a bola circula lateralmente e a toda a largura do terreno, e que por isso exige grande rapidez no ajustamento posicional de quem defende. A critica em relação a William - embora, repito, sem que com isto esteja a estabelecer uma relação de causalidade com este desequilíbrio concreto - tem a ver com alguma lentidão no ajustamento posicional. A celeridade no ajustamento posicional e na definição da cobertura ao lateral, deveria ser uma prioridade estratégica do Sporting perante a presença de um jogador como Quaresma, para quem a cobertura defensiva é uma espécie de kryptonite, como aliás se viu na segunda parte quando o Sporting passou proteger-se melhor dos duelos individuais.
Num segundo momento do lance, e após o desequilíbrio estar já criado por Quaresma, resta ao Sporting tentar controlar o cruzamento. A situação é complicada porque o Porto tem boa presença numérica na área, mas a equipa leonina tinha, ainda assim, boas condições para ser bem sucedida. Os jogadores tentam estabelecer o seu posicionamento na área, e fazem-no bem, com excepção de Jefferson. O lateral esquerdo acaba por parecer alarmado pelo movimento de Carlos Eduardo e, talvez por isso, prolonga excessivamente o seu próprio movimento de ajustamento, acabando - de forma algo difícil de compreender - quase que a defender a baliza, em vez de defender o espaço que era suposto ser seu. A consequência é a desprotecção da zona do segundo poste, precisamente onde devia estar Jefferson, e onde estava Varela.

2. Desmarcação Mané - É uma jogada em organização ofensiva do Sporting, que se inicia com a tentativa do Porto condicionar o adversário em toda a extensão do terreno. Desde logo, saliência para a diferença de abordagem entre as equipas, com o Sporting a responder ao pressing com uma ligação mais directa e ao longo do corredor lateral, para depois tentar jogar a partir da segunda-bola. Uma solução muito característica na equipa de Jardim, em toda a época e não só neste jogo.
Num segundo momento, percebe-se a desprotecção do espaço entrelinhas por parte do Porto, com Fernando algo isolado à frente da linha defensiva. A acção do pivot portista é, no entanto, muito boa, porque condiciona o passe interior e cria condições para que a linha defensiva possa subir, retirando tempo e espaço de decisão a Cedric. Até aqui, a reacção defensiva do Porto parece-me ajustada, discordando no entanto da acção de Alex Sandro, que a meu ver é desfasada do enquadramento colectivo criado. Justificar-se-ia, neste sentido, que pressionasse também ele Cedric, fechando a linha de passe para Mané, enquanto a linha defensiva condicionava a profundidade do extremo do Sporting. Isso não acontece, e por isso Cedric acaba por se libertar de Fernando e recuperar condições para expor as costas da linha defensiva.
Finalmente, no final da jogada, a acção de Slimani carece de maior astucia, em face da valiosa vantagem com que o avançado partiu para a jogada. O argelino abdica, numa decisão que me parece muito questionável, da frente do lance, acabando por se esconder atrás do central portista e facilitando a sua acção.

3. Cruzamento Danilo - De novo Quaresma na génese da jogada, ainda que, desta vez, não do desequilíbrio. O extremo surge em zonas interiores e provoca a linha média do Sporting, ainda a tentar reorganizar-se após a perda da bola. Há uma indefinição entre Capel e Adrien, mas acaba por ser o médio português a fazer contenção sobre Quaresma. A consequência deste movimento é a abertura do espaço entrelinhas, precisamente nas costas de Adrien. Bem, Varela aproveita esse facto e cria uma linha de passe interior, forçando em paralelo a indefinição em Jefferson, também com a ameaça de Danilo sobre a sua zona e por isso impossibilitado de condicionar a presença interior do extremo portista. A minha leitura é que Capel lê mal o lance e, em vez de condicionar a linha de passe para Danilo, deveria ter tido como prioridade fechar o espaço interior, muito exposto face à saída em contenção de Adrien. Ao não o fazer, Capel acaba por ver também esfumar-se o seu controlo sobre Danilo, assim que a bola entra em Varela, definindo-se o 2x1 sobre Jefferson que posteriormente vai desequilibrar toda a defesa do Sporting.

4. Golo Slimani - A minha primeira nota na jogada decisiva do clássico vai para a circunstância em que ela acontece, ou seja, na sequência de circulação lateral. Este pormenor potencia, momentaneamente, os espaços laterais intra-linhas (isto é, entre os jogadores das próprias linhas defensivas), e exige um reajustamento posicional de todo o bloco defensivo. A consequência deste contexto é que a linha média do Porto não tem condições para pressionar imediatamente William, devendo na minha leitura dar prioridade ao ajustamento posicional antes de voltar a assumir uma postura mais pressionante. E é isso que efectivamente faz. Menos correcto - mas determinante na jogada - parece-me ser o comportamento da linha defensiva, que perante a liberdade oferecida a William assume um risco elevado ao não cortar a profundidade. Este é, aliás, um comportamento que venho identificando e criticando na equipa portista em comentários recentes, por entender ser desajustado e excessivamente arriscado em situações deste tipo. Nota ainda para o movimento clássico, e tantas vezes aqui referenciado, de André Martins, aproveitando a atracção do lateral pela movimentação interior do extremo. Uma situação que, curiosamente, foi muito explorada pelo Porto de Villas-Boas, no caso através de Belluschi ou Guarin, e que resultou em golos importantes contra Benfica e Villarreal.
Mais à frente, a tarefa de Abdoulaye é muito complicada e, por isso, parece-me muito injusto pegar neste lance para criticar o central. Em recuperação, o defesa fica isolado no duelo com Slimani e na iminência do cruzamento. Abdoulaye tem de garantir a frente do lance, mas tentar paralelamente diminuir a distância para Slimani, ao mesmo tempo que recupera no terreno e mantém o contacto visual com a bola. Como se não bastasse, Abdoulaye acaba por ser também vitima do timing perfeito da jogada, já que o cruzamento acontece, não só na medida certa, mas também no tempo exacto em que o avançado faz o seu movimento de afastamento.

5. Jogada Jackson - Terá sido, provavelmente, a grande ocasião do Porto para chegar ao empate. É um lance simples, em que entram em confronto avançado e central, Jackson e Dier, no caso. Primeiro, Jackson solicita o apoio frontal, estando no entanto relativamente isolado para poder dar continuidade à progressão da jogada. Dier tem, aqui, uma primeira oportunidade para intervir no lance, mas não consegue antecipar nem, depois, evitar o passe de Jackson para Varela. A vantagem do avançado sobre o defesa ganha outras proporções quando Jackson vira e, depois de ganhar a frente, ganha também as costas de Dier. O passe de Varela é bom, mas a jogada tem todas as condições por ser controlada pelo central, com Dier a voltar a evidenciar algumas limitações na capacidade de reacção no espaço, tanto na antecipação com na recuperação. Posteriormente, fica a ideia que o próprio Patrício poderia ter feito mais, hesitando talvez pelo risco de fazer falta numa saída menos calculada, e também pelo facto de Dier se manter na jogada. O central acaba, finalmente, por conseguir evitar danos maiores na fase terminal do lance.

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18.3.14

Sporting - Porto (II): Análise individual

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Sporting
Rui Patrício - Foi determinante na defesa que realizou, a remate de Varela, e esteve também bem no jogo de pés, particularmente na ligação com Jefferson, ajudando a evitar o pressing portista. O lance que, obviamente, mancha a sua exibição é a hesitação que permite a Jackson ficar muito perto de marcar. Fica a ideia de que a comunicação entre Dier e o próprio Patrício poderá não ter sido a melhor.

Cedric - A sua exibição ficou marcada pela dificuldade nos duelos perante Quaresma, nomeadamente no primeiro tempo. Em parte, revela a dificuldade do próprio jogador em situações deste tipo, não podendo jogar em antecipação, onde é mais forte. Por outro lado, e como já escrevera ontem, foi vitima da pouca protecção colectiva da equipa perante a ameaça que representava Quarema, algo corrigido após o intervalo. Do ponto de vista ofensivo, não conseguiu o protagonismo habitual.

Jefferson - A meu ver, é questionável a forma como reagiu ao cruzamento de Quaresma, na primeira parte, acabando por perder o controlo sobre Varela. De resto, fez um jogo regular, com alguns problemas no controlo defensivo do seu corredor (o que vem sendo habitual), e sem grande capacidade para protagonizar os movimentos ofensivos que o caracterizam.

E.Dier - Fez um jogo sóbrio, longe do protagonismo de Rojo, mas quase sempre regular e a cumprir com aquilo que lhe foi sendo solicitado. Isto, tanto defensivamente como ofensivamente, o que no seu caso é novo sinal positivo, após a boa exibição de Vila do Conde, que interrompeu uma série de aparições onde constantemente expunha a equipa através de uma gestão pouco adequada do critério. O lance a justificar mais atenção é aquele em Jackson ganha as suas costas e acaba por evitar Patrício antes de ser contrariado pelo próprio Dier. É um lance muito semelhante àquele em que Ghilas se isolou, no jogo para a Taça da Liga, e uma situação que se repete de outros jogos (por exemplo, em Guimarães), sendo por isso um aspecto que deve rever e trabalhar.

Rojo - Um jogo de grande protagonismo no capítulo defensivo, com grande capacidade de intervenção em praticamente todos os capítulos do jogo defensivo. Com bola, não teve tanto protagonismo.

William - Voltou a fazer um jogo excepcional no que respeita à capacidade de gestão da posse, sobretudo em situações mais complicadas, onde a sua capacidade - fora-de-série - já encanta todos os que o vêem jogar. Repito, porém, que a sua virtude reside na qualidade do envolvimento, e não tanto na quantidade, com William a não ser um ponto de passagem obrigatório do jogo da equipa (pela própria natureza das orientações colectivas). No mesmo sentido, no capítulo defensivo - e ao contrário do que é tantas vezes sugerido - a sua prestação também não é excepcional. Por exemplo, neste jogo Adrien teve uma capacidade de intervenção bem mais expressiva, o que não me pareceu ter sido percepcionado. A sua grande dificuldade reside na dificuldade de ajuste posicional em lances de maior rapidez, e na primeira parte deveria ter sido mais previdente relativamente ao duelo entre Quaresma e Cedric, oferecendo poucas coberturas ao lateral do seu lado, algo que corrigiu após o intervalo. Para completar mais uma boa exibição, fez ainda a abertura para André Martins, no lance do golo.

Adrien - Tal como no jogo da Taça da Liga, tornou-se protagonista principal do pressing da equipa. Aliás, parece sentir-se muito confortável quando lhe é pedido que pressione em linhas mais adiantadas, sendo a capacidade pressionante, na minha leitura, o aspecto onde a sua época justifica mais elogios. Em posse, também esteve bastante bem, nomeadamente no momento de transição defesa-ataque (consequência da tal boa presença pressionante) onde realizou uns notáveis 11 passes completos. Apontou o canto para a finalização de Mané, na melhor ocasião da equipa para além do golo de Slimani.

André Martins - Foi, também ele, uma presença muito importante no pressing alto, isto apesar de em termos estatísticos isso não se ter reflectido tanto como acontece normalmente. Em termos de envolvimento ofensivo, o grande (e único, diga-se também) destaque vai, claro, para o golo, obtido através do tal movimento nas costas do lateral que tanto repete nas suas acções e que, curiosamente, esteve na origem dos golos contra Benfica e Porto (aliás, os dois parecem tirados a papel-químico).

Capel - Teve a rara oportunidade de jogar os 90 minutos, mas nem por isso se pode dizer que tenha tido um impacto especialmente relevante no jogo. Há que separar a sua prestação entre os momentos de organização e transição. Em organização (e mesmo sem que isso trouxesse grandes mais-valias ofensivas), conseguiu uma boa eficácia nas suas aparições no jogo. Em transição, por outro lado, foi bastante inconsequente, não conseguindo tirar partido das suas tentativas de aceleração do jogo.

Mané - O seu repentismo permite-lhe causar alguns estragos nas defesas contrárias, mas precisa claramente de evoluir no capítulo decisional, para se tornar um jogador mais consequente e útil em todas as circunstâncias do jogo. Algo que ainda não acontece. A grande nota de destaque da sua exibição vai para o cabeceamento, na sequência de um canto, que quase deu em golo.

Slimani - Segue na sua impressionante caminhada de bom aproveitamento ofensivo, desta vez com um golo a decidir um jogo de grande importância. Para além desse lance capital, mostrou muito empenho e conseguiu emprestar alguma utilidade à equipa com isso. Mas, claro, também se percebem todas as suas limitações.

Porto
Hélton - Sem hipóteses no golo, tinha evitado outro anteriormente. Mas a grande nota de destaque do jogo é, claro, a sua lesão. Fabiano conquistou um grande crédito nos últimos tempos, mas não será nada fácil substituir a qualidade que Hélton regularmente emprestava à equipa.

Danilo - Sempre com grande vocação ofensiva, projectou-se muito no seu corredor e conseguiu causar alguns estragos, nomeadamente quase oferecendo um golo a Jackson. Defensivamente, por outro lado, não tem grande intensidade e, sem surpresa, voltou a ter um desempenho bastante modesto.

Alex Sandro - Defensivamente, e à margem de um ou outro ajustamento posicional que tem de ser revisto colectivamente, esteve bem. Com bola, porém, foi dos elementos que mais expôs a equipa através de passes perdidos em zona defensiva.

Abdoulaye - Ficou na fotografia do golo, e isso valeu-lhe a crucificação popular. A meu ver, porém, será muito injusto apontar o dedo a Abdoulaye neste jogo, quando outros elementos estiveram bem pior. Aliás, Abdoulaye foi dos jogadores que menos errou dos elementos do quarteto defensivo, sendo por outro lado o jogador com mais intervenções defensivas em todo o jogo, algumas delas bastante importantes. Relativamente ao lance do golo, a sua acção era muito difícil, porque o lance se desenrola em velocidade e Abdoulaye é relegado para uma situação de 1x1 com Slimani, com toda a área por defender. Teria de garantir a frente do lance - que fez - mas em simultâneo manter proximidade espacial com o avançado, tudo isto sem perder contacto visual com a bola.

Mangala - É constantemente elogiado, sendo colocado num patamar que, como tantas vezes escrevi, não tem correspondência naquilo que objectivamente faz em campo (isto, à margem da capacidade aérea nos lances ofensivos). Em posse, foi um desastre, repetindo erros e um mau ajuste do critério, que vem de outras ocasiões. E, mesmo no que respeita à capacidade de intervenção defensiva, onde quase sempre é visto como um fora-de-série, a verdade é que o seu registo é muito pouco impressionante, sendo repetidamente menos eficaz do que os seus parceiros de sector.

Fernando - É certo que ganha bastante no regresso à função de pivot, mas tem feito uma época bem abaixo do que já fez, e este jogo é mais um exemplo disso mesmo. Particularmente, em posse, não tem capacidade para ser a resposta aos problemas da equipa, sendo necessário que o seu envolvimento seja facilitado pela qualidade colectiva - que actualmente é escassa.

Defour - Apesar de já não actuar a seu lado, fez um jogo bastante semelhante ao de Fernando, com grande envolvimento em posse, mas sem ser a resposta que a equipa precisava para evitar o pressing do Sporting. Ofensivamente, não conseguiu um grande envolvimento.

Carlos Eduardo - Mais um jogo onde a sua capacidade de envolvimento deixou muito a desejar, isto mesmo já não actuando numa posição tão escondida como acontecia com Paulo Fonseca. Essa é a sua principal lacuna, e quando os adversários bloqueiam a primeira fase de construção da equipa, Carlos Eduardo simplesmente desaparece do jogo.

Quaresma - Pareceu muito determinado e, até certo momento, inspirado. Com um pouco mais de sorte, aliás, poderia ter sido mesmo o grande protagonista da partida. Quaresma surgiu melhor do que eu próprio pensava neste regresso ao clube, nomeadamente em termos físicos. Este jogo, de resto, é bem revelador do impacto contrastante que pode ter. É um tremendo executante, e isso pode sempre causar estragos se lhe for concedido espaço para colocar a bola na área. Por outro lado, porém, as suas acções não têm qualquer enquadramento colectivo, e sempre que há uma reacção colectiva à sua presença, a sua utilidade reduz-se praticamente a zero, como aconteceu na segunda-parte. Pessoalmente, confesso, acho muito perigoso que uma equipa da dimensão do Porto se possa construir em redor de um jogador como Quaresma. No mesmo sentido, tenho muitas dúvidas sobre a sua utilidade para a Selecção.

Varela - Não terá sido um jogo extraordinário, mas em termos práticos foi claramente a unidade de maior rendimento da equipa. Muito útil defensivamente, com boa capacidade e eficácia no seu envolvimento, e estando presente em 3 das 4 principais ocasiões da equipa.

Jackson - O eclipse do jogo interior da equipa reduziu muito a sua envolvência na dinâmica colectiva. Hoje, é mais do que nunca um jogador de área e dependente da resposta a cruzamentos. Creio que ele e a equipa perdem com isso. Poderia ter marcado após cruzamento de Danilo, ou mais tarde quando ganhou as costas de Dier. Não foi feliz, em nenhuma dessas situações, mas creio que onde se poderá mais censurar a acção do colombiano é num cabeceamento falhado, na sequência de um pontapé de canto, e quando estava em muito boa posição.

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17.3.14

Sporting - Porto (I): Aspectos colectivos

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O Sporting venceu, e em jogos com esta carga emocional o resultado enviesa, inevitavelmente, a apreciação qualitativa sobre aquilo que as equipas fizeram. Naturalmente, com benefício para os vencedores. Frequentemente, discordo desta radicalização da percepção que se generaliza após estes jogos, quase sempre equilibrados e definidos em pormenores, sendo este mais um desses casos. Mais concretamente, não creio que o Sporting tenha desmerecido a vitória, sobretudo porque foi quem melhor potenciou os erros alheios, de acordo com aquelas que eram as suas intenções. Mas, se o Sporting pode chamar a si a superioridade na implementação do plano estratégico, também me parece incontornável que foi o Porto quem se aproximou do golo com mais frequência, e que o desfecho poderia, de forma igualmente natural, ter sido diferente. Aqui, há dois pontos que me parecem determinantes explorar, para efeitos de análise: 1) o confronto entre a fase de construção portista e o pressing do Sporting, por onde se definiu o balanceamento do jogo e onde os visitados ganharam clara vantagem; 2) a qualidade de definição no último terço, onde o Porto foi quem esteve globalmente melhor, apesar da má segunda-parte e com o Sporting a desperdiçar, consecutivamente, as oportunidades ofensivas que o seu pressing lhe proporcionava.

Sporting
A fórmula aplicada por Jardim não foi diferente de nenhum outro jogo, nomeadamente no enfase dado à presença pressionante e ao condicionamento da fase de construção do adversário. Por essa via, o Sporting tentou - como sempre tenta - não só impedir o adversário de ter bola, como também potenciar momentos de desorganização do adversário. O sucesso desta estratégia depende, obviamente, da capacidade de resposta da oposição, e foi por isso, por exemplo, que o Sporting sentiu tantas dificuldades no jogo da Luz. Neste caso, e em sentido totalmente inverso, o sucesso foi tremendo - maior, até, do que no jogo da Taça da Liga - com inúmeras intercepções a serem conseguidas e várias situações de transição para explorar. O problema, porém, surgiu na definição no último terço, onde a equipa voltou a não estar especialmente inspirada, o que determinou um enorme desperdício de jogadas potencialmente perigosas, mas que raramente chegaram realmente a ameaçar Helton ou, depois, Fabiano.
À margem destes dois aspectos do jogo - a meu ver, e como escrevi acima, os mais determinantes na definição do mesmo - há que realçar ainda a repetição das tendências desde sempre verificadas na equipa de Jardim, nomeadamente a pouca exposição ao risco na fase de construção e a dependência quase total dos corredores laterais na criação ofensiva, ignorando quase que por completo o espaço interior. Num âmbito mais estratégico, importa também sublinhar a má preparação para os duelos individuais com Quaresma, nomeadamente na definição de coberturas defensivas à acção de Cedric, algo que aparentemente terá sido corrigido ao intervalo.
Em relação ao que resta da temporada, esta foi uma vitória obviamente muito importante para o objectivo do 2º lugar. 5 pontos em 7 jogos são sem dúvida uma vantagem significativa, mas de forma nenhuma uma garantia. Desde logo, porque basta 1 deslize para que a sensação de conforto se esfume, mas sobretudo pelos sinais que a equipa vem deixando nos últimos tempos. O conforto para o Sporting, parece-me, não vem tanto da confiança na sua própria performance, mas antes da expectativa de que também o Porto terá os seus pontos a perder até ao final da competição.

Porto
No rescaldo do jogo frente ao Nápoles tinha alertado para a perspectiva de problemas na fase de construção, para este jogo. Essa expectativa confirmou-se em pleno, com uma quantidade, diria, pornográfica de perdas de bola em zona normalmente proibida. A factura foi, neste sentido, extremamente generosa para os riscos que a equipa correu, mas isso tem mais a ver com demérito alheio do que com mérito próprio, não servindo por isso de atenuante. Em particular, parece-me que o Porto tenta forçar a progressão em apoio a todo o custo, não revelando porém uma preparação colectiva para responder aos problemas que uma atitude mais pressionante lhe possa colocar. A consequência é um desfasamento significativo entre o risco assumido e a qualidade apresentada, tal como ficou bem patente neste jogo. Mas este é apenas um dos aspectos que há para corrigir no novo Porto de Luís Castro, com outros indícios, identificados na partida da Liga Europa, a serem igualmente confirmados no teste de Alvalade. A saber, e para além da fase de construção 1) o comportamento da linha defensiva, frequentemente exposta em situações questionáveis; 2) o posicionamento defensivo dos médios interiores, com Fernando a aparecer frequentemente isolado "entrelinhas"; 3) a dinâmica ofensiva, novamente com os médios interiores em foco, e com a dificuldade de explorar o jogo interior a manter-se desde a saída de Lucho.

São motivos de sobra para que exista alguma apreensão em relação ao futuro imediato, com a agravante da equipa atravessar nesta altura um ciclo competitivo muito apertado e não haver propriamente condições para que, através do treino, se possam corrigir muitos destes aspectos. Aliás, é no plano estratégico que Luís Castro justificará mais criticas relativamente ao que se passou neste jogo, porque se os sinais eram - tal como escrevi - identificáveis, as consequências eram também elas perfeitamente antecipáveis e, logo, possíveis de evitar ou atenuar através do plano estratégico. É bom que tudo isto seja bem equacionado para o jogo de Nápoles, porque se Benitez apostar numa abordagem mais agressiva, ao contrário do que fez na primeira mão, o Porto poderá passar por grandes dificuldades, já que o potencial técnico dos dianteiros napolitanos não é certamente igual aos do Sporting.

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14.3.14

Tottenham - Benfica: Estatística e opinião

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O futebol tem na volatilidade um dos seus maiores pontos de interesse. Por vezes, paga-se caro ao mais subtil dos pormenores. Noutros casos, as vitórias aparentam surgir com uma ligeireza capaz de surpreender o mais despreocupado dos optimistas. O Benfica tem sido, como poucos, um bom exemplo desta bipolaridade do jogo, e se num passado recente pareceu ter os deuses todos contra si, hoje passa por um momento perfeitamente inverso. Não quero com isto a menosprezar a exibição encarnada em Londres, que num cenário bastante complicado conseguiu controlar de forma notável um adversário de grande qualidade. Mas, convenhamos, poucos jogos haverá em que se marca 1 golo no primeiro remate e, sobretudo, 2 golos na sequência dos únicos 2 cantos conquistados em todo o jogo.

Analisando por partes, o Benfica teve diante de si um jogo muito complicado, onde sentiu quase sempre muitas dificuldades em ter bola, perante a densidade promovida pelo posicionamento táctico da equipa inglesa. A oportunidade, para a equipa encarnada, rapidamente se identificou, e esteve sempre na exposição que o Tottenham oferecia nas costas da linha defensiva (muito subida, precisamente, para fazer a tal redução do espaço que condicionou o jogo apoiado do Benfica). E foi, sem surpresa, por essa via que o Benfica acabou por ganhar vantagem. Mas, se a equipa tardou em conseguir gerir o jogo com bola - já irei à fase positiva da exibição, neste plano - também foi evidente que teve sempre um grande controlo sobre a iniciativa ofensiva do adversário, mesmo com este a ter o maior volume de jogo e presença territorial. À margem do golo, que acontece de livre, o Benfica foi apenas exposto por uma vez, numa situação de transição que terminou numa finalização de Adebayor. Não seria fácil para nenhuma equipa fazer melhor em termos defensivos, perante um adversário com a qualidade do Tottenham e, sobretudo, com tão pouca posse de bola como teve o Benfica.

No entanto, se até ao 2-1 o Benfica tinha alicerçado a sua vantagem no mérito defensivo e na eficácia do pouco que havia criado ofensivamente, a partir daí a equipa passou a gerir, finalmente, o jogo com bola, arrancando para um final de jogo de muito maior qualidade. A explicação é simples e terá sido fácil de perceber por todos que acompanharam o jogo: as entradas de Enzo e Gaitan. Até esse ponto, apenas Ruben Amorim tinha conseguido responder com serenidade e eficácia à tal densidade que os Spurs impunham no meio-campo, mas com a entrada dos dois argentinos essa capacidade triplicou e, rapidamente, o Benfica congelou um jogo que parecia ter tudo para se começar a ferver.

Com ou sem felicidade, o facto é que o 1-3 de White Hart Lane vem colocar o Benfica muito perto dos quartos-de-final e, se tal se confirmar, a presença em nova final europeia passará a ser um cenário bastante plausível, tendo em conta a concorrência e o actual momento da equipa. Na verdade, não pode ser surpreendente, se tivermos em conta o que aconteceu em anos anteriores, o que se estranha é como é que esta equipa se viu envolvida por tanto descrédito e durante tantos meses...

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Porto - Nápoles: Estatística e opinião

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O momento da época, e da própria equipa, não permite que se confundam prioridades: ganhar é, mais do que nunca, o fundamental. Neste sentido, percebe-se perfeitamente a satisfação pelo triunfo e a esperança que este transmite, tanto a adeptos como aos próprios jogadores. Para segundo plano ficam, ainda assim, alguns sinais menos positivos relativamente ao que a equipa mostrou em campo, e que deverão justificar alguma moderação no optimismo com que se projecta o futuro imediato.

Começando pela fase de construção, pessoalmente não me pareceu um grande jogo da equipa azul-e-branca, com vários erros potencialmente comprometedores e perante uma equipa que não faz do condicionamento pressionante sobre a fase de construção adversária uma prioridade do seu jogo. Este parece-me um ponto importante para o clássico de Alvalade porque, ao contrário do Nápoles, o Sporting adopta uma postura mais pressionante sobre nesta fase do jogo, tendo sido precisamente aí que o Porto mais dificuldades sentiu no jogo para a Taça da Liga. É, portanto, um aspecto interessante para acompanhar no fim-de-semana.

Depois, e previsivelmente, há aspectos que não parecem ainda totalmente assimilados, nomeadamente em organização defensiva. A definição do pressing, e o papel dos dois médios interiores, causa-me algumas dúvidas, mas o ponto onde a equipa se revelou mais vulnerável foi no comportamento da linha defensiva, várias vezes assumindo o risco de expor a profundidade, em situações onde me parece muito discutível que o faça. Este é um problema que vem de trás e que, mesmo havendo essa intenção, pode não ser fácil de corrigir no imediato. Seja como for, o Nápoles teve também muito mérito na forma como, em algumas ocasiões, expôs as costas da defesa portista.

Tudo somado, o Porto sai desta primeira mão com uma vitória feliz, não só pelo triunfo mas pelo facto de não ter sofrido qualquer golo, num jogo onde o Nápoles fez mais do que o suficiente para o ter conseguido. Para já, e mais até do que melhorar, o grande desafio é conseguir que a equipa dê continuidade a este nível de resposta, num ciclo de jogos muito apertado, de elevado grau de dificuldade e onde não se prevê que não haja muita rotatividade nas escolhas dos principais protagonistas. Não vai ser fácil...

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