17.3.14

Sporting - Porto (I): Aspectos colectivos

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O Sporting venceu, e em jogos com esta carga emocional o resultado enviesa, inevitavelmente, a apreciação qualitativa sobre aquilo que as equipas fizeram. Naturalmente, com benefício para os vencedores. Frequentemente, discordo desta radicalização da percepção que se generaliza após estes jogos, quase sempre equilibrados e definidos em pormenores, sendo este mais um desses casos. Mais concretamente, não creio que o Sporting tenha desmerecido a vitória, sobretudo porque foi quem melhor potenciou os erros alheios, de acordo com aquelas que eram as suas intenções. Mas, se o Sporting pode chamar a si a superioridade na implementação do plano estratégico, também me parece incontornável que foi o Porto quem se aproximou do golo com mais frequência, e que o desfecho poderia, de forma igualmente natural, ter sido diferente. Aqui, há dois pontos que me parecem determinantes explorar, para efeitos de análise: 1) o confronto entre a fase de construção portista e o pressing do Sporting, por onde se definiu o balanceamento do jogo e onde os visitados ganharam clara vantagem; 2) a qualidade de definição no último terço, onde o Porto foi quem esteve globalmente melhor, apesar da má segunda-parte e com o Sporting a desperdiçar, consecutivamente, as oportunidades ofensivas que o seu pressing lhe proporcionava.

Sporting
A fórmula aplicada por Jardim não foi diferente de nenhum outro jogo, nomeadamente no enfase dado à presença pressionante e ao condicionamento da fase de construção do adversário. Por essa via, o Sporting tentou - como sempre tenta - não só impedir o adversário de ter bola, como também potenciar momentos de desorganização do adversário. O sucesso desta estratégia depende, obviamente, da capacidade de resposta da oposição, e foi por isso, por exemplo, que o Sporting sentiu tantas dificuldades no jogo da Luz. Neste caso, e em sentido totalmente inverso, o sucesso foi tremendo - maior, até, do que no jogo da Taça da Liga - com inúmeras intercepções a serem conseguidas e várias situações de transição para explorar. O problema, porém, surgiu na definição no último terço, onde a equipa voltou a não estar especialmente inspirada, o que determinou um enorme desperdício de jogadas potencialmente perigosas, mas que raramente chegaram realmente a ameaçar Helton ou, depois, Fabiano.
À margem destes dois aspectos do jogo - a meu ver, e como escrevi acima, os mais determinantes na definição do mesmo - há que realçar ainda a repetição das tendências desde sempre verificadas na equipa de Jardim, nomeadamente a pouca exposição ao risco na fase de construção e a dependência quase total dos corredores laterais na criação ofensiva, ignorando quase que por completo o espaço interior. Num âmbito mais estratégico, importa também sublinhar a má preparação para os duelos individuais com Quaresma, nomeadamente na definição de coberturas defensivas à acção de Cedric, algo que aparentemente terá sido corrigido ao intervalo.
Em relação ao que resta da temporada, esta foi uma vitória obviamente muito importante para o objectivo do 2º lugar. 5 pontos em 7 jogos são sem dúvida uma vantagem significativa, mas de forma nenhuma uma garantia. Desde logo, porque basta 1 deslize para que a sensação de conforto se esfume, mas sobretudo pelos sinais que a equipa vem deixando nos últimos tempos. O conforto para o Sporting, parece-me, não vem tanto da confiança na sua própria performance, mas antes da expectativa de que também o Porto terá os seus pontos a perder até ao final da competição.

Porto
No rescaldo do jogo frente ao Nápoles tinha alertado para a perspectiva de problemas na fase de construção, para este jogo. Essa expectativa confirmou-se em pleno, com uma quantidade, diria, pornográfica de perdas de bola em zona normalmente proibida. A factura foi, neste sentido, extremamente generosa para os riscos que a equipa correu, mas isso tem mais a ver com demérito alheio do que com mérito próprio, não servindo por isso de atenuante. Em particular, parece-me que o Porto tenta forçar a progressão em apoio a todo o custo, não revelando porém uma preparação colectiva para responder aos problemas que uma atitude mais pressionante lhe possa colocar. A consequência é um desfasamento significativo entre o risco assumido e a qualidade apresentada, tal como ficou bem patente neste jogo. Mas este é apenas um dos aspectos que há para corrigir no novo Porto de Luís Castro, com outros indícios, identificados na partida da Liga Europa, a serem igualmente confirmados no teste de Alvalade. A saber, e para além da fase de construção 1) o comportamento da linha defensiva, frequentemente exposta em situações questionáveis; 2) o posicionamento defensivo dos médios interiores, com Fernando a aparecer frequentemente isolado "entrelinhas"; 3) a dinâmica ofensiva, novamente com os médios interiores em foco, e com a dificuldade de explorar o jogo interior a manter-se desde a saída de Lucho.

São motivos de sobra para que exista alguma apreensão em relação ao futuro imediato, com a agravante da equipa atravessar nesta altura um ciclo competitivo muito apertado e não haver propriamente condições para que, através do treino, se possam corrigir muitos destes aspectos. Aliás, é no plano estratégico que Luís Castro justificará mais criticas relativamente ao que se passou neste jogo, porque se os sinais eram - tal como escrevi - identificáveis, as consequências eram também elas perfeitamente antecipáveis e, logo, possíveis de evitar ou atenuar através do plano estratégico. É bom que tudo isto seja bem equacionado para o jogo de Nápoles, porque se Benitez apostar numa abordagem mais agressiva, ao contrário do que fez na primeira mão, o Porto poderá passar por grandes dificuldades, já que o potencial técnico dos dianteiros napolitanos não é certamente igual aos do Sporting.

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14.3.14

Tottenham - Benfica: Estatística e opinião

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O futebol tem na volatilidade um dos seus maiores pontos de interesse. Por vezes, paga-se caro ao mais subtil dos pormenores. Noutros casos, as vitórias aparentam surgir com uma ligeireza capaz de surpreender o mais despreocupado dos optimistas. O Benfica tem sido, como poucos, um bom exemplo desta bipolaridade do jogo, e se num passado recente pareceu ter os deuses todos contra si, hoje passa por um momento perfeitamente inverso. Não quero com isto a menosprezar a exibição encarnada em Londres, que num cenário bastante complicado conseguiu controlar de forma notável um adversário de grande qualidade. Mas, convenhamos, poucos jogos haverá em que se marca 1 golo no primeiro remate e, sobretudo, 2 golos na sequência dos únicos 2 cantos conquistados em todo o jogo.

Analisando por partes, o Benfica teve diante de si um jogo muito complicado, onde sentiu quase sempre muitas dificuldades em ter bola, perante a densidade promovida pelo posicionamento táctico da equipa inglesa. A oportunidade, para a equipa encarnada, rapidamente se identificou, e esteve sempre na exposição que o Tottenham oferecia nas costas da linha defensiva (muito subida, precisamente, para fazer a tal redução do espaço que condicionou o jogo apoiado do Benfica). E foi, sem surpresa, por essa via que o Benfica acabou por ganhar vantagem. Mas, se a equipa tardou em conseguir gerir o jogo com bola - já irei à fase positiva da exibição, neste plano - também foi evidente que teve sempre um grande controlo sobre a iniciativa ofensiva do adversário, mesmo com este a ter o maior volume de jogo e presença territorial. À margem do golo, que acontece de livre, o Benfica foi apenas exposto por uma vez, numa situação de transição que terminou numa finalização de Adebayor. Não seria fácil para nenhuma equipa fazer melhor em termos defensivos, perante um adversário com a qualidade do Tottenham e, sobretudo, com tão pouca posse de bola como teve o Benfica.

No entanto, se até ao 2-1 o Benfica tinha alicerçado a sua vantagem no mérito defensivo e na eficácia do pouco que havia criado ofensivamente, a partir daí a equipa passou a gerir, finalmente, o jogo com bola, arrancando para um final de jogo de muito maior qualidade. A explicação é simples e terá sido fácil de perceber por todos que acompanharam o jogo: as entradas de Enzo e Gaitan. Até esse ponto, apenas Ruben Amorim tinha conseguido responder com serenidade e eficácia à tal densidade que os Spurs impunham no meio-campo, mas com a entrada dos dois argentinos essa capacidade triplicou e, rapidamente, o Benfica congelou um jogo que parecia ter tudo para se começar a ferver.

Com ou sem felicidade, o facto é que o 1-3 de White Hart Lane vem colocar o Benfica muito perto dos quartos-de-final e, se tal se confirmar, a presença em nova final europeia passará a ser um cenário bastante plausível, tendo em conta a concorrência e o actual momento da equipa. Na verdade, não pode ser surpreendente, se tivermos em conta o que aconteceu em anos anteriores, o que se estranha é como é que esta equipa se viu envolvida por tanto descrédito e durante tantos meses...

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Porto - Nápoles: Estatística e opinião

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O momento da época, e da própria equipa, não permite que se confundam prioridades: ganhar é, mais do que nunca, o fundamental. Neste sentido, percebe-se perfeitamente a satisfação pelo triunfo e a esperança que este transmite, tanto a adeptos como aos próprios jogadores. Para segundo plano ficam, ainda assim, alguns sinais menos positivos relativamente ao que a equipa mostrou em campo, e que deverão justificar alguma moderação no optimismo com que se projecta o futuro imediato.

Começando pela fase de construção, pessoalmente não me pareceu um grande jogo da equipa azul-e-branca, com vários erros potencialmente comprometedores e perante uma equipa que não faz do condicionamento pressionante sobre a fase de construção adversária uma prioridade do seu jogo. Este parece-me um ponto importante para o clássico de Alvalade porque, ao contrário do Nápoles, o Sporting adopta uma postura mais pressionante sobre nesta fase do jogo, tendo sido precisamente aí que o Porto mais dificuldades sentiu no jogo para a Taça da Liga. É, portanto, um aspecto interessante para acompanhar no fim-de-semana.

Depois, e previsivelmente, há aspectos que não parecem ainda totalmente assimilados, nomeadamente em organização defensiva. A definição do pressing, e o papel dos dois médios interiores, causa-me algumas dúvidas, mas o ponto onde a equipa se revelou mais vulnerável foi no comportamento da linha defensiva, várias vezes assumindo o risco de expor a profundidade, em situações onde me parece muito discutível que o faça. Este é um problema que vem de trás e que, mesmo havendo essa intenção, pode não ser fácil de corrigir no imediato. Seja como for, o Nápoles teve também muito mérito na forma como, em algumas ocasiões, expôs as costas da defesa portista.

Tudo somado, o Porto sai desta primeira mão com uma vitória feliz, não só pelo triunfo mas pelo facto de não ter sofrido qualquer golo, num jogo onde o Nápoles fez mais do que o suficiente para o ter conseguido. Para já, e mais até do que melhorar, o grande desafio é conseguir que a equipa dê continuidade a este nível de resposta, num ciclo de jogos muito apertado, de elevado grau de dificuldade e onde não se prevê que não haja muita rotatividade nas escolhas dos principais protagonistas. Não vai ser fácil...

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13.3.14

Champions, oitavos-de-final (VI)

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Barcelona - Man City
Foi um jogo muito entretido, e onde quase sempre sobressaiu o elevado nível técnico dos dois conjuntos. Daí o número elevado de oportunidades, com os golos a tardar em fazer justiça à superiorização dos ataques relativamente às defesas. De novo, e tal como no Bayern-Arsenal, parece-me importante notar que o Barça não precisava de ganhar, e isso terá sido um factor decisivo para que não tivesse forçado a vitória que, ainda assim, lhe acabou mesmo por sorrir.

Sobre o Man City, começo por questionar a ideia com que todos ficamos - eu incluído - de que "se tivesse jogado assim, na primeira mão...". De facto, a equipa apareceu menos preocupada com o controlo defensivo do adversário, com dois alas interiores que a meu ver potenciam melhor a qualidade do jogo ofensivo da equipa, e teve o mérito de ser uma das raras equipas que, de há muito tempo a esta parte, conseguiu passar uma boa parte do tempo com a bola também do seu lado - mérito para a circulação baixa da equipa que, com excepção de Bayern e Barça, talvez não fique actualmente a dever nada a ninguém. A minha questão, porém, tem a ver com as comparações entre diversas fases do jogo, onde o contexto é manifestamente diferente. Ou seja, na segunda mão, o resultado era já de 2-0, o que leva a uma atitude diferente de ambas as equipas, e com o Barça intuitivamente a ter como prioridade o controlo sobre a vantagem conseguida. Não é a primeira vez que me refiro a este problema - de tirar conclusões a partir de comparações a partir de contextos diferentes - e muitos exemplos semelhantes acontecem todos os anos, quando as equipas são derrotadas mas aparentam jogar melhor depois de estar em desvantagem. Normalmente, e precisamente por ignorar o contexto, a conclusão revela-se uma ilusão.

Relativamente ao Barça, passou uma eliminatória difícil com grande naturalidade, como talvez nenhuma outra equipa o conseguisse fazer frente a este Man City (eventualmente o Bayern teria essa capacidade), e isso prova a sua força. Ainda assim, é inegável o subrendimento da equipa quando comparada com aquilo que foi nos 5 anos anteriores. Quais são, então, as diferenças que explicam esta quebra? Começo por referir que tenho acompanhado a equipa apenas pontualmente, e que por isso poderá haver aspectos que me escapam. Ainda assim, e começando pelo lado defensivo tantas vezes desprezado nas equipas de Guardiola (de novo, o que escrevia ontem: nenhuma equipa atinge a excelência sem ser muito competente em TODOS os momentos tácticos do jogo), o Barça actual tem muito mais dificuldade no condicionamento pressionante dos seus adversários, o que lhe retira presença territorial e tempo de posse de bola. Por exemplo, creio que em épocas anteriores esta equipa do Man City teria tido muito mais dificuldade em circular como fez neste jogo. Com bola, e mesmo mantendo uma qualidade individual que, a meu ver, não encontra par em qualquer outra equipa da actualidade, há também diferenças, sobretudo ao nível do jogo posicional. Em particular, destaco - aliás, já o havia feito no jogo da primeira mão - a falta de soluções colectivas quando a equipa se aproxima da última linha do seu adversário. Neste jogo, por exemplo, foram inúmeras as vezes em que os jogadores catalães forçaram iniciativas individuais, o que obviamente acaba por favorecer as hipóteses de quem está organizado, e em superioridade numérica, para defender. Ainda dentro deste ponto, parece-me haver uma focalização excessiva em Messi, com a equipa a procurar constantemente o seu astro, mas com este a ser relegado muitas vezes para iniciativas individuais que, mesmo para ele, não são fáceis de resolver. Enfim, é este o novo Barça que temos, e duvido que possa mudar muito com esta liderança técnica. Mantém-se uma equipa fortíssima, claro, mas é também apenas uma sombra daquilo que foi na sua anterior versão.

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12.3.14

Champions, oitavos-de-final (V)

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Atl.Madrid - Milan
Pessoalmente, gostei bastante do jogo. Pela qualidade do Atlético, que voltou a fazer um grande jogo em praticamente todas as dimensões, mas também pela réplica pontualmente oferecida pelo Milan, que apesar da goleada final conseguiu criar alguma incerteza no desfecho da eliminatória, nomeadamente na primeira parte. O movimento de Balotelli, na origem do golo italiano é, aliás, um dos pontos que mais destacaria na partida, criando um invulgar momento de desorganização na defensiva 'colchonera', que teria como consequência não só o golo, mas também uma fase psicologicamente favorável ao Milan, que terminaria com o golo de Arda. E, depois sim, o Atlético tomou em definitivo as rédeas do jogo e da eliminatória.

Ainda sobre ao Atlético, e à margem do jogo, queria realçar a forma como o sucesso da equipa nos é invariavelmente explicado, quer antes, quer durante as partidas. A explicação passa sempre por realçar, primeiro, a atitude/agressividade da equipa, e depois a sua prestação num ou noutro momento táctico do jogo - normalmente transição. Ora, seja por desleixo ou incapacidade de quem analisa, a verdade é que este tipo de diagnóstico contém alguns equívocos triviais, e acaba por passar a ideia errada sobre o que é preciso para se ter, ou não, sucesso no futebol. Desde logo, dar ênfase primordial à agressividade é dar-lhe uma importância explicativa, no que ao sucesso diz respeito, que ela não manifestamente não tem. Porque se o Atlético tivesse tanto sucesso - estamos a falar de uma das 4-5 equipas de maior rendimento na Europa, actualmente - devido à agressividade, então a excelência estaria ao alcance de qualquer equipa distrital. Depois, de igual modo, nenhuma equipa pode atingir este patamar sem ter enorme competência em todos os momentos tácticos do jogo. Todos! Aliás, é interessante porque no caso do Atlético parece-me que se comete o erro inverso relativamente às análises que se fazem a equipas tacticamente mais evoluídas. Por exemplo, no caso do Barça de Guardiola, raramente se destacava a sua agressividade e competência nos momentos tácticos defensivos, quando essas eram, também, componentes fundamentais do enorme sucesso que a equipa conseguiu, e sem as quais certamente nunca o teria conseguido.

Neste jogo, por exemplo, o Atlético conseguiu 3 dos 4 golos em organização ofensiva, fruto de uma boa distribuição posicional dos jogadores, sempre com muitos apoios oferecidos ao portador da bola, o que lhe permite, não só criar situações de envolvimento no corredor por onde a bola entra, como também estar bem posicionado para a reacção à perda da bola, caso esta aconteça. É claro que o Atlético não tem a qualidade de equipas como Barça, Real ou Bayern, mas seria praticamente impossível que a tivesse, dada a disparidade de mais-valias individuais. Este é, porém, o exercício mais interessante do futebol - tentar fazer melhor, com menos - e o meu ponto, aqui, é que só se pode perceber o "fenómeno" se o analisarmos e reflectirmos na sua plenitude, e nunca através de "clichés" e análises tacticamente superficiais.

Bayern - Arsenal 
Não foi um grande jogo, nem tão pouco a eliminatória tinha já muito para nos oferecer, depois do que se passou em Londres. Aliás, creio que o conforto com que o Bayern sempre esteve na partida é a principal explicação para que o empate tivesse subsistido até ao final, já que a vitória era dispensável para os alemães. Ainda assim, do ponto de vista táctico, há bastantes pontos de interesse a explorar...

Começando pelo Bayern, a nota principal vai claramente para a estrutura que Guardiola utilizou, recorrendo ao duplo-pivot, algo que não sendo inédito desde os tempos do Barça (onde chegou a utilizar o 4-4-2, por exemplo), não deixa de ser uma novidade relativamente ao que foi hábito no percurso do treinador até aqui. Sobre sistemas tácticos, e como sempre, não tenho muito a comentar, por entender que determinam muito pouco em termos qualitativos, e só se tornam mais relevantes quando a dinâmica colectiva é mais rudimentar, o que não é - de todo! - o caso do Bayern. Assim, em posse, o Bayern apresentou uma boa movimentação colectiva, sempre com grande mobilidade em praticamente todas as suas unidades, mas com algum défice de intensidade, o que explica em grande parte as poucas ocasiões criadas, relativamente ao volume de jogo que a equipa teve. O principal contraste, em relação à primeira mão, foi o menor foco dado ao espaço entrelinhas, transferindo-se esse ênfase para as combinações sobre os corredores laterais, com Gotze e Schweinsteiger a incorporar essas zonas do terreno. Convém aqui também salientar a maior/melhor protecção do Arsenal ao seu espaço entrelinhas, particularmente através da acção de Arteta, sempre muito atento à presença de Gotze nessa zona. Para além da habitual qualidade na circulação baixa, parece-me também fundamental destacar o comportamento defensivo da equipa, em meu entender um aspecto decisivo para o conforto que a equipa manteve no jogo. Bom jogo posicional e muito boa agressividade/reactividade, o que determinou o controlo do momento de transição ataque-defesa, mas também o condicionamento constante da circulação do Arsenal, que permanentemente era obrigada a recuar a bola para o seu guarda-redes.

Sobre o Arsenal, tenho de me confessar desiludido (novamente!) com a réplica da equipa, neste jogo e nesta eliminatória. Começando pelo ponto mais estranho - a utilização de Ozil como médio-direito - talvez seja útil tentar perceber a intenção de Wenger, que certamente não era apenas colocar o criativo alemão a correr atrás de Alaba, durante 45 minutos. Penso que a lógica por detrás desta aparentemente imperceptível opção reside na principal estratégia de Wenger para a sua construção: bater longo, para o lado direito. A ideia, neste sentido, passaria por tentar que Ozil jogasse a partir da segunda-bola, tentando fazer a bola sair da zona de pressão e, possivelmente, tirando depois partido da maior verticalidade de Podolski, que partia do corredor oposto. No papel, talvez tivesse alguma lógica, na prática, revelou-se um disparate. Mas o principal problema do Arsenal não foi Ozil, nem tão pouco o aspecto defensivo, onde a equipa até esteve melhor do que na primeira mão. Foi, isso sim, a total incapacidade para ter bola, sucumbindo permanentemente ao "aperto" do pressing bávaro. Se o Bayern já é muito difícil de contrariar quando tem a bola, a tarefa torna-se irremediavelmente inglória se as poucas ocasiões em que os papeis se invertem terminam invariavelmente com o guarda-redes a pontapear a bola para a frente. Ora, foi precisamente isso que sucedeu e, no caso do Arsenal, creio que se exigia mais arrojo e mais qualidade na circulação baixa, até porque se o pressing do Bayern fosse ultrapassado, a equipa teria depois boas possibilidades de criar os desequilíbrios de que tanto precisava. Mas esta não é a primeira vez que o Arsenal deixa a desejar em grandes confrontos europeus, sendo essa a regra do seu historial recente. Discute-se muito, relativamente a Wenger, se o copo está meio-vazio ou meio-cheio. Pessoalmente, parece-me que o principal mérito do francês é mesmo o recrutamento, tendo conseguido compor sistematicamente equipas de elevado nível técnico, o que naturalmente potencia o "fancy-football" que todos apreciamos. No que respeita à capacidade de superação da sua própria equipa, porém, não creio que se possa esperar muito de Wenger. O Arsenal parece sempre demasiado dependente da superioridade técnica para se afirmar, e quando isso não se verifica a equipa não tem, nem um nível de organização, nem tão pouco uma versatilidade estratégica que lhe permita fazer frente a adversários mais fortes. Não posso dizer que o problema do Arsenal seja Wenger - até porque esse tipo de análise tem de ter sempre uma perspectiva comparativa - mas parece-me claro que, com o francês, o objectivo de competir com os melhores terá sempre de passar por um nível de investimento muito elevado, e nunca pela capacidade de superação da própria equipa.

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11.3.14

Penáltis e a apofenia da derrota

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O jogo de Setúbal serviu de mote para reforçar o tema das arbitragens na primeira linha do plano mediático. Sem querer, como é óbvio, entrar com grande profundidade nesse tipo de discussão, aproveito para deixar um simples exercício comparativo, sobre a importância dos penáltis nos golos marcados pelas várias equipas, no campeonato e ao longo das últimas 10 épocas. Para efeitos comparativos, incluí também as duas ligas mais competitivas da actualidade, de Espanha e Inglaterra. A ideia é ter um indicador relativo, e não absoluto, já que uma equipa que ataca mais terá, naturalmente, tendência para ter mais penáltis marcados a seu favor, e vice-versa. Seria igualmente interessante complementar a análise com os dados defensivos (ou seja, % golos sofridos por penáltis), mas o acesso a esses dados revelar-se-ia bem mais moroso para mim, não sendo este um tema que justifique tanto trabalho.

A primeira nota a salientar, olhando para estes quadros, é que não há uma disparidade tão escandalosa como a veemência dos discursos dos adeptos e dirigentes parece sugerir. Sem qualquer surpresa, de resto. O ponto que mais realçaria, aliás, vai para o facto de, em Portugal, os "grandes" estarem todos no topo da tabela, o que não acontece em Espanha ou Inglaterra. Mas, tão pouco, esta é uma tendência clara que nos permita confirmar uma outra tese tantas vezes repetida, de que os "grandes" são mais favorecidos do que os outros. Em suma, e na melhor das hipóteses, os dados de penáltis não podem ser considerados mais do que inconclusivos, relativamente às diversas teorias acerrimamente defendidas nas discussões sobre o tema. Uma constatação que parece afastar, pelo menos, a hipótese de tendências claras em favor ou desfavor de alguns clubes (no que a penáltis diz respeito), já que se isso acontecesse seria impossível que tal não se reflectisse nos números acumulados.

Para mim, e como quem me lê saberá, este é um tema que valorizo muito pouco na definição do sucesso de médio-longo prazo dos clubes, ainda que como agentes directos no jogo, os árbitros possam ter obviamente influência nos resultados de cada partida. Vejo a permanente polémica em torno da arbitragem como uma consequência inevitável da natureza emotiva do fenómeno futebolístico e da relação dos adeptos com os seus clubes. Uma espécie de apofenia colectiva, que ganha especial força na hora das derrotas. E é essa a minha explicação para o facto de assistirmos repetidamente - ano após ano - ao mesmo tipo de discussão, e para o facto dos clubes campeões serem sempre conotados como favorecimentos das arbitragens, no final de cada temporada. Foi assim com Porto, Benfica, Sporting e Boavista quase sempre que chegaram aos seus títulos. Neste sentido, e na minha óptica, a arbitragem é e será sempre um tema central nas discussões extra-jogo, aconteça o que acontecer. Porque o que as motiva, verdadeiramente, não é tanto os erros dos árbitros, mas sim a natureza dos adeptos.

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10.3.14

As 4 lutas da tabela

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Primeiro lugar - a questão a colocar, depois desta jornada, é se ainda haverá alguma dúvida a colocar em relação ao campeão 2013/14? É certo que o passado recente não aconselha precipitações na atribuição precoce das faixas, mas é bom não confundir a excepção com a regra, e a regra é que uma equipa nas condições actuais do Benfica tem uma probabilidade muito reduzida de perder o título ou, mesmo, de ainda ver o seu primeiro posto ser colocado em causa nas jornadas que faltam. Para mais, não tenho dúvidas de que Jesus continuará oferecer ao campeonato prioridade total na gestão da equipa (tal como fez frente ao Estoril, em vésperas de uma difícil jornada europeia), o que não ajuda as perspectivas de Porto e Sporting para uma eventual recuperação. Ou seja, e no que ao Benfica diz respeito, o campeonato continuará a ser a prioridade, mas o mais provável é que o tempero do que ainda falta jogar esteja reservado para as 3 competições restantes, onde se aproximam duelos muito interessantes.

Segundo lugar - O clássico da próxima semana será, obviamente, muito importante para definir posições antes da recta final do campeonato. Pessoalmente, acho improvável que Porto e Sporting somem por vitórias todos os jogos que fiquem por jogar depois desse jogo. No caso do Porto, porque mesmo perspectivando uma melhoria da equipa no futuro imediato, há que contar com o peso do calendário. Para além da Liga Europa, o Porto jogará nas duas taças, e até mais do que a conquista das mesmas, muito do brio da sua equipa actual. Jogar contra o Benfica, para o Porto, não é o mesmo que jogar contra outra equipa qualquer, e por isso esses duelos acabarão por ter uma importância que, nessa altura, poderá relegar o campeonato para segundo plano e custar alguns pontos. Isto, claro, para além da Liga Europa, onde o Porto mantém ambições. Quanto ao Sporting, e como venho escrevendo, o seu futebol há muito que não é suficiente para que se possa perspectivar uma sequência muito continuada de vitórias. A equipa tem lidado bem com a adversidade, é certo, mas isso não será nunca suficiente numa prova de longa duração como é o campeonato. Com apenas 2 pontos de vantagem sobre o Porto e, face ao actual rendimento do futebol leonino, seria mesmo muito importante uma vitória no próximo fim-de-semana. O Sporting depara-se agora com o irónico cenário, que se lhe projectou como pior possibilidade depois do bom inicio de época que realizou: ou seja, a equipa corre o risco de cumprir as suas metas iniciais no campeonato, e mesmo assim, sair de 2013/14 com um sentimento de frustração.

Europa - Com o Estoril em excelente posição - quer pela situação pontual, quer pela qualidade que apresenta - para confirmar o quarto lugar, poderemos ter um final de época muito interessante na luta pelo quinto posto. Esta jornada contemplava dois jogos muito importantes a este respeito: o Braga-Nacional e o Marítimo-Guimarães, ainda por jogar. É uma corrida, nesta altura, muito imprevisível: o Nacional tem a vantagem pontual, mas pouco mais do que isso. O Braga será a equipa com melhores recursos, mas nem o seu futebol é ainda suficientemente consistente nem, tão pouco, o calendário lhe é favorável. O Guimarães tem um óptimo calendário, mas nem por isso o nível do seu jogo lhe permite dar por garantida a vitória em qualquer dos embates que tem por disputar. Sobra ainda o Marítimo, que certamente continuará a sonhar com a Europa enquanto isso lhe for permitido e que, se vencer o Vitória, passará certamente a ser um importante candidato ao ambicionado quinto lugar.

Despromoção - Os dois jogos deste fim-de-semana tiveram como especial consequência a saída do Gil Vicente das contas da despromoção. Aliás, com o calendário que tem, a equipa de João de Deus poderá até acabar a prova muito bem posicionada. Para baixo, ficaram Paços, Belenenses, Olhanense e, também, Arouca, sendo que dificilmente outro clube conseguirá o "feito" de se intrometer nesta luta. O Paços tarda, e provavelmente já não vai a tempo, em se encontrar nesta temporada. O desgaste competitivo e emocional da aventura europeia e uma época muito mal gerida no que respeita ao comando técnico, ditaram uma longa trajectória à procura de um carácter e identidade colectiva que, no entanto, nunca chegou. Tudo o que resta é salvar a pele e minimizar danos. Em Olhão, a equipa parece, pelo menos em termos de crença colectiva, estar no seu melhor momento da época. O problema é que são muitos os danos acumulados e, se combinarmos a situação pontual com o calendário, talvez ninguém quisesse trocar de lugar com o Olhanense. Outro candidato sério à despromoção é o Belenenses que, passe o exagero, é uma equipa que só conhece um momento táctico: organização defensiva. É espantoso que uma equipa com tão poucos golos sofridos esteja nesta situação, mas a verdade é que o Belenenses é uma equipa de contrastes e se defensivamente se organiza bastante bem (ainda que, a meu ver, tenha perdido alguma qualidade desde a primeira volta), com bola denota uma preocupante ausência de ideias, o que lhe tem custado golos e muitos pontos. Nestas contas, há ainda que não descartar o Arouca. É improvável, mas como bem sabe Pedro Emanuel pelo que lhe aconteceu em Coimbra, o futebol às vezes prega algumas partidas deste tipo.

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7.3.14

5 jogadas (controlo da profundidade)

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Aproveito algumas jogadas do passado fim de semana para abordar o tema do controlo da profundidade, tantas vezes na origem dos golos que vamos vendo. Como ponto prévio, quero referir que esta é uma situação muito difícil de defender com eficácia, porque normalmente exige decisões num espaço de tempo muito curto, requerendo a coerência de vários jogadores e, várias vezes, com muito espaço para controlar. No mesmo sentido, não é minha intenção passar a ideia de que há formas certas e erradas de abordar o problema - aliás, essa é uma abordagem que refuto em quase tudo no futebol. A utilidade deste, como qualquer outro princípio comportamental, está dependente da eficácia na sua implementação, e é praticamente impossível alguém ter a certeza de que uma forma de defender seja, por si só, mais eficaz do que a outra. Como em quase tudo no futebol, a opção acaba por depender da convicção de cada um, sendo que bons treinadores, que conseguem colocar as suas equipas a controlar bem este tipo de situação, têm frequentemente abordagens perfeitamente distintas na forma de o fazer. Pessoalmente, a minha percepção é que equipas, como Chelsea ou Atlético de Madrid, que tendem a arriscar menos em termos de exposição espacial, acabam por ter um melhor controlo deste tipo de situação. Mas, como referi, é uma situação discutível, e daí também o seu interesse...

1 - Começo por recuar 1 semana no tempo para recuperar o primeiro golo do Arouca em Braga. O meu foco, aqui, vai para a ausência de pressão sobre Ceballos, sendo que Sasso tinha todas as condições para o fazer - inclusivamente, Ceballos começa por receber de costas. A pressão sobre o portador da bola é um dos aspectos fundamentais para o controlo da profundidade e, neste caso, para além de dar tempo à equipa para se reorganizar, a pressão seria fundamental para evitar a exposição das costas de uma linha defensiva ainda demasiado subida no terreno. Este lance, tal como o do segundo golo sofrido pelo Braga no mesmo jogo, evidenciam as dificuldades de Sasso para jogar como defesa-lateral, e daí a minha crítica em torno da decisão de, no jogo de Alvalade, ter sido novamente lançado para a mesma posição.

2 - O segundo golo sofrido pelo Porto em Guimarães espanta pela simplicidade com que Marco Matias surge na cara de Hélton. O primeiro ponto a abordar é, na minha opinião, o posicionamento de Alex Sandro. É normal haver alguma abertura posicional, já que era o Porto quem tinha inicialmente a bola, mas no momento em que se torna evidente a reposição de Hélton para o lado direito, exigia-se maior prudência do lateral-esquerdo no seu posicionamento, coisa que não aconteceu. Depois, porém, também me parece questionável a abordagem de Abdoulaye. Mais uma vez, tudo surge numa situação em que se perde a presença pressionante sobre o portador da bola - no caso, Maazou. Abdoulaye optou por se manter na mesma linha, tentando usar o fora-de-jogo para condicionar a iniciativa do Vitória. A meu ver, é muito discutível a opção, simplesmente porque a ausência de controlo sobre o tempo de execução de Maazou determina que o risco de exposição aumente assinalavelmente.

3 - O grande golo de Gaitan também justifica alguma reflexão a este propósito. Ao manter-se mais alta, a linha defensiva do Belenenses consegue cortar todas as linhas de passe ao extremo argentino, o que num primeiro momento aparenta garantir o sucesso da sua acção. Perante um jogador que vinha em velocidade, porém, o número de metros nas suas costas acabou por oferecer outra solução a Gaitan, no caso a progressão individual. No lance, há ainda que destacar dois aspectos: primeiro, claro, a qualidade de Gaitan. Depois, também, a acção de Matt Jones. O ideal, perante uma defesa tão alta, é que o guarda-redes esteja preparado para intervir nas suas costas. Não sendo isso possível, porém, exigia-se mais prudência na saída da baliza, precisamente para não permitir que Gaitan fizesse o que acabou por fazer. Ainda assim, note-se, Matt Jones tem sido um dos grandes destaques da prova, no que a guarda-redes diz respeito.

4 - O primeiro de golo do Chelsea em Craven Cottage evidencia-se pela facilidade com que a equipa transformou um lançamento lateral na imediação da sua área, numa situação de 1x0, na área oposta. E, de novo, o tema do controlo da profundidade justifica discussão. O ponto mais evidente e comprometedor é, claro, a falta de sintonia entre os jogadores do Fulham, com alguns jogadores a tentar manter a linha de fora-de-jogo e outros a recuar, tentando desesperadamente recuperar metros. Seja como for, a questão que coloco é até que ponto se justificava arriscar usar o fora-de-jogo como condicionamento do adversário, numa situação em que Hazard não estava a ser directamente pressionado?

5 - Neste último caso, o desfecho acaba por ter algum perigo para a baliza de Courtois, mas o meu sublinhado vai para aquilo que me parece ser uma boa reacção colectiva do Atlético de Madrid. Ao tirar a bola da zona de pressão, o Real fica com uma situação muito favorável para explorar a profundidade, não havendo pressão sobre Di Maria e com Ronaldo e Benzema a terem reacções fortíssimas neste tipo de situação. O Atlético, porém, consegue rapidamente cortar a profundidade, e mesmo se o Real, por mérito próprio, chega a uma situação de finalização, parece-me que o facto de a acção não ter terminado com um jogador na cara de Courtois é, em si mesmo, um significativo atenuar dos danos potenciais.

Fugindo um pouco ao tema, aproveito para realçar o bom derbi de Madrid que tivemos no passado fim-de-semana. Duas das melhores equipas do futebol mundial, com características e pontos fortes muito diferentes, mas ambas com muita qualidade. O Real com um grande potencial técnico na frente, e hoje com uma circulação baixa que usa muito bem a largura e abertura dos seus médios (Di Maria e Modric) como ponto de partida para as suas jogadas. O Atlético - provavelmente a equipa que, actualmente, mais admiro - com recursos mais modestos, mas como uma organização e sentido colectivo notáveis, fortíssima no controlo defensivo, e muito lúcida sobre a forma como pode causar estragos nos adversários. Um grande jogo, e um desfecho que, também ele, me pareceu justo.

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