21.2.14

Liga Europa, Benfica e Porto

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- Será a Liga Europa uma competição secundária? Para quem, como eu, cresceu de ouvido colado à rádio a cada quarta-feira europeia, esta será sempre uma ideia difícil de encaixar. Esse era nem mais, nem menos do que o climax de qualquer temporada futebolística, e era para aí que se canalizavam os mais ambiciosos sonhos de qualquer adepto, independentemente da competição em causa. Mas, na vida as coisas mudam, e no futebol têm de facto mudado muito com o passar dos anos. Talvez não faça sentido, do ponto de vista lógico, que se dê prioridade a uma competição interna - campeonato - cujo troféu já enche, às dezenas, os museus dos principais clubes nacionais, em detrimento de uma prova de muito maior prestígio global e que apenas por um par de vezes foi conquistada por clubes nacionais. Mas, e volto a repetir esta ideia, o futebol não se explica pelo lado racional, e todos sabemos a importância emocional que tem a organização da festa final do nosso campeonato. A verdade, neste sentido, é que a Liga Europa é mesmo uma competição secundária para muitos clubes europeus - particularmente aqueles que disputam as principais ligas - e também para os portugueses vem-no sendo cada vez mais.

- Uma coisa é o que se diz na conferência de imprensa - e todos dizem o mesmo, que "todos os jogos são para ganhar" - outra, bem diferente, é o que depois resulta nas opções, práticas, dos treinadores. É aí que, claramente, Jorge Jesus e Paulo Fonseca se distinguem. E, vendo bem, percebe-se porquê. Jesus, mais do que nunca, quererá saber pouco ou nada desta competição, estando bem presente na memória o trauma negativo da época anterior, onde a presença na primeira final europeia do clube, ao fim de mais de 20 anos, não chegou para, emocionalmente, compensar os 2 pontos perdidos internamente. Já Paulo Fonseca terá outra perspectiva. O campeonato é o mais importante, sem dúvida, mas já não depende dele, e não será com uma colecção de taças internas que o treinador sairá por cima no final da época. A única maneira de compensar minimamente uma eventual perda na corrida para o título será através de um feito - improvável, mas perfeitamente possível - na final de Turim. E por aqui se explicam, na minha leitura, as prioridades de um e de outro na composição dos respectivos onzes iniciais, sem que tal tivesse evitado, porém, a ironia do contraste entre os dois desfechos.

- Em Salónica, o Benfica arrancou uma vitória ao velho estilo italiano dos anos 90. Não pelo 'catenaccio', que foi mais relembrado na estratégia grega, mas pela forma como geriu o jogo de forma aparentemente tranquila, confiante na sua superioridade, e marcando praticamente na primeira ocasião que teve para o fazer. Parece simples: ir à Grécia, levar uma equipa de rotação, ganhar, fazer as malas e regressar. Parece, mas tal só é possível pela forma como o modelo táctico está assimilado por todos os jogadores do plantel. Outra coisa curiosa é o facto do Benfica ser, agora, uma fortaleza defensiva aos olhos de adeptos e comunicação social, quando há bem pouco tempo todos apontavam as fragilidades defensivas como o principal defeito da equipa. Mistérios...

- Mais curioso ainda, o que se passou no Dragão. O empate, note-se, é mesmo penalizador para o Porto. Não que o Eintracht não tivesse justificado marcar, mas porque foi preciso uma enorme dose de eficácia para que pudesse chegar ao empate. Por muito que o fado nos possa parecer anunciado, são coisas que acontecem a todos. Mas há 3 coisas surpreendentes que me merecem um comentário especial. Primeiro, claro, o "coelho" que Quaresma tirou da cartola. No fim das contas, serão estes rasgos, e a frequência com venham a acontecer, a definir a utilidade do seu contributo, porque em praticamente tudo o resto, já se sabe com o que (não) se pode contar relativamente ao 7 portista. Depois, o caricato segundo golo do alemão: um auto-golo não é assim tão incomum, agora um auto-golo na sequência de um desvio de um outro jogador da própria equipa, confesso que já tenho alguma dificuldade em recordar algo igual. Finalmente, as declarações - não menos caricatas - de Paulo Fonseca. As "gaffes" acontecem a todos, e não serei certamente eu a enfatizar a importância que elas, na realidade, não têm. No entanto, é provável que no caso de Paulo Fonseca elas possam reflectir a insegurança do treinador em relação ao actual momento da equipa e à sua própria posição, em particular. Já o tinha escrito, parece-me que o principal pecado do treinador nesta sua passagem pelo Porto pode ter sido a forma como se deixou afectar pelo ruído mediático em seu redor, e estes sinais podem ter a ver com essa vulnerabilidade.

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20.2.14

Champions, oitavos-de-final (II)

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Arsenal - Bayern
O estatuto actual do Bayern fazia com que a vitória forasteira fosse, à partida, o cenário mais expectável. É indiscutível a justiça do desfecho, mas confesso-me pouco impressionado com a exibição da equipa de Guardiola. Talvez a culpa seja das elevadas expectativas...

Sobre o Arsenal, creio que dificilmente será uma equipa com ambições reais de chegar muito longe nesta prova ou mesmo de conquistar o título interno. Tem uma boa equipa, sem dúvida, mas não o suficientemente para rivalizar com outros concorrentes, sendo que do ponto de vista táctico, por outro lado, se observam limitações importantes e que, na minha leitura, condicionam muito as possibilidades de superação da equipa. Em particular, o espaço entrelinhas, pela facilidade de desposicionamento dos médios, e que foi notoriamente contemplado na estratégia de Guardiola para este jogo.

De resto, Wenger mostrou-se bastante cauteloso na abordagem à partida, particularmente arriscando muito pouco em termos de construção, onde apostou quase tudo numa ligação longa para tentar jogar a partir da segunda-bola, quase sempre sobre o corredor direito. É verdade que esta iniciativa obteve uma eficácia assinalável - também, a meu ver, por algum défice na resposta do Bayern - mas parece-me questionável o ênfase dado a esta solução. O Bayern arrisca muito em termos de pressing em organização defensiva, e sendo certo que qualquer desafio representa um risco, parece-me igualmente que o Arsenal teria qualidade suficiente para se propor algo mais neste plano. De resto, e como tento mostrar no vídeo, foi por essa via que a equipa de Wenger começou por criar mais problemas ao seu adversário, nos minutos iniciais.

Quanto ao Bayern, e como já referi, Guardiola focou muito a sua estratégia no aproveitamento do espaço entrelinhas, com a colocação interior dos extremos e com um deles quase sempre nas costas dos médios do Arsenal. A ideia - parece-me - seria manter os médios inicialmente mais baixos, de forma a atrair o duplo-pivot dos 'Gunners' através da circulação baixa para, depois, aproveitar o espaço criado nas suas costas. A verdade é que, e mesmo conseguindo alguns bons períodos de circulação, o Bayern teve dificuldades em encontrar os espaços essenciais que intencionalmente procurava, acabando por se dar o paradoxo de ser numa das raras ocasiões em que Robben protagonizou o seu movimento mais clássico - da direita para o meio - e sem ninguém entrelinhas, que o Bayern abriu o caminho para o triunfo.

Mas as minhas principais reticências relativamente ao Bayern não vêm daquilo que faz com bola, onde a qualidade é obviamente muito elevada - ainda que existam alguns aspectos que não tenha gostado tanto desta vez. Defensivamente, a equipa parece-me facilmente exposta na sua última linha, havendo muito pouco apoio oferecido por elementos de outros sectores (a excepção é o pivot). É certo que a equipa é forte no condicionamento mais alto e que é difícil ultrapassar sistematicamente essa barreira sem correr riscos importantes, mas é também bom recordar que o Bayern foi campeão europeu utilizando um estilo completamente ao que é hoje praticado, nomeadamente na eliminatória com o Barça. A minha dúvida reside no que acontecerá perante a reedição desse tipo de confronto, ou seja perante uma equipa que possa rivalizar em termos de qualidade na presença em posse, havendo a convicção de que, desta vez, Guardiola manterá por certo a identidade da sua equipa. É, provavelmente, a maior curiosidade que tenho para esta edição da Champions, e espero que o sorteio nos presenteie a todos com esse brinde...

Milan - Atl.Madrid
Quem olhasse para este jogo de uma forma descontextualizada, isto é não conhecendo o trajecto recente das duas equipas, estranharia por certo o enorme favoritismo atribuído aos visitantes. Nem o Atlético tem um historial que o justifique, nem tão pouco em termos de valores individuais se encontra uma evidência explicativa para este "fenómeno". A verdade, porém, é que David e Golias inverteram os papeis num espaço de tempo muito curto, e era sobre o Atlético que estavam depositadas as maiores expectativas. Fazendo justiça à equipa de Seedorf, o Milan não merecia o castigo da derrota. Não que tivesse sido superior ao Atlético, mas porque conseguiu quase sempre controlar o seu opositor e, num par de ocasiões, estar ela própria muito perto de marcar.

De resto, este foi um jogo essencialmente equilibrado, o primeiro nestes oitavos-de-final onde ambas as equipas deram prioridade ao controlo dos espaços essenciais. É claro que o Atlético mostrou mais qualidade em termos tácticos, nomeadamente sendo capaz de seleccionar melhor as situações onde era, ou não, possível pressionar a todo o campo. Em termos de comportamento com bola, porém, a equipa de Simeone não foi tão competente e apenas na segunda parte conseguiu ser mais consistente nesse particular. O Atlético tinha neste embate um desafio importante (que não está ainda concluído, note-se), porque surgia na sequência de uma fase menos bem sucedida em termos de resultados, e onde a confiança podia ser uma fragilidade adicional. Para já, e com alguma sorte, a equipa sobreviveu ao desafio, mantendo-se como 'dark horse' em duas corridas simultâneas. Será capaz Simeone de dar continuidade ao sonho/milagre, mantendo-se até ao fim na luta pelos dois mais difíceis troféus do futebol europeu? Em princípio, dir-se-ia que não mas, chegados aqui, o melhor é mesmo desconfiar...

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19.2.14

Champions, oitavos-de-final (I)

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Man City - Barcelona
A elevada expectativa em torno deste embate era, do meu ponto de vista, perfeitamente justificada. Em particular, havia a curiosidade de observar a forma como qualquer dos conjuntos reagiria perante a capacidade de circulação do adversário. Porque se nos respectivos campeonatos Man City e Barça estão habituados a fazer "gato-sapato" do pressing alheio, raramente qualquer delas se confrontou com o seu próprio veneno. Neste sentido, o jogo mostrou algumas coisas interessantes, acabando o equilíbrio por ser desfeito pelo lance do primeiro golo. Aqui ficam aqui algumas notas que, a meu ver tacticamente, lançaram os dados do jogo:

- Mais respeito por parte do Pellegrini: Não alterou a estrutura - de novo, mudar as características dos jogadores não implica forçosamente que se mude a estrutura - mas quis 1) claramente manter o controlo sobre a projecção ofensiva dos laterais, abdicando de um ala interior à esquerda, e 2) oferecer maior presença defensiva à linha média, com a inclusão de David Silva na primeira linha de pressão, mas com a missão de baixar para uma linha mais baixa, sempre que a posse do Barça assim o exigisse. Um comportamento que retirou à equipa a primeira referência vertical para o momento de transição, e daí talvez se explique a maior dificuldade de progressão após a recuperação da bola.

- Posse do Barça: Para além das opções no onze - e provavelmente mais importante - notou-se a preocupação do City em baixar as linhas perante a posse do Barça, privilegiando a protecção dos espaços essenciais em detrimento de maior urgência na procura de recuperar a bola. O resultado foi, na minha leitura, bom. Ou seja, é verdade que o Barça teve muito mais bola, mas o facto é que apenas com muito pouca frequência chegou a zonas verdadeiramente problemáticas para o City. Aqui, pode-se questionar a movimentação catalã no último terço, frequentemente com pouca presença para responder às entradas da bola na última linha contrária e, pontualmente também, com alguma redundância de movimentos. Nota, do lado do City, para o comportamento de Demichelis, muito facilmente atraído pelas movimentações contrárias - era uma oportunidade que se abria para o Barça mas, note-se, não foi por este motivo que se deu o lance decisivo.

- Posse do Man City: Muita qualidade na circulação, com menor volume, é certo, mas com mais verticalidade e capacidade de aproveitar espaços essenciais, nomeadamente a zona entrelinhas. Esta diferença resulta, não só da postura de ambas as equipas com bola, mas sobretudo da postura mais pressionante do Barça, relativamente ao City. Este dado fez com que o City fosse mais vezes provocado pelo pressing contrário, definindo-se mais rapidamente situações de definição das jogadas em que, ou o Barça recuperava, ou o City encontrava espaço para progredir. E foi quase sempre assim, enquanto o jogo esteve 11x11. Outro aspecto que me parecia ter algum potencial era o 'overlap' dos laterais do City, um movimento muito forte na equipa de Pellegrini e que o Barça poderia ter dificuldades em controlar, pela velocidade com que é feito e pelo posicionamento habitual dos médios e extremos blaugranas. No entanto, esse movimento nunca chegou a ser testado no jogo.

Perante estes dados, o jogo foi decorrendo com algum equilíbrio, acabando tudo por ficar determinado num lance de transição, e que podia ter acontecido para qualquer lado. É claro que a maior qualidade técnica do Barça ajuda, e que a decisão de Demichelis é, igualmente, questionável. Mas, não tenho dúvidas, também podia ter sido o City a ganhar vantagem numa situação semelhante. O City deverá sair, mais uma vez, de forma permatura desta competição, mas fica clara a sua evolução nesta temporada e, pelo menos para mim, a sua candidatura ao título interno fica reforçada com a saída da Champions.

Leverkusen - PSG
É certo que não ajuda sofrer um golo praticamente na primeira jogada do jogo, mas não creio que isso sirva para explicar tudo o que aconteceu. Confesso que me espanta a abordagem do Leverkusen, nomeadamente a forma como arriscou na sua postura pressionante, perante uma equipa tão forte tecnicamente como é o PSG. Subir linhas para pressionar a todo o campo pode parecer sempre uma boa ideia para dois adeptos, numa conversa de café, mas... para o treinador do Leverkusen, num jogo de Champions frente ao PSG, só muito dificilmente o poderia ser. Muito espaço entre sectores e muito desposicionamento, de um lado. Muita qualidade técnica e capacidade de circulação, do outro. O resultado foi o sentenciar da eliminatória em menos de 45 minutos.

Sobre o Leverkusen, dizer que há, de facto, uma grande diferença entre as 2 principais equipas do futebol alemão - Bayern e Dortmund - e as restantes. Não só no potencial técnico dos seus jogadores, mas também em termos de maturidade táctica na abordagem aos jogos. O Schalke, se repetir esta tipo de receita frente ao Real, poderá seguir o mesmo destino.
Sobre o PSG, reforçar que se trata mesmo de uma das mais fortes equipas do futebol europeu da actualidade. Estará um degrau abaixo de Barça, Real e Bayern, mas esta não é uma equipa do actual "pelotão" do futebol europeu. Convém perceber a diferença (e estou a lembrar-me de algumas coisas que por cá se disseram nos recentes confrontos com o Benfica).

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18.2.14

Varela, o extremo mais produtivo da "era Quaresma"

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Não foi a mais interessante das jornadas, no que aos jogos dos "3 grandes" diz respeito. Entre o insosso aperitivo para uma semana onde regressam as competições europeias - com alguns pratos fortes, já nesta fase - houve, no entanto, um jogador que se destacou em termos individuais: Silvestre Varela.

Na realidade, Varela tem conseguido aumentar a sua produtividade nos últimos jogos, num período onde o grande destaque foi o regresso de outro extremo, Ricardo Quaresma. Se olharmos ao rendimento dos extremos portistas desde o jogo na Luz - em que Quaresma se estreou - fica em evidência o bom desempenho das duas unidades que já estavam presentes no plantel, Varela e Licá. Varela, conseguiu 4 golos neste período, sendo que anteriormente tinha apontado apenas 1, juntando a este registo uma assinalável presença nos principais desequilíbrios da equipa, nomeadamente como finalizador. O caso de Licá é menos relevante, devido ao pouco tempo de utilização, mas também o ex-Estoril pareceu mais inspirado neste período, nomeadamente aproveitando bem as ocasiões em que entrou a partir do banco. Quanto a Quaresma, sobre quem estão depositadas maiores expectativas para a segunda metada de época, não se pode dizer que esteja a desiludir no que respeita à participação directa nos golos da equipa, tendo já apontado 2 e assistido mais 1. Ainda assim, o registo do camisola 7 está longe de ser diferenciador em relação às restantes soluções do plantel - particularmente Varela - sendo que esse é precisamente o objectivo deste seu regresso.

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14.2.14

Benfica - Sporting (III): principais desequilíbrios

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Termino a análise ao derbi com a revisão de algumas das principais jogadas. Aqui ficam algumas notas dos 5 lances seleccionados no vídeo:

1- O lance do primeiro golo até começa com um bom condicionamento defensivo do Sporting sobre a construção do Benfica (ou, pelo menos melhor do que aconteceu na maior parte do jogo), criando boas condições para controlar o lance, coisa que efectivamente acontece. Sucede que, para além do que se passou na fase de construção de ambos os lados, houve também uma grande diferença relativamente à resposta das equipas no momento de transição. Esse é o primeiro ponto a focar neste lance, com Adrien a ceder perante a pressão de Fejsa. Depois, nota para a infelicidade de Piris, que escorrega, e para alguma passividade de Heldon, contrastante com a intensidade de Maxi, muito mais agressivo e reactivo neste tipo de acções. No centro da área, o foco final está em Cedric. É verdade que poderia ter sido mais prudente na fase em que o lance ainda está algo indefinido, mas em defesa do jogador pode também argumentar-se que o rápido desdobramento dos laterais é uma das características mais marcantes do futebol do Sporting, e que isso implica sempre algum risco. Seja como for, é o facto de estar demasiado aberto que determina a impossibilidade de ganhar o espaço interior, sobre Gaitan, e não a ausência de reacção ou de noção sobre o espaço a ocupar. Aliás, e de novo em defesa do jogador, é de registar que com alguma frequência foi protagonista de intercepções interiores em lances semelhantes a este, mas que aconteceram sem a mesma velocidade.

2 - O desequilíbrio provocado pelo passe de Garay para Gaitan encontra explicação, sobretudo, no mérito dos dois protagonistas. Excelente o passe, não menos notável a recepção. Ainda assim, a jogada põe em evidência um dos problemas da dificuldade do condicionamento pressionante do Sporting, que permitiu quase sempre a liberdade de um jogador na frente da sua linha média, frequentemente com condições para expor as costas da linha defensiva. É verdade que, à excepção deste lance, há pouco a registar em termos de perigo proveniente desse problema, mas o risco esteve presente em várias ocasiões. Nota ainda para Piris que, perante a eminência do passe e ausência de pressão sobre o portador da bola (Garay), deveria ter cortado mais rapidamente a profundidade, abdicando de manter a coerência posicional com a última linha. Ou, pelo menos, esse é o comportamento que me parece mais lógico nesta situação, sendo que é uma situação obviamente discutível e cada equipa/treinador tem a liberdade de definir o que pretende, de acordo com as suas ideias.

3 - O terceiro lance, que culmina com o brilhante passe de Markovic a isolar Rodrigo, inicia-se numa decisão questionável de Adrien, próximo da área do Benfica e na sequência de um ataque rápido do Sporting. A solução evidente seria o passe para Montero, o que potenciaria muito o perigo da jogada, parecendo possível que o médio do Sporting o tivesse tentado fazer, apesar do bom condicionamento de Gaitan, que faz a pressão no sentido correcto, precisamente condicionando o passe interior (nota, de novo, para o sentido táctico e capacidade de trabalho de Gaitan, o tal aspecto que durante muito tempo não foi devidamente reconhecido ao jogador). Num segundo momento, e mais uma vez, alguma dúvida quanto à agressividade dos jogadores do Sporting na reacção à perda, nomeadamente Montero - se há situação em que faz sentido arriscar a falta é esta. Mais à frente, o crédito do desequilíbrio volta a ser justificado, quase que por inteiro, pelos intervenientes do Benfica, agora Markovic e Rodrigo. Rodrigo, porque depois de abrir a linha de passe volta a procurar o corredor central, o que em princípio oferece maior potencial à jogada, sendo depois muito rápido a perceber e atacar o espaço nas costas da linha defensiva. Markovic, pela qualidade evidente do passe. Do ponto de vista do Sporting, não era trivial fazer melhor, mas pode questionar-se tanto a reacção de Piris, que perde o posicionamento interior, como a pressão de Dier, que apesar de se aproximar de Markovic, acaba por não evitar o que pretendia, precisamente o passe de rotura.

4 - Na minha opinião, o principal sublinhado do lance, que termina com a finalização de Rodrigo após o drible interior sobre Piris, vai para a forma como o Benfica se desdobra rapidamente, tanto defensivamente, como ofensivamente. Primeiro, tem uma boa presença na sua área, após um ataque rápido do Sporting. Depois, faz a bola transitar a toda profundidade do campo, acabando por ter, igualmente, boa presença numérica na área do Sporting. Pelo meio, claro, um aspecto decisivo no jogo e que fugiu, durante 90 minutos, ao controlo dos médios do Sporting: o transporte de bola de Enzo Perez. Quanto ao desequilíbrio final da jogada, novamente mérito para Rodrigo, que aproveita a ausência de cobertura no espaço inteiror. Do ponto de vista do Sporting, exigia-se maior proximidade de um médio naquela zona, mas a velocidade do lance atrasa a recuperação de Adrien, e a densidade de jogadores do Benfica na área, atrai Dier para uma zona mais central.

5 - A primeira nota sobre o lance final - que contempla duas situações sucessivas e termina com o segundo golo - vai para a organização defensiva do Sporting nesta fase do jogo. Foi uma situação que durou pouco tempo, entre a entrada de Magrão e o segundo golo do Benfica, tendo havido uma rectificação após esse momento, numa conversa entre Jardim e Dier focada pela transmissão televisiva (e que teve até, aparentemente, alguma discórdia entre os dois). O facto é que neste período, o Sporting pareceu jogar com 3 centrais, baixando Dier e colocando Magrão sobre o corredor esquerdo. Fica a dúvida, até pela tal conversa entre o treinador e central, sobre qual a intenção para esta fase do jogo, mas talvez a ideia fosse jogar com 3 defesas, projectando ofensivamente os laterais. Seja como for, claramente a equipa não estava devidamente preparada para o fazer, tal como revela o primeiro desequilíbrio na jogada. Havendo maior presença na última linha, parece existir também maior liberdade para os centrais saírem da sua zona, resultando no paradoxo de ser precisamente quando tem mais unidade nesse sector que o Sporting mais se expõe na zona central da sua última linha. A explicação está no facto de Dier e Rojo se permitirem abandonar, em simultâneo a sua posição.
Posteriormente, a nota principal vai, de novo, para aquilo que acontece no momento de transição defesa-ataque do Sporting, com a bola a ser perdida para a reacção à perda do Benfica. A meu ver, mais censurável a decisão de Magrão, que fecha o jogo na linha, uma zona onde o Benfica estava perfeitamente preparado para reagir. Na sequência, o passe interior de Rojo também parece uma decisão questionável, culminando numa perda de bola que determina o desequilíbrio que a seguir se gera, nomeadamente pela desorganização da defensiva do Sporting, criando uma situação de 1x1 que Dier teria muitas dificuldades em controlar (em parte devido ao contraste entre as suas características e as de Enzo Perez). Note-se que os dois golos surgem em situações em que a defesa do Sporting está momentaneamente desorganizada, após a equipa ter perdido a bola na transição defesa-ataque.

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13.2.14

Benfica - Sporting (II): Estatística e análise individual

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Benfica
Oblak - Sem erros nem reparos, mas também praticamente sem trabalho relevante, o que faz desta uma exibição positiva, mas igualmente sem grande relevância. Para já, porém, e mesmo com o erro cometido em Barcelos, a prestação de Oblak tem sido muito mais positiva do que a de Artur, sofrendo 1 golo em 4 ocasiões enquadradas com a baliza (25%), em cerca de 650 minutos, o que contrasta com os 22 golos em 29 ocasiões enquadradas com a baliza (76%), de Artur. Note-se, porém, que o péssimo registo de Artur não faz de Oblak um óptimo guarda-redes, e que só com mais tempo se poderá fazer uma análise verdadeiramente justa ao rendimento do jovem esloveno. Agora, parece-me factual que o Benfica tem contado com um contributo muito mais útil do seu guarda-redes, desde que a sua baliza trocou de dono.

Maxi - Sem dúvida, um dos principais destaques da partida, pela positiva. É verdade que Heldon lhe causou alguns problemas na segunda parte mas, no cômputo geral, foi Maxi quem dominou claramente os duelos no seu corredor. Em especial destaque, a sua agressividade e presença pressionante após a perda da bola, o que valeu várias recuperações valiosas, e, claro, o contributo ofensivo, estando presente na assistência para o primeiro golo e na jogada que antecede o segundo.

Siqueira - Beneficiou claramente da presença de um extremo menos agressivo no seu corredor, acabando por ser das unidades mais discretas da equipa, também porque não participou em qualquer lance de maior relevo, em termos ofensivos. Ainda assim, isso não quer dizer que tenha tido uma má prestação, muito pelo contrário. Apesar da discrição, travou e venceu vários duelos, sendo igualmente uma presença positiva na fase de construção.

Luisão - Muito em foco, numa série de intercepções vistosas e importantes em cruzamentos a partir do corredor esquerdo do Sporting. Este é o principal destaque de um jogo que foi, globalmente, positivo e praticamente sem reparos a fazer.

Garay - Em termos defensivos foi mais discreto do que Luisão, mas isso não quer dizer que tenha estado menos bem. Pelo contrário, Garay venceu até mais duelos do que o seu companheiro de sector, protagonizando mais uma exibição muito positiva neste plano. Com bola, aí sim, houve uma grande diferença de protagonismo em relação a Luisão, com a equipa a procurar muito mais a boa capacidade de passe do argentino. Garay respondeu à altura, com eficácia, segurança e ainda um grande passe que isolou Gaitan, na primeira parte.

Fejsa - A competência da sua exibição não pode constituir surpresa ou novidade, porque já havia dado o mesmo tipo de sinais em alguns jogos importantes. Tem uma grande capacidade de trabalho, o que ofereceu à equipa várias recuperações de bola importantes, com destaque para o momento de transição ataque-defesa, onde conseguiu 10 intercepções/desarmes. Com bola, assumiu o seu papel na primeira linha de construção, o que lhe oferece grande protagonismo e lhe valeu o estatuto de jogador com mais passes completados no jogo, com realce para a elevada % de acerto. O maior reparo, vai para uma perda de bola, na primeira parte, sendo que a segurança em posse será sempre a maior ameaça à qualidade do seu contributo.

Enzo Perez - A unidade chave do jogo, pelo golo que marcou, claro, mas também pelos problemas que causou à linha média do Sporting, que nunca lidou bem com a sua presença - ainda que isolada - à frente da primeira linha de construção. É, provavelmente, dos jogadores mais difíceis de substituir no modelo de Jesus, porque jogando tão isolado (pelo "baixar" de Fejsa), é necessário não só qualidade de passe, mas sobretudo uma notável capacidade de envolvência e transporte de bola. Ora, estas são, precisamente, as principais virtudes de Enzo, para além da entrega que tanto galvaniza os adeptos.

Gaitan - Novamente com um jogo muito competente e onde, até, nem foi especialmente bem sucedido em termos criativos. Para compensar, apareceu muito bem na área, marcando um golo e estando perto de fazer outro. Defensivamente, ofereceu a capacidade de trabalho/sentido táctico que lhe é habitual - um aspecto onde foi durante muito tempo subvalorizado, mas que vem conseguindo maior justiça no reconhecimento que lhe é dado externamente. Diria, mais vale tarde do que nunca!

Markovic - É verdade que defensivamente tem evoluído bastante, mas haverá ainda muito para evoluir em Markovic, para que este consiga potenciar verdadeiramente as suas características. Particularmente, continua a não perceber bem o que fazer com as suas acelerações interiores, perdendo algumas oportunidades de criar maior dano apenas e só pelo critério decisional. Tem tempo e talento, mas para já ainda não a unidade chave que um dia poderá ser. Em maior destaque na sua exibição, claro, o passe que isolou Rodrigo.

 Rodrigo - Fez, desta vez, um jogo mais oscilante do que lhe vem sendo habitual, no seu envolvimento colectivo, em particular com maior inconstância ao nível da eficácia e decisão. Ainda assim, foi outra vez o jogador que mais ocasiões de golo conseguiu chamar a si. No inicio da época também foi assim, com muitas ocasiões e poucos golos, e por isso foi criticado e afastado do onze. Hoje, e à luz daquilo que foi a época do jogador, terei menos dificuldade em explicar que o facto de Rodrigo ter muitas ocasiões de golo é, em si mesmo, um bom indicador para o futuro.

Lima - Em sentido contrário de Rodrigo, Lima vem dando alguns sinais a meu ver preocupantes. Num jogo com este volume de ocasiões, não pode deixar de se notar que Lima não tenha sido protagonista em nenhum desse lances de maior potencial ofensivo. E, isto sim, parece-me justificar alguma apreensão. Como nota positiva, o seu envolvimento do lado direito do ataque, em especial na primeira parte.

Sporting
Rui Patrício - Não foi um herói, nem fez sequer uma exibição excepcional, mas foi provavelmente o melhor da sua equipa, nomeadamente com 2 intervenções decisivas. Como nota negativa, a precipitação da primeira parte, com um pontapé que bateu em Lima e que podia ter custado mais caro.

Cedric - Começou o jogo com um erro, mas esse foi o seu pior momento no jogo. Chamará a si algumas criticas no lance do primeiro golo, mas foi a velocidade do lance que o impossibilitou de se reposicionar a tempo. Aliás, Cedric conseguiu até algumas intercepções interiores de grande valor. Foi, de resto, dos jogadores mais accionados da equipa, quer defensivamente, quer ofensivamente, estando melhor a defender do que a atacar. Neste último ponto, nota para o número elevado de passes errados ao longo do seu corredor, sendo que sentiu, claramente, a ausência das habituais diagonais de André Martins.

Piris - Muitas dificuldades no jogo. Defensivamente, cometeu alguns erros importantes e teve também algum azar (como foi o caso do lance do primeiro golo). Ofensivamente, não conseguiu dar profundidade ao corredor, nem tão pouco ligar o jogo pelo seu flanco. Problemas que eram previsíveis no inicio do jogo. Depois de alguns jogos bem conseguidos, repete uma exibição com muitas dificuldades, tal como acontecera em Arouca.

Maurício - Não há muito a apontar-lhe, tendo sido novamente das unidades mais regulares da equipa. Aliás, em termos defensivos foi até bastante dominador nos duelos que travou - foi o jogador com mais acções defensivas no jogo. Em posse, foi igualmente a unidade de maior acerto percentual, contrastando com os restantes elementos da fase de construção. Principal reparo para uma perda de risco - rara nele - na segunda parte.

Rojo - Vinha conseguindo jogos muito bons, mas desta vez não repetiu a nota positiva. Em particular, sentiu muitas dificuldades sempre que teve de sair da sua zona. Com bola, também não esteve muito regular, acabando por perder a bola no lance do segundo golo.

Dier - As virtudes e os defeitos da sua exibição decorrem daquilo que vem mostrando desde o inicio da época - com excepção para alguns aspectos posicionais, compreensíveis pela inadaptação à posição. Ou seja, boa presença em situações de maior contacto físico, com destaque para o jogo aéreo. Por outro lado, dificuldades perante acções a exigir mais agilidade (como o caso do segundo golo) e critério questionável com bola. Este último ponto é, a meu ver, o mais grave em Dier, porque o problema repete-se praticamente em todos jogos em que actua, perdendo bolas em zonas de elevado risco e com uma frequência superior a qualquer outro jogador da equipa.

Adrien - Voltou a oferecer muito pouco em termos de presença em posse à equipa, desta vez num jogo em que claramente era preciso alguém que o fizesse. É verdade que a equipa pede-lhe que não se envolva tanto na fase de construção, em particular para que esteja mais disponível para um segundo momento ofensivo. Mas também é um facto que, para uma equipa como o Sporting, o contributo de Adrien é pouco mais do que medíocre em termos de envolvimento em posse - e não apenas por este jogo. Em destaque, as dificuldades no momento de transição defesa-ataque, onde perdeu 8 das 10 bolas que teve ao seu dispor, uma das quais acabaria por resultar no primeiro golo. Em termos defensivos, o outro lado da sua temporada, não há nada a apontar-lhe.

André Martins - A meu ver não tem características para jogar na ala, embora o possa fazer pontualmente, claro. Lutou e conseguiu até várias acções bem sucedidas, mas isso acabou por valer muito pouco à equipa, em particular porque se perdeu profundidade no seu corredor, e porque poderá também ter feito alguma falta em termos de acção pressionante na primeira linha.

Heldon - Objectivamente, as suas acções conseguiram muito pouca eficácia, completando apenas um dos vários cruzamentos que tirou e finalizando ele próprio uma outra jogada. Ainda assim, foi o jogador que mais agitação conseguiu provocar, sempre através de iniciativas individuais, o que vem trazer alguma água na boca aos adeptos. É bem possível, como já escrevi, que seja um bom reforço a este nível. Em termos defensivos, foi muito pouco intenso perante Maxi e provavelmente Jardim terá de trabalhar com ele a este nível.

Montero - O maior destaque positivo da sua exibição, são os 4 cortes em situações de bola parada defensiva, e isso diz praticamente tudo relativamente ao que não conseguiu fazer nos restantes capítulos do jogo. Pessoalmente, parece-me que tem pouca intensidade para jogar noutra posição que não seja como principal avançado.

Slimani - Completamente gorada a aposta que nele foi feita. Porque a equipa não chegou à zona de finalização, e porque ele próprio não conseguiu ser tão eficaz como se esperava nas primeiras bolas aéreas.

Capel - Se faltou um extremo de raiz ao Sporting, durante muito tempo no corredor direito, Capel teve oportunidade de provar, durante 30 minutos, que talvez esse não tenha sido um aspecto assim tão decisivo. Isto, apesar da entrega que sempre leva com ele.

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12.2.14

Benfica - Sporting (I): notas colectivas

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Conto, nos próximos dias, apresentar novas análises ao jogo, nomeadamente com os dados estatísticos, opiniões sobre exibições individuais e uma revisão de alguns aspectos tácticos do jogo (vídeo). Não me sendo possível apresentar já essas análises mais detalhadas, deixo umas primeiras notas de opinião sobre as duas equipas.

Benfica - Foi mais um bom jogo do Benfica, provavelmente dos mais bem conseguidos desta temporada, e com um resultado que, sendo bom, peca por escasso. Muito do que se passou no derby, e da enorme diferença de rendimento entre as equipas, será abordado a partir do demérito do Sporting, porque é normalmente assim que acontece e porque neste caso foi Jardim quem mais mexeu. Na minha leitura, porém, a incapacidade do Sporting deve-se, em primeira instância, à qualidade do Benfica. Distingo, aqui, alguns pontos a este respeito: 1) a fase de construção, decisiva na definição do enorme domínio que o Benfica teve, com evidência para o papel dos centrais e para a capacidade de transporte e envolvimento de Enzo Perez. 2) a intensidade e agressividade nos duelos, muito em especial na reacção à perda, várias vezes o ponto de partida para acções de ataque-rápido de grande potencial. 3) a mobilidade ofensiva, porque mesmo garantido o domínio pelos dois pontos anteriores, só é possível aproximar-se com tanta frequência do golo se essa qualidade existir. Invariavelmente, o foco das discussões vai para as opções tácticas, mas é quase sempre na eficácia da interpretação das ideias que se define a validade das mesmas. Por isso é que é mais fácil ter melhores ideias com melhores jogadores, e por isso também é que as opções tácticas de Jesus prevaleceram neste derbi.
Havia escrito aqui, após o final do ciclo-Champions, que previsivelmente o Benfica melhoraria neste período. Não era um dado adquirido, claro, mas antes uma probabilidade que deriva do que se viu nas épocas anteriores do Benfica de Jesus. O Benfica melhorou e chegou à liderança, sempre com o 4-4-2, por quase todos diabolizado. A meu ver - e como fui escrevendo - foi a melhor opção, e se muitas vezes vejo treinadores a ceder a análises pouco consistentes que se generalizam externamente, este é um episódio que reforça o meu apreço por Jesus. Enfim, o Benfica partirá, em breve, para um novo ciclo da temporada, numa posição muito favorável - novamente! - para ser campeão. O problema não é tanto a sobrecarga de jogos, até porque não tenho dúvidas de que a Liga Europa será relegada para segundo-plano. O problema são os 3 jogos com o Porto, onde a tentação de queimar energias é maior e onde se poderá perder o foco relativamente à competição principal. Foi sempre quando as prioridades entre competições ficaram menos definidas que o Benfica de Jesus perdeu pontos decisivos na corrida ao título. Veremos o que sucede desta vez...

Sporting - A leitura que fiz sobre a estratégia de Jardim confirmou-se em pleno, com Martins à direita e Montero ao meio, e isso poupa-me algum texto para explicar o porquê de ser expectável que fosse assim que o treinador iria dispor as suas peças, e o que poderia ganhar e perder com essa opção. A má notícia para o Sporting é que, na prática, pouco ganhou, acabando praticamente por só perder com a estratégia escolhida. Porque, mesmo com Slimani como referência, teve pouca eficácia na construção longa. Porque raramente conseguiu potenciar o 2x2 com os centrais do Benfica (através da colocação de uma unidade mais central, Montero, e próxima do avançado). Porque o seu jogo exterior ficou completamente descaracterizado, sendo que tal como havia escrito na antevisão, sentiu-se muito impacto que tiveram na fase de construção, a perda de um o pé canhoto para a habitual ligação do jogo ao longo do corredor esquerdo (uma solução que, recorde-se, causou muitos problemas ao Benfica no jogo da primeira volta), e também a perda da mobilidade de André Martins sobre o corredor direito, nomeadamente nos movimentos em profundidade, nas costas do extremo. Por fim, e como se não bastasse, também porque não teve William, com Dier a confirmar outro ponto abordado na antevisão: o péssimo critério que vem mantendo com a bola nos pés.
Num outro capítulo, que eu não abordei na antevisão mas que teve forte impacto no jogo e que foi referido pelo próprio Jardim após a partida, o Sporting poderá também ter perdido qualidade na presença pressionante da sua primeira linha, nomeadamente por ter retirado André Martins dessa zona. Não é certo que tenha sido decisivo, porque o Benfica esteve realmente muito bem em construção, mas parece-me - e aqui sim, à posteriori - que poderá ter feito falta um elemento de maior intensidade/agressividade nessa zona, como é André Martins. 

Jardim deu-se mal, é certo, e muitas das suas opções são questionáveis porque muitos dos problemas da sua estratégia eram previsíveis. No entanto, devo fazer duas ressalvas em favor do treinador do Sporting - ou, melhor, em desfavor de muitos dos seus críticos!: 1) o onze era conhecido desde domingo, mas poucos foram aqueles que anteciparam os problemas desta aposta. Aliás, foram bem mais os elogios ao arrojo do treinador, por este incluir 2 avançados de inicio neste jogo. 2) Como esclareceu o próprio treinador, não houve mudança de sistema com estas alterações. Falar de uma mudança de 4-4-2 para 4-3-3 só é possível para quem não conheça a forma de jogar do Sporting. Jardim mudou características individuais, e forçosamente algumas intenções colectivas, mas não mudou o sistema!

Esta é uma derrota, por todos os motivos, muito penalizadora para o estado de ânimo do Sporting. Num dérbi, numa exibição que deixa a ideia de impotência e numa situação em que a possibilidade da liderança se transforma, de repente, num terceiro lugar. Mas, não faço qualquer "lapalissada" com o calendário quando digo que a época do Sporting não acaba aqui. Faltam jogos e pontos suficientes para que o título, estando obviamente muito mais complicado, esteja longe de ser uma mera hipótese matemática. É claro que me parece que o Sporting tem entrado em alguns equívocos, que não vêm apenas deste jogo, mas de toda uma ideia em torno dos planos A e B, que foi marcando os últimos jogos. Na minha opinião, o Sporting deverá partir sempre da sua identidade e dos seus pontos fortes, que foram afinal o alicerce do sucesso vivido durante grande parte da época. O sucesso do plano B, aplicado sempre em períodos curtos e específicos dos jogos, trouxe pontos importantes, é certo, mas trouxe também aquilo que na minha leitura é a ilusão de um caminho que, sendo possível, será sempre mais longo e de menor probabilidade de sucesso. O Sporting tem deixado de apostar numa evolução a partir dos pontos fortes, em favor de uma ideia de jogo que se encontra num ponto necessariamente bem menos avançado, tendo por isso muito menos qualidade. Essa parece ser a tentação de Jardim, com a aprovação de grande parte dos adeptos e comunicação social, mas pessoalmente tenho muitas dúvidas de que seja por aí o melhor caminho...

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10.2.14

O "onze" de Leonardo Jardim

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O adiamento do derby terá poucos pontos positivos, mas oferece-nos pelo menos a possibilidade de comentar as opções iniciais dos treinadores antes do apito inicial, o que é sempre um exercício mais interessante do que fazê-lo depois do jogo. Aqui, obviamente, há uma enorme diferença entre as duas equipas, contrastando a previsibilidade das opções de Jesus com a pequena revolução que Leonardo Jardim encetou no seu onze. A primeira ideia passa por uma aposta num jogo mais directo, por parte do treinador madeirense, com Slimani como referência aérea. Mas há, na minha opinião, outras questões a levantar em torno das implicações de algumas opções, nomeadamente no que respeita ao jogo exterior. Aqui ficam algumas notas sobre as opções de Jardim, salvaguardando que este cenário poderá, agora, ser alterado antes do inicio do jogo.

Onde vão jogar Montero e Martins? - A primeira ideia sugere que a única alteração no meio-campo de Jardim é a substituição directa de William por Dier. Mas será mesmo assim? Na minha leitura, não. Olhando para o passado, sempre que Jardim utilizou, em simultâneo, Slimani, Montero e Martins, foi sempre o médio português a derivar para uma posição mais lateral. No mesmo sentido, não é a primeira vez que Jardim recorre a um ala de características mais interiores (aliás, foi essa a sua primeira opção na pré-época, com Magrão ou o próprio Martins), nem tão pouco a primeira vez que encosta André Martins a uma das linhas. Mas seria, isso sim, a primeira vez que utilizaria Montero numa posição mais exterior...

Construção mais directa, com Slimani 
Este tipo de jogos apresentam problemas obviamente diferentes para o Sporting, em relação à generalidade dos outros opositores internos. Em particular, ao nível da fase de construção, sendo muito mais difícil (e arriscado) ter bola. A opção passa, recorrentemente, por construir de forma mais directa, usando uma referência frontal que faça o jogo "saltar" o risco da primeira fase de construção. No jogo para a Taça, foi o Benfica quem melhor proveito tirou desta alternativa, com Cardozo a ter um desempenho muito forte nesse plano, em contraste com as maiores dificuldades de Montero. Desta vez, os papeis podem-se inverter, com Jardim a apostar em Slimani e, a meu ver, a pensar muito naquilo que o argelino pode oferecer em termos de soluções para uma construção mais longa.

Desvirtuar das dinâmicas dos corredores laterais?
A grande interrogação, na minha leitura, sobre aquilo que implicam as opções de Jardim tem a ver com a capacidade do jogo exterior, habitualmente o ponto mais forte do futebol leonino. Ora vejamos, assumindo que Martins joga sobre a direita e Montero ao meio, o Sporting colocará mais foco no corredor central, com Martins a oferecer mais capacidade no jogo interior do que a generalidade dos extremos da equipa, e com Montero a permitir uma presença mais constante no espaço entrelinhas e, sobretudo, a potenciar mais duelos directos, 2x2, com os centrais (provavelmente jogando muito a partir da segunda-bola). Esta parece-me ser a intenção de Jardim, mas há um outro lado para esta opção. Desde logo, o Sporting perderá um dos movimentos mais eficazes da sua fase de construção, que contempla o baixar do extremo-direito e a entrada de Martins, em diagonal, no espaço aberto nas suas costas. Para além disso, perderá profundidade com Martins como extremo, e perderá também o apoio que o próprio Martins oferece habitualmente ao extremo quando joga como médio, sendo expectável que Montero se fixe mais sobre o corredor central.
Do outro lado, à esquerda, também há muitas limitações em relação à dinâmica habitual. Mesmo que Piris protagonize bem os movimentos de profundidade - habitualmente muito fortes, com Jefferson - dificilmente conseguirá os mesmos timings de execução, uma vez que o seu pé preferencial é o direito. Aliás, com Piris e Heldon, o Sporting não tem nenhum canhoto no seu corredor esquerdo. Finalmente, e tal como acontece à direita, a utilização da dupla Slimani-Montero, sugere menor presença em apoio sobre os corredores laterais, sendo possivelmente Adrien o maior suporte a vir do corredor central, não se esperando porém que possa surgir daí grande alternativa em termos de profundidade, ja que Adrien tem uma missão de bastantes exigências em termos posicionais.

Dier - Não surpreende a opção por Dier - embora talvez surpreenda que Vitor tivesse sido relegado para a bancada. Jardim manterá uma boa presença no jogo aéreo, o que será provavelmente importante neste jogo, já que o Benfica facilmente recorrerá a uma construção mais longa. Em termos defensivos, também creio que a equipa passar sem se ressentir muito, sendo um jogador fisicamente com virtudes e defeitos semelhantes às de William. O risco, neste capítulo, estará mais no posicionamento, tendo em conta a pouca habituação do jogador à posição. A grande diferença surgirá, claro, quando a equipa tiver a bola. A vantagem para Dier reside no facto de, previsivelmente, Jardim não lhe exigir muito neste plano, com a entrada de Slimani a sugerir uma aposta mais declarada na construção longa. Ainda assim, é importante que o inglês conserve grande lucidez no seu critério com bola, um capítulo em que revelou alguma irregularidade quando foi utilizado como central e que num jogo desta natureza poderá ser um factor decisivo, sabendo-se do condicionamento que o Benfica habitualmente faz no seu pressing mais alto e, claro, na capacidade que os seus jogadores terão para "punir" eventuais perdas em zonas de risco. Em suma, diria que é perfeitamente possível que o Sporting não se ressinta da ausência de William, mas que para tal aconteça é preciso que exista uma resposta colectiva, e não apenas individual, à ausência do médio.

Heldon - Estive para escrever sobre ele na semana que passou, mas acabei por não o fazer. Não é um jogador que tenha alguma vez observado com grande detalhe, e por isso tenho ainda algumas dúvidas sobre alguns aspectos. Ainda assim, sei o suficiente para afirmar que o Sporting contratou aquele que é, fora dos "grandes", a individualidade de maior destaque em termos ofensivos da primeira metade da época. Não apenas pelos golos que marcou - onde se incluem penáltis - mas também pela capacidade de, em jogo corrido, desequilibrar e aproximar a sua equipa do golo. É verdade que foi apenas meia época e que nos outros anos não conseguira o mesmo protagonismo, mas é incontornável que o seu rendimento foi extraordinário. Em particular, destaca-se o seu sentido de baliza, tanto na capacidade de aparecer em zonas de finalização como na qualidade de execução (é provável, inclusivamente, que seja protagonista nas bolas paradas). A minha maior dúvida reside na sua capacidade de envolvimento em fases mais precoces do jogo, nomeadamente ao nível da decisão/percepção em zonas mais distantes da área adversária.

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