27.1.14

A polémica na Taça da Liga

ver comentários...
A diferença decisiva foi de... 1 dia!- A questão da necessidade dos dois jogos finais se realizarem em simultâneo é, obviamente, relevante. O futebol - ou, de resto, qualquer outro desporto - é fortemente marcado pelo factor humano, e qualquer equipa joga em função do resultado que precisa de obter, sendo este um comportamento inclusivamente muito difícil de mudar nos jogadores, de tão instintivo que é (isto vê-se, por exemplo, na mudança de comportamento das equipas após os golos, que quase sempre acontece independentemente das instruções que lhes sejam dadas desde a parte de fora). E esta constatação serve tanto para criticar o pouco profissionalismo na organização destes 2 jogos, como para constatar que os 3-4 minutos de diferença entre os jogos de Penafiel e do Dragão não foram, na prática, um ponto especialmente relevante para o desfecho final. É que aquilo por que se bateu o Porto nos minutos finais do seu jogo foi apenas pela vitória, coisa que aconteceria em qualquer outro jogo de qualquer outra prova, não tendo havido da parte dos jogadores, sequer, a percepção da situação classificativa relativamente ao número de golos que seriam precisos marcar.
Ainda assim, e apesar da desvalorização que faço nesta minha leitura dos 3-4 minutos de diferença entre os dois jogos (que, repito, nunca deveriam ter sido permitidos), parece-me que o Porto foi, de facto, beneficiado pelo tempo em que os seus jogos foram realizados, sendo que esse benefício resulta de bem mais do que alguns minutos. Isto é, na segunda jornada os portistas jogaram quase 24 horas depois do Sporting, conhecendo já o resultado do seu adversário. Na recepção ao Penafiel, foi visível a preocupação em forçar a goleada nos minutos finais, num comportamento - esse sim! - específíco da situação classificativa e que tinha em mente o facto do Sporting ter marcado 3 golos no dia anterior, tendo havido inclusivamente tempo para consciencializar todos os jogadores sobre a necessidade da situação. E, este sim, parece-me ter sido um factor decisivo para o desfecho final das contas do grupo, e que, claramente, favoreceu as aspirações portistas.

Falta de profissionalismo habitual - Se se pode criticar a liga pela forma como negligenciou a importância dos jogos serem iniciados em simultâneo, a meu ver deve-se também criticar a forma como os clubes - particularmente, o Sporting - não souberam acompanhar com rigor a sua situação relativamente ao apuramento. Não é algo que deva ser garantido pelo treinador - que terá outras preocupações ao longo do jogo - mas este deveria ser rigorosamente informado por alguém sobre a situação que tem pela frente. Algo que no caso do Sporting claramente não aconteceu - inclusivamente, a dúvida subsistiu nos responsáveis do clube já após o final dos dois jogos. Aliás, é curioso como o 3-1 não representava para o Sporting qualquer vantagem relativamente ao 2-1, já que com ambos os resultados a equipa só se qualificaria em caso do Porto não vencer o seu jogo. Com 2-1 ou 3-1, o Sporting seria eliminado em caso de reviravolta no Dragão. Ou seja, com 3-1 o Sporting viu-se colocado numa situação em que não tinha, verdadeiramente, nada a perder em arriscar. Porque ganhava, aí sim, mais margem se conseguisse mais 1 golo, e porque ficava exactamente com as mesmas hipóteses de qualificação caso sofresse o 3-2. Mas a reacção que vimos na gestão do jogo por parte da equipa, após o 3-1, não foi de acordo com esta realidade, o que é revelador de alguma falta de noção sobre a realidade da situação da equipa naquela altura do jogo.
Já agora, se estranhamos que este tipo de lapsos aconteçam a este nível, é também bom ressalvar que se trata de uma situação tudo menos incomum. Muitos se lembrarão de Peseiro incluir-se na luta pelo título quando isso já não lhe era matematicamente possível, em 2005, mas vários outros casos vêm acontecendo pelo mundo fora. Recentemente, por exemplo, Pellegrini confessou desconhecer que lhe bastaria mais 1 golo para liderar o seu grupo da Champions, desconsiderando assim essa oportunidade nos últimos minutos do derradeiro jogo da fase de grupos.

ler tudo >>

24.1.14

5 Jogadas (Sporting, Benfica, Man Utd, Roma)

ver comentários...

Arouca - Sporting - O lance do golo do Arouca tem como ponto mais evidente a forma como o Sporting perde a bola após um arremesso lateral. De facto, é incontornável que está aí a génese do desequilíbrio. O principal protagonista nesse instante, em que se dá a perda de bola, é Maurício, mas na minha interpretação haverá pouca margem para criticar o defesa-central do Sporting. Tratando-se de um lançamento lateral naquela zona do campo, o mais aconselhável é colocar a bola junto à linha, tentando apelar ao jogo aéreo de uma referência ofensiva (no caso, Wilson Eduardo). A explicação para esta opção está no desfecho deste mesmo lance, e tem a ver com o risco de exposição em que a equipa incorre em caso de perda nesta zona do campo. Actualmente, várias equipas recorrem a um lançamento mais curto, com um jogador a aproximar-se para repentinamente, e sem deixar a bola bater no solo, colocá-la nas costas da linha defensiva contrária. À margem de uma alternativa deste tipo, qualquer outra solução só se justifica quando houver total garantia de segurança no seguimento da jogada, coisa que não acontece neste caso, sendo a ameaça da presença pressionante do Arouca agravada pelo estado do relvado. Sendo assim, e focando-me ainda na origem do lance, é sobre a opção de Piris que penso que se justifica centrar a critica.
Mais à frente, e porque o lance deu, apesar de tudo, tempo para reagir defensivamente à perda, parece-me igualmente importante sublinhar a antecipação de Bruno Amaro relativamente a Adrien, criando o desequilíbrio final na zona de finalização. Um problema que tem a ver com a percepção posicional dos médios relativamente ao espaço nas suas costas, e que se vem repetindo nas análises que venho aqui deixando desde o início da época.

Benfica - Marítimo - O lance do primeiro golo do Benfica resulta de alguns ressaltos, é verdade, mas creio que justifica um sublinhado sobre 1) o mau posicionamento defensivo do Marítimo e 2) a importância da movimentação de Rodrigo, entrelinhas. Ambos os pontos já foram aqui realçados por mais do que uma vez. No caso do Marítimo, e como escrevi há dias, importa não confundir "futebol positivo" com "defender mal". A dificuldade com que a equipa madeirense ajusta o seu posicionamento ao longo da jogada determina a criação de espaços entre os jogadores e, consequentemente, a perda de condições para retirar partido da maior presença numérica com que inicialmente aborda cada lance, nomeadamente expondo-se em zonas fundamentais e facilitando a criação de situações de 1x1 com vantagem para o portador da bola. No caso de Rodrigo, primeiro solicita o passe na zona entrelinhas e, posteriormente, é de novo ele quem aproveita o espaço criado pela presença mais baixa de Gaitan, arrastando consigo um dos centrais adversários. A movimentação neste espaço é, já de si, muito útil, mas quando o Benfica consegue combinar isso com uma boa relação com o golo, seja na forma de golos marcados ou assistências, então tem no seu segundo-avançado uma das funções de maior valor para o sucesso colectivo. E é bom que não se perca isto de vista quando se sugerem alternativas tácticas que não incluem um jogador com esta função.

Chelsea - Man Utd - Quem olha para o resultado, ou mesmo para a evolução do mesmo, ficará com a ideia de que se tratou de um jogo completamente dominado pelo Chelsea. Não foi, de todo, o caso. O United conseguiu criar muitos problemas, tendo inclusivamente estado mais perto do golo nos minutos iniciais. A diferença, como tantas vezes acontece com Mourinho, esteve nos pormenores de organização. É que o Chelsea não denotou - nem denota, porque o que se passou não foi ocasional - os meus problemas de organização defensiva do seu adversário. Em particular, no caso do Man Utd, penso que se deve sublinhar a frequência com que a sua linha média é atraída para zonas e situações pouco desejáveis para o equilíbrio colectivo. A meu ver, isto tem a ver com algum excesso de valorização das referências individuais.
No caso dos dois lances que recupero, é visível a forma como os elementos da linha média não fazem o trabalho defensivo ideal, nomeadamente ao nível das coberturas. No caso do primeiro golo, parece-me que o principal visado deve ser Ashley Young, pela forma como não se integrou defensivamente num lance que acontecia no seu corredor. Embora, claro, também haja outros pontos de possível revisão, nomeadamente na resposta que é dada ao movimento vertical de Hazard.
Sem as mesmas consequências mas talvez mais interessante, é o segundo lance do vídeo sobre este jogo. Isto porque é visível a forma como os médios do Man Utd são atraídos pela circulação lateral da bola, acabando por ficar o lateral-direito demasiado exposto no duelo individual com Hazard, precisamente um dos jogadores mais fortes do Chelsea para este tipo de situação.

Roma - Juventus - Referência para o interessante duelo entre duas das melhores equipas do futebol italiano da actualidade. Não conheço bem qualquer das equipas, pelo que abordo este jogo com alguma cautela. Para quem não teve oportunidade de ver, esclarecer que este foi um jogo muito fechado, praticamente sem qualquer desequilíbrio até à abertura do marcador. A Juventus, com a sua tradicional defesa a 3, apostou quase sempre num bloco bastante baixo, denso e muito difícil de bater em situações de ataque posicional, sendo que as suas iniciativas ofensivas de maior relevo ocorreram em lançamentos para as costas da defesa romana, tentando aproveitar - sem sucesso - as poucas situações em que esta o permitiu. Do lado da Roma, um pouco mais de risco posicional, ainda que não muito, havendo sempre uma grande preocupação com a acção de Pirlo, e uma tendência para utilizar o corredor direito nas acções ofensivas.
Relativamente ao lance decisivo do jogo, acaba por acontecer numa das raras situações de ataque rápido e, curiosamente, teve no duelo entre Pirlo e Totti um ponto chave. Com o bloco subido na tentativa de pressionar uma saída de bola complicada da Roma, era fundamental que Pirlo tivesse controlado o pontapé longo no inicio da jogada. O posicionamento até foi o correcto, mas a agressividade não foi a ideal e, num duelo de veteranos, foi Totti quem levou a melhor. A partir daí, o desequilíbrio está criado, ainda que se deva sublinhar também a parte final da jogada e a forma como Bonucci perde a frente do lance, perante Gervinho. É uma situação muito difícil para o defensor, obviamente, porque tem de controlar o atacante, não perdendo o contacto visual com a bola e sendo que tudo acontece em velocidade, de todo o modo, a primeira prioridade é sempre não perder a frente do lance.

ler tudo >>

21.1.14

Rodrigo já é o mais decisivo do Benfica

ver comentários...

É um jogador de quem já venho falando há algum tempo, muito pelo contributo positivo que me parece ter dado quase sempre que foi utilizado. Se alguns dos meus pontos de opinião sobre Rodrigo são motivos de discórdia, há um que não levanta grandes dúvidas e que tem a ver com a crescente influência decisiva do jogador. Com os dois golos marcados ao Marítimo, Rodrigo passou mesmo a ser o jogador mais influente em termos de contribuição directa nos golos da equipa (se excluirmos, como sempre faço, as grande-penalidades). De sublinhar ainda o facto o número de minutos que Rodrigo precisou para atingir este estatuto, sendo que é inferior a qualquer dos jogadores que o seguem nesta lista específica.

A importância da mobilidade
Olhando com um pouco mais de detalhe para este percurso de sucesso do avançado espanhol, não há dúvidas de que o seu impacto positivo foi conseguido dentro de uma função com maior apelo à mobilidade. Pessoalmente, e não é a primeira vez que o refiro, tenho a opinião de que esta é a melhor forma de potenciar as características do jogador. Rodrigo não me parece ser um jogador com características especialmente fortes para se impor como presença muito fixa, oferecendo-se como referência permanente junto dos centrais adversários. Não é um jogador especialmente forte no jogo de contacto, nem tão pouco tem características que lhe possam oferecer grande vantagem num duelo directo e constante com os centrais (como acontece com Cardozo, por exemplo). Por outro lado, é um jogador que gosta de sair da sua zona, o que lhe permite retirar referência de marcação e aparecer em zonas de finalização num contexto mais favorável. Não quer isto dizer que tenha de jogar sempre com um avançado à sua frente mas, antes sim, que o seu futebol precisa de liberdade de movimentos para ser devidamente potenciado. Para já, e numa altura em que se fala da sua eventual saída, é importante sublinhar o papel que tem tido no recente sucesso da equipa, sendo que nenhuma outra solução conseguiu oferecer produtividade minimamente equiparável ao papel que vem desempenhando. Ou seja, e caso realmente saia, existe um risco desportivo que é evidente e não pode ser desprezado para o futuro imediato.

Frequência vs Eficiência: um caso interessante
Quem lê com alguma atenção as análises que venho deixando estará já familiarizado com esta questão. Não se trata de uma certeza, mas antes de uma hipótese que venho testando e partilhando. Mais concretamente, creio que a eficiência dos avançados (isto é, o aproveitamento golo/ocasião) é sobrevalorizado no curto-prazo e que, em sentido inverso, pouca atenção se dá à frequência com que os mesmos avançados criam ou chamam a si ocasiões de golo. O caso de Rodrigo nesta temporada é interessante, porque desde as primeiras utilizações que foi sempre tendo um número muito elevado de ocasiões de golo, mantendo-se este registo pouco alterado (como documenta o gráfico abaixo). O problema é que a eficiência não foi imediatamente a melhor e a apreciação do jogador acabou por ser afectada por isso, o que lhe terá retirado espaço e tempo de utilização. Com o golo frente ao Anderlecht, porém, tudo mudou e com mais tempo de utilização, conseguiu estabilizar os níveis de eficiência, sendo que actualmente até têm sido mais elevados do que aquilo que é normal. Aliás, da mesma forma que era errado sobrevalorizar o mau aproveitamento do inicio de temporada, é também agora irrealista pensar que Rodrigo possa manter a eficiência que vem mantido nos últimos jogos.
O ponto aqui é que o caso de Rodrigo sugere que a frequência (capacidade de chamar a si ocasiões de golo) é mais estável no curto-prazo do que a eficiência, sendo por isso um indicador que deveria justificar mais importância para as decisões imediatas. Uma ideia que, porém, vai em sentido contrário daquela que é a percepção generalizada e, mesmo, da orientação decisional da generalidade dos treinadores.





ler tudo >>

20.1.14

Notas do Arouca-Sporting

ver comentários...
- As condições do terreno foram, como todos viram, a grande condicionante da partida. O Arouca foi, neste sentido, quem melhor partido tirou na fase inicial, com o Sporting a parecer surpreendido e a fazer uma adaptação progressiva às circunstâncias atípicas do jogo. Destaque, nesse período, para o pontapé comprido de Cássio nas reposições longas, para a maior agressividade do meio-campo do Arouca nas bolas divididas e para a dificuldade de adaptação de algumas unidades do Sporting, com Piris em especial evidência.

- Paradoxalmente, foi com o agravar das condições do terreno que o Sporting se encontrou no jogo. A única alteração visivel - e para além da entrada de Slimani - teve a ver com uma abordagem mais directa na ligação do seu jogo, não parecendo porém ser essa a única explicação para a melhoria de panorama para o lado do Sporting. Na minha leitura, o tempo trouxe também o equilíbrio na adaptação dos jogadores de ambas as equipas, nomeadamente ao nível da agressividade e do posicionamento com que abordavam cada lance. Tacticamente, estranhei a tardia em lançar Slimani no jogo, mas a opção foi posteriormente explicada por Jardim.

- A vitória, num jogo difícil e que esteve realmente muito complicado para o Sporting, explica-se, a meu ver, pela resposta de ambas as equipas nas zonas decisivas do jogo - que é como quem diz, as duas grande-áreas. Slimani é o destaque mais evidente, tendo sido determinante pelo golo que marcou (mas não muito mais, diga-se, porque também ele teve muitas dificuldades com o estado do terreno), mas creio que é não menos importante olhar para os protagonistas defensivos das equipas. Em particular, impressionou-me o desempenho dos centrais do Sporting, que me parecem ter sido o grande pilar deste triunfo. Pela presença quase irrepreensível num jogo de grande exposição e pela forma como se tornaram protagonistas também no capítulo ofensivo de um jogo onde os lances de bola parada foram a principal fonte de perigo da equipa. Tudo somado, diria, não só que a diferença de desempenho/produtividade dos centrais do Sporting para os do Arouca foi enorme, como que foi provavelmente esse o factor mais relevante para definição da discrepância no resultado final da partida.

- Finalmente, uma nota pessoal para confessar algum saudosismo em relação a este tipo de jogos. Não que pense que o futebol passe a ser melhor quando se joga neste tipo de condições - obviamente, muito pelo contrário - mas porque cresci e aprendi a gostar de futebol num tempo em que este era um cenário recorrente e que fazia parte da regra, e não da excepção, do filme de cada campeonato. Se hoje as equipas estranham muito quando se deparam com estas condições, é interessante perceber como há não mais de 15-20 anos, este era um contexto perfeitamente normal para todas as equipas, sendo que até os melhores estádios se apresentavam com relvados pesados e irregulares durante meses a fio. Neste plano, o futebol mudou muito, havendo um favorecimento evidente da componente técnica do jogo.

ler tudo >>

17.1.14

5 jogadas (Benfica-Porto; Sporting e Atlético-Barça)

ver comentários...

1 - A minha ideia inicial era trazer mais imagens sobre este aspecto do jogo, mas não tendo sido possível, recupero pelo menos 1 lance que ilustra a forma como o Benfica condicionou a construção portista em zonas mais adiantadas. Em particular, o papel da linha média, com Enzo Perez a acompanhar o comportamento do duplo-pivot adversário, que em regra baixa pelo menos 1 dos seus elementos (normalmente Fernando) para assumir a posse numa linha muito próxima da dos centrais. O risco de adiantar 3 unidades em simultâneo é, claro, o espaço que se abre nas suas costas. O Benfica tentou atenuar essa exposição com um posicionamento mais interior dos extremos, que acabou por conseguir bons resultados, com várias linhas de passe interceptadas por Markovic e Gaitan ao longo do jogo.
Em relação ao Porto, e como foi evidente, grande parte das suas aspirações no jogo ficaram condicionadas pela fraca resposta que foi capaz de oferecer ao problema que lhe foi colocado. Já escrevi sobre a dificuldade dos elementos mais criativos (Varela, Licá e Carlos Eduardo) em oferecer linhas de passe nas costas dos médios encarnados, mas sobretudo o que me parece questionável é a forma como a equipa surgiu aparentemente surpreendida pela situação que lhe foi criada, sendo que ainda recentemente havia experimentado exactamente o mesmo tipo de bloqueio na visita a Alvalade, para a Taça da Liga. É possível - e este é um ponto que não referi na análise que fiz ao jogo - que a inclusão de Otamendi tivesse a ver com esta situação, com Paulo Fonseca a ver no maior potencial técnico do argentino uma resposta para os problemas que o pressing do Benfica previsivelmente lhe causaria. Correu mal, não só porque a simples alteração individual não teve implicação na dinâmica colectiva, como também porque o critério de Otamendi é muito inconstante e, por isso, também mais propenso ao erro do que o de qualquer outra solução. Algo que vem de encontro à ideia que tenho passado em várias ocasiões, ou seja, e sobretudo para as fazes mais precoces da construção, o critério deve ser um requisito que antecede o potencial técnico.

2 - O lance do primeiro golo é interessante porque há vários aspectos a considerar. Em primeiro lugar, claro, a falta de linhas de passe oferecidas a Otamendi. Depois, a perda de bola de Lucho, na sequência de uma série de ressaltos. No entanto, e tal como já havia escrito, essa perda não deve chamar a si uma grande dose explicativa sobre o que se segue, porque no momento em que ocorre o Porto tem 6 jogadores atrás da linha da bola, havendo todas as condições para que o lance tivesse sido melhor controlado. O ponto seguinte é a forma como o duplo-pivot portista reage à perda de bola. Lucho e Fernando estão posicionados na mesma linha e ambos condicionam a possibilidade do passe interior, como que dando por adquirido que o espaço entrelinhas estaria controlado. Um instinto próprio de quem está a contar com um pivot nas suas costas, mas que neste caso não existe e que determina que a aceleração de Markovic acabe por bater, num só movimento, os dois médios azuis-e-brancos.
Mais à frente, Mangala tenta condicionar a progressão de Markovic, e o Porto continua com condições para controlar a jogada, tanto mais que Danilo ganha rapidamente o interior de Rodrigo. Esperar-se-ia que Otamendi pudesse sair em contenção sobre Markovic e que Danilo controlasse a profundidade, mas a reacção dos dois defensores é, estranhamente, outra. Otamendi perde, claramente, a melhor noção da jogada, dando continuidade ao seu movimento lateral em vez de se aproximar do portador da bola, o que determina que Markovic acaba por não ter a oposição que poderia ter. Danilo, e depois de ter ganho correctamente o interior de Rodrigo, também dificulta a sua própria acção ao colocar-se de frente para Markovic, o que limita depois a reacção quando o passe é colocado nas suas costas.
Para além de tudo isto, claro, há que sublinhar o mérito na construção da jogada, de Markovic, e na finalização, de Rodrigo.

3 - Outro lance de muito perigo por parte do Benfica, e onde a reacção da defensiva portista é bastante questionável. Em particular, qualquer equipa terá sempre de exigir mais de si própria quando um pontapé-de-baliza termina com um jogador isolado na cara do seu guarda-redes. Neste caso, e à margem da resposta à primeira bola, salta à vista a forma como, muito rapidamente, a linha defensiva fica numericamente exposta (e demasiado aberta, já agora). O principal ponto a destacar é, claro, a saída de Otamendi, que é atraído pela presença interior de Gaitan, mas que ao tentar controlar a presença entrelinhas do extremo, acaba por debilitar a linha defensiva, passando esta a estar em igualdade numérica e com muito espaço nas suas costas. Depois, Danilo perde o segundo duelo aéreo, com Lima (aconselhava-se fazer falta), o que desde logo determina que se a bola seguinte não fosse ganha por Mangala, haveria necessariamente um desequilíbrio porque para além de Rodrigo, também Gaitan surgia sem qualquer oposição sobre a esquerda.

4 - O lance mais perigoso do jogo da Amoreira acontece numa altura em que o Sporting estava à procura de resgatar ainda os três pontos. O primeiro ponto a realçar é a forma como o Sporting perde a bola, revelando novamente dificuldades em utilizar o corredor central para as suas acções ofensivas. Ainda assim, a perda de bola, na zona em que acontece, não é responsável pelo descontrolo defensivo que se segue. Apenas com dois jogadores, e em franca inferioridade numérica, o Estoril constrói uma ocasião de golo na cara de Patrício. Na minha leitura, é decisiva a perda de controlo sobre Balboa, que fica livre para progredir vários metros sem oposição. Aqui, a responsabilidade maior parece-me estar na reacção de William Carvalho, que deveria ter controlado a linha de passe para Balboa, e revela depois muitas dificuldades em acompanhar a velocidade do lance. Mais à frente, Piris acaba por não conseguir controlar o movimento de Gerso, num contexto que não era também muito fácil para o lateral. Finalmente, destaque para Rui Patrício que tem feito uma época muito boa. Se o Sporting é a melhor defesa, tal acontece em grande parte porque o seu guarda-redes tem conseguido uma eficácia decisiva bastante superior à dos rivais.

5 - Impossível não falar do Atlético - Barcelona. Não que tenha sido um jogo especialmente emotivo - obviamente não foi - mas pela qualidade das duas equipas, em estilos perfeitamente opostos. O lance que recupero é interessante porque mostra boa parte do mérito de ambas as equipas. Do lado do Atlético, nota para o posicionamento da equipa, envolvendo todos os jogadores mesmo em zonas muito recuadas e fazendo um ajustamento posicional notável, sempre privilegiando a relação espacial entre os jogadores (inter e intra sectores) e permitindo-lhe ajustar sem problema às sucessivas mudanças de corredor dos adversários. A principal referência de pressão da equipa é o posicionamento dos apoios do portador da bola, passando a haver uma atitude pressionante forte sempre que o adversário recebe de costas para a baliza (como se vê pela reacção de Tiago). No vídeo, chamo à atenção para o papel de Koke, que começa por pressionar junto à linha, depois fecha no corredor central e acaba por estar na área na altura do cruzamento, mantendo um ajustamento posicional sempre em função da situação e do equilíbrio colectivo. Outra análise interessante - que guardo para outra ocasião - será perceber como ataca a equipa do Atlético, porque para andar no topo da liga espanhola não basta defender bem.
Mas, mesmo com todo o mérito defensivo do Atlético, o lance acaba mesmo por chegar muito próximo da baliza de Courtois, o que nos leva até ao Barcelona. Já todos conhecemos a qualidade geral da equipa, que permanece em grande medida intacta independentemente de quem está no comando técnico da equipa (o que não quer dizer que a equipa não tenha perdido qualidade desde a saída de Guardiola, evidentemente), mas como a jogada documenta será ainda o factor-Messi aquele que será capaz de transportar o potencial colectivo para outro patamar. E será assim, no Barcelona ou em qualquer equipa, enquanto Messi for Messi.

ler tudo >>

16.1.14

A substituição de Matic

ver comentários...
A saída estava anunciada e vem, até, com algum atraso se considerarmos o que todos pensaram ser inevitável acontecer no passado Verão. Que implicações terá a saída de Matic? Aqui fica a minha ideia:

Pivot: importância da função vs excelência da interpretação
O primeiro ponto que quero abordar, porque ajuda a explicar a minha perspectiva, tem a ver com a função específica do "pivot". É quase regra geral que todas as equipas que recorrem à utilização de um "pivot" (uma opção muito popular na última década do futebol português) fazem desta uma função central no seu modelo táctico. Com uma forte componente posicional, este jogador é, quase sempre, o mais influente em posse e aquele que mais intervenções defensivas realiza. Por isso, frequentemente ouvimos e lemos a referência à importância dos jogadores que desempenham esta função nas respectivas equipas. Ora, eu não discordo dessa observação, mas parece-me que não raras vezes se confunde a importância do papel com a excelência da sua interpretação.

O exemplo de Javi e outros casos bem sucedidos
A consequência do equívoco que identifico no ponto anterior é que normalmente se sobrevaloriza o peso individual do jogador que interpreta esta função. Já aconteceu noutras ocasiões, como foi o caso de Paulo Assunção no Porto, mas é no próprio Benfica que surgirá o exemplo mais recente: Javi Garcia. De facto, parece que já lá vai muito tempo mas foi apenas há pouco mais de um ano que o Benfica perdeu Javi Garcia e poucos foram aqueles que, nessa altura, não anteciparam grandes problemas para o futuro imediato da equipa, em face dessa perda (agravada por ter acontecido em simultâneo com a de Witsel). Não estou com isto, note-se, a equiparar Javi a Matic, porque se no caso do espanhol - e como fui aqui escrevendo durante muito tempo - havia muito pouco de extraordinário para além do jogo aéreo, o mesmo não se pode dizer de Matic que revelou uma qualidade muito mais abrangente do que o seu antecessor.
De resto, é interessante observar o número de jogadores que, nos últimos anos, deu nas vistas no desempenho desta função no futebol português, sem que tenha sido preciso um grande investimento para o conseguir. Paulo Assunção, Fernando, Veloso, Matic e William, são os casos que me vêm à memória, todos eles com elevado rendimento apesar do baixo investimento, numa frequência muito elevada e que a meu ver não acontece por acaso. Desta constatação resulta mais um bom indício para o Benfica e para este processo de substituição de Matic.

Fejsa e Amorim, as alternativas
Considerados os pontos acima, e mesmo reconhecendo que algumas das qualidades de Matic não serão substituíveis no imediato, a verdade é que não consigo ver grande drama para o Benfica com a saída de Matic. A função de "pivot" tem grandes restrições tácticas e precisa sobretudo de uma interpretação lúcida e segura, onde o critério e segurança são sempre a principal prioridade, ao contrário da criatividade e capacidade de desequilíbrio. A solução mais óbvia é Fejsa, que já revelou uma capacidade de trabalho assinalável e parece ter todos os requisitos para cumprir bem o papel de "pivot", tal qual definido por Jesus. A grande dúvida em relação ao ex-Olympiakos é a sua segurança em posse, sendo esse um ponto a meu ver muito importante nesta função (e, já agora, onde Matic não esteve bem nesta temporada) e onde ainda não percebi bem que garantias pode dar, ou não, Fejsa. Outra solução é Ruben Amorim, cujo perfil não é tão ajustado a esta função específica, por ter qualidade para oferecer um envolvimento com mais dinâmica e não ter também a mesma capacidade de intervenção defensiva de Fejsa. Ainda assim, e mesmo parecendo-me mais vocacionado para funções de maior liberdade táctica, é sem dúvida uma alternativa. Sem Matic, o Benfica perderá presença no jogo aéreo (sobretudo se comparado com Amorim) e criatividade (sobretudo se comparado com Fejsa), mas não prevejo que perca aquilo que é mais essencial nesta função.

Matic no Chelsea
O Chelsea é das equipas que mais tenho acompanhado além fronteiras, pelo será com interesse que acompanharei também o outro lado desta mudança. Já aqui tinha escrito que o Chelsea tinha alguns problemas nas soluções para o seu "duplo-pivot", e Matic deverá acrescentar qualidade às opções de José Mourinho para essa zona, nomeadamente a mais-valia que trará em termos de presença aérea e capacidade de trabalho. Ainda assim, a utilização de Matic em funções mais adiantadas nos últimos tempos de Benfica veio mostrar algumas dificuldades na sua movimentação dentro do bloco contrário. Ou seja, parece-me provável que combine melhor actuando ao lado de um jogador de maior capacidade de envolvência em posse, como Lampard, do que com jogadores mais posicionais como será o caso de Obi Mikel.

ler tudo >>

15.1.14

Notas sobre o Sporting

ver comentários...
Problemas e soluções repetidas, no Estoril - O empate na Amoreira (deixo os dados estatísticos abaixo) não deve ser encarado com muita preocupação. Estamos a falar de uma dos 2 jogos teoricamente mais difíceis do calendário, excluindo o confronto com os "grandes". Ainda assim, o Sporting deixou alguns sinais de dificuldade, que se repetem de outras ocasiões e que voltaram a não ter a melhor resposta.

Em particular, sempre que a dinâmica pelos corredores laterais não sai, seja por mérito do adversário ou desinspiração própria, a equipa reage da mesma maneira, mecânica, introduzindo o seu "plano B" na meia-hora final. Já aqui escrevi sobre isto, inclusivamente nas ocasiões em que fazer entrar Slimani parecia produzir resultados milagrosos. Não faz grande sentido aplicar um "plano B" por defeito, quando se entende que o "plano A" é aquele que mais hipóteses de sucesso oferece à equipa. Muito menos, fazê-lo é uma fonte de imprevisibilidade para os adversários, pois toda a gente sabe o que vai acontecer entre o minuto 60 e 70, caso o Sporting não esteja em vantagem. Sem contexto especifico que o justifique, uma mudança deste género a 30 minutos do final do jogo é, sobretudo, um acto de fé.

A resposta que, a meu ver, o Sporting deveria procurar tem a ver com a procura de dinâmicas alternativas, nomeadamente acrescentando alguns movimentos de exploração do espaço no corredor central, de onde o Sporting continua com muitas dificuldades em extrair grande produtividade. Não é algo fácil de conseguir, nem tão pouco esta minha critica sugere que o problema é evidente para quem o tem de resolver - muito pelo contrário! - mas não vejo saídas fáceis.

Mané e outro contexto, frente ao Marítimo - Se o Sporting praticamente não teve ocasiões claras de golo no Estoril, entretanto já conseguiu uma série delas na recepção ao Marítimo. Ou seja, o problema da falta de golos tem sobretudo a ver com o contexto, e com a qualidade da oposição, porque a equipa continua a mostrar-se lúcida e eficaz na implementação da sua ideia de jogo.

Sobre este jogo, a principal nota vem da exibição de Carlos Mané. Pessoalmente, não conheço bem o jogador, e apenas o tinha podido ver em aparições fugazes no final dos jogos. Desta vez, num contexto de maior estabilidade e com mais tempo, a ideia foi deixada foi muito melhor. Surpreendentemente, melhor. Se este é a capacidade que se reconhece ao Mané do presente, e tendo ele apenas 19 anos, parece-me evidente que o jogador deve entrar nas contas da titularidade, no mínimo alternando com as outras soluções. É duvidoso que o Sporting perca alguma coisa no imediato - a julgar por este jogo, não perderá - e poderá paralelamente fazer desenvolver um jogador numa posição chave e onde é mais difícil encontrar grande qualidade a baixo preço no mercado.

Uma nota final sobre o Marítimo, que apesar da derrota pesada voltou a recolher elogios pelo seu "futebol positivo". Constato frequentemente a confusão que é feita entre uma equipa que "defende mal" e uma equipa que pratica "futebol positivo". Porque não há nada de positivo em defender mal. O que se passa com o Marítimo é que apesar de ter uma das melhores linhas avançadas da Liga, está sempre habilitada a perder qualquer jogo. A equipa perdeu muitas unidades da sua zona defensiva (Roberge, João Guilherme, Rafael Miranda) e não conseguiu ainda recuperar dessas perdas, perdendo muita eficácia em organização defensiva. É, aliás, minha convicção de que esse é o problema que tira o sono ao próprio Pedro Martins, e que este não o vê, de forma alguma, como algo "positivo".

Tinha anunciado e era minha intenção trazer hoje aqui algumas jogadas do Benfica - Porto, mas por motivos técnicos não me é possível fazer vídeos. Se, como espero, o problema for resolvido a tempo, ainda recuperarei essa análise até ao final da semana...


ler tudo >>

14.1.14

Benfica - Porto (II): Análise individual

ver comentários...

Benfica
Oblak - Mais um jogo sem sofrer golos e sem reparos à sua actuação que, diga-se, voltou a não ser especialmente exigente. O facto da eficácia de Artur ter sido, como já mostrei, assustadoramente baixa nestes primeiros meses de temporada, não implica que Oblak seja o outro lado da moeda. A avaliação dos guarda-redes, para ser conclusiva, requer muito mais tempo de avaliação. Uma coisa é certa, porém, como venho escrevendo há algum tempo, e ao contrário da ideia que se generalizou em termos mediáticos, o nível de exposição defensiva do Benfica não justificava o número de golos que a equipa vinha sofrendo internamente. O facto do Benfica ter vindo a sofrer menos golos é, por isso, algo que está em linha com o que era expectável, e não o contrário.

Maxi - Foi, sobretudo, um jogo de muita luta. Travou inúmeros duelos no seu corredor, o que explica o facto de ter sido um dos jogadores com mais intervenções defensivas no jogo. Por outro lado, do ponto de vista técnico sentiu sempre muitas dificuldades em conseguir dar boa sequência às suas intervenções, um problema extensível à generalidade da equipa e que se explica pela natureza do próprio jogo, mas que acabou por se reflectir especialmente na sua exibição.

Siqueira - Em sentido inverso de Maxi, teve um jogo discreto e até relativamente pouco conseguido em termos defensivos, sendo que pelo contrário foi um jogador muito lúcido quase sempre que teve a bola nos pés. Uma exibição que reforça a ideia que Siqueira me vem dando desde a sua chegada à Luz. Ou seja, com ele o Benfica ganha mais ofensivamente do que defensivamente.

Luisão - Garay foi o centro das atenções entre os centrais do Benfica, tanto pelo golo, como por algumas intervenções mais vistosas. Se em termos de impacto ofensivo a diferença entre os dois é óbvia, no que respeita à utilidade defensiva a presença de Luisão não fica em nada a dever à de Garay, tendo tido uma prestação mais sóbria, é verdade, mas bastante eficaz nos duelos que travou na sua zona, nomeadamente no confronto com Jackson Martinez.

Garay - Tem muito mérito no golo que marcou, pela forma como atacou a bola. Aliás, parece-me haver mais mérito seu do que demérito alheio. De resto, fez uma primeira parte vistosa, com alguns cortes importantes e intervindo mais no espaço do que Luisão. Com bola, onde costuma ser também uma mais valia para a equipa, este não foi dos seus melhores jogos.

Matic - Se este foi o seu último jogo de águia ao peito, pode dizer-se que se despediu em beleza. Foi, de facto, uma figura chave no jogo. Primeiro, porque actuou nas costas de uma zona pressionante que foi a grande arma estratégica da equipa. Depois, porque nas reposições longas foi também muito importante, servindo quer de referência para Oblak, quer de bloqueio para Hélton, numa acção importante para inviabilizar que o Porto utilizasse a boa presença aérea do seu avançado como referência para as primeiras bolas. Tudo somado, foi com grande distância de todos os outros, o jogador mais interventivo em termos defensivos, um autêntico muro à frente da defesa e que esteve na origem de várias transições com elevado potencial. Ofensivamente, poderia ter até tido outro protagonismo com algumas chegadas muito perigosas à área contrária, em lances de bola parada.

Enzo Perez - Estrategicamente, teve uma missão importante, porque coube-lhe pressionar em zonas muito adiantadas, para tentar condicionar a acção do duplo-pivot portista, na fase de construção. Um papel importante para o pressing da equipa, mesmo se em termos de intervenção directa acabou por não assumir grande protagonismo. Em posse, foi o jogador mais interventivo da equipa, ainda que este não fosse propriamente um jogo onde a presença em posse tivesse sido uma das armas essenciais da equipa. Referência habitual nas bolas paradas, apontou o canto que esteve na origem do segundo golo.

Gaitan - É verdade que foi disciplinado tacticamente, mas isso, e ao contrário da ideia generalizada, nem sequer é uma novidade nas suas exibições. A meu ver, porém, a exibição de Gaitan esteve bem abaixo do que pode oferecer, revelando-se bastante ineficaz nas suas intervenções com bola (com destaque para o momento de transição, onde foi o jogador que mais passes perdeu), e não oferecendo à equipa o seu habitual contributo criativo.

Markovic - A jogada do golo é tremenda, quer pela capacidade de arranque, quer pela notável definição no último passe. Um lance que Markovic andava a tentar há muito, e que acabou por lhe sair no jogo ideal. Depois, e ainda no campo dos elogios, de referenciar a sua missão defensiva, em especial no ajuste posicional interior, que lhe valeu várias intercepções importantes e ainda dentro do meio-campo contrário. Uma exibição que volta a revelar de forma bem clara o potencial que tem, mas que a meu ver não chega para esconder o caminho que ainda lhe falta percorrer.

Rodrigo - Mais um grande jogo num papel mais móvel. Parte do protagonismo, claro, resulta do golo que marcou, mas há outros capítulos onde a sua exibição justifica elogios. Em transição, por exemplo, foi o jogador com melhor eficácia, ligando bem a equipa após recuperação da bola, e mesmo no capítulo defensivo foi também ele uma presença relevante no condicionamento do jogo ofensivo do adversário. Entre ele e Matic, tenho muita dificuldade em eleger o melhor-em-campo. Aliás, desde que foi lançado neste papel de avançado mais móvel, Rodrigo tem-se tornado numa unidade de elevada utilidade para a equipa, num papel em que o Benfica vinha tendo muitas dificuldades em encontrar soluções nos primeiros meses da temporada e que, como já expliquei, me parece ter um enorme valor para a equipa. Uma ideia que, percebo, não é partilhada por muitos mas que imagino que vá ganhando alguns adeptos dada a repetitiva influência decisiva que Rodrigo vem conseguindo nesta função. Caso saia, será interessante perceber até que ponto esta posição voltará a ser um problema para Jesus. Pessoalmente, e face ao rendimento que tem tido nos últimos meses, não tenho dúvidas de que é, no mínimo, um risco para o curto-prazo.

 Lima - Parecia poder regressar a um melhor momento de confiança quando os golos começaram a surgir, mas a verdade é que isso ainda não aconteceu. Lutou, tal como a generalidade da equipa, e deu o seu contributo, mas esteve longe do protagonismo que pode assumir. Nota para a forma como isolou Rodrigo, ganhando no ar, num lance que poderia ter terminado no 3-0.

Porto
Hélton - Não fugiu à mediocridade colectiva e contribuiu também ele com alguns erros. Já lhe tem acontecido errar num lance isolado em alguns jogos, mas raramente terá errado tanto como neste jogo, com um passe comprometedor e duas saídas mal calculadas, uma delas no lance segundo golo. Ainda assim, na minha opinião, nesse lance há muito mérito de Garay.

Danilo - Foi um dos protagonistas óbvios do jogo, não conseguindo controlar Rodrigo no lance do primeiro golo e sendo expulso mais tarde. Não estava a fazer um jogo especialmente exuberante, mas também não vinha sendo dos jogadores com uma exibição mais comprometedora.

Alex Sandro - Bastante em jogo e evidenciando-se, como sempre, pela forma como transporta a bola ao longo do seu corredor. Em termos de eficácia, diria que foi um jogo dividido, onde ganhou e perdeu duelos.

Otamendi - Regressou à equipa e Paulo Fonseca bem se deve ter arrependido dessa decisão. Em posse, foi o jogador que mais perdas de risco acumulou, sendo que se em parte a responsabilidade deriva da ausência de linhas de passe que lhe foram oferecidas, por outro lado Otamendi voltou a revelar a sua imprudência ao nível do risco em posse. Mas também no capítulo defensivo comprometeu, parecendo-me ter abordado mal o lance do primeiro golo e também saindo algo precipitadamente da sua zona no lance que termina com o isolamento de Rodrigo, já na segunda parte. Provavelmente, o pior da equipa e do jogo.

Mangala - Muitos lhe apontarão o dedo no lance do segundo golo, mas na minha leitura deve ser sobretudo creditado mérito a Garay pela forma como atacou a bola. Mangala também o fez, mas partindo de um posicionamento necessariamente mais estático não era fácil controlar a entrada de rompante do central argentino. À margem desse lance, foi o jogador com mais presença em posse e aquele que, de longe, mais conseguiu intervir defensivamente, destacando-se o seu papel no momento de transição defensiva, a grande arma do Benfica no jogo. Na minha opinião, e a grande distância, a melhor exibição individual entre os portistas.

Fernando - Um jogo discreto, o que pode ter duas interpretações. Primeiro, e pela positiva, foi dos jogadores com mais presença em posse e dos que menos comprometeu nesse plano. Depois, defensivamente, o jogo passou-lhe bastante ao lado, com muito poucas intervenções defensivas relativamente ao que dele se espera, não conseguindo ser muito útil no momento de transição ataque-defesa e não sendo também uma presença discreta nos duelos aéreos travados na sua zona. Não é a primeira vez que tal sucede esta época, parecendo-me que sente algumas dificuldades em impor as suas qualidades jogando com um jogador ao seu lado.

Lucho - É outro dos mais óbvios focos de crítica, por ter perdido a bola para Markovic no lance do primeiro golo. Pessoalmente, parece-me excessivo valorizar esse erro, porque no momento em que ele acontece, a equipa tem 6 jogadores atrás da linha da bola, estando por isso perfeitamente capacitada para reagir com segurança à perda. Será mais criticável a forma como os dois médios protegem o mesmo passe interior e abrem o espaço entrelinhas para onde "explode" Markovic. Aliás, acção do sérvio justifica muito crédito na distribuição de responsabilidades da jogada. De resto, parece-me um equívoco enorme utilizá-lo nesta posição (e sei que, mais uma vez, esta não é a opinião mais comum), porque Lucho é sobretudo um jogador forte nas movimentações sem bola e na forma como cria espaços com acções simples, e não tanto um jogador de transporte de bola. Num jogo onde era fundamental aproveitar as costas dos médios do Benfica, não deixo de pensar como tudo poderia ter sido diferente caso Lucho tivesse sido utilizado nesse papel. Paulo Fonseca cedeu aos apelos exteriores e aparentemente recuou Lucho em definitivo. Se o Porto até aqui era fraco nas alas e forte no espaço entrelinhas, com o recuo de Lucho apenas ficamos a saber que perdeu um dos pontos fortes do seu jogo.

Carlos Eduardo - Voltou a realizar um jogo pouco conseguido, especialmente enquanto esteve no papel de médio mais ofensivo, destacando-se a dificuldade que teve em aparecer em jogo. Um problema que se repetiu desde o jogo de Alvalade e que ajuda a explicar o, também repetido, bloqueio da primeira fase de construção do Porto. Ainda assim, destaca-se a sua boa entrega e capacidade de trabalho, parecendo mais confortável na parte final, quando baixou para o lado de Fernando. É um bom executante e poderá ter um futuro interessante na equipa, mas não se lhe pode pedir que seja um elemento muito forte nas movimentações sem bola e no espaço entrelinhas, estando mais vocacionado para procurar espaços laterais e o transporte de bola. Cabe a Paulo Fonseca ser capaz de o integrar, de forma a que as suas características façam sentido para a missão colectiva, algo que claramente não aconteceu neste jogo.

Varela - Muitas dificuldades ao longo de todo o jogo, praticamente sem criar nada de relevante em termos ofensivos, mas também com muito poucas condições para o fazer. Depois da lesão de Danilo, foi ala-direito.

Licá - Foi o protagonista da principal ocasião de golo da equipa, ainda que num lance irregular, e esse é o ponto mais alto da sua exibição. De resto, só se pode estranhar como é que Paulo Fonseca lhe voltou a dar a titularidade depois das dificuldades que revelou no jogo frente ao Sporting. Sem surpresa, voltou a sentir os mesmos problemas para aparecer em jogo, não contribuindo em praticamente nada para ajudar a equipa a encontrar linhas de passe verticais. Ou seja, mais difícil do que entender a sua exibição, é entender a sua utilização.

Jackson - Jogo obviamente difícil em face do bloqueio da equipa em zonas mais atrasadas. Ainda assim, quase sempre que a equipa conseguiu chegar à zona de finalização, Jackson apareceu e esse é um mérito que lhe deve ser creditado, ainda que como sempre o primeiro instinto será para criticar o facto de não ter marcado quando o podia ter feito. Um ponto potencialmente importante neste jogo, passava por utilizar Jackson como referência para a construção longa, onde o colombiano é bastante forte. O facto é que, apesar da luta que deu, Jackson também não conseguiu grande impacto a este nível, sendo igualmente verdade que a equipa não terá explorado da melhor maneira esse recurso, nomeadamente por não ter retirado a bola da zona de Matic.

Quaresma - Os primeiros minutos de jogo neste regresso mostram bem o que dele se pode e deve esperar. Ou seja, risco permanente e assumido a cada posse, o que na maioria dos casos resulta na perda da bola e descontinuidade da acção ofensiva, mas que poderá resultar também em algumas excepções de elevado potencial. Este é o perfil que Quaresma tem e certamente terá, restando saber quantas excepções conseguirá Quaresma extrair daquela que será a regra das suas intervenções.

Josué - Uma nota sobre a sua utilização, que não tem a ver com o seu rendimento no jogo. É que depois de ter sido utilizado durante meses como segundo-pivot ou ala, Josué aparece agora como primeira prioridade para função de médio-ofensivo, nas contas de Paulo Fonseca. Foi aí que jogou frente ao Atlético, tendo para isso recuado Lucho (que foi sempre primeira opção para médio-ofensivo até há pouco tempo), e foi aí que jogou também agora, tendo para isso recuado Carlos Eduardo. Paulo Fonseca continua a trocar as opções individuais no seu meio-campo e eu não sei exactamente quais as suas motivações, mas continuo a pensar que está, não só a escolher o foco errado, como a procurar a forma errada de resolver o problema que tem pela frente, ou seja, centrando-se em absoluto nas valências individuais em vez de desenvolver dinâmicas colectivas que, inevitavelmente, precisarão de mais estabilidade para ser optimizadas.

ler tudo >>

AddThis