30.12.13

Sporting - Porto: Estatística e opinião

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Equilíbrio em posse, desequilíbrio em objectividade - O jogo foi, sob diversas perspectivas, equilibrado. Nomeadamente, no que respeita à presença em posse e domínio territorial, onde nenhuma das equipas foi capaz de se impor claramente no jogo. No entanto, foi claramente o Sporting quem conseguiu maior objectividade na sua abordagem ao jogo, havendo no que respeita à proximidade com o golo uma diferença significativa entre o que as duas equipas conseguiram, sendo que por esta perspectiva se aceitaria melhor a vitória leonina do que propriamente o empate. Em 90 minutos, porém, a eficiência na finalização é quase sempre um factor absolutamente determinante e, nesta ocasião, foi o Sporting quem saiu desfavorecido com essa fatalidade.

Sporting: melhor aplicação estratégica e... Carrillo - De facto, e pegando no ponto anterior, o Sporting conseguiu sobretudo ser mais determinante no último terço. Isto resulta, na minha perspectiva, de dois factores. O primeiro tem a ver com a boa interpretação da estratégia que a equipa trouxe para o jogo, nomeadamente no condicionamento da fase de construção do Porto, de onde o Sporting conseguiu recuperações importantes e que lhe ofereceram situações de elevado potencial ofensivo. Por outro lado, o maior número de ocasiões de golo da equipa surgiu na recta final do jogo, havendo muito peso da capacidade de desequilíbrio que Carrillo trouxe ao jogo. Seja como for, o Sporting voltou a provar a si próprio que as diferenças em relação aos seus mais directos adversários podem não ser tão grandes quanto inicialmente se pensava. A receita para 2014 está dada: dar continuidade ao que foi construído em 2013 em termos de modelo de jogo, acreditando sobretudo na optimização das ideias fundamentais e não se deixando iludir pelos sofismas que o futebol vai sugerindo (como sucedeu frente ao Nacional). Se o Sporting o fizer, mantendo a mesma intensidade que apresentou até aqui, então terá tudo para, no mínimo, lutar pelo título até ao fim.

Porto: um banho de realidade... mais um! - O Porto 13/14 tem-se envolvido numa verdadeira sucessão de fantasias. É fácil perceber que a equipa perdeu capacidade e parecem-me também relativamente evidentes quais são algumas das lacunas essenciais. No entanto, repetidamente são sugeridas soluções imediatas e que fazem elevar de novo as expectativas para patamares desmesurados. Convém não perder de vista aquela que me parece ser a realidade desta equipa: o Porto continua a ser uma boa equipa, perfeitamente capaz de se bater por novo título nacional, mas é incontornável que perdeu mais-valias importantes nos últimos 2 anos e que não as conseguiu substituir em termos de patamar qualitativo, o que lhe retira muito do potencial que já teve. É muito improvável que este problema seja resolvido com alterações simples, que tenham a ver com a descoberta de talentos escondidos no plantel, ou mesmo com alterações estruturais que muitos viram mas que nunca existiram. A solução, no curto prazo, passará por um aperfeiçoamento das dinâmicas colectivas e esta fé em torno de soluções milagrosas através da troca do jogador A pelo jogador B só tem impedido que essa evolução tenha lugar. Este jogo foi, nesse aspecto um bom exemplo. É verdade que o Porto jogou sem as suas duas unidades mais valiosas (Jackson e Lucho), mas também é um facto que foram 90 minutos de grande ineficácia na interpretação das ideias fundamentais do seu jogo. Se me perguntarem que Porto prefiro, o actual ou aquele que iniciou a temporada, eu optaria pela primeira versão. Ou seja, entre tantos avanços e recuos, não consigo ver nenhuma evolução qualitativa nesta equipa. Pelo contrário, há hoje mais confusão e unidades em pior momento de confiança.

Individualidades (Sporting)
Boeck - A modéstia da sua actuação é um elogio à equipa, porque realmente teve muito pouco para fazer.

Cedric - Mais um jogo em que foi dos melhores em campo. Bem a defender e com boa envolvência ofensiva, onde se destaca de novo a sua capacidade de cruzamento. Tem aumentado a sua consistência nos últimos tempos.

Jefferson - Teve algumas boas incursões pelo seu corredor e fez um jogo regular em termos defensivos, mas esteve longe de ser um jogo brilhante.

Dier - Começou com alguns problemas, primeiro com uma perda de bola displicente e depois com algumas dificuldades em controlar a profundidade no lance em que Alex Sandro isola Ghilas. Depois, estabilizou e fez uma exibição regular, evidenciando-se sobretudo nos duelos aéreos mas não rivalizando com Rojo em termos de capacidade de antecipação, o que também não é novo. Voltou a dar sinais de uma sede de protagonismo pouco ajustada ao seu perfil e à fase da sua carreira, primeiro arriscando um envolvimento ofensivo que não parece fazer parte das ideias colectivas (nenhum outro central o faz) e tentando, depois, marcar um golo do meio-campo.

Rojo - Teve uma hesitação que poderia ter tido outras consequências, perante Ghilas, mas à parte disso fez um bom jogo, onde se destaca a capacidade de intervenção no espaço à sua frente, o que ajudou a equipa a controlar o jogo entrelinhas.

William - Bom jogo, mas longe do acerto que já revelou. Foi estrategicamente condicionado por Carlos Eduardo, o que lhe retirou influência em posse. Depois, é possível que esteja a sentir-se pressionado para acrescentar mais à equipa em termos de capacidade de desequilíbrio e verticalização, o que a acontecer poderá retirar critério e segurança à sua presença em posse. Em sentido inverso, parece-me um jogador mais agressivo na sua acção defensiva, o que é positivo.

Adrien - A grande evolução de Adrien é no plano defensivo, onde realizou de novo um jogo fantástico. Curiosamente, parece-me mais competente na acção pressionante sobre as primeiras fases de construção dos adversários, do que no ajustamento posicional em zonas mais próximas da sua área. Seja como for, foi Adrien a grande fonte de intercepções sobre a primeira fase de construção portista, o que ofereceu à equipa algumas jogadas de grande potencial, entre as quais uma ocasião soberana finalizada por Wilson. Com bola, esteve regular, mas de novo sem impressionar.

André Martins - Um pouco à imagem de Adrien, e na sequência de outras exibições, parece-me mais merecedor destaque o seu trabalho defensivo do que propriamente aquilo que acrescentou à equipa com bola. Seja como for, foi um bom jogo, com boa envolvência nos mais variados planos e onde se destaca a missão pressionante, ora condicionando a entrada de bola no duplo-pivot (Fernando), ora pressionando directamente sobre os centrais.

Capel - Não conseguiu ser determinante no último terço, embora tenha estado próximo de marcar num cabeceamento, mas teve uma boa envolvência no jogo, mantendo uma boa intensidade e eficácia nas suas acções.

Wilson - Fez os 90 minutos, o que não é habitual, mas não foi capaz de manter a influência no último terço ao longo do jogo. De resto, as habituais dificuldades em ser uma solução para as primeiras fases ofensivas, não conseguindo grande envolvência ou eficácia em situações distantes da área contrária.

Slimani - Já cá está há meio ano e tem até sido uma figura em muitos momentos da época, mas ainda não tenho uma opinião muito formada sobre ele, sendo que este foi o jogo em que teve uma utilização mais "normal". Representa uma mais valia em relação a Montero para a construção longa, o que já se sabia, e tentou também ser uma solução recorrente para a construção, servindo de apoio frontal. O timing dos seus movimentos foi bom, mas percebe-se também que tem pouco a acrescentar em termos criativos sempre que a bola chega aos seus pés. Não foi uma má exibição, mas também não foi especialmente prometedora. Esperemos por mais...

Montero - Trouxe um perfil diferente ao ataque do Sporting, não sendo capaz de causar impacto no tempo em que jogou, apesar de uma boa ocasião para marcar.

Carrillo - Fantástico impacto no jogo, a relembrar-nos que se há jogador que pode ainda fazer crescer a equipa, esse jogador é Carrillo. É claro que 24 minutos não são suficientes para que se acredite que "agora é de vez", mas também me parece que ainda deve haver esperança para Carrillo.

Vitor - Em pouco tempo conseguiu chamar a si duas boas ocasiões para decidir o jogo. Não foi feliz na finalização, é certo, mas parece-me muito positivo que o tenha conseguido em tão pouco tempo de jogo.

Individualidades (Porto)
Fabiano - Foi a grande figura do jogo, indiscutivelmente, repetindo boas exibições quando é chamado. É evidentemente um sinal positivo quanto às suas capacidades, mas para um guarda-redes (mais do que para qualquer outro jogador) são precisos muitos jogos para que se possam retirar conclusões definitivas. Esteve menos eficaz no jogo de pés.

Danilo - Mais uma vez confirmou a ideia de que é um jogador muito dependente do que faz no último terço. Não tendo conseguido protagonismo nesse capítulo onde habitualmente é forte, acabou por acrescentar pouco em termos qualitativos. Em posse, pouca envolvência e alguns problemas de eficácia (um posicionamento muitas vezes redundante com Herrera, o que facilitou a pressão do Sporting sobre a 1ªfase de construção). Defensivamente, também muitos problemas, com destaque para a forma como se deixou antecipar por Capel.

Alex Sandro - Foi o protagonista da melhor jogada da equipa, onde praticamente todo o mérito lhe assiste. De resto, e mesmo com alguns erros, foi uma exibição regular.

Maicon - Sentiu alguns problemas com o condicionamento que o Sporting impôs com o seu pressing, o que explica a modéstia da sua contribuição para a posse da equipa. Defensivamente, esteve em melhor plano.

Mangala - À margem de Fabiano, terá sido o jogador da equipa em melhor plano. Já me referi aqui ao facto de ser um jogador algo sobrevalorizado, não tendo sempre uma capacidade de intervenção tão boa como aparenta. Desta vez, porém, foi mesmo um jogador dominador na sua área de intervenção.

Fernando - Em posse, foi dos jogadores mais esclarecidos num jogo onde o duplo-pivot foi muito condicionado no inicio de construção. Inclusivamente, notou-se a intenção de o fazer baixar para a linha dos centrais a partir dos 25', altura em que o Sporting quase marcou após uma intercepção nessa fase do jogo ofensivo portista. Defensivamente, teve algumas intercepções importantes, mas no geral foi um jogo pouco conseguido em termos de capacidade interventiva.

Herrera - É um jogador impulsivo, e perante uma equipa bem organizada como foi o Sporting isso deu dois lados à sua exibição. Por um lado, e como todos viram, foi a principal vitima do pressing do Sporting, com algumas perdas de bola muito comprometedoras. Por outro, foi o jogador mais interventivo e solícito da equipa, não se escondendo nunca do jogo. Precisa, claramente, de trabalhar o critério e de pensar mais a sua presença no jogo. Se o conseguir tornar-se-á num médio muito interessante.

Carlos Eduardo - Na pré-época havia mostrado grandes dificuldades em entrar no jogo, e depois de alguns jogos muito positivos voltou a revelar essa faceta. Essas dificuldades podem, aliás, ser uma explicação para as dificuldades que o Porto teve em encontrar linhas de passe dentro do bloco do Sporting, reforçando-se a ideia de que é um jogador que precisa de procurar espaços mais amplos para aparecer, sentindo mais dificuldades quando se lhe exige melhor qualidade de movimentos sem bola. As boas indicações que deixou nos últimos jogos não ficam ofuscadas por este jogo menos conseguido, apenas contextualizam melhor a realidade de um jogador que está ainda em fase de desenvolvimento. Defensivamente, teve a missão estratégica de condicionar a entrada de William no jogo, papel que cumpriu bem.

Varela - A um extremo exige-se sempre que seja capaz de desequilibrar. Neste jogo, porém, Varela teve um papel diferente, porque com o baixar permanente do duplo-pivot e a incapacidade de Carlos Eduardo, Ghilas e Licá serem soluções para o passe vertical, foi Varela a assumir mais vezes esse papel, o que explica uma envolvência maior do que aquilo que é hábito. Não foi intencional, mas antes algo que resultou das dificuldades da equipa no jogo, parecendo-me por isso que Varela é mais vitima do que réu nas dificuldades que sentiu no jogo.

Licá - Um jogo esforçado, mas modestíssimo em termos de capacidade de resposta, quer ao nível do envolvimento, quer ao nível do desempenho técnico. É questionável que seja titular, mas parece-me ainda mais incrível que dure 90 minutos num jogo com tantos problemas para se impor.

Ghilas - Não pode ser tão responsabilizado como Licá ou Carlos Eduardo, mas também ele contribuiu muito pouco para que a equipa encontrasse linhas de passe nas costas dos médios do Sporting. Aliás, nem na construção longa foi uma solução eficaz. Em termos de zona de finalização, conseguiu um bom movimento que lhe permitiu usufruir da primeira ocasião clara do jogo.

Lucho - Entrou e acrescentou imediatamente qualidade a todos os níveis. No entanto, tinha a curiosidade de o ver colocado mais sobre a zona entrelinhas, onde penso que poderia ter criado mais problemas à linha média do Sporting. Já escrevi várias vezes sobre a forma como o bi enviesa fortemente as análises ao rendimento dos jogadores, e tenho a curiosidade para ver o que o Porto vai fazer com o processo de renovação de uma das suas unidades de maior rendimento.

Defour - Provavelmente, a sua entrada não fazia parte do plano de jogo. Não acrescentou, mas também não retirou nada de relevante à equipa, pelo que a substituição serviu sobretudo para limitar a hipótese de substituir algumas unidades de pálido rendimento.

Jackson - Seria, obviamente, um disparate pedir-lhe que resolvesse em 15 minutos o que a equipa não resolveu em 75. Ainda assim, confesso que me surpreendeu a modéstia do seu impacto no jogo. É um jogador excepcional e exige-se muito mais...


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27.12.13

Porto e o "vírus Champions"

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Frente ao Olhanense o Porto realizou, provavelmente, a melhor exibição de qualquer equipa na Liga até ao momento. Pelo menos, se considerarmos as ocasiões claras de golo a favor e contra, certamente não poderemos chegar a outra conclusão. Como sempre, adeptos e comunicação social precipitaram-se a distinguir causas para este recente e ainda muito breve crescimento no futebol praticado pela equipa de Paulo Fonseca. Já tenho escrito aqui muito sobre a falibilidade e recorrência deste tipo de raciocionio, que teima em reduzir toda a complexidade do jogo a um ou dois factores explicativos (alguns deles nem sequer existem, como é o caso da suposta mudança estrutural da equipa), pelo que não me vou alongar muito sobre isso. De todo o modo, para além da influência de Carlos Eduardo, inegavelmente positiva mas obviamente muito longe de poder explicar tudo o que vemos ou deixamos de ver, parece-me interessante observar a diferença de rendimento do Porto nos jogos da Liga que antecederam ou sucederam os embates europeus, e nos outros, em que a meio da semana (anterior ou seguinte) não estava calendarizado qualquer compromisso da Liga dos Campeões. É que as diferenças são, a todos os níveis, muito significativas.

O "vírus europeu" é um fenómeno que todos observamos e que é muito frequente na generalidade das ligas europeias. Ou seja, o efeito negativo das competições europeias no rendimento interno. Obviamente, este não é um problema que se manifeste de forma homogénea, sendo o caso mais clássico o de uma equipa de aspirações habitualmente modestas que no ano seguinte a um brilharete interno é confrontada com a exigência das provas europeias, acabando por ver afectado o seu rendimento nas competições internas. O Paços desta temporada, por exemplo, é um caso clássico do "virus europeu". Aqui, mais do que explicar, é interessante constatar (porque, e mais uma vez, a complexidade do jogo torna difícil isolar correctamente factores explicativos).

Ora, constatando e não explicando, a hipótese é que o Porto, pela sua menos valia relativamente a anos anteriores, possa estar a ser afectada pelo "vírus europeu", mais concretamente pelo "vírus Champions", estendendo por contágio as suas dificuldades externas para o plano interno. Por agora, e olhando às exibições antes e depois do "ciclo-Champions", este parece ser um factor a ter em conta no desempenho da equipa. Neste plano, os próximos meses serão interessantes de observar.

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26.12.13

Sporting e a ilusão do "Plano B"

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No futebol, cada vez mais me convenço, é sobretudo um jogo de fé e de crenças. E, se no que respeita aos adeptos e comunicação social esta é uma constatação que não gera grande surpresa, o mesmo não poderei dizer relativamente a tantas e tantas decisões que se observam por parte das equipas técnicas. Em particular, e volto a destacar isto, a facilidade com que se sobrevalorizam efeitos de curto prazo, onde o factor aleatório tem um peso avassalador mas que é repetidamente desprezado. O resultado são uma série de conclusões onde se cede à tentação do pensamento indutivo e se abdica de um raciocínio mais lógico e critico sobre a real relação entre as causas e os efeitos.
Tudo isto a propósito do recente Sporting-Nacional e da precoce opção pelo denominado "Plano B", por parte do Sporting. É verdade que Leonardo Jardim conseguiu um excepcional aproveitamento sempre que recorreu a este este recurso nesta temporada, mas como fui aqui escrevendo isso não implica que se parta para a conclusão de que o Sporting terá sempre mais probabilidade de marcar quando opta por este recurso. Porque o tempo de análise é demasiado curto, claro, mas também porque a generalização dessa conclusão acaba por representar uma contradição com a própria ideia central do modelo de jogo do Sporting, e que tão bons resultados tem oferecido à equipa nesta temporada. Ou seja, se o "Plano B" aumenta realmente as possibilidades de marcar da equipa, independentemente do contexto em que é aplicado, então que lógica tem começar com o "Plano A"?
A minha critica, note-se, não tem a ver, nem com a entrada de Slimani, nem com a existência de um "Plano B", mas antes com a alteração da identidade colectiva num contexto que não era diferente daquele com que o jogo havia começado. Ou seja, parece-me lógico que se o Sporting entende que o seu modelo de jogo ("Plano A") é a melhor forma da equipa ser bem sucedida, então só deve abdicar deste com a alteração do contexto específico do jogo. Em particular, nas situações em que se pretenda um jogo mais directo e de apelo a uma referência forte no jogo aéreo, algo que salvo raras excepções só se aconselha nas fases terminais dos jogos. No caso, o Sporting partiu para a segunda parte sem que nada fosse alterado no contexto do jogo, mas preferindo ainda assim acreditar no que lhe fora sugerido pelo sucesso de anteriores experiências com o seu "Plano B", em detrimento da ideia que, de uma forma mais lógica e racional, havia definido como a melhor forma de ser bem sucedido em cada jogo.

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23.12.13

Reflexões a partir do jogo de Setúbal

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O sistema não é um fim em si mesmo
O jogo de Setúbal, parece-me, é um bom exemplo - mais um - do equívoco que é concentrar no sistema toda a discussão em torno dos eventuais problemas tácticos das equipas (o que tem acontecido, quer com o Benfica, quer com o Porto). No caso, o Benfica sentiu de facto muitos problemas na sua fase de construção na primeira parte do jogo, o que impediu a equipa sistematicamente de chegar a fases mais adiantadas do seu jogo. Que solução haveria para o problema? Pois bem, mantendo o paradigma de centralizar tudo no sistema, a única resposta seria retirar uma unidade mais adiantada para acrescentar presença à referida fase de construção. Na verdade, Jesus fez o contrário, retirou uma unidade mais recuada (Fejsa) e introduziu um extremo (Sulejmani). Mas esta não foi a mudança que verdadeiramente mudou o jogo na segunda parte. A solução esteve, como todos viram, na troca de Perez por Matic no papel de segundo médio. Ou seja, com a alteração das características dos jogadores, nomeadamente oferecendo mais presença e capacidade de transporte de bola à fase de construção, o Benfica resolveu o seu problema. Sem alterações estruturais e com a vantagem de manter a elevada presença na zona criativa.
Este caso é interessante porque realça o ponto que tenho tentado passar recentemente: os problemas das equipas nunca residem no sistema táctico, mas sim no desempenho que estas revelam nas diferentes fases do seu jogo. Assim, o sistema é, na melhor das hipóteses, uma possível solução para ajudar a resolver eventuais problemas que possam surgir. Mas não é, nunca, um fim em si mesmo.

Matic "6" vs Matic "8" e a importância de Perez
Entre a primeira e segunda partes do Benfica salta a vista o desempenho da equipa na fase de construção. Aqui, parece-me, importa reflectir sobre as características dos papeis dos médios da equipa. O "6", no modelo de Jesus, tem uma envolvência quase inevitável na fase de construção da equipa, baixando muito e assumindo o jogo de forma confortável muitas vezes mesmo na linha dos centrais e quase sempre de frente para a oposição. O "8", porém, tem outra exigência, necessitando de se movimentar muito mais para oferecer soluções de passe em linhas um pouco mais adiantadas. É aqui, na diferença entre estes dois papeis, que reside o grande problema de Matic quando passa de "6" para "8". Em particular, quando os adversários adiantam um pouco mais a presença pressionante da linha média, como aconteceu por exemplo em Setúbal ou em Guimarães, o médio sérvio  sente muitas dificuldades em manter a sua influência no jogo. E, para uma equipa que joga apenas com dois médios, é fundamental que isso não suceda com o seu "8". Já Enzo revela outra capacidade de envolvência e imunidade às variações na estratégia pressionante dos adversários, e daí o Benfica ter dado um salto qualitativo assim que o fez regressar a uma zona mais central. Uma evidência da importância do argentino na dinâmica do actual futebol do Benfica.

O valor de Rodrigo
Com tanta gente a sugerir a mudança para o 4-3-3, esta parece ser uma posição pouco valorizada em termos mediáticos. A minha opinião, porém, é que o papel de Rodrigo tem sido dos mais valiosos no jogo do Benfica, e parece-me muito questionável que se sugira que a equipa possa abdicar de uma unidade com as suas características e rendimento. Em particular, Rodrigo tem sido o "9-10" que Jesus tardou em encontrar no inicio de época, nomeadamente com o falhanço da aposta em Djuricic. A verdade é que não é fácil encontrar jogadores que possam preencher todos os requisitos desta posição, sendo necessário uma boa capacidade de movimentação para aparecer a jogar de costas em zona entrelinhas e, depois, sendo também importante que exista o instinto e qualidade para fazer a diferença em zonas de finalização. O exemplo que vem à memória no caso do Benfica é, claramente, Saviola, mas na ressaca do eclipse do argentino não tem sido fácil a Jesus encontrar novas soluções. Ora, Rodrigo tem interpretado este papel com grande qualidade, quer aparecendo muito bem entrelinhas, quer sendo uma unidade determinante em termos de presença nas zonas decisivas. Uma dupla influência que, na minha interpretação, acrescenta muito valor ao futebol do Benfica.

Mudança estrutural quando em vantagem
Para finalizar, uma pequena nota critica à intenção de Jesus em "congelar" os jogos assim chegue à vantagem no marcador. A ideia parece ser mudar de estrutura, nomeadamente retirando uma unidade mais ofensiva para garantir mais presença na linha média. "Congelar" o jogo parece ser uma redução do risco, mas não tem forçosamente se ser. Ou seja, se uma equipa tem dificuldades em controlar o jogo ofensivo do adversário, de facto, fará sentido em concentrar energias na correcção dessa vulnerabilidade mas se, pelo contrário, não for esse o caso, então a equipa estará sobretudo a desperdiçar a oportunidade de materializar a sua superioridade e aumentar a vantagem, o que dilata a exposição ao risco de um golo que no futebol, como sabemos, pode acontecer mesmo quando menos se espera. Em resumo, não discordo da ideia de ter uma alternativa para o melhor controlo defensivo do jogo, mas acho equivocado aplicar estratégias por defeito e sem ter em conta a especificidade de cada situação. E é por defeito que Jesus tem aplicado este plano de jogo.

Nos próximos dois dias farei uma pausa na actualização do blogue, planeando retomar antes do fim-de-semana com algumas notas sobre os jogos dos outros dois "grandes". 
Um Bom Natal a todos!

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19.12.13

5 jogadas (Sporting, Porto, Man City e Tottenham)

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Sporting - Belenenses - Só tenho boas coisas a dizer sobre estas duas equipas. Começo pelo Belenenses, para dizer que apesar dos 3 golos sofridos, esta é provavelmente a equipa da Liga cujo comportamento em organização defensiva mais aprecio neste momento. Pouca exposição da linha defensiva, bom ajuste posicional do duplo-pivot (nomeadamente nas coberturas feitas sobre os corredores laterais), boa noção da missão defensiva dos dois homens mais adiantados, boa percepção colectiva dos momentos/situações de pressão e boa intensidade defensiva de praticamente todos os jogadores. Com bola, é verdade que sentiu sempre muitas dificuldades, mas esta será seguramente uma equipa muito complicada de ultrapassar para qualquer adversário, caso mantenha a qualidade defensiva que tem apresentado.
Também o Sporting merece elogios, porque se o Belenenses foi extremamente competente defensivamente, o Sporting respondeu com uma qualidade igualmente elevada. Esbarrou quase sempre no bom ajuste posicional do seu adversário, é verdade, mas revelou sempre grande intensidade e acerto nas suas acções. A julgar pela resposta que deu, o Sporting estará mesmo na sua melhor fase da época.
Sobre a jogada que trouxe, foi praticamente o único lance de envolvimento colectivo em que o Sporting conseguiu superar a organização defensiva do Belenenses, na primeira parte (houve mais uma iniciativa individual de Carrillo e um lance que culmina no isolamento de Montero, mas que resulta de um ressalto de bola). Muito bom, novamente, o jogo pelos flancos do Sporting, com Capel e Cedric como protagonistas. Bom, também, o ajuste posicional do Belenenses, com o extremo (Fredy) mais interior, mas com o médio (Danielsson) a compensar nas suas costas, sendo que rapidamente a equipa coloca 3 jogadores na zona da bola. Aqui, porém, valeu o mérito dos dois jogadores do Sporting e algum descontrolo da profundidade, na acção individual de Danielsson.

Rio Ave - Porto - O lance do golo do empate do Rio Ave tem, em primeiro lugar, muito mérito por parte de Edimar. Não conhecendo pormenorizadamente o jogador, penso que tem feito o suficiente para que justifique pelo menos atenção de clubes de maior dimensão, em especial pela sua capacidade de cruzamento e também pelo poder que denota quando em transporte de bola. E é precisamente esta última virtude que está na origem do golo, conduzindo e aguentando a pressão dos jogadores do Porto.
De resto, a principal evidência no lance tem a ver com o posicionamento de Alex Sandro, que permanece demasiado aberto numa jogada que se inicia num lançamento lateral do seu lado, o que ajuda a acentuar o espaço entre o lateral e os centrais. É obviamente correcta esta critica, mas mesmo com um posicionamento interior, Alex Sandro não poderia ter evitado o desequilíbrio na jogada, já que a partir do momento em que a bola entra em Diego Lopes, estão criadas 2 soluções de passe de elevado potencial. Parece-me, portanto, que a montante do mau ajustante posicional do lateral esquerdo, há também alguma falta de agressividade na forma como a equipa portista lidou com a acção de Edimar, em especial Danilo.

Man City - Arsenal (I) - Foi provavelmente o grande jogo do fim-de-semana. São, obviamente, duas equipas de enorme qualidade, mas em qualquer dos casos penso que não estão completamente potenciadas, sobretudo no que respeita à organização defensiva.
Neste primeiro lance, temos uma situação em evidência durante a primeira parte do jogo, sendo a par do momento de transição, a circunstância de jogo que mais problemas causou ao Arsenal. É um movimento típico do City que, como já comentei aqui noutras ocasiões, aproveita muito bem a profundidade dos seus laterais. A grande fragilidade posicional do Arsenal reside, a meu ver, no comportamento da linha média, particularmente no posicionamento dos médios interiores. Neste caso, é visível o tempo que Touré permanece solto em zona central, com um dos médios interiores atraído para o corredor lateral e o outro encostado à linha defensiva. Também se percebe, não só neste lance, a constante indefinição do extremo (Wilshere) perante a presença de Zabaleta. Percebe-se que não há a intenção de fazer um acompanhamento individualizado, mas a verdade é que a indefinição é tanta que o jogador acaba por nem conseguir pressionar por dentro, nem auxiliar em nada no controlo sobre a acção de Zabaleta.

Man City - Arsenal (II) - Do outro lado do campo, também o City revela problemas de desempenho defensivo, a meu ver até mais do que o próprio Arsenal. É uma equipa que não tem uma grande vocação defensiva, nomeadamente nas suas 2 unidades mais adiantadas, o que acaba até por ser benéfico para o momento de transição, onde de facto esta equipa é muito forte. De todo o modo, tanto ao nível de controlo do espaço entrelinhas como da exposição na profundidade, o City apresenta notórias vulnerabilidades. No que respeita ao espaço entrelinhas, a acção de Fernandinho acabou por, neste jogo, atenuar bastante o problema. Mas ao nível do comportamento da linha defensiva, continua a verificar-se um comportamento que não me parece ser o ideal (embora, até certo ponto, esta seja uma questão que tem mais a ver com o ideal de jogo de cada um do que com outra coisa). O risco assumido pela linha defensiva é quase permanente e mesmo com o bloco mais baixo se identificam oportunidades para explorar a profundidade.
O caso desta jogada tem a ver com a resposta aos cruzamentos, em que a equipa o City mantém a linha defensiva praticamente na linha da bola, o que me parece oferecer grandes condições para que os avançados ataquem o espaço, tanto mais que é muito complicado para os defesas manter "sangue frio" no posicionamento antes do cruzamento, o que desde logo compromete a eficácia da equipa no objectivo de colocar os avançados em fora de jogo. O Arsenal só aos 94' marcou um golo por esta via, mas já antes havia ameaçado da mesma forma.
Outra situação em que foi notória a vulnerabilidade da linha defensiva do City é na resposta a um passe lateral interior, a partir de um dos flancos. Aqui, importa também sublinhar a preparação do Arsenal para aproveitar ofensivamente este tipo de situação, com o médio que recebe a procurar imediatamente a diagonal do extremo nas costas dos centrais, algo para que Walcott está muito vocacionado. Desta vez, o Arsenal não conseguiu eficácia neste movimento, mas certamente que veremos golos por esta via noutras ocasiões. Tanto marcados pelo Arsenal, como sofridos pelo City.

Tottenham - Liverpool - O fim da carreira de Villas-Boas em White Hart Lane não era necessariamente um fado anunciado, mas como fui escrevendo desde o inicio da época - e os jogos que vi nem foram muitos - eram identificáveis muitos problemas de resposta defensiva, isto mesmo na fase em que esta equipa era a melhor defesa do campeonato. Desta vez, frente ao Liverpool, o problema esteve também na confiança e numa série de factores que, combinados, ditaram novo descalabro. É claro que o mau desempenho de qualquer equipa nunca pode ser reduzido a um só factor - é a consequência da complexidade do jogo - mas parece-me que a resposta defensiva terá tido um peso importante neste caso. Nunca saberemos que capacidade teria Villas-Boas para inverter a situação, mas o Tottenham acaba por até nem ficar numa posição muito má se considerarmos a Liga dos Campeões como objectivo principal da equipa. O problema terão sido mesmo as duas goleadas num curto espaço de tempo.
Quanto ao lance que trouxe, o sublinhado vai, de novo, para a forma como a equipa do Tottenham rapidamente fica completamente exposta na sua linha defensiva. Os jogadores do sector mais recuado são sucessivamente atraídos para fora das respectivas zonas, acabando por ter de abordar a parte final do lance em posições completamente distintas daquelas que idealmente deveriam ocupar. Aqui, nota mais uma vez para a relação intersectorial, com os médios a mostrarem pouca sensibilidade para a exposição criada nas suas costas. Um problema que não é um exclusivo do Tottenham e que praticamente todas as semanas identifico nos lances que aqui tenho trazido. Finalmente, o mérito de Suarez, que é simultaneamente o criador e finalizador da jogada. É sublime a simulação que antecede a finalização, mas eu destaco também a forma como ele antecipa o ressalto, partindo de uma posição muito atrasada mas superando uma linha média do Tottenham que fica estática na abordagem à segunda bola. Sobre Suarez, atingiu um patamar em que falar dele não é mais do que uma banalidade, tal o nível em que se situa o seu rendimento. Há uns anos analisei-o quando estava no Ajax e se na altura o destaquei como um jogador de elevadíssimo potencial, capaz de jogar em qualquer equipa, confesso que até essas óptimas expectativas foram já superadas.

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18.12.13

Fernando e a discriminação racial

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Não é propriamente o tipo de temática em que pretendo centrar o blogue, mas parece-me que é uma questão importante e que tem sido muito mal tratada em termos mediáticos, por isso faço aqui um parêntesis para tratar, não tanto do caso de Fernando em especifico, mas da questão do acesso de jogadores naturalizados à Selecção.

Para tentar simplificar o meu ponto, começo com uma pergunta: Concorda com a distinção/exclusão entre cidadãos de nacionalidade portuguesa por critérios arbitrários centrados na etnicidade de cada um?

Não tenho dúvidas, felizmente, que muito poucas pessoas responderiam afirmativamente a esta questão genérica. Até porque, olhando à definição das Nações Unidas, isso significaria que se concordaria com a "discriminação racial" entre cidadãos de nacionalidade portuguesa. Paradoxalmente, porém, muita gente afirma concordar com a exclusão de "jogadores naturalizados" da Selecção Nacional, sendo que realmente esta questão não é mais do que uma aplicação concreta da pergunta que primeiramente coloquei. Temos cidadãos da mesma nacionalidade e a sugestão da aplicação arbitrária de um critério de exclusão, centrado apenas e só na etnicidade dos candidatos. "Discriminação racial", de acordo com a definição das Nações Unidas.

Naturalmente, a generalidade das pessoas que defende a exclusão de jogadores naturalizados não o faz com a total consciência desta implicação discriminatória, resultando essa posição de uma reflexão menos aprofundada sobre o verdadeiro alcance da questão (eu próprio nem sempre tive a mesma percepção sobre o tema). Parece-me normal que isso possa acontecer no público em geral, mas já não posso dizer o mesmo das pessoas que têm influência sobre a opinião pública e que continuam de forma irresponsável a defender que a Selecção Nacional - provavelmente o maior símbolo mediático do país na actualidade - se preste a tão reles acto.

Posto isto, convém aqui separar duas situações: 1) a discriminação positiva de jogadores de futebol no acesso à nacionalidade portuguesa e 2) a discriminação negativa de jogadores portugueses no acesso à Selecção Nacional. O primeiro caso tem a ver com a aceleração e tratamento especial do processo de naturalização de cidadãos estrangeiros de forma a que possam representar a Selecção. Pessoalmente, sou contra, mas não se pode confundir a rejeição de uma discriminação positiva com a discriminação negativa do segundo caso. O acesso à nacionalidade portuguesa deve obedecer a regras claras e que devem ser iguais para todos. No limite, podemos discutir essas regras, mas nunca e em nenhuma circunstância, devemos permitir que qualquer entidade possa acrescentar de forma arbitrária critérios de exclusão relacionados com raça, origem genética ou etnicidade. Sendo coerente, aliás, a FIFA deveria mesmo excluir das suas competições as Federações que se prestassem a semelhantes práticas, sob pena dos anúncios e mensagens que se repetem a repudiar o racismo não passarem de actos de mera hipocrisia.

Dito tudo isto, convém referir que apesar de todo o ruído em torno desta questão, a Federação tem mantido até ver uma postura 100% correcta sobre o tema, não se intrometendo no processo de naturalização do jogador (algo que, no passado, aconteceu com outros jogadores) e declarando que qualquer jogador pode ser convocado, a partir do momento que lhe seja concedida a nacionalidade portuguesa. Acrescento eu que não apenas "pode" como "deve" de ser convocado, assim se considere que tenha condições técnicas, disciplinares e, claro, seja essa a sua vontade.

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17.12.13

Com ou sem Artur? Pior não fica...

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A lesão de Artur abre a hipótese de uma mudança na baliza do Benfica. Apesar do estatuto concedido ao guarda-redes brasileiro, a verdade é que a valorização das suas exibições parece ser tudo menos consensual entre os adeptos. Para quem tem acompanhado as análises que venho partilhando, só é de estranhar que não haja maior foco na questão da eficácia do guarda-redes, no que ao Benfica diz respeito.

O tema não é novo, e na verdade já na análise de pré-época havia comentado sobre a péssima eficácia dos guarda-redes do Benfica nos jogos de preparação. Nesse momento, porém, o tempo ainda era demasiado escasso para estarmos a salvo do efeito aleatório de uma má fase, uma hipótese que entretanto o tempo se encarregou de afastar. Ao fim de quase metade da prova, e olhando ao desempenho de todos os guarda-redes da liga em ocasiões claras de golo, o Benfica é a equipa que menos contributo percentual teve do seu guarda-redes. Curiosamente, o Benfica é precisamente a equipa que menos ocasiões de golo consentiu até agora, algo que não é praticamente percepcionado, sobretudo por este problema de (in)eficácia.

Riscada a possibilidade de um acaso de curto-prazo, restam apenas duas hipóteses para o problema: 1) o problema está relacionado com a forma de defender do Benfica. 2) Artur. Pessoalmente, inclino-me muito mais para a segunda hipótese, uma vez que me parece pouco provável que a forma de defender de uma equipa possa condicionar de forma tão marcante o desempenho do seu guarda-redes. Ainda assim, não é uma hipótese que consiga excluir completamente nesta altura.

Uma coisa é certa: seja, com ou sem Artur, o Benfica tem muito pouco a perder no que respeita à utilidade do seu guarda-redes.

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16.12.13

Sobre Carlos Eduardo

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É o nome do momento no Porto, com a sua aparição na equipa a atrair atenções, tanto pelo entusiasmo em redor das suas primeiras exibições, como pela discussão em torno das implicações tácticas que supostamente trouxe para o meio-campo portista. Aqui ficam as minhas notas sobre estes dois pontos:

Implicações tácticas: dinâmicas diferentes, mesmo sistema
Tem-se generalizado um erro de análise algo flagrante e que apesar de corrigido pelo próprio Paulo Fonseca, teima em permanecer nas discussões sobre o tema. É que, de facto, o Porto nunca alterou o seu sistema com a entrada de Carlos Eduardo. Nem na segunda parte frente ao Braga, nem na recente vitória em Vila do Conde. Em organização defensiva isso é mais evidente, porque o Porto mantém uma linha de quatro elementos, muito clara, por trás de Jackson e de Carlos Eduardo. Em organização ofensiva é possível que haja alguma confusão, mas também aqui não se justifica concluir seja o que for sobre eventuais alterações estruturais.

O que existe, de facto, é uma alteração na especificidade que é oferecida pelas características naturais dos jogadores. Algo que, por exemplo, já se havia observado quando Quintero foi opção no lugar de médio mais ofensivo, pelo que pessoalmente ainda estranho mais o reavivar desta confusão, nesta altura. Voltando dinâmica e às diferenças entre jogar com Lucho ou Carlos Eduardo como médio mais ofensivo, elas resultam sobretudo da especificidade de Lucho e da sua invulgar capacidade para se movimentar sem bola, procurando sistematicamente soluções de passe no espaço entrelinhas. Esta é uma característica rara nos médios ofensivos, que são geralmente jogadores muito dotados tecnicamente e que por isso anseiam o contacto rápido com esta em vez de trabalhar pacientemente o aparecimento num espaço vazio e de costas para a baliza, como sucede com Lucho. Assim, a tendência é que estes jogadores procurarem espaços mais amplos para aparecer, seja nos corredores laterais ou mesmo através de um envolvimento mais precoce no jogo, baixando até linhas mais recuadas.

A consequência disto é que, sem Lucho, o Porto terá sempre menos jogo entrelinhas e necessitará de procurar outras dinâmicas alternativas, em especial o envolvimento do médio ofensivo nos corredores laterais. Já o movimento de recuo deste elemento não se apresenta como solução muito lógica dentro da natureza táctica do Porto, uma vez que com dois médios defensivos, o aparecimento de mais um jogador na fase de construção irá gerar redundância nessa fase do jogo, retirando paralelamente soluções de passe verticais.

Ou seja, para o Porto a alteração da característica abre-lhe uma oportunidade de corrigir uma das suas principais lacunas, que é a falta de qualidade no envolvimento colectivo nos corredores laterais, mas retirar-lhe-á também aquele que tem sido provavelmente o seu ponto mais forte em termos ofensivos, o jogo entrelinhas. Um pau de dois bicos, portanto

Bons sinais, mas sem precipitações
Tenho alguma dificuldade em assumir uma opinião sólida sobre o jogador, porque de facto o conheço ainda pouco. Na pré-época fiquei mal impressionado, sobretudo pela dificuldade em aparecer no jogo, em ocasiões em que claramente apareceu mais fixo entrelinhas. Nestas últimas exibições, porém, apareceu com outra mobilidade e conseguiu de facto bons jogos, onde se nota a maior propensão para o transporte de bola e sobretudo a sua qualidade de definição com o pé direito. Ainda assim, parece-me que possa estar a surgir mais um caso de entusiasmo prematuro em torno de um jogador ainda com pouco tempo de jogo. Recordo as expectativas criadas em torno dos primeiros minutos de Licá, Herrera e mesmo Quintero, sendo que nenhum destes conseguiu depois sequer agarram um lugar no onze base de Paulo Fonseca. Não estou com isto a projectar idêntico fado para o destino de Carlos Eduardo - até porque me parece que o seu timing de entrada na equipa é bem melhor - mas parece-me prudente dar tempo ao tempo.

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