20.11.13

Suécia - Portugal (I): Aspectos tácticos

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O declive táctico da 2ª parte - Não me entendam mal! O que se passou na 2ªparte do jogo de Estocolmo foi algo épico, que certamente ficará gravado na memória de quem o viu, e assim o é pela emoção que o jogo transmitiu nesse período. O campo emocional, repito, é o ponto dominante deste desporto, aquele que explica a sua dimensão de fenómeno social e também grande parte do que se passa dentro do campo. Porque não é esse o foco deste espaço, "salto" um pouco esse avassalador lado emocional do jogo, mas não quer isso dizer que o ignore. Porque não é possível perceber verdadeiramente o jogo sem primeiro o sentir.

Enfim, cometendo então a afronta de "saltar" o lado emocional do jogo, parece-me também de grande interesse perceber, do ponto de vista táctico, o que esteve por detrás de tanta agitação num período tão curto e que paradoxalmente surgiu na sequência de 135 minutos de grande conservadorismo táctico. Para quem gosta de analisar o lado táctico do jogo, não há nada melhor do que estas roturas com o que é convencional, e que nos oferecem a possibilidade de observar, ainda que por alguns minutos, cenários várias vezes teorizados mas que raramente há coragem para os experimentar.

Comecemos pelo lado sueco, que foi quem teve a iniciativa. Na 2ªparte a Suécia passou a fixar praticamente os extremos sobre a linha defensiva portuguesa, o que juntando aos dois avançados (Elmander mais fixo e Zlatan mais móvel) obrigou Portugal a fixar praticamente 5 unidades sem capacidade de intervenção interior. A primeira implicação disto foi o jogo partido e, muito importante, a criação de mais espaço para jogar nas primeiras fases do jogo ofensivo sueco. Depois, a Suécia projectou os laterais ofensivamente, tentando dar largura a um jogo que visava sempre fazer chegar a bola à zona de finalização através de cruzamentos largos. Ou seja, para se aventurar no resgate da qualificação, a Suécia passou a ter apenas 3-4 jogadores em condição de reagir à perda de bola, sendo que assumiu sempre apenas 2 elementos na última linha desta estrutura de equilíbrio.

Não menos interessante é ver o que fez Portugal. A equipa portuguesa não alterou praticamente nada relativamente à sua intenção inicial. É verdade que foi empurrada para junto da sua área e também que com bola deixou de ser capaz de circular perante a pressão impulsiva dos suecos (um aspecto a merecer critica, mas que não vou abordar aqui), mas isso aconteceu sobretudo por imposição do seu adversário e não por uma cedência deliberada. É que Portugal manteve a intenção de pressionar a primeira fase de construção sueca praticamente a todo o campo, o que contribuiu para o espaço criado na zona intermédia, e manteve também a sua estratégia defensiva com Ronaldo à esquerda, mais ou menos a fazer de conta que defendia o lateral sueco mas verdadeiramente à espera pela oportunidade da transição.

Tenho dúvidas que esta tivesse sido a melhor forma de reagir ao novo cenário no jogo, sobretudo depois do 0-1. Do ponto de vista defensivo, talvez fosse mais recomendável utilizar linhas mais juntas, mesmo que para isso tivesse de assumir um bloco mais baixo, tentando depois sair em contra-ataque, possivelmente deixando Ronaldo sozinho na frente. De resto, Portugal conseguiu um equilíbrio muito melhor em termos defensivos após a entrada de Ricardo Costa, sendo também certo que nunca saberemos exactamente qual o peso que teve o facto de este ter entrado quando o jogo já estava em 2-3 e com o capital de entusiasmo sueco completamente esfumado.

É verdade que a Suécia não criou muitas ocasiões para construir os seus golos e que estes surgiram de bola parada, mas também o é que nesse período Portugal teve muitas dificuldades para controlar o assalto ofensivo adversário, tanto pelo menor ajuste posicional defensivo, como também pelo controlo que não conseguiu fazer do jogo com bola. Por outro lado, é claro, os golos de Portugal surgem todos com Ronaldo a aproveitar as costas do lateral no momento de transição, algo que tem a ver com a qualidade excepcional do extremo mas também com a estratégia que Paulo Bento define ao assumir deliberadamente o risco de manter Ronaldo como falso defensor.

O conservadorismo no onze - Um dos aspectos mais usados para criticar Paulo Bento tem sido a sua repetição do onze inicial, quase como se não existissem mais soluções. Confesso que me parecem absolutamente forçadas essas críticas. Primeiro, porque de facto, e mesmo nas posições de menor rendimento, é bastante discutível se, no campo estritamente individual, haverá melhores soluções disponíveis. Depois, porque não se pode tratar a Selecção como uma espécie de 'fantasy league' ou 'equipa da semana', em que se escolhe o melhor onze do momento. A equipa portuguesa tem - felizmente! - uma ideia de jogo que vem do Euro'2012 e que dificilmente pode ser trabalhada durante o período de qualificação. Parece-me, por isso, lógico que haja alguma relutância em lançar impulsivamente unidades com pouco tempo de trabalho na Selecção. Paulo Bento, na minha leitura, deu a oportunidade a alguns jogadores durante o trajecto da qualificação, como Vieirinha, Micael ou Neto, mas por motivos diferentes todos eles não foram capazes de agarrar esse estatuto. Em parte, isso revela o grande problema por detrás desta discussão que é falta de soluções de qualidade que neste momento existe na Selecção. Seguir-se-á agora um período diferente, em que se poderá trabalhar mais os aspectos colectivos e incluir aí novos protagonistas. Se em Junho, tudo estiver na mesma havendo unidades a justificar outra oportunidade, aí sim, as críticas poderão fazer mais sentido.

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18.11.13

Portugal - Suécia (III) - análise de jogadas

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5' - A primeira ocasião portuguesa no jogo. Infelizmente, foi um tipo de solução pouco explorada durante o jogo, onde se sucederam os cruzamentos perante uma equipa sueca quase sempre bem posicionada. É claro que não é evidente conseguir ser bem sucedido entrando apenas pelo corredor central, muito poucas equipas o conseguem fazer com eficácia constante e seria falacioso da minha parte estar a usar 1 lance isolado para defender o contrário. Aliás, o sucesso deste movimento só é possível por uma série de factores dificilmente conciliáveis: 1) O facto de ser Ronaldo quem inicia a jogada, o que aumenta a preocupação do jogador que está a fazer a cobertura e liberta Meireles. 2) a qualidade e apetência de Meireles para este tipo de jogada, antecipando a oportunidade (inclusivamente pedindo a bola) e executando de primeira. 3) o movimento de rotura de Moutinho, que acaba por ter um timing perfeito com tudo o resto, algo que é muito difícil de repetir intensionalmente.
Ainda que este lance deva ser usado com alguma cautela, parece-me claro que Portugal poderia e deveria ter envolvido mais o seu jogo no último terço, criando dificuldades de posicionamento à linha defensiva sueca e não se limitando a cruzar repetidamente, como quase sempre sucedeu.

6' - Talvez a melhor ocasião da Suécia, numa jogada que resulta, primeiro, do risco natural de quem tenta pressionar para recuperar a bola e não o consegue e, depois, do problema mais fácil de identificar na equipa portuguesa: o controlo do lateral que joga do lado de Ronaldo. Aqui, é preciso notar que a ausência de acompanhamento de Ronaldo é intencional na equipa portuguesa, por forma a potenciar depois a sua qualidade no momento de transição. Portugal consegue colmatar essa ausência de forma razoável em situações em que a bola entra directamente nesse corredor, porque a linha média consegue ajustar o seu posicionamento e fechar junto de Coentrão. O problema torna-se quase sempre mais grave quando a bola entra primeiro no corredor oposto, fazendo a equipa portuguesa 'bascular' para esse lado, e circulando depois para o corredor oposto, aproveitando o espaço criado nas costas de Ronaldo. Algo que, por exemplo, a Dinamarca soube aproveitar muito bem no Euro'2012 e que a meu ver deve ser trabalhado futuramente (no tempo que Portugal irá ter antes do Mundial, caso se qualifique). Talvez deva ser pedido a Ronaldo outra resposta defensiva em situações deste tipo, onde previsivelmente é mais difícil aos médios fechar no seu corredor.

29' - Uma jogada semelhante à primeira aqui abordada, embora com muito menos probabilidade de sucesso. A nota aqui vai para o instinto dos dois protagonistas da jogada, Meireles e Ronaldo. Meireles, de novo, a revelar a rapidez com que antecipa este tipo de movimento, recebendo e executando imediatamente. É uma qualidade importante no médio porque este tipo de movimento tem geralmente muito potencial uma vez que a linha defensiva está normalmente a ajustar-se posicionalmente à circulação lateral da bola e não necessariamente a controlar a profundidade. Mais à frente, também Ronaldo antecipa a oportunidade, posicionando-se para o movimento de rotura mesmo antes da bola chegar a Meireles. Os jogadores não têm muitas oportunidades por acaso, e Ronaldo tem-nas fundamentalmente porque, para além do capítulo técnico, é também muito forte a movimentar-se sem bola. Aqui, o sucesso acaba por não acontecer porque a linha defensiva sueca se expôs pouco e não cometeu o erro de se adiantar muito numa situação em que a linha média não tinha condições para pressionar o portador da bola.

49' - Uma das melhores ocasiões de Portugal no jogo, num cruzamento que até nem acontece numa posição muito favorável mas que conta com o detalhe de ser antecedido por uma mudança de corredor. Este facto explica a menor preparação da linha defensiva sueca para a resposta a este lance, mesmo tendo uma forte presença numérica dentro da área. Mais uma vez, reforço a ideia sobre a importância de não tornar previsível a situação do cruzamento, o que pode ser decisivo mesmo perante uma grande presença numérica do adversário.

62' - Mais uma excepção áquilo que foi a regra do jogo português no último terço, desta vez com uma penetração interior que resulta da opção de circular por dentro em vez de forçar o cruzamento a partir do corredor lateral. Ainda para mais, parece-me que Portugal tem vários jogadores fortes neste tipo de movimento, quer ao nível do passe, quer ao nível das movimentações de rotura.

82' - O grande destaque no golo português é, a meu ver, a acção de Hugo Almeida e Veloso. Não há nenhum golpe de génio escondido nisto, apenas a simplicidade trivial da rapidez com que ambos reagiram ao lançamento lateral. Sobretudo Hugo Almeida, que sai inclusivamente da zona onde era mais expectável ele estar para criar uma vantagem instantânea no corredor lateral. O facto de se reagir mais rápido em situações "mortas", como lançamentos laterais, faltas ou mesmo pontapés de baliza pode transformar um lance aparentemente inocente em vantagens potencialmente decisivas num jogo que se define tantas e tantas vezes nos pormenores. É também por aqui que se mede a "intensidade" com que os jogadores estão no jogo, e se Portugal construiu esta jogada foi precisamente por se ter mantido intenso no jogo.

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17.11.13

Portugal - Suécia (II): Análise individual

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Rui Patrício - Não se pode dizer que tenha sido uma grande exibição perante tão pouco trabalho, mas não é preciso fazer um grande exercício de memória para ter exemplos de como pode ser importante ser o papel do guarda-redes mesmo em jogos deste tipo. Depois do deslize frente a Israel (cujas implicações nunca saberemos quantificar), respondeu de forma competente, inclusivamente com uma defesa importante.

João Pereira - Portugal encontrou nele, e na facilidade com que o conseguia fazer entrar em jogo, uma solução evidente e muito solicitada no seu jogo ofensivo. João Pereira esteve bem até ao momento da definição, com uma série de cruzamentos perdidos, o que não é novidade porque não é um jogador especialmente eficaz na exploração desse recurso. Aqui, a principal critica vai para o critério de decisão no último terço, porque Portugal ganhou normalmente mais quando a sua opção passou por tentar o envolvimento interior em vez do cruzamento. E ele é bastante mais forte no envolvimento interior. Defensivamente, muito bem em termos posicionais, mantendo-se próximo dos centrais de forma a garantir maior presença na resposta às segundas bolas.

Coentrão - Com um envolvimento menos continuado do que João Pereira, relativamente à influência no último terço. Acabou, por outro lado, por ter maior participação na fase de construção, onde foi regular na resposta que deu. Defensivamente também não foi tão interventivo quanto o lateral do lado oposto. Normalmente imprime maior intensidade ao corredor, mas provavelmente por limitações físicas, esse protagonismo foi desta vez mais intermitente.

Bruno Alves - É possível que tenha festejado o sorteio, porque é frente a estes adversários que invariavelmente melhor se dá. Jogo aéreo, trajectórias longas e sem o incómodo de ter de controlar jogador mais ágeis e rápidos do que ele. O resultado foi, outra vez, um grande jogo, onde para além dos inúmeros duelos que venceu ainda acrescentou a sua competência na execução técnica, com uma boa presença na primeira fase de construção e um cruzamento que por pouco não deu em golo.

Pepe - Não fez um jogo tão bom como Bruno Alves, mas não andou longe. Aliás, se para o seu companheiro de defesa é decisivo o tipo de adversário que encontra, para Pepe é mais ou menos indiferente. Consegue impor-se perante qualquer estilo, provavelmente como poucos centrais do futebol actual, e mais uma vez o mostrou.

Veloso - Acabou por ser decisivo ofensivamente, com o cruzamento para o golo de Ronaldo. No entanto, não foi no capítulo ofensivo que mais se evidenciou ao longo do jogo. Pelo contrário. Sem bola, teve um papel importante, quer no mais tradicional equilíbrio posicional em posse, quer - e sobretudo - na missão mais específica de se aproximar dos centrais de forma a ajudar a controlar o jogo directo dos suecos. Um posicionamento que normalmente não é o seu, mas que o foi desta vez por motivos estratégicos e que produziu grandes resultados colectivos. Com bola, por outro lado, deixou-se eclipsar por Elmander (como mostram os seus números de participação em posse, de resto), cujo objectivo era neutralizar a acção do pivot português. Não é a primeira vez que isto acontece, e se Veloso pode acrescentar bastante ao jogo em termos de desempenho técnico, também é verdade que se torna muito fácil neutralizá-lo.

Meireles - Também não foi das suas melhores exibições, apesar do contributo positivo em vários aspectos. Não apareceu muito no jogo, cedendo maior protagonismo para Moutinho, o que não é incomum. Talvez a maior critica vá para a ausência de envolvimento nos corredores laterais, particularmente à esquerda onde se espera que abra mais vezes, dando apoio a Coentrão e permitindo que Ronaldo se integre em zonas interiores. Não aconteceu. Por outro lado, tem sempre um excelente instinto relativamente aos passes de rotura, sendo célere a perceber a oportunidade de explorar a profundidade a partir do corredor central, quando a linha defensiva contrária está a subir. Foi assim, por exemplo, que isolou Moutinho para a primeira oportunidade do jogo.

Moutinho - Começou por ser o protagonista da primeira ocasião portuguesa, num papel de finalizador que foi sempre o seu ponto mais débil. Depois assumiu o protagonismo habitual, sendo o médio mais influente no jogo e estando competente em praticamente todos os domínios do jogo. Ainda assim, há que destacar o seu constante envolvimento sobre o corredor direito, onde também ele deixou a desejar em termos de decisão no último terço, optando demasiadas vezes por forçar o cruzamento perante uma defensiva sueca invariavelmente preparada para responder a essa alternativa.

Nani - É um jogador irreconhecível, parecendo não ser capaz de extrair o potencial que se escondeu na sombra de um horrível momento de confiança - provavelmente o pior da carreira. O melhor, a meu ver, seria simplificar o mais possível e deixar que a confiança se fosse instalando aos poucos, mas estará provavelmente demasiado ansioso em fazer bem para que tenha essa paciência. Possivelmente também não terá ajudado uma presença posicional errática, demasiado tempo escondido do jogo e demasiado tempo fora do seu corredor habitual, do lado direito. É preocupante porque não há alternativa para a qualidade que pode acrescentar.

Ronaldo - Foi o herói do jogo e por pouco não foi mesmo suficiente para deixar tudo muito próximo de estar resolvido. Mas não foi um grande jogo para o seu patamar exibicional. Pareceu ansioso em intervir no jogo, e a própria equipa em solicitá-lo. Não é um bom sinal, até porque raramente algo forçado produz os mesmos resultados do que quando acontece naturalmente. A sua mobilidade é uma mais valia e deve ser potenciada, mas não ao ponto de se abdicar da ordem colectiva ou de o retirar da zona de definição, como por vezes aconteceu. Mas, lá está, há jogadores e jogadores, e para Ronaldo um dia menos bom não deixa de ser um dia onde consegue ser decisivo.

Postiga - Com Paulo Bento encontrou constância na sua utilidade na Selecção. Curiosamente, não dentro do perfil que durante tanto tempo lhe atribuíram, mas fundamentalmente como elemento de finalização, já que a sua participação nas restantes fases do jogo é invariavelmente escassa. Como é um bom executante, tem conseguido um bom aproveitamento das ocasiões de que vem desfrutando. O problema é que nem sempre lhe é fácil encontrar ocasiões e desta vez teve apenas uma, na sequência de um pontapé de canto. 

Hugo Almeida - Tem um perfil normalmente diferente do de Postiga, oferecendo maior dinâmica ao jogo ofensivo da equipa, nomeadamente por trocar várias vezes de lugar com Ronaldo. Algo que acabou por ser decisivo neste caso, já que foi com ele à esquerda e Ronaldo ao meio que Portugal construiu as suas melhores ocasiões. Paradoxalmente, o grande problema de Hugo Almeida tem sido a resposta na sua zona natural, onde para além de ter uma eficiência significativamente inferior à de Postiga revela alguma relação quase autista com a regra do fora-de-jogo.

Josué - Entrou para o lugar de Meireles e assumiu uma presença mais constante na primeira fase de construção, envolvendo-se menos nas dinâmicas em fases mais ofensivas do jogo. Algo que se pode considerar normal face ao pouco tempo que tem na equipa. Surge como mais uma solução para uma posição onde a meu ver não abundam alternativas de grande qualidade no futebol português actual. Estará nele a resposta? Até é possível que assim venha a ser, mas não sou da opinião de que já o seja.

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16.11.13

Portugal - Suécia (I): Aspectos Colectivos

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O melhor de Portugal - Concentração, controlo e a abordagem estratégica defensiva. Não que a Suécia tivesse ficado completamente em branco em termos de oportunidades para marcar, mas mesmo considerando essas excepções foi muito boa a resposta portuguesa no controlo do adversário. Em particular, sublinhar o enfoque estratégico no controlo do jogo directo, com a preocupação de aproximar os laterais dos centrais nas reposições longas e de manter o pivot (Veloso) mais próximo dos centrais, relativamente ao que é costume. Naturalmente, o sucesso do desempenho português neste particular tem muito a ver com a eficácia dos jogadores, e aí há que destacar a forma como mantiveram os níveis de concentração ao longo dos 90', e também a qualidade de jogadores como Pepe e Bruno Alves na resposta aos duelos aéreos. Também nota para o controlo da transição defensiva, onde o bom desempenho português já é mais habitual e não necessitou de uma abordagem estratégica tão específica. Sem sofrer, também fica mais fácil ganhar.

O pior de Portugal - Falta de lucidez no último terço. Paulo Bento lamentou-se - e vem-se lamentando - da falta de eficácia face ao domínio territorial que a equipa exerce. O facto é que a esse domínio não vem correspondendo um grande volume de ocasiões claras de golo. Sobretudo, e a meu ver, há que reflectir sobre a forma como a equipa decidiu no último terço. Portugal encontrou com grande facilidade espaço para progredir no corredor direito, aproveitando a projecção de João Pereira nas costas do extremo sueco. O problema é que, depois, se limitou a embater contra o muro sueco, que é como quem diz, a cruzar para uma zona onde os suecos estavam invariavelmente bem posicionados. E aqui, há que realçar também o mérito do adversário, que de facto se posicionou quase sempre bem para a resposta a este tipo de lance. Do lado português, a minha critica vai para a pouca tendência para trabalhar mais o jogo ofensivo, optando por tentar entrar através de combinações interiores, ou tentando desfazer o posicionamento da defesa antes do cruzamento. João Pereira e João Moutinho serão os principais visados aqui, já que foram os jogadores que mais forçaram cruzamentos em situações menos favoráveis, para mais qualquer dos dois esteve pouco feliz no desempenho técnico dos cruzamentos, o que também ajuda ao insucesso. Outra nota critica para o jogo ofensivo português vai para as movimentações de Meireles, Nani e Ronaldo. Meireles por não ter integrado a habitual dinâmica ao longo do corredor esquerdo, isolando em demasia Coentrão. Nani por ter andado sempre distante da direita, acabando por contribuir muito pouco para a capacidade criativa da equipa. Ronaldo por alguma ansiedade em intervir no jogo, acabando por forçar alguns movimentos pouco coerentes para ordem colectiva e, sobretudo, que o distanciavam excessivamente da zona de finalização. Nesse sentido, acabou por ser positiva a entrada de Hugo Almeida, já que foi com Almeida à esquerda e Ronaldo no centro que Portugal conseguiu as suas melhores ocasiões e, inclusivamente, o golo.

E agora? - A vitória foi muito importante, 1-0 é um bom resultado, mas tudo está, obviamente, longe de estar resolvido. A questão que coloco é que diferenças poderá acrescentar a Suécia no segundo jogo? Não conhecendo bem a equipa nórdica, é-me difícil responder convictamente a essa questão. Se repetir a insistência quase exclusiva no jogo directo, as hipóteses portuguesas são boas, já que a equipa parece muito bem preparada para responder a essa solução. Também é certo que a equipa sueca acabará por assumir outros riscos no jogo, o que trará a Portugal mais ameaças mas também a possibilidade de ter o espaço que lhe faltou nesta primeira mão. Apesar de tudo, e por aquilo que conheço da mentalidade nórdica, não me parece provável que assuma grande exposição desde o primeiro minuto, talvez esperando pela segunda parte para o fazer. No meio de todas estas incertezas, há pelo menos uma coisa que para mim é muito clara e tem a ver com a abordagem mental da equipa sueca, jogando perante o seu público. No passado recente, tivemos jogos muito complicados em terras nórdicas, nomeadamente na Noruega e na Dinamarca, onde nos demos muito mal com a intensidade do jogo adversário e onde o factor casa acabou por ter um peso muito relevante no desempenho das equipas. Não tenho dúvidas de que essas condições se vão repetir, mas esperemos que desta vez possamos ter também outra resposta da equipa portuguesa.

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14.11.13

Benfica: São os cruzamentos, estúpido!

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Começo por sublinhar que o título nem tem destinatário concreto, nem muito menos pretende ser insultuoso para quem quer que seja. A ideia é apenas recuperar a famosa frase de Bill Clinton, adaptando-a ao recente problema do Benfica.
Que há algo de estranho no registo defensivo do Benfica, já o percebemos há muito tempo. Particularmente, o problema da estrondosa eficácia dos seus adversários, é algo que já venho destacando desde a pré temporada. Recentemente, ganhou notoriedade o problema das bolas paradas, que como já escrevi estará possivelmente a ser sobrevalorizado. Uma análise comparativa com os rivais, aliás, desmente que o Benfica sofra proporcionalmente muito mais golos de bola parada do que Porto e Sporting. O problema, no caso do Benfica, está mais na forma como foi sucessivamente batido em pontapés de canto e de uma forma directa (isto é com finalização após o primeiro cruzamento), e não nas bolas paradas como um todo.

Mas, se nos distanciarmos da origem da jogada e nos concentrarmos apenas na origem da finalização, numa análise que separa remates, situações de 1x1 com o guarda-redes, cruzamentos e penáltis, aí sim chegamos a um valor verdadeiramente desproporcionado no registo defensivo do Benfica, quando comparado com os seus rivais. Os cruzamentos! 11 dos 15 golos tiveram origem em cruzamentos, sendo que aqui estão incluídos os 6 de bola parada. O que também emerge desta análise é o extraordinário aproveitamento dos adversários do Benfica quando conseguem finalizar por esta via. 11 das 16 ocasiões terminaram em golo, sendo que Artur apenas por 1 vez (frente ao Anderlecht) conseguiu impedir um golo numa ocasião clara finalizada após cruzamento. Se compararmos com os guarda-redes dos rivais, Patrício e Hélton já conseguiram 3 defesas cada, em ocasiões de golo finalizadas após cruzamento, sendo que ambos também partilham o número de golos sofridos por esta via, 4. Para concluir a análise, de referir que já na pré época, e nos 8 jogos analisados, o Benfica havia sofrido 8 dos 13 golos na sequência de cruzamentos. O que, tudo somado, talvez já seja mesmo demasiada coincidência...

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13.11.13

Guimarães - Porto: Estatística e opinião

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Promessa não cumprida - A primeira parte prometeu uma exibição de outro nível do Porto. Com o Vitória a ter muitas dificuldades em controlar alguns espaços fundamentais e também com alguma exposição no momento de transição, todos os sinais apontavam para que tudo culminasse numa das exibições mais expressivas do Porto em termos de domínio e proximidade com o golo. Surpreendentemente não foi isso que aconteceu, e a primeira parte serviu apenas para resolver o jogo e a eliminatória. Um "apenas" que, obviamente, era o mais importante, mas que acaba por saber a pouco face à expectativa criada. Na segunda parte, o Vitória apareceu com maior agressividade, mas também com mais risco em termos de exposição dos espaços. O Porto, estranhamente, encolheu-se, deixando de se impor pela posse, perdendo ligação no seu jogo e recorrendo cada vez mais a uma construção directa, o que favoreceu claramente o Vitória.

Sinais repetidos na dinâmica com bola - Já o havia referido a partir do jogo de São Petersburgo e o Porto repetiu sinais de uma tendência para alicerçar o seu jogo na projecção dos laterais, com Josué mais claramente numa posição interior, próximo de Lucho, e sem complexos na afirmação do duplo-pivot, algo que pareceu ser um problema para Paulo Fonseca até aqui. É uma dinâmica que, como já escrevi, me parece ajustada ao perfil das características individuais dos jogadores ao dispor do treinador, restando saber como tudo evolui, até porque não é hoje em dia uma solução muito comum. Outra expectativa passa por ver Quintero no lugar de Josué, numa missão marcadamente mais interior, mas sem que isso implique abdicar da mais valia que representa Lucho naquela zona.

Desajuste táctico do Vitória - A meu ver, a forma como o Vitória abordou o jogo não favoreceu muito os seus objectivos. Fundamentalmente, pelo comportamento do seu meio campo. O Porto fez baixar Defour e Fernando para a fase de construção, e exacerbou a presença entrelinhas, com Josué a juntar-se a Lucho. Ora, o Vitória apresentou-se com três médios, com um mais recuado, mas com os outros dois muito adiantados, atraídos pelo tal baixar do duplo pivot portista, e aumentando assim a distância para o pivot, que ficava sozinho numa zona onde repetidamente apareciam duas unidades, Lucho e Josué. Foi uma situação que penalizou muito a equipa na primeira parte, acabando por ser esse período suficiente para que a eliminatória ficasse resolvida.

Individualidades (Porto)
Fabiano - Um jogo diz sempre pouco, e se for sobre um guarda redes, diz ainda menos. Ainda assim, foi uma exibição muito boa de Fabiano, sempre bem em praticamente todos os lances que teve para resolver e também bastante eficiente nas reposições longas do jogo, algo que nem sempre é fácil para os guarda redes.

Danilo - Está normalmente dependente do seu impacto no último terço, porque no resto raramente ultrapassa a modéstia. E assim se explica o menor fulgor relativamente a exibições recentes.

Alex Sandro - Ao contrário de Danilo, costuma ser impressionante em praticamente todos os capítulos do jogo. Nesse sentido, e sobretudo na gestão da posse onde esteve desconcentrado e pouco consequente, esta foi uma das exibições mais vulgares de que tenho memória.

Otamendi - Pelo menos não repetiu as perdas de bola dos últimos jogos, e isso já é um factor muito positivo. Mas ainda assim, não escondeu a fase de alguma instabilidade em alguns momentos, nomeadamente no lance que perdeu para Maazou.

Mangala - Acabou expulso, mas não creio até que tivesse sido das suas exibições menos conseguidas do passado recente. Aliás, até estava a ser o mais interventivo defensivamente quando saiu, o que ao contrário da imagem que passa não é assim tão comum nele.

Fernando - Sem dúvida o melhor em campo, e provavelmente a exibição globalmente mais conseguida em toda a temporada. Foi o jogador mais presente em posse, onde fez jogar a equipa com segurança. Foi, como sempre, uma presença importante em termos de capacidade de intervenção defensiva na linha média. E foi, finalmente, uma das unidades mais influentes também em termos ofensivos, estando presente em 2 das 4 ocasiões da equipa, uma das quais resultou em golo (acidental, mas que também conta).

Defour - Não teve a exuberância de Fernando, mas esteve também ele muito bem no papel que lhe foi confiado. Voltando a mostrar, aliás, que é um dos valores seguros do plantel e que colocar os holofotes na sua posição, face a outros problemas da equipa, é algo que não faz sentido algum. Muito boa a presença defensiva, e muito bom o passe para Lucho no segundo golo.

Lucho - O habitual, sem destoar em nenhum sentido e mantendo a bitola alta. Muito forte na movimentação entrelinhas e muito competente nas tarefas defensivas, fruto do notável sentido posicional que tem, tanto a defender como atacar.

Josué - É evidente a sua qualidade técnica e teoricamente a liberdade que lhe é dada para aparecer no corredor central poderia beneficiá-lo. O facto é que é para que a ideia de ter maior presença entrelinhas tenha verdadeira utilidade, é preciso que os jogadores tenham a capacidade de ser consequentes no último terço, aproximando a equipa do golo. E neste particular, Josué ainda não deu mostras de ser uma solução consistente.

Varela - Nem a equipa o procurou, nem ele próprio se mostrou suficientemente inspirado para representar uma mais-valia em termos ofensivos. Também é verdade que saiu muito cedo e numa fase em que o jogo prometia oferecer mais espaço.

Jackson - Voltou aos golos - a meu ver um disparate estar a fazer disso um tema, perante o rendimento que tem tido - voltou a dar sinais da mais valia excepcional que representa em praticamente todos os capítulos do jogo, mas nem por isso foi uma exibição inspirada. Aliás, pelo contrário.

Kelvin - Paulo Fonseca deu-lhe minutos e face ao actual panorama entre os extremos do plantel, é bem provável que Kelvin não volte a ter uma oportunidade de afirmação como tem pelo menos até ao mercado de Janeiro. Nesse particular, foram 31 minutos desperdiçados.

Carlos Eduardo - Face ao que fez na pré época e às soluções do plantel, é até questionável se justifica a presença no plantel. Não vai ser fácil inverter o cenário, porque teria de mostrar muito no pouco tempo que previsivelmente lhe será concedido.

Maicon - A meu ver faria todo o sentido ter-lhe sido dada uma oportunidade. Não é difícil perceber que, para além do capítulo técnico, há um interesse em valorizar duas unidades que ambicionarão estar presentes no Mundial e duas selecções tão importantes como a Argentina e a França. E é fundamentalmente por isso que dificilmente terá muito tempo de utilização nas principais competições. A primeira excepção está aberta com a expulsão de Mangala.


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12.11.13

7 lances decisivos do derbi

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10' - Ao primeiro lance de algum desequilíbrio no jogo corresponde a jogada que antecede o livre que dá origem ao 1º golo. O lance é interessante porque aproveita o espaço criado pela presença interior de Markovic, muito próximo de Cardozo, o que atrai Jefferson para junto da última linha. Este comportamento cria um espaço no corredor direito e sabia-se de antemão que seria importante para o Sporting controlar a acção de André Almeida neste tipo de situação. O que sucede é que Capel arrisca uma intercepção interior e acaba por desguarnecer o tal espaço criado pela dinâmica da estrutura do Benfica. De notar, finalmente, que este foi um caso excepcional porque enquanto o Benfica manteve Markovic com este comportamento, o jogo raramente se disputou no corredor direito.

14' - Já em vantagem, o Benfica cria uma boa situação de finalização onde se realçam três pontos: 1) a capacidade de Cardozo nos duelos com os centrais; 2) a boa presença de Enzo Perez no aproveitamento dos espaços; 3) a excepcional qualidade do pé esquerdo de Cardozo. 3 pontos que não foram apenas importantes neste lance, mas também decisivos na definição do jogo.

37' - No lance do 1º golo do Sporting sobressai o movimento interior de Montero. A indefinição de Luisão é decisiva porque permite ao avançado virar-se, o que seria desde logo indesejável para quem defende. Esta hesitação tem a ver sobretudo com o facto de Garay estar também fora da sua posição, o que abriria um buraco importante na zona central (provavelmente, Sílvio deveria ter fechado mais por dentro perante a saída de Garay). Depois, há uma grande indefinição na linha média do Benfica, o que resulta numa passividade perante a acção de Montero. Finalmente, e mais uma vez, não há preocupação da linha média em compensar a saída de Luisão, o que acaba por condicionar a resposta ao cruzamento. Isto, mesmo sendo complicado afirmar que se essa compensação tivesse existido, o lance seria posteriormente controlado, porque o cruzamento sai para uma zona muito perto da baliza, sendo inclusivamente finalizado já dentro da pequena área, por Capel. E, desta última constatação surge a dúvida se Artur não poderia ter interceptado o cruzamento?

41' - O lance do 2º golo do Benfica também me parece ser interessante, porque mostra um pouco daquilo que foi o jogo, sobretudo na primeira parte. Boa presença pressionante do Sporting, a dificultar muito a capacidade do Benfica em ter bola e construir o seu jogo através da circulação. A bola acaba por ser recuada para Artur que recorre depois ao pontapé longo, sempre em busca de Cardozo. E aqui começa a fragilidade da estratégia do Sporting. Markovic junta-se a Cardozo, criando uma boa presença junto dos centrais e com alguma distância para os dois médios mais defensivos do Sporting (Adrien e William), "encaixados" no meio campo do Benfica. Depois, o já várias vezes destacado mérito de Cardozo neste tipo de duelos e, finalmente, também a antecipação de Enzo sobre Adrien no ataque à 2ª bola. Quando Enzo ganha a bola, o desequilíbrio já está praticamente criado, porque o Sporting fica com a sua linha defensiva muito exposta. No entanto, ainda seria possível controlar o cruzamento, o que não acontece porque toda a gente se esqueceu de Cardozo, que fica para trás por ter caído no inicio do lance. Maurício tem de sair sobre Enzo, num primeiro momento, e fica fora da zona central, com Rojo e Jefferson a preencher esse espaço. Jefferson é atraído pela presença de Markovic, e como este ataca o primeiro poste, onde está Rojo, o lateral acaba praticamente encostado ao central. Nas suas costas, entretanto, sobra Cardozo, que passou em claro quer a Jefferson, quer a Adrien. E aqui, novamente um caso em que perante a saída de um elemento da última linha, os médios se revelam completamente indiferentes ao equilíbrio na zona fundamental da sua defesa. O Sporting aborda o cruzamento com 2 unidades na primeira linha à frente de Patrício, e nem William nem Adrien revelam em algum momento qualquer preocupação com o que se passa no sector mais atrasado. Uma insensibilidade intersectorial dos médios que não é exclusiva do Sporting e que já tem sido comentada em vários casos aqui abordados.

44' - O 3º golo do Benfica resulta da exploração do momento de transição. A origem do desequilíbrio é óbvia e não tem tanto a ver com o primeiro passe perdido por William, que acontece numa zona já adiantada do terreno e sendo inclusivamente interceptada pela última linha do Benfica. O que sucede, em primeiro lugar, é que o Sporting se encontra demasiado exposto em termos posicionais para reagir a uma eventual perda. O lateral (Piris) está envolvido ofensivamente, assim como os dois médios interiores (Adrien e A.Martins), ambos à frente da linha da bola. Sobrando apenas William e os dois centrais, já que o próprio Jefferson está muito aberto. Normalmente, com a posse nesta zona do terreno, as equipas devem ter a preocupação de manter no mínimo 4 a 5 jogadores em condições de recuperar em caso de perda, até para que se possam garantir também linhas de passe na zona da bola e não obrigar o portador da bola a verticalizar o jogo, que é o que sucede. Ainda assim, o erro de William surge na sua incapacidade de interceptar o passe vertical para Gaitan, o que estava ao seu alcance. A partir desse momento, e mesmo com tanta distância para a baliza, esta seria sempre uma situação difícil de controlar, face à exposição numérica do Sporting. Sobra ainda sublinhar 3 aspectos decisivos no desfecho da jogada: 1) A dificuldade de recuperação de William, que parte na mesma linha de Amorim (que nem é um jogador particularmente rápido), mas não consegue ser útil no remedeio da situação; 2) o bom movimento ofensivo do Benfica, especialmente de Ruben Amorim, que imediatamente abre a sua trajectória de forma a potenciar a exposição de uma linha defensiva já reduzida a apenas 2 unidades, mas também de Gaitan, a conduzir de forma a obrigar que um dos elementos da linha defensiva saísse sobre si para depois soltar a bola; 3) mais uma vez, a finalização de Cardozo, que sendo em boa posição está longe de ser um lance evidente, já que a progressão da jogada foi bem condicionada pela última linha do Sporting, que aguentou até ao limite da área e não caiu em tentação de sair precipitadamente em contenção.

84' - Uma soberana oportunidade para o Sporting empatar, já na recta final do período regulamentar. O que sobressai deste lance é alguma desorganização na linha média do Benfica, em termos de ajuste posicional. A equipa é atraída para o lado direito, revelando depois alguma dificuldade em ajustar o posicionamento à circulação lateral do Sporting e verificando-se também alguma falta de coerência no comportamento dos diferentes jogadores. Por exemplo, Gaitan faz um acompanhamento individual a Piris, enquanto que o outro extremo, Ivan Cavaleiro, acaba no corredor central, inclusivamente atrás dos restantes médios. Algo que terá muito de circunstancial, mas que terá também a ver com alguma ausência de coordenação da equipa dentro de uma estrutura de 3 médios. O que resulta é que apesar do Sporting ter nesta altura desvantagem teórica no meio campo, William fica livre para receber, virar e solicitar a boa presença numérica da equipa junto dos centrais contrários, com Montero e Slimani nesta altura em simultâneo. Depois, mérito para Montero, sobretudo, e também para Mané no movimento interior. Demérito, novamente, para a linha média do Benfica que depois de perder controlo sobre William, também não chega a tempo de auxiliar os centrais no controlo da jogada.

112' - Provavelmente a ocasião mais flagrante dos 120' de jogo. O lance tem origem num lançamento lateral, ainda muito distante da baliza de Patrício, mas que vai ser muito mal abordado pelo Sporting. Primeiro, a acção de Cardozo, que tira partido da diferença de estatura com Jefferson (provavelmente, o Sporting deveria ter feito uma troca com Rojo para a abordagem a este lance). Depois, o mérito de Lima e o demérito de Rojo. Começando pelo central do Sporting, que se deixa antecipar num primeiro momento e que depois aborda mal o lance, acabando por ver a sua equipa exposta. Quanto a Lima, toda a sua acção é muito bem conseguida, saindo da marcação a Rojo e fazendo depois um passe também ele excelente para a entrada de Ivan Cavaleiro. Vale ao Sporting a igualmente notável reacção de Patrício e o desacerto posterior de André Gomes.

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11.11.13

Benfica - Sporting: Estatística e opinião

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Bom e justo - Começando com uma apreciação mais geral, o derbi foi bom e justo. Bom - ou mais do que isso - pelos trambolhões emocionais, que nos fazem recordar a verdadeira razão deste jogo ser tão cativante para tanta gente. Mas também, bom, porque foi bem jogado, tendo o volume de golos mais a ver com o mérito de quem ataca do que com o demérito de quem defende. Isto, apesar dos dedos se estenderem sempre no mesmo sentido acusatório. Justo, porque foi o Benfica quem mereceu mais ficar com os louros finais. Mais sobre isso em seguida...

Benfica mais objectivo, mas sem repetir o Pireu - De facto, na minha opinião, o Benfica justificou o triunfo, mas justificou-o fundamentalmente pela maior proximidade com o golo. Aqui, há que destacar evidentemente uma unidade, Cardozo. Pelos golos, claro, pelas oportunidades que chamou a si, mas também por ter sido importante num aspecto específico do jogo - as primeiras bolas aéreas - que se revelou muito importante para que o Benfica contornasse os problemas que o Sporting causou à sua circulação baixa. E, aqui, entro na apreciação ao balanceamento do jogo, onde o Sporting não foi inferior ao Benfica. Antes pelo contrário, o Sporting conseguiu lidar sempre muito melhor com o pressing do Benfica do que o contrário, acabando por promover mais circulação, sobretudo durante o tempo regulamentar.

Aqui, duas notas importantes de ambos os lados. Do lado do Benfica, a dificuldade da equipa em ser mais agressiva sobre a primeira fase de construção do Sporting quando perde presença junto de Cardozo. Jesus tentou aproximar Markovic do corredor central para o fazer, mas rapidamente isso deixou de ser possível, acabando o sérvio por ter de se fixar mais na ala. É uma situação que denota alguma falta de ajustamento da dinâmica pretendida (pressing alto) à nova estrutura implementada (4-3-3). Do lado do Sporting, a capacidade de condicionar o jogo em posse do Benfica - tal e qual havia feito no jogo do campeonato - mas depois dificuldades em lidar com a primeira bola na construção longa do Benfica, algo que já havia sucedido frente ao Porto e que voltou a acontecer agora, mesmo se o Benfica nem sempre explorou devidamente essa alternativa.

Em suma, o Benfica foi melhor essencialmente por ter conseguido maior objectividade no seu jogo, retirando partido do papel de Cardozo e também do momento de transição. Mas não se repetiu, de maneira nenhuma, o filme do Pireu. Aliás, nem era de esperar...

Bolas paradas - Uma nota para o problema das bolas paradas do Benfica. É evidente que a equipa tem sido demasiado batida neste tipo de lances e que isso justifica obviamente uma revisão do estado de coisas. Mas há a meu ver algum exagero na forma como se aborda o tema. Aqui ficam dois pontos de opinião sobre o tema: 1) não há nenhuma equipa que seja imune a este tipo de situação, e o factor aleatório também conta muito na percepção que é tida, porque bastam 2 ou 3 lances menos conseguidos para que se questione tudo (o que não invalida, repito, que o Benfica deva de facto rever o problema). 2) o tema de zona vs hxh é abordado de forma absurda pelos defensores de ambos os métodos. Ninguém concretiza uma análise que mostre objectivamente que um método é mais eficaz do que o outro, e o que fazem é esgrimir argumentos que servem, ora a uns, ora a outros, em função da situação. O Benfica defende à zona, tem condições (estatura) para o fazer, e não vejo nenhum motivo para que mude Aliás, muito pelo contrário.

Individualidades (Benfica)
Artur - Continua a não ter responsabilidades nos golos. Continua com uma eficácia horrível nas ocasiões de golo que vão à baliza.

André Almeida - A forma como o Benfica começou o jogo, sem um jogador fixo sobre a direita, dava-lhe alguma responsabilidade e exposição. Paradoxalmente, foi nesse período que esteve melhor. Porque começou por ser ele a causar o desequilíbrio que deu origem ao livre do 1 golo, e porque na primeira parte o jogo se inclinou exageradamente para o outro corredor. Na segunda parte, e quando o Sporting passou a forçar a saída pela esquerda, aí sim, teve mais problemas, não estando isento de alguns erros.

Sílvio - Ao contrário do A.Almeida, foi na 1 parte que teve mais trabalho. Mas é precisamente nesse registo que se torna mais útil e deu-se bem. Ofensivamente, tem dificuldades naturais em dar profundidade ao corredor.

Luisão - Houve uma grande assimetria no protagonismo com Garay. Luisão teve muito menos bola (estratégico?), sentindo nesse aspecto muitas dificuldades perante a pressão do Sporting. A defender, interveio sobretudo em organização, estando bem sobretudo em trajectórias mais largas, mas tendo algumas dificuldades perante os movimentos interiores de Montero. Se não fosse o golo, seria um jogo modesto.

Garay - Bem mais interventivo do que Luisão com bola e também com mais trabalho, sobretudo pela forma como o jogo se instalou no seu lado na primeira parte. Acabou por fazer um jogo regular em quase todos os planos, embora também ele tenha tido dificuldades perante a presença interior de Montero.

Matic - Foi provavelmente o melhor jogo que lhe vi esta temporada naquilo que deve ser o seu papel. É muito forte a intervir à frente da defesa e tem qualidade para acrescentar algo com bola. O problema de Matic tem sido a perda de critério, talvez deslumbrado pela sua própria capacidade, e acabando por perder eficácia naquilo que realmente é a sua missão. Não foi dos mais vistosos, mas a meu ver foi dos mais importantes no sucesso da equipa.

Ruben Amorim - De novo, tal como frente ao Olympiakos, com excelente critério com bola, acrescentando a simplicidade que tantas vezes falta às primeiras fases ofensivas da equipa. Ainda complementou com 1 assistência, uma exibição que do ponto de vista defensivo não conseguiu grande eficácia em termos de intervenção directa.

Enzo Perez - Jogo de grande entrega, como sempre, correndo muito o que nem sempre é algo positivo. O grande mérito da sua presença foi a transversalidade das suas acções, conseguindo ser útil e eficaz em praticamente todos os capítulos. Defensivamente, em posse e em termos de influência criativa.

Gaitan - Fantástico! A capacidade criativa já é esperada, tendo estado em 4 ocasiões da equipa. Depois, passou por vários papeis, emprestando sempre a sua qualidade com bola. Defensivamente, o lado do seu jogo onde é francamente subestimado, apenas foi superado em termos de intervenções defensivas por Matic e André Almeida, o que para um extremo é tremendo. Apenas peca por algum deslumbramento com bola, especialmente em fases mais adiantadas dos jogos, onde o excesso de confiança, e provavelmente o cansaço, o faz procurar lances para a plateia mas que objectivamente tendem a prejudicar a equipa.

Markovic - Pensei que pudesse ter outro impacto, mas não o teve. A ideia de o projectar na profundidade, como frente ao Olympiakos, não poderia resultar perante uma defesa mais baixa como é a do Sporting. Tem um potencial tremendo, mas ainda não sabe como explorá-lo, perdendo-se várias vezes nos jogos. É um desafio para ele e para Jesus e que fará toda a diferença na sua carreira.

Cardozo - Já escrevi muito sobre ele. Foi o jogador decisivo do jogo, com uma importância que vai para além dos golos e que tem a ver com a forma como cria problemas nos duelos com os centrais adversários. Depois, é verdade que a sua influência em termos de envolvimento no jogo (quantidade) é baixa, e que isso é um ponto negativo.

Ivan - A sua oportunidade está aí, com minutos em praticamente todos os jogos. A sua intermitência sugere que possa não ser fácil agarrar o estatuto.

André Gomes - Tem um óptimo critério, mas faltam-lhe outras características para o levar até patamares mais elevados. Cumpre quase sempre, mas apenas isso, e o tempo dirá se será capaz ou não de evoluir para outro nível.

Lima - Continuo a sublinhar que se valoriza excessivamente o aproveitamento em termos de finalização. Não que esse aproveitamento não seja relevante, mas porque no curto prazo não é conclusivo sobre o valor do jogador. Mais uma vez, Lima precisou de pouco tempo para causar estragos, e é um valor seguríssimo desta equipa.

Individualidades (Sporting)
Patrício - Fez um grande jogo, manchado pelo golo decisivo. Este será dos erros mais embaraçosos em termos mediáticos, mas parece-me ser dos que mais atenuantes têm para o guarda redes. Podia, e provavelmente devia, ter feito melhor, mas é um lance totalmente imprevisível, com um ressalto improvável a uma distância muito curta. Já cometei erros bem mais censuráveis, a meu ver...

Piris - Grande jogo do lateral, repetindo uma grande eficácia defensiva, quer nos duelos, quer em termos posicionais. E não era um jogo fácil, porque tinha Gaitan pela sua frente. Ofensivamente não deu para mostrar mais, mas fica claramente reforçada a sua candidatura à titularidade.

Jefferson - Perante um extremo falso, teve dificuldades em ser útil defensivamente, e realizou um jogo modesto a esse nível. A partir da segunda parte passou a ter outra utilidade em termos de envolvimento ofensivo, que é afinal o seu ponto forte. Mas desta vez não conseguiu ser determinante.

Maurício - Teve dificuldades perante Cardozo, ganhando uns duelos e perdendo também vários. Mas aí o mérito é mais do avançado, tendo Maurício feito um jogo em crescendo nesse particular. Como sempre, o dedo está virado para os centrais quando se sofrem tantos golos, mas não concordo em nada com essa responsabilização no caso do Sporting. Com bola, manteve um critério sóbrio, ajustado ao seu perfil e à sua função, o que é sempre o mais importante. Com o golo que marcou, parece-me que fica composta uma exibição bastante positiva.

Rojo - Em grande parte a análise é semelhante à de Maurício, embora no caso de Rojo tenha havido alguns lances onde me parece que a sua abordagem não terá sido a melhor, o que num jogo de pormenores faz muita diferença. Mas, repito a ideia, não foi pelos centrais que o Sporting perdeu.

William - Um dos jogos menos conseguidos que lhe vi. Mais dificuldades em posse, embora tenha mantido uma presença globalmente bastante positiva. E dificuldades também em termos defensivos, o que não é tanto uma novidade. Particularmente, e para além das suas limitações mais naturais, tem de ser mais contundente nas primeira bolas aéreas, onde perdeu alguns duelos onde tinha vantagem. Esteve no inicio da transição que dá origem ao terceiro golo.

Adrien - Jogo de grande entrega, conseguindo ser protagonista no livre que dá o 3-3. Aparece no jogo com uns pormenores que lhe dão muito destaque, mas era preferível que tivesse uma presença mais constante em termos de qualidade e influência em posse, coisa que não tem e que o impede de ser realmente uma mais valia para a equipa.

André Martins - O seu trabalho sem bola, nomeadamente na 1 linha do pressing é meritório, mas tem muitas dificuldades em ser uma presença mais influente no jogo da equipa a partir desta posição. Na primeira parte, com o jogo a ser canalisado muito pelo seu lado, não foi capaz de se afirmar, e na segunda passou a intervir em zonas mais baixas, o que o fez finalmente aparecer com mais frequência. Foi, no entanto, precisamente nessa altura que saiu.

Capel - Marcou o golo e pouco mais vezes tocou na bola na primeira parte, com o jogo muito concentrado no flanco oposto. Na segunda trocou de lado, mas o Sporting também passou a jogar mais pela esquerda, o que de novo lhe retirou protagonismo. A ideia, parece-me, era inclui-lo em posições mais interiores, baixando Martins para intervir mais na construção. Uma solução que não estava a desagradar, mas que foi testada durante pouco tempo.

Wilson - Mantém uma presença muito boa em termos de desequilíbrios ofensivos, com mais uma assistência. Em parte isso deve-se ao facto de Wilson ser um bom executante, especialmente com o seu pé direito. O problema é que não é Wilson que leva a equipa para essas situações e, ao invés, tem de ser a equipa a leva-lo a ele. E isso às vezes não chega.

Montero - Na comparação com Cardozo fica a perder e não apenas com os golos. Tal como no Dragão, fez falta ao Sporting uma referência mais forte para as primeiras bolas, num jogo onde às vezes não é fácil progredir de forma apoiada desde trás. Quando a bola lhe chega pelo chão, aí sim, Montero torna-se útil, e foi-o novamente neste jogo apesar de não ter marcado.

Carrillo - Deu outra dinâmica à esquerda, voltando a revelar que é o extremo que melhor se entende com Jefferson. O envolvimento foi bom, mas não o suficiente para provocar estragos na defesa do Benfica, e isso é sempre o mais importante.

Slimani - Novamente, parece-me que a sua entrada no jogo aconteceu cedo demais, numa fase em que a equipa estava por cima no jogo e com Slimani a ter dificuldades previsíveis em se envolver no jogo. O facto é que, também novamente, Jardim ganhou a aposta, com Slimani a ter uma presença muito importante nos lances decisivos e num curto espaço de tempo.

Mané - Um pouco à imagem de Slimani teve um impacto positivo no jogo. O que, no entanto, ainda quer dizer pouco relativamente ao seu potencial.

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