21.2.11

Centrais, bolas paradas e a mais valia do Benfica

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Em dia de derbi, trago aqui um assunto que – diz-se... – nestes jogos costuma ser decisivo: as bolas paradas.

Os dados dizem apenas respeito à influência ofensiva dos centrais de cada um dos “3 grandes” em jogos para a liga, mas parte-se do princípio – que creio ser facilmente aceite – de que esse dado está fortemente correlacionado com o aproveitamento destes jogadores nos lances de bola parada.

Os resultados são extremamente claros: em relação aos seus rivais, o Benfica consegue extrair dos seus centrais uma força muito mais forte em termos de capacidade ofensiva. Porto e Sporting, por seu lado, têm resultados próximos, sendo que o Porto beneficia de uma maior eficácia, particularmente pela inspiração recente de Otamendi. Uma inspiração que, segundo estes dados, terá muito poucas hipóteses de se prolongar no tempo.

A importância dos lances de bola parada – e aqui faço uma leitura pessoal que já defendi noutras ocasiões – têm uma importância que vai para além da sua influência directa nos golos que se marcam. As situações de bola parada, mesmo que não tenham eficácia na concretização, podem servir para criar lances de maior proximidade com o golo. Lances que mexem com as bancadas, motivam quem ataca e abalam a confiança de quem defende. No caso, e mesmo não marcando, por várias vezes o Benfica pareceu beneficiar desta mais valia para obter vantagem emocional em determinados períodos dos seus jogos.

A força encarnada neste tipo de lances, em boa verdade, não começou com Jorge Jesus. Já com Quique Flores (e mesmo outros treinadores), as bolas paradas eram um ponto forte do Benfica. Ver no trabalho de uns, o mérito de outros é, normalmente, um exercício tão básico como intelectualmente desonesto. O crédito é devido a quem trabalha e apresenta resultados em cada momento: treinadores e jogadores.

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18.2.11

"O Benfica nunca ganhou na Alemanha..."

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Permitam-me um desvio, uma saída de campo, para abordar esta frase. Não tem a ver especificamente com o Benfica, com a Alemanha ou com o futebol. Tem a ver, isso sim, com a generalização - este é apenas um caso mais óbvio - de diversos erros de raciocínio que levam a análises e conclusões ilusórias, mas que acabam por ser geralmente aceites. Tem, também, a ver - e daí aproveitar o exemplo - com o tipo de abordagem a que me proponho fugir neste blogue. Uma proposta que, embora aparentemente simples, tem na natureza humana um obstáculo enorme.

O ponto não está na constatação: "O Benfica nunca ganhou na Alemanha". Isso é factual. O ponto está, isso sim, no que se está a sugerir ao relembrar esse dado. É que, quer em termos lógicos, quer em termos estatísticos, o facto do Benfica nunca ter ganho na Alemanha é totalmente irrelevante.

Em termos lógicos, é bastante fácil perceber. Que diferença fará para o rendimento de jogadores como Roberto, Maxi, Gaitan, Sidnei, ou qualquer outro que o Benfica não tenha ganho os jogos que disputou na Alemanha nos anos 70, 80 ou 90? Obviamente, nenhuma.

É, porém, o lado da interpretação estatística que motiva o erro e a sua repetição noutros temas e áreas da sociedade, levando a raciocínios errados e conclusões que, com alguma probabilidade, também o serão. O problema é, neste caso, que se confunde a improbabilidade de o Benfica não ganhar pelo menos 1 jogo num determinado país, com probabilidade de haver 1 país em que o Benfica não tenha ganho pelo menos 1 jogo. Esse país é a Alemanha e não há nada de especial ou improvável nisso.

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17.2.11

Liga Europa (Breves)

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- Como explicar a bipolaridade do jogo e, em particular, da exibição encarnada? Talvez seja uma boa forma de, em 90 minutos, resumir a identidade da própria equipa. Já aqui referi várias vezes: as equipas alemãs não têm comparação com o campeonato português e o sua valia em termos de recursos apenas pode ser superada, em Portugal, pelos 3 "grandes". Isto, mesmo para um dos últimos classificados. Jesus recusou a ideia de uma diferença de atitude, mas, chame-se-lhe "atitude" ou outra coisa qualquer, o facto é que não houve da parte do Benfica uma abordagem correcta ao jogo. Isso, mesmo tendo recuperado a vantagem, custar-lhe-á pelo menos a incerteza com que entra na segunda mão. Uma incerteza e insegurança obviamente desnecessárias. Enfim, este é, também, um bom sinal de alerta e que serve para mostrar que os problemas do inicio de época poderão voltar no futuro...

- Uma pena esta fase do Braga. A neve serve de atenuante, sim, a eliminatória está em aberto, também, mas o Braga não dá grandes sinais de estabilização nesta fase da época. Perdeu muitos jogadores, tem muitas lesões e não parece capaz de recuperar os índices de confiança que fariam desta equipa, uma equipa com possibilidades de sonhar nesta prova. Pena pelo Braga, e pena pelo futebol português que tem, como poucas vezes, uma excelente condição para ficar com este troféu. Pode ser que Domingos ainda consiga reencontrar carris mais estáveis.

- Um pouco à imagem do Braga, é pena que este Sporting esteja como está. A competitividade desta prova abre caminhos amplos para sonhar e isso vê-se, por exemplo, na diferença de valores e potencial entre Sporting e Rangers. Mais bola, mais qualidade de circulação, mas raras combinações no último terço e uma enorme incapacidade para oferecer resistência às verticalizações, típicas dos britânicos. Resgatou um empate valioso, mas que garante pouco para uma equipa tão instável. Como no futebol tudo é possível, também o Sporting tem legitimidade para sonhar com esta competição.

- Finalmente, o melhor resultado. Temos sempre a tendência para desvalorizar o valor dos adversários que nos calham. Provavelmente por haver uma sobrevalorização interna das nossas competições. O Porto é melhor equipa que o Sevilha? Claro. Com valores idênticos, talvez melhores, mas seguramente com muito melhor organização e qualidade colectiva. O Sevilha era acessível? Obviamente que não. É das poucas equipas que, em Espanha, têm possibilidade de causar problemas aos 2 "gigantes" espanhóis, como não poderá ser um adversário de respeito?! Levou a melhor o Porto, pela organização e, muito, pelo aproveitamento da excessiva sede de vitória do Sevilha. A eliminatória está bem encaminhada, mas não definida. Uma equipa com o potencial ofensivo do Sevilha pode sempre estragar a festa a qualquer equipa num bom dia. Cabe ao Porto não deixar renascer esse potencial.

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16.2.11

Olhanense - Sporting: Análise e números

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Na alegoria do “boxeur”, utilizada pelo treinador recentemente, Paulo Sérgio continua em ringue e, segundo o próprio, disposto a “levar porrada”. O que se constata, porém, é que Paulo Sérgio já só está mesmo em ringue para “levar porrada”. O próprio deixou de acreditar na sua capacidade de inverter o sentido do combate, e limita-se agora a esbracejar e resistir sem sentido ou estratégia. Ficar de pé e esperar por um milagre é tudo o que lhe resta.

Murros e combates à parte, a desistência de Paulo Sérgio vê-se na forma como a equipa deixou de tentar interpretar a filosofia que o próprio treinador havia definido no inicio de época. E o jogo de Olhão foi apenas mais um exemplo.


Notas colectivas
É sempre triste para um clube com a vivacidade do Sporting ter uma equipa mais crente na sua impotência do que na sua capacidade. Mais triste se torna quando isso acontece com 2 troféus e tantos jogos ainda por disputar. O maior problema desta fase do Sporting é que não está a ser feito um diagnóstico correcto da situação. Há uma focalização excessiva na componente individual, uma incapacidade de reconhecer as mais valias e de identificar potencial nas soluções existentes.

Pede-se e prepara-se, quase seguramente, uma revolução no plantel. Quase sempre, esse tipo de revoluções acontecem quando não há noção do que está mal. Opta-se por uma espécie de exercício de fé: muda-se tudo e reza-se para que se acerte.

Sobre o jogo, volto a salientar alguns aspectos que denunciam a má preparação colectiva da equipa do Sporting:

Primeiro, a filosofia. Conformista com uma posição submissa, quando no inicio de época o Sporting tinha como objectivo, declarado e anunciado, o domínio permanente do jogo. Nada pode denunciar mais a falência de crença do que esta constatação.

Depois, a incapacidade da equipa construir de forma planeada e organizada. Não é uma equipa que tenta jogar directo por opção, mas que acaba frequentemente por ser obrigada a tal. Isto porque quem tem a bola em zona de construção fica frequentemente sem opções seguras de passe, expondo-se ao pressing. Para além disso, a movimentação na zona criativa continua a ser apenas intuitiva. Dentro disto tudo, pode o Sporting congratular-se por ter feito golo praticamente na única jogada que conseguiu fazer em apoio, na primeira parte.

Finalmente, e em termos defensivos, jogar Torsiglieri ou Polga faz toda a diferença. Com Torsiglieri, a equipa tenta com mais frequência o fora de jogo, com Polga muito menos. Porquê? Porque não há uma orientação colectiva clara e bem definida. De resto, vários erros, quer em posse (João Pereira), quer em termos posicionais (Carriço), numa equipa que foi especialmente fustigada à esquerda (intencional?) e que continua a fazer da presença numérica o factor mais decisivo para o sua eficácia defensiva.

Ainda sobre o Sporting, será curioso ver os próximos jogos. Não é liquido que tenham desfechos negativos, apesar do momento e de algumas ausências relevantes. Há qualidade individual, experiência e haverá também mais motivação por parte dos jogadores. Também para o treinador poderá ser um “alívio” poder montar estratégias mais conservadoras e com jogadores mais motivados a interpreta-las. Para ver...

Notas individuais
João Pereira – Foi talvez o jogo mais desastrado da temporada. Desconcentrado com bola, tomou algumas decisões incompreensivelmente más, nomeadamente uma, que desencadeia o desequilíbrio no segundo golo.

Evaldo – Foi invulgarmente participativo, muito porque foi “obrigado” a isso pelo Olhanense. Não se saiu especialmente bem, mas também não especialmente mal. Como quase sempre, aliás. Desde que Grimi não recupere para o jogo do Benfica, pode até nem ser uma má notícia a sua ausência...

Carriço – Não é pelo auto golo que mais merece criticas. E se as merece! Esteve ligado à reacção e recuperação do Olhanense, com posicionamentos estranhos e que abriram por 2 vezes caminho a finalizações na cara de Patrício. Nesses lances pareceu demasiado agarrado a referências individuais e perdeu completamente a noção do seu enquadramento posicional. É estranho nele, mas nesta equipa, com esta organização, já nada se estranha...

Torsiglieri – O Sporting tem aqui um bom valor, sem dúvida. Tranquilo e seguro com bola e muito forte no choque. Precisa de um treinador e de uma organização diferente, que o ajude a evoluir posicionalmente e que, por exemplo, não o obrigue a olhar para trás para perceber se estão todos a respeitar uma linha de fora de jogo que ele está a definir. Precisa ele e muitos outros...

Pedro Mendes – Fez um jogo em crescendo, acabando por ser dos melhores da equipa, como, aliás, não podia deixar de ser. Com Maniche, pode fazer um meio campo de grande qualidade e critério.

Maniche – O melhor exemplo do absoluto desnorte nos diagnósticos que são feitos a esta equipa? Maniche. Haverá poucos jogadores com a qualidade e regularidade do seu rendimento, mas Maniche é sempre apontado como um “problema”. Enfim, outra vez o mais influente com bola, um pouco aquém do que é hábito em termos de eficiência defensiva e interveniente também em termos de acções de desequilíbrio.

Postiga – Foi o destaque do jogo e de facto esteve inspirado nas suas acções ofensivas. A apontar-lhe apenas a completa ausência em termos defensivos. Um problema que é sobretudo colectivo e que com Liedson ficava mais disfarçado.

Cristiano – Jogou pela primeira vez mais tempo e, não se podendo dizer que foi uma estreia auspiciosa, foi pelo menos uma exibição com boa entrega e sem qualquer excesso de individualismo – critica que lhe é normalmente feita. Aliás, se há coisa que lhe faltou foi individualismo numa jogada em que devia ter sido mais expedito a finalizar e que acabou por se perder numa tentativa de assistência.


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15.2.11

Benfica - Guimarães: Análise e números

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Avassalador! Haverá certamente outros adjectivos para classificar a exibição encarnada, mas não é adjectivação que me parece mais importante no balanço, quer do jogo, como do momento da equipa. Tem sido um ano realmente interessante do ponto de vista da análise: uma equipa que era – como agora volta a ser – demolidora, quebra subitamente os seus níveis de performance, voltando depois a recuperar os níveis mais altos, com uma série de vitórias. Salvo novas evidências – e continuarei obviamente a acompanhar – o “caso Benfica” está para mim encerrado. O seu problema nunca foi táctico ou individual – os motivos que, como tanto tentei explicar, erradamente foram mais apontados. O seu problema foi sempre emocional. É que este Benfica de Jesus, tacticamente forte e tecnicamente rico, é “confiançodependente”!

Notas colectivas
A importância da confiança no jogo do Benfica explica-se pela forma como a equipa privilegia a velocidade sobre o critério nas suas acções. Ou seja, os jogadores tentam sempre imprimir um ritmo muito elevado no jogo, verticalizando o mais rapidamente possível, mesmo que esse nem sempre seja o caminho mais seguro para avançar. A importância da confiança está nos índices de sucesso de cada acção: isto é, quando a equipa está bem, torna-se muito difícil de parar porque é muito forte em termos técnicos e tácticos. Quando está mal, porém, os riscos que assume tornam-se uma ameaça tremenda para o seu equilíbrio e recuperação defensivas.

Em relação ao jogo propriamente dito, há 3 aspectos que quero destacar na forma como o Benfica conseguiu a sua superioridade.

O primeiro tem a ver com a agressividade e capacidade reactiva à perda de bola. Muito agressiva toda a equipa, mas especialmente o corredor central. Javi e Aimar estiveram – como poucas vezes esta época – muito fortes na reactividade à perda, ganhando quase todos os duelos e dominando um corredor onde nem sempre estiveram em superioridade numérica. Este aspecto foi muito importante, obviamente, para manter a bola no meio campo ofensivo e não deixar o Vitória jogar.

O segundo aspecto tem a ver com a opção de utilizar quase exclusivamente os corredores laterais em ataque posicional. Javi baixou para a zona dos centrais, dando maior largura à circulação nessa linha, e Aimar apareceu poucas vezes a construir e muito mais a jogar a partir de posicionamentos mais adiantados (caso do 2ºgolo). A bola entrava quase sempre nos corredores laterais e nos extremos. Foi fundamental para o Benfica a produtividade destas combinações, quase sempre bem sucedidas. Há muito mérito da movimentação colectiva, algum demérito da falta de agressividade do Vitória, mas um também notável desempenho técnico dos jogadores, que conseguiram, muitas vezes, sair com bola de situações pouco favoráveis – mais uma vez, está aqui bem presente a importância da confiança.

O terceiro aspecto tem a ver com as bolas paradas. O Benfica é uma equipa com uma qualidade extraordinária neste plano. Extraordinária! A importância deste aspecto não está apenas circunscrito aos golos que consegue, mas estende-se também ao impacto emocional que os lances de perigo podem ter no jogo. Por serem situações emocionalmente intensas (de golo eminente) podem afectar os jogadores, positiva e negativamente, fazendo-os sentir mais confiantes ou inseguros, consoante o caso. Neste caso, isso pareceu-me importante. O Benfica, mesmo antes do golo (por sinal, conseguido de canto), fora ameaçador de bola parada e isso terá contribuído para o entusiasmo dos adeptos, para a confiança dos seus jogadores e para a insegurança do adversário. Isso reflectiu-se na grande diferença no desempenho técnico dos jogadores.

Sobre o Vitória, finalmente, importa dizer apenas que a equipa não esteve à altura das adversidades que lhe foram colocadas e sucumbiu à pressão a que foi submetida. Em termos tácticos, Machado optou por um 4-3-3 largo e pouco profundo, mas não foi por isso que o Vitória perdeu. Quando os jogadores não são capazes de controlar zonas em que têm superioridade, de dividir duelos directos e de manter um desempenho técnico que garanta, no mínimo, a segurança em posse, não há táctica ou estratégia que lhes possa valer...

Notas individuais
Maxi – Está num óptimo momento, crescendo com a equipa e, também, com o entendimento com Salvio. Já em Setúbal tinha sido dos melhores.

Sidnei – A influência decisiva é óbvia e suficiente para ofuscar, quase por completo, qualquer outro aspecto. Ainda assim, foi também um jogador importante a jogar em antecipação na fase em que a equipa exerceu maior domínio. Foi bom para ele entrar neste momento positivo, dá-lhe - a ele e à equipa - maior margem na integração.

Javi Garcia – Esteve mais junto dos centrais em posse, o que lhe valeu maior presença e também mais segurança com bola. Sem bola, esteve também bem e sobretudo melhor do que é hábito, contribuindo de forma relevante para o "sufoco" da primeira parte.

Aimar – Indiscutivelmente o melhor em campo, combinando influência decisiva com um desempenho táctico bem acima do que lhe vem sendo hábito. Porém, convém não confundir grandes exibições com grande rendimento continuado. Aimar vai oscilando o óptimo com o insuficiente e esse é o seu problema desta temporada. Por exemplo, em Setúbal, tinha tido uma prestação bastante fraca, com muita insegurança em zona de construção.

Gaitan – Marcou em Setúbal e vem assumindo maior protagonismo mediático. Digo, porém, que o seu rendimento nos últimos 2 jogos foi inferior ao que era hábito. Particularmente, quando o jogo fica fácil, Gaitan torna-se displicente. É giro, porque torna-se uma espécie de “show” individual, com calcanhares e pormenores deliciosos. A equipa é que não ganha muito com a atitude.

Salvio – Um rendimento global fantástico. Desequilibra, trabalha e ainda consegue manter níveis de concentração muito elevados a cada posse de bola. Dificilmente o Benfica arranjará outro jogador com este rendimento e com a sua idade.

Cardozo – Uma nota para ele, porque, apesar de não ter marcado e de ter desperdiçado um penalti, apareceu mais solicito no jogo colectivo. Algo que acontece muito raramente. É que, apesar de algumas considerações em sentido contrário, Cardozo trabalha normalmente muito pouco para a equipa, para além dos golos que marca. Acredito que muito menos do que aquilo que pode e deve fazer.



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14.2.11

Braga - Porto: Análise e números

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À campeão! Pode ainda ser cedo para o encomendar das faixas, mas a expressão encaixa bem na exibição portista.. O momento não dava boas indicações e o grau de dificuldade da deslocação, muito menos. O carácter dos campeões vê-se, porém, na capacidade que têm para responder na medida certa, nos momentos certos. Foi isso que aconteceu. Ou seja, quando mais se exigia, o Porto, respondeu e regressou subitamente aos melhores níveis de performance da temporada. Por tudo isto, perceber-se-á, concordo mais com Villas Boas no puxar do mérito para o lado azul e branco. Não posso, porém, deixar de dar também razão a Domingos: o Braga não esteve como tinha de estar para poder discutir o jogo. O problema deste Braga, porém, é que é complicado pedir-se muito mais quando se é, tão claramente, o campeão... dos contratempos.

Notas colectivas
O jogo começou com uma visível intenção de ambas as equipas fazerem da organização e agressividade os instrumentos para conseguir ascendente no jogo. Neste particular, a zona central ganhava uma importância grande, com o “encaixe” entre os 2 triângulos de meio campo. O Porto no seu típico 1-2, com Fernando mais recuado, o Braga no 2-1, com Mossoró mais próximo de Lima.

Porque ganhou tão claramente o Porto este duelo? Em termos muito simples: porque foi substancialmente melhor. Melhor na resposta que deu em situações de pressão, contrastando com um mau desempenho técnico do Braga, e melhor na organização e critério que teve com bola. É um facto que raramente encontrou situações de liberdade em zonas privilegiadas, mas é também um facto que esteve praticamente imaculado ao nível da segurança em posse e que, combinando esse dado com uma óptima pressão sem bola, isso lhe valeu um domínio asfixiante na primeira parte. No Porto, há 2 aspectos que quero abordar (embora perceba que teriam mais utilidade com imagens)...

O primeiro tem a ver com a organização com bola. A opção – que me parece mais pronunciada nos últimos jogos – de colocar os laterais num posicionamento mais profundo e aberto teve como consequência um delegar de responsabilidades de construção para o corredor central, mas com a vantagem de afastar os extremos do Braga dessa zona (na primeira parte Alan e Hélder Barbosa pareciam defesas), aumento assim o espaço para construir. Não dá para dizer que o Braga tivesse estado “mal” na resposta que deu, ao nível do pressing, mas acabou por ser impotente perante a dinâmica dos médios (excelente!) e o critério dos centrais (Otamendi!). Acabou, também – e tal como referiu Domingos – por cair na ratoeira do "campo grande" portista, afastando muito as suas linhas entre si. Particularmente, e para além do tal arrastamento dos alas, as linhas mais recuadas não se aproximaram suficientemente da zona de Mossoró, acabando por pagar o preço dessa distância com chegadas fora do tempo ao portador da bola.

O segundo aspecto tem a ver com resposta da equipa sem bola. É frequente ler e ouvir longas dissertações sobre o que os jogadores fazem ou deviam fazer com bola. Pessoalmente, e não é a primeira vez que o refiro, não consigo desligar as 2 situações – com e sem bola – e discordo de tal focalização no que se faz “com bola” como factor determinante de sucesso. Um exemplo é o Porto (todas as boas equipas o são) e o seu meio campo. Fernando, Belluschi e Moutinho são jogadores de uma agressividade e reactividade excepcional, um trio como há poucos no mundo, nesse plano. Isto, em combinação com uma boa compreensão posicional, permite à equipa ter uma presença muito forte em termos de pressão e reacção. Este factor foi determinante no condicionamento dos bracarenses sempre que estes ganhavam a bola. Daí a asfixia territorial no primeiro tempo.

Por fim, nota para o Braga. Há aspectos em que a equipa poderia denotar mais qualidade colectiva, mas é impossível exigir mais a Domingos com as adversidades que teve ao longo da época – aliás, neste jogo também. Há outra coisa que importa referir sobre o Braga: é absurdo comparar-se a qualidade dos seus recursos com as dos “grandes” – qualquer deles. Isso foi perceptível, por exemplo, no desempenho técnico dos seus jogadores na primeira parte. Alan merece, de novo, uma menção positiva, estando acima dos demais.

Notas individuais
Fucile – Regressou e, não comprometendo com os seus erros frequentes, justifica a milhas a titularidade em relação a Sereno, Emídio Rafael ou mesmo Sapunaru. Tem níveis de participação muito mais elevados do que estes jogadores, sendo muito mais útil quer ofensivamente, quer defensivamente. Não fossem os tais erros...

Otamendi – Um jogo praticamente perfeito. Quando foi contratado alertei para a sua má gestão do risco, e, mesmo se isso já se notou várias vezes, dá para dizer que está bem “domesticado”. É mais um exemplo de como um grande central se faz pelas qualidades “brutas” que tem e pela “afinação” que lhe é dada. Por isso, ganha muito mais bolas do que Rolando, por exemplo, e por isso é o melhor central da equipa. Para mais... marcou 2 golos!

Fernando – Os jogadores não recuperam mais ou menos bolas por acaso. Fernando é um bom exemplo disso. Tem uma boa compreensão do jogo posicional, mas complementa isso com uma excepcional agilidade e capacidade de recuperação, que faz dele um “pivot” anormalmente útil em missões de equilíbrio e recuperação. Vinha denotando alguns problemas em termos de concentração e critério com bola, mas corrigiu, fazendo um jogo muito bom.

Belluschi – Na primeira parte foi dos melhores. Reactivo e agressivo – quase eléctrico – sem bola e muito prestável ao jogo quando a equipa a ganhava. Na segunda parte caiu muito e acabou por fazer um jogo que, para os seus níveis, foi “abaixo do par”.

James e Varela – São jogadores diferentes e tiveram exibições diferentes também. A nota sobre eles vai para o facto da equipa precisar de mais arrojo e capacidade de desequilíbrio das suas intervenções, sob pena de ficar demasiado dependente do que Hulk consegue arrancar. Têm qualidade e essa capacidade, mas precisam de encontrar a forma de conseguirem aproximar a equipa do golo com mais regularidade.

Hulk – Voltou às exibições habituais, sendo o mais desequilibrador da equipa. A nota sobre Hulk vai para um pormenor raramente realçado: Hulk tem uma capacidade de trabalho sem bola muito boa e muito acima de outros casos de posições semelhantes. Uma comparação que faço quer com os elementos do próprio plantel, quer com os dos rivais.

Alan e Mossoró – São 2 jogadores habitualmente elogiados pela sua capacidade técnica, mas o seu desempenho, neste jogo, foi absolutamente díspar. Alan quase sempre com boa qualidade e critério, Mossoró um dos responsáveis pela “prisão” da equipa no seu meio campo, durante a primeira parte.



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10.2.11

Argentina - Portugal: Análise e números

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Tal como escrevi ontem, estes jogos, apesar de amigáveis, ficam bem vincados no registo histórico. É aí que começa o sentimento de alguma frustração pela derrota averbada. Uma frustração que se justifica também pelas outras conclusões do jogo. Ou seja, Portugal pode ter defrontado uma das potências do futebol mundial, mas não se mostrou inferior ou com menos possibilidades de poder sair vencedor. Pelo contrário, aliás, creio que mostrou mais qualidades do que o seu adversário. Mais consistência colectiva e menos dependência da sua “estrela”. Messi, de resto, é um personagem fundamental na história do jogo, e não pela penalidade decisiva.

Notas colectivas
A “nuance Messi” começou por marcar o jogo e definiu, também, o único período em que Portugal não foi melhor no jogo: a primeira meia hora.

Messi apareceu a jogar como falso “9”, partindo do meio dos centrais, mas raramente jogando perto destes. Ou seja, ao baixar, Messi criou um problema zonal ao bloco português. Os centrais ficavam sem referência de marcação e o meio campo com uma constante desvantagem numérica, um problema agravado pela qualidade de Messi sempre que tinha a bola. O que fazer?

A resposta é simples. Encurtar os espaços entre sectores, particularmente entre a linha média e a mais recuada. Portugal não o fez imediatamente e, por isso, sentiu algumas dificuldades em controlar os espaços dentro do seu bloco nos primeiros 30 minutos. Quando juntou mais as linhas, Messi teve de baixar progressivamente no campo, recuando para zonas onde o seu protagonismo não tem a mesma consequência.

Aqui, há outro aspecto a abordar, e onde creio que Portugal não esteve tão bem: o pressing. Não era muito fácil, perante o “problema Messi”, subir a linha média para pressionar, mas era importante definir uma zona pressing agressiva e organizada, que diminuísse o tempo de decisão à primeira fase de construção contrária, até pela características incisiva dos extremos – Di Maria e Lavezzi – fortes no aproveitamento das costas. Portugal melhorou na segunda parte, onde subiu linhas com mais critério e menos compromisso dos espaços interiores, mas não teve a agressividade do jogo com a Espanha, por exemplo.

Tudo somado, Portugal perdeu o jogo por algum défice de concentração na recta final, mas foi na parte inicial que menos conseguiu controlar a estratégia argentina. Assim que corrigiu comportamentos e retirou espaço a Messi, Portugal foi claramente a melhor equipa, mais organizada e clarividente em termos tácticos e, também, mais próxima do golo.

Perdemos mas, em definitivo, esta parece-me uma equipa com sérias possibilidades de discutir o título europeu.

Notas individuais
João Pereira – As atenções mediáticas estavam centradas do outro lado do campo, em Coentrão, mas foi João Pereira quem arrancou mais uma excelente exbição. É um grande lateral, com algumas lacunas, é certo, mas não me parece que haja muitas Selecções com alguém melhor do que ele na sua posição.

Coentrão – Não foi, de facto, o melhor jogo para demonstrar o seu valor. Di Maria e Zanetti são um corredor duro de enfrentar. Coentrão bateu-se bem, mas não conseguiu o protagonismo habitual. A pintura, porém, só ficou mesmo borrada no último minuto.

Meireles – Tinha feito um grande jogo com a Espanha e neste não se pode apontar-lhe nada em termos de atitude e entrega. Acontece que foi uma das grandes vitimas da tal liberdade de Messi. Teve sempre mais do que um jogador a cair na sua zona e isso condicionou-lhe a acção de forma determinante. Para mais, acabou por cometer alguns erros invulgares em posse na segunda parte. Note-se, porém, que é um médio de grande qualidade e um indiscutível da Selecção, seja em que posição for do meio campo. A sua valia, aliás, fica bem clara na rapidez com que se impôs no Liverpool.

Hugo Almeida – Todos lhe apontarão o dedo pelos 2 golos que falhou – particularmente o segundo. No entanto, Hugo Almeida teve uma acção preponderante em termos ofensivos. Teve em todos os desequilíbrios da equipa, fez 1 assistência e ainda enviou 2 bolas à barra. Outro aspecto onde esteve bem foi no domínio das primeiras bolas. É importante, porém, que haja um melhor aproveitamento da equipa no posicionamento das segundas bolas, porque poucas foram as vezes em que as suas acções, nesse capítulo do jogo, tiveram consequência.

Messi vs Ronaldo – Aparentemente será um disparate valorizar este duelo. Em termos práticos, porém, a história diz-nos que não é assim. Um particular entre Argentina e Brasil dos anos 80 tem interesse por causa de Zico e Maradona. Nos anos 60, Brasil e Portugal poderiam jogar “a feijões”, que Pelé e Eusébio seriam sempre um ponto de interesse. Se há motivo pelo qual este jogo pode ser relembrado no tempo, é por este duelo e nada mais.
Messi terá levado a melhor, sobretudo pela vitória argentina e pela sua influência directa na mesma. Mas é uma vantagem que se torna irrelevante porque ambos estiveram em grande nível e, claro, porque Ronaldo jogou apenas 2/3 do jogo.



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Selecções e Costinha (Breves)

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- Para as ilações a tirar, estou de acordo que o resultado interessa pouco. Mas, para a História - e estes jogos têm um lugar nada irrelevante na História - o resultado é tudo menos irrelevante. Serve esta constatação para lamentar uma derrota que classificaria como desnecessária. Não injusta, mas desnecessária. É verdade que o empate seria mais fiel ao equilíbrio do jogo, mas também é um facto que a Argentina se manteve mais forte na recta final, depois de um inicio de segunda parte onde Portugal esteve melhor e falhou 3 golos "feitos". Analisarei melhor o jogo, mas, num primeiro balanço fica a ideia de que Portugal, e apesar da derrota, confirma a recuperação de um nível mais de acordo com o seu potencial. Ou seja, capaz de jogar de igual para igual com qualquer selecção do mundo, e com idênticas possibilidades de sair vencedor. Isto, apesar das dificuldades que o meio campo luso sentiu, em especial na primeira parte, para controlar a mobilidade e qualidade de Messi.

- Também jogaram os sub 21. O resultado foi melhor, mas a exibição foi bem menos promissora. Não é sobre o jogo que quero falar mas, antes sim, de um tipo de postura que se começa a impor em relação aos naturalizados. Sempre que se pensa em integrar um cidadão português de origem estrangeira, com 1/3 do seu tempo de vida vivido em Portugal, levantam-se uma série de vozes discordantes. O que me parece difícil de perceber é que, depois de todas essas discussões, os mesmos contestatários aceitem, com a maior naturalidade, que se recuperem cidadãos estrangeiros, e que têm como única ligação ao país a sua ascendência. Aos meus olhos, todos os cidadãos portugueses devem ter os mesmos direitos e é perigoso fazer qualquer tipo de distinção entre eles. Pior, neste caso está-se a aceitar que se use o "sangue" como critério primordial de exclusão. Estou certo que não o fazem com essa intenção, mas quem defende este tipo de exclusões não está a promover outra coisa que não seja a xenofobia.

- Entretanto, e noutras "novelas", chegou ao fim a "era Costinha", no Sporting. Sempre disse que "saber escolher" é a mais importante virtude de qualquer Presidente. Tão importante que me arriscaria - com algum exagero à mistura - a considerar que é a única virtude que realmente interessa. Pois bem, se Bettencourt falhou foi porque não soube escolher, e nenhuma das suas escolhas foi tão obviamente equivocada como a de Costinha. E esta não é uma análise que faço à posteriori, posso garantir. O que me leva a comentar Costinha neste momento, porém, não é o seu trajecto, mas antes a forma como resolveu sair. Podemos chamar-lhe o "método da entrevista kamikaze", ou "método queiroziano". Pessoalmente, considero que o carácter é a última coisa que devemos hipotecar...

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