31.1.11

Sporting: (des)organização colectiva e potencial individual

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Não vou fazer análises mais detalhadas aos jogos do fim de semana, mas não quero deixar de utilizar o lance que dá origem ao segundo penalti na Amoreira. Na semana anterior, falava da importância do espaço entre linhas e de como algumas equipas – no caso, o Porto – se preparam ofensivamente para conseguir libertar um jogador em posse nessa zona. Pois bem, neste caso é possível ver como facilmente o Sporting fica exposto precisamente no mesmo espaço. A questão, no caso do Sporting, não tem a ver com uma má protecção específica a esse espaço, mas com os problemas da equipa em todo o momento de organização defensiva. E este é um lance paradigmático disso mesmo.

1 passe chegou
Não é preciso ser uma equipa “grande”, ou, sequer, ter uma ambição enorme. Qualquer equipa que pretenda ter qualidade colectiva tem de se questionar como é que, a partir de uma falta no meio campo adversário – o que supostamente permite uma reorganização posicional – a equipa se expõe desta forma após apenas 1 passe. Não faz sentido, por exemplo, que, perante isto, que se coloque um ênfase tão carregado nas prestações individuais dos jogadores. Sobretudo no capítulo defensivo, que é aquele que mais depende da organização colectiva.

A lacuna não tem apenas a ver com a protecção do espaço entre linhas, mas vê-se também na forma como a equipa não consegue, através da pressão colectiva, tirar partido de um drible, largo, do lateral em direcção à zona central, que é sempre uma oportunidade “de ouro” para provocar uma situação de transição, em equipas com uma pressão colectiva forte.

Como se não bastasse todo o comportamento até ao último passe, ainda vemos que há uma descoordenação na última linha, que acaba por viabilizar o isolamento do avançado.

Defesas centrais e a qualidade individual vs. Organização colectiva
Podemos começar com alguns números: entre os 3 “grandes”, e para o campeonato, os centrais do Sporting são aqueles que mais intercepções fazem por jogo. Que significa isto? Bom, não há uma conclusão linear a tirar, mas, tendo em conta que a defesa do Sporting não se distingue dos seus rivais pela eficácia defensiva, deverá querer indicar uma maior exposição dos jogadores que jogam nessa zona. E é isso que realmente observamos.

Qualquer organização defensiva depende muito da coordenação defensiva dos seus centrais e, para isso, é de evitar que tenham de sair da sua zona para fazer contenção num espaço mais adiantado. Algo que deve ser conseguido pela equipa, mas que no caso do Sporting falha com demasiada recorrência. É fácil, durante um jogo, vermos situações em que os centrais são obrigados a sair para fazer contenção, acabando por desfazer o posicionamento ideal e comprometendo a segurança da própria equipa.

E é a partir desta constatação que volto a realçar a importância de não se fazerem juízos demasiado pesados sobre competências individuais em jogadores que não actuam em equipas bem organizadas. Sobretudo ao nível do potencial.

Na minha perspectiva, o potencial dos jogadores defensivos deve incidir pouco numa apreciação da sua capacidade posicional. Porquê? Porque esse é um tipo de competência que – ao contrário do capítulo técnico, por exemplo – pode ser rapidamente desenvolvido e melhorado. Basta, para isso, que haja competência de quem treina e vontade de quem queira aprender. Não é certo que aconteça, mas estamos todos cansados de conhecer casos de jogadores que, de repente, melhoraram imenso quando se cruzaram com certos treinadores.

Casos como Nuno André Coelho e Torsiglieri são, a meu ver, exemplos disso mesmo. É fácil reconhecer-lhes potencial em variados aspectos, mas falta-lhes um melhor enquadramento colectivo para perceber exactamente até que ponto podem ir. O que é errado, é colocar sobre estes – ou outros – jogadores uma responsabilidade individual de um problema que é colectivo.
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Taça da Liga e outros temas (Breves)

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- Na Taça da Liga, e no meio de vários jogos sem grande interesse competitivo, o destaque principal vai para a confirmação do Paços de Ferreira na meia final, repetindo aquele que foi, provavelmente, o jogo mais bem sucedido da sua história: quando garantiu, na Choupana e pela mão de Paulo Sérgio, uma improvável chegada ao Jamor. São os créditos do extraordinário momento que viveu neste inicio de ano. Em contra ciclo, a frustração bracarense, pagando caro numa prova em que parecia apostar e ter tudo para ser um forte candidato à final.

- Ainda sobre a Taça da Liga, deixo uma nota de opinião sobre a forma como continua a ser tratada esta competição: Encara-se a Taça da Liga em Portugal como se ela fosse a francesa ou a inglesa, mas isso é um disparate. Porquê? Porque, nem Portugal tem o "mercado" desses países, nem o nosso calendário competitivo tem sobrecarga suficiente para que se considere esta uma prova para "gerir". Os clubes não têm motivos desportivos para não "atacar" este título e - muito menos - uma situação financeira que lhes permita andar a despromover publicamente um produto que, afinal, é o seu. Estão a ver uma empresa à beira da falência a dizer mal do seu próprio produto? É mais ou menos o mesmo...

- Cruel! É o que se pode dizer da lesão de Emídio Rafael. Não teve uma entrada fácil na equipa, mas vinha evoluindo muito bem nos últimos jogos. É um caso que me parece semelhante ao de Sapunaru. Não pelas características, mas pelo facto de não ter, a meu ver, condições "naturais" que lhe permitam uma afirmação fácil num clube com as exigências do Porto. No entanto, e tal como vem acontecendo com o romeno, poderia ser capaz de tirar partido da boa organização colectiva para fazer uma evolução que potenciasse as suas virtudes e escondesse as suas fraquezas. Para que tal acontecesse, porém, seria preciso tempo e continuidade na evolução. Daí a crueldade: é que não é certo que volte a ter uma oportunidade como aquela que estava a ter com a lesão de Álvaro Pereira...

- Uma nota sobre a derrota do Real. Não é um falanço de Mourinho nem, tão pouco, do próprio Real. É, antes sim, a confirmação de que seria praticamente impossível acompanhar o ritmo de uma equipa de outra galáxia. Pelo menos a nível de campeonato, porque em provas a eliminar a história pode ser sempre diferente. A questão é, agora, óbvia para todos: Estarão Real e/ou Mourinho interessados na continuidade?

- Sobre o mercado, escreverei no final.

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28.1.11

Porto (ataque posicional): dos corredores para o meio

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Se há momento de jogo em que é fácil encontrar elogios para o que o Porto nos tem apresentado, é na sua organização ofensiva. São vários os pontos por onde poderia pegar e, possivelmente, no futuro outros serão igualmente abordados. Para já, porém, trago 4 lances protagonizados nos últimos 2 jogos: frente a Beira Mar e Nacional. Lances que ilustram movimentos intencionais de recurso aos corredores como forma de abrir espaços em zonas centrais.

O denominador comum mais relevante é o facto de, no final das combinações que acontecem nos flancos, o portador da bola se encontrar de frente para o corredor central, mas sem qualquer pressão e com total liberdade para definir o tempo e direcção de passe. O “tempo”, aqui, é muito importante porque uma defensa só pode controlar posicionalmente o espaço se houver um condicionamento do tempo de passe. Por isso é que se constata a importância decisiva de uma presença permanente em termos de “pressing”.

Não creio que estas combinações tenham um objectivo único, limitado à exploração do espaço central por arrastamento do médio. Isso seria obviamente redutor, devendo uma equipa ter a capacidade de explorar a melhor das soluções encontrada ao longo de um lance e não focalizar-se apenas numa. Por melhor que ela possa ser, essa obsessão conduzirá sempre a uma previsibilidade para quem defende. Tudo dependerá sempre do espaço que a defensiva contrária libertar. No entanto, é claro que conseguir o arrastamento do “pivot” e libertar o espaço central, será sempre o desfecho ideal para estas acções.

De assinalar que no último lance coloquei propositadamente no vídeo toda a construção do lance e não apenas a parte relevante para o ponto deste texto. Propositadamente, porque na construção se revela a paciência e o critério, característicos da forma como o Porto gere a sua posse de bola. Aqui reside uma das mais interessantes diferenças entre o que fazem Benfica e Porto. Mas esse será um tema que guardo para outras ocasiões.

Nacional e Beira Mar
Uma nota sobre o papel defensivo de Beira Mar e Nacional. Muito melhores os aveirenses. Já tinha referido a vulnerabilidade do desposicionamento de Djamal e isso é evidente nestes lances. Quando o “pivot” sai para pressionar, abre um espaço nas suas costas, que não colmatado. Outro problema do Beira Mar, foi o espaço entre centrais e laterais, abrindo-se frequentemente uma área demasiado dilatado e com os laterais a não terem a preocupação de dar a prioridade à zona central. De elogiar, porém, o posicionamento relativo entre centrais (Kanu e Hugo), sempre preocupados em manter proximidade, assim como da consistência da linha defensiva.

Já o Nacional, sendo mais ambicioso em termos de “pressing” alto, nem por isso foi mais organizado. Pelo contrário, aliás. Como é visível no vídeo, alguns ajustes posicionais não parecem muito úteis à manutenção do equilíbrio colectivo, acabando por perder o controlo sobre lances e zonas em que dispunha de uma superioridade numérica clara. Notou-se também alguma dificuldade na sintonia do posicionamento defensivo, nomeadamente da sua última linha.
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26.1.11

Vitória do Porto e clássico à vista (Breves)

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- O jogo já se esperava, quase por natureza, desequilibrado. Marcando praticamente a abrir, mais desequilibrado ficou. O Nacional visitou Luz e Dragão em poucos dias e, embora não se possam retirar conclusões lineares do que mostram as partidas, é interessante comparar o tipo de jogo que tivemos. Em ambos os casos, o jogo ficou resolvido com a ajuda de um eficácia madrugadora, e tanto Benfica como Porto mostraram grande superioridade, encontrando com regularidade o caminho do golo. A diferença maior está no controlo que o Porto sempre manteve e que o Benfica não foi capaz de garantir, apesar de ter todas condições para tal. Não é, a meu ver, uma questão de qualidade, mas muito mais de estratégia e critério. Noutro âmbito, tinha realçado o tipo de movimentos que Hulk havia protagonizado em Aveiro, mais próprios de um 9, e eis que, dias mais tarde, essa evolução se confirma.

- Entretanto, na Taça, mais anormal do que um jogo ter 4 penaltis, é 3 serem falhados! De resto, sem surpresa, dado o momento, passou o Benfica. Pessoalmente, saúdo a meia final a 2 mãos entre Porto e Benfica. Por várias vezes - e há muito tempo - tenho defendido que o futebol português precisa de ajustar o seu modelo à sua dimensão e que só assim garantirá o acréscimo de competitividade e interesse de que precisa para fidelizar adeptos cada vez mais tentados por outras ofertas. Para já, é bom perspectivar 2 jogos tão cativantes como os que se avizinham.

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Marítimo - Sporting: Análise e números

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Haverá, na minha perspectiva, poucos jogos tão fracos como este em termos de dinâmica e estratégia colectiva. Acabou por levar a melhor o Sporting, graças a uma assinalável diferença de eficácia, mas também porque durante toda a primeira parte, e apesar de tudo, acabou por ser a única equipa com algum esboço de intenção de perturbar o jogo do seu adversário. Tem, por isso, muita culpa própria o Marítimo no destino que lhe calhou. O facto é que jogavam duas das equipas tecnicamente mais fortes do campeonato e o que se viu foi um desperdício mútuo, onde, no final, sorriu o Sporting.

Notas colectivas
Não quero escrever muito sobre o jogo, porque me parece desinteressante e pouco merecedor de grande atenção. Ainda assim, destacar a opção estratégica do Sporting em jogar numa estrutura mais densa em termos de presença de meio campo, mas onde a dinâmica com bola era tão escassa que a equipa parecia estar sempre em organização defensiva, mesmo quando tinha a bola. Isso não impediu, porém, que fosse o Sporting quem mais tentasse pressionar e condicionar o jogo do adversário. Quanto ao Marítimo, de facto, fica difícil perceber o que quis fazer. Manteve um jogo demasiado posicional e pouco agressivo sem bola, permitindo que o Sporting jogasse facilmente em zonas baixas e não potenciando os problemas da má dinâmica da equipa de Paulo Sérgio, com bola. Quando tinha a oportunidade de jogar, não demonstrou qualquer arrojo na circulação, acabando por ser condicionada por uma pressão do Sporting, que nem sequer era muito agressiva. Exigia-se mais também do Marítimo, que teve a infelicidade de sofrer um golo numa primeira parte nula de ambas as partes, é verdade, mas que – e como se viu na segunda parte – se tivesse mais agressividade e arrojo, poderia facilmente ter submetido o Sporting a vários problemas.

Sobre o Sporting, e numa observação menos centrada neste jogo, é curioso observar como a equipa se desvia, hoje, tanto das ideias que o seu treinador pareceu querer implementar no inicio de época. Começou por tentar uma linha defensiva agressiva, mas não conseguiu, acabando por apelar de novo à dupla Carriço-Polga e a um comportamento menos agressivo da sua linha mais recuada. Em termos defensivos, aliás, não é difícil perceber o porquê de tanta dificuldade de potenciar os centrais que tem ao seu dispor. Basta ver a facilidade com que são atraídos para fora da sua zona.

Mas também em termos de ideia ofensiva, a equipa é cada vez mais um improviso. No inicio de época, havia a intenção clara de fixar o ponta de lança em zonas centrais e fazer uma circulação à largura, que ligasse corredores à procura de cruzamentos. Hoje, a circulação depende de quem está e da estrutura, que também oscila. Liedson voltou a ser móvel e os rasgos não vêm dos cruzamentos, mas daquilo que a mobilidade e qualidade de Valdés vai conseguindo.

A coisa menos inteligente que Paulo Sérgio tem para fazer em relação à sua carreira é achar que esta oportunidade falhou por culpa de factores que não têm a ver com ele. Essa é a via certa de quem não quer evoluir.

Notas individuais
Rui Patrício – Foi, talvez até mais do que Zapatar, o herói do jogo. Patrício é já um bom valor e uma aposta que merece continuidade. Como já referi noutras ocasiões, seria um disparate, depois de todo este esforço, não dar seguimento ao seu desenvolvimento. Não me tenho procurado especializar muito na avaliação de guarda redes, mas sei que há sempre um exagero nas apreciações que lhes são feitas. Um grande guarda redes vê-se mais na ausência de erros do que em exibições brilhantes. O mesmo é dizer que Patrício precisa de continuar a evoluir.

João Pereira – Mesmo jogando à direita, tem uma enorme influência no jogo da equipa, pela facilidade com que se integra com bola nas acções ofensivas. Não está bem aproveitado – basta contar as poucas vezes em que a equipa o utiliza no último terço – e tem algumas debilidades em termos defensivos. Mas é o melhor lateral direito deste campeonato e uma mais valia clara para a equipa.

Evaldo – Dado o histórico de laterais esquerdos nos últimos anos, Evaldo e a sua regularidade são até uma boa novidade para o Sporting. Mas, de facto, continua a ser quase ridícula a forma como não se consegue impor nas suas acções. Não compromete, mas, para se ter uma ideia, Torsiglieri jogou cerca de 1/3 do tempo e conseguiu praticamente o mesmo número de intercepções.

Polga – O Marítimo facilitou-lhe a vida porque permitiu jogar facilmente em várias ocasiões. Mas sempre que tentou o passe longo, foi um desastre. É um jogador experiente e tem, como já realcei, qualidades raras, mas precisa de ter um jogo, quer ofensivamente, quer defensivamente, mais calibrado. Algo que, como já se percebeu, não acontecerá com Paulo Sérgio.

Pedro Mendes – Regressou e, jogando na posição em que jogou, foi de novo a placa giratória do meio campo. Isso, e a falta de pressão dos madeirenses, explica o elevado número de passes que conseguiu. Mas Mendes não está ainda no nível que dele se espera. Falhou demasiadas vezes quando tentou passes mais difíceis e também não teve uma presença muito dominadora em termos de recuperação. Seria bom que jogasse com mais regularidade.

André Santos – Não está, de facto, numa boa fase e a aposta nele só se explica pela juventude e necessidade de o fazer jogar. Comparativamente com Zapater, teve uma utilidade muito baixa, notando-se muito a diferença de percepção posicional em relação ao espanhol (não tem a ver com os golos). Para evoluir é importante jogar, mas não menos importante é ganhar cultura posicional e capacidade de integração ofensiva sem bola.

Zapater – Não é apenas a eficácia ofensiva que faz dele o melhor em campo. Bem posicionalmente e beneficiando do ritmo lento do jogo, antecipou sempre correctamente onde devia estar – o que lhe valeu, também, os golos conseguidos – e o tempo das suas acções. Não merecia ter sido ele a sair do onze depois do jogo frente ao Braga, e confirma agora o seu bom momento.

Liedson – No inicio de época aparecia preso na área, o que o impedia de ser ele próprio. Jogando mais livre, torna-se um jogador verdadeiramente difícil de parar. Quer sem bola, onde mantém uma utilidade invulgar para um avançado, quer com ela. É certo que não é jogador forte e constante em termos de decisão em zonas mais longe da baliza - muitas vezes parece mesmo contra producente. Mas é um jogador sempre muito imprevisível e que ganha muito por abordar as zonas de finalização vindo de fora, não dando possibilidade aos defensores de definir a marcação. O rendimento de Liedson depois da saída de Paulo Bento caiu, não porque estivesse "acabado", mas porque a exploração das suas características deixou de ser a mesma.

Djalma – Pode ter explosão e qualidade de definição. Pode até ser um jogador com capacidade de trabalho. Com o tipo de decisões que tem em espaços mais densos, porém, dificilmente triunfará numa patamar mais elevado.
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25.1.11

Benfica - Nacional: Análise e números

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A nova era de goleadas mantém-se na Luz. Desta vez, porém, com um sabor mais agridoce do que noutras ocasiões. É que, ao contrário de outros jogos, em teoria até mais difíceis, o Benfica consentiu demasiado ao adversário, acabando por ter de passar por uma ansiedade de todo inesperada para quem vencia por tão confortável margem. Jesus tentou desdramatizar, atirando a justificação para a natureza competitiva do jogo e o arrojo das equipas que defrontam o Benfica. Ficou dito e escrito, mas todos sabemos que, nem os adeptos, nem o próprio treinador ficarão convencidos com a explicação. O Benfica fez um bom jogo, mas a sua instabilidade na retaguarda – que tem motivos não novos e já aqui abordados – deve, de facto, preocupar.

Notas colectivas
Não há dúvida de que a confiança pode representar muito - quase tudo - para uma equipa. Repare-se na entrada do jogo e compare-se com outros casos, de outras fases, desta mesma equipa: o Nacional parecia ter entrado melhor, mas, à primeira aproximação que fez à baliza contrária, o Benfica marcou, acabando por “matar” praticamente o jogo, pouco depois.

Essa é a primeira nota sobre o Benfica: a sua confiança, que acrescida à qualidade dos intérpretes e à óptima dinâmica colectiva do modelo do seu treinador, leva sempre a uma grande facilidade para criar problemas sérios às defensivas contrárias. Aliás, e já que falo disso, é interessante notar como os intérpretes sempre lá estiveram e o modelo táctico também é o mesmo. Isto para assinalar que algumas infundadas criticas, tanto à falta de qualidade do plantel encarnado, como à previsibilidade do modelo de Jesus, parecem hoje esquecidas quando foram motivo para tanta tinta no inicio de época. É pena se assim for, porque quem não tem memória, também não aprende.

Mais interessante, porém, é falar do outro lado, do porquê de um jogo tão esticado, veloz e, sobretudo, o porquê de tantos embaraços junto da baliza encarnada? Aqui, volto a reforçar algumas ideias que vêm de trás, simplesmente porque continuo a ver nelas o principal motivo para esta situação. O Benfica recupera bem em transição e posiciona-se melhor em organização. O problema continua a ser o tipo de situações a que a equipa se submete. Continua a perder vários passes em zonas perigosas, potenciadores de ataques rápidos difíceis de controlar, e continua, também, a não ter grande noção estratégica em função das diversas fases do jogo. Nomeadamente, em vantagem e com o adversário a tentar reagir, convém não potenciar um jogo partido e privilegiar mais um ataque equilibrado e racional. Lá está, o problema é defensivo, mas tudo começa com o critério da equipa quando tem a bola em sua posse.

Notas individuais
Sidnei – Marcou 1 golo e teve intervenções importantes. Acho que é um jogador com potencial, mas também tenho a forte convicção que, se David Luiz sair, o Benfica poderá pagar um preço desportivo por isso. É que Sidnei, actualmente, não erra menos do que o David Luiz e tem a agravante de não ter, nem a capacidade física, nem o entrosamento posicional do ainda titular da posição. Jesus terá de puxar por ele, porque a zona central da sua defesa é fundamental, podendo abrir-se aqui um novo problema para a fase terminal da temporada.

Luisão – Na minha opinião, é o melhor central do campeonato até ao momento. Forte posicionalmente, certo com bola (embora neste jogo tenha cometido alguns erros), interventivo quase sempre na medida certa e, como complemento, ainda capaz de ser um terror sempre que se adianta nas bolas paradas. Perder David Luiz será mau, mas continua a ser bom ter Luisão.

Javi Garcia – A nota vai, sobretudo, para a sua titularidade. Na minha opinião, Airton justificava a continuidade da aposta, porque se apresenta muito mais útil em certos aspectos, como o papel de apoio em posse. Mas Javi regressou e cumpriu, dentro do que dele se espera.

Aimar – Outro regresso, este sim, bastante feliz. Não tem sido sempre assim ao longo da época, mas Aimar foi, na primeira parte, o 10 que o Benfica tantas vezes não teve. Sempre dinâmico com bola, e reactivo sem ela. O problema é que a época de Aimar tem sido demasiado inconstante, tanto em termos de presença, como em termos de consistência exibicional. Acabou por sair numa fase em que não estava já tão bem.

Gaitan – Joga com o ar de quem está no aquecimento e isso não lhe traz muitos amigos. É verdade que Gaitan não tem a melhor intensidade com bola e isso parece sobretudo um desperdício para o potencial que tem. O facto é que o argentino tem melhorado claramente em termos de entrosamento e consistência com o desenrolar da época. Cumpre muito bem o seu papel posicional – nomeadamente a relação com Coentrão – e é útil em todos os momentos do jogo. Para mais, e mesmo com a tal falta de intensidade, o seu talento é suficiente para desequilibre, marque e assista com uma regularidade assinalável. Goste-se ou não do estilo, está ser uma primeira época bastante boa.

Salvio – Ao contrário de Gaitan, a energia que coloca em cada jogada é suficiente para empolgar as bancadas, mesmo quando ainda nada aconteceu. O facto é que Salvio, sem fazer um jogo excepcional em termos de impacto decisivo, esteve muito bem ao nível da decisão, acabando por dar sequência à grande maioria das posses de bola que por si passaram. E esse é sempre um indicador positivo para quem, como ele, sente a pressão de trazer algo de novo em cada vez que tem a bola. Entre outras coisas, um indicador de confiança.

Saviola e Cardozo – Não vou falar do que fizeram com bola, até porque, quer num caso quer noutro, não se desvia muito do que é hábito. A nota vai para a pouca utilidade dos 2 – especialmente Cardozo – nos momentos defensivos. Uma equipa que quer ser dominadora tem de começar a sê-lo na capacidade de pressionar, quer em transição, quer em organização. Saviola e Cardozo dão muito pouco à equipa nesse aspecto e isso tem mais implicações do que possa parecer.

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24.1.11

Beira Mar - Porto: Análise e números

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Numa conversa entre Mourinho e Maradona, as camâras apanharam uma breve troca de impressões em que o português dizia algo como isto: “uma coisa é teres uma equipa que sabes que, se marcas, ganhas. Outra coisa, é quando, marcas, e mesmo assim não sabes o que se vai passar”. Ora bem, o Porto foi, em absoluto, o primeiro caso levantado por Mourinho. Não era liquido que marcasse na primeira parte de um jogo tão fechado – e é importante que se note o relevo desta eficácia para o destino do jogo – mas, tendo-o feito, soube manter o jogo sempre longe da sua baliza, mesmo que para isso tivesse de arregaçar as mangas e despir o “smoking”. Ossos do ofício para quem percebe bem qual é o verdadeiro objectivo de um jogo de futebol. De resto, e como abordo abaixo, mérito para o Beira Mar por ter condicionado fortemente a mais valia técnica dos portistas.

Notas colectivas
Não é este o tipo de jogo que alguma equipa “grande” deseja enfrentar. Não é, mas é bom que esteja preparada para ele. O mérito é do Beira Mar, que, se não conseguiu pontuar, conseguiu, pelo menos, forçar o Porto a jogar sempre em espaços muito apertados e longe das balizas. Porque é que o conseguiu? Pela conjugação de vários factores. Primeiro, a ideia, a estratégia, que limitou os riscos do seu próprio jogo, não querendo jogar muito em apoio e apostando em lançamentos mais largos para inicio de jogadas. Depois, pela atitude e organização. Atitude, para manter agressividade e reactividade na zona intermédia. Organização, para não permitir que o Porto encontrasse espaços para dar profundidade ao seu jogo. Os números, já agora, confirmam esta característica de um jogo mais disputado do que é comum: este foi, no campeonato e descontando o alagado jogo de Coimbra, o jogo com mais intercepções e menos % de sequência em posse da equipa do Porto.

Perante tudo isto, o Porto respondeu muito bem. Manteve-se concentrado, organizado e agressivo. Não foi fácil encontrar, depois, os tais espaços para chegar próximo do golo, mas o Porto lá os foi conseguindo, através do seu óptimo jogo em posse. Quer por aquilo que o maior ascendente lhe oferecia – mais bolas paradas – quer pela exploração de algumas lacunas posicionais no bloco contrário. A saber, o espaço entre os centrais e laterais aveirenses, nem sempre bem mantido por estes últimos, e o desposicionamento de Djamal, “pivot” defensivo, que sempre que saía da sua zona para pressionar, abria um buraco nas suas costas.

Há que notar, neste jogo, a importância do posicionamento base dos jogadores, quase sempre bem respeitado de parte a parte. Para o Porto, foi um jogo disputado em espaços mais curtos do que é costume. Os jogadores puderam manter distâncias mais próximas entre si e fizeram-no bem. É curioso como esta característica condicionou o tipo de exibição característica de alguns jogadores mais defensivos. No Beira Mar, já destaquei algumas lacunas que foram aparecendo também por mérito do Porto e da sua posse, mas há que realçar a boa organização da equipa, em particular da coerência posicional da sua linha defensiva e da importância dada pelos centrais à conservação de um espaço sempre curto entre eles.

Notas individuais
Emídio Rafael – Dos jogos para o campeonato (os outros não analisei com o mesmo detalhe) foi a sua melhor exibição. O Beira Mar pareceu tentar explorar o seu flanco de forma intencional e o resultado foi que Rafa acabou como o jogador mais interventivo da sua equipa. Defensivamente, esteve bem, beneficiando, parece-me, do tal jogo de referências posicionais mais próximas, ajustando sempre bem o posicionamento, nomeadamente em relação a Otamendi, e mantendo uma boa agressividade na sua zona. Com bola, poucas vezes teve a oportunidade de jogar no campo adversário, mas numa dessas vezes combinou bem com James para uma das melhores ocasiões da equipa. De resto, cometeu um erro que podia ter comprometido, e, talvez por isso, teve uma segunda parte de risco mínimo sempre que a bola passava pelos seus pés. Daí, o menor aproveitamento no capítulo técnico.

Rolando e Otamendi – Invariavelmente, Otamendi é o mais interventivo em termos defensivos, mas desta vez foi ao contrário. Na minha leitura, tem a ver com a característica mais fechada do jogo, sendo que Otamendi é um jogador que sobressai mais quando o jogo é mais esticado e há mais espaço para controlar. Seja como for, e sem terem feito um jogo perfeito, estiveram ambos bem, com Rolando em melhor plano também no capítulo técnico.

Fernando – Villas Boas fez bem em fazer regressar o “polvo” neste jogo. Não teve um jogo de domínio excepcional da sua zona, mas cumpriu perfeitamente a sua missão, quer em termos defensivos, quer em termos de segurança em posse. E isso, raramente Guarin consegue com tanta eficácia.

Belluschi – Não foi influente no último terço, mas, mais uma vez se prova, Belluschi é tudo menos um jogador apenas criativo. É um jogador de grande capacidade defensiva: rápido e reactivo a encurtar espaços e muito agressivo a pressionar. Por isso ganha tantas bolas e por isso é tão útil, mesmo em jogos mais fechados. Creio que é uma característica que continua pouco percepcionada em geral, mas que não escapa à equipa técnica, que, por isso, o mantém quase 90 minutos num jogo destes (Jesualdo, por exemplo, nem o colocava a jogar em jogos mais exigentes em termos defensivos).

James – Há um aspecto que se repete nele, e em jogos bem difíceis para o fazer: a certeza em posse. A sequência que dá às posses que passam por ele é muito acima do que é esperado para um jogador da sua posição e idade, e isso indica uma boa capacidade de decisão que, efectivamente tem. James, porém, precisa ainda de encontrar a sua forma de ser decisivo, porque só assim poderá ser o jogador de excepção que o Porto tanto espera dele. Curiosamente, pareceu melhor quando jogou na direita, intervindo mais em zonas interiores.

Hulk – Há 1 semana escrevia que o momento de Hulk é de tal forma positivo que desequilibraria em qualquer circunstância. Mais um exemplo. Jogo fechado, actuando numa posição onde não se sente tão confortável e, mesmo assim, presente em 2 dos principais desequilíbrios da equipa. A curiosidade de nenhum ter sido pela sua habitual capacidade de desequilíbrio no 1x1, mas em movimentos característicos de um 9.

Cristian Rodriguez – Entrou bem e penso que pode dar muito à equipa se tiver disponibilidade física e oportunidades para tal. A confirmar.

Kanu – Desde a II Liga – e já há alguns anos – que se percebe que tem características para muito mais. É um jogador muito forte em termos físicos, pela velocidade e agilidade invulgares que possui. Por isso, ganha tantas bolas e é tão difícil de bater no 1x1. No capítulo técnico não tenho tanta certeza sobre a sua real valia, mas não será esse o seu principal desafio. Com Leonardo Jardim, já tem tido essa possibilidade de evoluir, mas precisa de ser “formatado” em termos de rigor posicional e risco de decisão. Se o conseguir, será um central muito bom, porque potencial, tem.
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21.1.11

João Real (vs. Porto): o guarda redes de campo

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Já me tinha referido à sua incrível exibição no Dragão, classificando-o como o maior responsável por o jogo não ter conhecido um desnível ainda maior no marcador. Não se faz, com isto, uma avaliação às características e potencial do jogador, mas quaisquer defeitos que possa ter não apagam a extraordinária contribuição defensiva frente ao Porto. Não só pelo número elevado de intervenções defensivas, mas por algumas recuperações verdadeiramente espectaculares e decisivas. Parecia que a Naval estava a jogar com dois guarda redes...

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