21.1.11

João Real (vs. Porto): o guarda redes de campo

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Já me tinha referido à sua incrível exibição no Dragão, classificando-o como o maior responsável por o jogo não ter conhecido um desnível ainda maior no marcador. Não se faz, com isto, uma avaliação às características e potencial do jogador, mas quaisquer defeitos que possa ter não apagam a extraordinária contribuição defensiva frente ao Porto. Não só pelo número elevado de intervenções defensivas, mas por algumas recuperações verdadeiramente espectaculares e decisivas. Parecia que a Naval estava a jogar com dois guarda redes...

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20.1.11

O recital de Maniche

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Nos tempos que correm, não é propriamente um fenómeno de popularidade. Há quem não goste do estilo, do penteado, do ordenado ou mesmo do bilhete de identidade. Para mim, que não valorizo especialmente algum desses aspectos na análise que faço dos jogadores, Maniche é um jogador de aptidões e qualidades raras e dos melhores que a nossa liga tem a oportunidade de ter. Em vários jogos, um verdadeiro recital de bem jogar.

O vídeo reporta-se apenas à primeira parte do jogo com o Paços e se o número de intervenções acertadas de Maniche é invulgarmente elevado (invulgarmente, mas não para ele), o que merece mais destaque no jogo de Maniche não é isso mas outros aspectos.

Note-se que em quase todas as acções de Maniche o seu tempo na bola é muito curto e a sua acção é definida também num número muito limitado de toques na bola, sem que isso afecte a qualidade, quer da decisão, quer da execução. Claro que para conseguir fazer recepções sempre bem orientadas e passes bem medidos é preciso um grande qualidade técnica. Nisso estamos conversados.

O que mais distingue a qualidade de Maniche, aquilo que o tornou, em tantos momentos, num médio de elite do futebol mundial, e que seguramente não se perde com a idade, é a leitura e antecipação que faz de cada jogada em que intervém. É notável a forma como parece já ter decidido o que vai fazer no momento seguinte, sendo que até nas jogadas em que intercepta acções adversárias consegue várias vezes direccionar a sua intervenção.

A única coisa que se pode lamentar, para o Sporting, é que a equipa não tenha outra qualidade de movimentação para dar sequência àquilo que Maniche lhe pode oferecer. Quer em termos de circulação, quer em termos de movimentos sem bola, outro dos cartões de visita deste veterano.



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Jogos da Taça da Liga (Breves)

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- Na Luz, o jogo pareceu mais um regresso à pré temporada. A verdade é que, depois de parecer estar decidido, o jogo complicou-se mesmo para o Benfica. O mais curioso deste jogo veio depois. Jesus quis ganhar o jogo e ninguém estranhou que, para isso, tivesse a 2 mais valias como Gaitan e Salvio. Gaitan e Salvio, os mesmos que durante tanto tempo foram catalogados como "o problema" do Benfica. Bem... não foi assim tanto tempo, afinal ainda estamos em Janeiro. A memória é que é curta.

- Também no Dragão o jogo soube pouco a competição. A culpa, neste caso, será bem mais do Beira Mar que terá, na primeira parte, rivalizado com os mais frágeis visitantes que o Dragão viu este ano. Nomeadamente, surpreendeu a frequência com que o Porto conseguiu actuar em ataque rápido. A frequência e o espaço, claro. Nota para Walter que voltou, não só a marcar, como a ser decisivo. Continuo a estranhar a pouca utilização deste jogador, nomeadamente, por exemplo, quando se compara a aposta diferente que tem tido James. São 2 jogadores de potencial, sim, mas que precisam de evoluir antes de serem valores seguros. No entanto, a minha estranheza vem do facto de, conhecendo os 2 jogadores, ser da opinião de que é Walter quem tem virtudes mais raras para ser potenciadas. Falta-me saber como treina e a atitude que tem, mas, ainda assim, estranho.

- Uma nota também sobre a espectacular exibição do Paços no dia anterior. Notável a reacção, a lembrar muito a segunda parte de Alvalade. Uma forte machadada na época do Braga que, depois das compreensíveis dificuldades no campeonato e natural afastamento da Taça, tinha outras responsabilidades nesta competição. Talvez seja mesmo a derrota mais censurável da época para o Braga.

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19.1.11

Académica - Benfica: Análise e números

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Foi, começo por dizer, um jogo algo atípico em termos de eficácia. Atípico e pela negativa, porque foram criadas muitas oportunidades para o magro golo concretizado. A consequência desta situação é que para ambas as equipas terá ficado a sensação de um jogo mal aproveitado. A verdade, porém, é que a vitória assenta bem ao Benfica, justificando-se, a meu ver, tanto os 3 pontos como a margem mínima. Uma opinião que não invalida uma outra, mais critica em relação a alguns aspectos da exibição benfiquista.

Notas colectivas
Com a expulsão, a coisa acentuou-se ainda mais, mas foi sempre um jogo muito confortável para o Benfica em termos de primeira fase de organização. Isto, porque a Académica teve como estratégia dar alguma liberdade ao papel do trio formado pelos centrais e Airton na saída de bola, mas bloqueando sempre a saída pelos corredores e – mais importante ainda – muito bem os espaços em zonas próximas da área, onde habitualmente surge a solução Saviola. A neutralização do papel do “Conejo”, aliás, parece-me ter sido a grande virtude de uma estratégia estudante, que, parcialmente, obteve bons resultados. Parcialmente, reforço.

Perante isto – e aqui surge a primeira critica ao Benfica – a equipa da Luz não teve grande capacidade de resposta. Não conseguiu encontrar Saviola, não conseguiu descobrir algumas das suas habituais combinações nas alas e faltou-lhe muitas vezes o arrojo para inventar algo de novo, em ataque posicional.

Só que, e apesar disto, o Benfica foi beneficiando do amplo domínio que ia tendo e, em situações circunstanciais mas frequentes, foi-se aproximando de forma assinalável do golo, acabando por justificar a vantagem que conseguiu ao intervalo. Por exemplo, algumas das melhores jogadas encarnadas resultaram de combinações após lançamentos laterais à esquerda, uma situação que normalmente dá vantagem a quem defende e que, como é óbvio, merece revisão por parte da Académica.

A outra critica que há a fazer ao Benfica é mais óbvia e tem a ver com a segunda parte. Jesus falou do desgaste físico provocado pela sobrecarga de jogos, mas acho difícil que a parte física seja realmente o problema de uma equipa que jogou em superioridade numérica e que não teve de travar grandes duelos em termos físicos. Na verdade, acho possível que se recorra ao desgaste como justificação, mas terá sempre de ser um desgaste mental, responsável por uma menor capacidade de decisão e criatividade no último terço, e que explique, assim, tanto domínio e tão poucas situações de finalização. Seja como for, não me parece que se deva aceitar o desgaste como desculpa, seja ele mental ou físico, parecendo-me que houve – isso sim – algum relaxamento imprudente para um jogo que, parecendo resolvido, não o estava.

Nota sobre a Académica para assinalar que a equipa deve estar contente com muito do que fez. Não discutiu nunca o jogo em termos de domínio, mas também nunca o pareceu querer fazer. Tinha, isso sim, uma estratégia centrada no controlo dos espaços considerados mais importantes e numa transição que conseguisse aproveitar a característica e largura do seu trio ofensivo. Isso foi, em alguns casos, muito bem conseguido, mas faltaram detalhes que acabaram por dar ao Benfica as brechas que precisava. Seja como for, a expulsão penalizou muito a equipa e é possível pensar que em igualdade numérica pudesse ter causado mais dificuldades na segunda parte.

Notas individuais
Ruben Amorim – A lateral era outra alternativa para ele, conseguindo um nível idêntico – em alguns aspectos superior – ao de Maxi. É pena, para ele e para o Benfica, que se tenha lesionado.

Coentrão – Grande jogo, outra vez. Está de volta às grandes exibições, recuperando do mau período iniciado na traumática derrocada do Dragão. Agora, ainda por cima, parece ter um entendimento muito maior com Gaitan, o que ainda o beneficia mais. Apenas realçar que Coentrão não é um dos melhores do mundo apenas pelo que faz ofensivamente. Defensivamente também é, invariavelmente, o dono do seu corredor.

Airton – Tinha falado, durante a semana, da falta de presença de Javi Garcia em posse. Pois bem, Airton fez 77 passes completados no jogo! É certo que o jogo permitiu-lhe aparecer mais, é certo, também, que não é um jogador forte na capacidade de passe, mas é também um dado adquirido que é um jogador que privilegia a segurança e que tem muito mais presença do que Javi Garcia nessa função (Javi nunca chegou sequer perto destes números em qualquer jogo). Em termos de domínio da sua zona também ganha em relação ao espanhol, ficando apenas a dúvida em alguns pormenores posicionais que podem ser importantes e onde Garcia é mais forte. Aspectos que podem ser corrigidos e que não impedem que se justifique uma aposta mais séria neste brasileiro.

Gaitan – Posicionalmente voltou a cumprir o seu papel, talvez até melhor do que noutras ocasiões, sendo um jogador útil nos momentos defensivos e entendendo-se cada vez melhor em termos posicionais com Coentrão. O problema foi no capítulo técnico. Vários pormenores que revelam o seu enorme talento, várias aparições, mas poucas consequências práticas. Denota sempre alguma displicência quando os jogos estão resolvidos e este pareceu-lhe resolvido cedo de mais.

Carlos Martins – Em parte foi um dos responsáveis pelas dificuldades da equipa em ataque posicional. Mas, por outro lado, foi dos elementos mais presentes nas principais jogadas da equipa, o que compensa claramente a primeira critica. Compensa, mas não a apaga.

Saviola – Foi a grande vitima do bom jogo posicional da Académica e, já agora, da incapacidade da própria equipa em alguns aspectos. A sua preponderância não foi a habitual e, por isso, não tenho desta vez quaisquer elogios a fazer-lhe. Aliás, reavivo uma critica: Saviola, com Cardozo, produz muito pouco para uma pressão defensiva que se pretende agressiva e potenciadora de erros na posse adversária.



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18.1.11

Porto - Naval: Análise e números

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Talvez não pareça, à partida, mas este não foi um jogo de características normais, tendo em conta aqueles que o Porto habitualmente disputa em sua casa. E não o foi, essencialmente, pela postura da Naval, que se apresentou muito agressiva em termos posicionais, dando menos tempo e espaço para a circulação de bola, tão típica no jogo portista. Na prática, o resultado não foi muito bom para a equipa da Figueira, com a qualidade do Porto a ser suficiente para encontrar várias situações de golo ao longo do jogo. Aliás, talvez a Naval se possa dar por satisfeita porque, dado o espaço que concedeu nas suas costas, o resultado poderia ter sido bem mais pesado do que aquele que se observou.

Notas colectivas
Para sustentar o carácter algo atípico do jogo portista, basta atentar a alguns dados muito claros: o Porto realizou, neste jogo, a sua partida em casa com menos passes completados e menor % de sequência dada a cada posse de bola. O motivo para tal constatação, perante uma equipa, em teoria, das mais incapazes de discutir o domínio do jogo, está, como referi antes, na opção estratégica da Naval. A sua linha defensiva teve um comportamento altamente agressivo, subindo muito, abrindo espaço nas suas costas mas também reduzindo substancialmente a zona onde o Porto faz a construção das suas jogadas. A consequência disto foi um tipo de jogo mais verticalizado e menos trabalhado, onde cada jogada precisava de menos passes até chegar à sua conclusão. Quem experimentou estratégia idêntica no Dragão foi o Leiria, mas desta vez o Porto não esteve tão inspirado no aproveitamento do espaço que havia nas costas da defensiva contrária.
Ainda em relação à Naval, importa dizer que a sua atitude agressiva em termos posicionais não teve sempre a melhor organização. Não só na fundamental sincronia da última linha, mas também na forma como, por diversas vezes, o seu curtíssimo bloco não se conseguiu ajustar ao posicionamento da bola para manter uma presença pressionante sobre o portador da bola. E, como se sabe, só é possível jogar-se com espaço nas costas se a pressão sobre a bola for sempre conseguida. Caso contrário, pode ser suicídio.

De resto, e termino por aqui em relação à Naval, a sua qualidade com bola também não foi muito boa, vivendo sobretudo de alguns rasgos individuais de Fabio Júnior que, porém, lhe chegaram a dar uma soberana oportunidade para complicar as contas portistas. Não que chegasse para a surpresa – isso nunca saberemos – mas porque, dadas as circunstâncias, a eficácia era um elemento obrigatório para quem queria sonhar.

Quanto ao Porto, e apesar do tal bloco curto da Naval, é notável a movimentação que existe em ataque posicional, com a equipa a encontrar situações de liberdade, mesmo dentro das apertadas linhas do seu opositor. Foi, creio, um bom jogo da equipa em vários parâmetros, ficando apenas a dever a si própria alguma qualidade de definição no último terço para atingir uma expressiva goleada. É que as condições estavam criadas.

Uma nota em relação ao meio campo portista. Parece haver uma intenção de usar as características mais ofensivas de Guarin, dando mais liberdade ao “pivot”, e, para isso, mantendo Moutinho numa posição de maior proximidade com essa zona. Quer no equilíbrio posicional, quer mesmo numa fase de construção, onde Moutinho aparece muito mais do que Belluschi junto dos centrais. Por outro lado, Belluschi tem uma presença mais próxima das linhas ofensivas, aparecendo menos numa primeira fase de construção, mas mais no espaço entre linhas e dando largura à direita em situações de variação de flanco. São comportamentos já vistos noutras ocasiões, mas que creio serem mais notórios e conseguidos nos últimos jogos, com Guarin como “pivot”. Resta saber, porém, se esta opção se manterá noutro tipo de jogos onde, claramente, o colombiano não dá tantas garantias como Fernando em termos de segurança e presença posicional.

Notas individuais
Fucile – Regressou à esquerda, mas não teve muita sorte no ‘timing’ deste regresso. É que o jogo foi mais verticalizado do que é hábito, havendo menos apelo à inclusão dos laterais em termos ofensivos. Ainda assim, o grande reparo que lhe tem de ser feito é para a frequência absurda com que fica ligado a erros decisivos ou a grandes penalidades. Uma tendência para o desastre que se lamenta, porque é forte em quase tudo.

Otamendi – Não pode marcar com tanta frequência como vinha fazendo, mas vem-se revelando como a melhor opção para o lugar, e com alguma distância. Tem uma área de intervenção muito alargada e consegue ser dominador em todo esse espaço. Sente-se que gosta disso e que, por isso, também arrisca mais nas suas intervenções. O segredo para a sua evolução é calibrar melhor as bolas a que deve ir e aquelas em que deve ficar, assim como o risco que assume em cada posse de bola. É, a meu ver, o dilema tradicional dos centrais com maior potencial.

Rolando – Ao contrário de Otamendi, tem uma zona de intervenção curtíssima e impõe-se com muita dificuldade em termos defensivos. Mantém um perfil sóbrio, tem boa presença nas bolas paradas e é fiável com a bola nos pés, o que o faz errar menor e o iliba quase sempre de apreciações mais negativas. A meu ver, porém, o Porto deve pedir mais para esta posição.

Guarin – Voltou a fazer um bom jogo, sobretudo porque tem a capacidade de dar profundidade à sua intervenção. Mas não é – de longe – um jogador muito forte na missão posicional e de segurança que normalmente está reservada para a sua posição. Será interessante ver como Villas Boas gerirá a sua utilização ao longo da época.

Moutinho – Começou por ameaçar uma grande exibição, mas foi perdendo presença e acabou por estar menos participativo na segunda parte. A sua fiabilidade, no entanto, faz com que jogue sempre bem e penso que é boa ideia reservar-lhe uma missão mais focada no equilíbrio e na primeira fase de construção do que esperar dele uma grande influência no último terço.

Belluschi – Não começou bem, mas creio que terá feito uma das suas melhores exibições em termos globais. Esteve bem em posse, conseguiu várias recuperações importantes em zona alta e foi influente também no que a equipa conseguiu no último terço.

Hulk – Voltou a jogar a partir da ala, onde claramente rende mais. O ponto, porém, é que o momento de confiança é de tal ordem que não creio que alguma posição no campo o impedisse de marcar e ser influente. Que época!

João Real – Posicionalmente não dá para tecer grandes elogios, mas a sua capacidade interventiva foi absolutamente incrível. Fez um número absurdo de cortes, muitos deles em recuperação e decisivos. Diria que foi um “guarda redes de campo”, e muito graças a ele, não aconteceram mais golos.



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17.1.11

Sporting - Paços: Análise e números

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O jogo abriu com uma ocasião, logo na primeira jogada, e esse acabou por revelar-se um pronuncio do entretenimento que a partida viria a oferecer. Os efeitos da estratégia do Paços já haviam sido explicados no jogo que fizera na Luz, onde conseguiu um elevado número de remates. Desta vez, porém, os “castores” foram mais longe e acabaram por juntar a sua própria eficácia com a complacência do adversário. É que se a estratégia do Paços estava anunciada, o Sporting nunca se mostrou preparado para ela, agravando a situação com a péssima reacção que foi tendo ao longo do jogo. Ao intervalo ainda dava para reconhecer que a desvantagem era penalizadora para o Sporting, mas o mesmo não se pode dizer do segundo tempo. Tudo somado: sem desculpas!

Notas colectivas
A intenção do Paços era óbvia: quando o Sporting tinha a bola, provocar o erro e, se possível, impedir a saída em futebol apoiado, através de uma primeira linha de pressão mais alta. Quando conseguia ganhar a bola, utilizar sempre um futebol rectilíneo, seja através de saídas verticais em ataque rápido ou, caso tal não fosse possível, uma abordagem mais directa em ataque posicional.

Perante este cenário, o Sporting tinha um papel muito fácil de entender. O segredo estaria na qualidade em organização e em ataque posicional. Ter a inteligência para perceber o perigo de errar em zonas baixas, e a audácia para ultrapassar, com bola, a primeira linha de pressing do Paços. Se isso fosse conseguido, o Sporting poderia aproveitar o maior espaço dentro do bloco pacense e empurrar o adversário para um posicionamento mais baixo, que não lhe permitiria impor as características do seu jogo.

O problema é que, não só o Sporting fez um dos jogos mais erráticos da temporada (também por mérito do Paços), como a sua circulação nunca foi capaz de fazer a bola chegar com eficácia à zona de criação. O problema, aqui, está nas dinâmicas que a equipa não tem para o que sobra da primeira fase de construção. Com Maniche (e Pedro Mendes, quando está disponível), a bola circula sempre bem, com segurança e velocidade, mas o que vem depois é um enorme deserto de ideias. Os extremos não fazem movimentos interiores, e quando aparecem é sempre para resolver individualmente nos corredores. Os laterais, só aparecem ofensivamente em situações pontuais e circunstanciais do jogo. O avançado parece ter como única função esperar por uma situação de finalização na área. Sobra o improviso do 10, e – repito a ideia – Paulo Sérgio bem pode agradecer à sorte a lesão de Matías Fernandez.

Com todos estes problemas, o Sporting não estava a fazer um bom jogo, mas também é facto que foi criando oportunidades em bom número através das inspirações de Valdés. A agravante surge depois, ironicamente entre os 2 golos da segunda parte. Aos 61’ o Sporting empatou, mas essa foi a sua derradeira ocasião clara no jogo. Culpa principal do seu treinador que forçou uma alteração, de todo, absurda. Não só alterou a estrutura, perdendo presença num meio campo já de si mal ligado, como retirou a sua unidade de maior influência no jogo. É óbvio que existe um preconceito geral em relação a Maniche e que isso impede adeptos e muita comunicação social de lhe fazer uma análise justa do seu óptimo rendimento. O que não é aceitável é que o próprio treinador não seja capaz de ir além deste registo. Não é aceitável, e isso paga-se.

Por fim, nota sobre o Paços. Já elogiei a prestação dos “castores”, pelo arrojo da sua estratégia que dá aos jogos uma característica pouco comum neste tipo de confrontos. Se é a melhor maneira? Parece-me discutível, mas o Paços tem-se dado bem. Há também alguns jogadores interessantes nesta equipa. Os laterais, digo eu, merecem uma revisão por parte de clubes de maior dimensão. São ofensivos e agressivos, ficando por averiguar a sua consistência e fiabilidade defensiva (coisa que ainda não fiz). Numa altura em que se procuram tantos laterais, se calhar vale a pena dar uma olhada. Depois, destaque para os centrais e para a dinâmica do meio campo ofensivo, com Pizzi e David Simão em destaque também pela sua juventude.

Notas individuais
Evaldo – O mesmo problema já realçado noutras ocasiões. Está lá sempre, mas sempre em níveis mínimos. Raramente compromete, mas não tem capacidade interventiva que se permita afirmar ser uma mais valia, ou sequer que lá chegue perto. Obviamente que esta constatação não justifica a sua troca por Grimi na altura em que aconteceu...

Polga – Erra com alguma – por vezes demasiada! – frequência, mas volto a fazer um elogio à sua capacidade de ler o jogo e de antecipação. Por isso, e mesmo não sendo forte fisicamente, é o jogador que mais intercepções faz entre os 3 “grandes". É uma característica que não lhe é muito reconhecida, mas com a qual a equipa ganha muito. Não foi por ele que o Sporting perdeu, seguramente.

Carriço – Carriço distingue-se, entre os subaproveitados centrais do Sporting, por ser aquele que menos erros comete. Desta vez foi mais humano e esteve, por culpa própria, bem na origem da derrota.

André Santos – Continuo a fazer notar que, sendo um bom jogador, se está a exagerar sobre as suas capacidades actuais e que isso pode não ser benéfico na sua evolução. Em relação a Zapater, ainda é discutível a sua mais valia, mas com o regresso de Maniche voltou a ser apenas uma sombra do seu parceiro de sector. Claro, quando lhe tiraram Maniche, a coisa complicou-se.

Maniche – É espantoso o que joga e o que dele se diz. Grande primeira parte, sendo, outra vez, a unidade mais influente, quer em termos de circulação, quer em termos de trabalho defensivo. É certo que estava a aparecer menos na segunda parte, mas nada justifica a sua saída, quando, por exemplo, o seu rendimento era, a anos luz, superior ao de André Santos. A incompetência da decisão pagou-se com aquilo que se viu depois do 2-2.

Salomão – É curioso porque apareceu melhor na pior fase da equipa. É possível que seja um jogador mais forte se não estiver tão isolado na linha. Tem boa capacidade de decisão, mas muitas vezes faltam-lhe apoios. Tem boa capacidade de trabalho, mas está muitas vezes muito longe das jogadas. Tudo somado, fez um bom jogo, mas esse é o principal destaque que lhe vi nesta partida, quando jogou mais por dentro: talvez ainda exista um melhor Salomão do que aquele que já vimos. Mas, para ter a certeza, teremos de esperar por outro Sporting.

Vukcevic – Voltou a ser pouco produtivo em termos de trabalho e uma espécie de ilha amarrada à direita. É claro que pode sempre decidir com o seu talento, mas quando, como foi o caso, isso não acontece, fica difícil de perceber para serviu no jogo...

Valdes – Voltou a fazer um jogo espantoso em termos de proximidade com o golo. A sua liberdade em zona criativa é uma enorme fonte de problemas para os adversários, mas convém não confundir as zonas em que deve ser potenciado. Se o objectivo é potenciar Valdes, é preciso dar-lhe mais jogo na zona criativa e não fazer baixar o jogador para a construção, onde o seu perfil de decisão é inadequado. A sua não planeada adaptação a 10 tornou-o num dos melhores reforços do Sporting nos últimos anos. Isto, ao mesmo tempo que se continua a dizer que a equipa não luta pelo título porque não tem jogadores para isso.

David Simão – Já observara este médio emprestado pelo Benfica na Selecção de esperanças e fiquei com melhor impressão do que o crédito que lhe foi dado na altura. É um jogador com grande qualidade técnica, que dá boa sequência a grande parte das bolas que por si passam e que tem, também, uma boa capacidade de trabalho. No entanto, não lhe vejo, para já, nenhuma característica extraordinária, sendo que joga numa posição muito exigente e de difícil afirmação. Fez um grande jogo, mas preciso de ver mais...



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16.1.11

A última derrota de Bettencourt e a luta pelo 3º lugar (Breves)

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- É inevitável começar pela consequência. Sócios e Bettencourt andavam há muito de costas voltadas, mas, desta vez, ambos tiveram a mesma ideia: aproveitar a surpreendente derrota para libertar o stress. Os sócios mostraram a sua indignação, Bettencourt demitiu-se. Todos ficaram mais aliviados. Afinal, bem vistas as coisas, a derrota pouco ou nada decide no destino desportivo da equipa que, nesta época, já estava comprometido. Saber escolher foi o que Bettencourt não soube fazer, e, saber escolher, era, é, e será sempre o que mais importa na gestão de um clube. O futuro do Sporting é, nesta altura, mais incerto do que nunca...

- Em relação ao jogo - e antecipando-me um pouca à análise que farei - vale a pena elogiar o Paços que tem sido das equipas mais interessantes de ver contra os "grandes". A sua estratégia passa sempre por provocar o erro e não apenas esperar por ele. Foi mais eficaz, foi feliz, mas teve mérito no que conseguiu. No que diz respeita ao Sporting, salientar os erros individuais altamente penalizantes, mas, também, a má leitura que veio do banco. Retirar um médio para colocar um avançado é um instinto natural de quem vê da bancada, mas não deve ser de um treinador. Especialmente quando isso implica perder presença no meio campo e jogar numa estrutura improvisada. Não admira, pois, que depois do 2-2 o Sporting se tenha distanciado muito mais do golo e, mesmo, perdido o controlo do jogo. Paulo Sérgio acabou por, implicitamente, confessar o seu próprio erro nas 2 alterações finais, mas, aí, o mal já estava feito...

- A luta pelo terceiro lugar, com a derrota do Sporting, ganhou novo interesse. Um dia antes, o Braga ganhava pela primeira vez fora de portas, num jogo onde espantou a incrível falta de organização do Portimonense depois do primeiro golo. Azenha diz que espera por novos reforços, mas dificilmente chegará qualidade suficiente para superar o contra relógio que a equipa tem pela frente. Em Guimarães, também o regresso às vitórias da equipa de Manuel Machado. O Vitória, de uma perspectiva pragmática, justificou os 3 pontos porque foi, de facto, a equipa que mais se aproximou do golo. A verdade, porém, é que também se viram sinais preocupantes, particularmente na forma como a equipa sofreu depois do golo, acumulando vários erros, quer com bola, quer sem ela.

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14.1.11

Comportamento defensivo do Benfica (II): Transição

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Se ontem trouxe aqui alguns elogios à capacidade organizacional do Benfica, nomeadamente em termos posicionais, hoje trago outro momento do jogo onde a equipa tem sentido algumas dificuldades: a transição ataque-defesa. Sintetizando, não creio que os problemas que o Benfica sentiu neste aspecto resultem de algum problema de resposta à perda de bola – como tantas vezes é, a meu ver, confundido – mas, antes sim, com a perda de bola em si mesmo. E aqui, é importante separar o tipo de transições a que a equipa é sujeita.

Defender mal... com bola
A teoria que vigora nos tempos que correm distingue 4 momentos de jogo, em bola corrida. 2 ditos defensivos e 2 ditos ofensivos. “Ditos” porque na verdade o que os distingue é a posse da bola. Como o futebol é jogado em acto contínuo, é fundamental não ser demasiado ortodoxo na interpretação da separação dos momentos do jogo. Ou seja, o que uma equipa faz num dado momento, a sua qualidade, começa no momento anterior, e isso é sobretudo relevante para os momentos de transição.

O ponto de tudo isto é que é completamente diferente estarmos a avaliar a resposta de uma equipa à perda de bola quando esta acontece numa fase precoce de construção ou, ao invés, quando esta acontece numa fase de criação. E isto, no Benfica, é perfeitamente evidente.

No vídeo estão seleccionadas 6 perdas de bola da equipa encarnada no jogo de Leiria. Nenhuma delas originou lances eminentes de golo, mas todas elas ofereceram ao adversário boas condições para o fazer. Noutros casos – e quem acompanha este blogue não terá dificuldade em enumerar muitos – o resultado foi diferente e a equipa foi severamente penalizada por isso.

Quer isto dizer que o Benfica seja uma equipa fraca na resposta à perda de bola? Não. Na verdade é uma equipa muito forte a fazê-lo, como aliás tantas vezes foi realçado no ano anterior. Pressiona com prontidão e eficácia e tem uma excelente capacidade de manter a sua organização em recuperação. Em vários aspectos, mesmo notável. O problema está na perda de bola em si mesmo, sendo que é absolutamente impossível pedir-se a uma equipa – seja ela qual for – que seja eficaz a responder a perdas de bola em zonas tão comprometedoras como frequentemente acontece no Benfica. Ou seja, o Benfica não defende mal sem bola, mas, pode dizer-se, defende mal... com bola.

Javia Garcia e a importância do “pivot”
Começo por uma estatística colectiva antes de ir ao pormenor individual:
Em matéria de perdas de bola, do mesmo tipo das que estão ilustradas no vídeo, o Benfica tem 6,1 por jogo, sendo que Porto e Sporting apresentam valores muito mais baixos do que o dos encarnados: 4,7 para ambos. Ou seja, há uma tendência claramente superior do Benfica para este tipo de erros comprometedores.

Se há posição importante em termos da resposta em transição é a do “pivot”. É uma posição que tem uma forte característica posicional, sendo responsável pelo equilíbrio da equipa na sua zona mais recuada, quando um dos defesas sai da sua posição, mas também pela contenção que é feita no corredor central, no inicio de transição do adversário, tendo a possibilidade de "matar" a transição ou, se tal não for possível, de atrasar o ataque rápido contrário, permitindo o reequilíbrio posicional dos restantes jogadores. Não é, portanto, difícil de perceber a importância desta função para a eficácia da resposta em transição.

Esta posição funciona em termos posicionais muito bem no Benfica, com Javi Garcia a interpretar perfeitamente os seus ajustes posicionais. Mas, noutros aspectos, há alguns problemas que penalizam fortemente a equipa.

Primeiro, com bola, há uma grande falta de segurança nas acções de Garcia. Em média, a posição de médio defensivo é responsável por 1,5 perdas por jogo em zona de construção, comprometendo a equipa com grande regularidade. Mas, mesmo descontando este relevante aspecto, há também um défice de presença em termos de posse por parte desta posição, invariavelmente interpretada por Garcia. Ou seja, para que haja maior segurança em zona de construção seria importante ter uma maior presença do elemento que joga à frente da defesa, mas, também aqui, a participação em posse do médio defensivo é muito menor no Benfica do que nos seus rivais.

Já agora, e a título de curiosidade, assinale-se que é no corredor central que o Benfica mais erra em posse em relação aos rivais. Para além do "pivot", também a posição 10 comete um número elevado de perdas, com Aimar em principal destaque neste aspecto.

Outro problema que afecta o equilíbrio posicional é a frequente saída em construção dos centrais, normalmente David Luiz. À primeira vista, este tipo de situação parece não originar grandes problemas, precisamente pelo papel de Javi Garcia: o médio baixa para a posição de central e restabelece o equilíbrio na zona mais recuada. O problema, aqui, é que este tipo de subidas dos centrais não são meras trocas posicionais com Garcia, e assumem uma postura muito mais arriscada. O que acontece, na prática, é que a equipa perde a presença do “pivot” e quando perde a bola deixa de ter um elemento de contenção à frente dos centrais. A dificuldade de resposta a um transição nestas condições é, como é óbvio, muito mais difícil.



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