13.9.10

Guimarães - Benfica: Análise, números e vídeo

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É o costume. O brilharete no placar força sempre um mar de elogios ao mais pequeno. Não digo que os desmereça todos, mas é seguramente um abuso creditar grande mérito ao Vitória numa derrota que é sobretudo do Benfica. Na verdade, os encarnados tinham tudo para ganhar, porque, apesar de algumas boas individualidades, este Vitória não é – nem foi – especialmente forte. Foi, sem surpresas, uma equipa dentro daquilo que é a filosofia de Manuel Machado. Muito fechada mas sem grande organização, e sempre à espera do momento de transição – o seu grande ponto forte. Ora, o que fez o Benfica? Para além de produzir pouco - e bem menos do que podia - em termos ofensivos, cometeu uma série de erros perfeitamente evitáveis e não provocados pelo adversário, acabando por oferecer ao Vitória as condições para chegar, sem grande esforço, às situações onde poderia marcar a diferença.

Tudo somado, o Benfica jogou mais, produziu menos e ofereceu... tudo!



Notas colectivas
“Erros não forçados”. Não é a primeira vez que recorro ao ténis para abordar a problemática em torno deste catastrófico inicio de época encarnado. Se, noutra altura, comparei o momento do Benfica ao de um jogador de ténis que perde os índices psicológicos após um momento triunfante, agora recorro a um termo técnico que normalmente denuncia essa quebra mental, na mesma modalidade.

De facto, praticamente tudo que o Vitória construiu foi “oferecido” por abordagens evitáveis dos jogadores do Benfica. Os 2 golos, as melhores ocasiões e, ainda, alguns erros técnicos decisivos para condicionar lances potencialmente perigosos em termos ofensivos. É que, se defensivamente fica fácil de ver a consequência deste problema, há também ofensivamente um efeito importante a considerar. Para além da diferença de confiança que representa sentir-se, ou não, o controlo do jogo e do adversário, há ainda uma série de falhas técnicas no último terço que acabaram por determinar tão poucas oportunidades, apesar do domínio territorial.

Como contornar este problema? A questão passa muito pelo paradigma por trás do modelo. O Benfica continua a ser tacticamente a equipa mais forte em Portugal, mas tem um problema de gestão entre o critério e a velocidade. Quando a confiança é alta, o critério nunca é problema e a velocidade pode ser máxima. Quando, como é o caso, isso não acontece, é preciso reforçar-se a importância do critério, exigindo-se menos velocidade. É preciso, primeiro, garantir que o que se faz tem eficácia e segurança e, só depois, crescer em termos de exigência ao nível da velocidade de jogo e execução. Calibrar essa “dosagem” sempre aparentou ser uma lacuna de Jesus, e este período aparenta confirmar em absoluto essa ideia. Mas há ainda, e antes de tudo isto, outra coisa que ainda é mais fundamental neste processo de recuperação: perceber e reconhecer o problema.


Notas individuais
Primeiro ponto vai para os centrais do Benfica. Já houve jogos em que também eles – sobretudo David Luiz – se deixaram também levar na displicência generalizada. Mas não foi o caso. A reacção da linha defensiva do Benfica em transição defensiva é um dos pontos fortes da equipa e uma das coisas que o Benfica faz como muito poucas equipas no mundo. É, por isso, absurdo centrar-se as criticas sobre a parte final dos lances dos golos. Defender em recuperação, e perante um adversário especialmente forte nesse aspecto, é muito difícil. O problema, para mim, está a 100% no que aconteceu na origem dos lances.

Entre todos os jogadores, há 2 de que quero falar. O primeiro é Aimar. Tem oscilado entre o bom e menos bom esta época e a equipa, logicamente, flutua com ele. Mesmo neste jogo houve oscilações na sua exibição – mais presente e inspirado no inicio da segunda parte – e isso voltou a reflectir-se também na própria equipa. Se é a galinha ou o ovo a nascer primeiro? É uma discussão que me parece pouco importante. O que me parece mesmo vital é estabilizar o rendimento de Pablo Aimar.

O outro jogador é Gaitan. Como o repeti diversas vezes, conhecia bem este jogador na Argentina e muitos dos comentários que sobre ele foram feitos eram, a meu ver, errados. Parece-me que hoje é mais claro que Gaitan é um jogador evoluído tacticamente e que não é um avançado ou médio criativo. O caminho de Gaitan passa pela confiança e pela compreensão das zonas de decisão. E este último ponto foi aquele que mais se sentiu no jogo. Fez um bom jogo em vários prismas, nota-se que se sente mais confiante e adaptado, mas decidiu mal e onde não devia. É que na Argentina, jogando solto na frente (mas sempre a partir das alas, repito!), ele podia decidir como queria. Por motivos tácticos e culturais.




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12.9.10

Dragão, Alvalade e... um espanto! (breves)

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- Grande jogo, entre 2 equipas altamente sérias e competentes. Os golos e a emoção farão deste um embate difícil de suplantar em todo o campeonato. Isto, apesar de ter tido muita eficácia de parte a parte, porque não houve tantas oportunidades para 5 golos. Porque ganhou o Porto? Respondo com uma pergunta: como é possível um jogador com o potencial de Hulk estar ainda em Portugal?

- Pode ter perdido, mas de novo mostrou que não é um acaso este Braga. Cada vez estou mais convencido que, para além da organização, Domingos pode ser um caso muito raro em termos de capacidade psicológica. Há 2 anos perguntei-me o que faria o modelo de Jesus com a qualidade individual de um "grande". Hoje, intriga-me o que fará um "grande" com a capacidade mental das equipas de Domingos?

- Entretanto, em Alvalade, de novo os pés assentes na terra. Não foi a equipa instável de outros jogos, e este não deve, na minha opinião, ser visto como um mau jogo na análise de Paulo Sérgio. Apenas como um jogo insuficiente. Talvez, se trabalhar o modelo - 1 modelo! - a equipa possa atingir o patamar seguinte. Quanto ao jogo, digamos que uma equipa que passa tanto tempo longe do golo, precisa de ser bem mais eficaz com a oportunidade lhe surge. Um alerta final: O Lille ganhou 4-1, com 2 golos de Gervinho. Adivinha-se uma jornada europeia bem mais difícil do que muitos estarão a supor.

- Não vi nada sobre isto, mas o meu queixo ainda está no chão: O Hércules ganhou em Camp Nou?!

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11.9.10

Falsa partida... outra vez!

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- Polémicas à parte - relembro que aqui não falo de arbitragens - o impensável inicio de temporada do Benfica continua. Se no final desta jornada forem 9 pontos para o Porto, fico dividido entre a teoria e a realidade. É que se é obviamente possível recuperar essa desvantagem no plano teórico, eu pergunto: e na prática, será mesmo?

- Tenho sempre batido no aspecto emocional quando procuro encontrar explicações para este "fenomenal" arranque de uma equipa obviamente muito forte tanto em termos técnicos como tácticos. Mais tarde explicarei melhor, mas parece-me que, de novo, esse foi um ponto essencial para desenhar este desfecho. Parece que a aparente fraqueza mental das equipas de Jesus - aspecto para que venho alertando há quase 1 ano - pode mesmo ser uma grande barreira para o Benfica 10/11...

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10.9.10

Uma última nota sobre Queiroz.

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Nos últimos dias fui bastante critico para com o trabalho de Queiroz. Confirmou-se o cenário mais previsível e a sua “era” terminou. Não quero, porém, dar por encerrado este capítulo antes de uma clarificação sobre as criticas que fiz, que é também um ponto de ordem sobre o que me proponho fazer aqui.

Para que não haja confusões, não entro no filme de “prós” e “contras”, que radicalizaram posições para níveis bem além do que é racional e razoável, numa espécie de combate mediático que nasceu ainda durante a “era” Scolari.

Não antevi o fracasso de Queiroz na sua chegada. Não sou bruxo ou adivinho, e é para mim estranho que alguém tenha tantas certezas, seja em que sentido for, sobre alguém que apenas trabalhou 1 época como treinador principal no futebol europeu desde que saiu de Portugal, em 1996. Também não fui daqueles que “viu logo” fosse o que fosse. Acreditei sempre na qualificação, num bom Mundial e mesmo que não iriamos ser goleados pelo Brasil na fase de grupos, como muitos anteviram. Também, já agora, não sou daqueles que acha que Queiroz teve apenas a sorte de apanhar 2 “gerações de ouro” enquanto orientava os sub 20. Não acho que seja normal ganhar 2 Mundiais da categoria em edições seguidas.Da mesma maneira, não sou daqueles que acha que o trajecto de Scolari tenha tido um sucesso apenas “normal” ou “dentro das expectativas”. Muito menos, acho que Scolari tenha destruído seja o que for nas Selecções, ou que a “herança” de Queiroz fosse tanta que perdurasse até 13 anos depois da sua saída da Selecção para, de repente, se evaporar, precisamente antes do regresso de Queiroz. Para mim, todas estas ideias, que ouço e vejo repetidas à exaustão, são apenas produto de um pensamento enviesado, desprovido de razão e pleno de ridículo.

As minhas criticas são, isso sim, uma constatação qualitativa que pessoalmente faço a um trabalho que entendo já ter tido mais do que condições para ter outros resultados. Queiroz foi uma ideia que alguém inventou e que Madaíl resolveu abraçar. Para mim, e concluo-o agora e apenas agora, não passou de um espectacular fiasco.

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9.9.10

Sub 21: do fiasco à vigarice...

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Quando, em Novembro de 2008, esta geração se estreava no escalão sub 21 goleando a Espanha, ficou a dúvida: seria uma nova regra ou apenas a velha excepção? O valor individual, já sabia, não era o mesmo de anos anteriores, mas havia a promessa de uma “nova era”, com uma nova filosofia colectiva, e o 4-4-2 testado parecia ser um indicio disso mesmo. Não se podia esperar milagres, mas havia a ilusão de uma outra espinha dorsal para a toda a formação. Ilusão!

Quase dois anos depois, a campanha é terminada com uma dupla jornada sombria e que espelha bem o que entretanto se passou depois dessa vitória frente aos espanhóis. De todas as perspectivas desse primeiro jogo, só a ideia de um menor talento se confirmou nos 2 anos seguintes. Tudo o resto, todas as esperanças de uma “nova era”, foram reduzidas a um redondo zero. Zero! Portugal está, 2 anos depois, na mesma. Com outras caras, com menos talento, mas com a mesma mediocridade filosófica ao nível do seu conceito de jogo.

Aqui, na evidência dada ao nível dos sub-21 – abaixo disto já confessei que desconheço – completa-se o absoluto fiasco que foi o “novo projecto Queiroz”. Talvez o problema tenha sido meu, talvez tenha percebido mal no que consistia a “transversalidade” da sua influência. Aos que ainda vejo arredondar o tema só posso pedir tolerância para a minha simplicidade: talvez por perder muito tempo com isso, para mim o que conta mesmo é o que vejo no campo e, aí, o balanço é – repito, só para o caso de ainda haver dúvidas – Zero!. Nas 2 horas desse jogo com a Espanha vi mais “revolução” do que nos 2 anos seguintes, e isso faz com que hoje me sinta enganado com tudo isto. Enganado e, pior do que isso, vigarizado!


Notas individuais
De facto, estes dois jogos foram de uma pobreza enorme ao nível da qualidade colectiva. A maior curiosidade, em termos individuais, seria a de ver Bebé, mas Oceano não facilitou muito as coisas quando o utilizou como 9 durante 1 hora de jogo. Mesmo assim, deu para reforçar a ideia que já tinha. Trata-se de um jogador acima da média em termos técnicos e físicos. Acima da média, mas não excepcional. Isso faz com que só uma grande evolução ao nível da decisão o possa catapultar para níveis próximos daquilo que se exige para jogar no clube onde está. Há um longo caminho a percorrer.

O outro destaque que gostaria de fazer é João Silva. Jogou na partida mais fácil e não dá para tirar grandes conclusões ao fim de tão pouco tempo. No entanto, deixou muito boas indicações ao nível da sua capacidade de participação no jogo. Bom nos duelos físicos e com boa capacidade de antecipação e decisão. Merece revisão.

De resto, não há grandes novidades. Na leitura dos números, e para além dos aspectos com grande impacto pontual (o caso mais evidente é o golo de Bura), é importante notar que quem jogou contra a Macedónia tem a vantagem de ter jogado num jogo com menor grau de dificuldade. Isto para dizer que é perigoso fazer comparações muito lineares dos números.

No que respeita aos laterais, ambos estiveram regulares, mas nenhum me parece ter aquilo que é necessário para um grande carreira. No centro, Carriço mostrou, pela regularidade e influência, ser o elemento mais adiantado em termos de maturidade e qualidade. E não estou a falar só em relação aos centrais. De resto, gostei bem mais de André Pinto do que de Bura. No meio, André Santos cometeu erros inesperados e importantes, tornando-o numa decepção deste duplo teste. Castro foi o melhor dos médios ofensivos, embora tivesse estado longe de impressionar. Tive pena de não ver mais tempo de David Simão, que não estava a ser pior do que Castro quando saiu. Mais à frente, resta falar de Ukra. É um jogador forte tecnicamente, mas quem joga na sua posição precisa, ou de maior intensidade, ou de maior capacidade de desequilíbrio. Ukra dificilmente terá o que é preciso para ter sucesso num clube como o Porto.

Para finalizar, um comentário que mais uma vez não abona nada a favor do trabalho que vem sendo desempenhado. Há inúmeros casos de jogadores que passam a merecer maior ou menor destaque em função da importância que lhes é dada pelos clubes. O caso de Bebé é o exemplo crónico desta situação. Jogou a época toda nos campeonatos nacionais e nunca foi convocado. Foi contratado pelo United e passou a ser um indiscutível. Das duas, uma: ou o jogador era desconhecido, o que diz muito mal da prospecção que é feita. Ou, se era conhecido, o grau de confiança nas avaliações que são feitas é, no mínimo, pouco consistente.



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8.9.10

Depois da incompetência... a negligência!

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Os melhores 45 minutos que vi na “era Queiroz” tiveram lugar na Escandinávia, faz precisamente 1 ano. Frente à Dinamarca, Portugal experimentou o losango na primeira parte, jogou bem, parecia ter encontrado finalmente um novo rumo para o seu futebol, mas... chegou ao intervalo a perder. Porque estou a falar disto agora? Porque na altura houve do banco uma atitude que contrasta radicalmente com a que se viu desta vez, na Noruega. Há 1 ano, e apesar de estar a jogar bem, Queiroz mexeu ao intervalo. Agora, e num jogo cujas circunstâncias se alteraram aos 20 minutos, Queiroz – ou seja quem for que estava a decidir em seu nome – demorou 70 minutos a alterar alguma coisa. Isto, perante um adversário em vantagem e com o controlo total sobre as incidências do jogo.

Onde quero chegar? Bom, ou a incompetência tem uma dimensão que transcende todos os limites – o que eu não acredito! – ou houve neste jogo, para além da mediocridade observada, desinteresse e negligência profissional de quem dirige e toma decisões. Queiroz afirmou que o que lhe interessa não é o dinheiro, mas sim a integridade da sua reputação. Pois, por mim, bem se pode começar a agarrar ao dinheiro, porque, depois do que tenho visto, a reputação já ninguém lha salva.


Notas colectivas
A complexidade do futebol enquanto jogo impede-me de conseguir explicar exactamente o porquê de certos fenómenos. Por exemplo: porque é que a estabilidade emocional dos jogadores é contagiada pela fragilidade de outros aspectos, como o técnico ou táctico? Não sei porquê, mas a verdade é que as coisas se parecem interrelacionar com uma velocidade vertiginosa, e o caso do erro de Eduardo não é mais do que um dos muitos contributos para esta estranha constatação.

Bom, esse momento foi obviamente decisivo no jogo que vimos. Foi-o porque, apesar de estar longe de impressionar, Portugal parecia tudo menos destinado à derrota até então. Tinha tido mais bola, criado uma óptima oportunidade e nem o jogo directo do adversário havia criado problemas. Depois do golo, porém, as circunstâncias do jogo mudaram. Mais do que na discussão do domínio, tudo se jogaria, agora, na capacidade que Portugal tivesse para pôr em causa o controlo norueguês. Ora, como todos vimos, nunca isso nunca aconteceu. Teve um domínio consentido, mais bola, mais passes e até mais remates, mas tudo a pelo menos 30 metros da baliza. Oportunidades construídas depois do 1-0? Zero.

Tacticamente, Queiroz (ou Agostinho Oliveira, ou alguém...), desfez o problemático “duplo pivot”, introduziu Tiago e formou um triângulo com Manuel Fernandes como unidade mais recuada e Meireles como elemento que se aproximava de Hugo Almeida sempre que a equipa ganhava a bola. Terá, com isto, corrigido alguns problemas de equilíbrio posicional na zona central e, sobretudo, devolvido à equipa um modelo em que esta efectivamente sabe jogar. Menos mau, mas profundamente insuficiente após o erro de Eduardo. Infelizmente, e como referi no inicio negligentemente, nada foi feito durante muito tempo e a derrota ficou traçada a 90% com o tal lance aos 20 minutos de jogo.

Uma palavra para a equipa da Noruega que demonstrou uma vulgaridade que me surpreendeu. Não fez absolutamente nada para ganhar. Não teve capacidade para criar, para contra atacar, nem sequer para usar o jogo directo, onde Manuel Fernandes era uma lacuna óbvia a explorar. Quando os recebermos, e se tivermos assentado a poeira nessa altura, vamos dar-lhes um belo troco. Palpita-me!

Notas individuais
Custa-me discordar da sua inclusão porque foi, para mim, o caso mais evidente de determinação e entrega. Ainda assim, que sentido faz incluir Hugo Almeida num jogo como este? Se os nórdicos são fortes no ar e se o ponta de lança está lá essencialmente para atacar, que sentido tem colocar uma unidade que vai de encontro ao perfil de quem defende? Será que era para defender? Colocamos um ponta de lança para defender nas bolas paradas?

Um pouco em sentido contrário, está Manuel Fernandes. Andamos uma enormidade de tempo a tentar encontrar “pivots” fortes no ar. Era uma crença de Queiroz que, podendo ou não concordar-se, tinha uma razão lógica de ser. A utilização de Manuel Fernandes nessa posição, contra este adversário, é uma enorme incoerência com o passado e, para mim, mais uma evidência do desinteresse total de quem dirige a equipa.

A verdade é que a capacidade aérea de Manuel Fernandes nunca fez falta e ele acaba, para mim, como a melhor notícia desta dupla tragédia da Selecção. O seu talento nunca foi dúvida, mas muitas vezes o vimos como um jogador inconsistente nas suas decisões. A verdade é que em 2 jogos, Manuel Fernandes foi o jogador que mais passes completou, conseguindo um nível de sucesso na ordem dos 90%, juntando os 2 jogos. Não sei se foi circunstancial, mas é seguramente relevante.

De resto, o jogo foi pautado por uma posse de bola fácil numa primeira fase e uma grande incapacidade colectiva no último terço, que condicionou, também, o destaque de jogadores mais ofensivos. Tudo de acordo com os interesses noruegueses. Na fase de criação nunca houve um jogo lúcido, fluído e apoiado que permitisse envolver e testar o bloco norueguês. Viveu-se – ou tentou viver-se – da inspiração dos extremos ou de um milagre de Hugo Almeida. Mas, nem Nani, nem Quaresma estiveram invulgarmente inspirados, nem Hugo Almeida é milagreiro ao ponto de transformar um dos vários e absurdos passes longos em ocasião de golo. Dentro disto, tudo normal portanto...



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7.9.10

Ainda o jogo com o Chipre - números individuais

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Antes que um novo "capítulo" se inicie, encerro o assunto cipriota. Já muito escrevi sobre o jogo e sobre a minha visão dos problemas evidenciados, mas faltavam ainda os números individuais.

É óbvio que um jogo com um adversário mais fraco, é sempre uma oportunidade para se fazerem melhores exibições. Há um menor grau de dificuldade nas acções e, mais ainda, uma maior incidência das mesmas. Este jogo, e apesar do resultado, não foi excepção. Muitos passes, boa percentagem de sucesso e vários desequilíbrios ofensivos. A única coisa anormal, claro, foram os lapsos defensivos.

Se do ponto de vista colectivo há imensos reparos a fazer, do ponto de vista individual creio que é justo destacar a boa atitude da generalidade dos jogadores. Houve erros individuais graves, é certo, mas mesmo os jogadores que os cometeram fizeram-no por razões que não têm que ver com a atitude. Os jogadores "vestem a camisola" e julgo que isso lhes deve ser creditado, até porque não sei se será sempre assim.

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6.9.10

Porque Queiroz já não é admissível (análise e vídeo)

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Pior do que a incompetência, só mesmo a inconsciência da mesma. A frase serve, de certa forma, para retratar o que entendo ser o “upgrade” de incompetência táctica que Queiroz acabou por trazer para a Selecção. O tempo de Scolari não conheceu nenhum brilhantismo neste aspecto – sempre fui dessa opinião – mas tinha, em relação ao presente, a vantagem de ser bem mais modesto nas suas "aventuras tácticas".

O Mundial serviu, para mim, como o fim de todas as dúvidas em relação à capacidade táctica de Queiroz. Não tive a oportunidade de o explicar em detalhe na altura, e não vou voltar agora aos lances da África do Sul. Não vou, nem preciso, porque se há coisa que o jogo do Chipre serviu, foi para exacerbar todas as debilidades existentes num trabalho que, acredito, teve condições para hoje apresentar resultados práticos completamente diferentes.

O vídeo tem 7 lances com pormenores que considero, nesta altura e a este nível, crónicos e não pontuais. Inaceitáveis e não toleráveis. Antes dos lances, porém, deixo 3 pontos de síntese sobre esta temática:


1) Linha defensiva: As 3 semanas de trabalho antes do Mundial deveriam servir para adquirir comportamentos colectivos sólidos e coerentes. A estranha verdade? Portugal ficou pior. Escondeu-o no Mundial, porque baixou muito as linhas, e criou uma ilusão que confundiu "muito" com "bem" na arte de defender. Mesmo aí, porém, houve detalhes inaceitáveis ao nível do comportamento colectivo da linha defensiva. Detalhes com impacto decisivo e que limitaram drasticamente a qualidade de jogo da Selecção na África do Sul.

Frente ao Chipre, e com a equipa a tentar jogar mais alto, essas lacunas vieram ao de cima, até de uma forma exagerada, porque foi mau de mais para se acreditar que o que se viu possa ser “normal”.

A questão aqui não é filosófica. Ou seja, não passa por discutir entre a opção de se assumir um posicionamento alto ou baixo da linha mais recuada. Passa, isso sim, por uma exigência qualitativa. Porque, seja qual for a filosofia assumida, o mais importante é a qualidade do que se faz. Hoje – e vem do Mundial – vemos uma equipa com comportamentos tácticos de qualidade inaceitável nesta matéria e a este nível. Os custos, como se percebe, têm um potencial catastrófico.

2) Incoerência táctica: No Mundial vimos um modelo com princípios nunca antes trabalhados e testados. O sistema sim, mas os princípios, de bloco muito baixo e verticalizar constantemente para um Ronaldo isolado na frente, não. Incrível como isto aconteceu no planeamento de uma competição a este nível!

Contra o Chipre, tal como na questão do comportamento da linha defensiva, as coisas desceram ainda mais baixo. Qual a última vez que Portugal jogou com um “duplo pivot”? Quanto tempo de treino teve para trabalhar esse modelo? Pior é impossível? Por incrível que possa parecer, não! Tivemos ainda uma espécie de autismo ao longo do próprio jogo. As dificuldades da equipa neste aspecto repetiram-se ao longo dos 90 minutos, com golo atrás de golo e aviso atrás de aviso. Mas nada foi corrigido ou alterado em termos tácticos. Mesmo com o resultado a favor e tudo para assumir uma estrutura que garantisse mais estabilidade no “miolo”.

3) Critério de escolhas: Custa-me um pouco entrar por aqui, porque acredito que é a questão individual é sempre o ponto menos relevante. Ainda assim, há situações incontornáveis. Começou-se pela definição de uma inversão de política, um corte com os critérios do passado. Agora, só jogavam os melhores e não havia “lugares marcados”. Já houve outras incongruências com isto, mas com isso posso eu bem. Até porque acredito que menos capazes são aqueles que não mudam. Mas o que quero falar, hoje, é da utilização de Meireles neste jogo.

Começo por esclarecer que, por mim, Meireles teria “lugar marcado”. É um excelente jogador e, tenha os níveis mínimos de competição, creio que deve ser convocado. Daí até ser titular com "competição zero" em 3 meses, vai alguma distância. Mais difícil ainda se torna perceber como é que um jogador que normalmente não faz 90 minutos, no primeiro jogo competitivo da época e a jogar numa posição de maior exposição em termos de desgaste, de repente, joga 90 minutos. Meireles fez um jogo com erros pontuais e que lhe são incomuns, mas mesmo que não tivesse feito, as decisões em torno da sua utilização estão longe de ser compreensíveis e revelam um grande desnorte de quem lidera o processo.

Os lances
1 – Os problemas duraram até ao fim, mas os sintomas do descalabro começaram cedo. No primeiro golo, ficam patentes os 2 problemas crónicos da defensiva nacional ao longo do jogo. O primeiro, a dificuldade do “duplo pivot” em controlar a zona central. O segundo, a incompetência do comportamento colectivo da linha defensiva.

É certo que o espaço que se abre entre as linhas defensiva e média começa por condicionar a pressão sobre o portador da bola, mas não isso não suficiente para que deixe de ser incrível como é que uma jogada em que só há 1 solução de passe, acaba desta forma. O problema da linha defensiva é que não assume nenhuma opção clara. Nem sobe para encurtar o espaço de ataque e usar o fora de jogo, nem desce para controlar a profundidade. Fica à espera do que o adversário possa decidir fazer.

Uma nota mais. Este é o único lance em que, na minha opinião, há uma responsabilidade significativa de Eduardo. Com a bola a saltar e numa posição lateral, a sua saída não podia ser daquela forma.

2 – Novamente, o mesmo problema. O primeiro passe de transição apanha logo uma zona central com desvantagem numérica portuguesa. Também se volta a notar a distância entre o médio e a linha defensiva. Valeu, no caso, a lentidão de decisão do jogador cipriota.

3 – Uma jogada um pouco diferente, mas igualmente elucidativa das dificuldades da linha defensiva portuguesa em adoptar um posicionamento eficaz.

A posse cipriota é forçada a recuar, a jogada baixa para trás da linha de meio campo e é totalmente previsível. Um canto podia parecer inimaginável neste cenário, mas a verdade é que acabou por ser apenas um mal menor. E bastou 1 passe vertical.

4 – Estas duas jogadas não têm consequência prática, mas talvez sejam aquelas que mais evidenciam o pouco trabalho que existe. São os tais detalhes que dizem muito sobre o trabalho existente. Subir rapidamente, quer numa situação, quer noutra, é um comportamento básico, que deve ser exigido a qualquer equipa de escalões de formação. Na Selecção, porém, os jogadores não estão alertados para essa necessidade. Mais tarde isto vai custar o empate, mas, repare-se como no primeiro lance há já 1 jogador sozinho na frente de Eduardo e que é colocado em jogo pela lentidão irresponsável da saída de Hugo Almeida. Se a bola tivesse saído para ali...

5 – A primeira coisa a dizer sobre o terceiro golo cipriota é que não se passa em ataque rápido. Não há transição. A raiz está numa falta que devia ser suficiente para prevenir desequilíbrios posicionais. Isto talvez seja o pior que se pode dizer da qualidade defensiva do jogo português.

De resto, o mesmo de sempre, exposição do “duplo pivot”, espaço entre linhas e uma linha defensiva que não faz a menor ideia do que quer fazer em campo. A jogada é, de novo, muito previsível. Miguel e Coentrão percebem rapidamente a facilidade que têm em isolar os avançados cipriotas em fora de jogo. Carvalho percebe tarde, mas a tempo. Bruno Alves nunca percebe. Estão todos a pensar isoladamente, num comportamento que tem de ser colectivo.

6 – Parece mentira, mas não é. Acontece outra vez! Em construção, de novo a mesma “lenga-lenga”, com a exposição na zona central do “duplo pivot”, com a criação de espaço entre linhas e com um passe vertical no fim disto tudo. A diferença é que aqui a linha defensiva estava mais baixa e, por isso, houve mais dificuldade em encontrar uma diagonal livre nas costas da defesa.

Uma nota importante é que isto se passa já com 4-3. Ou seja, havia já uma "bíblia" de exemplos que alertavam para os problemas tácticos deste comportamento defensivo e, ainda por cima, a equipa ganhava, pelo que não precisava de assumir riscos. Nada foi feito, porém.

7 – Vendo as coisas nesta sequência, nada pode parecer mais óbvio. No momento em que a primeira imagem pára, dá para ver o desenho do 4-2-3-1 que, mesmo numa situação baixa, expõe posicionalmente o “duplo pivot”. Isto acontece, primeiro, porque a estrutura nunca se alterou e, depois, porque não há da parte dos extremos uma consciência das necessidades tácticas do modelo em que estão a jogar. Em particular, era fundamental haver uma proximidade de Nani a Coentrão para evitar situações de 1x1.

Aqui, a exposição do “duplo pivot” acontece, mas não pelos mesmos motivos de todos os outros exemplos. Desta vez a dificuldade não é no controlo vertical dos espaços, mas sim lateral. Sem a ajuda dos extremos, os 2 médios têm de vir à direita e abrem espaço do outro lado, onde, depois, se cria a situação de remate frontal. Ao contrário do que chega a ser sugerido no comentário, não há qualquer responsabilidade de Coentrão.

Sobre a parte final do lance, fica evidente o ponto que considero fundamental (e gritante!), aliás, já antecipado em exemplos anteriores. É importante notar que a acção de Eduardo não é tão fácil como pode parecer. O remate é frontal, executado de primeira e numa jogada em movimento. É perfeitamente admissível que tenha dificuldade em controlar a trajectória da bola. O que não é admissível é haver 2 jogadores em condições de abordar a recarga a 2 metros da baliza. O que não é admissível é que Miguel não esteja precavido para a necessidade de subir assim que a opção do extremo foi no sentido de vir para dentro e não para a linha de fundo.



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