21.7.10

Guimarães - Benfica: notas colectivas e individuais

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Os últimos anos fizeram deste um clássico de pré época. A versão 2010 terá sido provavelmente a menos interessante de todas. Culpa do Vitória, claro, que só não evitou um enorme embaraço graças à gentileza de Roberto. Antes dos detalhes, porém, quero deixar uma nota introdutória sobre os dados estatísticos que apresento. Há algum tempo que venho acompanhando as minhas análises e observações com a recolha destes números. Não se trata de um mero capricho meu, mas antes de uma tentativa de obter, através de um tratamento coerente desta informação, uma importante ferramenta de análise qualitativa de equipas e jogadores. Para tal, criei uma pontuação ponderada e que apresento pela primeira vez. A ideia será fazer deste um indicador com presença constante, já durante a próxima época...

Benfica (colectivo)
Como se esperava, as férias não serão mais do que uma pausa no Benfica de Jesus. Retomados os trabalhos, e mantida a qualidade do plantel, voltou a qualidade. Para o Benfica, este Vitória foi pouco mais do que manteiga. O seu futebol está, nesta altura, noutra galáxia e nem sequer precisa de despir o pijama. Basta-lhe manter a organização e forçar alguns momentos de intensidade e logo aparecem as transições demolidoras, frutos de um pressing colectivo que é um dos principais alicerces do modelo. E já está. Mesmo com Roberto a complicar.

No Benfica, apenas uma reserva. Não é Roberto, porque mesmo que se confirme um fiasco, há sempre Julio César para garantir que não será na baliza que a equipa vai perder qualidade em relação ao passado. É sobre Aimar. No ano passado falei repetidamente do tema. Aimar ocupa a posição mais importante do modelo e ninguém garante a sua qualidade em todos os momentos do jogo. Se o argentino fosse fiável fisicamente, não haveria motivos para urgências, mas no meio de tantos milhões continua a fazer-me confusão como não se procura mais afincadamente uma alternativa para um jogador tão importante e que promete progressivamente perder minutos de utilização.

Benfica (individual)
O primeiro destaque individual vai para Kardec. Não pelos golos, embora eles sejam de importância óbvia. O detalhe é que o nível de participação e de qualidade no jogo foi bastante elevado e, sobretudo, bem melhor do que aquilo que Cardozo costuma apresentar. O paraguaio que se cuide.

Sobre Gaitan, nenhuma surpresa. Escrevi-o ainda antes de sequer se sonhar que seria reforço do Benfica. Tem semelhanças com Di Maria, sem lhe ficar em nada a dever na maioria dos aspectos. Pode ainda não ter revelado a mesma explosão, mas decide melhor, joga melhor em espaços interiores, é melhor na zona de finalização e nada inferior tecnicamente. Dificilmente Di Maria será um fantasma na Luz.

Também um jogador que não surpreende é Airton. Não fez uma exibição isenta de erros, mas voltou a confirmar a sua fiabilidade. Já agora, fica a informação porque não está no quadro: Javi Garcia foi o pior do Benfica, pontuando 4,8, consequência de 4 perdas de bola em apenas 45 minutos. Outro titular a precisar de se cuidar...

Menos fulgurantes estiveram Jara e Menezes. O primeiro marcou um grande golo, mas não conseguiu a presença que dele se pode exigir. O segundo jogou simples, mas nem acrescentou nada em termos criativos, nem ficou isento de erros. Assim será difícil...

Guimarães (colectivo)
Que mau! Primeiro fiquei com a sensação de que o Vitória teria recuado para os tempos de Vingada. Isto, pelas semelhanças em termos de elasticidade táctica e ausência de um modelo mais rotinado. Mas não. Com Vingada, nunca foi tão mau. Pela sua filosofia, nunca poderia esperar um crescimento com a chegada de Manuel Machado, e seguramente que só pode melhorar, mas, para já, os indícios não são nada bons para o futuro próximo do “professor”. Há que contar com a qualidade do adversário e considerar ainda que o trabalho está apenas no inicio, é certo, mas parece-me que o melhor é mesmo que o Vitória comece a arrepiar caminho na construção de um verdadeira equipa. Manuel Machado está como a sua filosofia: preso às referências individuais. Parece preocupado em encontrar a qualidade ideal para cada lugar, mas enquanto não o consegue a equipa demonstra um nível raramente baixo de qualidade organizacional, que combinou igualmente com uma boa dose de imprudência decisional. Como disse atrás, valeu Roberto.

Guimarães (individual)
O “caso” chama-se Faouzi. Impressionante qualidade técnica e impressionante eficácia de passe para quem joga na sua posição. O problema, porém, é que Faouzi não parece perceber a importância das zonas para a posse. As poucas bolas que não endossou correctamente resultaram em transições e uma delas esteve na origem de um golo. Alguém queira explicar-lhe melhor estes detalhes e podemos estar perante uma estrela emergente.

À margem de Faouzi – um caso especial – os reforços do Vitória não parecem ser o problema de tantos problemas colectivos. Pereirinha promete afirmar-se finalmente na posição onde tem mais probabilidades de sucesso. Ainda na defesa, mas do outro lado, Anderson Santana esteve bem melhor do que Bruno Teles. Na frente, e já conhecido, Edgar foi presença útil, embora não se perceba que possa ser uma grande mais valia em relação ao que foi Roberto, por exemplo. Nota, finalmente, para Bebe e Maranhão entre os reforços analisados. A confusão em relação a comum e onde devem ser utilizados diz muito sobre o estado de coisas no momento. Bebé parece ter caído nas graças dos adeptos, mas é Maranhão quem merece esperanças mais legítimas de qualidade.



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16.7.10

Reforços 10/11: Jaime Valdés

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Confesso que não o conhecia muito bem antes da chegada a Alvalade mas, como quase sempre, tive a curiosidade de o observar nas suas passagens anteriores. Jaime Valdés surpreendeu-me em alguns aspectos, onde creio ter uma qualidade inequívoca. Noutros, porém, não sou tão optimista, mas vamos a eles...

Pontos fortes: driblador nato
Paulo Sérgio retratou-o como um desequilibrador e, realmente, o chileno é exactamente isso. Normalmente joga a partir da esquerda e sempre que a bola lhe cola no pé direito, é o cabo dos trabalhos. Valdés é um driblador nato. Não é um artista, ou um velocista, é um driblador. Porque o digo desta forma? Porque a arte do drible, mais do que no espectáculo da gesto ou na velocidade do executante, está na capacidade de acelerar e mudar de ritmo no tempo certo. Messi é, nos tempos que correm, o grande exemplo disto mesmo, e Valdés, à sua escala evidentemente, é também um bom exemplo desta ideia. Não espanta, portanto, que não seja difícil encontrar montagens vistosas do jogador.

Pontos fracos: a intensidade
Fosse a bola um dado adquirido no futebol, e Valdés tinha sucesso garantido. Mas não é. Digo sempre que se contarmos o tempo que a maioria dos jogadores têm a bola num jogo inteiro, não encontrar muitos com mais do que 5 minutos em 90 jogados. Por isso é que insisto tanto naquilo que os jogadores fazem nos outros 85 minutos do seu tempo em jogo. Ora, é precisamente sobre o seu rendimentos nesse período que surgem as reticências sobre Valdés.

Na Atalanta, percebia-se, Valdés estava para fazer a diferença. Toda a equipa defendia e batalhava pela bola, mas ele podia confortavelmente aldrabar no pressing. No Sporting não será assim. Valdés necessitar de outra intensidade nos tais 85 minutos. Vai ter de pressionar a sério, porque o Sporting fará desse um dos seus mais importantes alicerces com Paulo Sérgio, e, também, vai ter de correr mais para encontrar espaço e tempo para receber a bola. Não lhe bastará esperar por ela no seu flanco, como até aqui. Resta saber, enfim, se perto da casa dos 30 este driblador nato está também pronto para essa mudança de exigência.

Antevisão: entre o drible e a intensidade
A explicação do que penso se poder esperar vem decalcada do que escrevi atrás. Entre o drible e a intensidade. Resta acrescentar que, se tudo irá passar muito pelo próprio Valdés, passará igualmente pelo modelo que o vai acolher e por quem o vai tentar passar para os jogadores. De novo o colectivo, portanto...



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Reforços 10/11: Marco Torsiglieri

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É, para mim pessoalmente, a grande surpresa do mercado. Há alguns meses deparei-me com Torsiglieri, nas utilizações que teve nas equipas alternativas apresentadas pelo Velez no Apertura 2009, enquanto poupava titulares para a Libertadores. A verdade é que Torsiglieri me impressionou na altura e, por isso, o mencionei aqui, mesmo não sendo primeira opção no seu clube. Entretanto, o papel do jovem central ganhou maior importância (e o seu preço também), e o Sporting resolveu apostar nele. Pelo preço a que foi adquirido, não será uma pechincha, até porque tem um caminho a percorrer, mas é, pelo menos, um bom sinal de mercado para o Sporting.

Pontos fortes: Presença
Torsiglieri não é um central que passe indiferente no jogo. É alto, forte e quando aborda um desarme que envolva contacto físico, dificilmente o perde. Ora, isto acontece com bastante frequência no jogo, porque embora um jogador posicional por natureza, Torsiglieri sente-se igualmente confiante para abordar alguns lances fora do seu habitat natural. Para isso, contribui também a boa leitura que normalmente faz dos lances, escolhendo normalmente bem os tempos para sair do seu espaço e interceptar as jogadas. Afinal, é precisamente isso que é mais difícil num central.

A estas características, juntamos o sempre relevante dado da estatura, e temos a razão do destaque merecido por Torsiglieri.

Pontos fracos: A agilidade e a questão da adaptação táctica
Aqui entramos nos pontos que podem colocar em causa o sucesso de Torsiglieri. Comecemos pelo mais importante: a adaptação à nova realidade.

No Velez a linha defensiva é baixa, não arrisca subir para fazer fora de jogo, e isso, mesmo que não seja um benefício para o colectivo, é sempre um conforto para os centrais, porque diminui a sua exposição ao erro. No Sporting de Paulo Sérgio, e mesmo não tendo visto ainda qualquer minuto da pré época, uma das mudanças mais claras será o comportamento da linha defensiva, que passará a jogar muito mais alto do que até aqui – particularmente na era Paulo Bento. Torsiglieri terá de passar por essa adaptação. O problema muitas vezes é reduzido a uma questão de velocidade, mas não faltam exemplos de que esse é só um pormenor. A adaptação depende da cultura posicional do próprio central e, claro, do trabalho da equipa técnica em termos colectivos.

Já que falamos em velocidade, podemos passar para o segundo ponto. Torsiglieri não é um central que tenha demonstrado muitos problemas com a velocidade propriamente dita, há que dizer. Como escrevi antes, raramente as iniciativas dos contrários saem do seu raio de acção, mas, sendo um jogador robusto, tem problemas em termos de agilidade e de velocidade de resposta a acelerações e mudanças de velocidade. Mais uma vez, este não é um problema raro em alguns dos melhores do mundo, e o colectivo determinará uma boa dose da sua capacidade para ultrapassar este risco.

Finalmente, o capítulo técnico. Canhoto, não é propriamente um jogador conhecido pela sua capacidade em posse. Gosta pouco de arriscar e isso já é uma virtude para quem joga na sua posição. Não será necessariamente um ponto fraco, mas não se espere de Torsiglieri grandes aventuras com a bola nos pés.

Antevisão: A dependência do colectivo
No Sporting, o sector defensivo foi amplamente reforçado nos últimos 6 meses. E muito bem reforçado, diga-se. No que toca a defender, no entanto, é ainda mais decisivo o trabalho colectivo, e com Torsiglieri não será excepção. Antes da aquisição de Nuno André Coelho, facilmente diria que o argentino tinha todas as condições para ser forte candidato a um lugar no onze, mas vejo no ex-Porto, e como já referi noutros textos, um jogador de potencial raro. Tal como Carriço, aliás. Com isto, se Paulo Sérgio tiver o mesmo entendimento do que eu, a vida de Torsiglieri não fica fácil. Fico, porém, com a certeza de que o Sporting tem uma boa alternativa a esta potencial dupla de portugueses. Ou, pelo menos, tem tudo para o ser, desde que o tal trabalho colectivo também corresponda. Para finalizar... não é lateral esquerdo, como se chegou a dizer.



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14.7.10

Reforços 10/11: Franco Jara

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Gaitan e Jara são, em termos de novidades, os nomes que mais expectativa estão a criar na Luz. Os dois já haviam sido anunciados com alguma antecedência, mas não antes de eu os ter observado no campeonato argentino. Sobre Gaitan já falei aqui e por isso não me vou repetir, mas também Jara merecera destaque há meio ano no talented football. Aqui fica uma antevisão pessoal do jogador, que não tem em conta os jogos já realizados de águia ao peito (até porque não os vi), mas sim a observação que fiz ainda no Arsenal de Sarandi.

Pontos fortes: Intensidade, o traço genético das Pampas
As virtudes de Jara não se esgotam aí, mas é na imagem de marca do típico avançado argentino que está a sua grande mais valia: a intensidade.

E qual a consequência dessa característica? Bom, o mais fácil de prever é que Jara seja um jogador muito mais útil nos momentos defensivos. Quer em organização, quer em transição. Esta pode parecer uma mais valia estranha para um avançado, mas quem visita este espaço já várias vezes se confrontou com a argumentação de que nenhum jogador está dispensado de ser competente apenas pelo facto da sua equipa não ter a bola. Bem pelo contrário. No caso do Benfica, aliás, o pressing é uma arma de elevada relevância ofensiva, e neste campo Jara leva milhas de avançado sobre Kardec e, sobretudo, Cardozo.

Mas a intensidade de Jara não se reflecte apenas no pressing. Jara é um jogador que gosta de procurar a bola, mesmo que isso implique baixar relativamente no campo. Aliás, ter a bola perante a pressão de contrários não é problema para Jara, que se sente bastante confortável nos duelos físicos.

Pontos fracos: Critério e o pé esquerdo, aos cuidados de Jesus
Jara é jovem e gosta de jogar. Tem “ganas” como se diz na sua terra. O problema é essa ânsia é-lhe várias vezes prejudicial. É ágil e tecnicamente dotado, mas nem sempre escolhe o melhor critério sobre onde deve ter a bola e, mais importante ainda, o que deve fazer quando a tem. Não é um caso perdido – longe disso – mas tem de ser trabalhado.

Outro aspecto facilmente identificável em Jara, é a sua dependência do pé direito. É certo que não faltam exemplos de avançados que jogam praticamente só com 1 pé, mas dá sempre jeito a quem joga perto das balizas saber resolver com qualquer dos 2.

Antevisão: Dependente da aposta e... do critério
Não é difícil perceber que Jara parte com algum atraso em relação à dupla Cardozo-Saviola, e que terá ainda de competir com Kardec e Weldon por uma presença de destaque entre as alternativas. Nesta luta, também me parece, Cardozo e Kardec tenderão a disputar um lugar, devido à sua estatura e à importância das primeiras bolas. Aqui, no entanto, estará o caminho para a possível intromissão de Jara. A estatura, sendo importante, não deve ser absolutamente determinante, especialmente quando, como no caso de Jara, a abordagem aos despiques físicos é tão agressiva e intensa. Jara tem, na minha opinião, mais características do que Cardozo ou Kardec para o modelo de Jesus, numa posição onde, creio, à excepção do seu bombástico pé esquerdo, Cardozo oferece pouco ao colectivo.

Jara é jovem e tem futuro, mas acredito pouco que o Benfica faça dele uma aposta de longo prazo. Mesmo que tenha sido essa a intenção inicial. Se conseguir adaptar-se rápido, se utilizar os méritos do modelo de Jesus para decidir melhor, e, claro, se o treinador apostar nele, Jara pode ter um lugar mais importante do que era previsto neste Benfica. Caso contrário, a sua vida na Luz não será fácil, tal como não foram para casos como Keirrison, Menezes ou Eder Luiz.

Com o risco de não ter visto os seus primeiros jogos de águia ao peito, e mesmo sabendo das dificuldades que encontrará, mesmo assim, arriscaria dar-lhe boas hipóteses de afirmação...



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13.7.10

O negócio Moutinho (Parte II)

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Feita a minha leitura do desenrolar do negócio, resta aquilo que será mais importante: as consequências do mesmo. Já se percebeu, pelo que escrevi anteriormente, que não tenho dúvidas que o Porto terá dado um excelente golpe de mercado. Mesmo tendo em conta os custos envolvidos. Ainda assim, e tentarei explicar porquê, nem tudo são rosas na “operação-Moutinho” para o lado portista.

Porto: Moutinho, um golpe duplo
Pinto da Costa já havia expresso a sua admiração pelas qualidades de Moutinho. De facto, o que me parece bizarro é que alguém consiga desvalorizar a qualidade de um jogador que faz tantos minutos, tantos jogos e sempre com uma qualidade tão constante como consegue Moutinho. Não é raro apenas em Portugal. É raro no mundo.

Moutinho é um jogador para todos os momentos do jogo. Forte em organização e forte em transição. Defensivamente e ofensivamente. A única critica que se pode fazer a Moutinho é no capítulo do desequilíbrio. Não é um jogador capaz de provocar roturas constantes, ou de ganhar jogos sozinho. Esse é o patamar que lhe falta para ser um dos melhores médios do futebol mundial. Muitos dirão que sempre foi assim e que nunca conseguirá ultrapassar essa lacuna. Mas Moutinho tem apenas 23 anos e a jogar com a frequência com que joga, parece-me, tem boas possibilidades de evoluir também nesse capítulo, tenha vontade e orientação para tal.

Tudo somado, o Porto garante um dos jogadores mais fiáveis que pode haver, garante-o com 10 anos de futebol pela frente, e a possibilidade, também, de o fazer evoluir para patamares ainda mais altos. A tudo isto, há ainda que somar o efeito de enfraquecimento de um adversário directo, algo que não seria possível se o reforço viesse de fora. É por tudo isto que a “operação Moutinho”, para o Porto, terá sido um excelente negócio, mesmo se não ficou leve em termos de esforço financeiro.

Sporting: a esperança... Nuno André Coelho!
Para o Sporting, face a tudo isto, o dinheiro encaixado por Moutinho será quase nada. Bem sei que o “quase” aqui é tudo menos irrelevante em termos financeiros. Para além de recuperar liquidez, fundamental para alguns negócios em curso, o Sporting alivia a sua folha salarial consideravelmente. O que perde e o que dá a ganhar, porém, está longe de ser compensatório.

Ao fundo do túnel, porém, no “negócio Moutinho”, eis que surge uma esperança. Nuno André Coelho. Foi uma espécie de gratificação portista para sair a bem do negócio mas, creio, tem potencial para ser muito mais do que uma parte simbólica das consequências.

De facto, estranho muito o trajecto de Nuno André Coelho no Porto. Foi um dos mistérios para que fui alertando na última época e que ainda estou para perceber. As indicações que deixou apontam para um grande potencial, com qualidade para assaltar rapidamente um lugar no onze portista, ou, agora, de formar uma dupla entusiasmante com Carriço. É um jogador rápido, com cultura posicional, alto e bom tecnicamente. Talvez uma utilização mais frequente me mostre o porquê de tão pouca confiança no seu potencial mas, para já, centrais com o potencial de Nuno André Coelho, não conheço muitos por aí...



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O negócio Moutinho (Parte I)

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Não sei quanto tempo vamos ter de esperar para ver algo igual no futebol português. Dois “grandes” entenderem-se pela transferência de um dos seus principais jogadores é algo que não está no programa emocional do adepto. É precisamente por essa invulgar característica desta transferência, que decidi separar o comentário sobre o negócio em 2 partes. A segunda terá mais a ver com a consequência do negócio, em termos técnicos e financeiros. Mas quero começar por falar um pouco do “making of” desta estranha e inesperada operação.

Sporting: incompetência que salta à vista
Porque é que o Sporting concretizou um negócio com um clube rival, de um jogador com um longo contrato pela frente e bem antes do fim do mercado? Esta foi a pergunta que Costinha e Bettencourt quiserem evitar na explicação que deram aos sócios. Óbvio. Nos dias seguintes ficou mais clara a resposta, com o noticiado pré acordo de venda entre o clube e o empresário do jogador. Um acordo que completa um puzzle à partida sem sentido e que expõe também uma enorme incompetência dos dirigentes do Sporting na salvaguarda dos seus interesses. O resultado, claro, foi a vulnerabilidade do clube e o desespero dos seus responsáveis. Crucificar Moutinho foi a forma fácil que encontraram para justificar a situação. Apela à sempre fácil reactividade emocional dos adeptos, mas... só acredita quem quer.

Moutinho: uma traição que não é explicação
Qual o interesse de Moutinho em trocar um clube do qual é capitão, joga há mais de 1 década e onde é um dos mais bem pagos, por um clube rival, da mesma liga e da mesma dimensão? A resposta “traidor”, aqui, não colhe minimamente. É preciso ir às motivações pessoais do jogador, que, como qualquer pessoa, só faz aquilo que entende ser melhor para si. Na minha leitura, só há 2 possibilidades que poderão ter motivado a opção de Moutinho. A primeira é financeira. Moutinho não poderá ganhar muito mais no Porto (o tecto salarial dos 2 clubes não é tão distante quanto isso) mas certamente terá recebido um avultado bónus com a mudança.

Até aqui, nada de mais natural, motivos financeiros que, afinal, estão no centro de grande parte das decisões profissionais de toda a gente. Mas, se Moutinho queria sair do Sporting, porque acabou por contrariar as pretensões do clube e assinou por um rival, em vez de esperar por outras oportunidades? A resposta mais provável tem a ver com uma má gestão da relação entre o clube e o jogador. A ida para o Porto não representa uma grande novidade para Moutinho. É certo que há mais possibilidade de beneficiar de melhor rendimento colectivo, mas também é certo que atrasa a sua probabilidade de fazer carreira no estrangeiro. Isto, para além do desgaste emocional que tem e terá uma transferência deste género. Por tudo isto, e porque faltava ainda muito para o término do mercado, não deveria ser difícil convencer Moutinho a esperar. Se não o conseguiu, de novo, o Sporting deverá olhar para as suas próprias responsabilidades. É fácil e gratuito levantar rótulos sobre a necessidade “formar homens”, mas é igualmente estúpido. Não me parece que os jogadores formados no Sporting ou noutro clube sejam diferentes uns dos outros. Se o Sporting tem mais problemas em gerir a sua relação com os jogadores do que os outros, então, o mais inteligente será perceber a origem do problema.

Porto: A investida perfeita
Se é o Sporting quem mais deverá reflectir sobre o sucedido, cabe de novo ao Porto o subtil papel de vencedor da operação. E que vencedor! Pode dizer-se que este foi um negócio que envolveu o acordo de 2 clubes, e que isso pode até ser saudável para uma racionalidade o futebol português, mas... não foi bem assim. O que terá acontecido, foi uma manobra inteligente dos portista, que aproveitaram a fragilidade do rival para garantirem o concurso de um dos seus mais importantes jogadores.

Mas a subtileza genial da manobra portista vem depois. Provavelmente, o Porto teria garantido a transferência com ou sem entendimento com o Sporting. Por isso mesmo ela se terá dado neste “timing”, nada conveniente para o Sporting. Pinto da Costa, porém, sabe bem por experiência própria que no mercado ninguém mata, nem ninguém morre, e que abrir uma guerra de mercado só poderia, afinal, trazer riscos a prazo. O entendimento, terá tido um custo imediato, mas salva o clube de um risco de represálias no curto prazo.



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12.7.10

Diário de 'Soccer City' (#26) - último

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No encerramento do “Diário de Soccer City”, que contará apenas com algumas notas de rodapé sobre a competição – a apreciação mais geral já foi feita durante a prova – quero começar da mesma forma que fiz no inicio do mundial. Ou seja, com um esclarecimento de como será o funcionamento do blogue nos próximos dias. Depois do Mundial, passarei directamente para o mercado, que me abstive de comentar no último mês. Assim, e aproveitando o conhecimento aprofundado que tenho de praticamente todos os reforços do futebol português, irei dedicar algum espaço para a análise de alguns dos mais importantes jogadores que marcaram o defeso até ao momento. Vamos então às últimas notas...

Espanha, o paradoxo do campeão
Não é difícil de perceber que a Espanha será um dos mais importantes campeões da história do futebol. Isto, porque ao contrário da generalidade das suas antecessoras, a Espanha ganha marcando uma diferença clara de estilo para todo o mundo. Um estilo que, como descrevi na antevisão, tem raízes históricas profundas e que é produto da ponte filosófica que se fez entre Amesterdão dos anos 70 e Barcelona da primeira década do milénio.

Mas há nisto tudo um dado paradoxal. É que se a Espanha se eternizou pelo seu estilo ofensivo, não pode deixar de ser notado que nenhum campeão mundial terá sido tão pobre em eficácia ofensiva como os espanhóis. E isto não é obra do acaso. Primeiro, porque a Espanha – ao contrário do Barcelona – não soube encontrar complemento colectivo às soluções que criava na primeira fase de construção. Por isso, os seus reduzidos golos são apenas a consequência natural de um jogo de poucas oportunidades. Depois, porque um jogo tão forte em posse tem um potencial defensivo talvez naturalmente maior do que ofensivo. Porquê? Porque no futebol só há uma bola e a melhor maneira de fazer o adversário atacar menos não é defender melhor, mas atacar melhor. Ou seja, se a bola está sempre do lado dos espanhóis, pode não ser certo que eles irão fazer golo com ela, mas é certo que não vão sofrer.

“O ataque é a melhor defesa”, não é uma frase nova, mas nenhuma equipa tinha explicado tão bem o que ela quer dizer como o Barcelona e, agora a outro nível, a selecção espanhola.

Del Bosque e o lugar certo
No banco do campeão estava já um homem que figura entre os mais bem sucedidos técnicos do futebol de clubes. Agora, com o título mundial, Del Bosque passa a ser provavelmente o técnico com o mais impressionante currículo da História do jogo. Fantástico, não é?

Se tivesse de fazer um ranking qualitativo de treinadores, teria muita dificuldade em posicionar Del Bosque. Na verdade, creio que ele foi mais um handicap para a Espanha do que outra coisa. Um handicap, porque quando se tem ao seu dispôs a estrutura base da melhor equipa do mundo, e se a desfaz para inventar outra disposição, mas com os mesmos jogadores, neste caso, só se pode estar a tornar a tarefa de vencer um pouco mais difícil. Foi isso que, na minha opinião, fez Del Bosque. Não era preciso ser genial para importar o meio campo do Barcelona, Busquets – Xavi – Iniesta, aproveitar a sua dinâmica da mesma forma que aproveitou a dinâmica da dupla de centrais, e juntar-lhe um trio de ataque com Pedro-Villa-Torres, por exemplo. Respeitar o 4-3-3 do Barça seria a solução óbvia, mas Del Bosque resolveu complicar, retirar uma unidade ofensiva para introduzir Xabi Alonso e mudar a estrutura. Complicou a sua própria vida, mas a herança era tão rica que mesmo assim... ganhou.

Enfim, Del Bosque pode ser o treinador mais bem sucedido da História, mas será também a prova de que mais importante do que ser bom, muitas vezes, é especialmente decisivo estar-se no lugar certo à hora certa.

De Forlan a Xavi
Forlan foi o melhor do Mundial. Concordo, por um lado. Pelo lado do desequilíbrio, do peso que uma unidade tem nos momentos decisivos. Nesse prisma, foi ele o melhor, sem dúvida. Acho, no entanto, que se o “tiki-taka” é o estilo dominante do futebol moderno, era tempo do mundo o perceber e reconhecer realmente. A posse infernal dos espanhóis não se faz, como é óbvio, com um só jogador, mas o seu potencial só é atingido pela qualidade excepcional de alguns dos seus intérpretes. Ora, se o futebol da Espanha não desequilibrou pelos dribles, ou pela capacidade de decisão no último terço. Se o desequilíbrio é a posse, o controlo e a envolvência, então talvez fosse hora de valorizar todos esses atributos também na eleição individual.

Como Cruyff foi a figura do “Futebol Total”, Xavi é a cara do “tiki taka”. Será que, mesmo com o mundo a seus pés, ninguém reconhecerá o verdadeiro impacto das suas virtudes?

O “caso Coentrão”
Um último comentário, bem à margem da final e das grandes decisões. Quero falar de Coentrão e do impacto que teve. Antes do Mundial, Coentrão era uma adaptação e um risco. Agora, é uma revelação e um dos melhores do mundo. Nós, que o vemos semana após semana não podemos acreditar que tenha passado a ser um jogador diferente. São 2 ideias que há muito venho defendendo e que talvez agora façam mais sentido para a generalidade: (1) é muito fácil criar laterais de topo a partir de extremos, tenham estes algumas características para a transição. Se não temos mais em Portugal, é porque houve falta de visão. (2) O nível dos laterais de topo em Portugal é muito elevado e a maioria deles jogaria em boa parte dos principais clubes mundiais.

Espero que o “caso Coentrão” sirva, finalmente, para que algumas conclusões sejam tiradas a este respeito. Que seja contextualizado com exemplos igualmente mediáticos como foram Miguel ou Bosingwa e, já agora, que não se volte a cometer o erro de deixar João Pereira para levar Paulo Ferreira. Ou, pior ainda, fazer jogar centrais, quando se tem nas laterais um dos pontos fortes do nosso jogo.

Para finalizar o tema, não evito recordar este post.



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9.7.10

Diário de 'Soccer City' (#25)

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Como é que se antevê uma final? José Mourinho um dia disse que as finais não são para jogar, que são para ganhar. Mais fácil dito que feito, até porque, como é óbvio, há tantos vencedores de finais como perdedores. Uma coisa é certa, seja épica, banal ou mesmo das piores de sempre, uma final de Mundial será sempre um jogo histórico, visto e revisto por milhares, mesmo décadas após a sua realização. E é essa relevância eterna que penetra no sistema nervoso dos jogadores e que, quem sabe, pode desfazer todas as lógicas. Seja para o bem ou para o mal. Enfim, pior do que prever a final, só mesmo... o jogo do 3º e 4º lugares. Isto para um alguém que não é molusco, claro...

Espanha – Holanda (Previsão: Espanha campeã do mundo)
Na ressaca da meia final com a Espanha, não faltaram especialistas a criticar a atitude alemã. Que foi demasiado defensiva, que não esteve à altura dos jogos anteriores, que isto, que aquilo. Desculpas de quem parece esperar que as equipas joguem sozinhas, ou então que no futebol existam 2 bolas. A Alemanha não foi capaz de se superiorizar frente à Espanha, não porque tenha tido um rendimento inferior aos jogos anteriores, mas porque teve um adversário que condicionou o jogo de forma diferente de todos os anteriores. E esse é o problema com que se deparará agora a Holanda.

É um problema curioso para os holandeses. Nenhum outro país importou com tanto afinco a filosofia do futebol holandês dos anos 70 como a Espanha. Não dá para dizer que a Espanha é uma versão do futebol de Mitchels, mas dá para dizer que é geneticamente descendente desses tempos. Cruyff cresceu com a ideia, desenvolveu-a e transmitiu-a no país que o acolheu. Recentemente, Guardiola, uma espécie de “neto” de Mitchels e “filho” Cruyff, terá dado um novo passo no desenvolvimento do jogo e o que vemos hoje na Espanha não tem nada a ver com Del Bosque, embora seja este quem se prepara para colher alguns louros históricos desta evolução. Del Bosque é uma espécie de barriga de aluguer de toda esta evolução filosófica. Ele, como já fora Aragonês.

Enfim, certo, certo, é que a Holanda tem o inventor da ideia, mas não tem nenhum inventor do antídoto da ideia. Por isso, e porque não tem futebol para contrapor na mesma moeda, Van Marwijk vai ter de fazer como os outros, e passar umas boas noites sem dormir para tentar encontrar solução para aquele que parece o grande enigma do futebol moderno: como tirar a bola a Xavi, Iniesta e companhia?

Lamento desiludir, mas não espero que no Domingo nos caia uma nova solução vestida de laranja. Ou seja, à Holanda restarão as mesmas alternativas dos outros. Esquecer a bola, controlar o espaço e tirar depois partido das suas unidades desequilibradoras para chegar às redes de Casillas. Em tudo isto, porém, há boas notícias para os holandeses. Podem ter um futebol colectivamente medíocre e até cometer vários erros defensivos – como já foi aqui diversas vezes escalpelizado – mas têm, como equipa, sentido de sacrifício e disponibilidade mental para estar bastante tempo sem bola. Mais importante ainda, têm unidades individuais capazes de ganhar um jogo em meia dúzia de jogadas, mais desequilibradoras do que qualquer adversário que a Espanha conheceu, não só nesta prova, mas nos últimos anos.

E é dentro disto que se definirá o jogo. De um lado, a organização espanhola, perante a qual Holanda precisa de se revelar mais capaz do que em outros jogos. Não bastará aglomerar jogadores, é preciso controlar espaços. Espaços como a zona entre linhas que custou o golo de Forlan, ou como as costas da linha defensiva, destroçada por Robinho. Do outro lado, a transição e a inspiração holandesas, depositadas nos ombros de Robben e Sneijder. Se a Espanha voltar a tardar em dar expressão à sua posse, poderá ter de se deparar com problemas como nunca experimentou até aqui. A Holanda não defende tão baixo como Portugal, Paraguai ou Alemanha e, se conseguir situações de transição, lançará o seu quarteto da frente a partir de zonas mais altas, ficando mais curto o caminho para a baliza de Casillas. Outra via para a Espanha poderá ser o pressing, já que, na sua primeira fase de construção, a Holanda será mais vulnerável do que Portugal ou Alemanha, por exemplo.

Enfim, diria que em 10 finais nas mesmas condições, a Espanha ganharia 7. Esta é a boa notícia para os espanhóis. A má, é que só há 1 final...

Uruguai – Alemanha (Palpite: Vence a Alemanha e marca mais do que 1 golo)
Muitos dizem que este jogo não deveria existir. Na realidade, porém, haverá assim tantas más memórias de experiências anteriores?! Os golos são quase sempre presença abundante e não poucas vezes tivemos desfechos inesperados. No que respeita a golos, espero novo festival, já quanto ao desfecho, dependerá muito da atitude das equipas. Como sempre, aliás.

Se o clima é de descompressão, parece-me que a Alemanha é quem tem mais probabilidades de manter a intensidade competitiva em níveis elevados. Somada esta expectativa ao facto dos alemães serem já de si melhores, talvez não seja de excluir a hipótese de uma nova goleada germânica.

Há quem veja o outro lado da moeda, e avance que a motivação alemã será menor pelo facto de serem a formação que mais expectativas tinha para estar na final e aquela que menos valoriza historicamente este jogo. Pessoalmente, creio muito mais na tese do parágrafo anterior, mas veremos.



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