13.7.10

O negócio Moutinho (Parte I)

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Não sei quanto tempo vamos ter de esperar para ver algo igual no futebol português. Dois “grandes” entenderem-se pela transferência de um dos seus principais jogadores é algo que não está no programa emocional do adepto. É precisamente por essa invulgar característica desta transferência, que decidi separar o comentário sobre o negócio em 2 partes. A segunda terá mais a ver com a consequência do negócio, em termos técnicos e financeiros. Mas quero começar por falar um pouco do “making of” desta estranha e inesperada operação.

Sporting: incompetência que salta à vista
Porque é que o Sporting concretizou um negócio com um clube rival, de um jogador com um longo contrato pela frente e bem antes do fim do mercado? Esta foi a pergunta que Costinha e Bettencourt quiserem evitar na explicação que deram aos sócios. Óbvio. Nos dias seguintes ficou mais clara a resposta, com o noticiado pré acordo de venda entre o clube e o empresário do jogador. Um acordo que completa um puzzle à partida sem sentido e que expõe também uma enorme incompetência dos dirigentes do Sporting na salvaguarda dos seus interesses. O resultado, claro, foi a vulnerabilidade do clube e o desespero dos seus responsáveis. Crucificar Moutinho foi a forma fácil que encontraram para justificar a situação. Apela à sempre fácil reactividade emocional dos adeptos, mas... só acredita quem quer.

Moutinho: uma traição que não é explicação
Qual o interesse de Moutinho em trocar um clube do qual é capitão, joga há mais de 1 década e onde é um dos mais bem pagos, por um clube rival, da mesma liga e da mesma dimensão? A resposta “traidor”, aqui, não colhe minimamente. É preciso ir às motivações pessoais do jogador, que, como qualquer pessoa, só faz aquilo que entende ser melhor para si. Na minha leitura, só há 2 possibilidades que poderão ter motivado a opção de Moutinho. A primeira é financeira. Moutinho não poderá ganhar muito mais no Porto (o tecto salarial dos 2 clubes não é tão distante quanto isso) mas certamente terá recebido um avultado bónus com a mudança.

Até aqui, nada de mais natural, motivos financeiros que, afinal, estão no centro de grande parte das decisões profissionais de toda a gente. Mas, se Moutinho queria sair do Sporting, porque acabou por contrariar as pretensões do clube e assinou por um rival, em vez de esperar por outras oportunidades? A resposta mais provável tem a ver com uma má gestão da relação entre o clube e o jogador. A ida para o Porto não representa uma grande novidade para Moutinho. É certo que há mais possibilidade de beneficiar de melhor rendimento colectivo, mas também é certo que atrasa a sua probabilidade de fazer carreira no estrangeiro. Isto, para além do desgaste emocional que tem e terá uma transferência deste género. Por tudo isto, e porque faltava ainda muito para o término do mercado, não deveria ser difícil convencer Moutinho a esperar. Se não o conseguiu, de novo, o Sporting deverá olhar para as suas próprias responsabilidades. É fácil e gratuito levantar rótulos sobre a necessidade “formar homens”, mas é igualmente estúpido. Não me parece que os jogadores formados no Sporting ou noutro clube sejam diferentes uns dos outros. Se o Sporting tem mais problemas em gerir a sua relação com os jogadores do que os outros, então, o mais inteligente será perceber a origem do problema.

Porto: A investida perfeita
Se é o Sporting quem mais deverá reflectir sobre o sucedido, cabe de novo ao Porto o subtil papel de vencedor da operação. E que vencedor! Pode dizer-se que este foi um negócio que envolveu o acordo de 2 clubes, e que isso pode até ser saudável para uma racionalidade o futebol português, mas... não foi bem assim. O que terá acontecido, foi uma manobra inteligente dos portista, que aproveitaram a fragilidade do rival para garantirem o concurso de um dos seus mais importantes jogadores.

Mas a subtileza genial da manobra portista vem depois. Provavelmente, o Porto teria garantido a transferência com ou sem entendimento com o Sporting. Por isso mesmo ela se terá dado neste “timing”, nada conveniente para o Sporting. Pinto da Costa, porém, sabe bem por experiência própria que no mercado ninguém mata, nem ninguém morre, e que abrir uma guerra de mercado só poderia, afinal, trazer riscos a prazo. O entendimento, terá tido um custo imediato, mas salva o clube de um risco de represálias no curto prazo.



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12.7.10

Diário de 'Soccer City' (#26) - último

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No encerramento do “Diário de Soccer City”, que contará apenas com algumas notas de rodapé sobre a competição – a apreciação mais geral já foi feita durante a prova – quero começar da mesma forma que fiz no inicio do mundial. Ou seja, com um esclarecimento de como será o funcionamento do blogue nos próximos dias. Depois do Mundial, passarei directamente para o mercado, que me abstive de comentar no último mês. Assim, e aproveitando o conhecimento aprofundado que tenho de praticamente todos os reforços do futebol português, irei dedicar algum espaço para a análise de alguns dos mais importantes jogadores que marcaram o defeso até ao momento. Vamos então às últimas notas...

Espanha, o paradoxo do campeão
Não é difícil de perceber que a Espanha será um dos mais importantes campeões da história do futebol. Isto, porque ao contrário da generalidade das suas antecessoras, a Espanha ganha marcando uma diferença clara de estilo para todo o mundo. Um estilo que, como descrevi na antevisão, tem raízes históricas profundas e que é produto da ponte filosófica que se fez entre Amesterdão dos anos 70 e Barcelona da primeira década do milénio.

Mas há nisto tudo um dado paradoxal. É que se a Espanha se eternizou pelo seu estilo ofensivo, não pode deixar de ser notado que nenhum campeão mundial terá sido tão pobre em eficácia ofensiva como os espanhóis. E isto não é obra do acaso. Primeiro, porque a Espanha – ao contrário do Barcelona – não soube encontrar complemento colectivo às soluções que criava na primeira fase de construção. Por isso, os seus reduzidos golos são apenas a consequência natural de um jogo de poucas oportunidades. Depois, porque um jogo tão forte em posse tem um potencial defensivo talvez naturalmente maior do que ofensivo. Porquê? Porque no futebol só há uma bola e a melhor maneira de fazer o adversário atacar menos não é defender melhor, mas atacar melhor. Ou seja, se a bola está sempre do lado dos espanhóis, pode não ser certo que eles irão fazer golo com ela, mas é certo que não vão sofrer.

“O ataque é a melhor defesa”, não é uma frase nova, mas nenhuma equipa tinha explicado tão bem o que ela quer dizer como o Barcelona e, agora a outro nível, a selecção espanhola.

Del Bosque e o lugar certo
No banco do campeão estava já um homem que figura entre os mais bem sucedidos técnicos do futebol de clubes. Agora, com o título mundial, Del Bosque passa a ser provavelmente o técnico com o mais impressionante currículo da História do jogo. Fantástico, não é?

Se tivesse de fazer um ranking qualitativo de treinadores, teria muita dificuldade em posicionar Del Bosque. Na verdade, creio que ele foi mais um handicap para a Espanha do que outra coisa. Um handicap, porque quando se tem ao seu dispôs a estrutura base da melhor equipa do mundo, e se a desfaz para inventar outra disposição, mas com os mesmos jogadores, neste caso, só se pode estar a tornar a tarefa de vencer um pouco mais difícil. Foi isso que, na minha opinião, fez Del Bosque. Não era preciso ser genial para importar o meio campo do Barcelona, Busquets – Xavi – Iniesta, aproveitar a sua dinâmica da mesma forma que aproveitou a dinâmica da dupla de centrais, e juntar-lhe um trio de ataque com Pedro-Villa-Torres, por exemplo. Respeitar o 4-3-3 do Barça seria a solução óbvia, mas Del Bosque resolveu complicar, retirar uma unidade ofensiva para introduzir Xabi Alonso e mudar a estrutura. Complicou a sua própria vida, mas a herança era tão rica que mesmo assim... ganhou.

Enfim, Del Bosque pode ser o treinador mais bem sucedido da História, mas será também a prova de que mais importante do que ser bom, muitas vezes, é especialmente decisivo estar-se no lugar certo à hora certa.

De Forlan a Xavi
Forlan foi o melhor do Mundial. Concordo, por um lado. Pelo lado do desequilíbrio, do peso que uma unidade tem nos momentos decisivos. Nesse prisma, foi ele o melhor, sem dúvida. Acho, no entanto, que se o “tiki-taka” é o estilo dominante do futebol moderno, era tempo do mundo o perceber e reconhecer realmente. A posse infernal dos espanhóis não se faz, como é óbvio, com um só jogador, mas o seu potencial só é atingido pela qualidade excepcional de alguns dos seus intérpretes. Ora, se o futebol da Espanha não desequilibrou pelos dribles, ou pela capacidade de decisão no último terço. Se o desequilíbrio é a posse, o controlo e a envolvência, então talvez fosse hora de valorizar todos esses atributos também na eleição individual.

Como Cruyff foi a figura do “Futebol Total”, Xavi é a cara do “tiki taka”. Será que, mesmo com o mundo a seus pés, ninguém reconhecerá o verdadeiro impacto das suas virtudes?

O “caso Coentrão”
Um último comentário, bem à margem da final e das grandes decisões. Quero falar de Coentrão e do impacto que teve. Antes do Mundial, Coentrão era uma adaptação e um risco. Agora, é uma revelação e um dos melhores do mundo. Nós, que o vemos semana após semana não podemos acreditar que tenha passado a ser um jogador diferente. São 2 ideias que há muito venho defendendo e que talvez agora façam mais sentido para a generalidade: (1) é muito fácil criar laterais de topo a partir de extremos, tenham estes algumas características para a transição. Se não temos mais em Portugal, é porque houve falta de visão. (2) O nível dos laterais de topo em Portugal é muito elevado e a maioria deles jogaria em boa parte dos principais clubes mundiais.

Espero que o “caso Coentrão” sirva, finalmente, para que algumas conclusões sejam tiradas a este respeito. Que seja contextualizado com exemplos igualmente mediáticos como foram Miguel ou Bosingwa e, já agora, que não se volte a cometer o erro de deixar João Pereira para levar Paulo Ferreira. Ou, pior ainda, fazer jogar centrais, quando se tem nas laterais um dos pontos fortes do nosso jogo.

Para finalizar o tema, não evito recordar este post.



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9.7.10

Diário de 'Soccer City' (#25)

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Como é que se antevê uma final? José Mourinho um dia disse que as finais não são para jogar, que são para ganhar. Mais fácil dito que feito, até porque, como é óbvio, há tantos vencedores de finais como perdedores. Uma coisa é certa, seja épica, banal ou mesmo das piores de sempre, uma final de Mundial será sempre um jogo histórico, visto e revisto por milhares, mesmo décadas após a sua realização. E é essa relevância eterna que penetra no sistema nervoso dos jogadores e que, quem sabe, pode desfazer todas as lógicas. Seja para o bem ou para o mal. Enfim, pior do que prever a final, só mesmo... o jogo do 3º e 4º lugares. Isto para um alguém que não é molusco, claro...

Espanha – Holanda (Previsão: Espanha campeã do mundo)
Na ressaca da meia final com a Espanha, não faltaram especialistas a criticar a atitude alemã. Que foi demasiado defensiva, que não esteve à altura dos jogos anteriores, que isto, que aquilo. Desculpas de quem parece esperar que as equipas joguem sozinhas, ou então que no futebol existam 2 bolas. A Alemanha não foi capaz de se superiorizar frente à Espanha, não porque tenha tido um rendimento inferior aos jogos anteriores, mas porque teve um adversário que condicionou o jogo de forma diferente de todos os anteriores. E esse é o problema com que se deparará agora a Holanda.

É um problema curioso para os holandeses. Nenhum outro país importou com tanto afinco a filosofia do futebol holandês dos anos 70 como a Espanha. Não dá para dizer que a Espanha é uma versão do futebol de Mitchels, mas dá para dizer que é geneticamente descendente desses tempos. Cruyff cresceu com a ideia, desenvolveu-a e transmitiu-a no país que o acolheu. Recentemente, Guardiola, uma espécie de “neto” de Mitchels e “filho” Cruyff, terá dado um novo passo no desenvolvimento do jogo e o que vemos hoje na Espanha não tem nada a ver com Del Bosque, embora seja este quem se prepara para colher alguns louros históricos desta evolução. Del Bosque é uma espécie de barriga de aluguer de toda esta evolução filosófica. Ele, como já fora Aragonês.

Enfim, certo, certo, é que a Holanda tem o inventor da ideia, mas não tem nenhum inventor do antídoto da ideia. Por isso, e porque não tem futebol para contrapor na mesma moeda, Van Marwijk vai ter de fazer como os outros, e passar umas boas noites sem dormir para tentar encontrar solução para aquele que parece o grande enigma do futebol moderno: como tirar a bola a Xavi, Iniesta e companhia?

Lamento desiludir, mas não espero que no Domingo nos caia uma nova solução vestida de laranja. Ou seja, à Holanda restarão as mesmas alternativas dos outros. Esquecer a bola, controlar o espaço e tirar depois partido das suas unidades desequilibradoras para chegar às redes de Casillas. Em tudo isto, porém, há boas notícias para os holandeses. Podem ter um futebol colectivamente medíocre e até cometer vários erros defensivos – como já foi aqui diversas vezes escalpelizado – mas têm, como equipa, sentido de sacrifício e disponibilidade mental para estar bastante tempo sem bola. Mais importante ainda, têm unidades individuais capazes de ganhar um jogo em meia dúzia de jogadas, mais desequilibradoras do que qualquer adversário que a Espanha conheceu, não só nesta prova, mas nos últimos anos.

E é dentro disto que se definirá o jogo. De um lado, a organização espanhola, perante a qual Holanda precisa de se revelar mais capaz do que em outros jogos. Não bastará aglomerar jogadores, é preciso controlar espaços. Espaços como a zona entre linhas que custou o golo de Forlan, ou como as costas da linha defensiva, destroçada por Robinho. Do outro lado, a transição e a inspiração holandesas, depositadas nos ombros de Robben e Sneijder. Se a Espanha voltar a tardar em dar expressão à sua posse, poderá ter de se deparar com problemas como nunca experimentou até aqui. A Holanda não defende tão baixo como Portugal, Paraguai ou Alemanha e, se conseguir situações de transição, lançará o seu quarteto da frente a partir de zonas mais altas, ficando mais curto o caminho para a baliza de Casillas. Outra via para a Espanha poderá ser o pressing, já que, na sua primeira fase de construção, a Holanda será mais vulnerável do que Portugal ou Alemanha, por exemplo.

Enfim, diria que em 10 finais nas mesmas condições, a Espanha ganharia 7. Esta é a boa notícia para os espanhóis. A má, é que só há 1 final...

Uruguai – Alemanha (Palpite: Vence a Alemanha e marca mais do que 1 golo)
Muitos dizem que este jogo não deveria existir. Na realidade, porém, haverá assim tantas más memórias de experiências anteriores?! Os golos são quase sempre presença abundante e não poucas vezes tivemos desfechos inesperados. No que respeita a golos, espero novo festival, já quanto ao desfecho, dependerá muito da atitude das equipas. Como sempre, aliás.

Se o clima é de descompressão, parece-me que a Alemanha é quem tem mais probabilidades de manter a intensidade competitiva em níveis elevados. Somada esta expectativa ao facto dos alemães serem já de si melhores, talvez não seja de excluir a hipótese de uma nova goleada germânica.

Há quem veja o outro lado da moeda, e avance que a motivação alemã será menor pelo facto de serem a formação que mais expectativas tinha para estar na final e aquela que menos valoriza historicamente este jogo. Pessoalmente, creio muito mais na tese do parágrafo anterior, mas veremos.



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7.7.10

Diário de 'Soccer City' (#24)

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Sabe-se agora que não vai ganhar, e também já se sabia que, tudo somado, não era quem melhores probabilidades tinha para o fazer. Ainda assim, no dia em que foi afastada parece-me que é da mais inteira justiça que se comece por fazer uma vénia à Alemanha. Quando se falar de surpresas e sensações desta prova, nomes como Gana, Uruguai ou Holanda virão à baila. Os resultados tornam-no inevitável. Se falarmos de qualidade, porém, ninguém se compara aos alemães. Foram eles a grande lufada de ar fresco desta prova e quem mais se aproximou do seu máximo potencial. Por cá falou-se na importância das 3 semanas de treino antes do Mundial. Para meu desencanto, porém, tanto para Portugal como para a generalidade das formações, esse período serviu para pouco mais do que nada. As desculpas da mediocridade geral sofrem um grande revés quando se olha para o que conseguiu Low nesta Alemanha.

Fica o aviso para Portugal: se o objectivo for mesmo fazer coisas positivas no futuro, é bom que se comece a olhar para o exemplo germânico. Se, pelo contrário, for só para fazer "converseta" como nestes últimos 4 anos, então está tudo bem...


Uruguai – Holanda
Os 5 golos podem dar a sensação de um grande jogo. Mas não foi. O Uruguai pode dar a entender ter sido a revelação da prova. Mas não foi. A Holanda pode parecer ser mais pragmática do que no passado. Mas não é. Fora algumas individualidades – muitas no caso holandês – é tudo bastante medíocre. Isso sim.

O jogo não foi bom, porque nem o Uruguai foi capaz de se organizar suficientemente bem – isso sim, seria uma surpresa! – nem a Holanda teve a audácia para fazer uma exibição que estava perfeitamente ao seu alcance.

O Uruguai não é uma revelação da prova, porque se limitou, simplesmente, a aproveitar a sorte grande que foi o calendário que teve pela frente. Nunca se organizou bem e viveu apenas da qualidade individual de Forlan (que fantástico Mundial!) e Suarez para fazer a diferença em embates medíocres. Chegou à meia final, mas não conseguiu 1 único resultado surpreendente. E isto diz tudo.

A Holanda não é mais pragmática. A Holanda é, antes, mais incapaz. Se fosse pragmática, defendia bem, o que não é o caso. Defende com muitos, é um facto, e respeita equilíbrios tácticos importantes, mas é só. Depois, com as unidades que tem devia fazer muito mais em termos ofensivos, seja em organização, seja em transição. Teve um jogo feliz frente ao Brasil e o resto foi um passeio oferecido pelo calendário. Tudo somado, não vejo crédito suficiente para merecer uma final de campeonato do mundo.

Sobre o jogo, ganhou a Holanda, como se esperava. E ganhou, também como se esperava, apenas e só porque tem melhores jogadores. Mais nada.

Alemanha – Espanha
Sem surpresas, a Espanha confirmou que, por muito bom que fosse o trajecto alemão, o seu favoritismo era intocável. Tal como havia referido na antevisão, foi um jogo dominado pelos momentos de organização, e aí, embora ambos fossem fortes, a Espanha marcou uma esperada diferença. Esperada porque todos conhecemos a unicidade da posse espanhola, mas também porque há uma diferença entre as duas equipas em termos de pressing. E este ponto, embora normalmente desprezado, é fundamental para perceber o jogo.

É que o pressing espanhol é muito mais alto do que o alemão – sempre o foi durante a prova – e isso fez com que o jogo se disputasse muito mais no meio terreno ofensivo espanhol, porque a posse germânica raramente teve capacidade para empurrar as linhas espanholas até à sua área. Foi, portanto, uma parte por diferenças tácticas e outra por diferenças técnicas, que a Espanha se superiorizou. Tudo perfeitamente dentro do previsto, repito.

Para a Alemanha, porém, o facto da Espanha não ter grande capacidade de penetração no último terço poderia ser uma importante oportunidade. Com o passar do tempo, a emoção e ansiedade poderiam tornar o destino mais aleatório do que o jogo indicava em termos de domínio. A Espanha acelerou e em determinados momentos poderia ter conseguido o golo. Acabou por fazê-lo de bola parada, o que não deixa de ser duplamente irónico. Primeiro porque nas bolas paradas estava uma oportunidade mais evidente para os germânicos, e depois porque se a Espanha foi melhor, seguramente que não foi pelas bolas paradas...

Enfim, passou a Espanha, e passou bem. Simplesmente porque é melhor.



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6.7.10

Diário de 'Soccer City' (#23)

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A antevisão dos 2 jogos da meia final. Uma coisa é certa: o que vamos ver, será História...

Uruguai – Holanda (palpite: Vence a Holanda nos 90 minutos)
Não é difícil antever o favoritismo dos holandeses. O Uruguai pode ser a última esperança dos Sul Americanos para contrariar o poderio europeu, mas a sua presença nas meias finais está mais ligada a uma sequência feliz de situações do que a um grande mérito próprio. Basta dizer que em nenhuma ocasião os uruguaios bateram uma equipa que lhes fosse teoricamente superior. Ainda assim – e esta uma ideia que repito – em apenas 2 jogos, qualquer equipa pode sonhar com o título.


Olhando para trás, não espero um jogo muito aberto. O Uruguai jogará desfalcado de algumas unidades bem importantes e essa limitação só deverá servir para acentuar a tendência de Tabarez para optar pelos 3 centrais. O mesmo filme do nulo frente à França, logo no primeiro dia. Se assim for, a Holanda encontrará mais facilidades do que o esperado. O espaço entre linhas poderá ser um dado decisivo, e poderá até catapultar Sneijder para uma candidatura ainda mais séria a melhor jogador do mundial. A ele junta-se obviamente Robben, compondo um duo temível, não só pela qualidade individual como pela vocação que ambos têm para os grandes momentos.

Enfim, se este cenário se confirmar, só um grande Forlan poderá fazer do jogo algo que não seja um contra relógio para os holandeses. Será decisivo o “timing” do seu primeiro golo e se ele realmente surgir do lado laranja, então, aí sim, poderemos ter uma viragem no cariz do jogo. O Uruguai arriscará mais, expor-se-á mais a novo prejuízo mas também poderá ficar mais perto de marcar. É que do lado holandês, como já discuti, a eficácia defensiva não é propriamente um dado adquirido.

Este é o cenário que vejo como mais provável, mas está longe de ser o único possível. Numa meia final com esta importância, o peso emocional poderá provocar reacções tanto inesperadas como decisivas para qualquer dos lados...

Alemanha – Espanha (Palpite: passa a Espanha)
Influenciado pelo inevitável peso dos resultados, o mundo começou por desconfiar desta Alemanha nos 4-0 contra a Austrália. "Desconfiar", apenas, porque houve sempre quem dissesse que fora a Austrália a principal responsável por um resultado tão avolumado. A derrota frente à Sérvia foi gelo suficiente para arrefecer qualquer entusiasmo generalizado sobre a fase de grupos e poucos foram aqueles que apontaram o favoritismo dos alemães em alguma das 2 eliminatórias da fase decisiva. O que se passou, todos o sabemos: qualidade e, outra vez,“chapa 4” (desta vez, sem australianos para responsabilizar). Enfim, a Alemanha não é uma equipa diferente daquela que actuou no primeiro dia, mas apenas agora parece ser um candidato unânime. E logo agora, que defronta a Espanha.

De facto, mesmo com o mais fantástico trabalho colectivo da prova (já o escrevi há uns tempos, mas agora é capaz de ser mais consensual), não me parece que, desta vez, a Alemanha parta como favorita para o embate contra a Espanha. Seguramente será mais do que em 2008, quer porque está mais forte, quer porque a Espanha não entusiasma tanto, mas não ainda suficiente para partir na “pole position”. Os espanhóis – escrevi-o ainda ontem – beneficiam em demasia da qualidade individual e das rotinas do Barcelona e são, desde o inicio, a equipa mais forte.

Quanto ao jogo, juntam-se as duas equipas mais fortes em organização ofensiva. Nenhuma treme de medo ao primeiro esboço de pressing e ambas trabalham muito bem as soluções de passe. Defensivamente, a Espanha arrisca mais subir as linhas e a Alemanha – temendo a pouca presença numérica no miolo – encolhe-se mais. Talvez seja estranho dizê-lo depois da primeira frase deste parágrafo, mas talvez seja em transição que residirão as melhores hipóteses de ambas as equipas. Quem pressionar melhor e provocar mais erros no ponto forte do adversário poderá tirar partido para levar vantagem. Em 2008 não havia dúvidas de que seria a Espanha a fazê-lo, mas desta vez a parada prevê-se mais equilibrada.

Outro aspecto importante – como se viu nos quartos – serão as bolas paradas. Se no jogo corrido, a Espanha tem favoritismo, aqui serão os alemães a merece-lo. Não só porque são naturalmente fortes, mas porque os espanhóis defendem homem-a-homem, ao contrário do que a maioria dos seus jogadores estão habituados. E, já que estamos nos detalhes, junto os guarda redes como figuras igualmente importantes. Numa fase de tanta tensão e com a polémica Jabulani a ajudar, muito se pode decidir nas balizas. É que se um erro pode acontecer a qualquer um, também temos potencial para uma exibição memorável de algum dos lados.

Finalmente, falar da ausência de Muller. Normalmente não gosto muito de sobrevalorizar o peso de individualidades e, como já várias vezes expliquei, os nomes com mais relevância no jogo alemão são os nucleares Schweisteiger e Ozil, “pivots” da acção colectiva em todos os momentos do jogo. No caso, porém, Muller é uma ausência importante e que abre lugar a um potencial dilema para Low. O mesmo se passaria com Podolski, por exemplo, mesmo se os seus movimentos são manifestamente diferentes. É que os alas no modelo alemão são jogadores que na maioria dos modelos e equipas jogarão como avançados, partindo de zonas centrais. O objectivo, precisamente, é tirar partido dos seus movimentos diagonais e competência na zona de finalização. Sem estas características dificilmente teríamos tido tantos golos germânicos na competição. A questão é que não é fácil encontrar uma alternativa com as mesmas características e tentar fazê-lo pode acarretar alguns riscos. Low poderá utilizar um extremo mais clássico, como Marin, mas também poderá ser tentado a optar por um elemento mais vocacionado para apoiar Khedira e Schweinsteiger. A ver vamos...



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5.7.10

Diário de 'Soccer City' (#22)

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Embora tardiamente, não quero passar às meias finais, antes de deixar umas breves notas sobre os quartos de final. Na verdade, não há muito a acrescentar às antevisões que fiz, uma vez que os jogos corresponderam em quase tudo às expectativas que tinha. Antes do comentário jogo-a-jogo, porém, deixo uma nota sobre a actualidade extra-Mundial e o funcionamento do blogue. É certo que acabamos de assistir a uma das mais importantes transferências da história do futebol português e que, entretanto, também já outras definições foram conhecidas e concretizadas no mercado. Ainda assim, manterei o plano de me dedicar exclusivamente ao Mundial, prometendo a partir da próxima semana, aí sim, concentrar atenções no mercado e na preparação para a próxima época de clubes.


Brasil – Holanda
Foi o único jogo em que o palpite que deixei não se concretizou, mas, na verdade, o curso do jogo foi muito próximo do previsto. A única surpresa esteve, primeiro, na entrada algo permissiva dos holandês em termos defensivos e, depois, na eficácia laranja que conduziu à reviravolta.

O primeiro dado a merecer atenção é o que está por trás do golo brasileiro. Já aqui falei várias vezes das fragilidades individuais dos defensores holandeses e esse lance explica bem o que há de problemático no seu comportamento. Tudo está relacionado, parece-me, com uma carência na formação holandesa. A equipa tem preocupações tácticas correctas, mas individualmente os defensores holandeses são displicentes na forma como protegem as zonas mais importantes em termos defensivos e, noutros casos, assumem riscos excessivos em posse. Uma carência que se verifica semana após semana na liga interna e que explica também o evidente contraste entre o sucesso da escola holandesa em posições ofensivas e a modéstia revelada na zona mais recuada do campo. E assim, a Holanda se viu numa desvantagem potencialmente decisiva. Porque não cuidou as prioridades dos espaços, porque ignorou as referências zonais e colectivas e porque se deixou levar por aquilo que cada adversário, individualmente, ia fazendo.

Se a Holanda falhou no seu ponto fraco, deve à eficácia e a um capricho do destino o facto de não ter pago com a eliminação. Isto porque, e apesar de ter conseguido alguns períodos de domínio territorial, nunca foi capaz de por em perigo a baliza de Julio César. Aliás, até à reviravolta ter sido consumada, não se contabilizaram quaisquer oportunidades significativas de golo dos holandeses e, pode dizer-se, foi sempre o Brasil quem mais ameaçou.

Mas este foi um jogo de topo, decidido no pormenor. Pormenor das bolas paradas e pormenor da capacidade de reacção emocional às incidências do jogo. A Holanda foi eficaz e o Brasil perdeu a cabeça.

Uruguai – Gana
O jogo louco confirmou-se. De parte a parte, a qualidade individual dos atacantes superou em muito o rigor táctico de ambos lados. Erros em posse, espaço entre linhas e alguns desequilíbrios. O resultado, claro, foi um jogo entretido, bem ao gosto de quem tem no entretenimento o condimento favorito num jogo de futebol.

Do ponto de vista da análise, não há muito a dizer de um jogo destes. Porém, não quero deixar de comentar 2 detalhes em relação às grandes penalidades. Primeiro, sobre Gyan. Entre coragem e imprudência, não sei o que haverá mais naquele primeiro penalti da série decisiva que saiu ao ângulo. Depois, sobre Mensah. Para mim, é incompreensível como um profissional aponta um penalti com tão pouco balanço.

Alemanha – Argentina
E, de novo, o futebol foi respeitado. A qualidade colectiva superou o talento individual. Não tinha de ser assim, o jogo poderia ter conhecido outro caminho se fosse conhecendo outras condicionantes, mas, creio, seria difícil à Argentina durar muito mais tempo com tantas insuficiências.

Do lado argentino, confirmou-se o equívoco do posicionamento de Messi, demasiado longe da zona onde o seu futebol faz mais sentido. Confirmaram-se também todas as insuficiências tácticas, ao nível do equilíbrio e da preocupação com a transição ataque-defesa, bem como a exposição que havia alertado para o lado direito argentino, que acabou por ser o caminho para o sucesso na estratégia alemã.

Do lado alemão, confesso, a exibição nem sequer superou as minhas expectativas. Como esperava, teve repetidas oportunidades para actuar em transição e, também sem surpresas, fê-lo sempre com um entrosamento colectivo bastante elevado. No jogo alemão, porém, nem todas as fases foram óptimas e a equipa acabou por passar alguns períodos em que falhou demasiado no primeiro passe de transição e permitiu um domínio continuado dos argentinos que, se tivesse tido um momento de inspiração, poderia ter virado a face do jogo. O tempo, porém, acabou por tornar a vitória alemã num desfecho inevitável.

Individualmente, é difícil fazer destaques numa exibição que, como sempre, foi conseguida pelos méritos do colectivos. Ozil não esteve tão influente como nos últimos jogos mas Schweinsteiger confirmou novamente ser um dos grandes destaques deste mundial. Mais influentes estiveram Khedira e, sobretudo, Muller que, com Podolski, beneficiou muito do espaço em transição. Se colectivamente a Alemanha foi sempre melhor, fica-me a sensação que com uma definição individual mais constante, o jogo poderia ter sido decidido bem mais cedo.

Espanha – Paraguai
A Espanha acabou por vencer sem sofrer, como havia sugerido, mas este foi o jogo que menos se ajustou às projecções que fizera. Sobretudo pelo lado espanhol. O domínio e a qualidade da posse existiu, e a qualidade defensiva dos paraguaios também não foi melhor do que se pensava. O que aconteceu foi que a Espanha raramente deu nota de ter um plano para entrar na área paraguaia e, por isso, não só teve um número inesperadamente reduzido de oportunidades como deu oportunidades para que os paraguaios fossem crescendo em termos emotivos.

Os espanhóis, tudo somado, serão a melhor equipa entre os 4 semi finalistas, mas não me parece que seja uma equipa optimizada. Longe disso. Valem sobretudo pelas características das suas individualidades e pela importação de algumas rotinas do fantástico Barcelona. De resto, faz sentido ter Villa a descair sobre a esquerda e não há nada de errado com a mobilidade de Torres. O que não pode acontecer é a equipa utilizar os corredores para penetrar e depois não ter soluções de passe na zona interior. O trabalho de Del Bosque não podia ser mais fácil, mas ele parece querer complicá-lo. Se o Barcelona tem rotinado um modelo fantástico em 4-3-3, se Xavi, Iniesta e Busquets são tantas vezes os 3 do meio campo, para que é que é preciso mais um jogador?! Tudo seria bem mais fácil se estes 3 jogassem no meio e se a eles se juntasse um extremo direito (Navas ou Pedro), com Villa à esquerda e Torres ao meio. A Espanha não deixa de ser favorita para todos os jogos que fizer, mas não escolheu o caminho mais curto...



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2.7.10

Diário de 'Soccer City' (#21)

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Sexta Feira marca o inicio da recta final. 8 equipas discutem o lugar entre a elite, entre aqueles que jogam o número máximo de partidas no Mundial, e entre aqueles que ficam, pelo menos, a um pequeno passo do sonho. Sim, porque a partir das meias finais qualquer equipa pode sonhar com o lugar mais alto. Antes dos jogos, deixo uma pequena antevisão pessoal e, para apimentar a coisa, também um pequeno prognóstico sobre cada um dos jogos. Apenas uma brincadeira, não se trata de qualquer candidatura a “mestre Alves da blogosfera”...

Brasil – Holanda (Palpite: empate ao intervalo)
Conjuntamente com o Alemanha – Argentina, é o prato forte da ronda. Tudo somado, creio que o Brasil merece nesta altura honras de principal candidato ao título e, logo, também de favorito a seguir em frente. É-me mais fácil perceber o que vale o Brasil do que a Holanda, porque os brasileiros já vêm jogando da mesma forma há vários anos e porque a Holanda ainda não foi testada seriamente nesta prova. De qualquer modo, estas são duas das equipas que mais consistência revelaram na preparação para a prova. Se mais provas faltassem, bastaria evocar o tal pormenor discutido aqui há uns dias, da utilização de um 11 base, já previsto na própria numeração das camisolas.

Por tudo isto, não espero qualquer surpresa táctica por parte dos treinadores, mas antes um reforço de confiança nos respectivos modelos. Se tal acontecer, vamos ter um jogo fechado, focado nos equilíbrios tácticos e no controlo do espaço. Mas vamos ter, também, qualidade técnica de sobra, e possibilidade de desequilíbrios individuais. Especialmente em transição, ou na sequência de bolas paradas – cada vez mais um aspecto importante nesta fase decisiva. O primeiro golo valerá ouro, porque obrigará quem o sofrer a correr mais riscos e dar ao adversário a possibilidade de jogar como mais gosta. Ambos o sabem.

Uma palavra para dois “espalha brasas”. Dois jogadores que desprezam tudo isto, que não pesam duas vezes quando podem arriscar o desequilíbrio e que não têm qualquer receio da perda ou da consequente transição: Robben de um lado, Robinho do outro. Quem sabe um momento de magia de um dos 2?

Uruguai – Gana (Palpite: ambas as equipas marcarão no jogo)
É verdade que, um pouco na norma de todo o torneio, nenhuma das equipas participou num festival de golos. Desta vez, porém, acredito que possa acontecer um jogo com golos em ambas as balizas, e talvez mais do que um. É que – e também dentro daquilo que foi norma – Uruguai e Gana não são propriamente equipas fortes em termos de organização defensiva. Mesmo se ambas não hesitam em sobrepovoar-se no centro da defesa. Menos quantidade mas mais qualidade, têm as duas na frente. Asamoah, Boateng, Ayew e Gyan de um lado. O tridente Cavani, Suarez e Forlan do outro. No caso de Gyan e Forlan, uma grande exibição poderá lançar qualquer um dos casos para os destaques de qualquer livro de memórias deste Mundial.

Somadas todas as expectativas, torna-se difícil antever um vencedor, ou mesmo um claro favoritismo. Ambas as equipas darão oportunidades ao adversário e o aproveitamento das mesmas dependerá muito da inspiração dos intérpretes. Talvez os amantes da astrologia nos possam elucidar melhor quem estará mais favorecido pelo alinhamento das estrelas na noite de Sexta...

Argentina – Alemanha (Palpite: passa a Alemanha)
Nem sempre confiei nesse princípio – que não é, nem de perto, 100% seguro no futebol – mas o Mundial tem-lhe sido fiel. Falo do princípio de que quem é melhor ganha, e quem é pior paga a factura. Foi assim com os horríveis casos de França e Itália, eliminados mais pela lógica do jogo do que pelas projecções iniciais. Foi assim, também, em todos os duelos decisivos. Não houve surpresas, e quem foi melhor ganhou sempre. Se a tendência se repetir, seguirá em frente a Alemanha.

Já falei bastante das 2 equipas e perceber-se-á, no somatório dessas análises, que vejo este duelo como o confronto entre os dois candidatos que menos semelhanças em termos de virtudes. A Argentina é o talento puro, tão puro que a sua valia quase se resume à soma das suas individualidades. A Alemanha, pelo contrário, não deslumbra individualmente, mas consegue formar um colectivo muito competente em todos os momentos do jogo.

Dentro das 'nuances' que poderão definir a partida, começo por Messi. Maradona resolveu dar-lhe liberdade, diz-se, mas na verdade Messi joga longe da zona onde as suas decisões fazem mais sentido. Messi pensa no desequilíbrio porque é essa a sua vocação, e embora tenha capacidade para desequilibrar a partir de qualquer zona, não é na construção que se aconselha o risco. Por isso é que o papel de Messi pode ser um pau de dois bicos e um dilema para o próprio Low. É que a dupla de médios da Alemanha poderá ter alguma dificuldade em controlar o espaço entre linhas, e o corredor central, com Messi nesta posição, é aquele onde a Argentina consegue ser mais perigosa. Se Low encontrar forma de bloquear Messi, terá o jogo na mão. Não só porque bloqueará o jogo ofensivo do adversário, como porque usufruirá de várias transições perigosíssimas. Caso contrário, Messi, Tevez e o corredor central poderão ser um sarilho para a Alemanha que, neste cenário, só ganhará o jogo se tiver um dia francamente inspirado na frente.

Outras 'nuances' há, mas do lado Argentino. Como o risco em posse, como o desequilíbrio táctico – atenção ao lado direito! – ou como a forma como a sua defesa "afunda", abrindo o campo de ataque aos adversários. Estas 'nuances', porém, não levantam qualquer duvida porque Maradona nunca se importou minimamente com elas, e não é agora que o vai fazer. Ficará apenas por saber até que ponto os alemães as saberão aproveitar.

Paraguai – Espanha (Palpite: Espanha vence sem sofrer)
Depois do tropeção inicial e de algumas dificuldades na primeira hora frente a Portugal, parece-me agora muito complicado que a Espanha fique fora das meias finais. Salvo qualquer condicionante ou surpresa no jogo, creio, isso não acontecerá.

O Paraguai foi das selecções que menos fez para estar onde está. Ganhou apenas 1 jogo em todo o Mundial, empatou mesmo com a Nova Zelândia e precisou de ser feliz nos penaltis para ultrapassar o Japão. Frente à Espanha não veremos uma equipa tão inocente como foi o Chile, mas também não veremos grandes méritos defensivos. Mais quantidade do que qualidade é o que espero dos paraguaios em termos defensivos. Um jogo de sentido único e que não me parece que chegue, sequer, ao intervalo sem termos a Espanha em vantagem. Se assim for, dos paraguaios dependerá apenas a definição do “score” final, porque a Espanha irá dar prioridade ao controlo do jogo e da bola, muito mais do que arriscar o segundo golo.



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1.7.10

Diário de 'Soccer City' (#20)

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Quase 3 semanas depois, os 2 primeiros dias de pausa. Um período que, para além do descanso, pode servir também para reflectir sobre o que já vimos. Muito já tenho escrito sobre a competição, e outro tanto tem passado pela caixa de comentários. Ainda assim, porém, a prova chega agora a um ponto em que 3/4 das equipas já se viram afastadas do sonho, e quase 90% dos jogos já foram disputados. Ainda faltam todas as grandes decisões, é certo, mas há muitas conclusões que já podem ser tiradas. Aqui ficam algumas, resumidas em 3 tópicos...

Pouca qualidade colectiva
Comecei o Mundial a comentar a desilusão que fora o empate entre França e Uruguai e a projectar a dicotomia entre o potencial individual e a desorientação organizacional dos sul americanos. Na verdade, porém, não foram apenas as equipas sul americanas a mostrar carências ao nível da organização colectiva. Foi um pecado geralmente partilhado por todas as selecções e um choque para quem acaba de vir de uma época clubistica, onde a optimização dos processos colectivos não tem comparação possível. Provavelmente ninguém superará as catastróficas performances de França e Itália, mas o mal foi generalizado. De tal forma o foi, que me parece justo, um dia depois das criticas, referir que o nível colectivo de Portugal não foi, nem de perto, dos piores da competição. Apenas acho que se deve exigir bem mais do que aquilo que vimos.

Eclipse das estrelas
Por cá falamos muito de Ronaldo, mas nem Messi, nem Rooney, nem Ribery, nem Torres, nem Gerrard, nem Lampard têm estado ao melhor nível. Não será uma novidade, mas esta é uma competição ainda orfã de uma grande figura, e, vendo bem as coisas, é bem provável que as unidades mais importantes acabem por surgir de nomes pouco esperados. Ainda assim, creio, ainda vamos ter um dos “tubarões” a emergir na recta decisiva.

A importância do calendário
Competências e incompetências à parte, parece-me claro que o calendário faz mesmo muita diferença. O fiasco de candidatos como a França e Itália, abriu espaço a que Uruguai e Paraguai tivessem a vida facilitada no acesso às fases finais. Mas não foram casos únicos. O Gana, por exemplo, discutirá com os uruguaios um lugar no quarteto final, sem que alguma destas selecções tenha batido, sequer, um candidato ao título. O mesmo se pode dizer da Holanda, que tem o primeiro obstáculo realmente complicado apenas nos quartos de final. Caso inverso terá, por exemplo, a Alemanha. Depois do clássico com a Inglaterra, segue-se a Argentina e no caminho para a final ainda está um provável cruzamento com a Espanha. Tal como atrás, quero deixar uma nota sobre a selecção portuguesa e especular que com a sorte de outros, provavelmente chegaríamos bem mais longe. Mais uma vez, porém, as criticas têm muito mais a ver com uma exigência de qualidade do que com os resultados propriamente ditos.



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