22.6.10

Diário de 'Soccer City' (#12)

ver comentários...
Da tormenta à euforia, que não há tempo para perder em boas esperanças. Será assim que a maioria dos até aqui pessimistas encararão esta viragem do cabo da Selecção. Uma analogia óbvia, dada a simbologia do local, mas que faz também todo o sentido em relação ao estado de ânimo dos adeptos. A volatilidade emotiva do costume, portanto. Pessoalmente, não estou particularmente entusiasmado com o que se passou frente à Coreia. Agradado com o desfecho, é certo, mas não crente que este jogo tenha mostrado algo de significativamente diferente em termos qualitativos. Será tão errado alicerçar esperanças neste resultado, como o exagerado catastrofismo que assistimos até aqui. Como quase sempre, é algures no meio que está a virtude.

Confesso a minha surpresa com o que se assistiu desde o primeiro minuto. Esperava uma Coreia conservadora, “afundada” no campo e de risco mínimo. Algo se terá passado com o ego dos Coreanos que, tal como o resto do mundo, terão valorizado excessivamente o surpreendente placar tangencial frente ao Brasil. Só assim se explica o que se viu. A verdade é os Coreanos (como os neozelandeses, por exemplo) não são deste nível e só podem sobreviver com algum êxito se juntadas 2 condições. A primeira é a humildade própria. A segunda é a incompetência colectiva do adversário. Ora, os coreanos perderam a primeira e com isso foram incapazes de testar, sequer, a segunda condição. Confesso que para meu contentamento, diga-se.

A primeira parte de Portugal foi má. Não há outra palavra. Com os Coreanos estendidos no campo, a Portugal nem era preciso ser particularmente forte no pressing, como ontem acreditava. Bastava organização, claro, e dar prioridade ao critério na posse. Critério que levasse Portugal a chegar de forma apoiada e segura ao último terço e, aí sim, arriscar as roturas decisivas. Assim, Portugal poderia aproveitar as debilidades defensivas dos Coreanos no seu último reduto e, não menos importante, estar bem preparado para eventuais transições ataque-defesa. Seria um jogo de domínio total.

O que Portugal fez, porém, foi dar prioridade à velocidade sobre o critério. Decidiu mal e foi ainda traído pelas condições em que o jogo se disputou, acumulando erros técnicos invulgares em alguns jogadores. Com isto, Portugal permitiu um jogo de transições, onde os Coreanos conseguiam tirar partido da forma estendida como se apresentaram. Um desperdício, acredito eu, porque como o jogo estava parece-me que em vez de 1, Portugal poderia ter ido facilmente para o intervalo com mais 2 ou 3 golos na bagagem.

A verdade é que – e pensando bem – talvez até tenha sido bom o que se passou na primeira parte. Os remates dos coreanos e a sua desvantagem apenas tangencial terá reforçado a crença coreana na sua própria capacidade. Uma ilusão que se transformou um verdadeiro “kamikaze” táctico. Portugal, porque é uma selecção ao nível das melhores em termos de potencial individual, facilmente colheu os frutos e terá praticamente garantido um apuramento que se adivinhava complicado. Isto, claro, a acreditar que os coreanos tenham aprendido a lição do que se passou, porque se voltarem a repetir a “graça”, não é de excluir a hipótese de novo “capote” frente aos marfinenses. Esperemos que recuperem o juízo...

Chile e Suíça
Suíça e Chile era um embate curioso e interessante por juntar as 2 selecções secundárias (permitam-me a expressão) que mais competência apresentam, mas também por o conseguirem ser em filosofias radicalmente diferentes.

Os chilenos apelam à sua filosofia do gosto pela posse e pela bola. Procuram recuperá-la rapidamente e depois circular com velocidade. Procuram o domínio, para além do controlo. Tudo isto faz sentido pela qualidade técnica acima da média dos seus intérpretes, mas pessoalmente tenho de levantar algumas reticências em relação à sua capacidade de se impor perante adversários tecnicamente mais fortes. Como no futebol só há uma bola, não basta ao Chile ser forte com ela, é preciso também ser forte quando não a tem, e tenho dúvidas se o será. Depois, há ainda a consistência na zona decisiva. Jogar com uma equipa tão baixa e com centrais adaptados não me parece nada bom indício. Dúvidas que não poderiam ter melhor teste do que o adversário que se segue: a Espanha.

A Suíça, por seu lado, repetiu a estratégia frente à Espanha e, pode dizer-se, estava a resultar bem até à expulsão. Os suíços não tiveram mais bola, nem criaram grande coisa, é certo, mas também não era a isso que se propunham até aquela altura. A zona suíça consegue ser curta e alta como mais nenhuma o foi neste mundial. Não é perfeita, e comete até vários erros, mas a nível de selecções é difícil alguém fazer melhor. Isto, enquanto tiveram 11 jogadores, porque depois a Suíça reduziu aquilo que era uma zona defensiva a uma simples linha defensiva. Ao contrário do que acontecera na primeira parte, onde mantivera os chilenos a dezenas de metros da sua baliza, na segunda parte a Suíça acabou por “encostar” e, assim, não evitar o sufoco chileno. Não digo que façam tanto – seria preciso um novo e improvável alinhamento de estrelas – mas esta Suíça, se passar, tem capacidade para dar umas dores de cabeça ao bom estilo grego de 2004.

Acabou por ganhar o Chile, mas por uma margem curta para aquilo que produziu depois da expulsão. Um desperdício que, aliás, repetiu depois do embate com os hondurenhos e que lhe retira qualquer favoritismo à qualificação, apesar da liderança destacada que possuí. Enfim, será um final interessante de seguir num grupo onde só as Honduras destoam em termos de qualidade.



Ler tudo»

ler tudo >>

21.6.10

Diário de 'Soccer City' (#11)

ver comentários...
Mais um dia com motivos de sobra para reflectir. O “climax”, claro, teve lugar em Joanesburgo no jogo que culminou numa pequena prenda dos brasileiros para a Selecção portuguesa. No entanto, creio, não menos interessante é olhar para o que aconteceu algumas horas antes, entre Itália e Nova Zelândia. Será difícil alguém ainda se surpreender com o que quer que seja nesta prova, mas será interessante entender o porquê de tantos problemas dos campeões do mundo para bater uma formação tão fraca como os “All Whites”. Nem que seja porque deve servir de exemplo para o que Portugal terá pela frente, é por aí que quero começar.

Se ninguém duvida das diferenças de qualidade entre os jogadores de uns e outros, como se pode então explicar as dificuldades por que passaram os italianos? Bom, seguramente que há vários aspectos a abordar, mas há um que me parece especialmente importante para o sucesso neste tipo de embates: o pressing. Pode parecer estranho escolher concentrar-me no que a equipa faz sem bola, quando não pode haver tipo de jogo mais fácil para se ter a bola. O que acontece, porém, é que perante adversários dispostos a esperar lá atrás, o mero facto de se atacar apenas em organização já é uma importante vitória para quem defende. O caso da Nova Zelândia, aliás, é paradigmático. Uma equipa que defende mal, cometendo vários erros de abordagem individual e colectiva, e que ainda para mais nem tem uma estratégia especialmente conseguida em termos defensivos, “afundando-se” quase que instantaneamente na sua grande área. Ainda assim, atacar sempre contra tanta gente atrás da bola pode ser um sarilho.

É por isso que neste tipo de embates é fundamental forçar outro tipo de jogo e criar desconforto no adversário. Adiantar linhas e pressionar toda e qualquer saída de bola. Afinal, se a diferença está na qualidade técnica, é bom que seja por aí mesmo que se acentue as diferenças. Se o pressing for bem conseguido – como tem a obrigação de ser - provocará um dilema permanente do lado contrário. Ou arriscar pouco, jogando mal e entregando a bola, ou tentar fazê-lo em apoio mas assumindo o risco de uma perda comprometedora. Em qualquer dos casos, o perigo do erro estará sempre presente e o sufoco acontecerá desde o primeiro minuto. Isto foi (entre outras coisas, é certo) o que a Itália não fez frente à Nova Zelândia, e o que Portugal tem de fazer desde a primeira hora frente aos Coreanos. Mesmo que isso implique algum risco posicional. Isto é, também, o que as melhores equipas do mundo fazem perante os adversários mais modestos. Porque esperar para atacar, hoje, já pode não bastar.

Finalmente, o Brasil - Costa do Marfim. Sem surpresas, a Costa do Marfim voltou a repetir a receita e, sem surpresas também, o Brasil sentiu dificuldades idênticas a Portugal até o jogo se abrir. A diferença, é claro, esteve no detalhe e na qualidade com que individualmente os brasileiros se desembaraçaram do problema.

Acho curiosa a forma como Dunga “desenrascou” o seu modelo táctico. Quase que diria que ao não conseguir optimizar a equipa como um só bloco, resolveu decompo-la em 2. Definiu 6 jogadores defensivos e libertou 4 para o ataque. Quando dá para fazer tudo em conjunto, muito bem, mas quando não dá é preferível que a equipa se parta desta forma, do que arrisque tentar fazer tudo num só conjunto. Por um lado, os 6 de trás são suficientes para garantir equilíbrio defensivo em qualquer situação. Por outro, os 4 da frente têm talento de sobra para resolver um jogo em qualquer jogada, sobretudo se for em transição, que é como a equipa mais gosta de jogar. Em termos tácticos, não há nada de brilhante nisto, e só é possível ter sucesso com a qualidade dos recursos em causa e, já agora, com a natureza da própria competição. A verdade, tudo somado, é que não vejo equipa que possa estar tão perto da Espanha na lista de favoritos.

Ler tudo»

ler tudo >>

19.6.10

Diário de 'Soccer City' (#10)

ver comentários...
E o Mundial que não pára de surpreender! Depois da Espanha, depois da França, e no mesmo dia, Alemanha e Inglaterra dão passos atrás numa qualificação que à partida parecia adquirida. Dois casos distintos, é certo, mas em qualquer dos cenários estamos perante candidatos reais a disputar a fase terminal da competição. De qualquer forma, não deixa de ser interessante equacionar o que poderá ser desta competição se todos estes "pesos pesados" fossem já eliminados...

Difícil dizer quem está em piores condições, mas no que respeita ao futebol propriamente dito, parece-me evidente ser menos preocupante o caso alemão. A derrota foi altamente condicionada por uma série de factores e dá até para dizer que a Alemanha teve uma boa reacção a todas as adversidades. Apesar disso de nada lhe ter valido. De novo em destaque a boa movimentação com bola e a segurança da posse. De novo, também, a importância de 2 elementos centrais no jogo da equipa. Schweinsteiger e Ozil. O primeiro claramente como “pivot” de todo o jogo da equipa, oferecendo permanentes apoios à posse e jogando sempre seguro. Importante – muito importante! – também o seu papel na transição ataque-defesa. O segundo, Ozil, é de facto a fonte de criatividade e imprevisibilidade do jogo alemão. Não apenas pelo que faz com bola, mas pela movimentação que assume ao longo dos espaços. Não espanta que sem ele em campo a Alemanha não tenha marcado um único golo nos 2 jogos e, aliás, parece-me que as suas substituições coincidem com uma quebra na produtividade ofensiva da equipa.

Mas se a Alemanha perdeu, perdeu também porque jogou frente a uma das mais homogéneas selecções do torneio. Em termos individuais, isto é. Não consigo dar grande mérito colectivo à Sérvia. Pressionou alto, mas normalmente mal e com bola pouco mais fez do que recorrer a Zigic como plano concreto para chegar à frente. O que acontece é que a densidade da equipa na linha média e sua qualidade individual fazem da Sérvia uma equipa, primeiro difícil de bater pela capacidade de sofrimento que tem no último terço e, depois, capaz de criar desequilíbrios através das boas individualidades que tem em todos os sectores.

Finalmente, a Inglaterra. Uma desilusão a sua qualidade. Demasiados erros individuais, exibições desinspiradas e colectivamente um futebol pouco ligado, com muito espaço entre jogadores e sectores, que impede uma fluidez mais constante. Há ainda, para além de tudo isto, alguns aspectos tácticos que julgo merecer revisão. A ideia de Gerrard partir da esquerda não é má. É, aliás, na movimentação interior do 4 inglês que reside a maior fonte de desequilíbrios da equipa. Aí e no pressing que Capello fez questão em implementar à sua equipa. Mas, depois, há alguma distância entre sectores, com a equipa a preferir baixar a sua linha recuada a mantê-la alta para aproximar o conjunto. Não se vê a razão de ter de actuar com 2 avançados quando, claramente, Heskey não tem andamento para os objectivos que estão propostos ao colectivo. Mais, parece muito mais útil um modelo com um avançado e que potencie os movimentos de Lampard e Gerrard na zona de finalização do que este, que distancia sectores e não tira qualquer partido das duas unidades da frente.

Dizia-me alguém que com Capello eles vão fazer um mundial “the italian way”. Não convencer no inicio, sofrer, e depois embalar para uma prestação em crescendo. Bom, as duas primeiras partes deste “plano” estão confirmadas...



Ler tudo»

ler tudo >>

17.6.10

Diário de 'Soccer City' (#9)

ver comentários...
Chocante! Não pelo resultado, porque se um dia antes havíamos visto a Espanha cair perante a Suíça, não poderia ser agora a derrota de uma França moribunda a fazer-nos abrir a boca de espanto. O que realmente choca é a forma como tudo aconteceu. Os méritos do México, ninguém os tira, e já irei a eles, mas o que se viu do lado francês superou todas as marcas. A substituição de Anelka ao intervalo, a exibição em perda progressiva, a ausência de Henry e Gourcuff e, sobretudo, a enorme passividade de todos perante um cenário de tamanho descalabro. Não vou mais além do que isto, porque seria entrar num campo meramente especulativo, mas diria que há algo de muito estranho por trás desta tremenda hecatombe gaulesa.

Tacticamente, diria que a exibição francesa prova, de novo, como o futebol vai muito para além de sistemas e opções individuais. Não houve nada de errado com o 4-2-3-1 de Domenech, e as suas escolhas, embora discutíveis, não chegam, nem um pouco, para explicar a pobreza a que se assistiu. O que faltou – e de novo – à França foi qualidade em tudo aquilo que tentou fazer. Com bola, jogava no improviso individual e não tinha, nem qualidade de movimentos, nem sequer um plano para chegar ao seu destino. Sem bola, tentou pressionar alto, mas não conseguia parar o primeiro passe. Abriu um espaço entre linhas gritante e nem sequer a sua linha mais recuada se salvou minimamente, mantendo um espaço enorme entre os seus elementos e falhando frequentemente no aproveitamento do fora do jogo. É para mim um tremendo enigma como uma equipa – com tanto potencial – se pode apresentar desta forma depois de 1 mês de preparação...

Mais interessante, e seguramente mais animador, é falar do México. Defensivamente é uma equipa que não merece grandes elogios. Não tão má quanto o Uruguai frente aos mesmos gauleses, mas mesmo assim sem uma grande qualidade naquilo que fez sem bola. Mais, o México foi até mais inocente na forma como consentiu algumas perdas de bola que resultaram em transições de perigo potencial (raramente concretizado, diga-se).

Outra coisa é falar da grande nuance táctica do jogo: a forma como o México estrategicamente preparou as suas ofensivas. Em vez de utilizar Franco como unidade mais avançada, e Vela e Giovani nas alas, Aguirre optou por baixar o ponta de lança e torná-lo num “pivot” para todas as situações ofensivas. Quer em construção, quer em transição. E funcionou em pleno porque, primeiro, a França abriu um espaço gigantesco entre a linha defensiva e o primeiro médio e, depois, porque Domenech devia estar a pensar na sua longa viagem de regresso e não foi capaz de corrigir uma situação tão flagrante e repetido ao longo do jogo. Com isto, não só a França passou por dissabores para controlar os movimentos diagonais de Vela e Giovani nas costas do “pivot”, como ficou impedida de se manter alta no campo e pressionar. Sempre que a bola entrava em Franco, era ver os franceses correr para trás, tentando remendar algo que normalmente devia ser prevenido.

O debate sobre a paupérrima selecção gaulesa – em termos relativos, a pior do Mundial – deverá ficar por aqui, e aproveito o último parágrafo para um pequeno apontamento sobre um tema paralelo nesta competição: as transmissões televisivas. Por estar ausente de Portugal, tenho acompanhado as transmissões noutros canais, entre os quais a BBC. É a esta estação britânica que quero prestar a minha homenagem. A ausência de anúncios é aproveitada de uma forma fantástica para os espectadores. Ao intervalo, por exemplo, figuras como Seedorf ou Shearer estão a fazer a sua análise do jogo, umas escassas de dezenas de segundos após o apito do árbitro. O mais interessante, porém, é o facto de o poderem fazer já com o apoio de imagens recolhidas e tratadas sobre um jogo que apenas acabara de terminar. É caso para dizer que na BBC cada jogo vale bem mais do que os 90 minutos.



Ler tudo»

ler tudo >>

Diário de 'Soccer City' (#8)

ver comentários...
Ontem tinha deixado a opinião de que defrontar uma estratégia como aquela que a Costa do Marfim montou frente a Portugal seria um bico de obra para qualquer formação Mundial. Ora, nem de propósito, 24 horas depois tivemos um bom exemplo disso mesmo. Não que o jogo da selecção espanhola fosse idêntico ou, mais importante ainda, que se possa comparar a qualidade dos espanhóis com aquela que a selecção portuguesa apresenta na actualidade. As semelhanças estão, isso sim, naquilo que fizeram Suíça e Costa do Marfim, na sua proposta de jogo e numa abordagem que parece ter pegado moda neste Mundial. É disso que me parece mais interessante falar.

A ideia, em si mesmo, não é muito complicada de entender. Abdicar do pressing alto, baixar os avançados para trás do meio campo e subir a linha mais atrasada um bom par de metros acima da grande área. Assim, se cria a zona densa onde é difícil entrar sem ser de imediato apertado, onde se proporcionarão recuperações capazes de iniciar transições que tirem partido do espaço. Assim, e sempre dentro dessa zona, é possível ter uma presença pressionante a toda a largura do terreno.

Entre um caso e outro, são evidentes as diferenças do jogo português para o espanhol. Os portugueses, simplesmente procuravam um primeiro passe vertical, mas raramente dele conseguiam passar. Ou o receptor era de imediato apertado, ou a linha de passe seguinte não surgia a tempo de evitar o sufoco marfinense. No caso espanhol, a bola circulou com muito mais velocidade, com sucessivos apoios a serem criados e com uma velocidade de circulação que impedia que os defensores conseguissem estar permanente em cima do receptor.

A diferença passa, obviamente, pela qualidade individual, mas não só. Um dos requisitos para que se tenha uma boa circulação é conseguir criar também zonas de densidade ofensiva. Ora, isto parece contrariar o principio do “campo grande” que vem nos livros. Parece, e contraria mesmo, porque “campo grande” só tem utilidade quando a defesa é arrastada, porque quando a defesa define ela própria a zona em que quer actuar não serve de muito o “campo grande”. Talvez aqui resida uma primeira boa reflexão teórica, mas há mais...

Mas o que fez então de errado a Espanha? Não foi seguramente a qualidade de circulação. O que me parece não ter sido conseguido pelos espanhóis foi a capacidade de fazer “esticar” a zona suíça. Ou seja, obrigar a sua linha mais recuada a entrar dentro da área. Para isso, creio, o melhor caminho residiria em ter alguma profundidade nos flancos. Calma! Não convém confundir esta ideia com o eterno sofisma da necessidade de ter extremos a tentar permanentemente ganhar a linha para cruzar. Isso seria um “bónus” para a robusta defesa suíça.

Passo então a explicar... Para fazer a linha defensiva baixar e abrir espaços interiores, o melhor caminho é de facto pelas alas. É nos corredores que há menos congestionamento e nenhuma defesa se prepara especificamente para evitar a profundidade nos flancos, mas apenas para a controlar. Ora, se a bola passar a longitude da grande área, toda a defesa terá de recuar, abrindo espaços interiores. Se esta vier de novo para trás, ela terá de reajustar e de novo subir. É neste “vai e vem” que se criam as oportunidades de penetração para quem ataca. O exemplo disso está na jogada que terminou com a ocasião de Piqué, a melhor do primeiro tempo. O problema dos espanhóis, portanto, terá sido a falta de profundidade nos flancos na primeira parte, com a bola a circular, e bem, lateralmente, mas sem obrigar os suíços a “esticar” a sua zona. E assim praticamente voaram 45 minutos.

Uma nota final, porém. Desengane-se quem tirar muitas conclusões destes primeiros jogos. Ninguém ganhou, nem perdeu nada, e ninguém está significativamente mais perto nem mais longe de o fazer.



Ler tudo»

ler tudo >>

15.6.10

Diário de 'Soccer City' (#7)

ver comentários...
Não foram precisos muitos minutos para perceber o que seria do jogo. A Costa do Marfim, grande esperança africana no Mundial daquele Continente, resolveu jogar “à europeia”. E fez bem. A partir do momento em que a estratégia “gélida” dos marfinenses entrou em campo, seria sempre o primeiro golo o ditador do jogo. Pode dizer-se que Eriksson fez emergir o pior do jogo da Selecção, o maior dos seus receios. Portugal, perante este cenário, não foi nem melhor nem pior do que as expectativas que já se poderiam ter. Uma pena. Duas coisas me parecem mais claras, depois dos 90 minutos: (1) Está tudo em aberto ; (2) Prevê-se um grupo muito difícil para todos.

Baixar a primeira a linha e subir a última, para assim criar uma zona de grande densidade, onde Portugal tivesse pouco espaço para jogar. Duas coisas seriam preciso para que Portugal contornasse o obstáculo. Ou pelo menos uma delas. Uma, seria ser capaz de ter uma posse dinâmica e segura, que evitasse as perigosíssimas perdas em construção e que fosse capaz de, lentamente, ir esburacando o “muro” marfinense. Mas esse era o principal problema da Selecção: jogar contra equipas fechadas, que dessem pouco espaço para a explosão. Sempre foi, e não foi – para novo desapontamento – neste jogo que ele deu sinais de desaparecer.

A segunda possibilidade passava por explorar o outro lado do jogo, aquele que começou a ter lugar com mais frequência após a metade da primeira parte. Porque os marfinenses também jogaram, também eles assumiram boa parte do jogo. Restava a Portugal ser capaz de fazer a Costa do Marfim de provar do seu próprio veneno. Ser capaz de pressionar, provocar perdas nos primeiros passes da construção e sair depois em transição. No fundo, ser capaz de jogar com o espaço quando ele existiu. Mas também não foi capaz de o fazer, e é por isso que o nulo, bem vistas as coisas não foi assim tão mau. Portugal não fez por merecer mais e não fica propriamente em pior condição do que quando entrou para o jogo.

Convém situar as coisas. Portugal não fez um grande jogo, e mesmo tendo-se deparado com o seu grande problema colectivo, creio que há exibições individuais às quais se exige mais. Mais qualidade e mais simplicidade, sobretudo. No entanto, a Costa do Marfim que tivemos pela frente será tão forte quanto a maioria dos adversários que poderemos encontrar. O problema de muitas Selecções, especialmente fora da Europa, é não terem um nível de organização que lhes possibilite potenciar melhor as suas hipóteses em cada jogo. Porque o nível técnico, esse, está ao nível dos melhores. E esse vinha sendo o problema, por exemplo, da Costa do Marfim. O facto é que dentro desta proposta de jogo, qualquer Selecção encontraria e encontrará grandes problemas. Isto faz, na minha opinião da Costa do Marfim um candidato para levar a sério, assim consiga chegar aos oitavos.

Enfim, um boa notícia, para já, é que o segundo jogo de Portugal se joga uma noite depois do Brasil-Costa do Marfim. Dará para perceber a importância real do jogo com a Coreia. Por exemplo, se tivermos um empate na noite de Joanesburgo, Portugal saberá que precisará de vencer os Coreanos por 2 golos para entrar em vantagem no último jogo. Para já, o que parece claro é que teremos um apuramento disputado até à última e que, depois da magra vitória canarinha frente aos coreanos, ninguém sai a rir da primeira jornada deste verdadeiro “grupo da morte”.

Ler tudo»

ler tudo >>

Diário de 'Soccer City' (#6)

ver comentários...
Ao quarto dia, mais 2 candidatos. Holanda e Itália, cada uma das equipas encontrou a sua própria forma de não entusiasmar. Dos holandeses, espera-se que criem ilusão a abrir mas duvida-se do que possam fazer na hora das decisões. Dos italianos, o contrário. Um arranque aos soluços, mas uma presença temível na fase decisiva. Para já ambos estão a cumprir com o papel que lhes parecia ser destinado, mas duvido que a candidatura de qualquer uma destas selecções tenha saído revista em alta, seja por quem for.

Sobre os holandeses, ninguém duvida da sua potencialidade criativa. Mesmo que neste jogo a dinâmica estivesse abaixo do esperado. Essa é a força da “laranja”. É curioso, porém, verificar como a escola holandesa, que não se cansa de produzir talentos ofensivos, falha em conseguir o mesmo patamar para a metade traseira da sua equipa. A verdade é que o comportamento defensivo dos defesas holandeses não é o melhor. Frequentemente arriscam demais ou têm abordagens erradas. Isso verifica-se a todos os níveis e o jogo frente à Dinamarca acabou por dar alguns exemplos, ainda que escassos, disso mesmo. E é aí que reside o problema desta equipa.

O grupo é tão fácil que só uma Itália muito fraca ficará pelo caminho. Certo. Do que se viu, porém, fica ideia que para chegar a algum lugar perto da final de 2006, a Itália terá de evoluir muito. Frente a um Paraguai que foi um digno opositor durante um bom período de tempo, os “azzurri” mostraram-se incapazes de praticar um futebol fluído e dominador. Pareceram apenas aptos a aproveitar os momentos em que lhes foi permitido verticalizar o jogo. Quando lhes foi criado problemas de pressing, quando foi preciso mostrar qualidade para evitar a perda e empurrar o Paraguai sistematicamente para trás, aí, a Itália já não foi capaz de responder. Acabou por se ver forçada a dividir o jogo e a entrar num jogo mais físico. Pode ser que Pirlo seja a chave para uma boa parte do problema, mas... será suficiente?



Ler tudo»

ler tudo >>

14.6.10

Diário de 'Soccer City' (#5)

ver comentários...
E ao terceiro dia, qualidade. Não qualidade individual, porque essa já tivéramos em vários momentos do Mundial. Qualidade colectiva. A Alemanha aproveitou a estreia para marcar terreno, para dizer que embora não seja a potência de outros tempos e embora não tenha a qualidade individual de alguns, está em África para defender a sua História. Não foi só a primeira goleada da prova, foi também a primeira exibição verdadeiramente consistente e digna de um sério candidato.

Não há muito de errado no que fez a Austrália se tivermos em conta o que já foi visto nesta prova. Não pressionou alto, é certo, mas definiu uma zona densa com o adiantamento da linha defensiva e reduziu muitíssimo os espaços entre linhas. O pior, claro, foi o comportamento da linha defensiva no controlo do espaço que havia nas costas. Mais um exemplo de quão importante pode ser a movimentação colectiva da linha mais recuada.

A verdade, porém, é que há mais mérito germânico do que demérito dos “Aussies”. Uma equipa organizada, paciente em posse, sempre procurando o momento e a movimentação certa para penetrar. Depois – e isto é importante – esteve também preparada para pressionar no momento da perda de bola, impedindo a Austrália de sair em transição e encurralando o jogo no meio campo contrário. Tudo coisas boas. Para futuro, porém, fica a reserva do uso de apenas 2 médios na zona central. Será difícil controlar o espaço entre linhas e manter pleno controlo do corredor central com apenas 2 jogadores. Uma opção de longo prazo, mas que, com algumas fragilidades individuais, será o calcanhar de Aquiles da equipa.

Individualmente, há 2 notas que não podem ser evitadas. Primeiro Ozil, para mim o melhor em campo. Fantástica exibição a jogar como falso avançado. Grande capacidade de movimentação, quer na profundidade, quer entre linhas e óptima qualidade, quer na execução quer na decisão. Aos 21 anos, podemos estar perante a grande revelação do Mundial. Depois Schweinsteiger. Ainda é jovem mas durante algum tempo pareceu perdido no que respeita ao seu papel no campo. O facto é que Schweinsteiger tem tudo para ser um jogador de construção, um médio que executa bem e seguro e que tem capacidade para crescer na leitura do jogo. É aí que se tem afirmado e é aí que poderá rapidamente tornar-se no sucessor de Ballack como líder da “Mannschaft”.

Ler tudo»

ler tudo >>

AddThis