23.3.10

A evolução do lateral Coentrão

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Não serve este destaque para reaçar uma exibição fulgurante. Aliás, houve poucas na final do Algarve. Não serve, tão pouco, para defender a ideia de que Coentrão está na fase final do seu processo de adaptação à lateral. Não me parece. Serve, isso sim, para fazer um ponto de situação sobre a evolução do jogador na função. Há algum tempo que lancei a ideia de que a adaptação a lateral poderia ser uma óptima notícia para a carreira do jogador e que é essa a via mais curta para um caminho provável até à elite do futebol mundial. Um cenário que mantenho. Para já, fica aqui um pequeno balanço desta interessante aventura do jogador.

Perfil ajustado e aposta forte de Jesus
Sobre o perfil, já aqui abordei o tema e a ideia. Para conseguir um bom lateral, nada melhor do que adaptar o extremo certo. Coentrão não será um encaixe perfeito, mas tem várias características que fazem dele um óptimo candidato. Para além dos evidentes aspectos técnicos, a agressividade e atitude são aqueles que mais destaco para acreditar no sucesso da adaptação.

Mas, se Coentrão tem boas características para ser uma adaptação de sucesso, houve outros que também as tiveram. Para muitos desses terá, no entanto, faltado o apoio e a visão de um líder no momento certo. Isso também não deverá ser reclamação possível para o ex-Rio Ave. Jesus parece especialmente empenhado em fazer o jogador evoluir. Para além da aposta, afirmada até publicamente, há ainda os indícios que vai dando desde o banco. Entre toda a agitação que o caracteriza, Jesus destina muitas das suas indicações precisamente para Coentrão, deixando a ideia de que aposta forte na evolução do jogador e, em concreto, nesta sua adaptação.

Matérias apreendidas: transição e pressão
É uma das funções que vulgarmente escapam na apreciação geral que é feita aos laterais, mas que tem uma importância fulcral no sucesso táctico das equipas. No momento da perda da bola, o lateral é normalmente dos jogadores mais importantes para travar pela raiz o ataque adversário. Para isso, é importante grande agressividade e reactividade. Coentrão está completamente ciente desta importância e não raras vezes o vemos a ganhar bolas ou cortar iniciativas contrárias neste momento táctico do jogo. Já agora, nesta partida em concreto, há um lance que resulta numa falta dura do lateral sobre Fernando, já na parte final da partida. Não é por acaso. O Porto saía em transição, com o Benfica desequilibrado. Coentrão não estava em condições de impedir legalmente a jogada, mas fez questão de o fazer com o recurso à falta. Não foi um capricho ou um excesso do jogador. São as indicações claras que leva para estes momentos, e Coentrão percebeu bem a sua importância.

Outro aspecto defensivo, onde Coentrão revela já um bom comportamento, é na pressão (em organização). Também neste jogo há vários exemplos em que a posse portista não conseguiu sair pela direita. Naturalmente que a pressão é colectiva, mas da parte de Coentrão há a percepção da importância de ser rápido e agressivo nesta acção, pressionando o jogador da sua zona logo no momento da recepção.

Finalmente, falar de outro aspecto fundamental e sem o qual não poderia jogar. Ele ou qualquer outro defensor. O fora de jogo. É parte vital no processo defensivo encarnado e obviamente não admite falhas individuais. Coentrão deixa a desejar em muitos aspectos do posicionamento, mas o fora de jogo é algo em que cumpre já com bastante eficácia.

Caminho a percorrer: Posicionamento e mentalidade
Se Coentrão tem aspectos onde já evoluiu bastante, há outros que o distanciam ainda de um nível de topo. Primeiro falar do posicionamento defensivo. Quando tem de pressionar e jogar em antecipação, Coentrão cumpre muito perto da plenitude. Quando se lhe exige que defenda mais atrás e que seja mais posicional, a coisa complica-se. Este problema que resulta de uma óbvia e expectável falta de cultura defensiva, extende-se também ao comportamento nos duelos individuais onde nem sempre prepara convenientemente o desarme. Já agora, sobre este aspecto, um pormenor que tem facilitado e muito a vida a Coentrão é ter ao seu lado David Luiz. O fantástico central sente-se tão confortável para sair fora da sua zona, que por vezes parece nem precisar de um lateral ao seu lado. Uma importante “rede” para o vilacondense!
Outro aspecto onde também falha é na mentalidade que assume em certos momentos. Basicamente, Coentrão precisa de pensar e decidir como um defesa e isso nem sempre acontece. Por vezes assume riscos impróprios e não se previne convenientemente, quer com bola, quer sem ela.

Estes problemas são apenas normais para um jogador que se habituou a outro tipo de instintos e responsabilidades. O caminho pode não ser imediato, mas é seguramente viável. Tenha Coentrão a vontade e o acompanhamento certos e por certo corrigirá grande parte dos problemas que ainda evidencia.

Por fim, reforço mais uma vez a ideia: se este caminho for continuado, Coentrão pressistirá por muitos e bons anos como protagonista ao mais alto nível. Caso contrário, a sua carreira não é mais do que um expressivo ponto de interrogação.



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22.3.10

Benfica - Porto: Tendências acentuadas. Destinos confirmados.

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O que fazer? Mudar o critério e escolher o melhor, ou manter-se coerente a ele até na final? Uma questão de opção que seguramente terá prós e contras de ambos lados. O que ninguém poderia prever, porém, era o impacto de tal decisão na definição do jogo. Jesus abdicou de Moreira e fez questão de ter Quim. Jesualdo manteve-se com Nuno. O jogo foi tão equilibrado que se tornou desinteressante. Não sem antes, porém, que se tivesse decidido. Primeiro, pelo tal rendimento das opções para as balizas, e, depois, por um rasgo de eficácia encarnado. Uma sentença de morte para um Porto deprimido, e uma prenda que o Benfica soube agradecer e valorizar. E assim, sem grande história, se definiram vencedor e vencido de um final que serviu para acentuar tendências.

Benfica - vencer pode ser tão fácil
O primeiro título! É essa a grande – e praticamente única – consequência desta final para o fantástico Benfica, versão 09/10. “Ainda não ganhou nada” foi uma frase amplamente repetida, quer por adeptos, adversários ou mesmo pelos próprios jogadores e treinadores da equipa. Pois bem, agora já ganhou alguma coisa e, bem vistas as coisas, acaba por fazê-lo até com grande expressividade. Quem consultar os registos da competição dentro de alguns anos não poderá deixar de notar a clareza dos números com que os encarnados ultrapassaram os rivais, Sporting e Porto. Curiosamente, e talvez em contra ciclo com uma tendência nas restantes competições, o resultado foi mesmo mais generoso do que as exibições. Não que o Benfica não tivesse merecido a vitória. O que se passa é que, tal como na meia final, o Benfica viu o jogo encaminhar-se facilmente para o destino que lhe interessava, nunca lhe sendo exigido um nível dentro do que já mostrou noutros jogos e noutras competições.

Eram esperadas alterações substanciais. Quais exactamente, creio que nem o próprio Jesus teria claro no planeamento, dependendo da recuperação de alguns jogadores depois do jogo de Quinta Feira. A grande nota no que se viu vai, claro, para a colocação de Aimar numa posição mais ofensiva. Na realidade, o posicionamento do argentino não foi exactamente o de um avançado. Isto implicou, por um lado, um Benfica um pouco mais baixo em temos de primeira fase de pressão e, por outro, maior presença na zona central, retirando amplitude e exigência à missão do próprio Carlos Martins. Não me parece mais do que uma opção circunstancial mas... poderá esta ser uma versão a experimentar frente ao Liverpool?

Os tiros no pé do Porto e a sua própria eficácia ajudaram o Benfica a conseguir uma vitória clara sem ter, sequer, de desfazer o equilíbrio. Ainda assim é importante notar também a facilidade com que o Benfica controlou o jogo e segurou a vitória. Prova – mais uma – da qualidade do modelo e, também, da confiança que se respira entre os jogadores. Mais um bom tónico para as decisões que se avizinham...

Porto - incapaz de reagir
Apesar das diferenças qualitativas, do momento e das ausências do Porto, pensei que esta final pudesse mostrar-nos um Porto de orgulho ferido. Na realidade, o jogo começou por confirmar esta ideia mas, se era possível um Porto a surpreender, tudo se tornaria muito complicado ao primeiro revés. Consequências de um momento anímico altamente vulnerável a recaídas. E assim foi. Um jogo infeliz para o Porto que, depois de alguns bons indícios, se viu incapacitado de qualquer reacção anímica às contrariedades que encontrou, acabando simplesmente por sucumbir.

Importa, em tudo isto, falar de novo do aspecto individual. Já no rescaldo da goleada de Londres havia falado da apetência dos jogadores portistas para errar clamorosamente em jogos decisivos. Não acontece sempre, é certo, mas a frequência com que se assiste a fenómenos como o que protagonizou Nuno é assustadora.

Para além do jogo – pouco interessante – importa falar da questão táctica. Com as lesões dos extremos, iremos assistir a um Porto em mutação táctica na recta final da época. A ideia será recuperar uma estrutura que Jesualdo reproduziu pontualmente no passado. Ou seja, utilizar um falso extremo à direita e dar maior liberdade a um dos médios para se aproximar do avançado. Um formato que permite jogar com apenas 1 extremo de raiz. Veremos como a equipa, e alguns jogadores em particular, evoluem neste novo figurino. Para já os resultados são pouco conclusivos.



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19.3.10

Marselha - Benfica: Na rota da História

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Já o venho referindo, mas faço questão de o reforçar nesta hora. Entre todas as competições que o Benfica disputa nesta temporada, só uma lhe dará direito a um lugar de destaque na História. A Liga Europa. Numa semana difícil e em que, verdadeiramente, não privilegiou esta competição, o Benfica sai de forma épica do Velodrome. O que me parece, e clarifico este ponto antes de abordar com mais detalhe a partida, é que se estiver garantida margem de erro no campeonato, a Liga Europa merece ser tratada como a prova prioritária. Porque, como digo, só assim se poderá fazer, desta, uma época especial na História e, também, porque dificilmente alguma equipa chegará à final se não der prioridade a esta prova.

Em crescendo
O Benfica pode ter sido a equipa que esteve mais próximo do golo durante todo o jogo, mas não da mesma forma. Ou seja, na primeira parte, sobretudo durante os primeiros 30 minutos, foi o Marselha quem mais vantagem tirou do jogo. Criou dificuldades à construção do Benfica e manteve-se muito pressionante, o que lhe valeu algum ascendente. Valeu ao Benfica algum desacerto francês no último terço e, também, um grande jogo da sua linha mais recuada.

Apesar destas dificuldades, diga-se, o Benfica realizou sempre um jogo de grande intensidade e concentração, e isso acabou por provar-se decisivo com o passar do tempo. O Marselha foi perdendo capacidade e, passados alguns minutos da segunda parte, o Benfica dominava já completamente as operações. A tal intensidade foi determinante na velocidade com que a equipa e cada jogador reagia às incidências do jogo (aquilo que no passado chamei de qualidade táctica), por contraponto com um Marselha progressivamente mais baixo, menos pressionante e mais errático. Por tudo isto, o 1-0 foi, na altura, uma enorme injustiça.

Podia o golo de Niang ter virado a tendência do jogo e, eventualmente, ditado o destino da eliminatória. Mas não. Não, porque, por um lado o Benfica manteve-se em pleno no jogo, e porque - e isto é incontornável – apareceu o rasgo de felicidade que até aí tinha faltado, impedindo uma eventual quebra anímica na recta final. Com Aimar e com a injecção de confiança, trazida pelo pontapé de Maxi, o que se seguiu foi um verdadeiro assalto ao golo por parte do Benfica. Consequência de uma enorme diferença organizacional entre as 2 equipas. Na verdade, podia não ter acontecido, mas o 1-2 apenas evitou um prolongamento que seria um contraste com as indicações que o jogo ia dando.

O melhor Benfica?
A vitória, pela dificuldade e forma como foi conseguida, pode ser associada a uma das melhores exibições da época. Na verdade, não estou de acordo com essa ideia. Mesmo levando em conta a estupenda recta final. Que o Benfica é uma equipa de enorme qualidade, mesmo à escala europeia, é algo que já havia concluído desde a pré temporada. Mas também já há muito que me parece claro que esta equipa precisa de alguns requisitos para estar no seu pleno. Primeiro, a intensidade mental dos jogadores que lhes permite um melhor desempenho técnico e táctico. Isto, como defendi acima, não faltou em Marselha. O que faltou foi a presença em pleno de algumas individualidades chave. Em particular, claro, Aimar. Já tantas vezes me referi a este ponto da função 10 que penso ser redundante repetir a ideia.

Assim, concluo apenas dizendo que a entrada do argentino teve um impacto fantástico, para mais num jogo em que Saviola não esteve tão bem. Se em vez de ter jogado – e mal – na Madeira, tivesse sido poupado para esta decisão, talvez não tivesse sido preciso esperar por tão tardia resolução. Sem querer voltar ao inicio, talvez esteja aqui um ponto a rever para o que resta da caminhada europeia.



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Sporting - Atl.Madrid: Demasiado condicionado

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O futebol teima em brindar-nos com algumas ironias. Mais uma aconteceu com o Sporting. A Champions havia sido comprometida por um empate caseiro a 2. Meses mais tarde e da mesma maneira, o Sporting sai da Liga Europa. Em ambos os casos, a equipa recolheu sob aplausos e a ironia está, claro, no contraste entre esse sentimento e tudo aquilo que se passou entretanto. Tudo isto deve servir de reflexão para um futuro que se torna agora em presente antecipado, depois de um jogo onde as condicionantes acabaram por falar mais alto e cortaram, pela raiz, um sonho que, noutras circunstâncias, até teria pernas para andar.

Pobre Carvalhal...
Se para o Sporting este jogo era importante, para Carvalhal, parecia mais ainda. E que pouca sorte teve o treinador. A sua equipa parecia preparada, contra todos os prognósticos, para fazer carreira na prova. Eis que, como se não bastassem todas as baixas, o treinador tem ainda de se bater com algumas surpresas de última hora. Resultado? Um esvaziamento de confiança materializada em erros comprometedores, logo à entrada do jogo.

Na verdade, o destino ainda podia ter sido outro. Bastava um pequeno rasgo de eficácia no melhor período da equipa – a segunda parte. Não aconteceu e, também se deve dizer, a equipa não foi consistente na qualidade com que desafiou a linha defensiva ‘colchonera’. E refiro-me tão claramente à linha defensiva porque, para além das individualidades, o Atlético pareceu fazer depender tudo da capacidade do seu quarteto para jogar alto e manter o Sporting longe da sua baliza.

É pena, porque, sem tantas baixas e apenas com esta competição no horizonte, o Sporting poderia mesmo sonhar por um feito na prova.



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18.3.10

1962: O dia em que Garrincha deu show e... adoptou um cão!

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4 anos volvidos, e a quase meio mundo de distância... o mesmo resultado. O Brasil confirmava no Chile ser a força dominadora do futebol mundial, repetindo, em 1962, o título conquistado na Suécia. O poderio “canarinho” foi de tal forma evidente que ninguém pareceu dar conta da perda do “Rei”, logo ao 2º jogo, frente à Checoslováquia. Sem Pelé o espaço mediático estava aberto para outra figura: Garrincha. De todas as suas exibições, provavelmente a mais memorável terá sido esta, frente à Inglaterra, nos quartos de final.

A equipa brasileira era basicamente a mesma da Suécia. Sem Pelé, abriu-se espaço para que o também jovem e talentoso Amarildo se juntasse à frente de ataque, dando mais peso à representatividade do Botafogo. Nos 4 da frente, para além de Amarildo, também os extremos Garrincha e Zagallo faziam parte da equipa carioca, assim como os experientes Nilton Santos e Didi, que alinhavam mais atrás. Sobre Didi, aliás, vale a pena falar um pouco mais. Depois de ter sido a força da equipa em 1958, apareceu igualmente importante no Chile, enchendo o campo a partir da zona central. Didi estava agora com 32 anos e a seguir à prova iria deixar a Selecção.

O jogo não começou fácil para o Brasil. A Inglaterra tinha algumas figuras emergentes como Bobby Charlton, Bobby Moore ou Jimmy Greaves, e deu boa réplica aos campeões mundiais. A força das individualidades brasileiras viria, no entanto, a provar-se demasiado forte para os ingleses e uma figura em particular deu nas vistas: Garrincha.

Se havia jogador que o mundo inteiro conhecia, era ele. As suas fintas eram temidas e, por isso, as equipas preparavam-se para elas. Garrincha, por seu lado, parecia obcecado pelo seu próprio potencial. Invariavelmente optava pela iniciativa individual e pelo seu arranque estonteante. A verdade, porém, é que várias vezes se tornava inconsequente. Garrincha podia ter um drible fabuloso mas, digo eu, a sua fama só pode ficar para a eternidade devido a outros predicados. De facto, o extremo do Botafogo apareceu em 1962 bem mais versátil do que 4 anos antes. A sua capacidade goleadora veio ao de cima e, para além dos dribles, Garrincha fez golos de cabeça e de fora da área. Frente à Inglaterra abriu o activo de canto e, depois, fechou-o com um espantoso remate ao ângulo. Pelo meio, claro, muitos dribles...

Depois do 3-1 à Inglaterra, o Brasil seguiu para o palco principal. Santiago e o estádio Nacional. O adversário foi o Chile e no estádio não cabia, seguramente, mais 1 pessoa que fosse. Garrincha, para a desgraça local, aplicou a mesma fórmula. 1 golo de canto e outro, fantástico, de fora da área. O resultado, desta vez, foi de 4-2 e importa dizer que o 7 foi expulso já na etapa final. Os tempos eram outros e o vermelho não o impediu de alinhar na final frente à Checoslováquia.

Para terminar, uma referência a um acontecimento destes quartos de final. Ainda na primeira parte, um pequeno cão invadiu o terreno e ninguém o conseguia agarrar. Garricha tentou primeiro, mas foi Greaves que, de joelhos, conseguiu parar o pequeno animal. Acontece que o sucesso do jogador inglês teve "recompensa". O cão urinou em cima de Greaves e, segundo consta, caiu nas graças do próprio Garrincha que o terá adoptado no final do jogo.




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17.3.10

O "golpe" de Mourinho e... a exibição de Sneijder!

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Ora aí está! Quando tudo apontava para uma segunda mão de grande dificuldade para o Inter, eis que Mourinho consegue fazer a sua equipa corresponder, finalmente, às expectativas que pessoalmente tinha no arranque da eliminatória. Não que a exibição tenha sido fantástica em todos os pontos, mas porque teve, sobretudo, grande parte dos ingredientes que fazem do treinador português um caso raro no futebol mundial. Maturidade, carácter e astúcia. Preparando-se melhor: foi assim que o Inter surpreendeu Stamford Bridge. Tudo somado, não fica consumado nenhum feito histórico, naturalmente, mas face ao contexto actual do futebol italiano, esta é mesmo uma vitória de grande importância. Um marco de credibilidade na passagem do “Special One” por terras transalpinas.

Eto’o e o sistema
Começando pela disposição posicional, revelou-se bastante acertada a utilização de Pandev e Eto’o como extremos. Sobretudo o camaronês. Na primeira mão havia referido que Eto’o parecia entristecido pela ausência de jogo durante grande parte do tempo. Ora, a sua colocação à direita devolveu-lhe presença, intensidade e... a alegria. Teve de jogar e trabalhar em todos os momentos, como tanto gosta. Apesar de alguma ineficácia, terá feito em Londres um dos melhores jogos desde um inicio da época onde o Inter era diferente. Na ala direita, aliás, esteve grande parte da chave do jogo, com Eto’o, Maicon e Cambiasso a formarem um triângulo muito dinâmico e importantíssimo em termos estratégicos.

Ditar o ritmo
Mas, como sempre, não foi o sistema o mais importante, antes sim a qualidade da interpretação do que devia ser feito. A solidariedade defensiva e o risco mínimo em termos posicionais eram óbvios com a vantagem na eliminatória. A isto, o Inter acrescentou uma capacidade de gerir os ritmos do jogo que, realmente, me parece ter sido o grande segredo do sucesso. Esta gestão foi conseguida, primeiro, pela forma como o Inter não permitiu momentos de transição ao seu adversário, impedindo-o de acelerações que pudessem agitar o jogo e as bancadas. Depois, e igualmente decisivo, foi comportamento no momento em que ganhou a bola, não tendo pressa de procurar a profundidade, valorizando a posse e, inteligentemente, adormecendo obrigando o adversário a ver jogar. Neste particular, há que destacar a boa utilização da largura do campo para fugir ao pressing "blue", tendo na tal dinâmica à direita uma chave importante, com Maicon (fantástico!) a ser repetidamente libertado para receber.

Chelsea: uma desilusão... ou talvez não
De facto, apesar de reconhecer enorme potencial e qualidade ao plantel, desde cedo nesta época que me pareceu claro que este Chelsea teria poucas possibilidades de triunfar ao mais alto nível. Pelo menos seria mais improvável do que em anos anteriores. Desta vez, o destino ficou traçado por uma enorme incapacidade de, no seu próprio estádio, impor o ritmo mais conveniente. O Chelsea pareceu sempre hipnotizado pelo jogo do Inter, tendo apenas um período, antes do intervalo, em que pareceu poder mudar o seu destino. Na segunda parte, no entanto, rapidamente o jogo parasse voltou às mesmas coordenadas, de ritmo baixo e com muitas paragens, num enquadramento que favorecia totalmente as intenções do Inter. E assim ficou por terra mais um grande candidato.

Sneijder e os “mapas mentais”
O vídeo é sobre ele e, na realidade, fala por si. Já várias vezes referi que um jogador não se faz apenas pelo que consegue quando tem a bola, que a sua utilidade deve ser medida nos 4 momentos do jogo. Sneijder, no entanto, foi de uma influência enorme com a bola nos pés, estando na origem de praticamente todas as jogadas de perigo dos italianos. Duas notas sobre o jogador. Primeiro para a qualidade com que executa com os 2 pés. Uma raridade. Depois para aquilo que é referido no vídeo. Um jogador como que faz "mapas mentais" sucessivos e é através deles que orienta as suas acções. Os melhores distinguem-se pelo acerto com que fazem este mapeamento e, depois, pela capacidade para executar de acordo com ele. Sneijder mostrou que é, no presente, um dos mais competentes cartógrafos do futebol mundial. Um festival!



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Necid, aos 20 anos... um caso sério!

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16.3.10

Saleiro: entre a afirmação e a elite

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Foi inserido no plantel quase a medo, como que se duvidando da sua capacidade para estar à altura do desafio. A verdade é que Saleiro, passado este tempo, conseguiu aproveitar as oportunidades que lhe foram dadas, subindo alguns degraus na lista de soluções prioritárias para a frente de ataque. Hoje, é já muito improvável que o avançado não faça parte dos planos leoninos para as próximas épocas, ficando apenas por saber até que nível poderá Saleiro ir. Não é a primeira vez que falo sobre ele, e, mais uma vez, fica aqui um balanço das qualidades e defeitos que julgo definirem o novo 9 do Sporting.

Forte psicologicamente
Talvez seja o aspecto que mais deva ser destacado, até porque as suas outras virtudes já eram conhecidas. Saleiro iniciou a sua ascensão numa fase de confiança quase nula em termos colectivos e onde pouca gente, mesmo com mais experiência e menos pressão, conseguia estar bem. Este facto aliado ao “nervo” que revela na hora de concluir dá a certeza de que estamos na presença de um avançado de "sangue frio", algo que é absolutamente fundamental para manter uma relação estável com o golo. E sabe-se como isso é importante para quem joga perto das balizas...

Bom tecnicamente
Este era o lado mais fácil de prever. Quem vira Saleiro antes de chegar ao Sporting, particularmente no Fátima e na Académica, sabia que este era um avançado inteligente e hábil no trato da bola. Capaz de baixar e combinar bem, longe das zonas de finalização. Este é outro traço positivo do seu perfil. Uma nota, ainda no capítulo técnico, para o seu pé direito. É fantástico saber passar, cruzar e rematar com a qualidade com que o faz. O senão é que faz tudo, ou quase, com o pé direito.

Reacção e explosão, o grande obstáculo
O físico não aparenta ser um entrave para Saleiro. Afinal, a sua estatura é bastante boa para um jogador que tem de aparecer tantas vezes a discutir lances aéreos. Por outro lado, Saleiro é também um avançado culto em termos de movimentação, sabendo que movimentos fazer e quando os fazer. Qual é o problema, então?

O problema está em alguns pormenores que são normalmente fundamentais para um avançado de elite e nos quais Saleiro revela dificuldades. Primeiro, falar do pique, da explosão. Não me estou a referir a situações de 1x1, mas na exploração da profundidade. Para um avançado, muito mais do que para um médio ou mesmo um extremo, é fundamental ser capaz de receber no espaço e, para isso, é preciso ter assinalável capacidade de aceleração. Saleiro não é um jogador lento, mas é não tem uma grande capacidade de aceleração um avançado e isso torna-se visível com alguma frequência.

O outro aspecto que quero assinalar neste ponto, e que é decisivo para um avançado, como já várias vezes tenho assinalado aqui, é a capacidade de reacção. Não é exactamente o mesmo que aceleração. Tem a ver com a velocidade com que se reage à trajectória da bola e se é capaz de ajustar o corpo em antecipação. Por isso, por exemplo, não o vemos frequentemente finalizar de cabeça em boas condições, apesar da sua estatura.

Ou seja, se Saleiro é, pela boa capacidade técnica e mental, um avançado com elevado aproveitamento em termos de finalização, não é um avançado que usufrua de muitas situações de finalização em zona privilegiada. E, se estamos a falar de elite, isso seria fundamental.

Competição: a condição fundamental para evoluir
Visto o perfil do jogador, sublinho a opinião de que se trata, e se tratará sempre, de um bom jogador, de utilidade colectiva. Sublinho também, no entanto, que está ainda longe de poder aspirar a um nível de elite. Aliás, isso não lhe será fácil dado o tipo de carências que tem. O mais difícil está conseguido, e agora Saleiro tem de saber, ele próprio, corrigir os aspectos onde não é tão forte. Para isso, a competição é a única via. É através da competição que poderá desenvolver as suas capacidades e é através da experiência que poderá evoluir. Não que a experiência por si só garanta seja o que for, devendo ser devidamente avaliada e corrigida, mas... só com jogando será possível.



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