30.7.06

Época 06/07 - Os primeiros toques

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Para os adeptos é tempo de banhos, sol, sorrisos e sobretudo esperança! Para os que trabalham, o período é marcado pelo contraste entre o peso do fisico e a leveza da mente... uma leveza rara e atípica para os que têm na pressão um modo de vida. Para quem simplesmente anseia por futebol o tempo é de expectativa e de algum vazio proveniente da ausência de futebol propriamente dito. A formação dos planteis, as reportagens sobre os treinos e os ilusórios jogos de preparação podem pouco mais do que oferecer coordenadas dubias para o mapa futebolístico da temporada, mas... é tudo o que temos!

Nota: A análise feita às diferentes equipas tem por base informações sobre o trabalho das equipas que foram publicadas nos jornais desportivos.

FC PORTO
Na Holanda, mais do que os passeios de bicicleta e os já característicos episódios de disciplina à “moda de Co” – tudo em prol da concentração colectiva e disciplina de grupo – houve um estágio com muita bola e exercícios variados com um objectivo central: o desenvolvimento de um modelo que maximize a posse de bola. Para Adriaanse e o jogo do seu FCP houve e haverá duas palavras fundamentais – pressão e transição.

Sistema de jogo
Na época transacta os dragões começaram em 4x3x3, mas foi quando Adriaanse colocou em prática a sua defesa a 3 que, paradoxalmente, a equipa conseguiu defender melhor. Este ano tudo indica que teremos um Porto em 3x4x3 ou 3x3x4 em função do potencial do adversário, sendo que a limitação de recursos disponíveis para fomar uma dupla de atacantes pode condicionar a utilização do 3x3x4 (mais utilizado em 05/06).

Princípios de jogo
Adriaanse fala sempre em golos e espectáculo, o seu modelo responde com uma obsessão pelo domínio da bola, tentando recuperá-la o mais cedo possível através da pressão e da superioridade numérica na zona da bola. Com bola, os laterais e extremos oferecem largura e os avançados e médios (através de movimentos verticais) fornecem a profundidade que torna o “campo grande”. Tudo isto com circulação, preferencialmente pelos corredores.

SPORTING
João Aroso, o complemento fundamental da equipa técnica e do próprio Paulo Bento é o responsável pela preparação da equipa e pela assimilação da filosofia definida pelo líder. O método parece ter sido o treino integrado, utilizando preferencialmente a bola para conseguir os objectivos dos exercícios que podem ser físicos ou tácticos. De resto, o objectivo parece simples: projectar para 06/07 a filosofia implementada na segunda metade da época transacta.

Sistema de jogo
Sem complicações nem invenções, o modelo de jogo de Paulo Bento é para evoluir em 4x4x2, sem extremos, ou seja o popularizado “sistema do losango”.

Princípios de jogo
Paulo Bento tem uma visão simples e pragmática do jogo. O equilibrio e a concentração em 90 minutos são as premissas essenciais da sua equipa. Os mais simplistas dirão que joga para o “um-zerinho” e o facto é que a procura de momentos de transição que possam explorar os espaços e a preocupação sistemática com o equilíbrio da equipa oferece muitas vezes razão ao prognóstico. O objectivo é controlar em lugar de dominar, dando presença e pressão à zona intermédia e esperando pelo erro inevitável do adversário.


BENFICA
No Benfica a pré época tem sido tempo de mudança e apreensão. Mudança na equipa técnica, no modelo, no sistema e na referência... Simão (se é que vai sair...), um extremo que oferece momentos de rotura e velocidade por Rui Costa, um 10 que tem na racionalização do jogo e na qualidade de passe as suas características principais. A preocupação advém naturalmente das prestações no Guadiana e principalmente do jogo com o Sporting. Ainda vamos começar Agosto e se é verdade que o Benfica tinha mais tempo de preparação, o Sporting tem uma forma de jogar que transita da época passada e seria realmente surpreendente se o Benfica se tivesse superiorisado nesta altura. Se for bem acompanhado (na equipa técnica) e se tiver estabilidade, Santos, estou certo, imporá o seu modelo convenientemente, como fez em todos os clubes em que passou (excepto no Panathianaikos)

Sistema de jogo
Santos escolheu o 4x4x2 “losango”, preparou o trabalho e o plantel para essa escolha que teve sempre um pressuposto: a saída de Simão. Porém, no caso do imprevisto acontecer, o sistema, podem estar certos, vai mudar...

Princípios de jogo
Santos gosta de ter a bola, por isso os avançados defendem pressionando bem alto e é a partir das recuperações no meio-campo que as suas equipas procuram e conseguem desequilibrar. De resto a circulação faz-se procurando os espaços entre-linhas e aproveitando a dinâmica entre laterais, médios e avançados. Uma referência para as bolas paradas: já se viu que Luisão poderá ser a referência dos pontapés indirectos, aparecendo “tarde” em zona de finalização e num espaço que lhe é criado por um companheiro.

BRAGA
Carvalhal é novo e terá eventualmente mais tempo, mas a oportunidade que lhe foi concedida em Braga é pouco menos do que um “tudo ou nada” para o jovem professor. Um amante dos métodos que Mourinho também preconiza, Carvalhal preocupou-se, segundo os relatos de quem presenciou, principalmente com os aspectos ofensivos, sendo que a “porta fechada” foi também um dos hábitos dos treinos de inicio de época... Estará a ser escondida a fórmula para o declarado ataque aos três grandes? Uma coisa parece-me evidente: por muitos e bons recursos que possua será já um feito se Carvalhal estiver, na primeira época, à altura do seu antecessor!

Sistema de jogo
Tudo indica que teremos um 4x2x3x1 com extremos e com João Pinto como “pivot” do meio campo ofensivo.

Princípios de jogo
Não foram dadas muitas indicações nas recolhas jornalísticas feitas, apenas o apoio ofensivo dos laterais nas rotinas ofensivas e, previsivelmente, uma equipa que procura assumir o jogo com bola e com a busca da sua posse.



BOAVISTA
Ultrapassado o período traumático do divórcio com o Braga, o “Professor” passou ao tempo das lições... Com um discurso revelador do seu conhecimento e esclarecimento em torno das problemáticas que envolvem a sua profissão, Jesualdo tem sido o principal destaque – digo eu – de toda a pré época, tendo definido e sustentando claramente o que pretende para a sua equipa. Não terá facilidades até porque os recursos não serão os de outros tempos numa equipa em que o exigido é sempre muito, mas não tenham dúvidas da sua capacidade para desempenhar o cargo que lhe é proposto.

Sistema de jogo
Jesualdo simplifica: 4x3x3, à Braga - complemento eu.

Princípios de jogo
Também aqui as semelhanças com o Braga das últimas temporadas não é mera coincidência: O objectivo é “defender (colectivamente) antes de atacar”, fazendo uma ocupação racional e zonal dos espaços e dotando a equipa da inteligência necessária para perceber os momentos em que pode explorar os espaços concedidos pelo adversário, criando assim vantagem ofensiva.


LEIRIA
Domingos é o debutante surpresa da temporada. Com um discurso ambicioso – “objectivo UEFA” – e definindo a ambição de rotura com o Leiria dos contra-ataques para dar lugar ao Leiria do ataque continuado e da posse de bola, Domingos tem tido o papel mais fácil da sua tarefa que é exactamente aquele que antecede o inicio da competição. Não sou futurologista nem ponho em causa as capacidades do ex-goleador – até porque não as conheço- mas infelizmente não acredito muito em discursos de futebol de domínio constante, principalmente em equipas que não os “grandes”...

Sistema de jogo
O que se viu até agora foi um 4x4x2 com dois avançados nas alas, mas não há ainda certezas.

Princípios de jogo
A posse de bola e o domínio constante do jogo foram as declarações de princípio do jovem treinador, ficando igualmente claro o enfoque no ataque lateral. É ainda pouco...


OS OUTROS
De forma genérica, os relatos sobre a pré-época descrevem, numa primeira fase, intensas sessões de treino fisico, dando lugar aos ensaios tácticos que são por sua vez rapidamente substituídos por uma panóplia de jogos de preparação com índices baixos de competitividade...
Em Coimbra, o desafio parece não ser fácil para o bem sucedido Manuel Machado, que já exprimiu as suas preocupações com a pouca evolução demonstrada pela sua equipa sobretudo no que respeita à ocupação colectiva e eficaz dos espaços e à ligação entre os sectores.
Jardel é a palavra mais ouvida para os lados de Aveiro. No entanto, para já Inácio tem dado enfoque à posse de bola e... aos treinos físicos.
Os relatos de Setúbal ecoam uma preocupação essencialmente direccionada para a auto-vitimação, sobretudo no que respeita às limitações orçamentais a que o clube está sujeito para a composição do plantel – não é um bom pronuncio, mais uma vez...
Dos Barreiros vieram algumas das histórias mais curiosas deste período inicial. Primeiro com os banhos em água gelada para ajudar à recuperação e depois o discurso curioso do peculiar Ulisses Morais – o treinador definiu 3(!) modelos opcionais para o seu jogo (para jogar em função do adversário) e, quando instado sobre o que pretendia para o seu Marítimo, Morais não podia ser mais esclarecedor: “uma equipa consciente, sólida e segura, que revele boa capacidade defensiva e ofensiva, em suma, uma equipa completa...”.
Uma das frases mais enigmáticas do periodo foi proferida por José Mota após o jogo com a Académica , afirmando que os seus jogadores tinham tido “Problemas de raciocinio” durante a partida...
Finalmente, da Vila das Aves têm chegado relatos que, embora escassos, deixam perceber a humildade assumida pela equipa de Neca – a ausência de um autocarro para transportar a equipa será mesmo um sintoma preocupante de escassez de receitas de uma equipa que disputa o primeiro escalão de uma liga que pretende estar entre as melhores da Europa.


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22.7.06

Ranking "jogo directo" de Clubes Europeus - final 05/06

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Sem surpresas o Barcelona terminou a temporada no primeiro lugar do Ranking JDCE, sagrando-se assim e segundo esta rigorosa classificação no melhor clube europeu da época. Entre os Portugueses o Porto consegue o melhor posto (18º) pouco à frente do Benfica (21º) e com alguma distância para o Sporting (36º). De resto, o destaque vai para a campanha positiva do Sevilha que lhe valeu um surpreendente 5º lugar final.




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16.7.06

O Alemanha 2006 em "post scriptum"

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1 Mês de emoção

Para que uma prova como um campeonato do mundo possa ser bem sucedida na sua plenitude em termos de emotividade são necessárias duas componentes fundamentais: 1- a espectacularidade do futebol praticado: basicamente muitos e bons golos, mas também jogadas, passes, finalizações ou defesas... 2 – a incerteza e ansiedade em torno das partidas: confrontos de resultado imprevisível entre grandes equipas com grandes jogadores. Neste contexto, o Alemanha 2006 correspondeu aos dois requisitos, ainda que em fases distintas (na fase de grupos os golos: muitos e bons, nas elimitórias os grandes confrontos e as grandes emoções). Perante o “fantasma” que resultou de 2002 com o afastamento precoce de grandes selecções, o Alemanha 2006 terá sido um verdadeiro alívio para os adeptos e... para a FIFA.



Mundial Luso

Se houve lugar no mundo onde este Mundial foi vivido de forma apaixonada e intensa, terá sido em Portugal. A atitude, entrega e determinação dos jogadores portugueses em cada minuto dos seus jogos “arrastou” um país de futebol mas com pouco culto de selecção (pelo menos até ao Euro 2004). Depois da “clubite”, estará finalmente implantada a “Portugalite”?

Qualidade inextinta

Os “dinossauros”, como eram apelidados pelos próprios media franceses, afinal ainda não estavam extintos. Superaram à justa a fase de grupos e depois cumpriram o mais duro trajecto até à final, derrotando Espanha, Brasil e Portugal. Tendo em conta o percurso facilitado que os italianos tiveram até às meias-finais e o balanceamento dos 120 minutos finais, não tenho dúvidas em afirmar que se a justiça fizesse parte do jogo os franceses teriam vencido os penaltis. Para história ficam o último episódio de uma das mais bem sucedidas gerações de sempre e... uma cabeçada!

Jejum dos goleadores
Tivemos golos, muitos e bons, é uma evidência. Porém, quando as coisas apertaram, quando contou verdadeiramente para a história, foram as defesas que invariavelmente levaram a melhor. Rarearam as reviravoltas (na segunda fase foram apenas duas e ambas nos oitavos: o Espanha – França e o México – Argentina) e ao contrário do que é tradição foram poucos os homens-golo que decidiram partidas (apenas Klose logrou marcar 5 golos). A pergunta faz-se: haverá uma crise de goleadores no futebol mundial? A resposta, estou em crer, é não. O que se passou na Alemanha tem a ver com as estratégias adoptadas: O sistema mais utilizado foi o 4x5x1 (até a Inglaterra, tão fiel ao 4x4x2 o utilizou) o que deixa os ponta de lança mais sós na área. Os blocos defensivos tinham como prioridade defender junto da sua área e não conceder quaiquer espaço nas suas costas, o que é uma tortura para avançados que gostam de jogar “no erro”, como Henry, Pauleta, Ronaldo ou Rooney. Para além disto houve uma preocupação comum das equipas que lograram o sucesso: o equilibrio nas transições defensivas como requisito fundamental para se conseguir eficácia defensiva e controlar os jogos (o Brasil que o diga!).

Modelo de preparação

O campeonato do mundo é uma competição que se desenrola num curto período de tempo o que tradicionalmente torna difícil a consolidação dos habituais alicerces que sustentam as equipas enquanto colectivo. Creio que há 3 condições fundamentais para a que o sucesso das selecções possa ter lugar neste tipo de competições: 1 – Qualidade individual dos jogadores; 2 – Prioridade para a concepção e consolidação de um modelo de jogo e não para criação de um “melhor onze”; 3 – Criação de um espirito de grupo sólido. Entre as 3 condições elencadas uma, a primeira, tem caracter “genético” e as restantes um “carácter comportamental”, ou seja podem ser desenvolvidas através de um processo de aprendizagem. Naturalmente, quanto mais tempo se der a esse processo, maior serão as possibilidades de assimilação por parte do grupo e é por isso que a preparação destas competições deve ser feita ao longo de 2 anos e não nas 3 semanas imediatamente precedentes. E assim se explica, por exemplo, o sucesso de Scolari e o insucesso de Aragones ou Parreira.

'Paper Samba'
No papel teriam sido campeões de caras, mas mal se viu o primeiro jogo percebeu-se que o Brasil não passava daquilo que era no papel, ou seja o melhor conjunto de jogadores que existia na prova. Enquanto equipa o Brasil foi sempre desequilibrado e pouco concentrado, tendo sido apenas conseguido o resgate de uma eliminação mais humilhante pela qualidade individual dos seus jogadores e (não tenho dúvidas) por alguma fortuna de circunstancia. Parreira criou um onze com talento, mas sem principios de jogo ofensivos (por exemplo, quando Ronaldinho recebia a bola não havia movimentos sistemáticos que pudessem aproveitar a sua qualidade de passe), incapaz de fazer transições defensivas eficazes e com uma pressão “mole” que não complementava o bloco alto em que procurava defender. Não tenho nada contra o Brasil, mas enquanto apreciador de futebol, modalidade colectiva sinto-me aliviado que não tenha chegado mais longe... Seria uma má mensagem para quem pensa que o futebol são apenas 11 contra 11.

Avô cantigas

Poucos países preenchem tantos requisitos como a Espanha no que respeita a condições para ganhar um campeonato do mundo. Jogadores em qualidade e quantidade para todas as posições, um dos campeonatos mais competitivos e exigentes do mundo e um país com uma mentalidade descomplexada (em tudo excepto precisamente no que respeita à sua selecção). A selecção com o trauma “dos quartos” desta vez nem passou dos oitavos depois de, e mais uma vez, ter iludido meio mundo com o talento dos seus jogadores a vir ao de cima nos jogos de menor exigência. Os espanhóis encararam a sua eliminação como mais um sinal da “assombração” que se apoderou da sua selecção, uma inevitabilidade divina, no entanto não terá passado do desfecho mais natural para uma competição mal preparada. A Espanha iniciou a preparação para o mundial sem sequer ter definido um sistema de jogo, tendo sido convocados apenas dois avançados e vários extremos para, finalmente, fazer evoluir um 4x3x1x2 com muita troca de bola, pressão e bloco altos, mas sem largura ofensiva para criar soluções de passe e com muitas lacunas no processo defensivo (particularmente no papel dos avançados). Enfim, não foi o disparate táctico do Brasil mas apenas o resultado de uma preparação claramente mal feita por seleccionador com visão e métodos evidentemente ultrapassados.

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8.7.06

Itália - uma paixão eminentemente táctica

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No âmbito desportivo e no futebol em particular, os italianos nunca deixaram que a sua paixão e espírito competitivo passassem em claro... Futebolisticamente falando, os italianos são reconhecidos como “mestres” da táctica, sendo esta vocação muitas vezes confundida com uma capacidade inexplicável para vencer jogos de forma cínica... Na Alemanha, em 2006, a Italia aparece orientada por mais um nome consagrado do seu futebol, o estudioso e metódico Lippi, que criou um modelo de jogo ímpar nesta competição, baseado num futebol directo que busca rupturas constantes na extrema defesa adversária em vez da mais usada valorização da posse de bola.
País latino, de temperamento quente a Itália marca presença em praticamente todos os capítulos da história civilizacional. Também no âmbito desportivo e no futebol em particular, os italianos nunca deixaram que a sua paixão e espírito competitivo passassem em claro, sendo hoje um país em que o “Calcio” se confunde por entre as tradições mais ancestrais da sua cultura e costumes.
Embora seja tricampeã mundial e uma das nações de maior tradição em fases finais de grandes competições, a verdade é que a selecção italiana tem tido dificuldade em materializar em vitorias as suas consecutivas participações nesses grandes eventos, apesar de apresentar à partida e por norma colectivos de irrefutável valia.
Futebolisticamente falando, os italianos são reconhecidos como “mestres” da táctica, sendo esta vocação muitas vezes confundida com uma capacidade inexplicável para vencer jogos de forma cínica, tendo este ultimo adjectivo sido amplamente ligado ao futebol transalpino desde a década de 80. De todo modo e embora o “cinismo” possa não passar de uma personificação futebolística de quem não encontra melhor explicação para o fenómeno, não deixa de ser verdade que existe na cultura do futebol italiano uma forte índole táctica. Sacchi ficou famoso por “criar” a defesa à zona no Milan, Trapattoni ligado ao “Catenaccio” e Cappelo ao 4-4-2 tacticamente perfeito em que faz evoluir as suas variadas equipas. A verdade, no entanto é que para a “I Azzurri” não têm sobrado mais do que treinadores em pré-reforma, reconhecidos pelos seu passado mas ignorados pelos grandes clubes italianos. Foi assim com Sacchi, Maldini, Zoff e Trapp, resultando as prestações nacionais da Itália sob o comando destes homens em sucessivas desilusões desprovidas de qualquer feito à altura das exigentes expectativas do seu povo.
Na Alemanha, em 2006, a Italia aparece orientada por mais um nome consagrado do seu futebol, o estudioso e metódico Lippi cujo sucesso recente apenas pode ser rivalizado, no que respeita a técnicos italianos, por Cappelo. Embora já não seja um novato, Lippi, de quem Alex Ferguson disse um dia apenas bastar olhar nos seus olhos para que se perceba o domínio que tem sobre o que faz, está bem ciente das complexidades e exigências do futebol moderno, não caindo na vulgaridade do jogo exageradamente defensivo (com que o futebol italiano está conotado), mas fazendo uso das capacidades físicas, técnicas e sobretudo tácticas de que dispõe nos seus jogadores para criar um modelo de jogo ímpar nesta competição, baseado num futebol directo que busca rupturas constantes na extrema defesa adversária em vez da mais usada valorização da posse de bola.

Princípios de jogo
A Itália proporciona jogos com momentos electrizantes como resultado da notável capacidade dos seus jogadores se movimentarem em bloco e da predisposição que têm para apanhar as defesas adversárias em sobressalto, quer em transição, quer em ataque organizado.
Quando tem a bola a Itália procura as suas referências. Pirlo é um exímio passador, combinando o seu talento no trato da bola com uma invulgar visão de jogo. A outra alternativa, menos utilizada nesta fase de jogo provém do movimento característico de Totti que recua verticalmente no campo (ou seja ao longo corredor central) para tentar ele próprio organizar o jogo a partir dessa posição. Esta redundância de tarefas entre Pirlo e Totti acaba por “tirar” Totti muitas vezes do jogo.Ainda assim, a movimentação do 10 tem sempre a virtude de atrair a marcação para zonas interiores, proporcionando o ambicionado espaço que pode ser aproveitado em diagonais de ruptura por Toni, Perrotta ou Camoranesi. Embora este seja o movimento preferencial do ataque italiano, nem sempre ele é possivel. Como alternativa, a largura é dada pelos laterais que, possantes e rápidos, combinam muito bem com um dos médios ala, menos propensos para atacar a linha e cruzar (Camoranesi fã-lo mais do que Perrota, até porque tem mais características para desequilibrar no 1x1). Este movimento dos laterais constitui uma grande mais valia para os italianos tendo já resultado diversos golos através das suas “galopadas” ao longo das laterais. Uma última nota para as transições ofensivas: os italianos procuram recuperar a bola cedo e esta ambição constitui uma ameaça constante para as equipas adversárias, porque quando o fazem os italianos desdobram-se muito eficazmente em movimentos ofensivos que visam criar e aproveitar momentos de desorganização defensiva.
Sem bola, a Italia “estica e encolhe” em profundidade no campo como mais nenhuma equipa o faz. Totti e Toni pressionam alto, Perrota e Camoranesi fazem o movimento pressionante ao longo das alas, basculando horizontalmente em função da bola e Gattuso e Pirlo estão talhados e rotinados (desde o Milan) para fazer a cobertura de toda a zona central. O movimento destes dois é admirável e importantíssimo para o sucesso do processo defensivo, pois têm sobre a sua responsabilidade uma área de dimensões enormes. Apesar de começar a pressionar alto, a selecção italiana não corre o risco de subir as suas linhas na tentativa de manter o bloco compacto, prefere confiar na capacidade táctica dos seus jogadores e no reagrupamento rápido do bloco quando o adversário avança no terreno. Esta atitude defensiva provoca muito desgaste fisico nos seus jogadores, o que justifica segundas partes com mais dificuldades em termos defensivos. Curiosamente é aqui que normalmente aparece o aparente “cinismo” italiano. É que os italianos têm como característica nunca perderem o seu sentido táctico e a sua organisação. Quando a Itália se torna mais vulnerável na sua pressão, os adversários tornam-se mais ambiciosos e emocionais no seu jogo, concedendo mais espaços para as transições. Os italianos adoram esses espaços e frequentemente cometem a crueldade de os aproveitar, “matando” os adversários precisamente no momento em que estes parecem estar por cima na partida...

Sistema de jogo
4x4x1x1.

Individualidades
Buffon é um autêntico “monstro” na baliza. Domina todos os aspectos do seu “metier” parecendo, por vezes, impossível transpô-lo.
Os laterais Grosso e Zambrotta são rápidos e altos, fecham bem por dentro e, a atacar, percebem muito bem qual o momento para intervir, desequilibrando de forma poderosa quer em penetrações interiores, quer exteriores.
Cannavaro é díficil de adjectivar. Baixo, não perde um confronto aéreo. Tem um sentido posicional impressionante, dobrando na zona central ou na lateral direita, parecendo às vezes que sozinho daria conta de todo recado. Para mim o melhor do mundo e candidato sério a MVP do mundial. O seu parceiro, Matterazzi (na ausencia de Nesta) peca por uma abordagem mais bruta e emocional nas suas actuações. No entanto é um dos melhores intérpretes no jogo aéreo e temível na marcação.
Gattuso é um guerreiro, perfeito na ocupação dos espaços e confortável na distribuição. Pirlo é menos dado ao choque mas tem uma facilidade invulgar de organização e distribuição de jogo. A sua visão de jogo reflecte-se também defensivamente nas inúmeras antecipações e intercepções que consegue.
Perrotta e Camoranesi, os alas, têm um perfil genético diferente. Perrotta é muito evoluído tacticamente, fechando e posicionando-se bem. Ofensivamente é jogador de 1, 2 toques, jogando em apoio ou procurando movimentos em diagonal que explorem as costas da defesa contrária. Camoranesi, sendo um trabalhador incansável, tem maior afinidade com a bola, procurando ocasionalmente desequilibrios no 1x1 sendo mais propenso a tentar a linha.
Totti é o 10, talhado para o desequilibrio ofensivo. Média distância, passes de ruptura e finalizações na área são as mais valias de um jogador que desaparece muitas vezes do jogo (Pirlo retira-lhe algum protagonismo na organização) e que gosta muito pouco de defender.
Finalmente, Luca Toni. Capaz de jogar como pivot, procurando espaços interiores, de atacar nas costas através da sua velocidade ou de procurar as alas dando soluções de passe à construção ofensiva, Toni é um avançado completo e um “mouro de trabalho” que tem na sua potência física a principal característica.

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28.6.06

O colectivo "caça-fantasmas"

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Apesar das gerações de futebolistas talentosos que lhe sucederam, o fenómeno Maradona nunca foi superado pela pátria Argentina, tornando a memória do astro numa espécie de “fantasma” sempre presente... Na Alemanha e quando tudo apontava para mais uma aparição do “fantasma Maradona”, a Argentina de Pekerman apresentou-se colectivamente bem organizada, com um sistema de jogo definido e com princípios de jogo adequados e ajustados às características dos seus intérpretes...

País de sangue latino e muito talento futebolístico, a Argentina depressa se tornou num crónico candidato à conquista de qualquer campeonato do mundo, fruto de sucessivas e abundantes gerações de jogadores de qualidade. Embora a dimensão do país, a sua paixão pelo jogo e a evidente empatia genética existente entre os jogadores argentinos e a bola sempre fosse suficiente para compor selecções fortes, a história do Futebol argentino é particularmente marcada por um jogador: Maradona. “El Pibe” tornou-se num Deus do Futebol argentino ao comandar a selecção à brilhante conquista de 86 e ao heróico segundo lugar no Itália 90. Maradona foi a referencia inevitável das selecções que integrou, sendo não só o centro de cada jogada mas a estrela de todos os momentos, numa hierarquia reconhecida e aceite por todos, quer dentro, quer fora do campo.
Apesar das gerações de futebolistas talentosos que lhe sucederam, o fenómeno Maradona nunca foi superado pela pátria Argentina, tornando a memória do astro numa espécie de “fantasma” sempre presente, sobretudo quando as camisolas alvi-celestes subiam ao relvado. A necessidade que a nação tinha em identificar uma figura que pudesse substituir Diego Armando Maradona em talento e protagonismo tornou-se uma obsessão (a alcunha “novo Maradona” foi desmesuradamente atribuída a jogadores como Ortega, Gallardo, Aimar ou Saviola) que passou para segundo plano questões fundamentais para uma eficiente regeneração da selecção, como a implementação de princípios de jogo colectivos que potenciassem o talento das novas gerações. O “fantasma Maradona” assombrou os colectivos argentinos nos anos que marcaram a viragem do milénio fazendo-os parecer órfãos de uma visão colectiva solidificada e demasiado reféns de desiquilíbrios individuais que nunca surgiam quando os momentos decisivos chegavam.
Na Alemanha e quando tudo apontava para mais uma aparição do “fantasma Maradona”, a Argentina de Pekerman apresentou-se colectivamente bem organizada, com um sistema de jogo definido e com princípios de jogo adequados e ajustados às características dos seus intérpretes, sendo por isso e, aos meus olhos, uma séria candidata ao erguer da “Copa”.




Princípios de jogo
A Argentina valoriza a posse de bola, não por uma ânsia “naif” de dominar as partidas mas por uma necessidade lógica de as controlar. A percentagem de posse de bola nem sempre define quem tem o controlo real do que se passa nas quatro linhas e no caso da selecção Argentina é frequente não ter a supremacia desta estatística controlando, ainda assim, as operações.
Quando não tem a bola a Argentina procura criar problemas à primeira fase de construção de jogo dos adversários colocando os dois homens da frente, mais o 10 na primeira linha do bloco (normalmente apenas uns metros acima da linha de meio campo) com o objectivo de reduzir linhas de passe e forçar o erro do adversário. O restante bloco, mais preocupado em manter a segurança defensiva do que em fazer uma recuperação rápida da bola, espera os adversários à frente da sua área, com 2 linhas compostas por 4 + 3 homens que pressionam lateralmente com a preocupação de colocar sempre mais homens na zona bola e evitar quaisquer possibilidade de desiquilíbrios individuais (particularmente os 1x1 nas alas).
Com bola, os argentinos procuram essencialmente duas formas de perigar a baliza contrária. Em transição, com a capacidade de desdobramento rápido dos médios em apoio aos avançados, e em ataque organizado, sem bolas pelo ar, fazendo “campo grande” (em largura e profundidade) e criando espaço para que o 10 (Riquelme) receba a bola e “comande” o ataque. Os argentinos são pacientes e podem trocar a bola repetidamente até porque se sentem confortáveis com ela, no entanto a posse de bola pretende a ser objectiva e a procurar roturas na defesa contrária, quer através de diagonais dos homens que partem das alas, quer pelas entradas nas costas de um dos laterais, procurando o desiquilíbrio na linha de fundo.

Sistema de jogo
Esqueleto em 4x1x2x1x2. Os laterais são os únicos com ordem para “tentar” a linha, explorando as costas dos extremos, que entram por regra em diagonal. O “trinco” (Mascherano) tem como missão, a defender, proteger a zona central e, a atacar, garantir o equilíbrio nas eventuais transições defensivas, bem como a conquista das segundas bolas. Os médios “interiores” têm missões distintas em posse de bola: um abre na ala (Maxi Rodriguez) dando largura ao ataque, o outro fica em zonas mais interiores (Cambiasso), de forma a oferecer linha de passe e dar continuidade à posse de bola ou a criar ropturas através de movimentos verticais. Estes jogadores são fundamentais nas transições, quer no desiquilíbrio que podem criar (transições ofensivas), quer no balanceamento que devem ajudar a garantir (transições defensivas). O 10 tem uma função tradicional, procurando a bola em construção para poder ser a mais valia na distribuição (quer em qualidade, quer em “tempo”). Os avançados pressionam e, em posse de bola, um (Saviola) dá largura colocando-se numa das alas e entrando em diagonal. O outro (Crespo) procura os espaço na zona central, podendo procurar aproveitar o espaços que a estratégia defensiva adversária conceder, seja nas costas dos defesas, seja no espaço interior, funcionando como “pivot”.

Individualidades
- Abbondanzieri é o guarda-redes, quase incógnito para quem “vive” essencialmente o futebol europeu... um potencial ponto fraco.
- Scaloni e Sorin, nas laterais, são dinâmicos a atacar e rápidos a recuperar posições. A debelidade que ambos sentem no 1x1 pode ser um problema, mas é amplamente disfarçada pela movimentação zonal do bloco. Sorin é um exemplo quase único pela diversidade de movimentos ofensivos que protagoniza!
- Também os centrais, Heinze e Ayala beneficiam da boa cobertura lateral desta selecção. São centrais que jogam de “dentes cerrados”, fortes no posicionamento e no desarme, mas sem grande estatura...
- Mascherano é o “trinco”. A dureza, própria dos genes argentinos e o grande sentido posicional são as suas características.
- Cambiasso e Maxi marcam os equilíbrios e desiquilíbrios da equipa. São a principal força do “motor” Argentino. Exemplares no cumprimento das suas funções tácticas, têm excelente sentido de desmarcação e as suas movimentações já resultaram em vários golos.
- Riquelme é um 10 nato, o “timoneiro”. Encanta pela forma “à Zidane” como trata a bola e pelos passes que consegue. Tem como pontos fracos alguma “sonolência” defensiva e alguns momentos em que “absorve” a posse de bola impedindo uma circulação mais dinâmica da mesma.
- Na frente, Crespo é um matador nato e Saviola um jogador fortissimo em espaços curtos, capaz de furar sozinho as defesas. A Saviola faltará naturalidade nas diagonais que lhe são pedidas, já que não é essa a sua função de origem.
- No banco, Pekerman tem alternativas de sobra em todas as posições. Destacam-se Tevez e Messi os jogadores “da moda” desta selecção tal o virtuosismo que sai dos pés dos dois jovens. São alternativas habituais para o ataque e concedem sobretudo mais mobilidade ao ataque.



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21.6.06

Scolari - Um legado para o futuro

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Quando a FPF apontou Scolari para o cargo de seleccionador nacional achei, como muitos, que o nosso país tinha cultura, tradição e talento mais do que suficientes para não ter de importar “know-how” estrangeiro em matéria de futebol... O Europeu passou, também a qualificação para o Mundial e ao longo deste tempo a minha opinião sobre o “Sargentão” alterou-se radicalmente!... Com ele não se repetiram casos “Saltillo”, Paula ou o caso do Mundial da Coreia... Scolari mostrou parte de um caminho que deve continuar a ser percorrido para que a Selecção se torne cada vez mais não só o “Clube de todos nós”, mas também um Clube ganhador.

Quando a FPF apontou Scolari para o cargo de seleccionador nacional achei, como muitos, que o nosso país tinha cultura, tradição e talento mais do que suficientes para não ter de importar “know-how” estrangeiro em matéria de futebol. As exclusões de históricos como Baía e João Pinto sem que tivesse sido dada qualquer justificação e as embaraçosas exibições da Selecção na preparação para o “nosso” Europeu foram-me convencendo de que as minhas desconfianças iniciais não eram desprovidas de razão. Afinal Scolari tinha sido Campeão Mundial, sim senhor, mas pelo Brasil e num Mundial em que os seus principais adversários foram caindo antecipadamente (França e Argentina nem sequer passaram da primeira fase...). Para mais, era um treinador Sul-Americano sem qualquer experiência europeia com a responsabilidade de preparar um Campeonato...Europeu!
O Europeu passou, também a qualificação para o Mundial e ao longo deste tempo a minha opinião sobre o “Sargentão” alterou-se radicalmente! A Selecção Portuguesa sempre sofreu de vários males, uns muito próprios da nossa realidade cultural e futebolistica como a indisciplina vivida nos estágios e a “clubite” sentida aos mais variados níveis, e outros próprios de todas as selecções e que têm a ver com a escassez de tempo para trabalhar, quer o modelo de jogo, quer o próprio espirito de grupo, essencial para a criação uma dinâmica colectiva. Scolari não terá sido um milagreiro mas a sua conduta conseguiu resolver muitos destes problemas: Com ele não se repetiram casos “Saltillo”, Paula ou o caso do Mundial da Coreia e foram excluidos pela primeira vez jogadores dos planos de preparação por motivos ligados à indisciplina e à falta de atitude para com a Selecção (Conceição, Meira e Maniche foram afastados depois do jogo com a Espanha na preparação para o Euro). Adoptou um modelo e sistema de jogo (4-3-3) e compôs um grupo para o fazer evoluir. Um grupo que não era composto por uma selecção dos jogadores que estavam em melhor forma nos mais variados momentos, uma espécie de prémio de performance, mas um grupo de pessoas que trabalham a prazo para um atingir um objectivo comum.
Scolari mostrou parte de um caminho que deve continuar a ser percorrido para que a Selecção se torne cada vez mais não só o “Clube de todos nós”, mas também um Clube ganhador. Um caminho cujo próximo trilho deverá ser preparado quando Scolari abandonar a selecção (julgo não ser conveniente que fique para além de 2006) e poderá passar pela implementação de algumas ideias que têm sido expostas por Mourinho em relação à metodologia de trabalho nas selecções... Esta evolução não será porém fácil. É preciso
visão e coragem, dois atributos que não estou certo que abundem em quem manda...

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