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12.7.10

Diário de 'Soccer City' (#26) - último

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No encerramento do “Diário de Soccer City”, que contará apenas com algumas notas de rodapé sobre a competição – a apreciação mais geral já foi feita durante a prova – quero começar da mesma forma que fiz no inicio do mundial. Ou seja, com um esclarecimento de como será o funcionamento do blogue nos próximos dias. Depois do Mundial, passarei directamente para o mercado, que me abstive de comentar no último mês. Assim, e aproveitando o conhecimento aprofundado que tenho de praticamente todos os reforços do futebol português, irei dedicar algum espaço para a análise de alguns dos mais importantes jogadores que marcaram o defeso até ao momento. Vamos então às últimas notas...

Espanha, o paradoxo do campeão
Não é difícil de perceber que a Espanha será um dos mais importantes campeões da história do futebol. Isto, porque ao contrário da generalidade das suas antecessoras, a Espanha ganha marcando uma diferença clara de estilo para todo o mundo. Um estilo que, como descrevi na antevisão, tem raízes históricas profundas e que é produto da ponte filosófica que se fez entre Amesterdão dos anos 70 e Barcelona da primeira década do milénio.

Mas há nisto tudo um dado paradoxal. É que se a Espanha se eternizou pelo seu estilo ofensivo, não pode deixar de ser notado que nenhum campeão mundial terá sido tão pobre em eficácia ofensiva como os espanhóis. E isto não é obra do acaso. Primeiro, porque a Espanha – ao contrário do Barcelona – não soube encontrar complemento colectivo às soluções que criava na primeira fase de construção. Por isso, os seus reduzidos golos são apenas a consequência natural de um jogo de poucas oportunidades. Depois, porque um jogo tão forte em posse tem um potencial defensivo talvez naturalmente maior do que ofensivo. Porquê? Porque no futebol só há uma bola e a melhor maneira de fazer o adversário atacar menos não é defender melhor, mas atacar melhor. Ou seja, se a bola está sempre do lado dos espanhóis, pode não ser certo que eles irão fazer golo com ela, mas é certo que não vão sofrer.

“O ataque é a melhor defesa”, não é uma frase nova, mas nenhuma equipa tinha explicado tão bem o que ela quer dizer como o Barcelona e, agora a outro nível, a selecção espanhola.

Del Bosque e o lugar certo
No banco do campeão estava já um homem que figura entre os mais bem sucedidos técnicos do futebol de clubes. Agora, com o título mundial, Del Bosque passa a ser provavelmente o técnico com o mais impressionante currículo da História do jogo. Fantástico, não é?

Se tivesse de fazer um ranking qualitativo de treinadores, teria muita dificuldade em posicionar Del Bosque. Na verdade, creio que ele foi mais um handicap para a Espanha do que outra coisa. Um handicap, porque quando se tem ao seu dispôs a estrutura base da melhor equipa do mundo, e se a desfaz para inventar outra disposição, mas com os mesmos jogadores, neste caso, só se pode estar a tornar a tarefa de vencer um pouco mais difícil. Foi isso que, na minha opinião, fez Del Bosque. Não era preciso ser genial para importar o meio campo do Barcelona, Busquets – Xavi – Iniesta, aproveitar a sua dinâmica da mesma forma que aproveitou a dinâmica da dupla de centrais, e juntar-lhe um trio de ataque com Pedro-Villa-Torres, por exemplo. Respeitar o 4-3-3 do Barça seria a solução óbvia, mas Del Bosque resolveu complicar, retirar uma unidade ofensiva para introduzir Xabi Alonso e mudar a estrutura. Complicou a sua própria vida, mas a herança era tão rica que mesmo assim... ganhou.

Enfim, Del Bosque pode ser o treinador mais bem sucedido da História, mas será também a prova de que mais importante do que ser bom, muitas vezes, é especialmente decisivo estar-se no lugar certo à hora certa.

De Forlan a Xavi
Forlan foi o melhor do Mundial. Concordo, por um lado. Pelo lado do desequilíbrio, do peso que uma unidade tem nos momentos decisivos. Nesse prisma, foi ele o melhor, sem dúvida. Acho, no entanto, que se o “tiki-taka” é o estilo dominante do futebol moderno, era tempo do mundo o perceber e reconhecer realmente. A posse infernal dos espanhóis não se faz, como é óbvio, com um só jogador, mas o seu potencial só é atingido pela qualidade excepcional de alguns dos seus intérpretes. Ora, se o futebol da Espanha não desequilibrou pelos dribles, ou pela capacidade de decisão no último terço. Se o desequilíbrio é a posse, o controlo e a envolvência, então talvez fosse hora de valorizar todos esses atributos também na eleição individual.

Como Cruyff foi a figura do “Futebol Total”, Xavi é a cara do “tiki taka”. Será que, mesmo com o mundo a seus pés, ninguém reconhecerá o verdadeiro impacto das suas virtudes?

O “caso Coentrão”
Um último comentário, bem à margem da final e das grandes decisões. Quero falar de Coentrão e do impacto que teve. Antes do Mundial, Coentrão era uma adaptação e um risco. Agora, é uma revelação e um dos melhores do mundo. Nós, que o vemos semana após semana não podemos acreditar que tenha passado a ser um jogador diferente. São 2 ideias que há muito venho defendendo e que talvez agora façam mais sentido para a generalidade: (1) é muito fácil criar laterais de topo a partir de extremos, tenham estes algumas características para a transição. Se não temos mais em Portugal, é porque houve falta de visão. (2) O nível dos laterais de topo em Portugal é muito elevado e a maioria deles jogaria em boa parte dos principais clubes mundiais.

Espero que o “caso Coentrão” sirva, finalmente, para que algumas conclusões sejam tiradas a este respeito. Que seja contextualizado com exemplos igualmente mediáticos como foram Miguel ou Bosingwa e, já agora, que não se volte a cometer o erro de deixar João Pereira para levar Paulo Ferreira. Ou, pior ainda, fazer jogar centrais, quando se tem nas laterais um dos pontos fortes do nosso jogo.

Para finalizar o tema, não evito recordar este post.



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9.7.10

Diário de 'Soccer City' (#25)

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Como é que se antevê uma final? José Mourinho um dia disse que as finais não são para jogar, que são para ganhar. Mais fácil dito que feito, até porque, como é óbvio, há tantos vencedores de finais como perdedores. Uma coisa é certa, seja épica, banal ou mesmo das piores de sempre, uma final de Mundial será sempre um jogo histórico, visto e revisto por milhares, mesmo décadas após a sua realização. E é essa relevância eterna que penetra no sistema nervoso dos jogadores e que, quem sabe, pode desfazer todas as lógicas. Seja para o bem ou para o mal. Enfim, pior do que prever a final, só mesmo... o jogo do 3º e 4º lugares. Isto para um alguém que não é molusco, claro...

Espanha – Holanda (Previsão: Espanha campeã do mundo)
Na ressaca da meia final com a Espanha, não faltaram especialistas a criticar a atitude alemã. Que foi demasiado defensiva, que não esteve à altura dos jogos anteriores, que isto, que aquilo. Desculpas de quem parece esperar que as equipas joguem sozinhas, ou então que no futebol existam 2 bolas. A Alemanha não foi capaz de se superiorizar frente à Espanha, não porque tenha tido um rendimento inferior aos jogos anteriores, mas porque teve um adversário que condicionou o jogo de forma diferente de todos os anteriores. E esse é o problema com que se deparará agora a Holanda.

É um problema curioso para os holandeses. Nenhum outro país importou com tanto afinco a filosofia do futebol holandês dos anos 70 como a Espanha. Não dá para dizer que a Espanha é uma versão do futebol de Mitchels, mas dá para dizer que é geneticamente descendente desses tempos. Cruyff cresceu com a ideia, desenvolveu-a e transmitiu-a no país que o acolheu. Recentemente, Guardiola, uma espécie de “neto” de Mitchels e “filho” Cruyff, terá dado um novo passo no desenvolvimento do jogo e o que vemos hoje na Espanha não tem nada a ver com Del Bosque, embora seja este quem se prepara para colher alguns louros históricos desta evolução. Del Bosque é uma espécie de barriga de aluguer de toda esta evolução filosófica. Ele, como já fora Aragonês.

Enfim, certo, certo, é que a Holanda tem o inventor da ideia, mas não tem nenhum inventor do antídoto da ideia. Por isso, e porque não tem futebol para contrapor na mesma moeda, Van Marwijk vai ter de fazer como os outros, e passar umas boas noites sem dormir para tentar encontrar solução para aquele que parece o grande enigma do futebol moderno: como tirar a bola a Xavi, Iniesta e companhia?

Lamento desiludir, mas não espero que no Domingo nos caia uma nova solução vestida de laranja. Ou seja, à Holanda restarão as mesmas alternativas dos outros. Esquecer a bola, controlar o espaço e tirar depois partido das suas unidades desequilibradoras para chegar às redes de Casillas. Em tudo isto, porém, há boas notícias para os holandeses. Podem ter um futebol colectivamente medíocre e até cometer vários erros defensivos – como já foi aqui diversas vezes escalpelizado – mas têm, como equipa, sentido de sacrifício e disponibilidade mental para estar bastante tempo sem bola. Mais importante ainda, têm unidades individuais capazes de ganhar um jogo em meia dúzia de jogadas, mais desequilibradoras do que qualquer adversário que a Espanha conheceu, não só nesta prova, mas nos últimos anos.

E é dentro disto que se definirá o jogo. De um lado, a organização espanhola, perante a qual Holanda precisa de se revelar mais capaz do que em outros jogos. Não bastará aglomerar jogadores, é preciso controlar espaços. Espaços como a zona entre linhas que custou o golo de Forlan, ou como as costas da linha defensiva, destroçada por Robinho. Do outro lado, a transição e a inspiração holandesas, depositadas nos ombros de Robben e Sneijder. Se a Espanha voltar a tardar em dar expressão à sua posse, poderá ter de se deparar com problemas como nunca experimentou até aqui. A Holanda não defende tão baixo como Portugal, Paraguai ou Alemanha e, se conseguir situações de transição, lançará o seu quarteto da frente a partir de zonas mais altas, ficando mais curto o caminho para a baliza de Casillas. Outra via para a Espanha poderá ser o pressing, já que, na sua primeira fase de construção, a Holanda será mais vulnerável do que Portugal ou Alemanha, por exemplo.

Enfim, diria que em 10 finais nas mesmas condições, a Espanha ganharia 7. Esta é a boa notícia para os espanhóis. A má, é que só há 1 final...

Uruguai – Alemanha (Palpite: Vence a Alemanha e marca mais do que 1 golo)
Muitos dizem que este jogo não deveria existir. Na realidade, porém, haverá assim tantas más memórias de experiências anteriores?! Os golos são quase sempre presença abundante e não poucas vezes tivemos desfechos inesperados. No que respeita a golos, espero novo festival, já quanto ao desfecho, dependerá muito da atitude das equipas. Como sempre, aliás.

Se o clima é de descompressão, parece-me que a Alemanha é quem tem mais probabilidades de manter a intensidade competitiva em níveis elevados. Somada esta expectativa ao facto dos alemães serem já de si melhores, talvez não seja de excluir a hipótese de uma nova goleada germânica.

Há quem veja o outro lado da moeda, e avance que a motivação alemã será menor pelo facto de serem a formação que mais expectativas tinha para estar na final e aquela que menos valoriza historicamente este jogo. Pessoalmente, creio muito mais na tese do parágrafo anterior, mas veremos.



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7.7.10

Diário de 'Soccer City' (#24)

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Sabe-se agora que não vai ganhar, e também já se sabia que, tudo somado, não era quem melhores probabilidades tinha para o fazer. Ainda assim, no dia em que foi afastada parece-me que é da mais inteira justiça que se comece por fazer uma vénia à Alemanha. Quando se falar de surpresas e sensações desta prova, nomes como Gana, Uruguai ou Holanda virão à baila. Os resultados tornam-no inevitável. Se falarmos de qualidade, porém, ninguém se compara aos alemães. Foram eles a grande lufada de ar fresco desta prova e quem mais se aproximou do seu máximo potencial. Por cá falou-se na importância das 3 semanas de treino antes do Mundial. Para meu desencanto, porém, tanto para Portugal como para a generalidade das formações, esse período serviu para pouco mais do que nada. As desculpas da mediocridade geral sofrem um grande revés quando se olha para o que conseguiu Low nesta Alemanha.

Fica o aviso para Portugal: se o objectivo for mesmo fazer coisas positivas no futuro, é bom que se comece a olhar para o exemplo germânico. Se, pelo contrário, for só para fazer "converseta" como nestes últimos 4 anos, então está tudo bem...


Uruguai – Holanda
Os 5 golos podem dar a sensação de um grande jogo. Mas não foi. O Uruguai pode dar a entender ter sido a revelação da prova. Mas não foi. A Holanda pode parecer ser mais pragmática do que no passado. Mas não é. Fora algumas individualidades – muitas no caso holandês – é tudo bastante medíocre. Isso sim.

O jogo não foi bom, porque nem o Uruguai foi capaz de se organizar suficientemente bem – isso sim, seria uma surpresa! – nem a Holanda teve a audácia para fazer uma exibição que estava perfeitamente ao seu alcance.

O Uruguai não é uma revelação da prova, porque se limitou, simplesmente, a aproveitar a sorte grande que foi o calendário que teve pela frente. Nunca se organizou bem e viveu apenas da qualidade individual de Forlan (que fantástico Mundial!) e Suarez para fazer a diferença em embates medíocres. Chegou à meia final, mas não conseguiu 1 único resultado surpreendente. E isto diz tudo.

A Holanda não é mais pragmática. A Holanda é, antes, mais incapaz. Se fosse pragmática, defendia bem, o que não é o caso. Defende com muitos, é um facto, e respeita equilíbrios tácticos importantes, mas é só. Depois, com as unidades que tem devia fazer muito mais em termos ofensivos, seja em organização, seja em transição. Teve um jogo feliz frente ao Brasil e o resto foi um passeio oferecido pelo calendário. Tudo somado, não vejo crédito suficiente para merecer uma final de campeonato do mundo.

Sobre o jogo, ganhou a Holanda, como se esperava. E ganhou, também como se esperava, apenas e só porque tem melhores jogadores. Mais nada.

Alemanha – Espanha
Sem surpresas, a Espanha confirmou que, por muito bom que fosse o trajecto alemão, o seu favoritismo era intocável. Tal como havia referido na antevisão, foi um jogo dominado pelos momentos de organização, e aí, embora ambos fossem fortes, a Espanha marcou uma esperada diferença. Esperada porque todos conhecemos a unicidade da posse espanhola, mas também porque há uma diferença entre as duas equipas em termos de pressing. E este ponto, embora normalmente desprezado, é fundamental para perceber o jogo.

É que o pressing espanhol é muito mais alto do que o alemão – sempre o foi durante a prova – e isso fez com que o jogo se disputasse muito mais no meio terreno ofensivo espanhol, porque a posse germânica raramente teve capacidade para empurrar as linhas espanholas até à sua área. Foi, portanto, uma parte por diferenças tácticas e outra por diferenças técnicas, que a Espanha se superiorizou. Tudo perfeitamente dentro do previsto, repito.

Para a Alemanha, porém, o facto da Espanha não ter grande capacidade de penetração no último terço poderia ser uma importante oportunidade. Com o passar do tempo, a emoção e ansiedade poderiam tornar o destino mais aleatório do que o jogo indicava em termos de domínio. A Espanha acelerou e em determinados momentos poderia ter conseguido o golo. Acabou por fazê-lo de bola parada, o que não deixa de ser duplamente irónico. Primeiro porque nas bolas paradas estava uma oportunidade mais evidente para os germânicos, e depois porque se a Espanha foi melhor, seguramente que não foi pelas bolas paradas...

Enfim, passou a Espanha, e passou bem. Simplesmente porque é melhor.



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6.7.10

Diário de 'Soccer City' (#23)

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A antevisão dos 2 jogos da meia final. Uma coisa é certa: o que vamos ver, será História...

Uruguai – Holanda (palpite: Vence a Holanda nos 90 minutos)
Não é difícil antever o favoritismo dos holandeses. O Uruguai pode ser a última esperança dos Sul Americanos para contrariar o poderio europeu, mas a sua presença nas meias finais está mais ligada a uma sequência feliz de situações do que a um grande mérito próprio. Basta dizer que em nenhuma ocasião os uruguaios bateram uma equipa que lhes fosse teoricamente superior. Ainda assim – e esta uma ideia que repito – em apenas 2 jogos, qualquer equipa pode sonhar com o título.


Olhando para trás, não espero um jogo muito aberto. O Uruguai jogará desfalcado de algumas unidades bem importantes e essa limitação só deverá servir para acentuar a tendência de Tabarez para optar pelos 3 centrais. O mesmo filme do nulo frente à França, logo no primeiro dia. Se assim for, a Holanda encontrará mais facilidades do que o esperado. O espaço entre linhas poderá ser um dado decisivo, e poderá até catapultar Sneijder para uma candidatura ainda mais séria a melhor jogador do mundial. A ele junta-se obviamente Robben, compondo um duo temível, não só pela qualidade individual como pela vocação que ambos têm para os grandes momentos.

Enfim, se este cenário se confirmar, só um grande Forlan poderá fazer do jogo algo que não seja um contra relógio para os holandeses. Será decisivo o “timing” do seu primeiro golo e se ele realmente surgir do lado laranja, então, aí sim, poderemos ter uma viragem no cariz do jogo. O Uruguai arriscará mais, expor-se-á mais a novo prejuízo mas também poderá ficar mais perto de marcar. É que do lado holandês, como já discuti, a eficácia defensiva não é propriamente um dado adquirido.

Este é o cenário que vejo como mais provável, mas está longe de ser o único possível. Numa meia final com esta importância, o peso emocional poderá provocar reacções tanto inesperadas como decisivas para qualquer dos lados...

Alemanha – Espanha (Palpite: passa a Espanha)
Influenciado pelo inevitável peso dos resultados, o mundo começou por desconfiar desta Alemanha nos 4-0 contra a Austrália. "Desconfiar", apenas, porque houve sempre quem dissesse que fora a Austrália a principal responsável por um resultado tão avolumado. A derrota frente à Sérvia foi gelo suficiente para arrefecer qualquer entusiasmo generalizado sobre a fase de grupos e poucos foram aqueles que apontaram o favoritismo dos alemães em alguma das 2 eliminatórias da fase decisiva. O que se passou, todos o sabemos: qualidade e, outra vez,“chapa 4” (desta vez, sem australianos para responsabilizar). Enfim, a Alemanha não é uma equipa diferente daquela que actuou no primeiro dia, mas apenas agora parece ser um candidato unânime. E logo agora, que defronta a Espanha.

De facto, mesmo com o mais fantástico trabalho colectivo da prova (já o escrevi há uns tempos, mas agora é capaz de ser mais consensual), não me parece que, desta vez, a Alemanha parta como favorita para o embate contra a Espanha. Seguramente será mais do que em 2008, quer porque está mais forte, quer porque a Espanha não entusiasma tanto, mas não ainda suficiente para partir na “pole position”. Os espanhóis – escrevi-o ainda ontem – beneficiam em demasia da qualidade individual e das rotinas do Barcelona e são, desde o inicio, a equipa mais forte.

Quanto ao jogo, juntam-se as duas equipas mais fortes em organização ofensiva. Nenhuma treme de medo ao primeiro esboço de pressing e ambas trabalham muito bem as soluções de passe. Defensivamente, a Espanha arrisca mais subir as linhas e a Alemanha – temendo a pouca presença numérica no miolo – encolhe-se mais. Talvez seja estranho dizê-lo depois da primeira frase deste parágrafo, mas talvez seja em transição que residirão as melhores hipóteses de ambas as equipas. Quem pressionar melhor e provocar mais erros no ponto forte do adversário poderá tirar partido para levar vantagem. Em 2008 não havia dúvidas de que seria a Espanha a fazê-lo, mas desta vez a parada prevê-se mais equilibrada.

Outro aspecto importante – como se viu nos quartos – serão as bolas paradas. Se no jogo corrido, a Espanha tem favoritismo, aqui serão os alemães a merece-lo. Não só porque são naturalmente fortes, mas porque os espanhóis defendem homem-a-homem, ao contrário do que a maioria dos seus jogadores estão habituados. E, já que estamos nos detalhes, junto os guarda redes como figuras igualmente importantes. Numa fase de tanta tensão e com a polémica Jabulani a ajudar, muito se pode decidir nas balizas. É que se um erro pode acontecer a qualquer um, também temos potencial para uma exibição memorável de algum dos lados.

Finalmente, falar da ausência de Muller. Normalmente não gosto muito de sobrevalorizar o peso de individualidades e, como já várias vezes expliquei, os nomes com mais relevância no jogo alemão são os nucleares Schweisteiger e Ozil, “pivots” da acção colectiva em todos os momentos do jogo. No caso, porém, Muller é uma ausência importante e que abre lugar a um potencial dilema para Low. O mesmo se passaria com Podolski, por exemplo, mesmo se os seus movimentos são manifestamente diferentes. É que os alas no modelo alemão são jogadores que na maioria dos modelos e equipas jogarão como avançados, partindo de zonas centrais. O objectivo, precisamente, é tirar partido dos seus movimentos diagonais e competência na zona de finalização. Sem estas características dificilmente teríamos tido tantos golos germânicos na competição. A questão é que não é fácil encontrar uma alternativa com as mesmas características e tentar fazê-lo pode acarretar alguns riscos. Low poderá utilizar um extremo mais clássico, como Marin, mas também poderá ser tentado a optar por um elemento mais vocacionado para apoiar Khedira e Schweinsteiger. A ver vamos...



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5.7.10

Diário de 'Soccer City' (#22)

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Embora tardiamente, não quero passar às meias finais, antes de deixar umas breves notas sobre os quartos de final. Na verdade, não há muito a acrescentar às antevisões que fiz, uma vez que os jogos corresponderam em quase tudo às expectativas que tinha. Antes do comentário jogo-a-jogo, porém, deixo uma nota sobre a actualidade extra-Mundial e o funcionamento do blogue. É certo que acabamos de assistir a uma das mais importantes transferências da história do futebol português e que, entretanto, também já outras definições foram conhecidas e concretizadas no mercado. Ainda assim, manterei o plano de me dedicar exclusivamente ao Mundial, prometendo a partir da próxima semana, aí sim, concentrar atenções no mercado e na preparação para a próxima época de clubes.


Brasil – Holanda
Foi o único jogo em que o palpite que deixei não se concretizou, mas, na verdade, o curso do jogo foi muito próximo do previsto. A única surpresa esteve, primeiro, na entrada algo permissiva dos holandês em termos defensivos e, depois, na eficácia laranja que conduziu à reviravolta.

O primeiro dado a merecer atenção é o que está por trás do golo brasileiro. Já aqui falei várias vezes das fragilidades individuais dos defensores holandeses e esse lance explica bem o que há de problemático no seu comportamento. Tudo está relacionado, parece-me, com uma carência na formação holandesa. A equipa tem preocupações tácticas correctas, mas individualmente os defensores holandeses são displicentes na forma como protegem as zonas mais importantes em termos defensivos e, noutros casos, assumem riscos excessivos em posse. Uma carência que se verifica semana após semana na liga interna e que explica também o evidente contraste entre o sucesso da escola holandesa em posições ofensivas e a modéstia revelada na zona mais recuada do campo. E assim, a Holanda se viu numa desvantagem potencialmente decisiva. Porque não cuidou as prioridades dos espaços, porque ignorou as referências zonais e colectivas e porque se deixou levar por aquilo que cada adversário, individualmente, ia fazendo.

Se a Holanda falhou no seu ponto fraco, deve à eficácia e a um capricho do destino o facto de não ter pago com a eliminação. Isto porque, e apesar de ter conseguido alguns períodos de domínio territorial, nunca foi capaz de por em perigo a baliza de Julio César. Aliás, até à reviravolta ter sido consumada, não se contabilizaram quaisquer oportunidades significativas de golo dos holandeses e, pode dizer-se, foi sempre o Brasil quem mais ameaçou.

Mas este foi um jogo de topo, decidido no pormenor. Pormenor das bolas paradas e pormenor da capacidade de reacção emocional às incidências do jogo. A Holanda foi eficaz e o Brasil perdeu a cabeça.

Uruguai – Gana
O jogo louco confirmou-se. De parte a parte, a qualidade individual dos atacantes superou em muito o rigor táctico de ambos lados. Erros em posse, espaço entre linhas e alguns desequilíbrios. O resultado, claro, foi um jogo entretido, bem ao gosto de quem tem no entretenimento o condimento favorito num jogo de futebol.

Do ponto de vista da análise, não há muito a dizer de um jogo destes. Porém, não quero deixar de comentar 2 detalhes em relação às grandes penalidades. Primeiro, sobre Gyan. Entre coragem e imprudência, não sei o que haverá mais naquele primeiro penalti da série decisiva que saiu ao ângulo. Depois, sobre Mensah. Para mim, é incompreensível como um profissional aponta um penalti com tão pouco balanço.

Alemanha – Argentina
E, de novo, o futebol foi respeitado. A qualidade colectiva superou o talento individual. Não tinha de ser assim, o jogo poderia ter conhecido outro caminho se fosse conhecendo outras condicionantes, mas, creio, seria difícil à Argentina durar muito mais tempo com tantas insuficiências.

Do lado argentino, confirmou-se o equívoco do posicionamento de Messi, demasiado longe da zona onde o seu futebol faz mais sentido. Confirmaram-se também todas as insuficiências tácticas, ao nível do equilíbrio e da preocupação com a transição ataque-defesa, bem como a exposição que havia alertado para o lado direito argentino, que acabou por ser o caminho para o sucesso na estratégia alemã.

Do lado alemão, confesso, a exibição nem sequer superou as minhas expectativas. Como esperava, teve repetidas oportunidades para actuar em transição e, também sem surpresas, fê-lo sempre com um entrosamento colectivo bastante elevado. No jogo alemão, porém, nem todas as fases foram óptimas e a equipa acabou por passar alguns períodos em que falhou demasiado no primeiro passe de transição e permitiu um domínio continuado dos argentinos que, se tivesse tido um momento de inspiração, poderia ter virado a face do jogo. O tempo, porém, acabou por tornar a vitória alemã num desfecho inevitável.

Individualmente, é difícil fazer destaques numa exibição que, como sempre, foi conseguida pelos méritos do colectivos. Ozil não esteve tão influente como nos últimos jogos mas Schweinsteiger confirmou novamente ser um dos grandes destaques deste mundial. Mais influentes estiveram Khedira e, sobretudo, Muller que, com Podolski, beneficiou muito do espaço em transição. Se colectivamente a Alemanha foi sempre melhor, fica-me a sensação que com uma definição individual mais constante, o jogo poderia ter sido decidido bem mais cedo.

Espanha – Paraguai
A Espanha acabou por vencer sem sofrer, como havia sugerido, mas este foi o jogo que menos se ajustou às projecções que fizera. Sobretudo pelo lado espanhol. O domínio e a qualidade da posse existiu, e a qualidade defensiva dos paraguaios também não foi melhor do que se pensava. O que aconteceu foi que a Espanha raramente deu nota de ter um plano para entrar na área paraguaia e, por isso, não só teve um número inesperadamente reduzido de oportunidades como deu oportunidades para que os paraguaios fossem crescendo em termos emotivos.

Os espanhóis, tudo somado, serão a melhor equipa entre os 4 semi finalistas, mas não me parece que seja uma equipa optimizada. Longe disso. Valem sobretudo pelas características das suas individualidades e pela importação de algumas rotinas do fantástico Barcelona. De resto, faz sentido ter Villa a descair sobre a esquerda e não há nada de errado com a mobilidade de Torres. O que não pode acontecer é a equipa utilizar os corredores para penetrar e depois não ter soluções de passe na zona interior. O trabalho de Del Bosque não podia ser mais fácil, mas ele parece querer complicá-lo. Se o Barcelona tem rotinado um modelo fantástico em 4-3-3, se Xavi, Iniesta e Busquets são tantas vezes os 3 do meio campo, para que é que é preciso mais um jogador?! Tudo seria bem mais fácil se estes 3 jogassem no meio e se a eles se juntasse um extremo direito (Navas ou Pedro), com Villa à esquerda e Torres ao meio. A Espanha não deixa de ser favorita para todos os jogos que fizer, mas não escolheu o caminho mais curto...



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2.7.10

Diário de 'Soccer City' (#21)

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Sexta Feira marca o inicio da recta final. 8 equipas discutem o lugar entre a elite, entre aqueles que jogam o número máximo de partidas no Mundial, e entre aqueles que ficam, pelo menos, a um pequeno passo do sonho. Sim, porque a partir das meias finais qualquer equipa pode sonhar com o lugar mais alto. Antes dos jogos, deixo uma pequena antevisão pessoal e, para apimentar a coisa, também um pequeno prognóstico sobre cada um dos jogos. Apenas uma brincadeira, não se trata de qualquer candidatura a “mestre Alves da blogosfera”...

Brasil – Holanda (Palpite: empate ao intervalo)
Conjuntamente com o Alemanha – Argentina, é o prato forte da ronda. Tudo somado, creio que o Brasil merece nesta altura honras de principal candidato ao título e, logo, também de favorito a seguir em frente. É-me mais fácil perceber o que vale o Brasil do que a Holanda, porque os brasileiros já vêm jogando da mesma forma há vários anos e porque a Holanda ainda não foi testada seriamente nesta prova. De qualquer modo, estas são duas das equipas que mais consistência revelaram na preparação para a prova. Se mais provas faltassem, bastaria evocar o tal pormenor discutido aqui há uns dias, da utilização de um 11 base, já previsto na própria numeração das camisolas.

Por tudo isto, não espero qualquer surpresa táctica por parte dos treinadores, mas antes um reforço de confiança nos respectivos modelos. Se tal acontecer, vamos ter um jogo fechado, focado nos equilíbrios tácticos e no controlo do espaço. Mas vamos ter, também, qualidade técnica de sobra, e possibilidade de desequilíbrios individuais. Especialmente em transição, ou na sequência de bolas paradas – cada vez mais um aspecto importante nesta fase decisiva. O primeiro golo valerá ouro, porque obrigará quem o sofrer a correr mais riscos e dar ao adversário a possibilidade de jogar como mais gosta. Ambos o sabem.

Uma palavra para dois “espalha brasas”. Dois jogadores que desprezam tudo isto, que não pesam duas vezes quando podem arriscar o desequilíbrio e que não têm qualquer receio da perda ou da consequente transição: Robben de um lado, Robinho do outro. Quem sabe um momento de magia de um dos 2?

Uruguai – Gana (Palpite: ambas as equipas marcarão no jogo)
É verdade que, um pouco na norma de todo o torneio, nenhuma das equipas participou num festival de golos. Desta vez, porém, acredito que possa acontecer um jogo com golos em ambas as balizas, e talvez mais do que um. É que – e também dentro daquilo que foi norma – Uruguai e Gana não são propriamente equipas fortes em termos de organização defensiva. Mesmo se ambas não hesitam em sobrepovoar-se no centro da defesa. Menos quantidade mas mais qualidade, têm as duas na frente. Asamoah, Boateng, Ayew e Gyan de um lado. O tridente Cavani, Suarez e Forlan do outro. No caso de Gyan e Forlan, uma grande exibição poderá lançar qualquer um dos casos para os destaques de qualquer livro de memórias deste Mundial.

Somadas todas as expectativas, torna-se difícil antever um vencedor, ou mesmo um claro favoritismo. Ambas as equipas darão oportunidades ao adversário e o aproveitamento das mesmas dependerá muito da inspiração dos intérpretes. Talvez os amantes da astrologia nos possam elucidar melhor quem estará mais favorecido pelo alinhamento das estrelas na noite de Sexta...

Argentina – Alemanha (Palpite: passa a Alemanha)
Nem sempre confiei nesse princípio – que não é, nem de perto, 100% seguro no futebol – mas o Mundial tem-lhe sido fiel. Falo do princípio de que quem é melhor ganha, e quem é pior paga a factura. Foi assim com os horríveis casos de França e Itália, eliminados mais pela lógica do jogo do que pelas projecções iniciais. Foi assim, também, em todos os duelos decisivos. Não houve surpresas, e quem foi melhor ganhou sempre. Se a tendência se repetir, seguirá em frente a Alemanha.

Já falei bastante das 2 equipas e perceber-se-á, no somatório dessas análises, que vejo este duelo como o confronto entre os dois candidatos que menos semelhanças em termos de virtudes. A Argentina é o talento puro, tão puro que a sua valia quase se resume à soma das suas individualidades. A Alemanha, pelo contrário, não deslumbra individualmente, mas consegue formar um colectivo muito competente em todos os momentos do jogo.

Dentro das 'nuances' que poderão definir a partida, começo por Messi. Maradona resolveu dar-lhe liberdade, diz-se, mas na verdade Messi joga longe da zona onde as suas decisões fazem mais sentido. Messi pensa no desequilíbrio porque é essa a sua vocação, e embora tenha capacidade para desequilibrar a partir de qualquer zona, não é na construção que se aconselha o risco. Por isso é que o papel de Messi pode ser um pau de dois bicos e um dilema para o próprio Low. É que a dupla de médios da Alemanha poderá ter alguma dificuldade em controlar o espaço entre linhas, e o corredor central, com Messi nesta posição, é aquele onde a Argentina consegue ser mais perigosa. Se Low encontrar forma de bloquear Messi, terá o jogo na mão. Não só porque bloqueará o jogo ofensivo do adversário, como porque usufruirá de várias transições perigosíssimas. Caso contrário, Messi, Tevez e o corredor central poderão ser um sarilho para a Alemanha que, neste cenário, só ganhará o jogo se tiver um dia francamente inspirado na frente.

Outras 'nuances' há, mas do lado Argentino. Como o risco em posse, como o desequilíbrio táctico – atenção ao lado direito! – ou como a forma como a sua defesa "afunda", abrindo o campo de ataque aos adversários. Estas 'nuances', porém, não levantam qualquer duvida porque Maradona nunca se importou minimamente com elas, e não é agora que o vai fazer. Ficará apenas por saber até que ponto os alemães as saberão aproveitar.

Paraguai – Espanha (Palpite: Espanha vence sem sofrer)
Depois do tropeção inicial e de algumas dificuldades na primeira hora frente a Portugal, parece-me agora muito complicado que a Espanha fique fora das meias finais. Salvo qualquer condicionante ou surpresa no jogo, creio, isso não acontecerá.

O Paraguai foi das selecções que menos fez para estar onde está. Ganhou apenas 1 jogo em todo o Mundial, empatou mesmo com a Nova Zelândia e precisou de ser feliz nos penaltis para ultrapassar o Japão. Frente à Espanha não veremos uma equipa tão inocente como foi o Chile, mas também não veremos grandes méritos defensivos. Mais quantidade do que qualidade é o que espero dos paraguaios em termos defensivos. Um jogo de sentido único e que não me parece que chegue, sequer, ao intervalo sem termos a Espanha em vantagem. Se assim for, dos paraguaios dependerá apenas a definição do “score” final, porque a Espanha irá dar prioridade ao controlo do jogo e da bola, muito mais do que arriscar o segundo golo.



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1.7.10

Diário de 'Soccer City' (#20)

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Quase 3 semanas depois, os 2 primeiros dias de pausa. Um período que, para além do descanso, pode servir também para reflectir sobre o que já vimos. Muito já tenho escrito sobre a competição, e outro tanto tem passado pela caixa de comentários. Ainda assim, porém, a prova chega agora a um ponto em que 3/4 das equipas já se viram afastadas do sonho, e quase 90% dos jogos já foram disputados. Ainda faltam todas as grandes decisões, é certo, mas há muitas conclusões que já podem ser tiradas. Aqui ficam algumas, resumidas em 3 tópicos...

Pouca qualidade colectiva
Comecei o Mundial a comentar a desilusão que fora o empate entre França e Uruguai e a projectar a dicotomia entre o potencial individual e a desorientação organizacional dos sul americanos. Na verdade, porém, não foram apenas as equipas sul americanas a mostrar carências ao nível da organização colectiva. Foi um pecado geralmente partilhado por todas as selecções e um choque para quem acaba de vir de uma época clubistica, onde a optimização dos processos colectivos não tem comparação possível. Provavelmente ninguém superará as catastróficas performances de França e Itália, mas o mal foi generalizado. De tal forma o foi, que me parece justo, um dia depois das criticas, referir que o nível colectivo de Portugal não foi, nem de perto, dos piores da competição. Apenas acho que se deve exigir bem mais do que aquilo que vimos.

Eclipse das estrelas
Por cá falamos muito de Ronaldo, mas nem Messi, nem Rooney, nem Ribery, nem Torres, nem Gerrard, nem Lampard têm estado ao melhor nível. Não será uma novidade, mas esta é uma competição ainda orfã de uma grande figura, e, vendo bem as coisas, é bem provável que as unidades mais importantes acabem por surgir de nomes pouco esperados. Ainda assim, creio, ainda vamos ter um dos “tubarões” a emergir na recta decisiva.

A importância do calendário
Competências e incompetências à parte, parece-me claro que o calendário faz mesmo muita diferença. O fiasco de candidatos como a França e Itália, abriu espaço a que Uruguai e Paraguai tivessem a vida facilitada no acesso às fases finais. Mas não foram casos únicos. O Gana, por exemplo, discutirá com os uruguaios um lugar no quarteto final, sem que alguma destas selecções tenha batido, sequer, um candidato ao título. O mesmo se pode dizer da Holanda, que tem o primeiro obstáculo realmente complicado apenas nos quartos de final. Caso inverso terá, por exemplo, a Alemanha. Depois do clássico com a Inglaterra, segue-se a Argentina e no caminho para a final ainda está um provável cruzamento com a Espanha. Tal como atrás, quero deixar uma nota sobre a selecção portuguesa e especular que com a sorte de outros, provavelmente chegaríamos bem mais longe. Mais uma vez, porém, as criticas têm muito mais a ver com uma exigência de qualidade do que com os resultados propriamente ditos.



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30.6.10

Diário de 'Soccer City' (#19)

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Ambição. É uma maneira comum de abordar o jogo. Dir-se-á que nos faltou ambição, porque não tivemos a ousadia de discutir o jogo de forma mais aberta desde o inicio. Não que fosse preciso, mas a última meia hora provou precisamente que discutir o jogo, frente à Espanha, é algo que não estava ao nosso alcance. É por isso que não hesito em riscar “ambição” como a falha fulcral de Portugal no jogo. Em vez disso, opto por “qualidade”. O que faltou a Portugal foi qualidade. Qualidade colectiva, isto é. Qualidade para poder ter ambição e para poder escolher discutir o jogo. Sei que os oitavos de final e o “umzerinho” levarão a óptica resultadista a chutar para o lado no que respeita às consequências do que se viu. A meu ver, no entanto, em 2010 a qualidade foi medíocre de mais para ser ignorada.

Sobre o jogo, e acho justo começar por dizê-lo, não tenho nada a apontar aos jogadores. Individualmente deram tudo, estiveram concentrados e determinados. Infelizmente, um jogo que foi dividido em termos de oportunidades durante 1 hora acabou por se desfazer em 2 minutos de desequilíbrio emocional. Não teve a ver com as substituições, que nada alteraram em termos tácticos, mas sim com ocasião de Llorente na marca dos 60’. Foi esse momento que despertou os espanhóis para o ascendente que lhes valeu a vantagem.

O problema, claro, veio a seguir. Quando Portugal deixou de poder esperar, de poder controlar o espaço e a ter de dominar a bola. Aí, tudo foi diferente. “Tiki-taka”, posse, passes... chame-se o que se quiser. Meia hora de total impotência, e a prova de que a Portugal nada mais restava do que abordar o jogo como abordou e esperar poder ter a sorte de marcar primeiro. Infelizmente não foi assim.

Qualidade
Mas vamos então à qualidade de que falei inicialmente.

- Diz-se que Portugal defendeu bem, o “score” confirma-o, é verdade, mas esconde também o outro lado da questão. Mais do que bem, Portugal defendeu muito. Esteve sempre equilibrado, arriscou o minímo em posse e contou com bons jogadores, do melhor que há na prova em termos defensivos. Colectivamente e tacticamente, porém, tenho mais criticas do que elogios. A Portugal exigia-se que fosse capaz de defender alto, de subir linhas e de pressionar o adversário desde o primeiro passe. Viram o que aconteceu quando a Espanha resolveu trocar a bola?

- Passamos ao momento ofensivo e, para tal, talvez o melhor seja olhar para a Alemanha. Não tem nenhum desequilibrador marcante em termos individuais e, apesar disso, é das equipas que melhor ataca neste mundial. Porquê? Porque a Alemanha, ao contrário da maioria das equipas, tem um verdadeiro modelo de jogo. Trabalhado de forma colectiva e com rotinas conhecidas e interpretadas por todos. A Portugal há muito que isto é pedido, mas infelizmente dá ideia que o modelo português se resume a um sistema. Por isso, depende quase a 100% da inspiração das suas individualidades.

- Outro aspecto que não foi corrigido, foi a situação de Ronaldo. Continuamos a criticar o jogador, quando o erro está na equipa e na forma incompetente como tira partido de um dos mais decisivos jogadores do futebol mundial. Percebe-se a ansiedade de Ronaldo em ser decisivo. Mal ganha a bola tenta acelerar, driblar ou rematar. Esteja a 15 ou 50 metros da baliza. Isto não acontecia no Manchester, nem acontece em Madrid. Acontece em Portugal, e acontece porque, em vez de se reproduzirem as condições e exigências em atinge o sucesso, época após época, insiste-se em pedir-lhe que seja uma espécie de santo milagreiro do futebol nacional, coisa que obviamente não pode ser.

- Por fim, falar de um pormenor que me parece sintomático. Ontem falei da numeração holandesa e do planeamento de um modelo e de uma forma de jogar. Queiroz chegou a falar da importância das 3 semanas e eu, embora não convencido, achei que valia a pena acreditar (na verdade, não havia alternativa!). O que sucede é que Portugal adoptou, em 2 dos 4 jogos que realizou, uma estratégia completamente diferente daquela que havia sido testada em todos as ocasiões anteriores. Uma estratégia que notoriamente precisava de isolar Ronaldo na frente e ter profundidade nos flancos, ao estilo do que aconteceu várias vezes no Manchester. Ora, Queiroz não só levou poucos extremos, como se deu ainda ao luxo de substituir Nani com Amorim. Frente à Espanha, Portugal não tinha ninguém indisponível, mas também não tinha gente suficiente para desempenhar de forma ideal as funções previstas na estratégia adoptada. O que me diz tudo isto? Que Portugal não planeou nada disto e que apenas o decidiu porque, como todos percebemos, não foi capaz de ter qualidade para mais.


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29.6.10

Diário de 'Soccer City' (#18)

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Já se desconfiava, e o caminho começa confirmar isso mesmo: entre Brasil e Holanda, sairá um finalista do Mundial 2010. Os dois defrontam-se agora num dos mais interessantes embates dos quartos de final, e seja quem for o vencedor recolherá sempre amplo favoritismo na passagem à final. Principalmente se for o Brasil. Enfim, antes disso tudo vale a pena olhar um pouco para os jogos do dia. Mas vale apenas por razões de reflexão sobre o que se viu, porque quanto a emoção, confesso, não poderia ter havido dia mais previsível do que o terceiro dos oitavos de final...

Holanda – Eslováquia
Sobre o primeiro jogo, de facto, não tenho muito a dizer. A Eslováquia foi dos que menos fez para chegar aos oitavos e se há alguma coisa que este Mundial nos tem ensinado é que é mesmo preciso jogar para ganhar, poque milagres não tem havido. E assim foi, novamente.

Mas quero deixar algumas notas sobre o candidato, a Holanda: (1) Primeiro, para reforçar a ideia de que é uma equipa que, tendo as suas principais debilidades na cultura defensiva – colectiva e individual – das suas unidades mais recuadas, não me parece das piores deste Mundial. Nem de perto, nem de longe. À beira de formações como o Gana, o Uruguai ou a Argentina, a Holanda é uma perfeição defensiva. (2) Segundo, para destacar o regresso de Robben. Apesar da qualidade individual das suas unidades ofensivas, a verdade é que o futebol holandês raramente tem merecido grandes elogios pelo que faz quando tem a bola. Robben é um dos jogadores mais desequilibrantes do futebol actual. Adora o risco, e dos seus pés saem várias perdas e transições. O que sai também são lances decisivos com uma frequência assustadora. Será o “abre latas” da laranja. (3) Finalmente, referir uma curiosidade. A Holanda jogou numerada de 1 a 11. Não sei se mais alguma equipa o fará neste mundial (duvido!), mas este dado não é uma mera curiosidade. Basta recordar a passagem de Adriaanse pelo Porto, para perceber que os números são mais do que um capricho. São também uma indicação do posicionamento táctico de quem os traz nas costas. É uma curiosidade que vale o que vale, mas que indica, pelo menos, que as coisas não são feitas por acaso na equipa holandesa.

Brasil – Chile
O Chile até poderia ser das formações mais interessantes em alguns aspectos deste Mundial, mas se me perguntassem qual o embate mais previsível dos oitavos, não hesitaria em apontar para este.

É bonito entretermo-nos com um futebol técnico e com boa qualidade colectiva quando em posse, mas torna-se para mim difícil perceber o que espera Bielsa de um jogo contra o Brasil, mantendo certas debilidades crónicas na sua equipa. Será que ele acreditava ter alguma hipótese de ganhar? Francamente, não entendo...
O Brasil é uma equipa obcecada com o equilíbrio táctico, que adora jogar em transição e que procura aproveitar a eficácia das suas investidas ofensivas para ganhar vantagem. O Chile, para os brasileiros, era o adversário perfeito e não é por acaso que quase sempre sai goleado. Sai e sairá de novo, se voltar a repetir a receita...

Comecemos pelo primeiro golo. Já o tinha escrito há muito e era improvável que a factura não acabasse por ser paga. Como é que é possível pensar em fazer carreira num Mundial com uma equipa que não tem um único jogador utilizado acima do 1,85m, e onde apenas 5 dos 14 que jogaram ultrapassam, ainda que marginalmente, o 1,80m?! Não admira que sofressem um golo pelo ar, e não admiraria que fosse também essa uma via privilegiada para o Brasil marcar a diferença caso o nulo se tivesse mantido por mais tempo.

Mas há mais... Se o Brasil gosta da transição, nada como uma equipa que, apesar de boa em posse, não percebe a importância dos equilíbrios tácticos e que assume um risco absurdo para a natureza do jogo que está a jogar. Perfeito para Dunga. Foram 3, e foram apenas porque os brasileiros resolveram trocar a eficácia pelo brilhantismo individual na conclusão de algumas transições quando jogo já estava mais do que sentenciado.

Diria que o Chile esteve algures entre o sofisma e o conto de fadas, mas inclino-me bem mais para a segunda hipótese. Mostrou-nos uma ideia bonita e coerente, sem dúvida, mas nunca com potencial para enganar alguém. Todos sabíamos que, por mais bonita que fosse a princesa, nenhum sapo viraria príncipe...



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28.6.10

Diário de 'Soccer City' (#17)

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O dia mais importante do Mundial até ao momento. Teve entretenimento, emoção e grandes estrelas. Todos os condimentos para ser um grande dia para o futebol. O que todos sabemos, porém, é que este dia ficará na História dos mundiais como um dos mais polémicos de sempre. De repente, o mundo deu de caras com as fragilidades do jogo, e com erros humanos que – ao contrário do que muitas vezes se diz – não só não deviam fazer parte do jogo, como seriam facilmente evitáveis. Como sempre, não vou falar de arbitragens, mas, porque não dá para contornar um “monstro” destes, não poderia deixar de começar por este apontamento. Afinal, este até poderá ter sido um excelente dia para o futebol. Assim alguém queira...

Alemanha – Inglaterra
Polémicas à parte, creio que já poderemos anunciar um vencedor: Joachim Low. Ainda vou bem a tempo de ser surpreendido por algum outro concorrente, mas duvido seriamente que tal aconteça. Esta Alemanha não tem nenhuma estrela do futebol mundial, e pode até dizer-se que tem algumas carências em determinadas posições. Pode dizer-se, por isso, que está longe de ser uma potência em termos individuais, mas é-o seguramente em termos colectivos. E isso deve-se àquele que é o treinador com melhor trabalho neste mundial.

No lançamento do jogo tinha falado da maior qualidade colectiva dos alemães, mas não evitei deixar a porta aberta para um brilharete inglês. Pela seu potencial e pela forma como chegou até este mundial. Mais uma vez, porém – e é um dado comum nesta prova – foi a lógica do jogo que vingou. Ou seja, ganhou quem era melhor e não tivemos nenhuma surpresa neste sentido.

Como pode a Inglaterra ser tão vulnerável em posse? Como pode ter tantas dificuldades em encontrar soluções de passe? Como pode um central como Terry ter uma abordagem tão desastrosa a uma primeira bola? Como pode uma defensiva perder-se tão facilmente com as movimentações germânicas? Como pode Johnson não fazer falta sobre Schweinsteiger numa situação de 3x2 e quando ainda não tinha um cartão amarelo? Como pode Barry jogar? Tudo perguntas para Capello. Quanto a mim, para todas elas tenho a mesma resposta: não devia poder.

Sobre a Alemanha, a confirmação de uma qualidade que não enganou desde o primeiro jogo – a Sérvia não foi mais do que um acidente. Os melhores, para mim, voltaram a ser Schweinsteiger e Ozil. A espinha dorsal da equipa, e a grande injecção de qualidade desde o Euro 2008. Desta vez, porém, há também que deixar uma palavra de realce para o notável jogo do tridente ofensivo: Podolski, Klose e Muller. Todos eles tiveram uma movimentação excelente, permutando de forma notável com as movimentações de Ozil, e abrindo crateras numa defesa inglesa que sucumbiu sempre por onde era mais proibido: a zona central.

Argentina – México
E a Argentina passou mais uma barreira. Não começou por ser fácil, mas acabou por sê-lo realmente. O México tinha tudo para fazer um jogo mais inteligente e para explorar melhor as fragilidades defensivas dos argentinos. Até começou por fazê-lo, mas, creio, acabou por pagar a factura de não ter um plano de jogo tão claro como aquele que apresentou frente à França.

Não que esperasse uma grande qualidade táctica dos mexicanos, mas de facto pensei que pudessem fazer melhor. Franco não jogou de inicio e a possibilidade de o utilizar como “pivot” para as primeiras bolas não foi repetida. O facto de Messi jogar demasiado baixo e decidir em zona de construção como se estivesse nas imediações da área, também não fez parte das prioridades no plano estratégico mexicano. Por fim, claro, há que falar de mais um erro próprio de divisões amadoras. Algo que não pode acontecer, mas que se tornou numa espécie de lugar comum neste Mundial.

Tudo isto foi demasiado para que os mexicanos pudessem sobreviver, e assim permanece viva a pergunta: será possível esta Argentina ser campeã Mundial?



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27.6.10

Diário de 'Soccer City' (#16)

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Terão faltado as estrelas, os grandes nomes, mas, para quem gosta de misturar futebol com entretenimento, terão sido bons os primeiros jogos a eliminar do Mundial 2010. Pelo menos, o segundo foi. Pessoalmente, também gosto de ver velocidade e emoção, mas não prefiro esses condimentos à qualidade. Gostos! Ora, é precisamente no que respeita à qualidade que este Mundial – e este é um comentário que me recordo ter repetido durante o último Europeu – não pode deixar de desiludir. Talvez fosse expectável, mas é impossível não se sentir o choque qualitativo entre clubes e selecções. E é por aqui que quero começar por pegar no comentário aos dois primeiros embates dos oitavos de final.

Do Uruguai, já se sabia: a qualidade individual é o alicerce para o sucesso, enquanto que as limitações colectivas serão sempre o seu grande obstáculo. Não que os uruguaios tenham entretanto repetido os erros tácticos do jogo inaugural, mas porque não conseguem nunca deslumbrar em termos colectivos. E, mais uma vez, frente à Coreia foi assim. Apesar de ter tido o jogo sempre a seu favor e contar, claramente, com mais qualidade, o Uruguai raramente dominou o jogo. Pelo contrário, consentiu que uma frágil Coreia – e já vou a ela – mandasse continuamente no jogo, que empatasse e que chegasse, até, a ameaçar a reviravolta. Não aconteceu porque, mais uma vez, a qualidade individual falou mais alto.

Sobre os coreanos, confesso, tinha algumas expectativas. Não tanto em termos individuais, mas em termos colectivos. A verdade é que a Coreia desiludiu e pagou bem caro esse preço. Jogar contra um adversário mais forte individualmente exigiria mais concentração e eficácia defensiva para, primeiro, não oferecer nada ao adversário e, depois sim, tentar tirar partido dos erros que acontecessem do outro lado. Ora bem, a Coreia começou cedo por fazer o oposto do que precisava. Ofereceu um golo de forma primária e depois – muito devido às limitações da generalidade dos seus jogadores – acabou por não conseguir compensar esse prejuízo.

Mas a história da eliminação coreana repetiu-se apenas poucas horas depois. Talvez não fosse tão claro o diferencial entre as individualidades, mas a verdade é que também os Estados Unidos partiam com a vantagem teórica de serem mais consistentes. Ora, essa foi uma ilusão desfeita logo no primeiro golo. Uma perda em posse – algo normalmente raro, mas que tem sido comum neste Mundial – e uma factura bem cara assinada pelo “Prince” ganês. Nada mais delicado para um jogo a eliminar.

A verdade é que o Gana mostrou também que de consistente nada tem. Não soube jogar com a vantagem no jogo quando teve a bola, nem tão pouco evitar o acelerar do ritmo por parte dos americanos. E este foi o ponto positivo da partida: o ritmo. Os americanos colhem aqui a maior parte do mérito, pela forma como jogaram sempre simples, rápido e objectivo. É claro que deveria ter havido uma resistência mais inteligente, mas todos já vimos neste Mundial situações em que equipas mais fortes conseguiram uma reacção bem menor do que aquela que foi protagonizada pelos americanos. Tanto, que pareciam ser eles – e de novo – os candidatos à qualificação, aquando do prolongamento. Mas a história repetiu-se. Má abordagem defensiva e o preço do talento africano que, dessa vez, foi demasiado para o que os americanos podiam pagar.

Todos sabemos que estas fases se determinam em grande parte pelos erros cometidos, mas se continuarmos a este ritmo, este Mundial poderá ser recordado mais como um festival de oferendas do que como qualquer outra coisa...



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26.6.10

Diário de 'Soccer City' (#15)

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Talvez seja por tanto terem escutado as profecias da desgraça dos velhos do Restelo. Ou, então, talvez seja apenas do fado que nos está no sangue. A verdade é que este empate frente ao Brasil, serve para a maioria como uma vitória. Um alívio. Tanto, que até o próprio seleccionador afirma ter visto a sua equipa jogar de “smoking”. É verdade que o Brasil é uma equipa de potencial superior, e que um empate frente à “canarinha” nunca será um mau resultado. É verdade, também, que o jogo foi dividido e que não estivemos mais longe de o ganhar do que o Brasil. Para mim, porém, custou-me ver o jogo português, especialmente na primeira parte. Venho dizendo que Portugal não pode esperar que o nível dos seus últimos 15 anos se eternize no tempo, e que o mais normal é que voltemos a um patamar mediano, mais tarde ou mais cedo. Ainda não lá chegamos, mas, confesso, frente ao Brasil dei por mim a concluir que já recuamos uns bons degraus em relação a anos anteriores. E falo principalmente da mentalidade.

Começo por clarificar a minha posição. Não há nada de errado em definir como prioridade o equilíbrio táctico ou em adoptar uma estratégia de transição frente a um adversário com o potencial técnico dos brasileiros. Creio, até, que é o caminho mais curto para a vitória. O problema, porém, é que Portugal tem nível suficiente para ser mais ambicioso na qualidade que tenta empregar em cada momento do jogo. Não era preciso ter medo de jogar quando ganhamos a bola, ter medo de trabalhar a posse com critério e qualidade, ou pedir a Ronaldo que tente rematar de 40 metros de cada vez que tivesse oportunidade para tal. Não era preciso, porque Portugal ainda vale bem mais do que isso e porque pode e deve ter mais ambição e exigir mais do seu jogo. O que vi naquela primeira parte foi um “flashback” dos tempos em que éramos Futre e mais dez – para não invocar outros tempos ainda piores – e em que coleccionávamos os cromos dos outros nas grandes competições. Felizmente que as coisas mudaram alguma coisa na segunda parte...

Enfim, não quero ser ingrato e exigir o impossível da Selecção, mas continuo a não encontrar um leque substancial de equipas que nos sejam claramente superiores. Uma ideia que trouxe comigo para o Mundial e que não foi entretanto desfeita. Espero agora que a má fortuna do sorteio – já sabíamos que teríamos de contar com ela – não sirva de desculpa para não sermos ambiciosos. Espero que Portugal seja inteligente e não utópico na forma como escolhe a sua estratégia, e posso facilmente prever que será muito semelhante àquilo que fez frente ao Brasil. Em traços gerais, parece-me bem. O que desejo, porém, é que não regrida demasiado depressa no tempo. Que se valorize e que valorize o seu jogo. Que apresente um futebol confiante e não aquele complexado da primeira parte frente ao Brasil. Se assim for, não tenho duvidas, o favoritismo espanhol depressa deixará de ser uma certeza.



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25.6.10

Diário de 'Soccer City' (#14)

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Seria seguramente um daqueles casos em que o futebol dizia uma coisa e as pessoas adivinhavam outra. Ou seja, apesar de todos termos visto o pior possível da Itália nos primeiros dois jogos, duvido que alguém não estivesse convencido da sua qualificação. Eu estava. Acabou por vingar a lógica do jogo, e numa espécie de embate da mediocridade, foi a Itália quem levou a pior. Levou, e justamente. Tal como os franceses – com quem partilharam a final há 4 anos – o seu futebol não deixará qualquer réstia de saudade ao torneio africano. A lamentar, creio, só mesmo o espectáculo deprimente que é ver talento a ser desperdiçado no mais importante dos palcos. Com isso, enfim, conviverá a bem História, e, como tal, também nós deveremos ser capazes de calmamente o fazer. Vale muito mais a pena continuar a olhar para o que ainda aí vem e, claro, para o que de bom se tem visto.

Holanda – Eslováquia
De repente, com tanto pela frente, a Holanda sobe em flecha no ranking de favoritos. E nada tem a ver com as indicações do seu futebol. Coisas do calendário e da, agora mais clara, caminhada par “Soccer City”. O futebol dos holandês, em boa verdade, pouco ou nada iludiu nos primeiros 3 jogos. Tem talento de sobra do meio campo para a frente e algumas reticências na forma como defende. É, digamos, uma versão “soft” do caso argentino. Não tem os desequilibradores de Maradona – embora falte enquadrar Robben – mas também não tem, nem de perto, a inconsistência defensiva dos argentinos. O caminho foi-lhes aberto e eles têm capacidade mais do que suficiente para o percorrer. Veremos se o farão...

Quanto à Eslováquia, confesso, surpreende-me mais a sua qualificação do que a eliminação da Itália. Isto porque a prestação dos eslovacos havia sido – e recuperando o termo – nada mais do que medíocre. Confunde-me, por exemplo, como é que Miroslav Stoch foi suplente desta equipa, mas foi sobretudo a sua limitação ofensiva nos primeiros dois jogos que me desiludiu. Talvez tenham recuperado alguma capacidade depois do “thriller” com Itália. Assim espero, porque senão os oitavos serão apenas uma formalidade para a “laranja”.

Paraguai – Japão
Um cenário idêntico ao do primeiro jogo dos oitavos, entre Uruguai e Coreia. Os sul americanos recolhem favoritismo e terão mais qualidade individual. Resta saber, porém, se isso chegará, ou se serão os asiáticos a fazer valer a sua capacidade de trabalho e organização. Aqui, porém, a recente performance frente à Dinamarca japonesa acabará por equilibrar a balança do favoritismo. E justamente, parece-me.

Para mim, de facto, o Japão é uma das grandes surpresas – agradáveis, isto é – da primeira fase. Uma equipa que em todos os jogos se apresentou com uma organização defensiva inesperadamente boa e que, ao contrário de outras, não se limita a esperar pelo adversário. Os japoneses não fazem apenas um constrangimento zonal sobre o receptor do primeiro passe, mas também um constrangimento temporal sobre o portador da bola. Ver uma equipa subir progressivamente no campo e obrigar o adversário a recuar é algo que aprecio. Mesmo contra a Holanda, em que acabaram por perder, os japoneses não deixaram jogar e forçaram a posse holandesa, repetidamente, a andar para trás.

O problema do Japão está no que acontece a seguir. Ou seja, na transição defesa-ataque. Raramente a equipa consegue soltar-se ofensivamente e ser uma ameaça em jogo corrido. Frente à Dinamarca, por exemplo, foi preciso usufruir de lances de bola parada para ver a equipa subir colectivamente no campo. Isto, claro, será sempre limitativo, e cada vez mais o será com o andar da prova.

Mas não se pode falar do Japão sem falar de Keisuke Honda, uma das revelações do torneio. Um jogador que andou pela segunda divisão da Holanda e que conheci na primeira metade desta época, quando ainda jogava no modesto Venlo. O seu talento – como médio criativo e não referência ofensiva como joga na Selecção – não passava despercebido, apesar da modéstia do seu clube. Tanto, que o CSKA pagou para cima de uma dezena de milhões pelo seu concurso. É assim nos dias de hoje. Honda pode ser uma revelação do mundial, um nome desconhecido para a maioria, mas já ninguém o apanha por meia dúzia de trocos...



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24.6.10

Diário de 'Soccer City' (#13)

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Jogado o segundo dia de decisões na fase de grupos, estão já definidos 4 jogos dos oitavos de final. Apesar de ser a rodada das decisões, a verdade é que poucos motivos há para olhar muito para os derradeiros embates da fase de grupos. As “fotografias” das equipas já estão recolhidas, e a cada um dos apurados abre-se também a luz sobre o caminho que a espera até à desejada final. É por isso que o interesse recai, nesta altura, muito mais em olhar para a frente do que para trás, e é por isso também que aproveito o momento para deixar algumas notas sobre os emparelhamentos já definidos. Antes, porém, fica a nota: entre Uruguai, Coreia, Estados Unidos e Gana sairá um improvável semi finalista. Este cruzamento apetecível está ao alcance do 1º classificado do grupo G – o de Portugal. Juntando este aliciante, à probabilidade da Espanha ser primeira, fica claro que o Brasil-Portugal pode vir a tornar-se num embate bem mais importante do que à partida possa parecer.

Uruguai – Coreia do Sul
Escrevi sobre o Uruguai no primeiro jogo, e dele não disse boa coisa em relação à qualidade colectiva. Talento não falta no Uruguai, e essa capacidade deverá ser suficiente para merecer o favoritismo. Sem lhe retirar esse crédito, porém, volto a realçar as minhas reservas sobre a organização dos sul americanos. A este aspecto junto um outro, o da mentalidade, para concluir que, apesar de favorito, o Uruguai deve manter os pés bem assentes na terra se não quiser estragar uma oportunidade de ouro que tem para regressar aos grandes palcos de uma fase final do campeonato do mundo.

Estados Unidos – Gana
É-me difícil falar deste jogo, porque o acho realmente fraco. Há bons jogadores em ambos lados e no caso dos Estados Unidos há um pouco mais do que isso também. No entanto, não vejo em nenhum dos conjuntos uma grande qualidade. Apesar de haver mais casos de talento no lado africano, parece-me que a organização e experiência dos americanos justifica o favoritismo. Aliás, poderemos vir a assistir a uma histórica caminhada de um destes conjuntos.

Alemanha – Inglaterra
Ora aí está o prato forte. Um jogo destes vale quase por todos os oitavos de final – embora se adivinhem outros embates titânicos. A Alemanha é, a seguir, à Espanha a selecção que mais me agrada do ponto de vista colectivo. Mas pode não bastar. Ozil e Schweinsteiger são as unidades essenciais deste conjunto e perder alguma delas, creio, será um golpe que dificilmente deixará de abalar seriamente as pretensões germânicas. Do outro lado, temos um caso quase oposto. A Inglaterra tem algumas das unidades mais determinantes do futebol actual, mas em falhado colectivamente. As coisas melhoraram frente à Eslovénia. Rooney reapareceu, Defoe ganhou o lugar e Gerrard voltou a provar que a discussão em torno da sua utilidade à esquerda não é mais do que um dos habituais sofismas de quem procura justificações imediatas para problemas mais complexos. Mais, Milner fez lembrar Beckham a cruzar e terá, também ele ganho um lugar. O colectivo de Capello não é brilhante mas pode estar a ganhar uma forma. Acredito que a História nunca se repete sempre e, não sei porquê, parece-me que pode ser desta vez que a sorte da Inglaterra possa mudar. A ver vamos...

Argentina – México
Pode a Argentina ser campeã?! A pergunta pode parecer tonta para a maioria. Afinal, poucas selecções terão entusiasmado tanto o grande público como a ‘albiceleste’. Para mim, porém, esta Argentina não pode logicamente ganhar o mundial. Não pode, porque não percebe o que são equilíbrios tácticos, porque facilmente se alonga no campo e abre o campo de ataque ao adversário, porque decide mal e arrisca excessivamente em zonas onde não o pode fazer. Para mim, esta Argentina pode cair a qualquer momento e parece-me impensável que esse momento não chegue até ao último apito da prova. Seria um grande contra senso, um grande equívoco, diria mesmo. Mas todos sabemos que no futebol a bola é bem redonda, e poucos a tratarão tão bem quanto os argentinos. É por tudo isto que a dúvida permanece viva: será possível?!



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22.6.10

Diário de 'Soccer City' (#12)

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Da tormenta à euforia, que não há tempo para perder em boas esperanças. Será assim que a maioria dos até aqui pessimistas encararão esta viragem do cabo da Selecção. Uma analogia óbvia, dada a simbologia do local, mas que faz também todo o sentido em relação ao estado de ânimo dos adeptos. A volatilidade emotiva do costume, portanto. Pessoalmente, não estou particularmente entusiasmado com o que se passou frente à Coreia. Agradado com o desfecho, é certo, mas não crente que este jogo tenha mostrado algo de significativamente diferente em termos qualitativos. Será tão errado alicerçar esperanças neste resultado, como o exagerado catastrofismo que assistimos até aqui. Como quase sempre, é algures no meio que está a virtude.

Confesso a minha surpresa com o que se assistiu desde o primeiro minuto. Esperava uma Coreia conservadora, “afundada” no campo e de risco mínimo. Algo se terá passado com o ego dos Coreanos que, tal como o resto do mundo, terão valorizado excessivamente o surpreendente placar tangencial frente ao Brasil. Só assim se explica o que se viu. A verdade é os Coreanos (como os neozelandeses, por exemplo) não são deste nível e só podem sobreviver com algum êxito se juntadas 2 condições. A primeira é a humildade própria. A segunda é a incompetência colectiva do adversário. Ora, os coreanos perderam a primeira e com isso foram incapazes de testar, sequer, a segunda condição. Confesso que para meu contentamento, diga-se.

A primeira parte de Portugal foi má. Não há outra palavra. Com os Coreanos estendidos no campo, a Portugal nem era preciso ser particularmente forte no pressing, como ontem acreditava. Bastava organização, claro, e dar prioridade ao critério na posse. Critério que levasse Portugal a chegar de forma apoiada e segura ao último terço e, aí sim, arriscar as roturas decisivas. Assim, Portugal poderia aproveitar as debilidades defensivas dos Coreanos no seu último reduto e, não menos importante, estar bem preparado para eventuais transições ataque-defesa. Seria um jogo de domínio total.

O que Portugal fez, porém, foi dar prioridade à velocidade sobre o critério. Decidiu mal e foi ainda traído pelas condições em que o jogo se disputou, acumulando erros técnicos invulgares em alguns jogadores. Com isto, Portugal permitiu um jogo de transições, onde os Coreanos conseguiam tirar partido da forma estendida como se apresentaram. Um desperdício, acredito eu, porque como o jogo estava parece-me que em vez de 1, Portugal poderia ter ido facilmente para o intervalo com mais 2 ou 3 golos na bagagem.

A verdade é que – e pensando bem – talvez até tenha sido bom o que se passou na primeira parte. Os remates dos coreanos e a sua desvantagem apenas tangencial terá reforçado a crença coreana na sua própria capacidade. Uma ilusão que se transformou um verdadeiro “kamikaze” táctico. Portugal, porque é uma selecção ao nível das melhores em termos de potencial individual, facilmente colheu os frutos e terá praticamente garantido um apuramento que se adivinhava complicado. Isto, claro, a acreditar que os coreanos tenham aprendido a lição do que se passou, porque se voltarem a repetir a “graça”, não é de excluir a hipótese de novo “capote” frente aos marfinenses. Esperemos que recuperem o juízo...

Chile e Suíça
Suíça e Chile era um embate curioso e interessante por juntar as 2 selecções secundárias (permitam-me a expressão) que mais competência apresentam, mas também por o conseguirem ser em filosofias radicalmente diferentes.

Os chilenos apelam à sua filosofia do gosto pela posse e pela bola. Procuram recuperá-la rapidamente e depois circular com velocidade. Procuram o domínio, para além do controlo. Tudo isto faz sentido pela qualidade técnica acima da média dos seus intérpretes, mas pessoalmente tenho de levantar algumas reticências em relação à sua capacidade de se impor perante adversários tecnicamente mais fortes. Como no futebol só há uma bola, não basta ao Chile ser forte com ela, é preciso também ser forte quando não a tem, e tenho dúvidas se o será. Depois, há ainda a consistência na zona decisiva. Jogar com uma equipa tão baixa e com centrais adaptados não me parece nada bom indício. Dúvidas que não poderiam ter melhor teste do que o adversário que se segue: a Espanha.

A Suíça, por seu lado, repetiu a estratégia frente à Espanha e, pode dizer-se, estava a resultar bem até à expulsão. Os suíços não tiveram mais bola, nem criaram grande coisa, é certo, mas também não era a isso que se propunham até aquela altura. A zona suíça consegue ser curta e alta como mais nenhuma o foi neste mundial. Não é perfeita, e comete até vários erros, mas a nível de selecções é difícil alguém fazer melhor. Isto, enquanto tiveram 11 jogadores, porque depois a Suíça reduziu aquilo que era uma zona defensiva a uma simples linha defensiva. Ao contrário do que acontecera na primeira parte, onde mantivera os chilenos a dezenas de metros da sua baliza, na segunda parte a Suíça acabou por “encostar” e, assim, não evitar o sufoco chileno. Não digo que façam tanto – seria preciso um novo e improvável alinhamento de estrelas – mas esta Suíça, se passar, tem capacidade para dar umas dores de cabeça ao bom estilo grego de 2004.

Acabou por ganhar o Chile, mas por uma margem curta para aquilo que produziu depois da expulsão. Um desperdício que, aliás, repetiu depois do embate com os hondurenhos e que lhe retira qualquer favoritismo à qualificação, apesar da liderança destacada que possuí. Enfim, será um final interessante de seguir num grupo onde só as Honduras destoam em termos de qualidade.



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21.6.10

Diário de 'Soccer City' (#11)

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Mais um dia com motivos de sobra para reflectir. O “climax”, claro, teve lugar em Joanesburgo no jogo que culminou numa pequena prenda dos brasileiros para a Selecção portuguesa. No entanto, creio, não menos interessante é olhar para o que aconteceu algumas horas antes, entre Itália e Nova Zelândia. Será difícil alguém ainda se surpreender com o que quer que seja nesta prova, mas será interessante entender o porquê de tantos problemas dos campeões do mundo para bater uma formação tão fraca como os “All Whites”. Nem que seja porque deve servir de exemplo para o que Portugal terá pela frente, é por aí que quero começar.

Se ninguém duvida das diferenças de qualidade entre os jogadores de uns e outros, como se pode então explicar as dificuldades por que passaram os italianos? Bom, seguramente que há vários aspectos a abordar, mas há um que me parece especialmente importante para o sucesso neste tipo de embates: o pressing. Pode parecer estranho escolher concentrar-me no que a equipa faz sem bola, quando não pode haver tipo de jogo mais fácil para se ter a bola. O que acontece, porém, é que perante adversários dispostos a esperar lá atrás, o mero facto de se atacar apenas em organização já é uma importante vitória para quem defende. O caso da Nova Zelândia, aliás, é paradigmático. Uma equipa que defende mal, cometendo vários erros de abordagem individual e colectiva, e que ainda para mais nem tem uma estratégia especialmente conseguida em termos defensivos, “afundando-se” quase que instantaneamente na sua grande área. Ainda assim, atacar sempre contra tanta gente atrás da bola pode ser um sarilho.

É por isso que neste tipo de embates é fundamental forçar outro tipo de jogo e criar desconforto no adversário. Adiantar linhas e pressionar toda e qualquer saída de bola. Afinal, se a diferença está na qualidade técnica, é bom que seja por aí mesmo que se acentue as diferenças. Se o pressing for bem conseguido – como tem a obrigação de ser - provocará um dilema permanente do lado contrário. Ou arriscar pouco, jogando mal e entregando a bola, ou tentar fazê-lo em apoio mas assumindo o risco de uma perda comprometedora. Em qualquer dos casos, o perigo do erro estará sempre presente e o sufoco acontecerá desde o primeiro minuto. Isto foi (entre outras coisas, é certo) o que a Itália não fez frente à Nova Zelândia, e o que Portugal tem de fazer desde a primeira hora frente aos Coreanos. Mesmo que isso implique algum risco posicional. Isto é, também, o que as melhores equipas do mundo fazem perante os adversários mais modestos. Porque esperar para atacar, hoje, já pode não bastar.

Finalmente, o Brasil - Costa do Marfim. Sem surpresas, a Costa do Marfim voltou a repetir a receita e, sem surpresas também, o Brasil sentiu dificuldades idênticas a Portugal até o jogo se abrir. A diferença, é claro, esteve no detalhe e na qualidade com que individualmente os brasileiros se desembaraçaram do problema.

Acho curiosa a forma como Dunga “desenrascou” o seu modelo táctico. Quase que diria que ao não conseguir optimizar a equipa como um só bloco, resolveu decompo-la em 2. Definiu 6 jogadores defensivos e libertou 4 para o ataque. Quando dá para fazer tudo em conjunto, muito bem, mas quando não dá é preferível que a equipa se parta desta forma, do que arrisque tentar fazer tudo num só conjunto. Por um lado, os 6 de trás são suficientes para garantir equilíbrio defensivo em qualquer situação. Por outro, os 4 da frente têm talento de sobra para resolver um jogo em qualquer jogada, sobretudo se for em transição, que é como a equipa mais gosta de jogar. Em termos tácticos, não há nada de brilhante nisto, e só é possível ter sucesso com a qualidade dos recursos em causa e, já agora, com a natureza da própria competição. A verdade, tudo somado, é que não vejo equipa que possa estar tão perto da Espanha na lista de favoritos.

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19.6.10

Diário de 'Soccer City' (#10)

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E o Mundial que não pára de surpreender! Depois da Espanha, depois da França, e no mesmo dia, Alemanha e Inglaterra dão passos atrás numa qualificação que à partida parecia adquirida. Dois casos distintos, é certo, mas em qualquer dos cenários estamos perante candidatos reais a disputar a fase terminal da competição. De qualquer forma, não deixa de ser interessante equacionar o que poderá ser desta competição se todos estes "pesos pesados" fossem já eliminados...

Difícil dizer quem está em piores condições, mas no que respeita ao futebol propriamente dito, parece-me evidente ser menos preocupante o caso alemão. A derrota foi altamente condicionada por uma série de factores e dá até para dizer que a Alemanha teve uma boa reacção a todas as adversidades. Apesar disso de nada lhe ter valido. De novo em destaque a boa movimentação com bola e a segurança da posse. De novo, também, a importância de 2 elementos centrais no jogo da equipa. Schweinsteiger e Ozil. O primeiro claramente como “pivot” de todo o jogo da equipa, oferecendo permanentes apoios à posse e jogando sempre seguro. Importante – muito importante! – também o seu papel na transição ataque-defesa. O segundo, Ozil, é de facto a fonte de criatividade e imprevisibilidade do jogo alemão. Não apenas pelo que faz com bola, mas pela movimentação que assume ao longo dos espaços. Não espanta que sem ele em campo a Alemanha não tenha marcado um único golo nos 2 jogos e, aliás, parece-me que as suas substituições coincidem com uma quebra na produtividade ofensiva da equipa.

Mas se a Alemanha perdeu, perdeu também porque jogou frente a uma das mais homogéneas selecções do torneio. Em termos individuais, isto é. Não consigo dar grande mérito colectivo à Sérvia. Pressionou alto, mas normalmente mal e com bola pouco mais fez do que recorrer a Zigic como plano concreto para chegar à frente. O que acontece é que a densidade da equipa na linha média e sua qualidade individual fazem da Sérvia uma equipa, primeiro difícil de bater pela capacidade de sofrimento que tem no último terço e, depois, capaz de criar desequilíbrios através das boas individualidades que tem em todos os sectores.

Finalmente, a Inglaterra. Uma desilusão a sua qualidade. Demasiados erros individuais, exibições desinspiradas e colectivamente um futebol pouco ligado, com muito espaço entre jogadores e sectores, que impede uma fluidez mais constante. Há ainda, para além de tudo isto, alguns aspectos tácticos que julgo merecer revisão. A ideia de Gerrard partir da esquerda não é má. É, aliás, na movimentação interior do 4 inglês que reside a maior fonte de desequilíbrios da equipa. Aí e no pressing que Capello fez questão em implementar à sua equipa. Mas, depois, há alguma distância entre sectores, com a equipa a preferir baixar a sua linha recuada a mantê-la alta para aproximar o conjunto. Não se vê a razão de ter de actuar com 2 avançados quando, claramente, Heskey não tem andamento para os objectivos que estão propostos ao colectivo. Mais, parece muito mais útil um modelo com um avançado e que potencie os movimentos de Lampard e Gerrard na zona de finalização do que este, que distancia sectores e não tira qualquer partido das duas unidades da frente.

Dizia-me alguém que com Capello eles vão fazer um mundial “the italian way”. Não convencer no inicio, sofrer, e depois embalar para uma prestação em crescendo. Bom, as duas primeiras partes deste “plano” estão confirmadas...



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17.6.10

Diário de 'Soccer City' (#9)

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Chocante! Não pelo resultado, porque se um dia antes havíamos visto a Espanha cair perante a Suíça, não poderia ser agora a derrota de uma França moribunda a fazer-nos abrir a boca de espanto. O que realmente choca é a forma como tudo aconteceu. Os méritos do México, ninguém os tira, e já irei a eles, mas o que se viu do lado francês superou todas as marcas. A substituição de Anelka ao intervalo, a exibição em perda progressiva, a ausência de Henry e Gourcuff e, sobretudo, a enorme passividade de todos perante um cenário de tamanho descalabro. Não vou mais além do que isto, porque seria entrar num campo meramente especulativo, mas diria que há algo de muito estranho por trás desta tremenda hecatombe gaulesa.

Tacticamente, diria que a exibição francesa prova, de novo, como o futebol vai muito para além de sistemas e opções individuais. Não houve nada de errado com o 4-2-3-1 de Domenech, e as suas escolhas, embora discutíveis, não chegam, nem um pouco, para explicar a pobreza a que se assistiu. O que faltou – e de novo – à França foi qualidade em tudo aquilo que tentou fazer. Com bola, jogava no improviso individual e não tinha, nem qualidade de movimentos, nem sequer um plano para chegar ao seu destino. Sem bola, tentou pressionar alto, mas não conseguia parar o primeiro passe. Abriu um espaço entre linhas gritante e nem sequer a sua linha mais recuada se salvou minimamente, mantendo um espaço enorme entre os seus elementos e falhando frequentemente no aproveitamento do fora do jogo. É para mim um tremendo enigma como uma equipa – com tanto potencial – se pode apresentar desta forma depois de 1 mês de preparação...

Mais interessante, e seguramente mais animador, é falar do México. Defensivamente é uma equipa que não merece grandes elogios. Não tão má quanto o Uruguai frente aos mesmos gauleses, mas mesmo assim sem uma grande qualidade naquilo que fez sem bola. Mais, o México foi até mais inocente na forma como consentiu algumas perdas de bola que resultaram em transições de perigo potencial (raramente concretizado, diga-se).

Outra coisa é falar da grande nuance táctica do jogo: a forma como o México estrategicamente preparou as suas ofensivas. Em vez de utilizar Franco como unidade mais avançada, e Vela e Giovani nas alas, Aguirre optou por baixar o ponta de lança e torná-lo num “pivot” para todas as situações ofensivas. Quer em construção, quer em transição. E funcionou em pleno porque, primeiro, a França abriu um espaço gigantesco entre a linha defensiva e o primeiro médio e, depois, porque Domenech devia estar a pensar na sua longa viagem de regresso e não foi capaz de corrigir uma situação tão flagrante e repetido ao longo do jogo. Com isto, não só a França passou por dissabores para controlar os movimentos diagonais de Vela e Giovani nas costas do “pivot”, como ficou impedida de se manter alta no campo e pressionar. Sempre que a bola entrava em Franco, era ver os franceses correr para trás, tentando remendar algo que normalmente devia ser prevenido.

O debate sobre a paupérrima selecção gaulesa – em termos relativos, a pior do Mundial – deverá ficar por aqui, e aproveito o último parágrafo para um pequeno apontamento sobre um tema paralelo nesta competição: as transmissões televisivas. Por estar ausente de Portugal, tenho acompanhado as transmissões noutros canais, entre os quais a BBC. É a esta estação britânica que quero prestar a minha homenagem. A ausência de anúncios é aproveitada de uma forma fantástica para os espectadores. Ao intervalo, por exemplo, figuras como Seedorf ou Shearer estão a fazer a sua análise do jogo, umas escassas de dezenas de segundos após o apito do árbitro. O mais interessante, porém, é o facto de o poderem fazer já com o apoio de imagens recolhidas e tratadas sobre um jogo que apenas acabara de terminar. É caso para dizer que na BBC cada jogo vale bem mais do que os 90 minutos.



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Diário de 'Soccer City' (#8)

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Ontem tinha deixado a opinião de que defrontar uma estratégia como aquela que a Costa do Marfim montou frente a Portugal seria um bico de obra para qualquer formação Mundial. Ora, nem de propósito, 24 horas depois tivemos um bom exemplo disso mesmo. Não que o jogo da selecção espanhola fosse idêntico ou, mais importante ainda, que se possa comparar a qualidade dos espanhóis com aquela que a selecção portuguesa apresenta na actualidade. As semelhanças estão, isso sim, naquilo que fizeram Suíça e Costa do Marfim, na sua proposta de jogo e numa abordagem que parece ter pegado moda neste Mundial. É disso que me parece mais interessante falar.

A ideia, em si mesmo, não é muito complicada de entender. Abdicar do pressing alto, baixar os avançados para trás do meio campo e subir a linha mais atrasada um bom par de metros acima da grande área. Assim, se cria a zona densa onde é difícil entrar sem ser de imediato apertado, onde se proporcionarão recuperações capazes de iniciar transições que tirem partido do espaço. Assim, e sempre dentro dessa zona, é possível ter uma presença pressionante a toda a largura do terreno.

Entre um caso e outro, são evidentes as diferenças do jogo português para o espanhol. Os portugueses, simplesmente procuravam um primeiro passe vertical, mas raramente dele conseguiam passar. Ou o receptor era de imediato apertado, ou a linha de passe seguinte não surgia a tempo de evitar o sufoco marfinense. No caso espanhol, a bola circulou com muito mais velocidade, com sucessivos apoios a serem criados e com uma velocidade de circulação que impedia que os defensores conseguissem estar permanente em cima do receptor.

A diferença passa, obviamente, pela qualidade individual, mas não só. Um dos requisitos para que se tenha uma boa circulação é conseguir criar também zonas de densidade ofensiva. Ora, isto parece contrariar o principio do “campo grande” que vem nos livros. Parece, e contraria mesmo, porque “campo grande” só tem utilidade quando a defesa é arrastada, porque quando a defesa define ela própria a zona em que quer actuar não serve de muito o “campo grande”. Talvez aqui resida uma primeira boa reflexão teórica, mas há mais...

Mas o que fez então de errado a Espanha? Não foi seguramente a qualidade de circulação. O que me parece não ter sido conseguido pelos espanhóis foi a capacidade de fazer “esticar” a zona suíça. Ou seja, obrigar a sua linha mais recuada a entrar dentro da área. Para isso, creio, o melhor caminho residiria em ter alguma profundidade nos flancos. Calma! Não convém confundir esta ideia com o eterno sofisma da necessidade de ter extremos a tentar permanentemente ganhar a linha para cruzar. Isso seria um “bónus” para a robusta defesa suíça.

Passo então a explicar... Para fazer a linha defensiva baixar e abrir espaços interiores, o melhor caminho é de facto pelas alas. É nos corredores que há menos congestionamento e nenhuma defesa se prepara especificamente para evitar a profundidade nos flancos, mas apenas para a controlar. Ora, se a bola passar a longitude da grande área, toda a defesa terá de recuar, abrindo espaços interiores. Se esta vier de novo para trás, ela terá de reajustar e de novo subir. É neste “vai e vem” que se criam as oportunidades de penetração para quem ataca. O exemplo disso está na jogada que terminou com a ocasião de Piqué, a melhor do primeiro tempo. O problema dos espanhóis, portanto, terá sido a falta de profundidade nos flancos na primeira parte, com a bola a circular, e bem, lateralmente, mas sem obrigar os suíços a “esticar” a sua zona. E assim praticamente voaram 45 minutos.

Uma nota final, porém. Desengane-se quem tirar muitas conclusões destes primeiros jogos. Ninguém ganhou, nem perdeu nada, e ninguém está significativamente mais perto nem mais longe de o fazer.



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15.6.10

Diário de 'Soccer City' (#7)

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Não foram precisos muitos minutos para perceber o que seria do jogo. A Costa do Marfim, grande esperança africana no Mundial daquele Continente, resolveu jogar “à europeia”. E fez bem. A partir do momento em que a estratégia “gélida” dos marfinenses entrou em campo, seria sempre o primeiro golo o ditador do jogo. Pode dizer-se que Eriksson fez emergir o pior do jogo da Selecção, o maior dos seus receios. Portugal, perante este cenário, não foi nem melhor nem pior do que as expectativas que já se poderiam ter. Uma pena. Duas coisas me parecem mais claras, depois dos 90 minutos: (1) Está tudo em aberto ; (2) Prevê-se um grupo muito difícil para todos.

Baixar a primeira a linha e subir a última, para assim criar uma zona de grande densidade, onde Portugal tivesse pouco espaço para jogar. Duas coisas seriam preciso para que Portugal contornasse o obstáculo. Ou pelo menos uma delas. Uma, seria ser capaz de ter uma posse dinâmica e segura, que evitasse as perigosíssimas perdas em construção e que fosse capaz de, lentamente, ir esburacando o “muro” marfinense. Mas esse era o principal problema da Selecção: jogar contra equipas fechadas, que dessem pouco espaço para a explosão. Sempre foi, e não foi – para novo desapontamento – neste jogo que ele deu sinais de desaparecer.

A segunda possibilidade passava por explorar o outro lado do jogo, aquele que começou a ter lugar com mais frequência após a metade da primeira parte. Porque os marfinenses também jogaram, também eles assumiram boa parte do jogo. Restava a Portugal ser capaz de fazer a Costa do Marfim de provar do seu próprio veneno. Ser capaz de pressionar, provocar perdas nos primeiros passes da construção e sair depois em transição. No fundo, ser capaz de jogar com o espaço quando ele existiu. Mas também não foi capaz de o fazer, e é por isso que o nulo, bem vistas as coisas não foi assim tão mau. Portugal não fez por merecer mais e não fica propriamente em pior condição do que quando entrou para o jogo.

Convém situar as coisas. Portugal não fez um grande jogo, e mesmo tendo-se deparado com o seu grande problema colectivo, creio que há exibições individuais às quais se exige mais. Mais qualidade e mais simplicidade, sobretudo. No entanto, a Costa do Marfim que tivemos pela frente será tão forte quanto a maioria dos adversários que poderemos encontrar. O problema de muitas Selecções, especialmente fora da Europa, é não terem um nível de organização que lhes possibilite potenciar melhor as suas hipóteses em cada jogo. Porque o nível técnico, esse, está ao nível dos melhores. E esse vinha sendo o problema, por exemplo, da Costa do Marfim. O facto é que dentro desta proposta de jogo, qualquer Selecção encontraria e encontrará grandes problemas. Isto faz, na minha opinião da Costa do Marfim um candidato para levar a sério, assim consiga chegar aos oitavos.

Enfim, um boa notícia, para já, é que o segundo jogo de Portugal se joga uma noite depois do Brasil-Costa do Marfim. Dará para perceber a importância real do jogo com a Coreia. Por exemplo, se tivermos um empate na noite de Joanesburgo, Portugal saberá que precisará de vencer os Coreanos por 2 golos para entrar em vantagem no último jogo. Para já, o que parece claro é que teremos um apuramento disputado até à última e que, depois da magra vitória canarinha frente aos coreanos, ninguém sai a rir da primeira jornada deste verdadeiro “grupo da morte”.

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